Amén!

postais da ria (7)

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dia 3 de agosto pelas 14h30m, vai haver regata de moliceiros no bico, murtosa

 

Música da semana – II

-Já com alguns anos de carreira, a londrina Lily Allen é a minha escolha da semana.

Ninguém para a Guiné Equatorial!

Ou Ninguém *pára* a Guiné Equatorial? Bagão Félix ontem no Público.

Summertime (Angélique Kidjo)


Angélique Kidjo, Summertime (1998)

Amanhã, 26 de Julho, Angélique Kidjo está em Sines, no Festival Músicas do Mundo

Carlos Paredes não morreu há 10 anos


Manual de Anatomia Coimbrã: esqueleto, rio, músculos, povo, ruas e vísceras, dissecados por Mestre Carlos Paredes, a partir de uma variação de Artur Paredes a uma cantiga de José das Neves Elyseu.

Rumba dos inadaptados (ou a morte do jovem contribuinte)


Quinteto Tati, Exílio (2004)

As carquejeiras

 

No final de 1930, o lisboeta «O Século» enviou ao Porto o repórter Adelino Mendes para ver e contar a vida nas ilhas e bairros pobres da cidade. O jornalista ficou particularmente impressionado com as carquejeiras:

Surgem diante de mim vultos indistintos, cujos contornos, a certa distância, mal se definem. Dir-se-ia que vem ao meu encontro uma fila de ouriços, arrastando-se lenta e dolorosamente pela rampa que conduz ao rio.
– São as mulheres da carqueja! Vão assim, sob estas cargas, até às Antas, até Paranhos, a quase duas léguas de distância, às vezes! (…)
Paramos. As desgraçadas passam, com os enormes feixes às costas, arfando e resfolegando, pela ladeira acima. Assisto à escalada torturante dum calvário que não tem fim. Sobre os muros da rampa, os ouriços humanos depõem, de vinte em vinte metros, os carretos.

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a memória do alfredo no seu aniversário

Yasmina Reza

sem papas na língua, numa entrevista sumarenta no El País.

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© Pascal Victor

Penas transfiguradas [Textos sobre música portuguesa IV]

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© Cláudia Varejão

Lula Pena (n. 1974) não anda cá para fazer discos a metro, nem concertos, nem canções, e nem sequer covers – e os seus são sempre já outra coisa, suficientemente ancorados nas versões originais para podermos reconhecê-las, mas constituindo objectos originais: outras coisas criadas por alguém que refaz fazendo novo, recriando com a memória e o coração.

O seu primeiro disco, Phados (1998), é uma viagem que interroga o Fado, abrindo-lhe horizontes nem sempre reconhecidos pelos mais puristas da canção nacional, e embora a sua forma de cantar faça justiça ao seu nome, que transporta como um destino marcado uma dor nacionalmente reconhecível. Nele, a cantora revisita alguns grandes temas populares de Língua portuguesa (Portugal, Brasil, África), cantados com a liberdade dos reinventores da melhor tradição, com a infinita tristeza do bardo exilado (Lula, viajante poliglota, cantou-os pelas ruas do Mundo), e com a voz profunda e inquietante da sereia de voz grave a quem Rodrigo Leão pediu emprestada a voz para o paradigmático tema-tango Pasión. Uma voz que alguém definiu já como o sendo o resultado de uma combinação de mel e lava, penhascos e mar – o que pode haver de mais português? [Read more…]

Música da semana

Impressionante a quantidade de boa música com origem em Seattle. Para quem não conhece, recomendo Mike Hadreas,conhecido na indústria musical como Perfume Genius…

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)

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«Sempre que morre um escritor» há pelo menos um outro escritor que o inveja. Lido aqui.

