Mário Soares: não vamos ver isso nas eleições?

Mário Soares tem vindo a fazer frequentes declarações nos jornais o que não augura nada de bom. Na base das suas preocupações está o facto de que a maioria das pessoas em Portugal seria de esquerda pelo que não se entende que a direita possa ganhar as eleições do próximo dia 27.

Mas não é isso mesmo que se vai ver com as eleições? Se o país é ou não de esquerda, neste momento? Ou melhor, se a política seguida nestes quatro anos por Sócrates merece a concordância do pais?

Mário Soares promete que se a direita ganhar a esquerda deve ir para a rua manifestar-se. Eu também irei se a direita quizer desmantelar o Estado Social mas temo que o alfa e o ómega estão na capacidade de criar riqueza, regular uma economia social de mercado, sem o que, aí sim, o Estado Social não é suportável.

Os socialistas “sentaram-se” no Estado e nas grandes empresas públicas, em meia dúzia de grandes grupos económicos e esqueceram-se que o nosso tecido empresarial é basicamente constituído por 300 000 PMEs que representam 70% do emprego e 90% da riqueza criada.

O desemprego é por aqui que se ataca não é inundando os bancos de dinheiro que depois não chega à economia, como muita gente os avisou. Não se ataca o desemprego e o miserável crescimento económico com empresas em monopólio, ganhando rios de dinheiro que, na falta de concorrência, não são mais que impostos travestidos de lucros, pois pagamos os produtos e os serviços mais caros da Europa.

E, por último, José Sócrates por quem o país tem uma espécie de “comichão” sempre que o vê com as suas mentiras, os seus casos, a sua falta de credibilidade.

Pois é, Dr. Mário Soares , as regras do jogo são estas e não outras. O povo é quem mais ordena!

Kindle surpresa (eu sei, eu e os trocadilhos não… pois)

Não sou um velho do Restelo, acreditem. Até estava disposta a experimentar o famoso Kindle (o novo leitor de livros electrónicos). Não abdicaria por inteiro do livro em papel, não chega a tanto a minha abertura de espírito, mas estava disposta a dar uma oportunidade a este novo mundo do livro electrónico. O nosso aventor Carlos Loures já havia feito uma lúcida análise deste tema no seu texto “No aniversário de Ray Bradbury – livro vs NTI” e eu, com todo o carinho que tenho pelo velho Ray, ia fazer ouvidos moucos das suas advertências. Mas eis que me chegou aos ouvidos que a Amazon, justificando-se com um problema de direitos de autor, apagou dos aparelhos Kindle os exemplares de “1984” e “Animal Farm”, de George Orwell, que haviam sido comprados e descarregados por vários dos seus clientes para o respectivo aparelhito. (notícia da AP disponível aqui.) A empresa oferece-se agora para reembolsar os lesados ou devolver-lhes os livros que haviam sido apagados, mas a sombra negra que este acto gerou é que já dificilmente se dissipa. A Amazon pode apagar um livro do Kindle depois deste ter sido comprado e transferido para o leitor?

Isto significa que pode aceder ao aparelho e saber quais os livros que compramos, que leituras preferimos, e até consultar as notas que tomamos, os sublinhados que fazemos, o que destacamos de cada página que lemos? Pode armazenar dados sobre as nossas preferências? Pode apagar, quando assim o decidir, aquilo que considera que não devemos ler? Pode enviar-nos os livros que entende que devemos ler, introduzindo-os no aparelho sub-repticiamente? Haverá um olho perpetuamente vigilante do outro lado do aparelho, a acompanhar a nossa leitura, a tomar nota dos bocejos ou dos sorrisos cúmplices que cada página nos desperte, a avaliar e a medir o tédio com que encerramos o ficheiro de um livro ou o entusiasmo com que sublinhamos passagens? Não, fiquem lá eles com o Kindle, que eu vou fazer caso ao velho Orwell.

Alberto João, taxista madeirense

Manuela Ferreira Leite usou hoje um carro do Governo Regional da Madeira, pertença do Estado Português, para fazer campanha eleitoral no Funchal. A líder do PSD fez várias deslocações na viatura oficial, ao lado de Alberto João Jardim, numa visita à ilha que foi sempre apresentada com uma acção da campanha eleitoral do PSD.

E ainda diz que a asfixia democrática é só no continente. Eu gosto da expressão asfixia democrática. Não sei porquê recorda-me o falecimento de David Carradine, deve ser por causa da corda no pescoço, e abre caminho para outras expressões: cólica democrática, eructação democrática, fobia democrática, é todo um mundo de figuras de estilo que se abre perante nós, que não andamos no mesmo táxi, nem temos pena.

Actualização:

Este comentário à notícia é fantástico:

Só se esquecem que a maioria dos portugueses não são burros. Percebem bem que a Dra. Manuela Ferreira Leite não procura qualquer proveito a partir daí. Percebem bem, que quase todos os seus governantes, fazem deslocações privadas no seu automóvel de estado. Mais, não é raro ver membros do governo chegarem a “convenções partidárias” nas viaturas oficiais.
A quem aproveita esta tempestade num copo d’água?
Mesquinhez… Pequenez.

Um bom exemplo de eructação democrática, onde ainda se acrescenta que foram só 500 m, com o taxímetro desligado. O que esta gente não conhece é a palavra princípios. Quando olham para ela, a 1 cm, 500 m ou 300 km, ficam com a vista enublada e acham-na de uma pequenez microscópica.

Agarrem as carteiras

Isto está a refinar, bué!

Um concurso para uma autoestrada ganho pela Mota/Engil do Jorge Coelho, que tem que passar por um terreno de Américo Amorim. Este protesta (não sei se pelas vias competentes)e a autoestrada já atribuída por concurso, é desviada do tal terreno (porque pode passar por um terreno e não por outro? pois…)

O novo traçado eleva para quase o dobro o custo da obra, o que seria mais que suficiente para fazer novo concurso. Nem pensar, o concurso está atrabuído e assim fica.

Diz Louçã que o aumento do preço é qualquer coisa como ir buscar ao bolso de cada um de nós 100,00 euros (vezes 5 milhões, é só fazer as contas…)

Tudo lícito, legal, normal, expedito, simplex, coelhone, socrático, xuxialista…

Cartazes das Autárquicas – Castelões (Penafiel)

PSD Castelões

Ricardo Duarte, PSD (Actual Presidente)

POEMAS DO SER E NÃO SER

A razão

 

A razão

tamanho de todos os céus

no silêncio de sonho-menino

os olhos cheios de serenas manhãs

na frouxa luz do fim da tarde.

A razão

palavra que se prende

por entre as folhas dos álamos

a doce margem de um regato

no sobressalto do pensamento.

A razão

saber se o tempo vai se o tempo vem

no calendário do sonho

não dar contas ao tempo

de um tempo que se não tem.

A razão

semente branca da vida

no fruto maduro da tarde

a esperança dos olhos frios

na quente ilusão de outro dia.

A razão

três lágrimas vertidas

na corrente do alto rio

um redemoinho de pedra e água

brincando à beira do abismo.

A razão

coração bem apertado

nos braços da solidão

a felicidade cantada

sem voz nova na garganta.

A razão

a firmeza do vento

no rio que não volta atrás

…ou a leveza do luar

nas margens da sombra.

A razão

coração cravado na erva

espantalho de emoções

longos braços de palha

entrelaçados de ilusões.

