Postal de Valencia #1

‘Cuando tenemos un día gris nos apagamos’

Devia ter escrito um postal de Belfast, um pelo menos, ainda há coisa de duas ou três semanas. Não é que não houvesse nada para dizer sobre Belfast, mas praticamente, exceto a bela Queens University e o hotel e os meus colegas, não vi grande coisa. E então não escrevi, mas espero voltar um destes fins de semana maiores àquela cidade da Irlanda do Norte e, então sim, escreverei.

Às vezes parece que não faço mais nada se não andar de um lugar para o outro, entre Aveiro e muitos sítios, dentro e fora de Portugal. Reparo que ultimamente essas viagens, sobretudo as para fora do país, estão cada vez mais pequenas, 2 ou 3 dias no máximo e não dá para muito mais do que trabalhar, jantar e beber um copo com os colegas. Assim mesmo, já sabemos, são viagens de que gosto. Como gosto das outras mais vagarosas. Menos, evidentemente. Que a idade já me pesa e o vagar sabe-me bem. [Read more…]

Postal de Wageningen #3

Os aeroportos são os sítios mais estranhos do mundo

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disseste-me muitas vezes que não voavas. deslocares-te era uma maçada, até há relativamente pouco tempo. sei que nos últimos tempos mudaste um bocadinho nisso. ainda assim, não voavas. uma vez pensei em ir à islândia e falei-te vagamente nisso. disseste que era um sítio onde gostarias de ir. desafiei-te. que não elisa. que disparate. não se leva areia para a praia. disseste. e o assunto ficou por ali. ainda não fui à islândia e olha talvez nunca lá vá.

não sei porquê, lembrei-me disto no aeroporto de schiphol. O avião estava atrasado. temos que ocupar o tempo. lembrei-me disto. não se leva areia para a praia. disseste. mas eu já não era areia. e nunca passei de um grão.

é estranho pensar em areia e praia e na islândia no aeroporto de schiphol. os aeroportos são, quase sempre, os lugares mais estranhos do mundo. sempre preferi estações de comboios. acho que tu, tenho a certeza que tu, que não voavas, também.

os aeroportos são lugares estranhos, simultaneamente cheios de gente tão diferente, carregando as suas próprias dores e malas, tão cheios de humanas coisas e tão artificiais.

gosto de olhar para as pessoas nos aeroportos (como em quase toda a parte) e encho-me de humanidade, apesar de tudo. grãos de areia. na verdade. não reparei se algum voo saía à mesma hora para a islândia. mas pensei grãos de areia. pensei até que agora mesmo carrego grãos de areia para uma praia aparentemente nova. há qualquer coisa de estranho num gajo começar a apaixonar-se quando um amigo tão grande começa e acaba de morrer. tão estranho como os aeroportos. se calhar não passa também de um artifício. há merdas destas.

estou agora na minha varanda a fumar, a mesma onde fumámos tantas vezes juntos, e a pensar nos grãos de areia que ando a transportar. às vezes magoam-me. nunca tive jeito para isto, como sabes. há estrelas no céu aqui na varanda. a porra do céu está cheia do brilho das estrelas mortas. não se leva areia para a praia. e sabes? não se deviam levar mais estrelas para este céu.

Postal de Wageningen #2

não quero que te preocupes

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uma vez disseste-me que se tivesses uma memória como a minha suicidavas-te. parei o copo de cerveja, mesmo antes dos lábios. era aveiro. era noite. o verão despedia-se e nós conheciamos-nos pouco a pouco, a um ritmo intermitente que combinava a minha impulsividade com o teu mau feitio. entre outras coisas, incluindo os tais desencontros de horários. éramos ambos, por razões diferentes, uma trapalhada ambulante. tínhamos bagagens muito pesadas que arrastávamos para todo o lado e só raramente largavámos das mãos e dos olhos. disseste aquilo muito seguro do que acabavas de dizer, mas como se não te lembrasses do peso do que acabavas de dizer. eu não disse nada, o copo suspenso antes da boca mas pensei que parvo. dizer-me esta merda a mim e sacudi a cabeça e bebi finalmente.

mas foi evidente que tinhas razão. uma memória enorme, a minha e pesada como o raio, que não me larga as mãos e os olhos. uma memória brutal. no entanto, ainda não me matei e tenho, sinceramente como sempre tive, dúvidas que alguma vez me suicide. dava trabalho e, na verdade, agora que morreste, restam poucas pessoas de quem goste o suficiente para lhes deixar as malas. suponho que me entendas. passaram muitas estações e acabámos por nos conhecer tanto quanto podem as pessoas conhecer-se. já sei, é sempre quase nada.

