Postcards from the Balkans #17

To sam ja (this is I)* ou tudo está ligado

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Este é o último postal desta viagem. Não vale a pena falar da nostalgia que sinto já. Já o disse ontem. De acabar esta viagem onde aprendi, como sempre, tantas coisas, mas sobretudo continuei a aprendizagem do que sou. E o que sou é isto. Esta mulher que aprende sempre, que nunca deixará de o fazer. Esta pessoa que caminha pelas ruas em cidades estranhas – algumas onde seguramente nunca mais voltará – e se sente também ela estranha. Isto sou eu. «To sam ja». «This is I». E isto que sou é tantas coisas que, mesmo que quisesse, jamais saberia por onde começar. Isto sou eu. Esta pessoa que perde e ganha oportunidades. Esta pessoa que vê tudo muito bem e escreve postais para si mesma, para a lembrança amanhã, para a memória que há-de vir nos dias longos do futuro. [Read more…]

Postcards from the Balkans #16

A chuva em Zagreb, como se fosse outono. Tavez seja outono. Há um gato preto à entrada da Galeria de Arte Moderna. Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto…

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Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto. Reparar nos gatos. Neste gato preto à entrada da Galeria de Arte Moderna, alheio a quem passa, naquela posição tão tipíca dos gatos, aquela que todos sabemos desenhar desde pequenos. Um gato de costas. Coisa tão simples. Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto, repito plagiando mais ou menos o mais simples dos heterónimos de Pessoa. Embora ele não falasse de gatos. Mas falo eu. Quem me dera que minha vida fosse apenas isto… reparar nos gatos em museus, nas cidades alheias, com se fosse próprio dos gatos estarem sossegados nos museus e de mim reparar neles. Para existir deve ser preciso pouco mais, estou segura. [Read more…]

Postcards from the Balkans #15

Das cores de Zagreb, dos homens bonitos de pedra ou bronze e de como, ainda assim, tenho saudades de Sarajevo.

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Zagreb é uma cidade calma. Como já disse há poucos turistas e, sendo agosto, mesmo que os locais sejam em maior número que os forasteiros, a cidade está relativamente despejada de gente. Que contraste (magnífico) com Split cheia de italianos e americanos. Que contraste com a BiH, a terra onde o este encontra o oeste, a terra das mil casas de deus. Zagreb é, assim, uma cidade calma onde domina a casa do deus dos católicos. Tal como os outros países da antiga Jugoslávia também a Croácia foi palco de conflitos nos anos 90 que destruiram alguns monumentos e causaram mortos e feridos. Porém as consequências não foram tão desastrosas como na BiH, nem material nem culturalmente. Ao contrário da BiH, não encontramos aqui ruínas nem destroços da guerra. Tudo está arranjado, limpo e ordenado. [Read more…]

Postcards from the Balkans #14

Broken hearts/ Cuori infranti / Coeurs brisés

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Um dos símbolos de Zagreb é um bolo em forma de coração, de erva doce. Há uns anos, na Roménia, comprei um coração desses – também populares lá – para levar a alguém em Portugal. Há um postal sobre isso. Acompanhava o coração de erva doce uma frase que vi escrita algures na bela cidade de Sighisoara: ‘you have to break your heart until it opens’. O coração acabou por ser comido fora do prazo, o de erva doce, quero dizer. O outro creio que nunca se abriu por mais que se tenha já partido. E não é do meu que falo.
Saio do hotel de manhã, na direção da cidade alta. Aí se encontra, entre muitas outras coisas admiráveis, um museu muito particular: ‘the museum of broken relationships’. Já lá iremos a esta mostra, entre o triste e o divertido, o desesperado e o esperançoso, o belo e o terrível, de despojos de relações interrompidas. Do hotel caminho pela rua Vlaska até à praça Josipa Jelacica. Há pouca gente, é agosto em Zagreb como em toda a parte, ainda que aqui quase não haja turistas, pelo menos à hora em que entro na praça e a atravesso devagar. É uma praça grande, com também grandes esplanadas, a estàtua de Josipa Jelacica no meio e elétricos. Há também uma fonte – Mandusevac – construída sobre uma nascente que, até ao século XIX abastecia Zagreb de àgua. As crianças chapinham por ali, com os cães. Tudo é calmo. [Read more…]

Postcards from the Balkans #13

Lei è italiana? o un viaggio sul treno tra Spalato e Zagabria

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Raras vezes me senti tão contente em abandonar um sítio, como hoje, ao sair de Split (Spalato em italiano). Contente como em feliz. Nem a mala que arrastei até à estação me pesou, nem o sol me queimou. Leveza, alívio, contentamento profundo, foi tudo o que senti. Ainda sinto, agora que estou já em Zagreb (Zagabria, em italiano), cidade que em duas ou três horas apenas me parece encantadora, humana e acolhedora. O hotel é maravilhoso (Art Hotel Like). O quarto onde estou tem uma pequena mezzanine e uma decoração muito bonita. Tem uma janela enorme que dá para o cruzamento entre a rua Vlaska e a rua Draskovica. O centro é logo ali e reina a calma. A cama é fofa e branca e, portanto, estou nas nuvens. Até ver. É certo que depois de Split qualquer sítio me pareceria o céu. [Read more…]

Postcards from the Balkans #12

‘They live to make babies. They live just 24 hours. They sing and make babies. Then they just explode’

Ou Split: Sea, Sun, Shopping… Shit.