 

                              (adão cruz)

(adão cruz)

A formidável derrota de Maria de Lurdes Rodrigues: Balanço de um mandato (2005)

No final de um longo mandato de 4 anos, é hora de fazer o balanço de Maria de Lurdes Rodrigues como Ministra da Educação.
Dividirei este balanço em cinco «posts», escritos através de uma leitura atenta da Bíblia dos Professores, «A Educação do Meu Umbigo», do Paulo Guinote, e através da minha visão pessoal dos acontecimentos.
Irei procurar caracterizar aquela que foi, na minha opinião, uma formidável derrota da mais duradoura titular da pasta da Educação em Portugal no pós-25 de Abril. Maria de Lurdes Rodrigues deixa uma classe de professores unida como nunca esteve e admiravelmente preparada para lutar pelos seus direitos; e deixa milhares de alunos muitíssimo mal preparados para o futuro que é, afinal, o futuro de Portugal. Mais mal preparados do que alguma vez estiveram, apesar das estatísticas – a única preocupação da Ministra ao longo de quatro anos – dizerem exactamente o contrário.
Uma Ministra que tomou posse em 12 de Março de 2005. Uma antiga professora primária, que fez o curso do Magistério Primário como forma de acesso à função pública. Omitindo estes factos, o «curriculum» oficial revelava-nos uma socióloga formada no ISCTE e cuja experiência profissional nos vinte anos anteriores se resumia a muita teoria – projectos de investigação, representações em grupos do Eurostat e da OCDE, liderança do Observatório das Ciências. Em termos de prática, leccionou no ISCTE e pouco mais.

Referi antes que a preocupação com as Estatísticas comandou o mandato de Maria de Lurdes Rodrigues. Aliás, já em finais de 2005,
Paulo Guinote insurgia-se contra essa verdadeira obsessão que dominava a Educação em Portugal. Ou queremos um sucesso educativo estatístico, mesmo que à custa de uma galopante iliteracia funcional, e então está certo continuar a soterrar em papelada a questão da avaliação dos alunos e a acusar os docentes de serem os culpados de não conseguirem encontrar a solução para o insucesso dos alunos, ou queremos uma sucesso educativo efectivo, só possível com o aumento do rigor, do esforço e do grau de exigência colocado a TODOS os agentes no processo educativo (alunos, docentes, famílias e poder político), recuperando a Escola como um local de trabalho e fruição e o Professor como alguém que não é um mero gatilho da aprendizagem mas um guia dessa aprendizagem, qualificado para o efeito e digno do respeito dos seus alunos, dos seus pares profissionais, das famílias e da sociedade.Mas para isso era necessário reformar a Educação a sério e não limitar a intervenção à cosmética legislativa do costume

As aulas de substituição estavam então na ordem do dia. Aulas de substituição que foram implementadas, relembre-se, a meio do 1.º Período, já com o ano lectivo a funcionar em pleno. De repente, tiveram de ser feitos, em cada escola, novos horários para os professores, mexendo, em consequência, com os horários das próprias turmas. Não foi dado tempo às escolas para se prepararem, não foi anunciado que no ano seguinte iriam começar as aulas de substituição – não, tinha de ser de imediato porque a estratégia junto da opinião púbica era mesmo essa.
Paulo Guinote ainda admitia que tanto pode correr mal como bem, mas desde cedo se notou que tudo não passava de uma encenação e de uma palhaçada que tinha como único objectivo manter os alunos enclausurados dentro de uma sala de aula durante todo o tempo que estavam na escola. Era assim na altura e continua a ser assim agora, mesmo que o assunto tenha deixado de ser notícia. As horas que são gastas de forma estapafúrdia podiam ser aproveitadas em horas de apoio para os alunos com dificuldades, mas a Ministra da Educação pensará que é melhor que os alunos nada façam durante 90 minutos desde que ninguém os veja no recreio.
Como já escrevi aqui, os alunos que se esforçam, mas não conseguem, é que deviam ser apoiados com aulas de recuperação constantes às disciplinas em que têm dificuldades, em vez da fantochada que, hoje em dia, continuam a ser as aulas de substituição.
É tempo perdido para os alunos, que nada aprendem enquanto estão nessas aulas. O que vêem à sua frente é um professor que não conhecem, que não respeitam e que nada percebe daquela disciplina, mesmo que leve uma ficha de trabalho deixada pelo colega em falta. Admito aula de substituição no caso de ser leccionada por um professor da disciplina, nada mais, e apenas para o ensino básico.
Curiosamente, porque o professor tem de estar na escola um número determinado de horas, é colocado em aulas de substituição, ou então na Biblioteca, Sala de Estudo, etc.. Se está em aula de substituição e nenhum colega falta, fica na Sala de Professores, duas horas ou mais, sem fazer nada. Se vai para a Biblioteca, Sala de Estudo, etc.., nada tem para fazer, porque os alunos estão em aula ou em substituição, por isso não podem sair da sala. Não seria difícil aproveitar melhor o trabalho dos professores de forma a beneficiar também os alunos, sobretudo através de aulas de apoio individuais para todos os que precisassem.

(continua)

Francisco Leite Madeira – Mais eleições: O circo vem aí!

O circo vai continuar por aí, com palhaços além de malabaristas, trapezistas, ilusionistas e vigaristas

Tendo ainda presente o resultado das eleições europeias de há pouco mais de um mês em que, como escrevi, “o eleitorado deixou claro estar farto da ineptocracia socialista, de muitas promessas e de estórias da treta, ansioso por dias melhores”, aí estão à vista as legislativas, primeiro, logo seguidas das autárquicas. Dir-se-ia, termos mais um mês com o “circo” que vai chegando em ritmo de marchinha brasileira

Ai, o circo vem aí!
Quem chora tem que rir
Com tanta palhaçada!
Tem hindu que come fogo,
Faquir que come prego,
Mulher que engole espada.
Tá na hora!
Olha, bota o palhaço p’ra fora!

Que bom seria poder encarar-se com essa ligeireza a situação em que o País mergulhou, agravada que está, sem dúvida, pela crise assaz complexa que o mundo atravessa. O País anseia por uma vida melhor e, desiludido das promessas não cumpridas pela governação socialista, aguarda uma revisão de políticas que sejam adequadas à realidade, assentes na verdade e na sua exequibilidade.

Sem ir muito longe, esquecendo diversos aspectos relacionados com a promessa de consolidar as finanças públicas, incluindo o não aumento da carga fiscal já de si enorme e a contenção da despesa pública do Estado, que falhou, cabe salientar dois aspectos onde a evidência do não cumprimento das promessas eleitorais de 2005 foi dramática sem lugar, para qualquer dúvida:
1. Foi prometido reduzir a taxa de desemprego em Portugal ao longo da legislatura 2005-2009, mercê da criação de 150 mil novos postos de trabalho; ora, foi ao invés, como é do domínio público e a taxa de desemprego subiu para cima dos 9% e existem em Portugal presentemente mais de meio milhão de desempregados, tendo ultrapassado 150.000, os que nos últimos tempos engrossaram as estatísticas do desemprego.
2. Foi prometido aos Portugueses “voltar a aproximar, de forma decidida e sustentada, do nível de desenvolvimento dos países mais avançados da União Europeia”, devendo entender-se que isso significaria uma convergência como a que se verificou em resultado das políticas dos Governos da República de 1985 a 1995; ora, sucede que em 2005, Portugal no ranking dos 27 países da UE, ocupava a 18ª posição, com o PIB per capita equivalente a 76% da média europeia e em 2008 embora mantendo a mesma média, baixou para a 19ª posição, o que significa ter divergido e não convergido.

Para além das limitações de espaço, seria fastidioso fazer uma escalpelização do rol de promessas socialistas de 2005, a nível nacional, de que ninguém já tem qualquer dúvida. Importa no entanto, simplesmente, evocar os reflexos negativos que também as políticas do governo de Sócrates, tiveram para a Região, nomeadamente, os resultantes da famigerada Lei das Finanças Regionais que foram, inclusivamente, objecto de um estudo de docentes da Universidade Católica Portuguesa, já reportados pela media.