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Postal de Wageningen #1

as coisas ficaram sem ordem, pensei eu por cima das nuvens

escrevi-te um livro inteiro dentro do avião. os olhos fechados. e tu a falares para dentro de ti mesmo, como sempre fazias para minha irritação. escrevi um livro inteiro sobre ti. acho que fomos tudo o que duas pessoas podem ser uma com a outra. menos inimigos. isso nunca. continuo a achar que és um tipo estranho como na primeira vez em que te vi no café da praça onde desemboca a rua onde moravas. gostava de poder ser capaz de escrever realmente esse livro que escrevi hoje dentro da minha cabeça, por cima das nuvens, sem ordem nenhuma. gostava de estar outra vez contigo, em silêncio, no sofá da minha sala, cada um deitado para uma ponta. em silêncio. até que dizias qualquer coisa devagar. e eu nada dizia. depois dizia eu outra coisa qualquer. e é verdade que passámos muito tempo assim. os silêncios largos. [Read more…]

Cartoline de Roma #5

Questa cartolina è dedicata ai miei genitori

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ou seja, este postal é dedicado aos meus pais. Duvido que alguma vez o leiam. E não vou exatamente escrever sobre eles ou para eles. Mas hoje vi, com o Stefano (finalmente, depois de tantos adiamentos) um filme. Um documentário melhor dizendo, chamado exatamente ‘Genitori’** e aquilo que é relatado (de uma bela forma, diga-se desde já, muito sociológica e objetiva, sem cair na lamechice fácil) são as histórias dos pais que têm filhos ‘diferentes’. Deveria dizer, muito mais adequadamente, das mães. São elas as protagonistas. Também há homens, mas muito poucos. As ‘cuidadoras’, já o sabemos e há muitos estudos sociológicos que nos mostram isso, são as mulheres. O documentário ‘Genitori’ é de Alberto Fasulo e foi apresentado fora de competição no Festival de Locarno deste ano. Por estes dias (de 15 a 22 de setembro) Roma enche-se com os filmes (em várias salas da cidade) dos Festivais de Veneza e Locarno. Tenho pena de não poder ficar aqui mais tempo, para aproveitar esta coisa maravilhosa. Sei que a maior parte (quase todos) os filmes aqui apresentados jamais estrearão em Portugal (e quando digo Portugal, estou a dizer Lisboa, bem entendido).

Mas voltando aos pais com filhos ‘diferentes’ e ao filme-documentário e aos meus próprios pais. Não é que eu seja muito ‘diferente’, mas nasci um bocadinho ‘diferente’ e há 48 anos, em Portugal, dentro da longa noite que vivíamos, isso era motivo suficiente para que os meus pais tivessem sofrido bastante com a minha ‘diferença’. No entanto, tal como muitos pais que aparecem em ‘Genitori’, os meus pais foram fortes e andaram sempre para a frente, fazendo o que podia ser feito e o que não podia ser feito, empurrando-me sempre também para a frente. Muita da minha independência e alguma da minha ‘força’ vem deles e desse modo como souberam sempre (mesmo se nem sempre de forma muito consciente, lidar com a essa minha, mesmo se pequena, ‘diferença’. Os pais e as mães do documentário narram as suas histórias e dificuldades. Os seus receios. A sua dor. Por duas ou três vezes estive ali à beira das lágrimas. Acho que o Stefano não notou. Mas tive um nó na garganta. Não sei se há amor maior no mundo do que o dos pais pelos seus filhos. Eu não tenho filhos. Mas conheço o amor dos meus pais.

