Postcards from the Balkans #16

A chuva em Zagreb, como se fosse outono. Tavez seja outono. Há um gato preto à entrada da Galeria de Arte Moderna. Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto…

capa

Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto. Reparar nos gatos. Neste gato preto à entrada da Galeria de Arte Moderna, alheio a quem passa, naquela posição tão tipíca dos gatos, aquela que todos sabemos desenhar desde pequenos. Um gato de costas. Coisa tão simples. Quem me dera que a minha vida fosse apenas isto, repito plagiando mais ou menos o mais simples dos heterónimos de Pessoa. Embora ele não falasse de gatos. Mas falo eu. Quem me dera que minha vida fosse apenas isto… reparar nos gatos em museus, nas cidades alheias, com se fosse próprio dos gatos estarem sossegados nos museus e de mim reparar neles. Para existir deve ser preciso pouco mais, estou segura. [Read more…]

Postcards from the Balkans #15

Das cores de Zagreb, dos homens bonitos de pedra ou bronze e de como, ainda assim, tenho saudades de Sarajevo.

15213_10204810445287234_5428553844662894752_n

Zagreb é uma cidade calma. Como já disse há poucos turistas e, sendo agosto, mesmo que os locais sejam em maior número que os forasteiros, a cidade está relativamente despejada de gente. Que contraste (magnífico) com Split cheia de italianos e americanos. Que contraste com a BiH, a terra onde o este encontra o oeste, a terra das mil casas de deus. Zagreb é, assim, uma cidade calma onde domina a casa do deus dos católicos. Tal como os outros países da antiga Jugoslávia também a Croácia foi palco de conflitos nos anos 90 que destruiram alguns monumentos e causaram mortos e feridos. Porém as consequências não foram tão desastrosas como na BiH, nem material nem culturalmente. Ao contrário da BiH, não encontramos aqui ruínas nem destroços da guerra. Tudo está arranjado, limpo e ordenado. [Read more…]

19 Agosto – Dia Mundial da Fotografia

Paulo Abrantes
Bayard

Se pudesse contar a história com palavras, não precisava de arrastar comigo uma máquina fotográfica.

Lewis Hine

A fotografia foi inventada para servir as artes e a ciência como um Janus de duas caras; marcada pela ambiguidade, nasceu como ciência e cresceu como arte. Talbot tinha uma frustrante negação para o desenho, e por isso se entregou devotadamente à pesquisa de um processo fotogénico permanente; a luz, esse «lápis da natureza», seria o substituto da sua mão desajeitada. Mas uma vez inventada, a fotografia foi logo posta por Talbot ao serviço das causas técnicas, por exemplo auxiliar na decifração de textos cuneiformes do British Museum, em que estava envolvido.
[Read more…]

Postcards from the Balkans #14

Broken hearts/ Cuori infranti / Coeurs brisés

10590539_10204802689653348_1206511185700679415_n
Um dos símbolos de Zagreb é um bolo em forma de coração, de erva doce. Há uns anos, na Roménia, comprei um coração desses – também populares lá – para levar a alguém em Portugal. Há um postal sobre isso. Acompanhava o coração de erva doce uma frase que vi escrita algures na bela cidade de Sighisoara: ‘you have to break your heart until it opens’. O coração acabou por ser comido fora do prazo, o de erva doce, quero dizer. O outro creio que nunca se abriu por mais que se tenha já partido. E não é do meu que falo.
Saio do hotel de manhã, na direção da cidade alta. Aí se encontra, entre muitas outras coisas admiráveis, um museu muito particular: ‘the museum of broken relationships’. Já lá iremos a esta mostra, entre o triste e o divertido, o desesperado e o esperançoso, o belo e o terrível, de despojos de relações interrompidas. Do hotel caminho pela rua Vlaska até à praça Josipa Jelacica. Há pouca gente, é agosto em Zagreb como em toda a parte, ainda que aqui quase não haja turistas, pelo menos à hora em que entro na praça e a atravesso devagar. É uma praça grande, com também grandes esplanadas, a estàtua de Josipa Jelacica no meio e elétricos. Há também uma fonte – Mandusevac – construída sobre uma nascente que, até ao século XIX abastecia Zagreb de àgua. As crianças chapinham por ali, com os cães. Tudo é calmo. [Read more…]

Tributo a Dóris Graça-Dias

doris

 

Está ainda por fazer, creio, uma Taxonomia das categorias de “Amigo” pós-facebook. A vox populi, no que concerne a este tema, não contempla, de forma assertiva, universal e comummente aceite, as novas “espécies” emergentes do conhecimento virtual e das tipologias de “afecto” do “encontro” e relacionamento por meios digitais.