Posto tudo isto, é importante ter presente que as eleições de 27 deste mês, são para a Assembleia Legislativa e que, não obstante algumas tentativas de determinados políticos e politiqueiros, quiçá menos bem intencionados, “confundindo”, procurem associar à governação da RAM, o que só acontecerá daqui a dois anos por ocasião das eleições regionais. Na mesma linha, convém não esquecer tampouco que a “sujeição” à disciplina partidária – isto aplica-se a todos os partidos – normalmente condiciona o sentido do voto dos deputados eleitos pela RAM para São Bento, por muito “boas e bem intencionadas pessoas” que possam ser. Daí a importância da reflexão desapaixonada por parte de todo e qualquer eleitor, a ponderação antes de decidir em que partido votar – é Portugal que está em jogo.

Em 11 de Outubro há mais eleições, as autárquicas, que abordarei em próximo artigo – o circo vai continuar por aí, com palhaços além de malabaristas, trapezistas, ilusionistas e vigaristas.

Publicado também no Diário de Notícias da Madeira

Sondagem – o "centrão" a caminho ?

Aqui vai com a convicção que daqui a menos de dois anos vamos novamente a eleições.

PS – 34.5%

PSD – 28.9%

BE – 10.4%

CDS – 8,1%

PCP – 7.8%

O PCP parece baixo do que vale. O BE idem. A diferença entre os dois primeiros alargou-se o que é contraditório.

Esperar para ver.

ETICA E EDUCAÇÃO (5)

ETICA E EDUCAÇÃO (5)

Considerações sobre Educação

Ao apresentar-me, assim, como tecnófilo, fazendo a apologia da ciência e da tecnologia como novos caminhos que permitem coisas novas, não deixo de ter em atenção a posição dos tecnófobos que atribuem à ciência um cunho elitista, considerando-a parte de uma invenção diabólica que apenas serve de instrumento neo-liberal indispensável à melhoria das performances económicas. Neste sentido, a ciência passa a ser uma força de produção mais associada ao desejo de enriquecimento do que à produção do saber. Daqui a grande confusão, ou mesmo contradição, entre a maravilha da ciência e a perversidade das suas aplicações. Não podemos conceber, no entanto, um desenvolvimento sem ciência, a grande luz contra todos os obscurantismos. Podemos e devemos, isso sim, ter sobre ela uma visão crítico-dialéctica, reconhecendo o seu incomensurável papel no desenvolvimento da humanidade e não desprezando os seus grandes perigos. Um campo infinito, apaixonante, conflituoso e imparável, que tanto pode ser usado para a consolidação de um poder dominante, como pode estar ao serviço da democracia e de uma sociedade mais verdadeira mais progressista e igualitária. O mal não está na ciência mas no uso negativo que Homem lhe dá. (Continua)

                             (manel cruz)

(manel cruz)

Falando de democracia: A nave dos loucos (caos e democracia)

loucos
Na passagem do século XV para o XVI, um escritor alsaciano de língua alemã, Sebastian Brant (1457-1521), um jurista formado em Basileia, escrevia, em 1494, uma obra, Das Narrenschiff ou Stultifera navis, na versão em latim. Obra que, sem grande mérito literário, teve uma grande repercussão não só na sua época como nos tempos que se seguiram. Chegou o seu eco até aos nossos dias. Para um escritor menor, ser recordado ao longo dos quinhentos anos que se seguiram à sua morte, não está nada mal. Grandes artistas como Hieronymus Bosch e Albrecht Dürer, inspiraram-se nesta obra de Brant. Teve epígonos por todo o mundo. Gil Vicente, por exemplo, pensa-se que a poderá ter lido. A ideia central do livro é muito simples – numa era de navegações, a simbologia náutica era uma constante. Assim, Brant fez embarcar numa nave – a Sultifera navis – diversos tipos de loucos, 112 ao todo – todos os loucos do fantástico país da Cocanha, quer dizer, da abundância, numa nave que atravessa a Narragonien (Mattagonia), ou seja, o «reino da loucura». Os passageiros representam todos as classes – clérigos, nobres, mercadores, poetas, camponeses e artífices.
A cada louco, Brant dedica um capítulo do poema o qual, além do prefácio e do epílogo, tem cento e doze capítulos. Brant não de se esquece de si mesmo, referindo-se aos seus méritos e defeitos no prólogo, no primeiro e nos dois últimos capítulos – «O Louco dos Livros» e «Dos Livros Inúteis», falando dos loucos que, como ele gente que ama a sua biblioteca mais do que o saber que ela lhes pode oferecer, transformando-se em coleccionadores de livros, mas, nem por isso, em pessoas mais sábias. Outros temas interessantes são, por exemplo, «A Apologia do Poeta» e «O Homem Sábio e Prudente», em que faz o elogio de Sócrates (o filósofo grego, claro). Em cada um dos capítulos a obra retrata um vício humano personificado num louco – o louco da moda, o da avareza, o da discórdia, o da luxúria, o da gula, o da inveja, etc. Sobre todos, predomina a tutelar figura de Frau Venere (Vénus). «Das Narrenschyff» é sobretudo um poema moralista e, como tal, nele abundam sentenças bíblicas, aforismos populares alemães portadores da sabedoria conceptual da Idade Média. Por outro lado, representa-se nas suas páginas uma viva angústia pela trágica situação da Igreja, onde sopravam já os ventos de divisão que resultaram na Reforma, e pela iminente desagregação do Sacro-Império, ameaçado naquela época por poderosos inimigos internos e externos. A Nave dos Loucos de Brant era, portanto, uma mística barca representando a «Civitas christiana» à deriva num mar de loucura e de inovações «sacrílegas», filhas do Renascimento, concebidas a partir das cinzas profanas da Grécia e de Roma. Pela mesma época, o grande pintor brabantino Hieronymus Bosch criava o seu Barco ou Nave dos Loucos, também antes do final da era de Quatrocentos, pintura inspirada pelo poema de Sebastian Brant.
*
A narrativa de Brant Inspirou também o romance «Ship of fools» da norte-americana Katherine Anne Porter (1890-1980), publicado em 1962 e, em 1965, baseado no livro e com o mesmo título, um filme do genial Stanley Kramer, com Vivien Leigh, Simone Signoret, José Ferrer, Lee Marvin, entre outros. Num paquete de luxo, no ano de 1933, pessoas de diversos estratos culturais e sociais, numa amostragem de um pequeno universo concentracionário, viajam do México para a Alemanha – No decurso da viagem, na Alemanha a situação muda, Hitler sobe ao poder. Alguns dos passageiros, judeus por exemplo, vão alegremente a caminho do holocausto. E chegamos à terceira parte da minha «homilia» de hoje.
*
. A política partidária portuguesa, tal como actualmente se apresenta, afigura-se-me repugnante. Não compreendo como podem as pessoas preocupar-se com gente como Sócrates (o político português, claro), Manuela Ferreira Leite, Santana Lopes e quejandos. É gente que não pensa existe no sentido nobre da palavra (pois recebe o pensamento já mastigado pelos seus donos de Bruxelas, de Washington, da Sonae, da Galp, do Espírito Santo (o banco, claro)… Max Aub, um grande escritor espanhol (1903-1972) num dos seus deliciosos «Contos Exemplares», diz que as árvores existem, mas não pensam, pondo com esta constatação em causa o princípio de Descartes. Eu diria que estes nossos políticos não pensam e que, a aceitarmos a cartesiana teoria, como não pensam logo não existem. Andam por aí, fala-se muito neles, mas daqui por dez anos ninguém se lembrará deles. De facto, não têm qualquer importância. São meros peões movidos por gente mais ou menos discreta, mas que em todo o caso não goza do protagonismo dos políticos. Por exemplo, alguém, a não ser os americanos, acredita que o wrestling é um desporto honesto? Ou que é sequer um desporto? Com as lutas verbais dos políticos dos partidos do poder tenho o mesmo sentimento de burla descarada. Não é uma luta honesta e muito menos tem a ver com a democracia. Não é uma luta, é mais um ritual. Não lhe chamo palhaçada, pois já aqui expliquei o profundo respeito que nutro pelos palhaços. Vamos chamar-lhe farsa, com os devidos pedidos de desculpa aos farsantes. Quarta e última parte – vamos à moralidade (ou imoralidade?) da história.
*
Numa barca cheia de gente alienada, vamos navegando na irremediável direcção do caos. Não seria inevitável, se soubéssemos exigir aquilo a que temos direito, se soubéssemos escolher entre nós os mais capazes de dirigir a barca e de escolher a rota. Mas não. Masoquistas impenitentes, vamos elegendo como aparentes capitães os criados de poderes ocultos ou discretamente afastados da ribalta. Chegados à ponte de comando, perguntam aos patrões como e para onde devem conduzir a barca, pois nem sequer são eles os timoneiros desta nave que nos conduz ao caos. São simples marionetas. São os rostos e as bocas da corrupção, mas não o seu coração, os seus pulmões. Não nos enganemos com as frases grandiloquentes, mas ocas, com que protestam patriotismo e honra – são coisas que não têm. Se for preciso e der jeito até ajudam a vender a nação a quem der mais. Sempre em nome dos «superiores interesses nacionais». Uma nave de loucos conduzida por crápulas.