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Cartoline di Roma #4

‘Roma è un tesoro e noi siamo tutti capitani’***

Este postal é mais curto que os anteriores. Levantei-me às sete e meia, depois de ter dormido quatro horas e já são três da manhã. Apesar de ter acordado muito cedo, chego à Faculdade de Economia de Roma Tre um bocadinho depois das nove. Pouquíssima gente na sessão que será a última do meu grupo de trabalho. Estou ainda meia a dormir, apesar do duplo espresso que tomei. Quando acabamos, vamos (eu e o A.) beber mais café. O Diogo também chegou entretanto e ficamos na conversa. Peço ao primeiro que conte ao segundo a sua história hilariante com um monge budista de visita a Florença. A mesma primeira estória que me contou em Wageningen, tínhamos acabado de nos conhecer. Em 2007. Rimos-nos muito, outra vez, a estória é realmente hilariante, pode ser que um dia conte… e chega a hora de voltarmos, eu para uma sessão sobre vendedores de rua (street food, vá), porque me apetece, o Diogo já não sei para que grupo e o A. para casa, em Florença.

Toda a gente sabe que as despedidas me enervam. Mas algumas deixam um vazio tão imenso, um buraco tão fundo, que não sei o que fazer. O A. abraça-me. Diz-me coisas que só eu devo ouvir e saber. E eu fico triste enquanto o deixo para trás, na cadeira, à espera do amigo que o há-de levar a Termini. E entro triste na sala da sessão sobre street food. Há casos de NYC, França, Chad. Gosto especialmente do último. E do senhor que o apresenta. Ou é do vazio que sinto ainda ou é do esforço notável que o senhor faz para falar inglês, mas só me apetece agradecer-lhe. Almoço com o Diogo e quase no fim aparecem duas mulheres e uma delas, loira e de olhos azuis pergunta-me ‘are you Mrs. Figoeredo?’ ou qualquer coisa do género. Respondo que sou eu sim, mais i menos e, mais u, menos o. E ela diz que irá à conferência de Aveiro daqui a duas semanas e apresenta-se. Reconheço o nome, da lista de participantes. É grega. São as duas gregas, aliás. Ficamos para ali a conversar. Elas conhecem os outros gregos de quem tanto gosto. E, na verdade, gosto delas também, assim de repente.

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Cartoline di Roma #3

‘Tutta la merda dell’universo succede a me’, murmurou ele…

Hoje não tenho muitas fotografias. Há pouco que fotografar num congresso e mesmo que fotografe os colegas não vou, ainda que às vezes o faça, publicar aqui as fotografias… não vão eles aborrecer-se comigo.

O dia começa cedo. Mas assim mesmo eu e o Diogo não vamos à Sessão de Abertura. Chegamos a tempo da primeira Sessão Plenária, depois de apanharmos o metro na Piazza Bologna, em direção a Laurentina e de sairmos na estação da Basilica de S. Paolo e caminharmos uns bons 15 minutos até à Faculdade de Economia da Universidade de Roma Tre. A sala da sessão está bastante composta e vejo algumas caras conhecidas. No entanto, este congresso não é exatamente a minha ‘praia’, por assim dizer, já que é sobre agricultura e eu percebo pouco de agricultura propriamente dita. Mas o G. um dos organizadores convidou-me a mim e ao A. para fazermos um Grupo de Trabalho sobre Turismo e Agricultura. Aceitámos. Recebemos propostas de comunicação em número mais que suficiente e, portanto, aqui estou eu. O A. há-de chegar apenas depois de almoço, mas ainda a tempo da primeira sessão do dito grupo de trabalho.

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Cartoline di Roma #2

La pioggia su Roma ed essere a metà strada*

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Não é preciso dizer-vos que perdi o pequeno almoço. Já é um clássico, onde quer que vá. Levantei-me ja passava das 11h. Dormi pouco e mal. tomo banho e visto-me e saio para a rua rapidamente. A Piazza Bologna está praticamente deserta. Está calor como ontem, mas o céu anuncia que a chuva virá. Lembro-me que não trouxe chapéu de chuva. Mas penso que tanto faz e que se for preciso compro um algures. Antes tinha visto uma mensagem no facebook do Stefano que me dizia bom dia e que ia fazer isto e aquilo e que talvez por volta das nove estivesse livre. Respondo-lhe que então, falaremos depois. No bar da esquina, aqui mesmo em frente ao hotel, bebo um sumo de laranja, um espresso e como um croissant com doce. Desço as escadas do metropolitano. O jardim está deserto, mas alguém deixou uma garrafa em cima da fonte com uma rosa vermelha. Considero aquilo um bom sinal. Não sei que sinal, nem sei por que o considero bom. Mas desço as escadas a pensar em coisas boas.