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Os livros que me trouxeram hoje os simpáticos rapazes do bar Marvlvs, com as contas, uma do café que bebi ao fim da tarde, outra da cerveja (Pan, uma cerveja croata) que estou a beber agora foram, respetivamente Life of Pi e Biosupruga, este último de um escritor Croata de quem nunca ouvi falar (Michal Viewegh) e que parece que significa ‘mulher natural’. Bem, continuo sem perceber se há um critério para os livros que trazem aos clientes… de qualquer maneira, sei já que não têm livros portugueses, pelo que, quando chegar a Portugal vou mandar um livro português aos rapazes do Marvlvs que são a simpatia em pessoa. E a música, senhores, é perfeita. Gostei do gesto do me trazerem um livro croata, como que a dizerem que me sinta em casa. E sinto. [Read more…]

Postcards from the Balkans #11

‘One hundred years of solitude’

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Este postal vai começar ao contrário, porém as fotografias estão na ordem certa. Ao contrário do postal e dos meus sentimentos. Tenho as emoções completamente abaladas e acreditem que as cervejas que já bebi hoje (vá foram só algumas, não exageremos) nada têm a ver com isso.

Esta foi a segunda vez que pus os pés na Croácia. A primeira foi há exatamente 11 dias, em Zagreb, de passagem para Ljubljana. Depois de amanhã – quem me dera que fosse já hoje, agora mesmo – voltarei por uns dias a Zagreb antes de voltar a Lisboa, recuperar as chaves de casa e retomar a minha vida. Bem sei que esta é também a minha vida, mas as férias são sempre um intervalo, uma pausa. O tempo em que a minha vida se assemelha mais à literatura. Estou-me a plagiar. Já o disse o ano passado. Isto mesmo, muito embora por razões absolutamente diferentes. [Read more…]

Postcards from the Balkans #10

Dangerous ruins. As cigarras, ainda e, não, não sou italiana.

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O meu último dia na BiH. Amanhã, relativamente cedo apanho o autocarro para Split. Quatro horas de autocarro. Comboio só até Ploce e depois teria de depender dos horários dos autocarros daí até Split. O bilhete custou menos de 10 euros. São 111 km, mais um menos outro o que, atendendo às quatro horas indicadas, indicia uma viagem com paragem em todas as terreolas. Seja.

Falei nos 10 euros do bilhete. E devo dizer que o custo de vida na BiH (ainda que em Mostar, devido ao facto de ser um sítio muito turístico, as coisas sejam ligeiramente mais caras que em Sarajevo) é barato. Barato para nós, os visitantes estrangeiros, mesmo se portugueses. Para os habitantes, as coisas serão de outro modo, suponho. Diz-me o meu guia que os salários são miseráveis. Acredito. Não tive coragem de perguntar a ninguém. Mas hoje de manhã um dos empregados do hotel disse-me que já era o terceiro turno seguido que fazia e que queria ir para casa. Outro, agora há pouco, diante da minha pergunta (porque o vi desde manhã à noite aqui) se não descansava, respondeu-me que só tem folga de 15 em 15 dias. Isto nada diz sobre os salários, é certo, mas diz alguma coisa sobre o trabalho. Ou a falta dele. Em Sarajevo, alguém me disse que na BiH a taxa de desemprego é de 40%. Quarenta por cento. Voltando aos preços, por exemplo uma refeição completa pode comer-se por menos de 8 euros. Uma garrafa de Sarajevska (a cerveja que tenho bebido) custa menos de 1 euro e um maço de tabaco (não me chateiem vá, comprei slims) 2 euros. As pessoas fumam, aliás, em qualquer lado. Se há país onde se fuma é este. Eu, sosseguem, tenho-me mantido nos meus 10 a 12 slims, mais um, menos outro. [Read more…]

Postcards from the Balkans #09

A grande beleza da Bósnia. O insuportável calor da Herzegovina. Um filme de Emir Kusturica e as cigarras de Mostar.

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A BiH não é um país fácil. As razões são muitas. E não tenho tempo (nem rede, neste momento) para enumerar todas. As pessoas ora são simpáticas, ora extraordinarimente rudes. A paisagem ora lembra o paraíso (como se eu soubesse o que é o paraíso), ora o mais profundo inferno (como se eu soubesse também o que isso seja). Ora descobrimos recantos de silêncio belo, ora encontramos a música mais atroz.