A realidade re(conhecida) pela maioria não fugirá muito das categorias hierarquizadas abaixo, da mais intensa e relevante para a menos intensa e relevante:

Melhor Amigo

Amigo de Criação (dominado pela coincidência geográfica)

Amigo de “situações limite” – militares, bombeiros, etc.

Amigo de Infância, do Secundário, da Faculdade, do Trabalho

Amigos “coloridos”

Amigos “grosso modo”

Amigos “dos copos”

Conhecidos (com empatia)

Conhecidos (com antipatia)

Hostis (por razões várias)

Indiferentes (os restantes)

[Read more…]

Postcards from the Balkans #13

Lei è italiana? o un viaggio sul treno tra Spalato e Zagabria

10565119_10204795282948185_66118139906038333_n

Raras vezes me senti tão contente em abandonar um sítio, como hoje, ao sair de Split (Spalato em italiano). Contente como em feliz. Nem a mala que arrastei até à estação me pesou, nem o sol me queimou. Leveza, alívio, contentamento profundo, foi tudo o que senti. Ainda sinto, agora que estou já em Zagreb (Zagabria, em italiano), cidade que em duas ou três horas apenas me parece encantadora, humana e acolhedora. O hotel é maravilhoso (Art Hotel Like). O quarto onde estou tem uma pequena mezzanine e uma decoração muito bonita. Tem uma janela enorme que dá para o cruzamento entre a rua Vlaska e a rua Draskovica. O centro é logo ali e reina a calma. A cama é fofa e branca e, portanto, estou nas nuvens. Até ver. É certo que depois de Split qualquer sítio me pareceria o céu. [Read more…]

Hipocondria em Agosto

Não sei como é convosco, mas eu, se tenho uma dor de cabeça, penso logo que é um tumor. Isto tem razões biográficas, ou pelo menos eu gosto de justificar-me assim, cresci numa casa onde a doença andava sempre a rondar, e aos oito anos já devorava a Enciclopédia Médica do Reader’s Digest com o mesmo interesse que dedicava ao Tio Patinhas.

Gosto desse jogo que consiste em levar a vida saltitando entre a alegria quase infantil e a angústia existencial, e só não sou, se é que não sou, uma hipocondríaca insuportável porque tenho gente de quem me ocupar, o que é, de resto, o melhor que pode acontecer a um hipocondríaco.

Há dias fui ao médico por uma razão tão absurda que até tenho vergonha de contá-la. Claro que, racionalmente, eu tinha motivos para estar preocupada, há sempre motivos para uma pessoa se preocupar, que diabo. A minha maleita seria, no pior dos casos, algo que poderia matar-me, e no melhor uma coisita de nada. Os sintomas agravavam-se enquanto um funcionário ensonado teimava em escrever mal o meu nome. Eu aqui a morrer e ele a trocar letras, pensava, hão-de encontrar-me caída na sala de espera, e as minhas última palavras serão “não é com O, é com U”. [Read more…]

Música da semana – V

A Escandinávia parece ser um inesgotável filão de excelente música…

 

Postcards from the Balkans #12

‘They live to make babies. They live just 24 hours. They sing and make babies. Then they just explode’

Ou Split: Sea, Sun, Shopping… Shit.

10257141_10204786960980141_8486265695515167263_n
Os livros que me trouxeram hoje os simpáticos rapazes do bar Marvlvs, com as contas, uma do café que bebi ao fim da tarde, outra da cerveja (Pan, uma cerveja croata) que estou a beber agora foram, respetivamente Life of Pi e Biosupruga, este último de um escritor Croata de quem nunca ouvi falar (Michal Viewegh) e que parece que significa ‘mulher natural’. Bem, continuo sem perceber se há um critério para os livros que trazem aos clientes… de qualquer maneira, sei já que não têm livros portugueses, pelo que, quando chegar a Portugal vou mandar um livro português aos rapazes do Marvlvs que são a simpatia em pessoa. E a música, senhores, é perfeita. Gostei do gesto do me trazerem um livro croata, como que a dizerem que me sinta em casa. E sinto. [Read more…]

Postcards from the Balkans #11

‘One hundred years of solitude’

10574326_10204780334694488_2487814716348072975_n

Este postal vai começar ao contrário, porém as fotografias estão na ordem certa. Ao contrário do postal e dos meus sentimentos. Tenho as emoções completamente abaladas e acreditem que as cervejas que já bebi hoje (vá foram só algumas, não exageremos) nada têm a ver com isso.