O teu murmúrio (2013)

Os Oquestrada em Março no programa 5 para a meia-noite (RTP1, ao vivo)

Somewhere only we know (2004)

Luís Sequeira no Domingo passado no programa de tevê The Voice Portugal

Perfect Day (1972)

Perfect Day (Lou Reed, 1972) versão de Rui Reininho e Jorge Palma (homenagem a Lou Reed, Lisboa, Largo do Intendente, 1 de Novembro de 2013)

Outro Fado [Textos sobre música portuguesa III]

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© Clément Darrasse

Quando A Naifa surgiu, ninguém sabia muito bem como classificá-la, onde arrumá-la, se no faqueiro da avó, se no do Ikea, ou se noutro ainda. Quais seriam ao certo as virtualidades com significado para a música pátria d’A Naifa? E digo (escrevo) isto mapesar do Fado, que claramente habitava (e habita) a sua música, que era (e é) o seu chão, e das sonoridades tradicionais da terra portuguesa. Talvez por isso, e porque «trip-fado» definisse insuficientemente o género singular a que se dedicavam os músicos d’A Naifa, alguns preferiram cortar a eito e chamar-lhes «pós-modernos» – designação contudo também ela um bocado opaca, que apenas informava estarem eles «um bocado à frente», representando correntes ainda por deslindar em toda a sua extensão e significados. [Read more…]

O demagogo, a clientela e os subsídios

O candidato António Costa (o tal que é boy rosa mas quase ninguém lhe chama isso, isto dos boys é só para os do PSD) ), prometeu, a uma “assembleia de clientes”, que iria, caso fosse governo, criar novamente o Ministério da Cultura.
As chamadas “pessoas da cultura” (que eu não sei como se caracterizam) vão desde a actores de televisão e cinema, escritores, escultores, poetas, pintores, músicos, etc, e até de personagens como Gabriela Canavilhas (ex-Ministra da Cultura de triste memória e amiga das touradas). Vendo de relance a lista de apoiantes (há uma página no Facebook para isso), e com algumas excepções, verifica-se que temos mais uma vez a corte dos subsídios. Lembrei-me logo dos GNR, ou dos Moonspell, entre outros, que fizeram carreira, e nunca receberam qualquer subsídio do Estado.
Que a cultura deve ocupar um lugar central na nossa sociedade, estamos de acordo. Mas devemos discutir o que cabe nesse guarda-chuva chamado “Cultura” e qual deverá ser o papel do Estado e da sociedade civil nessa matéria. E depois, sim, qual deve ser o modelo político e administrativo para cumprir tal missão.
Sem isso, isto não passa de demagogia barata e de clientes a berrar por subsídios.

O Cavaco e o Carmo

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Os portugueses do presidente da república andam numa azáfama: que um prémio agora atribuído a Carlos do Carmo não vale nada, é irrelevante, não merecendo portanto cavaco presidencial.

Tenho uma falência, de pequenino, com o cantor Carlos do Carmo. Irrita, até me coço na testa com o fado canção onde se afirmou, não há anti-histamínico que me sossegue quando entra pelos ouvidos e por razões socais não posso mudar o disco. Sou insuspeito mesmo sendo de esquerda, portanto.

Mas fosse a Kátia Guerreiro a ganhar um Grammy, pequenito e latino que seja sempre é um prémio votado pela indústria, portanto o mercado, era uma festa em Belém e poupavam uma trabalheira a desvalorizar a homenagem ao artista que tem tudo de pop latina (esse pequeno nicho do castelhano, português e portunhol, coisa pouca, o segundo do planeta), não era?

postais da xávega, torreira (5)

«Os Dias Cantados» e «A Cena do Ódio»

brilham na rádio pública lembrando os mais distraídos que é na rádio que estão alguns dos melhores textos: sobre a música que o 25 de Abril libertou e sobre os piores sentimentos que inspiraram as melhores canções.

Memofante

O ex-Secretário de Estado da Cultura   Francisco José Viegas, na sua coluna de 23 de Junho no Correio da Manhã, a propósito de um livro (Portugal em ruínas, da Fundação Francisco Manuel dos Santos) refere-se ao trabalho do autor, Gastão de Brito e Silva, dizendo que este fotógrafo “… reúne num pequeno livro ……….dedicado a espiar não só as ruínas dos monumentos, mas também os sinais e os testemunhos deixados pelo tempo em edifícios que tudo corroeu: a incúria, o desprezo, o desinteresse, a ignorância e a fúria da construção civil”. Termina o artigo: “São, por si só, diques que não resistiram à nossa passagem ou ao nosso esquecimento, a doença fatal de um país.”