Tomo o metro em direção a Termini, claro. Aqui tomo outro para a Piazza de Spagna. Não tenho um plano bem definido para hoje. Não tenho um plano, ponto. Mas há lugares onde quero regressar. Não ao Vaticano, seguramente. Uma vez é suficiente. E já o visitei antes. Não é sítio onde queira voltar. Demasiada pompa e demasiado embaraço diante de tanta ostentação. Lembro-me que quando visitei o Vaticano estava um calor abrasador e desagradável. Lembro-me que dentro da Capela Sistina nos trataram como se fossemos gado, sempre a mandar-nos avançar. Não, o Vaticano não é definitivamente, um lugar a que queira regressar. Uma vez na vida creio que será suficiente. Tão pouco penso em regressar ao Coliseu. Ainda ontem lá passei à noite. Está no mesmo sítio e deve continuar bonito como dele me recordo. Mas não está nos meus planos hoje ficar em filas infindáveis para ver o que já foi visto. No entanto, há lugares onde gostaria de regressar e é esse o meu plano, dentro do plano que, afinal, não tenho.

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Cartoline di Roma #1

‘Il passato è un fiume’ o ‘Giuro che me sembrava francese’

Voltar a Roma depois de sete anos (embora entretanto aqui tenha passado de comboio para outras paragens algumas vezes, sem, no entanto, parar) é regressar a um sítio muito familiar. Voltar a Itália depois de dois anos é, definitivamente, regressar a uma casa que é nossa, mesmo se a visitamos apenas de vez em quando. Uma casa onde se conhecem os cantos, mesmo no escuro. Onde nos movemos bem, mesmo de olhos fechados. Uma casa que se entende, mesmo sem acender a luz.

Saio de Lisboa quase às 3 da tarde. Estou com os meus pais apenas umas horas, algumas das quais passamos a dormir. Decidem ambos ir levar-me ao aeroporto, apesar da minha insistência em contrário. Apanho um táxi, repito, para não dar trabalho. Mas o meu pai, apesar dos seus 77 anos, é um homem que não se deixa vencer assim tão facilmente. Se já consegui que não me vá buscar à estação ou ao aeroporto quando chego de noite, não consegui ainda (e espero que o não consiga por mais alguns – muitos – anos fazê-lo desistir do prazer que tem em ir buscar e levar as filhas (faz o mesmo com a minha irmã) a qualquer lado. Às vezes, quando não trago – como agora – o carro para Lisboa, leva-me ao cinema ou onde for preciso, mesmo que eu lhe diga que não é necessário, que vou de transportes públicos. É também o meu pai quem frequentemente se levanta, seja que horas for, mesmo muito de madrugada, para me fazer o pequeno almoço muitas vezes que estou em Lisboa de passagem para algum lugar. É também o meu pai que me faz o café depois das refeições, mesmo que eu lhe diga que não se levante. Há estes rituais de mimo de que gosto tanto e que quero aproveitar sempre, muito e por mais tempo.

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Cartolina prima di tornare in Italia

Ora vado e non so se torno

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Esta fotografia foi tirada há muitos anos – sete – em Roma. Piazza Navona, creio. Sete anos não são quase nada e, no entanto, podem ser tanto, na verdade. Em 2008 eu era feliz em Roma. Como sempre fui, aliás, feliz, em Itália (ou deverei dizer em toda a parte onde estive e estou). Não daquela felicidade absoluta e inquestionável, mas daquela que vem de um bem-estar quase permanente. Suponho que seja uma maneira de ser. E sei que a fui aprendendo, com o tempo, muito antes desta fotografia, muito antes de muitas coisas importantes que me aconteceram por viver e estar viva. Não é exatamente a mesma coisa, creio que sabem isso tão bem como eu o sei.