Esta foi a segunda vez que pus os pés na Croácia. A primeira foi há exatamente 11 dias, em Zagreb, de passagem para Ljubljana. Depois de amanhã – quem me dera que fosse já hoje, agora mesmo – voltarei por uns dias a Zagreb antes de voltar a Lisboa, recuperar as chaves de casa e retomar a minha vida. Bem sei que esta é também a minha vida, mas as férias são sempre um intervalo, uma pausa. O tempo em que a minha vida se assemelha mais à literatura. Estou-me a plagiar. Já o disse o ano passado. Isto mesmo, muito embora por razões absolutamente diferentes. [Read more…]

Postcards from the Balkans #10

Dangerous ruins. As cigarras, ainda e, não, não sou italiana.

10612722_10204773194035976_7769004146699357257_n

O meu último dia na BiH. Amanhã, relativamente cedo apanho o autocarro para Split. Quatro horas de autocarro. Comboio só até Ploce e depois teria de depender dos horários dos autocarros daí até Split. O bilhete custou menos de 10 euros. São 111 km, mais um menos outro o que, atendendo às quatro horas indicadas, indicia uma viagem com paragem em todas as terreolas. Seja.

Falei nos 10 euros do bilhete. E devo dizer que o custo de vida na BiH (ainda que em Mostar, devido ao facto de ser um sítio muito turístico, as coisas sejam ligeiramente mais caras que em Sarajevo) é barato. Barato para nós, os visitantes estrangeiros, mesmo se portugueses. Para os habitantes, as coisas serão de outro modo, suponho. Diz-me o meu guia que os salários são miseráveis. Acredito. Não tive coragem de perguntar a ninguém. Mas hoje de manhã um dos empregados do hotel disse-me que já era o terceiro turno seguido que fazia e que queria ir para casa. Outro, agora há pouco, diante da minha pergunta (porque o vi desde manhã à noite aqui) se não descansava, respondeu-me que só tem folga de 15 em 15 dias. Isto nada diz sobre os salários, é certo, mas diz alguma coisa sobre o trabalho. Ou a falta dele. Em Sarajevo, alguém me disse que na BiH a taxa de desemprego é de 40%. Quarenta por cento. Voltando aos preços, por exemplo uma refeição completa pode comer-se por menos de 8 euros. Uma garrafa de Sarajevska (a cerveja que tenho bebido) custa menos de 1 euro e um maço de tabaco (não me chateiem vá, comprei slims) 2 euros. As pessoas fumam, aliás, em qualquer lado. Se há país onde se fuma é este. Eu, sosseguem, tenho-me mantido nos meus 10 a 12 slims, mais um, menos outro. [Read more…]

Arte-Assistência

14651578364_0a89a95643_k
© Fernando Aguiar, Troika e Crises

Dando continuidade à iniciativa que teve lugar nas ruas de Lisboa, no dia 21 de Agosto, a Casa da Liberdade – Mário Cesariny inaugura “Arte – Assistência: 15 artistas para AMI(gos)” – uma exposição mais alargada com trabalhos originais de todos os autores que participaram da 3ª edição de “Arte Urbana em Mupies”.
Autores: Alberto Pimenta, Albino Moura, Alfredo Luz, Cabral Nunes, Carlos Zingaro, Eurico Gonçalves, Fernando Aguiar, Fernando Grade, Henrique Vaz Duarte, João Garcia Miguel, Jorge Pé Curto, Manuel João Vieira, Maria João Franco, Raquel Rocha e Vítor Rua.

CASA DA LIBERDADE – MÁRIO CESARINY | Rua das Escolas Gerais nº 13 – 1100-218 Lisboa
De 2ª-feira a sábado das 14h às 20h | Tel.: 218822607/8

Postcards from the Balkans #09

A grande beleza da Bósnia. O insuportável calor da Herzegovina. Um filme de Emir Kusturica e as cigarras de Mostar.

