O Álvaro diz que Portugal está melhor

Álvaro Santos Pereira, Álvaro para os inimigos, o inventor do pastel de nata franchisado e o criador do gestor de carreira para desempregados, o Álvaro-emigrante-com-orgulho, apareceu agora a dizer que Portugal está “em condições muito melhores” do que quando o Governo tomou posse.

Ciente da minha profunda ignorância sobre as cerimónias religiosas que o Álvaro praticará no altar dos mercados e ignorando que fumos inebriantes inalará durante os sacrifícios humanos em que participa, ficarei sempre espantado com esta ideia, decerto miraculosa, com certeza salvífica, evidentemente estúpida, de que é possível um país melhorar à medida que a vida dos cidadãos piora, porque, de acordo com alguma ciência oculta, parece não haver nenhuma relação entre um país e os seus habitantes. Deve ser possível, porque o Álvaro até é professor de Economia e, portanto, deve perceber imenso acerca de dinheiro e de pastéis de nata e era o que faltava que o Álvaro, coitado, se pusesse a falar de pessoas.

O governo como agitador social

Todos os que não puderam fugir às várias contribuições, como é o caso dos funcionários públicos, estão, agora, a ser castigados, o que é justo, porque dos mansos será o reino dos céus.

Assim, depois de anos a contribuir para a construção de hospitais, escolas e estradas, depois de, por várias vezes, terem sido aumentados abaixo do valor da inflação, depois dos cortes salariais, depois de um corte no subsídio de Natal deste ano, depois de ficar dois anos (na menos pior das hipóteses) sem dois subsídios (ou seja, com mais um corte salarial), os mansos sabem hoje que todos os seus contributos foram desbaratados por corruptos e incompetentes e assistem ao triste espectáculo de um Primeiro-ministro que se limita a receber ordens de uma dupla chauvinista sem sequer tentar negociar a defesa das condições de vida dos portugueses.

Como se isso não bastasse, não há preço que não aumente, incluindo, por exemplo, o das taxas moderadoras, o que constitui, na realidade, uma sobrecarga contributiva para todos os mansos que andaram anos a descontar para um sistema de saúde que, por isso mesmo, nunca seria gratuito.

Para que o quadro fique completo, os mesmos mansos têm sido considerados uns privilegiados que têm vivido acima das suas possibilidades, responsabilizados pela dívida, confundidos com as gorduras que, afinal, ninguém corta, e têm sido aconselhados a ficarem calados, a não fazerem ondas, em nome de um desígnio que poderá ser financeiro, mas não é nacional.

É bom que se perceba, então, donde parte a agitação social. Falta saber aonde chegará.

Depois das especiarias, a bofetada e o lançamento do sapato

Ministro da Agricultura da Índia leva bofetada

 Um homem deu uma bofetada no rosto do ministro indiano da Agricultura. O objectivo era alertar o governante para a escalada do preço dos alimentos. Não houve ferimentos graves.

[…]

Incidentes deste género têm-se sucedido na Índia, com governantes a serem alvo de sapatos atirados, e os seus gabinetes a serem pilhados

Em primeiro lugar, é sempre importante confirmar que a bofetada é no rosto. Os especialistas consideram que a bofetada como meio de alertar os políticos para qualquer espécie de escalada pode ser perigoso: à razão de uma bofetada por corte salarial e aumento de impostos, Passos Coelho e Vítor Gaspar estariam, neste momento, irreconhecíveis.

O arremesso do sapato, desde o ataque a Bush, pode, até, vir a tornar-se modalidade olímpica. A associação dos industriais do calçado vê na agressão aos políticos uma oportunidade de negócio e antecipa a hipótese de passar a vender trios de sapatos em vez de pares, para que os atiradores não fiquem descalços após o arremesso. Os EUA, entretanto, defendem a entrada de inspectores da ONU no Irão, alegando a existência de sapatarias clandestinas.

Uma conspiração contra os trabalhadores?

O título é uma pergunta, apenas porque confesso que tenho um bocado de vergonha de, por vezes, dar por mim a acreditar em teorias da conspiração. Também não me sinto muito confortável com frases que parecem chavões retirados dos discursos da chamada esquerda monolítica.