Saí de Sarajevo no autocarro das 11h30 em direção a Mostar. Um dos senhores do hotel levou-me a mala até à estrada, à entrada da cidade velha, para que eu apanhasse o táxi que me levaria à estação dos autocarros. Disse-me que esperava comigo e embora eu lhe tivesse dito que não era preciso, ali ficou. Enquanto esperávamos disse-me que eu tinha feito bem em ficar tantos dias (na verdade, não acho – e agora que estou em Mostar, até acho menos – que tivessem sido assim tantos), que uma cidade não se conhece em dois dias. Concordei e disse-lhe que, mesmo em cinco dias, não tinha visto tudo. Uma cidade como Sarajevo precisaria de uma vida inteira. [Read more…]

Postcards from the Balkans #08

‘I didn’t realize you’re a stranger’

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É interessante o modo como nos afeiçoamos a certos lugares. Ou como certos lugares se afeiçoam a nós. Tenho sentido isto, algumas vezes, em sítios muito diversos mas que talvez partilhem uma beleza imperfeita, uma conjugação do muito belo e do incrivelmente feio. Que talvez partilhem uma certa tristeza. Ou melancolia. Gosto de lugares assim. Ligo-me a eles instantaneamente, sinto-me completamente deles. Aprendo-os. Percorro-os como se tivesse sempre ali vivido, embora não distraidamente como nos lugares onde vivi. Aconteceu-me isto em Sarajevo.

Hoje não vi cemitérios, nem memoriais aos mortos. É o meu último dia em Sarajevo. Vivo os lugares dos vivos. Mesmo se é impossível ignorar a melancolia que têm os lugares e as pessoas onde e a quem aconteceu um grande sofrimento. [Read more…]

Postcards from the Balkans #07

Srebrenica ou a tristeza no fim de uma estrada demasiado bela

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Levanto-me às sete da manhã em Sarajevo, depois de ter dormido quatro horas. Viajei cinco horas hoje. As primeiras duas horas e meia entre Sarajevo e Srebrenica. As últimas duas horas e meia entre Srebrenica e Sarajevo. A mesma estrada, que serpenteia entre as montanhas. Uma estrada bela, muito verde, escoltada pelas florestas, pelos montes de palha, pelas aldeias onde as casas tradicionais começam a desaparecer, dando lugar a edifícios que, ainda que muito feios, não conseguem arruinar (ainda) a tranquilidade e a harmonia desta paisagem. Aqui e ali pessoas trabalham nos campos. Há cabras. Ovelhas. Algumas vacas. De vez em quando, nas curvas da estrada, um velho carrega uma pá, um sacho, ou outra coisa qualquer, às costas e caminha. De repente, de manhã, há um vale cheio de nuvens, como algodão, que interrompe o verde e as curvas da estrada. O mundo está cheio de beleza.

Viajamos três. Eu, o guia*, que conduz o carro, quase sempre em silêncio e um rapaz holandês. E a velocidade e as curvas não deixam que façamos mais que contemplar longamente a paisagem. A Federação da Bósnia e Herzegovina e a República Srpska para onde nos dirigimos agora formam um ‘país’ tão bonito que é difícil acreditar que é o mesmo onde correu o sangue de milhares de pessoas ainda não há duas décadas. O ‘país’ que é (ainda) uma espécie de panela de pressão. As tensões internas são várias e a tensão com a Sérvia, ali mesmo ao lado, são evidentes em todas as narrativas. A Sérvia, a mãe de todo o mal. A mãe dos rios de sangue que aqui correram há pouco menos de vinte anos. Eis um resumo dessas narrativas. [Read more…]

Postcards from the Balkans #06

Sarajevo: 1425, 159, 329, 11000

ou o mesmo céu sob o qual vivemos

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Dizem aqui que se nunca vieste a Sarajevo, nunca foste a lado nenhum.

Sarajevo. O lugar que reúne 4 das casas de deus. O mesmo deus a quem se pedem desejos. Os mesmos desejos. Dizem aqui que se pedires a deus o mesmo desejo nas suas 4 casas (mesquita, sinagoga, igreja ortodoxa e igreja católica romana) obterás o que procuras. Não experimento, no entanto. Os meus desejos são simples e terrenos. Mais do que de deus – a existir seja em que casa for, ou em toda a parte – os meus desejos dependem de mim. Dos Homens, que vivem todos debaixo do mesmo céu. Qualquer que seja o deus – mesmo nenhum – em que acreditam. Os meus desejos são poucos, está bem de ver.

Sarajevo é um símbolo de multiculturalidade étnica e religiosa. Os sinos das torres das igrejas ouvem-se quase ao mesmo tempo que o chamamento (tão belo) para a oração dos muçulmanos. Os homens amam mulheres de outra religião. As mulheres amam esses homens. Como se a religião não importasse, num lugar onde importa tanto. Os mortos são, em muitos cemitérios (e há tantos cemitérios em Sarajevo!), enterrados debaixo da mesma terra. Com o mesmo céu por cima. Há beleza bastante em tudo isto. Há humanidade bastante em tudo isto.