10492354_10204765410641396_7836230596340105073_n

A BiH não é um país fácil. As razões são muitas. E não tenho tempo (nem rede, neste momento) para enumerar todas. As pessoas ora são simpáticas, ora extraordinarimente rudes. A paisagem ora lembra o paraíso (como se eu soubesse o que é o paraíso), ora o mais profundo inferno (como se eu soubesse também o que isso seja). Ora descobrimos recantos de silêncio belo, ora encontramos a música mais atroz.

Saí de Sarajevo no autocarro das 11h30 em direção a Mostar. Um dos senhores do hotel levou-me a mala até à estrada, à entrada da cidade velha, para que eu apanhasse o táxi que me levaria à estação dos autocarros. Disse-me que esperava comigo e embora eu lhe tivesse dito que não era preciso, ali ficou. Enquanto esperávamos disse-me que eu tinha feito bem em ficar tantos dias (na verdade, não acho – e agora que estou em Mostar, até acho menos – que tivessem sido assim tantos), que uma cidade não se conhece em dois dias. Concordei e disse-lhe que, mesmo em cinco dias, não tinha visto tudo. Uma cidade como Sarajevo precisaria de uma vida inteira. [Read more…]

Lauren Bacall, 1924-2014

Bem me apetecia repetir aqui que hoje Bogart voltou a assobiar e ela foi ter com ele, e beijaram-se, e serão muito felizes na eternidade. Sucede que ambos estão mortos, a eternidade só existe na nossa memória e mais importante ainda: Lauren não foi só a companheira do grande actor que com ele contracenou em Ter ou Não Ter (um dos filmes da minha vida) ou À Beira do Abismo. Lauren Bacall foi uma grande actriz, uma das mulheres mais belas para os padrões de beleza do seu tempo, e ouçam aqui, cantava, e não era pouco:

Ouvido? Ok, agora o assobio e o beijo. Que beijo… [Read more…]

Postcards from the Balkans #08

‘I didn’t realize you’re a stranger’

10355834_10204757782370694_4641119680397796308_n
É interessante o modo como nos afeiçoamos a certos lugares. Ou como certos lugares se afeiçoam a nós. Tenho sentido isto, algumas vezes, em sítios muito diversos mas que talvez partilhem uma beleza imperfeita, uma conjugação do muito belo e do incrivelmente feio. Que talvez partilhem uma certa tristeza. Ou melancolia. Gosto de lugares assim. Ligo-me a eles instantaneamente, sinto-me completamente deles. Aprendo-os. Percorro-os como se tivesse sempre ali vivido, embora não distraidamente como nos lugares onde vivi. Aconteceu-me isto em Sarajevo.

Hoje não vi cemitérios, nem memoriais aos mortos. É o meu último dia em Sarajevo. Vivo os lugares dos vivos. Mesmo se é impossível ignorar a melancolia que têm os lugares e as pessoas onde e a quem aconteceu um grande sofrimento. [Read more…]

O Captain! My Captain!

RW 1

 

(Robin Williams 1951 – 2014)
O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;

[Read more…]

Postcards from the Balkans #07

Srebrenica ou a tristeza no fim de uma estrada demasiado bela

10580046_10204750587070816_4086585199924345512_n

Levanto-me às sete da manhã em Sarajevo, depois de ter dormido quatro horas. Viajei cinco horas hoje. As primeiras duas horas e meia entre Sarajevo e Srebrenica. As últimas duas horas e meia entre Srebrenica e Sarajevo. A mesma estrada, que serpenteia entre as montanhas. Uma estrada bela, muito verde, escoltada pelas florestas, pelos montes de palha, pelas aldeias onde as casas tradicionais começam a desaparecer, dando lugar a edifícios que, ainda que muito feios, não conseguem arruinar (ainda) a tranquilidade e a harmonia desta paisagem. Aqui e ali pessoas trabalham nos campos. Há cabras. Ovelhas. Algumas vacas. De vez em quando, nas curvas da estrada, um velho carrega uma pá, um sacho, ou outra coisa qualquer, às costas e caminha. De repente, de manhã, há um vale cheio de nuvens, como algodão, que interrompe o verde e as curvas da estrada. O mundo está cheio de beleza.