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Postal já não sei de onde

Please proceed to departure gates

Este postal não tem fotografias. Porque apenas tirei duas hoje, uma delas selfie, enquanto fumava no aeroporto de Heathrow. Afinal este postal tem duas fotografias. Acordei um bocadinho depois das oito em Edimburgo. São quatro da manhã e estou praticamente a dormir, no sofá de minha casa, sentindo uma espécie de vazio, que o sono, de certeza, apagará. O voo de Edimburgo para Londres atrasou-se uma hora. O aeroporto de Edinburgo é muito organizado e moderno. Pela primeira vez entrei numa máquina que me fez um ‘body scan’. Não sei o que encontrou, se pode radiografar o princípio do vazio que sinto agora dentro. Seja como for, deixaram-me seguir para as portas de embarque. Estamos sempre a partir de qualquer lado, a atravessar portas, pessoas, dimensões e a derrubar barreiras, quando viajamos.
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Postcards from Scotland #12 (Edinburgh)

‘Wanna be lonely with me?’* or ‘There will be no miracles here’**

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Edimburgo é agora a cidade mais bonita do mundo. Agora que mal a conheci e me despeço já dela. Edimburgo tem recantos que me comovem e se acontecer que me perguntem a razão, na verdade não saberei dizer porquê. Mas Edimburgo só é a cidade mais bonita do mundo quando consigo abstrair-me das multidões que de manhã à noite percorrem, por estes dias do Fringe, as suas ruas. É um exercício difícil, mas aprende-se também a abstração como, na realidade, se aprende tudo. Até a gostar da cor cinzenta e fria que tinge os prédios, do sol intermitente, dos pingos de chuva que nos atingem, grossos e pesados, quando menos esperamos. Das quatro estações numa hora.

Acordei tarde porque ontem fiquei até às tantas na conversa com o Estevan (e não Estebán, como havia escrito no último postal) e com o Manu. Hoje de manhã ainda não eram 9 horas toca a campainha insistentemente e ouço vozes a falar muito alto. As vozes calam-se e eu volto a dormir por mais duas horas. Saio de casa antes do meio dia e tomo um pequeno almoço de fruta e café no Costa aqui na esquina. A seguir vou tentar perceber onde é a paragem do autocarro (41 ou 13) para a Galeria de Arte Moderna. Caminho por isso pela South Bridge, depois pela North Bridge e por quase toda a Princes Street até encontrar a paragem dos autocarros que me interessa. Acordei com as grossas pingas de chuva a cair na janela por cima da minha cabeça. Passado um bocado já brilhava o sol e o céu estava azul. Quando saio de casa chove novamente, mas pouco depois está calor até. Em menos de uma hora as quatro estações, como já disse. Nas ruas que referi a multidão é imensa. As pessoas caminham como se não vissem as outras, como se fossem cegas e andassem sempre em frente, aos encontrões se necessário. Na realidade é mesmo assim. Como se fossem cegas, aos encontrões. Faz-me muita impressão esta gente toda e tento abstrair-me tanto quanto possível, respirando fundo e olhando para cima, para os prédios altos e tão bonitos, para as nuvens, para as copas das árvores.

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Postcards from Scotland #11 (Edinburgh)

‘Todo está al revés’ ou ‘the life I could have lived, if only…’

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Janto num sítio bestial, Stac Polly, um restaurantezinho simpático e bonito, com comida fabulosa (e eu tenho andado há semanas a comer comida de pub), na St. Mary Street. Bebo uma pint de Raven Ale a acompanhar a maravilhosa refeição, uma cerveja que, tenho quase a certeza, o Diogo haveria de gostar. Percorro, depois do café bastante aceitável, o resto da rua até à Royal Mile, no cruzamento com a High Street, onde caminho até à esquina com a South Bridge. Aí encontro a Cowgate e viro logo à direita para a Guthrie Street, não sem antes hesitar se entro no Jazz Bar aqui mesmo ao lado. Hesito mas não entro, portanto, porque quero perguntar primeiro ao Manu que tal é o bar. Entro em casa devem ser pouco mais de 22h e o Manu está acompanhado do Estebán, metade equatoriano, metade espanhol, que é homem-estátua e pintor e cuja fotografia apareceu há uns dias no Times. Uma fotografia belíssima, diga-se, quando a encontrar online logo a mostrarei. O Estebán está a pintar uma parede no quarto do Manu. Duas figuras bem bonitas, já vos digo. Mas quando meto a chave à porta estão os dois a beber cubas-livre. Oferecem-me mas rejeito porque não gosto de rum, mas ali fico a conversar com os dois.