O problema é a realidade, essa coisa que, tantas vezes, dá sentido à linguagem.

Como teoria da conspiração, não é difícil ver o PS como o partido que abriu caminho a tudo aquilo que se está a passar agora. Entre muitos outros factos que poderia escolher, basta lembrar o entusiasmo com que Manuel Pinho, o senhor dos corninhos, publicitou os baixos salários portugueses como sendo aliciante para o investimento chinês em Portugal. Entretanto, entre PECs, aumentos de impostos, reduções salariais e outras vitualhas, os trabalhadores portugueses ficaram com um poder de compra tão reduzido como o será o poder de venda de lojas e restaurantes que irão fechar. [Read more…]

Ou há moralidade ou comem tolos

Ministro recebe subsídio apesar de passar a semana em casa própria na capital

Já uma vez, a propósito dos professores, escrevi isto, que, com certeza, pode ser aplicado a muitas outras profissões, embora cada um se deva queixar do que conhece, que para falar sobre o que não se sabe já há muita gente entre os jornais e os blogues.

Um ministro é, tal como qualquer funcionário público, um servidor do Estado, mas a verdade é que o primeiro é filho e o segundo não chega a ser sequer enteado. Um professor obrigado a viver, mesmo que temporariamente, longe da sua residência, por razões profissionais, paga do seu bolso tudo, desde a gasolina até ao arrendamento de uma segunda casa. O ministro, que, mesmo não sendo milionário, ganha mais do que um professor, tem direito a um subsídio de 1400 euros, quantia superior ao ordenado de muitos professores e outros funcionários públicos.

É claro que tudo é feito dentro da legalidade, até porque os interessados dominam, também, o poder legislativo. Esta gente tão lesta a esmiuçar a fortuna que recebemos mensalmente é sempre lenta a desfazer-se de privilégios, usando a lei para cometer imoralidades e comer os tolos, ou seja, os cidadãos. É claro que irão dizer que a supressão de subsídios destes não teria efeito prático no combate ao défice, mas eu pensava – vejam lá – que cada tostão conta. Para além disso, há, ainda, outro problema: quantos casos semelhantes, entre ministérios, autarquias e regiões autónomas haverá que não conhecemos?

Adeus subsídio de Natal

Citando o Correio da Manhã, a Antena 1 noticiou na edição das 7h00 que o governo pondera não pagar o subsídio de Natal, convertendo-o em títulos do tesouro. A realizar-se, isto resultará num aumento de impostos de 8.3%. E que os descontos para a ADSE passarão a incidir sobre 14 meses em vez de sobre 12, assim abrangendo o subsídio de Natal e de férias. Mais um imposto a somar aos 8.3% anterior.

Depois de ter posto preto no branco que o “Governo fará tudo o que for necessário para garantir a meta do défice”, é mais do que claro que tudo fará o que o FMI faria mas, claro, sem que isso nos traga melhores juros para renovar os inúmeros empréstimos que o Estado contraiu sobretudo na última década.

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Cavaco prefere ser reformado a ser Presidente da República

Se um vencimento corresponde à justa remuneração por um trabalho, será justo alguém prescindir do seu vencimento? Cavaco fá-lo e pretenderá ter um gesto pedagógico e generoso para com um País cuja economia está deprimida. No entanto, não posso deixar de me perguntar: não foi alguém parecido com Cavaco que, há pouco tempo, criticou os cortes dos salários na Função Pública? Pergunto ainda mais: não será o Presidente da República uma espécie de funcionário público, o topo mesmo da Função Pública? Se admitirmos que sim, não estará Cavaco a cometer uma injustiça relativamente a Silva?

Entretanto, a partir do início deste ano, já não será possível acumular pensões com vencimentos de Estado. Cavaco Silva não é, portanto, abrangido por essa obrigação, uma vez que a lei nem sempre pode ter efeitos retroactivos. Mas, e se um homem sério, preocupado em dar um exemplo à classe política, resolvesse, mesmo sem ser obrigado, prescindir das pensões, enquanto receber um vencimento, antecipando o cumprimento de uma norma que contribuiu para aprovar? Era bonito, não era?