Se vens a Sarajevo não é possível que não saibas, ou que não queiras saber, o que é, o que foi, o que há-de ser Sarajevo. Não é possível que não perguntes onde estava deus há quase 20 anos. Se escondido dos Homens, numa das suas 4 casas ou acima do céu sob o qual vivemos, o mesmo é dizer em lugar nenhum. [Read more…]

Postcards from the Balkans #05

‘Nasci solo muori solo, il resto è un regalo…’*

ou ‘It was terrible, terrible… still it was good’**

ou ainda Este é o (meu) sangue

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Fotografia: Tarik Samarah

Este postal começa ao contrário. A ordem das fotografias também está ao contrário. O mundo esteve (está) demasiadas vezes ao contrário, tornando-se o mal banal. A indiferença também. Afinal não é assim tão diverso.Eu hoje chorei. Porque vi o mal e me lembrei que o esquecera. Este mal. Sei que agora mesmo há outros, semelhantes, até nas razões. Sei também que muitas vezes, de forma mais ou menos (in)voluntária os vejo com distância, ou com indiferença, não sendo o mesmo, é. Eu hoje chorei e isso, na verdade, pouco tem de assinalável.

A mão aberta, com uma gota de sangue no dedo anelar pertence a uma mulher. Viva. Que testemunhou o mal como eu, vocês, ou seja, como a maior parte de nós nunca há-de testemunhar. A gota de sangue desta mulher serviu para determinar o dna dos corpos encontrados em valas comuns perto de Srebrenica e as relações familiares com os vivos. Mais de 8000 mortos, homens entre os 12 e os 77 anos. Arrancados às suas mulheres e mães, que uma década ou mais passada estendem as suas mãos, as suas gotas de sangue nos seus dedos anelares, em busca do único conforto possível: enterrar os seus filhos, maridos e pais. [Read more…]

Postcards from the Balkans #04

‘The objects in the mirror are closer than they appear’

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de Ljubljana para Sarajevo à hora do almoço. Despeço-me da cidade e das pessoas do Hotel Macek, que são tão simpáticas. Se alguma vez forem a Ljubljana ou lá voltarem e se gostam de coisas simples (e bonitas, para mim é mais ou menos o mesmo), fiquem neste pequeno hotel à beira do Ljubljanica.Apanho um táxi para o aeroporto. O comboio demoraria 10 horas ou mais. Não que não gostasse de fazer a viagem de comboio, mas o voo dura apenas 50 minutos e 10 horas, às vezes, são muito tempo. Perco muito, já o sei de outras longas viagens de comboio, em preferir o avião, mas ganho mais umas horas em Sarajevo, onde chego pouco passa das 3 da tarde. Recolho a mala, levanto marcos bósnios e vou à procura de um táxi. São 12 km até ao centro e não consta (o meu guia assim o diz, tal como as pesquisas que fiz no google) que vá encontrar um autocarro. O meu guia diz que negoceie o preço. Assim, pergunto ao senhor, de ar extraordinariamente simpático, quanto me leva. 10 €. Vamos. Vou abrir a porta de trás e ele pede-me que me sente à frente. Hesito uns segundos, seria má educação recusar e entro para o banco da frente.

O taxista pergunta de onde sou. Portugal. Ah, Portugal, futebol, Portugal, Cristiano… Ronaldo, termino eu. E rimo-nos. Depois, o senhor – que fala pelos cotovelos – pergunta-me coisas, fala do calor, responde às minhas perguntas sobre a Bósnia e Herzegovina (doravante, carinhosamente BiH). Pergunto sobre a vontade dos cerca de 4 milhões de habitantes em fazer parte da União Europeia. Entusiasticamente diz que muitos querem a adesão, incluindo ele mesmo. Mas, depois, cabisbaixo, como que a reconhecer o (que daqui a nada há-de ser, para mim) óbvio: nem em 10 anos. Pela janela vou vendo os subúrbios de Sarajevo. Feios, quase tenebrosos, com os seus prédios mal construídos ou, talvez mais adequadamente, reconstruídos, as suas oficínas, o seu lixo, o seu trânsito infernal…
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Postcards from the Balkans #03

‘Strawberry cakes forever’ e outras revelações

10557314_10204716135609551_601455223790232725_nOs lugares perfeitos não têm história. Um pouco como as pessoas, se as houvesse perfeitas. No entanto, estou quase certa que Ljubljana não é uma cidade perfeita. Tenho pouco tempo para o saber. Praticamente não vou além do centro e perco-o, de certeza, ao centro. Das coisas. Das estórias, quero dizer.

Mais do que faço nos lugares imperfeitos, ponho-me aqui a reparar em tudo, muito bem. Nas pessoas, nas janelas, nas paredes, nos parques, nas ervas e nos pequeníssimos malmequeres. Ljubljana é uma cidade cheia de parques e jardins, do grande Tivoli e da colina do castelo aos pequenos recantos, cheios de árvores e sombras. Não está demasiado calor, no entanto. De manhã decido ir à procura do quarteirão do parlamento, onde estão também os ministérios, as embaixadas e – o que mais me interessa – os museus, especialmente a Galeria Moderna.