Viajamos três. Eu, o guia*, que conduz o carro, quase sempre em silêncio e um rapaz holandês. E a velocidade e as curvas não deixam que façamos mais que contemplar longamente a paisagem. A Federação da Bósnia e Herzegovina e a República Srpska para onde nos dirigimos agora formam um ‘país’ tão bonito que é difícil acreditar que é o mesmo onde correu o sangue de milhares de pessoas ainda não há duas décadas. O ‘país’ que é (ainda) uma espécie de panela de pressão. As tensões internas são várias e a tensão com a Sérvia, ali mesmo ao lado, são evidentes em todas as narrativas. A Sérvia, a mãe de todo o mal. A mãe dos rios de sangue que aqui correram há pouco menos de vinte anos. Eis um resumo dessas narrativas. [Read more…]

Postcards from the Balkans #06

Sarajevo: 1425, 159, 329, 11000

ou o mesmo céu sob o qual vivemos

10550915_10204739421951695_5290180499279535085_n

Dizem aqui que se nunca vieste a Sarajevo, nunca foste a lado nenhum.

Sarajevo. O lugar que reúne 4 das casas de deus. O mesmo deus a quem se pedem desejos. Os mesmos desejos. Dizem aqui que se pedires a deus o mesmo desejo nas suas 4 casas (mesquita, sinagoga, igreja ortodoxa e igreja católica romana) obterás o que procuras. Não experimento, no entanto. Os meus desejos são simples e terrenos. Mais do que de deus – a existir seja em que casa for, ou em toda a parte – os meus desejos dependem de mim. Dos Homens, que vivem todos debaixo do mesmo céu. Qualquer que seja o deus – mesmo nenhum – em que acreditam. Os meus desejos são poucos, está bem de ver.

Sarajevo é um símbolo de multiculturalidade étnica e religiosa. Os sinos das torres das igrejas ouvem-se quase ao mesmo tempo que o chamamento (tão belo) para a oração dos muçulmanos. Os homens amam mulheres de outra religião. As mulheres amam esses homens. Como se a religião não importasse, num lugar onde importa tanto. Os mortos são, em muitos cemitérios (e há tantos cemitérios em Sarajevo!), enterrados debaixo da mesma terra. Com o mesmo céu por cima. Há beleza bastante em tudo isto. Há humanidade bastante em tudo isto.

Se vens a Sarajevo não é possível que não saibas, ou que não queiras saber, o que é, o que foi, o que há-de ser Sarajevo. Não é possível que não perguntes onde estava deus há quase 20 anos. Se escondido dos Homens, numa das suas 4 casas ou acima do céu sob o qual vivemos, o mesmo é dizer em lugar nenhum. [Read more…]

Elogio da pobreza (Osso Vaidoso)


Osso Vaidoso, do disco Animal (2011). A letra é da Regina Guimarães.

Postcards from the Balkans #05

‘Nasci solo muori solo, il resto è un regalo…’*

ou ‘It was terrible, terrible… still it was good’**

ou ainda Este é o (meu) sangue

10580059_10204731129704394_4119761959076398479_n

Fotografia: Tarik Samarah

Este postal começa ao contrário. A ordem das fotografias também está ao contrário. O mundo esteve (está) demasiadas vezes ao contrário, tornando-se o mal banal. A indiferença também. Afinal não é assim tão diverso.Eu hoje chorei. Porque vi o mal e me lembrei que o esquecera. Este mal. Sei que agora mesmo há outros, semelhantes, até nas razões. Sei também que muitas vezes, de forma mais ou menos (in)voluntária os vejo com distância, ou com indiferença, não sendo o mesmo, é. Eu hoje chorei e isso, na verdade, pouco tem de assinalável.

A mão aberta, com uma gota de sangue no dedo anelar pertence a uma mulher. Viva. Que testemunhou o mal como eu, vocês, ou seja, como a maior parte de nós nunca há-de testemunhar. A gota de sangue desta mulher serviu para determinar o dna dos corpos encontrados em valas comuns perto de Srebrenica e as relações familiares com os vivos. Mais de 8000 mortos, homens entre os 12 e os 77 anos. Arrancados às suas mulheres e mães, que uma década ou mais passada estendem as suas mãos, as suas gotas de sangue nos seus dedos anelares, em busca do único conforto possível: enterrar os seus filhos, maridos e pais. [Read more…]

Norte-americanos elegem Português do Brasil a 2ª Língua mais feliz do Mundo

adao_e_eva_g_guimaraes_cronica_radio_logo

Música da semana – IV

Novo álbum do músico de Bristol será colocado à venda no próximo dia 08 de Setembro.