Adenda: Graças ao comentário pertinente e informado do leitor Marco Gomes, sou obrigado a corrigir o tiro. Na realidade, a nova lei obrigou Cavaco Silva a escolher: pensões ou vencimento. Optou pela fatia maior: as pensões. Afinal, não foi uma questão de generosidade.

Paga aí, que eu não trouxe a carteira – o Estado e os funcionários públicos

Versão portuguesa de “Robin dos Bosques”, com Cavaco Silva no papel de Príncipe João e José Sócrates no de Xerife de Nottingham.

Robin dos Bosques é um dos meus heróis de sempre, o mito que me fez odiar não ter nascido na Idade Média, onde poderia enlaçar Lady Marian, ao mesmo tempo que, com a mão livre, enfiaria setas certeiras no bucho dos poderosos que desfavoreciam constantemente os desfavorecidos.

Uma das imagens marcantes desse mundo mítico-cine-televisivo consistia na alarvidade com que os esbirros do Xerife de Nottingham arrombavam as casas humílimas dos pobres agricultores ingleses para lhes extorquir o último grão de trigo e restantes fazendas de que sobreviviam. Os ditos esbirros juntavam à aleivosia praticada o argumento arbitrário de que o Príncipe João precisava de dinheiro, o que deixava a minha firme ética infantil revoltada, numa ingenuidade que me levava a acreditar que cenas dessas não seriam possíveis nos dias de hoje. [Read more…]

Cortes, mas só para alguns

cortes salariais

E o urso sou eu?!

Mais uma

Mas confirmou essa informação?
O que eu sei é que, pelo país todo, há carros do Estado a irem buscar assessores a casa. Porque se vão cinco para o Cartaxo, também vão para Vila Franca, para Santarém… Tenho um amigo que é de um partido e ele sabe quem são esses assessores. São cinco só no Cartaxo. Está confirmado. Será que o Estado precisa de ter perto de 30 mil viaturas? Será que o Estado precisa de ter perto de 11 mil institutos? Será que o Estado precisa de recorrer tanto a pareceres externos? Eu não me candidato para que tudo fique na mesma. [na entrevista de Fernando Nobre ao i]

Sobre estes casos não posso atestar a veracidade. Apesar de não me surpreenderem. Pois sei que nem é preciso ser-se assessor para se ter direito a BMW com motorista. Sei porque conheço quem. Basta estar na linha certa das estrelas partidárias certas.

E nomes?

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cortes selectivos

IC-19-Tales #34 Ajudar quem precisa

IC-19-Tales #34 Ajudar quem precisa

A notícia: Carlos César acusa Cavaco Silva de “dividir os portugueses

I-See-19 Tales #33 –Cortes salariais

IC-19-Tales #33 As excepções

FMI, Governo e PSD, Júdice… está tudo grosso!

 

O FMI, finalmente, fez a descoberta do século: “o fosso entre ricos e pobres esteve na origem da crise”. Que espanto! Como deve ter sido difícil chegar a tal conclusão. Excede, de longe, o mérito de Einstein e de outros fundadores da Física Quântica.

Governo e PSD, no âmbito do acordo orçamental, aprovaram legislação que, no caso do sector empresarial do Estado, deixa ao critério dos respectivos gestores a aplicação ou não de cortes salariais que, todavia, na FP são imperativos. Rui Rio, presidente da C.M.Porto, rebelou-se com inteira razão. Para o Governo já sabíamos que era assim, mas para a alternativa ‘laranja’ também há portugueses de 1.ª e 2ª. – ver aqui no Aventar, a propósito da CGD.

A terminar, o acrobata José Miguel Júdice, da comissão de honra da recandidatura de Cavaco – pasme-se! – acusa o atual Presidente da República de destruição do PSD de Sá Carneiro, do aumento do peso do Estado e ter sido um governante autoritário. Bolas! Com apoiantes destes, para quê adversários?

Parei aqui o  périplo pelas notícias – já estava a ficar doido. Decidi repescar um vídeo antigo,  um “sketch” da saudosa Ivone Silva e de Camilo de Oliveira. É que está mesmo tudo grosso!