Atravesso a ponte dos Sapateiros, viro à direita e logo à esquerda e estou de novo no parque Zvezda. Aqui, do lado esquerdo de quem sobe, um magnífico edifício da Universidade de Ljubljana. Meto pela rua Vegova cheia de escolas e cabeças de eslovenos ilustres. Uma rua muito sossegada e verde. Encontro ao fundo um monumento, escrito em francês, uma homenagem ao ‘soldat sans nom’. Há umas galerias de arte, pequenos museus, um teatro de verão, com um belo pátio. Sento-me na esplanada de uma praça. Os pardais voam muito depressa e, de repente, pousam por longos segundos nas mesas e nas cadeiras. Vários me visitaram a mesa. Foi por causa deles que levantei a cabeça, para acompanhar o voo e prever a próxima visita, e dei de caras com o nome da praça: Francoske Revolucije. Está então explicado o ‘sous cette pierre/ nous avons deposè tes cendres/ soldat sans nom‘. [Read more…]

Postcards from the Balkans #02

‘Dum vita est, sevdah est’*

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Levanto-me cedo, para meu hábito. Ljubljana é uma cidade pequena. A Eslovénia é um país pequeno. 2 milhões de habitantes ao todo, no país. Cerca de 900 mil na cidade. Pouca gente. E nota-se. Já ontem mencionei o silêncio. Está em toda a parte e é perfeito. Ljubljana é a cidade perfeita, para quem aprecia este género de perfeição. Eu gosto. Mas prefiro – ou aprecio mais – lugares menos perfeitos. Já o silêncio… bate-me em cheio no corpo quando saio do hotel e meto pela minúscula viela que vai dar à praça Mesint com a fonte dos três rios no centro e as torres da igreja de S. Nicolau atrás.

O silêncio leva-me ao mercado, na praça Vodnikov. Incrivelmente – trata-se de um mercado – o mesmo silêncio, que explode nas cores das frutas, dos legumes, das flores. As cores são a única coisa que interrompe o silêncio, especialmente o longo amarelo dos grandes girassóis. Passeio entre as bancas. Fotografo uma senhora que vende legumes. As flores. Outra vez as flores. Depois vou à procura do funicular para o castelo. Podia subir pela Studentovska, mas a rua parece-me íngreme demais (se tivessem os meus pés, compreendiam). [Read more…]

Postcards from the Balkans #01

Entre Zagreb e Ljubljana

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levanto-me em Lisboa às 4h30 da madrugada. Levanto-me como se tivesse dormido e não dormi. Ninguém se levanta à hora a que se deita. No aeroporto a confusão do costume, talvez um pouco menos já que é cedo demais. O voo sai a horas. Chega a horas. O voo, eu e a mala. Mal chego a Zagreb vou para a estação de comboios. Não sei porquê, convenci-me que iria apanhar um comboio rápido e moderno. O que me espera é, convenhamos, bastante melhor que isso. É lento e antigo. Entro num compartimento onde está um casal. O senhor – que novidade, claro, já se sabe que, não sei porquê, nunca chego verdadeiramente a tocar nas minhas malas, quando viajo – agarra-me na mala e coloca-a na grade, por cima da minha cabeça. As janelas do comboio vão abertas. Tenho sono. Mas é bom por a cabeça de fora e rir-me para os girassóis nos campos. [Read more…]

Abril de novo, mas não com este povo?

Há uns anos que digo isto em vez do clássico ‘abril de novo, com a força do povo’. Não que não ache que o povo não tenha força. Tem. E é até bastante. Que o digam os quase 66% de abstencionistas que ontem determinaram, com a sua força, os resultados das eleições para o Parlamento Europeu. Acho é que este povo não quer um novo abril. O que é que o povo quer? Se eu fosse os Homens da Luta diria que ‘o povo quer dinheiro para comprar um carro novo, pá’*. Mas, na verdade, não me parece que se possa resumir a coisa a uma questão tão simples. Na verdade, não faço a mínima ideia do que o povo quer. Mas faço, acho que hoje fazemos todos, uma ideia, por pequena que seja, do que o povo não quer.

E o povo não quer votar. Ponto final.

Parágrafo. Parêntesis, vá. O povo não quer votar nas eleições para o Parlamento Europeu. Podem dizer-me que o povo também não quer votar nas restantes eleições. É verdade. Mas só até certo ponto. Desde há anos que as percentagens de abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu se situam bastante acima da abstenção para as outras eleições e  quase sempre acima dos 60%. Portanto, parece-me evidente que

o povo não quer votar nas eleições para o Parlamento Europeu. [Read more…]

uma contagem pessoal dos 40 dias para os 40 anos do 25 de Abril

Sob motes diversos, usando quase sempre um poema, uma canção e uma imagem, comecei a contar os dias que faltavam para os 40 anos do 25 de Abril, a 16 de Março.

Contei 40 dias.

Estão aqui.

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quando o mundo era a preto e branco*

 

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Esta sou eu, em 1974. Impossível dizer se antes ou depois do dia 25 de Abril. Mas nesse ano, definitivamente era assim que eu era. Uma miudinha de sete anos. De longuíssimos cabelos, grandes olhos, a quem vestiam riscas com xadrez – devia ser moda, porque as outras miúdas (a Júlia e a Isabel) também estão vestidas do mesmo modo, numa das fotografias. Ainda não usava óculos e, em duas das fotografias, também não tinha o aparelho na perna direita. A minha mãe às vezes deixava-me andar sem ele. O que eu considerava um sinal de grande liberdade. Parecia-me mais com as outras miúdas, sem o aparelho, ainda que me fosse, obviamente, mais difícil acompanhar os seus passos. [Read more…]

Elas são cinco milhões…*

… quinhentas e quinze mil quinhentas e setenta e oito, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (2011). Elas, onde me incluo, são as mulheres portuguesas. Representam já quase metade da população activa nacional. Sempre representaram o sustentáculo da reprodução social e económica através do trabalho que desempenham no interior da família. e que está longe de ser reconhecido ou valorizado tanto em termos económicos como sociais.