Vítor Rua: o que ser músico significa

vitor_rua_01
Imagem daqui

A TSF tem uma rubrica chamada «A Playlist de…» (e a palavra playlist estraga logo tudo). Toda a sorte de mais e menos famosos entregaram já nas mãos da TSF as suas preferências musicais, confidenciando na rádio as histórias e razões ligadas às escolhas que compõem a dita … playlist, assim chamam na TSF à música da vida das pessoas. A ideia – pôr no ar música escolhida por quem a ouve e gosta dela, pelas razões particulares que nos ligam às coisas – é em si boa. É o tipo de programa que fica sempre bem numa rádio que quer ser o espelho da sociedade a que as suas emissões se destinam. É também um dever de pluralidade e de memória, em favor da música de diferentes gerações. A música que cada um ouve é uma parte de si. Para aqueles que não se importam de a partilhar, uma rubrica assim vem a calhar – e sortudos os que possam ouvir com agrado, e se possível empatia, essa música de razões subjectivas que a rádio transmite.

Mas a música que cada um ouve é também uma caixa de mistério, uma escolha que em princípio não responde a nenhuma razão mercantil, e que habitualmente não passa na rádio. Isso é bom, uma lufada de ar fresco na névoa pesada e repetitiva da música para grande consumo com que constantemente nos moem o juízo (mas não foi sempre assim). Claro que melhor ainda seria a rádio deixar-se justamente de playlists, que não servem nem a música nem os verdadeiros músicos (que também os há falsos, em grande número até), mas os interesses intermediários e parasitas da criação musical e das indústrias que gravitam em torno dela. Sucede que a dado passo também as rádios sucumbiram aos imperativos dos mercadores de discos, concertos e cervejas, e estragaram tudo (mas a XFM existiu mesmo, e não é possível esquecê-la).

Vem tudo isto que já vai longo a propósito da entrevista que Fernando Guimarães, homem da rádio e também do Aventar, fez a Vítor Rua, uma pessoa que aposto que jamais aceitaria participar numa rubrica chamada «A playlist de…». [Read more…]

Postcards from the Balkans #04

‘The objects in the mirror are closer than they appear’

10527629_10204723747039832_3262100756137282821_n
de Ljubljana para Sarajevo à hora do almoço. Despeço-me da cidade e das pessoas do Hotel Macek, que são tão simpáticas. Se alguma vez forem a Ljubljana ou lá voltarem e se gostam de coisas simples (e bonitas, para mim é mais ou menos o mesmo), fiquem neste pequeno hotel à beira do Ljubljanica.Apanho um táxi para o aeroporto. O comboio demoraria 10 horas ou mais. Não que não gostasse de fazer a viagem de comboio, mas o voo dura apenas 50 minutos e 10 horas, às vezes, são muito tempo. Perco muito, já o sei de outras longas viagens de comboio, em preferir o avião, mas ganho mais umas horas em Sarajevo, onde chego pouco passa das 3 da tarde. Recolho a mala, levanto marcos bósnios e vou à procura de um táxi. São 12 km até ao centro e não consta (o meu guia assim o diz, tal como as pesquisas que fiz no google) que vá encontrar um autocarro. O meu guia diz que negoceie o preço. Assim, pergunto ao senhor, de ar extraordinariamente simpático, quanto me leva. 10 €. Vamos. Vou abrir a porta de trás e ele pede-me que me sente à frente. Hesito uns segundos, seria má educação recusar e entro para o banco da frente.