ADEUS MINHA FLOR DE LÓTUS DO JORNALISMO: MANUELA MOURA GUEDES, GODDBYE , I LOVE YOU!

1. EM MEMÓRIA DA MINHA MAIS QUE ADORADA E ÚNICA E SOBERBA , LOUCA, DESESPERADAMENTE ÓDIO-AMOR, e já com saudade da NOSSA GRANDE E SINGELAMENTE RARA E ÚNICA FLOR DE LÓTUS DO JORNALISMO, MANUELA MOURA GUEDES..E DO INESQUECÍVEL JORNAL DE 6ª ÀS 20H…EU VINHA A CORRER DA PRAIA PARA TE OUVIR E SORRIR…ADEUS MANUELA, I LOVE YOU.
2. TO YOU THE MOST BEAUTIFUL SONG:
dalby com uma lágrimasita ao canto do olho:

Je reviens te chercher
Je savais que tu m’attendais
Je savais que l’on ne pourrait
Se passer l’un de l’autre longtemps
Je reviens te chercher
Ben tu vois, j’ai pas trop changé
Et je vois que de ton coté
Tu as bien traversé le temps
{Refrain:}
Tous les deux on s’est fait la guerre
Tous les deux on s’est pillés, volés, ruinés
Qui a gagné, qui a perdu,
On n’en sait rien, on ne sait plus
On se retrouve les mains nues
Mais après la guerre,
Il nous reste à faire
La paix.
Je reviens te chercher
Tremblant comme un jeune marié
Mais plus riche qu’aux jours passés
De tendresse et de larmes et de temps
Je reviens te chercher
J’ai l’air bete sur ce palier
Aide-moi et viens m’embrasser
Un taxi est en bas qui attend
{au Refrain}

BI-QUADRA DO DIA

Os torres e os loureiros

As fátimas e machados

Isaltinhos e demais

Andam todos consolados.

 

A justiça não lhes toca

E ninguém lhes deita a mão

E o povo diz que sim

Em vez de dizer que não.

O Pintarroxo em «O Progresso de Paredes»- Venda do capacete do ano (III)

(continuação daqui. escrito numa época em que «O Progresso de Paredes» ainda não era usado pelo PS para a eternização do seu poder)

«Organizada pelo valente Sargento do Exército Manuel Coelho de Mendonça e Agostinho Ribeiro da Cruz, muito competente Regedor desta freguesia, foi promovida a venda do Capacete na festa de Santa Luzia, que se venera no lugar do mesmo nome.
Contribuíram graciosamente e requintada fidalguia para tão simpático fim as gentis meninas Maria de S. José Carvalho, Maria Zélia Carvalho e Maria Luisa Carvalho, de Mirandela, mas neste dia eram visitas honrosas do grande industrial local Joaquim Moreira dos Santos e de sua esposa, D. Maria Emília da Costa Pereira, inteligente professora local.
Satisfatoriamente colheram 108$20, cujo produto seguirá o seu bom destino, e nesse dia, as viúvas e órfãos da Grande Guerra, pagarão com lágrimas e sorrisos quem auxiliou e teve tão louvável iniciativa.
Exames do 2.º grau – Realizaram-se nas escolas da Vila de Paredes os exames do 2.º grau dos alunos do sexo masculino, da escola da Lage desta freguesia, cuja direcção está confiada à competente professora D. Maria Emília da Costa Pereira, sendo os resultados satisfatórios, como era de esperar.
Fizeram exame os seguintes meninos: Albino Correia, Américo Moreira Dias, António Joaquim Nunes Moreira dos Santos, Augusto Moreira dos Santos Pinto da Rocha, Carlos Alfredo Pereira dos Santos e Carlos Fernando Nunes dos Santos.
São dignos das mais honrosas referências e lícitos elogios os distintos professores e professoras que faziam parte do júri, pela maneira afável e fino trato como sabiam interrogar as crianças.
Digo-o porque assisti, e gostaria de ser criança para fazer exame outra vez na escola do professor Vasconcelos.»

Pintarroxo, in «O Progresso de Paredes», 20-07-1937.

A Social – Democracia Europeia

Há muita gente na Europa que critica o sistema em que vive, vendo nele um conjunto de erros e injustiças sem cuidar de ver as suas qualidades.

A primeira qualidade é que nunca houve antes um sistema que tenha mantido por tanto tempo, tantos milhões de pessoas a viverem em paz, em democracia e com um modelo de apoio à família, à doença e à velhice.

A primeira causa é que este sistema tem assegurado um nível sustentado de criação de riqueza que mais nenhum outro conseguiu. Ora, este nível de criação de riqueza tem permitido que todos os cidadãos, melhorem o seu nível de vida, embora com profundos desequilibrios. Mas, no essencial, a vida das pessoas tem melhorado mais nos últimos cincoenta anos que nos dois séculos anteriores.

Este sistema conseguiu criar uma rede de segurança social que abarca milhões de pessoas, os mais desprotegidos, uma rede pública universal de escolas que assegura a educação básica para milhões de seres humanos que sem isso se manteriam na ignorância e escuridão do conhecimento e, providenciou, uma rede universal de cuidados médicos que assegura saúde a milhões de pessoas que há cincoenta anos morriam por não terem água tratada.

Imperfeito, injusto e sem conseguir criar igualdade de oportunidades para todos, o sistema capitalista, como forma de criar riqueza, não tem paralelo, pelo que enquanto não aparecer um modelo de sociedade que consiga manter este nível de vida, nunca será substituído. Pode e deve ser aperfeiçoado, mas não pode ser substituído, pelo simples facto que ninguem está disposto a regredir no seu nível de vida. É uma falácia dizer que bastaria uma melhor repartição da riqueza para que a pobreza fosse erradicada. Sendo verdade, em termos puramente teóricos, a verdade é o que se vê, até aqui com os nossos concidadãos a quem são atribuídos subsídios .Não saem da miséria, porque a miséria não é só a falta de condições materiais é tambem, e talvez ainda mais, a falta de educação e de conhecimento que duram séculos a chegar a todos.