A propósito da condição feminina, há cerca de 40 anos, Maria Velho da Costa escreveu um texto notável que começava justamente por focar esse trabalho invisível que a maior parte de nós desenvolve. Dizia então: “Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças (…)”. E continuava, passando para o labor de reprodução da força de trabalho e o determinismo biológico que tem moldado a situação social da mulher em toda a parte do mundo – a maternidade: “Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. (…)”. [Read more…]

Todas as mulheres do mundo… *

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… são, mais uma menos outra,  perto de três biliões de gente. Pouco menos de metade dos pouco mais de seis biliões de almas que, presentemente, povoam o planeta. Todas estas mulheres partilham características biológicas comuns. Algumas partilham ainda destinos comuns, consequência directa dessa ‘determinação’  biológica. Umas vivem no mundo que, em 1945, proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Outras vivem num mundo outro, sem a garantia de verem cumpridos os direitos básicos. Entre todas as mulheres do mundo há umas que são mais iguais que outras. Porque nem todas as pessoas são iguais à face da Lei como a referida Declaração anuncia e a multiplicação de iniciativas confirma. O que demonstra que, em certos mundos (muitas vezes mesmo do lado de lá da nossa rua), melhor seria ter nascido outro. Ou ter nascido do lado de cá da rua, ou do lado de cá do mundo. Ou, no limite, ter nascido homem. Ter nascido sem o ‘estatuto de menoridade’ que a condição feminina ainda implica em tantos mundos dentro do mundo.

Eu sou uma mulher entre todas as mulheres do mundo. Não represento, no entanto, todas as mulheres do mundo… porque não nasci apenas do lado onde o mundo se apresenta mais forte. Nasci também no lado menos triste da minha rua. Do lado onde a violência nunca existiu. Nem os abusos. Nem os preconceitos. Como todas as mulheres do mundo, bastava um golpe de asa e poderia ter nascido em qualquer parte. Podíamos ser todos de qualquer parte, aliás, mulheres ou homens. [Read more…]

Amor e Transportes (mais ou menos) Públicos ou a compilação musical que faltava no dia dos namorados

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Neste dia tão especial para os apaixonadinhos que se atafulham uns aos outros de coraçãozinhos vermelhos, ursinhos de peluche, chocolatinhos, e postaizinhos com palavrinhas fofinhas e merdinhas assim, próprias de todos quantos ignoram que o amor, essa coisa rara, ou se celebra todos dias, ou vale pouco, neste dia em que é impossível ir jantar sossegadinho a dois ou a três ou a quantos se quiser a qualquer sítiozinho sem levar com namoradinhos melosos e enjoativos e intermináveis filas… neste dia tão especialzinho em que os encalhadozinhos para não estarem sozinhos se juntam em grupinhos e vão engrossar as filas dos restaurantezinhos e divertir-se muito entre balõezinhos vermelhinhos e um pézinho de dança… e numa época em que pululam no Facebook páginas dedicadas aos transportes públicos e ao amor  à (aparentemente) primeiríssima vista (que acontece, já sabemos, mas é ainda mais raro), lembrei-me de compilar uma bandazinha sonora à altura.

Aproveitem as musiquinhas, porque como já cantavam os Beatles, será sempre verdadinha que ‘Oh Leonilde is Ló, Ló is oh Leonilde’ (se não era isto, devia ser uma coisa parecida).

Há opções para todos os gostos, incluindo as mais ecologistazinhas e as mais radicaizinhas e até as paranormaizinhas. [Read more…]

chamar burros aos políticos é insultar, obviamente, os burros

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(Serapicos, Vimioso)

Desde que me conheço que gosto de burros. Estes animais não merecem, de todo, a utilização do seu bom nome para designar políticos e afins. Os burros têm direito ao seu bom nome e à sua dignidade.

Os burros são animais muito inteligentes, dóceis e solidários (sim, também têm os seus momentos de teimosia, inquietação e desvario o que, uma vez mais, só revela a sua inteligência), o que é bastante mais do que se pode dizer de muitas pessoas, especificamente dos políticos que nos (des)governam no momento.

Agradeço, por isso, em nome do meu amor aos burros e em nome da dignidade dos mesmos, que evitem, pelo menos na minha presença, fazer comparações entre estes animais e essa gente que nem merece que lhe chamem gente, quanto mais burros!

Image(Serapicos, Vimioso)

a virgem deixou-se de merdas e agora só viaja em executiva…

A virgem maria (a tal que apareceu brilhando escarrapachada numa azinheira na Cova da Iria…), deixou-se de merdas e trocou a azinheira por um lugar em classe executiva num voo da TAP.