O taxista pergunta de onde sou. Portugal. Ah, Portugal, futebol, Portugal, Cristiano… Ronaldo, termino eu. E rimo-nos. Depois, o senhor – que fala pelos cotovelos – pergunta-me coisas, fala do calor, responde às minhas perguntas sobre a Bósnia e Herzegovina (doravante, carinhosamente BiH). Pergunto sobre a vontade dos cerca de 4 milhões de habitantes em fazer parte da União Europeia. Entusiasticamente diz que muitos querem a adesão, incluindo ele mesmo. Mas, depois, cabisbaixo, como que a reconhecer o (que daqui a nada há-de ser, para mim) óbvio: nem em 10 anos. Pela janela vou vendo os subúrbios de Sarajevo. Feios, quase tenebrosos, com os seus prédios mal construídos ou, talvez mais adequadamente, reconstruídos, as suas oficínas, o seu lixo, o seu trânsito infernal…
[Read more…]

Postcards from the Balkans #03

‘Strawberry cakes forever’ e outras revelações

10557314_10204716135609551_601455223790232725_nOs lugares perfeitos não têm história. Um pouco como as pessoas, se as houvesse perfeitas. No entanto, estou quase certa que Ljubljana não é uma cidade perfeita. Tenho pouco tempo para o saber. Praticamente não vou além do centro e perco-o, de certeza, ao centro. Das coisas. Das estórias, quero dizer.

Mais do que faço nos lugares imperfeitos, ponho-me aqui a reparar em tudo, muito bem. Nas pessoas, nas janelas, nas paredes, nos parques, nas ervas e nos pequeníssimos malmequeres. Ljubljana é uma cidade cheia de parques e jardins, do grande Tivoli e da colina do castelo aos pequenos recantos, cheios de árvores e sombras. Não está demasiado calor, no entanto. De manhã decido ir à procura do quarteirão do parlamento, onde estão também os ministérios, as embaixadas e – o que mais me interessa – os museus, especialmente a Galeria Moderna.

Atravesso a ponte dos Sapateiros, viro à direita e logo à esquerda e estou de novo no parque Zvezda. Aqui, do lado esquerdo de quem sobe, um magnífico edifício da Universidade de Ljubljana. Meto pela rua Vegova cheia de escolas e cabeças de eslovenos ilustres. Uma rua muito sossegada e verde. Encontro ao fundo um monumento, escrito em francês, uma homenagem ao ‘soldat sans nom’. Há umas galerias de arte, pequenos museus, um teatro de verão, com um belo pátio. Sento-me na esplanada de uma praça. Os pardais voam muito depressa e, de repente, pousam por longos segundos nas mesas e nas cadeiras. Vários me visitaram a mesa. Foi por causa deles que levantei a cabeça, para acompanhar o voo e prever a próxima visita, e dei de caras com o nome da praça: Francoske Revolucije. Está então explicado o ‘sous cette pierre/ nous avons deposè tes cendres/ soldat sans nom‘. [Read more…]

Postcards from the Balkans #02

‘Dum vita est, sevdah est’*

IMG_2142 (2)

Levanto-me cedo, para meu hábito. Ljubljana é uma cidade pequena. A Eslovénia é um país pequeno. 2 milhões de habitantes ao todo, no país. Cerca de 900 mil na cidade. Pouca gente. E nota-se. Já ontem mencionei o silêncio. Está em toda a parte e é perfeito. Ljubljana é a cidade perfeita, para quem aprecia este género de perfeição. Eu gosto. Mas prefiro – ou aprecio mais – lugares menos perfeitos. Já o silêncio… bate-me em cheio no corpo quando saio do hotel e meto pela minúscula viela que vai dar à praça Mesint com a fonte dos três rios no centro e as torres da igreja de S. Nicolau atrás.

O silêncio leva-me ao mercado, na praça Vodnikov. Incrivelmente – trata-se de um mercado – o mesmo silêncio, que explode nas cores das frutas, dos legumes, das flores. As cores são a única coisa que interrompe o silêncio, especialmente o longo amarelo dos grandes girassóis. Passeio entre as bancas. Fotografo uma senhora que vende legumes. As flores. Outra vez as flores. Depois vou à procura do funicular para o castelo. Podia subir pela Studentovska, mas a rua parece-me íngreme demais (se tivessem os meus pés, compreendiam). [Read more…]

Canções de uma mesma chama de secreta gravidade [Textos sobre música portuguesa V]

misia_02

«Um dia vou abrir o frigorífico e vai estar vazio», pensou certo dia Mísia quando, sozinha e angustiada em casa, pensava na crise e no seu futuro. «O que é que eu vou fazer? O que é que eu vou comer?», interrogou-se a cantora melodramaticamente à boa maneira portuguesa: sempre com a fome no pensamento. Assim nasceu o menu de canções que constitui o seu último trabalho, Delikatessen Café Concerto (2013), um jantar musical cozinhado com as suas melhores canções, e um punhado jeitoso de convidados à altura de tão finas iguarias: Iggy Pop, Adriana Calcanhotto, The Legendary Tigerman, Dead Combo, Ramón Vargas e Melech Mechaya. Para eles, e com eles, Mísia serviu canções portuguesas, francesas, boleros e tangos, afastando-se um pouco do seu caminho de fadista, embora não completamente, pois tudo o que canta se transforma de certa maneira em fados.