Sou reformista, no sentido que quero partir de uma base sólida para um patamar mais elevado, à custa de mais e melhor justiça social, mas dentro de um quadro onde coexistam o Estado de Direito, a economia social de mercado e a democracia de tipo parlamentar.

PS: ao meu caro amigo e aventador Adão Cruz a quem reconheço um elevado sentido solidário e humanista.

Faleceu José Paulo Serralheiro (6 de Setembro de 2009)

Isto começa a acontecer com uma realidade que os meus trinta e cinco anos pouco conheciam. Em Julho um amigo, agora o Zé Paulo, outro enorme amigo.
Se a saudade do Adriano foi e é uma coisa para qual não encontro muitas definições, também sinto muitas dificuldades em escrever sobre o Zé Paulo.
Com ele partilhei horas e horas de conversa. Um sindicalista brilhante, um revolucionário em permanência que se batia com toda a força pelas suas ideias.
Ensinou-me o que só os professores de História podem ensinar: o tempo presente é sempre muito “presente”. Temos que olhar mais longe e procurar ser optimista. Há coisas que não se vão resolver hoje. Nem tão pouco amanhã.
O Zé Paulo é um Homem Livre. Não pertencia a grupos nem se deixava amarrar a rótulos.

José Paulo Serralheiro

José Paulo Serralheiro

No que me diz respeito também me marcou muito a forma como ele vivia o BENFICA! Era um verdadeiro BENFIQUISTA! Dizia ele que este não era o Benfica que ele conhecia. O verdadeiro, esse, teria como suplente o Simão. Todos os outros, os mancos do presente, nem para apanha-bolas. O que a gente se riu com as misérias vermelhas!
Também era do Zé Paulo a “Página da Educação“. Um projecto muito interessante que nos marcou a todos! O número dois da revista está pronta a sair – ele “fez o favor” de nos dar esse previlégio antes de partir.
O que dizer mais?
Todos os dias perdemos um pouco mais de nós. Sinto em relação ao Zé Paulo, aquilo que senti em relação ao Adriano. Fui um sortudo em ter vivido com eles. Em ter aprendido com eles.
Espero que consigam, aí em cima, ajudar-me a ser FELIZ.
Obrigado Zé Paulo. Até um dia!

Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido. Mário Soares – Da colagem ao PCP ao exílio dourado

(continuação daqui)

Na realidade, a incapacidade dos socialistas e dos democratas portugueses para se organizarem e manterem relações com os seus congéneres europeus, após o desalento em que caíram com as divisões da I República, permitiram a quase «exclusiva» implantação do Partido Comunista e inviabilizaram o estabelecimento de um regime democrático em Portugal, em 1945. E, não obstante a grande desilusão da chamada «oposição democrática» portuguesa perante a opção dos vencedores da Guerra, nem a vitória de Clement Attleel e dos trabalhistas britânicos, em 1945, valeu aos socialistas portugueses. É que, se os havia, ninguém no resto da Europa sabia onde estavam.
Mesmo assim, em 1973, a consciência do seu passado de relações subalternas em relação aos comunistas e a evidência dos maus resultados a que esse relacionamento conduzira Portugal anteriormente não seriam motivos suficientes para demover a direcção do ainda jovem movimento socialista de um acordo com o Partido Comunista.
Mário Soares, desiludido com as promessas da «primavera marcelista» e com o resultado da CEUD nas eleições de 1969, iniciaria uma longa viagem à volta do Mundo, acabando por se exilar em França, em 1970, após garantida a sua sobrevivência económica enquanto «consultor» do grupo económico de Manuel Bullosa (2).
Neste país acabaria por ser profundamente influenciado pela plataforma unitária que Mitterrand viria a estabelecer com Marchais, passando então a ser o principal defensor de um acordo entre os socialistas portugueses e o Partido Comunista, segundo o
modelo francês e a que chamaria «contrato político». E, sem grandes consultas ao seu pequeno grupo político, este contrato transformar-se-ia num «pacto de governo», após reunião «clandestina» dos dois partidos que teve lugar em Paris, em Setembro desse ano. Do qual, por sua vez, só não resultou um programa de acção comum, porque o PC desconfiava das expectativas que os fundadores da ASP tinham manifestado em relação à chamada «primavera marcelista» e estava convencido de que os socialistas
não tinham o menor peso no que eles consideravam ser o «conjunto do movimento democrático» português.
De facto, o único trunfo dos socialistas era o terem sido admitidos, um ano antes, na Internacional Socialista. Organização que a União Soviética pretendia penetrar, apesar das «críticas» às suas características «social-democratas»!
Mas o PCP, embora seguindo as superiores directivas do PCUS3em matéria de política externa, estava desfasado da realidade nacional e preferiria desenvolver a sua relação de domínio sobre o MDP/CDE, em detrimento do potencial e das «virtualidades» da aliança desejada por Soares. Mas, para o líder socialista, sob fogo cruzado da propaganda do regime e da extrema-esquerda, o acordo com o PC seria uma credencial preciosa que dissiparia algumas dúvidas no seio da Internacional Socialista. Dúvidas semelhantes às que existiam em relação a François Mitterrand. O acordo de Soares com o PC jamais seria, contudo, um acordo honroso para os socialistas, dada a evidente subalternidade em que se colocavam. Tão-pouco vinha ao encontro da orientação seguida pela esmagadora maioria dos partidos «irmãos» da Europa. Mas, apesar disso, Soares desenvolveria todos os esforços para o dar a conhecer junto dos parceiros da IS, pedindo-me mesmo que o traduzisse para sueco, o divulgasse e o mostrasse ao Partido Social-Democrata Sueco.
Em Lisboa, também Mário Soares tinha, desde o início da década de 60, estabelecido contactos com um funcionário da embaixada da Dinamarca, simpatizante do Partido Social-DemocrataDinamarquês, Axel Buus I e com um funcionário da embaixada dos
Estados Unidos, de nome Diego Ascensio. Um outro contacto internacional do início dos anos 60, que provaria vir a ter grande utilidade para a carreira de Mário Soares, foi a amizade que estabeleceu com Marvin Howe, jovem correspondente itinerante do
NewYork Times em Lisboa e na capital marroquina, Rabat. Depois de algumas menções na imprensa internacional, Marvin Howe conseguiria junto de um grupo de «liberais» norte-americanos, seus amigos, que se reclamavam das tradições de Norman Thomas,
juntar alguns correspondentes estrangeiros no Overseas Press Club de Nova Iorque com quem Soares comentaria os seus pontos de vista sobre a política colonial de Marcello Caetano. E, graças à assustadora mediocridade e provincianismo dos governantes de então, Mário Soares, ainda em Nova Iorque, seria aconselhado a não regressar a Portugal.
O governo português conhecia de antemão as suas posições sobre a guerra colonial, mas desconhecia por completo o funcionamento da comunicação social internacional, confundindo telegramas das agências noticiosas com campanhas antiportuguesas na imprensa internacional. Marcello Caetano não se conteve e, deixando cair a última máscara de tolerância e de abertura que evidenciara quando tomara posse pouco mais de um ano antes, mandou instaurar um processo-crime ao dirigente socialista. A verdade é que, apesar do empenho de Marvin Howe, os telegramas dos correspondentes que participaram na dita «conferência de imprensa» do Overseas Press Club pouco eco teriam então na imprensa internacional. Segundo o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Franco Nogueira, revelaria ao historiador José Freire Antunes, Marvin Howe «não era ainda uma correspondente, mas uma principiante».
Tal não corresponde, contudo, à verdade. Tendo em conta que sobre ela já na altura recaíam suspeitas «de ser uma conexão da CIA» 4 e conhecidas as ligações de grandes órgãos de comunicação social americanos com os serviços secretos como viria a ser
confirmado pela Comissão de Inquérito a que presidiu o congressista norte-americano Edward Boland, então, não só ela não seria uma principiante, como seria mesmo uma grande profissional e foi por obra e graça dos seus esforços que Mário Soares começou
a ser conhecido da imprensa internacional. Foi, aliás, através «dos seus textos públicos e das suas recomendações à margem do jornalismo, que a CIA – pouco atenta à oposição portuguesa durante os anos de Johnson – aprendeu a soletrar o nome de Mário Soares». De qualquer modo, foi a partir das iniciativas da correspondente do New York Times e, em particular, de uma carta que ela enviaria ao «Special Assistant to the President», Bill Moyers3, em Outubro de 1965, que Mário Soares iniciaria uma série de contactos com um dos membros da delegação da CIA em Lisboa. Mário Soares refere-se a esses contactos no seu livro Portugal Amordaçado como contactos com «um secretário da embaixada americana em Lisboa» mas tudo leva a crer que já se trataria de Diego Ascencio, que o então chefe de informações da PIDE Álvaro Pereira de Carvalho, identificaria como sendo «um dos membros da pequena estação da CIA em Lisboa». Ascencio seria uma das relações mais precisosas de então de Soares e ainda hoje continuam a manter relações de amizade.
Não admira, portanto, que ainda hoje muitas pessoas continuem a ter uma imagem distorcida do que uma certa imprensa difundiria em tons dourados, após 1974, sobre os chamados contactos internacionais dos socialistas portugueses e do Partido Socialista.
Com as incessantes romarias políticas do pós 25 de Abril e a constante exibição de grandes figuras da cena política europeia e norte-americana, como Harold Wilson, James Callaghan, Olof Palme, Willy Brandt, Bruno Kreisky e, entre muitos mais,
Edward Kennedy, ficar-se-ia com a ideia de que estes não só protegiam e apoiavam a Acção Socialista Portuguesa com mundos e fundos como recebiam, de braços abertos, os seus dirigentes no exílio ou na clandestinidade. Nada poderia ser mais diferente, se
bem que esta «distorção da história» tivesse então algo de premeditado.