‘Viajar de azinheira não dá jeito nenhum’ – revelou a virgem à nossa redação – sem condições atmosféricas favoráveis e sem o brutal sol do meio-dia é impossível fazê-lo, já para não falar da porcaria das folhas que são tão pequenas que se espetam em todo o lado’, continuou a senhora de fátima. A virgem viaja de madrugada, no próximo sábado até ao aeroporto de Fiumicino, em Roma, onde (juntamente com a sua coroa e uma comitiva de nove padres, incluindo o reitor do santuário de Fátima) tomará, seguidamente um helicóptero para percorrer os cerca de 32 km entre o aeroporto e a cidade do Vaticano. Aqui irá participar, a pedido do papa, na jornada mariana do ano da fé.

‘Pronto, sei lá, tá a ver? – disse-nos a virgem em conversa ocorrida esta manhã – é verdade que eu podia tomar um autocarro, mas dentro de uma caixa, com a coroa noutra caixa e os nove padres não seria uma tarefa fácil e o trânsito em Roma, àquela hora, mesmo a um fim de semana é impossível, não sei se já esteve em Roma alguma vez? Eu fui lá uma vez, de azinheira, mas pronto, era nova e com a mochila às costas ainda foi pior que das outras viagens de azinheira. Mas vou gostar de rever a cidade, sabe? E conhecer o Chico, que parece tão bom rapaz e isso. E, depois pronto, como já poupo dinheiro na viagem de Lisboa a Roma (porque o senhor reitor achou por bem não fretar um avião propositadamente e então vou num voo comercial…) posso perfeitamente tomar o helicóptero, tá a ver?’. 

A virgem regressa no domingo à noite ao santuário de Fátima, pelos mesmos meios. Entretanto, católicos do mundo inteiro, regozijai-vos, o dinheiro da santa madre igreja, a mesma que almeja ajudar os pobres e isso, é gasto, sei lá, tá a ver? nestas modernices. se o raio da mulher não podia viajar de azinheira?

Camaradas, parece que isto é azia, pá…*

Adoro, que adoro, volto a repetir: adoro, os meus camaradas que argumentam sistematicamente com ‘quem não participa activamente nas campanhas’ não percebe nada e deve estar de boquinha bem caladinha e não dizer nada de nada acerca de coisa nenhuma. É uma vergonha pá, não participar nas campanhas e isso e depois andar para aí a dizer isto e aquilo, pá. Porque eles, os ‘verdadeiros adesivos’ (ai, aderentes… adesivos… pá… coiso, pronto) é que sabem, porque colaram cartazes e tiveram de falar com as pessoas e tal durante umas semanas e pronto. Eles é que sabem tudo sobre todas as coisas, portanto, e eles é que compreendem sempre tudo muito bem, aliás, reformulo, compreendem tudo muito melhor, compreendem tudo, mesmo tudo, ponto, muito melhor e muito mais além do que o resto das pessoas que, basicamente, são estúpidas e desinteressadas e coiso. O facto de essas outras pessoas fazerem o seu trabalho de adesivos (quer dizer, aderentes… autocolantes… ai… adesivos… coiso, pronto) noutros contextos (e não, não estou a falar do facebook), que o fazem, não interessa nada. 

O facto de haver muitas maneiras de militar (ai, pá, coiso, ser adesivo, autocolante… pá, pronto, isso…) num partido, incluindo querer discutir esse mesmo partido séria e transparentemente… isso não interessa nada…

Queéqueessamerdainteressamesmo?

O facto de se esbarrar constantemente em discursos dos ‘verdadeiros, dos que-sabem-mesmo-tudo-acerca-de-todas-as-coisas-porque-carregam-os-baldes-da-cola-e-tal-como-se-os-outros-nunca-os-tivessem-carregado-na-vida) que constantemente argumentam com a sua infinita sabedoria de pacotilha, de chapa 4 dos discursos já gastos, esfarrapados, em que já ninguém (pronto, ok, 5 ou 6 adesivos, dos novos e assim mesmo…) embarca… isso não interessa nada. Nem isso nem o desagradável que é para mim, por exemplo, como adesiva-aderente-autocolante-coiso-isso-pá-pronto, ter passado os últimos dois dias a tentar responder (e a conseguir mais ou menos, com alguma elevação e coiso, vá, que eu apesar de não participar activamente no carrego dos baldes de cola, não sou estúpida, nem nunca fui, ainda que possa fingir que sou, à vontade, se quiserem e se eu quiser, principalmente) a montes de gente que me pergunta: ‘oh pá, então e o teu bloco, pá, que é que vos aconteceu?’ 

Na verdade eu consigo responder-lhes, e garanto que não uso a chuva, nem a comunicação social, nem a abstenção, nem a austeridade. Mas gostava, como aderente-adesiva-militante e como alguém que faz a sua aderência como pode e sabe e quer e paga quotas, que me respondessem a mim, sinceramente, transparentemente, sem a chuva, a abstenção, a comunicação social… ou isso: ‘oh pá, então e o bloco, pá, o que é que nos aconteceu?’. E não relativamente ao último mês, mas relativamente, digamos, à última década. gostava mesmo. Talvez a minha aderência fosse maior. De certeza, camaradas, que a minha militância seria infinitamente maior. A minha e a de bastantes outros.