No final de 2011, Mísia editou Senhora da Noite, uma senhora que esconde treze outras senhoras: trata-se de um conjunto de treze temas, escritos por outras tantas autoras, de Amália a Aldina Duarte, passando por Florbela Espanca, Natália Correia, Lídia Jorge, Hélia Correia, Rosa Lobato de Faria, Amélia Muge, Adriana Calcanhotto ou a própria Mísia, num disco que celebrou o génio criativo feminino e constituiu um regresso ao Fado mais tradicional – tanto quanto a tradição pode casar-se com a modernidade do estilo de Mísia. [Read more…]

Postcards from the Balkans #01

Entre Zagreb e Ljubljana

1
levanto-me em Lisboa às 4h30 da madrugada. Levanto-me como se tivesse dormido e não dormi. Ninguém se levanta à hora a que se deita. No aeroporto a confusão do costume, talvez um pouco menos já que é cedo demais. O voo sai a horas. Chega a horas. O voo, eu e a mala. Mal chego a Zagreb vou para a estação de comboios. Não sei porquê, convenci-me que iria apanhar um comboio rápido e moderno. O que me espera é, convenhamos, bastante melhor que isso. É lento e antigo. Entro num compartimento onde está um casal. O senhor – que novidade, claro, já se sabe que, não sei porquê, nunca chego verdadeiramente a tocar nas minhas malas, quando viajo – agarra-me na mala e coloca-a na grade, por cima da minha cabeça. As janelas do comboio vão abertas. Tenho sono. Mas é bom por a cabeça de fora e rir-me para os girassóis nos campos. [Read more…]

Música da semana – III

Último single do álbum “Morning phase”, o 12º em estúdio na carreira do californiano Beck Hansen, músico que já passou diversas vezes em Portugal e que tive a grata oportunidade de assistir ao vivo…

Reaparição de Luiz Pacheco

arara

Quando o Luiz Pacheco esperava a morte num lar no Príncipe Real, em Lisboa, fiz-lhe uma entrevista que a revista do Público fez o favor de publicar, dando honras de capa ao mal-escrito (i.e., ao maldito, na sua própria e justíssima definição). Depois disso, passei a visitá-lo regularmente, a cada vez levando-lhe as suas bolachas predilectas: as araruta, que ele adorava, e podia comer à vontade, e que eu procurava identificar em diferentes lojas, versões e receitas, um jogo prazeiroso porque eram difíceis de encontrar. Bolachas antigas, para pessoas antigas, diziam-me os poucos que sabiam o que eram.

Uns meses depois de o Pacheco morrer, apareceu por esses dias na escada do prédio uma pequena arara que alguém acorrentou dentro de uma gaiola e que era estranhamente parecida com ele. A aparição seguia de perto uma outra de Fernando Pessoa, com que António Manuel Venda havia sido contemplado na parede da sua casa-de-banho – um lugar bom como qualquer outro para uma aparição. A mim coube-me o Pacheco, na forma dessa arara que passou uns dias no segundo andar, a fazer de porteiro do patamar, espreitando sem pudor os que subiam e desciam, sobretudo as mulheres.

A noite passada, num sonho maluco, voltei a ver o Luiz Pacheco, desta feita entretido a tratar das frutas e legumes da mercearia da Dona Joaquina. Fui lá comprar pão alentejano e eis que sou recebida pelo Pacheco, enfiado atrás do balcão da Joaquina como se fosse o seu lugar natural. Nem perguntei pela Joaquina, de tal forma me encheu de alegria o reencontro com o Pacheco. Perguntou-me se eu queria pão de Évora ou se preferia o da Vidigueira. Respondi o da Vidiguêra, perguntei como ia a morte, disse-me que era um descanso, quis saber da minha vida, disse-lhe que era uma canseira, despedi-me dele apertando-lhe as mãos esguias, aquilinas (de águia, lá está) como narizes e de unhas finas, e realmente muito parecidas com patas de ave.