(2) Manuel Bullosa
fo
i um dos principais empresários portugueses de antes do 25 de Abril. Era dono do Crédito Predial Português, Sacar e Banco Franco-Português, de Paris.

O debate Manuela Ferreira Leite – Francisco Louçã

Foi um debate cordial. Apesar das diferenças ideológicas gritantes, os intervenientes trataram-se de forma afável, com destaque para a forma como Manuela Ferreira Leite tratou sempre o seu oponente: «O Francisco Louçã…». Privilégios da idade. Louçã, por seu lado, certamente que não será tão afável quando tiver de defrontar Sócrates.
Como dizia antes, as diferenças ficaram bem vincadas entre um projecto realmente de Esquerda, como é o do Bloco de Esquerda, e um projecto realmente de Direita e que não contém diferenças significativas em relação ao projecto do PS.
Manuela Ferreira Leite pareceu-me segura, ao contrário do que esperava. À excepção da questão das uniões de facto, em que pareceu hesitar várias vezes até dar a sua verdadeira opinião. Antes ser contra o casamento gay e assumi-lo do que dizer que é a favor e votar contra no Parlamento.

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os últimos anos


Em 1981 volta a ser internado no Curry Cabral e depois no Sanatório do Barro, em Torres Vedras. Requer a pensão de reforma – afinal, apesar do caso da gravata escocesa, do sobretudo involuntariamente emprestado pelo senhor director e da quadrilha dos selos, foi funcionário público. Escreve para o Diário de Lisboa e para o Diário Popular. Os amigos dão apoio económico. Mas o tempo de extrema penúria vai passar. Em 1982 começa a receber a pensão de reforma. Depois é uma bolsa do Ministério da Cultura que lhe é atribuída por mérito cultural. Pacheco conta: «O Alçada Baptista»(…) «encontrou-me um dia na Av. Da República e perguntou-me: “não lhe dava jeito uns sete ou oito contos por mês?”. “Ó doutor, não me diga isso, se fosse um conto ainda acreditava…” Depois vi o decreto e concorri. Tive logo um subsídio de dez contos. Depois, a Maria João Rolo Duarte, a mãe deste Pedro, é que conseguiu que o Santana Lopes, quando era Secretário de Estado da Cultura, me aumentasse o subsídio, que na altura ia nos 60 contos… a Maria João Rolo Duarte sabia que o Cesariny recebia mais do que eu e, numa festa em que encontrou o Santana Lopes, fê-lo prometer que me aumentava o subsídio. Como ela escrevia na Capital, publicou um texto que comprometeu o Santana. Recebi mais 30 contos por mês, passou para 90 contos.» (…)«Gosto do Santana por causa disso. E também porque é um playboy, um gajo dos copos, das discotecas e das putas».
É novamente internado no Sanatório do Barro. Em 1983 é reinternado pela quarta vez no Sanatório do Barro. Em 1984 é internado na Clínica de Pneumologia de Celas com broncopatia obstrutiva e infecção respiratória. É internado no Hospital Psiquiátrico de Júlio de Matos. Em 1985 e 1986 continua a publicar, inéditos e reedições. Em 1988, o Teatro da Cornucópia adapta e leva à cena a Comunidade. Muda-se para Setúbal. Cecília Neto realiza um filme sobre Luiz Pacheco para a RTP-2, adere ao Partido Comunista Português. A este respeito, João Paulo Cotrim, quando o entrevista, pergunta-lhe como é que ele, tendo mantido sempre uma postura anarquista, acaba por se inscrever no PCP, Pacheco responde: «Pois é, mas eu também só entrei para o partido quando me apareceu uma hérnia. Nessa altura, mandei um recado ao José Casanova: “Psst! Quero entrar para o partido como extrema-unção”. Isto não obriga a nada, nem aqui há uma esperança revolucionária. É porque é giro, um gajo morre e vai lá com a bandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos Ary amigo, o Partido está contigo! – e pensei: “Isto é que me convém, porra! Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu sou um gajo muito friorento…».

Conclusão

Muito provavelmente, ele rir-se-ia da afirmação que vou fazer e quase consigo ouvir as suas casquinadas asmáticas acolhendo esta afirmação; em todo o caso, faço-a – ter conhecido e privado com Luiz Pacheco foi um privilégio.
Naquela tarde do princípio de Janeiro de 2008, não devia ter ido, mas fui à Basílica da Estrela, vê-lo pela última vez. Não devia ter ido porque, tal como a maioria das pessoas não gosta de ser apanhada «descomposta», ao Pacheco não agradaria que os amigos o surpreendessem tão composto em «câmara ardente» na Basílica da Estrela, à espera da missa, rezada por iniciativa de uma das filhas, que antecedeu a cremação no cemitério do Alto de São João. Lá estava ele, comprido, bem vestido, penteadinho, hierático. Silencioso como só os mortos sabem ser e estar. Pela primeira vez, o achei sem ideias. Para rematar esta crónica, à falta de melhor, lembro-me da sua resposta quando, numa das entrevistas da fase jubilatória da sua vida, lhe pediram uma mensagem para as novas gerações: «- Puta que os pariu!».