 

*Sou militante (aderente-adesivo-autocolante-coiso-pá-isso) do Bloco de Esquerda e disseram-me agora mesmo que o que eu tenho é azia. Desculpem lá vir para aqui descarregar a bílis e tal.

a paixão, a vergonha, a culpa…

eu tinha 18 anos quando participei a sério, apaixonadamente, cheia de entusiasmo numa campanha partidária. a colar cartazes, a distribuir panfletos na rua e a falar com as pessoas, a vender autocolantes… o cavaco ganhou as eleições. e eu passei a noite inteira a chorar, numa sala escura da sede das palmeiras. mas a chorar a sério, com a mesma paixão e entusiasmo com que participei na campanha. de vez em quando entravam camaradas para me consolar naquela sala, mas o meu desânimo foi tão grande com aquele resultado que nunca mais me esqueci nem da sala, nem dos camaradas que me consolaram. isto foi há 28 anos. e eu nunca mais me esqueci daquela noite. duvido que me venha a esquecer daquela noite e da miúda que então era. e da sede das palmeiras e dos meus camaradas do psr.

ontem não chorei. apesar de ainda ser, de muitas maneiras, a mesma miúda chorona. não chorei. mas pensei que, se calhar, àquela hora havia outros putos que participaram apaixonada e entusiasticamente numa campanha pela primeira vez, a chorar. e se calhar houve outros camaradas que os consolaram. a mim, servir-me-ia de consolo hoje, apesar de não ter chorado ontem, que alguém me dissesse que estes resultados foram uma derrota e que é preciso repensar o que andamos a fazer nos últimos anos. que alguém me dissesse das más escolhas, da falta de critérios sérios na escolha de candidatos, na falta de criatividade em quase toda a parte no modo de chegar às pessoas, das associações à direita que se fizeram, por exemplo, na única ‘vitória’ que se obteve numa coligação que (me) envergonha.

Esta derrota não fragiliza nem derrota o governo*. continuamos na mesma, basicamente no que diz respeito ao essencial. não foi vitória nenhuma contra a troika, nem contra o memorando, nem contra a austeridade. em que país vivem os meus camaradas? deve ser noutro muito diverso do meu. 

eu não sou ninguém, nem sequer me sinto ‘aderente’, pelo menos não seguramente do mesmo modo apaixonado que há 28 anos. mas eu ando a dizer isto (não só no facebook, ou na blogosfera, antes que me venham acusar de o fazer apenas neste contexto, como já antes fizeram) há bastante tempo.

um partido que culpa a chuva, a abstenção ou a comunicação social pelo seu desastre político, não é o mesmo de há 28 anos. é outro. muito diferente. que reage aos desastres como se a culpa fosse dos outros. que não parece ter já capacidade de reflectir sobre si mesmo. enquanto for assim, enquanto continuarmos a por a arrogância e a defesa cega das nossas posições, que evidentemente não resultam, continuaremos sempre a ser outro partido. um partido em que ninguém vota. e olhem, camaradas, aderentes, militantes apaixonados ou não: a culpa não foi da chuva, nem da abstenção, nem da comunicação social, nem da troika, nem da austeridade. foi nossa. 

*derrota da direita foi brutal, dizem os meus camaradas. já eu, que tenho juízo,  não digo o mesmo.

um homem morreu. mas não era só um homem. era poesia. ainda é.

O A. Pedro Correia já deu a notícia aqui, mas quando morre um poeta, é preciso escrever em toda a parte e infinitamente que a poesia não morre nunca. Morreu um homem. Chamava-se António. Era poesia. Ainda é. Está vivo. E escreve sol. 

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«Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde»

(António Ramos Rosa, ‘estou vivo e escrevo sol’)

 

Fotografia roubada ao Artigo 21.º

A praxe é singular. Pode acabar.*

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«O que vemos é uma sucessão de humilhações consentidas – ou toleradas por quem, estando fora do seu meio, não tem coragem de dizer que não. A boçalidade atinge níveis abjectos. Os gritos alarves , a exibição de simulações forçadas de atos sexuais, o exercício engraçadinho do poder arbitrário de quem, por uns dias, não conhece qualquer limite. Tudo isso impressiona quem tenha algum amor próprio e respeito pela sua autonomia, liberdade e dignidade. Mas a questão é mais profunda do que a susceptibilidade de cada um. É o que aquilo quer dizer» (Daniel Oliveira, 19/10/2011)

É preciso dizer isto muitas vezes e não é preciso dizer muito mais que isto. A praxe é também, ou sobretudo, a reprodução de hierarquias bacocas e balofas, as mesmas hierarquias que os estudantes, tantas vezes, contestam baixinho nas salas de aula e nos órgãos das universidades. As práticas de praxe configuram rituais de passagem para lugar nenhum ou, pelo menos, não para o lugar que interessa – aquele onde aprender os elementares princípios de cidadania, de liberdade de pensamento e de expressão, de espírito criativo e crítico. Esse lugar a que, a quase todos nós portugueses, ainda nos falta chegar, fruto da história, do ‘jeitinho’, da ‘esperteza saloia’ e, no limite, da cobardia. [Read more…]