 

Pois. Lembrei-me logo de quatro coisas, entre várias: a barragem do Tua, o acordo ortográfico, a reestruturação dos serviços da área da administração do Património Cultural (Museus, Arquivos, etc.), e os bens Património Mundial . E a propósito da passagem de Francisco José Viegas pelo Governo, lembrei-me também ( isto da memória é tramado! ) de um artigo de Vasco Pulido Valente (também ele ex-Secretário de Estado da Cultura) de 11 de Janeiro de 2009, no jornal Público, intitulado “Uma história portuguesa”, que não resisto a citar parcialmente (recomendo a leitura na totalidade), pois assenta como um fato da House of Bijan nos titulares da pasta da Cultura dos Governos Sócrates (especialmente Isabel Pires de Lima, Gabriela Canavilhas e Elísio Sumavielle), e nos titulares da área da Cultura dos Governos Passos Coelho ( Francisco José Viegas e Jorge Barreto Xavier.
Nunca a gente que ocupou o Ministério da Cultura conseguiu perceber que a sua principal responsabilidade era o património”.
E não se chega à presente catástrofe em menos de anos sobre anos de abandono e de incúria. Quando se pergunta como depois da democracia e da Europa acabámos nesta melancólica miséria, basta pensar na política de promoção e defesa do património cultural; no oportunismo, desorganização e pura estupidez de que ela precisou para durar.

Lapidar.

A Oeste nada de novo

Adaptação do romance de Erich Maria Remarque, por Lewis Milestone. Legendado. Ficha IMDB.

Eu pecador, não me confesso…

Coimbra é uma lição

Manif-Reitoria

Outono de 1570: o jovem rei Sebastião viaja até Coimbra, entra numa aula, e é recebido com uma enorme pateada. De imediato mete a mão à espada mas é serenado: tratava-se de uma tradição académica de reverência a sua majestade, uma honraria rara, uma praxe, dir-se-ia tempos mais tarde, e o rei sorriu, agradeceu, e segundo um cronista voltou todos os dias repetindo-se o enxovalho.

Verão de 2014: numa comemoração os governantes são interrompidos por

um grupo de estudantes repúblicos, empunhando cartazes e interpelando e interrompendo os oradores, recorrendo a linguagem rude e até a insultos.

As “provocações” estudantis fizeram-se sentir com particular intensidade durante a intervenção do presidente da Câmara de Coimbra, Manuel Machado. Neste contexto, o orador seguinte – o secretário de Estado da Cultura, Barreto Xavier – recusou-se a falar.

A enxovalhar governantes desde o séc. XVI, isto é que é uma tradição académica, centenária, património da Humanidade. Mai nada.

 

Imagem

O estranho caso de Élsio Menau

Forca

No país onde o Presidente da República hasteou alegremente a bandeira de pernas para o ar, um artista de street art algarvio, Élsio Menau, vai responder em tribunal por um trabalho de fim de curso que, apesar de ter recebido a classificação de 17 valores, foi considerado pelas autoridades como crime de ultraje à bandeira.

A imagem que podem ver em cima é talvez a que melhor ilustra este caso: procurando representar um país com a corda no pescoço, algo que corresponde, mais do que nunca, à realidade da esmagadora maioria da população portuguesa, Menau deu esta forma à sua ideia. Será que alguém realmente acredita que o objectivo seria o enxovalho deste símbolo da nação? Só por má fé ou pura estupidez.