La vie en rose

Ana Matos Pires descobriu que as relações Prisa/PSOE já foram melhores. Ainda alguém se vai lembrar que as relações com Pinto Balsemão também, ou talvez não, sabe-se lá, etc. Para concluir que eles querem é nota, e portantos pá, só fizeram isto do jornal nas sextas para poupar uns trocos.

No universo bipolar do estado espanhol Zapatero tratou de ter dois grupos de comunicação social em seu apoio, o que a malta até agradece mais que não seja por o Publico.es ser de longe o melhor jornal online da península. O pólo do regime que alterna com o PSOE já os tinha, e Zapatero não é parvo, além de até ser comprovadamente um anti-fascista pelo menos da memória, coisa que no partido socratista já só sobra nos núcleos da terceiríssima idade.

Esta engenharia de esforço dos socratistas para enublar o óbvio, e este nem é o pior exemplo, está ao nível da obra  construtiva e curricular do seu belo e esforçado herói. É  preciso alguma pachorra para entender os humanos quando se fixam em paixões.* Que são sempre cegas, de acordo, dão cabo do racional, sabemos desde a adolescência, mas das quais restará um vazio absoluto quando o herói for apeado.

E quem vai apear esse moço que andou aqui por Coimbra no ISEC, já na altura despertando amores que se derretiam subitamente,** nem vai ser só o povo em forma de votos, serão em primeiro lugar os que hoje mais se perdem de amores por ele.

A profissional Ana Matos Pires explicará isto muito melhor do que, que sou de letras, e apenas falo por experiência de vida. E fica-me alguma tristeza quando vejo mulheres inteligentes naquele estado que me recorda Pavese: “os homens apaixonados são incapazes de criar uma estratégia amorosa”, cito de memória, e mal, mas a ideia percebe-se.

C’est la vie. En rose:

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* isto devia ter um link mas por algum pudor, preguiça e até respeito não tem.

** esta referência é meramente política, respeitando à JSD e à JS. Da vida privada de terceiros só falaria em legítima defesa, e até ver não é o caso.

Boa semana:

Simplesmente fartos de Sócrates

Cada vez mais esta é a razão mais citada. E há cada vez mais pessoas cujo objectivo é tirar a maioria absoluta ao PS e depois logo se vê, se votam no PSD ou no BE.

E é uma boa razão se não mesmo a melhor razão. O país não pode ter como Primeiro Ministro um político em que as pessoas não reconhecem credibilidade. Não há semana em que o Primeiro Ministro não seja acusado de uma manigância qualquer, seguido de um chorrilho de explicações patéticas, como a de ontem no debate com Jerónimo quando afirmou que nada sabia sobre a Prisa, nem sabia quem era a administração. E Pina Moura ainda lá está?

Sócrates e os seus defensores deviam tirar daqui uma grande lição, já que nada aprenderam com a banhada das Europeias, é que não é possível enganar toda a gente durante o tempo todo. O simples facto de não aceitarem responsabilidades na situação do país, quando estão no governo há 12 anos nos últimos 14, é de uma falta de humildade inaceitável. Sócrates, com o país nesta situação, quer continuar as políticas da nossa desgraça assim tenha condições para governar. Mas quem é que quer empobrecer?

Este homem não pára, não escuta e não olha!

Emídio Berbequim Rangel


Emídio Berbequim Rangel acha que o Jornal de Sexta da TVI envergonhava o jornalismo.
Vindo de alguém que levou atrás de si uma equipa de televisão para mostrar de que forma ia destruir os estúdios da TSF; vindo do principal responsável por esse inenarrável programa que foi os «Donos da Bola»; vindo de alguém que, desesperado, não tem parado de bajular José Sócrates nos últimos quatro anos, na esperança que lhe caia algum em cima; vindo de alguém cuja passagem pela RPTP se traduziu na aquisição de uma série de vedetas milionárias e nada mais; vindo de alguém que chamou «hooligans» aos professores em manifestação e que tem insultado tudo e todos que não concordam com o Governo; vindo de um ser tão abjecto, penso que aquela frase só pode ser um elogio.

Morreu o pintor João Vieira (1934-2009)


Na sequência de uma cirurgia ao coração realizada na sexta-feira passada, faleceu ontem, dia 5 de Setembro, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o pintor João Vieira. Nasceu no Vidago, em Trás-os-Montes em 1934. Tendo frequentado a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, esteve a partir de 1957 em Paris, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, estudando pintura sob a orientação de Arpad Szénes, o marido de Maria Helena Vieira da Silva. Ligado ao chamado «Grupo de Paris», de que faziam também parte os artistas portugueses José Escada, René Bertholo, Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, Lourdes Castro, o pintor búlgaro Christo e o alemão Jan Voss, fundaram a revista e o movimento KWY. Em 2001, no Centro Cultural de Belém esteve aberta a exposição «KWY – Paris – 1958-1968». A primeira exposição individual realizou-se em 1959, na Galeria do diário de notícias em Lisboa; a última foi, em 2002, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto. Pelo meio, ficam centenas de mostras individuais e colectivas. Obras de João Vieira fazem parte das colecções dos principais museus nacionais e estrangeiros.
João Vieira fez também parte do chamado «grupo do Café Gelo», onde s integravam figuras como Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco, Herberto Hélder, António José Forte, Helder de Macedo, e muitos outros escritores e artistas plásticos. Num andar por cima do Café Gelo, em pleno Rossio, Vieira compartilhava um ateliê com Escada, Gonçalo Duarte e Bertholo. A morte de João Vieira, um dos maiores pintores portugueses do século XX, deixa mais pobre o panorama cultural português.

Uma verdade inconveniente…

Um eleitor, perante o cenário proposto para 27 de Setembro, interroga-se: em quem votar?

Pensa votar à esquerda e o que vê? Por um lado vê Jerónimo e Louçã e lembra-se que são figuras velhas de tantos anos de presença assídua e que representam, por muito que procurem disfarçar, sistemas sociais velhos e caducos que quando postos em prática redundaram em desastre. As suas referências geográficas? Cuba, Coreia do Norte, Palestina, tudo locais e sistemas altamente recomendáveis, óptimos países para criar os filhos.

Pensa votar à direita e o que lhe surge? O CDS do Paulinho das Feiras. Ou será do Dr. Paulo dos Salões? Talvez do Mr. Paulo do Forte de São Julião? Ou será do Portas do Jornalismo? Eu sei lá, já foram tantas as personagens representadas que uma pessoa nem sabe bem em que Paulo votar. Na dúvida, fugir a sete pés é a solução.

Sobra Sócrates e a Manuela. Tirando a óbvia de género, qual a diferença? Ambos já nos mostraram do que são capazes enquanto governantes. Os dois já nos expuseram o quanto gostam da liberdade de expressão e como convivem facilmente com ela. As provas que já nos deram nas finanças, na educação, em suma, na “governança” da Pátria.

Um sujeito nascido nos anos setenta e que acompanhe a política portuguesa desde finais dos anos oitenta conheceu: o Paulo nas suas diversas facetas, o Louçã nas suas variáveis camisas, o Jerónimo nas suas múltiplas cassetes, o Sócrates e a sua enorme família e a Manuela nos seus diferentes penteados. Ou seja, sempre mais do mesmo.

Assim sendo, o que lhe resta no dia 27 de Setembro para lá do suicídio colectivo? Responda quem saiba…

Já só falta tirar o Ronaldo

Este treinador é um portento, vai tirando os avançados um a um já só entra com o Ronaldo de ínicio, e isto em jogos que só interessa ganhar, estão a ver se pudesse empatar…

Ontem, obrigado e em desepero a meter outro avançado, muda tudo numa equipa que até estava a jogar bem, quando se esperava que tirasse o Simão e deixasse estar o que estava bem. Não senhor, aterrorizado, desmancha o losango e afasta o Ronaldo e o Simão para os extremos, deixando o Liedson sòzinho na área onde estava meia equipa da Dinamarca.