A composição foi inicialmente instalada num terreno baldio, às portas de Faro, tendo sido removida 2 dias depois pelas autoridades. Estávamos em Junho de 2012. Apesar do sucedido, a obra esteve em exposição na Galeria de Arte do Convento de Santo António, em Loulé, entre Setembro e Outubro do mesmo ano. Curiosamente (ou não), Menau foi chamado a apresentar-se nas instalações da Polícia Judiciária da Quarteira apenas depois do insólito episódio do 5 de Outubro em que o senhor Aníbal hasteou  a bandeira ao contrário. [Read more…]

O “acordo ortográfico”

não unifica, não simplifica, nem reflecte qualquer evolução natural da Língua. «Ele foi antes orquestrado por um número muito reduzido de pessoas, em circunstâncias verdadeiramente penosas, para não dizer fraudulentas.»

Parabéns, Chico

Sou um gajo cheio de sorte. Tinha uns 12 anos e os meus pais deixaram-me ir, sozinho, a um concerto do Chico Buarque da Holanda em Coimbra. Foi o meu primeiro concerto, e este o primeiro LP que comprei.

Mais tarde assisti ao que deve ter sido o concerto com maior assistência de sempre em Portugal, o Chico na Festa do Avante.

Crescer a ouvir o Chico é um privilégio que não teve outra geração. Sou um privilegiado, portanto.

A Wikipédia, os professores e Aristides Sousa Mendes

aristides e cesar

Escreve hoje no Público a professora Maria do Carmo Vieira:

Se um professor pedir aos seus alunos que pesquisem na Wikipédia informação sobre Aristides de Sousa Mendes (ASM), sem antes ele próprio ter contado a história do cônsul de Bordéus e ter levado os alunos a ler e a analisar as cartas que escreveu, apropósito do inqualificável castigo de que foi alvo, os alunos deparar-se-ão com o exemplo flagrante da desinformação e do aproveitamento político da extrema-direita racista, em ascensão. O que foi um exemplo e um acto de grande nobreza é considerado um “crime”, por desobediência.

Dois comentários. O primeiro quanto à Wikipédia. Os professores portugueses têm com a Wikipédia o relacionamento tradicional que se tem perante o desconhecido. O facto de ser uma bojarda de todo o tamanho criticar um artigo quando o que temos a fazer é editá-lo, escapa-se-lhes: é malta que ainda não saiu da idade do papel, pensa que aquilo é escrito por alguém pago para o efeito como nas defuntas enciclopédias que se alimentavam de florestas de árvores assassinadas, e assim permaneciam, sem actualização, praticamente sem escrutínio, dignas do tempo em que o saber era unívoco e monopólio das cátedras. [Read more…]

Outra vez, Herberto?

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Herberto Helder é um poeta e escritor enorme – só não digo que é o maior poeta português vivo porque sou pouco dado a fazer estas proclamações, pelo menos sem passar todos os vates a fita métrica – e sempre esperei os seus livros com o afecto que se dedica àquilo que se ama. Mas desta vez, após ter vivido repetidamente esta cena – há livros que só possuo porque mão amiga, estando eu impossibilitado, me valeu – declaro que estou farto. Não me sujeito mais a ir para a fila dos ansiosos clientes ou a maçar os livreiros meus amigos para obter a raríssima e irrepetível edição de A Morte Sem Mestre.

A recorrente cena do “ou compras hoje ou nunca mais o vês” não terá mais em mim um expectante basbaque. Não sei se esta situação é uma técnica de marketing saloio um uma manifestação de egomania por parte do poeta. Herberto é magnífico. Herberto tem, entre outras virtudes, as de não nos massacrar com entrevistas, não espernear nos media para chamar a atenção, não fazer conferências a explicar o que queria dizer nos seus poemas. Ele é simplesmente grande no seu silêncio. Ele compreende como ninguém a importância do silêncio do artista e a autonomia do leitor. É no uso dessa autonomia aqui digo que não tenciono mexer uma palha para ter este último livro – esgotado em poucos minutos e já com oferta no mercado negro – nem tenciono alinhar, mais uma vez, no golpe de comprar a próxima Poesia Toda para preencher o vazio. Chega.