Com a nova táctica Portugal nunca mais foi o mesmo e valeu o Liedson fazer o que só alguns sabem fazer que é meter golos. A bola foi ter com ele, é isso, há gajos de quem a bola gosta, vai ter com eles a pedir para ser chutada com carinho e determinação. O Nuno ainda teve uma boa cabeçada que o guarda redes defendeu, mas o Queiroz já tinha dado 45 minutos e um golo de avanço.

Na primeira parte, sem avançado na área Portugal teve 15 remates, alguns dentro da área, só com o guarda redes pela frente, mas nada, a bola foi sempre contra o guarda redes que coitado tinha mesmo que a defender.

E agora? O Manchester aceita o Queiroz de volta ?

FutAventar – FCPorto #6:

fcporto na F1

Segundo ouvi dizer e pelo que me apercebi no Aventar, parece que neste fim-de-semana jogou uma equipa qualquer de brasileiros e portugueses a que chamam, julgo, selecção. Ora, como para mim apenas existe a equipa do meu país, o F.C. Porto, não estive atento à coisa e preferi guardar as minhas energias para interesses sérios como a Superleague Fórmula onde o Álvaro Parente, logo na sua estreia, fez o favor de vencer. Sem espinhas.
Até nos automóveis somos os maiores, CARAGO!

ETICA E EDUCAÇÃO (4)

ETICA E EDUCAÇÃO (4)

Considerações sobre Educação

Hoje, em medicina, nós seguimos com bastante rigor aquilo que denominamos medicina da evidência. Eu, materialista convicto em sentido científico-filosófico, sem qualquer angústa metafísica, não perfilhando qualquer estanque dualismo corpo-espírito, a não ser em termos académicos, considero a ciência como a mais impressionante e segura plataforma de partida para o saber e a verdade àcerca da realidade humana. Conceber a ciência e a tecnologia como forças enriquecedoras, representa um dos grandes desafios no processo formativo e educacional do Homem. A ciência oferece-nos perspectivas francamente inovadoras, mesmo sem contribuir com respostas directas e imediatas para todas as questões. Embora a ciência e os factos, moralmente neutros, não nos possam oferecer uma educação, propriamente dita, constituem a mais segura contribuição para a função adaptativa do homem. Em qualquer campo da educação a cultura deve estar em interacção permanente com a evolução dos conhecimentos científicos, os temas de natureza científica devem entrar verdadeiramente na vida dos educandos. Deve promover-se o contacto com investigadores e espaços de investigação, dissiminando centros de ciência viva no sentido de aproximar a cultura científica das pessoas em geral e dos mais novos em particular. A ciência, em permanente desenvolvimento, interfere constantemente em múltiplos domínios do quotidiano e cria a necessidade de superiores critérios de excelência em qualquer dos campos da sociedade, alarga os conhecimentos, torna mais fácil o entendimento da vida, da educação e do progresso. Sem a ciência e a credibilidade no seu apoio, não há educação que resista, não há educação sinónimo de verdade, não há verdade que não esteja conspurcada de crendice. Todavia, nem a ciência nem a técnica têm sentido se não forem instrumentos para a realização plena da humanidade. (Continua)

                              (manel cruz)

(manel cruz)

OS AFEGÃOS CHORAM OS SEUS MORTOS

Mais 150 civis, a maioria crianças, massacrados pelos missionários da NATO. Crianças iguais às nossas, aos nossos filhos e netos, com pais e avós que choram e sofrem como nós. Mais um rio de sangue tão ao gosto de americanos, alemães e compinchas. Mais uma bebedeira de sangue dos assassinos encartados, apoiados legitimados. Qualquer dia não há mais sangue e terão de beber da merda em que chafurdam diariamente. Pobre Portugal, à baixeza a que desceste!

Socialismo-capitalismo

Caro amigo Luís Moreira, sinceramente, acredito no que diz. E isto não passa de uma conversa de amigos. Eu também já lhe disse que não pertenço a qualquer partido e ninguém me faz a cabeça, a não ser que consiga convencer-me de verdade. Apesar de não perfilhar nenhuma doutrina específica, mais ou menos radical, acredito convictamente na superioridade das doutrinas socialistas em relação às doutrinas capitalistas. E, pessoalmente, não tenho a mais pequena dúvida disso, em termos globais. Isto é uma coisa, outra coisa é pô-las em prática, sobretudo dentro de um regime capitalista mais que cristalizado. O socialismo, mais do que imperfeito, tem coisas muito boas e justas, mas também tem coisas más. No entanto, a estrutura natural da doutrina socialista tende inegavelmente a que, eventualmente, teoricamente e até um tanto utopicamente, essas coisas más possam desaparecer ou, pelo menos, reduzir-se ao ponto de poderem ser controladas com o tempo. O socialismo tem uma potencialidade incalculável de futuro. O capitalismo, a meu ver, não tem coisas boas do ponto de vista do horizonte social e do ponto de vista do futuro da humanidade, quando muito poderá ter coisas aceitáveis e toleráveis, e aquilo que alguém possa apontar como bom não é mais do que a decorrência de um mero equilíbrio essencial à sua sobrevivência e reprodução. O socialismo, e isto para quem queira pensar um pouco, ainda que muito imperfeito, volto a dizer, tem na frente dos olhos a humanidade. O capitalismo tem na frente dos olhos o individualismo, a posse, a criação de riqueza ainda que seja obrigado a fazer algumas cedências à humanidade. É a sua estrutura natural e genética, senão não teria esse nome. Por isso, o capitalismo nunca será uma força potencialmente credível para o equilíbrio da humanidade. É praticamente impossível. São forças de sinal contrário. Repelem-se, por mais voltas que a gente dê ao pensamento. A humanidade existe, há que aproveitá-la, há que explorá-la. São concepções filosóficas inteiramente distintas. A filosofia do bem colectivo como meta do equilíbrio, e a filosofia da meta do bem pessoal que pode até coincidir com algum equilíbrio colectivo.
Diz o amigo Luís Moreira que não viveria numa sociedade dita comunista. Acredite que também não sou ingénuo ao ponto de me deixar comer facilmente. Eu percorri, há mais de vinte anos, a União soviética de lés a lés, de norte a sul e de este a oeste desde a Sibéria ao Uzbequistão. Vi coisas fantásticas que gostava que existissem cá, vi outras que, do meu ponto de vista, corrigiria. Pondo de lado tanta coisa que nos escapa, pondo de lado os erros, os males e os crimes que não são do socialismo, mas dos homens iguaizinhos aos de cá, aos do capitalismo, sem tirar nem por, eu quero dizer-lhe que, em princípio, não me importaria de viver e que a minha família vivesse em qualquer dos fantásticos lugares por onde passei e nas condições sociais que vi. E não me venham dizer que vi o que quiseram que eu visse. A pé, de autocarro, de metro, de comboio, de barco, de avião (17 viagens dentro da União Soviética), sem que sentisse ninguém atrás de mim, vi o que os olhos e o pensamento me permitiram. Vi o suficiente para não dizer, como o amigo Luís Moreira, que, mesmo respeitando o PCP, fugiria se ele fosse governo. Pois eu não. Só de uma coisa eu teria medo, das consequências que adviriam do facto de ele ser governo, isto é, das consequências de o não deixarem governar. Não tenho a mais pequena dúvida de que a falta de democracia não estaria no PCP mas em todos os “democratas” que o não deixariam governar, ainda que ele tivesse ganho por 70%.