Falamos principalmente de política e a certa altura o Estebán exclama a propósito das diferenças entre os ricos e os pobres e entre os países do norte e do sul que tudo está ao contrário. ‘Todo está al revés’. Concordamos todos na maior parte das coisas, embora eu me sinta obrigada a ser mais otimista que eles e nem sei bem porquê. Mas nos últimos anos, tenho para mim que se não somos ou tentamos ser otimistas – ainda outro dia o disse noutro postal, a respeito de uma conversa sobre a Grécia havida em Aberdeen – acabaremos por nos suicidar todos. Sim, o Gonçalo M. Tavares já o escreveu muito melhor do que alguma vez eu o farei… qualquer coisa como ‘o que é surpreendente é que não existam mais pessoas que todos os dias se atirem de prédios altos’. Não era assim, era apenas parecido, mas é esta a ideia. E por isso, a necessidade de otimismo. A certa altura o Estebán vai pintar a parede e eu continuo a fumar com o Manu. Ele fala muito alto sobre as razões pelas quais se atirou de Espanha para fora. Espanha, diz, não é um país decente. Um país que deixa que aconteça às pessoas o que está a acontecer não pode ser, diz ele, um país decente. Digo-lhe que o meu país também não é decente, que a Grécia também não o é, mas que as coisas começam a mudar aos poucos, ou, pelo menos, eu tenho essa esperança.

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Postcards from Scotland # 10 (between Inverness and Edinburgh)

«It’s the fucking great outdoors»*
(and it is the fucking great city of Edinburgh)

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Em Inverness acordo cedo, mas assim mesmo não a horas de tomar o pequeno almoço. Há décadas que não ficava num Bed & Breakfast e, aqui entre nós, tenho intenção de passar mais algumas décadas sem repetir a experiência. Apesar de muito central, a rigidez do homem quanto ao horário do pequeno almoço, mesmo diante da minha insistência de que eram umas horas absurdas… das 8h às 9h… quer dizer… não cedeu um segundo que fosse. Quando hoje acordei e desci com as malas para pagar e me por a andar dali, tive outra surpresa desagradável. Não podia pagar com cartão e não tinha comigo dinheiro suficiente. Desagradou-me que o homem insistisse que estava escrito no Booking.com que não aceitava cartões. Quando, na verdade, eu tinha comigo o email da reserva e nada constava nesse sentido. Chateada desci os Market Steps até ao centro e levantei dinheiro. Voltei a subir os muitos degraus, ainda aborrecida e quando cheguei ao nº 15 da Ardconnel Street paguei e pedi ao homem que me chamasse um taxi. Estava quase na hora de me encontrar com a Txus no Mercado em frente à estação. O homem antes perguntou-me ‘para onde vai agora?’ e eu, ainda esquinada com ele e com falta de cafeína, respondi-lhe se tinha alguma coisa a ver com isso.

No Mercado, de mau humor, tomo o pequeno almoço e logo chega a Txus com as suas próprias malas. Alegro-me um pouco ao ver girassois na florista. Mas ao tirar uma fotografia, a dona da loja vem lá de dentro, com cara de cão de fila e exclama que não posso tirar fotografias. Eu e a Txus entreolhamo-nos pasmadas… não se podem tirar fotografias a flores, porque? De qualquer modo, já tinha tirado a fotografia. Adiante. Despeço-me da Txus com um abraço certa que nos voltaremos a ver daqui a pouco mais de um mês, em Aveiro. E logo depois, certamente, em Madrid em Dezembro. É uma ideia agradável, revê-la daqui a uns tempos. Os reencontros com os amigos são sempre bons e lembram-nos que não vale a pena aborrecermos-nos por coisas parvas como o facto de o homem do B&B nem sequer me ter dado um recibo. E é esta gente, depois, que acusa os do sul da Europa de fugir aos impostos! Enfim, já tinha dito adiante, adiante seja.

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Postcards from Scotland #9 (Inverness)

‘quando viajas com alguém, tudo te é estranho’*

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Tenho a companhia da Txus, já o disse ontem, nesta breve estadia em Inverness. Cito muitas vezes, nestes postais que vou escrevendo daqui e dali, uma frase de Enrique Vila-Matas: ‘quando viajas com alguém, tudo te é estranho. Quando viajas só, o estranho és sempre tu’. Esta frase dá sentido a este postal e também às viagens que habituamente faço sozinha. Não é que não goste de companhia, e gosto particularmente da companhia da Txus, porque gosto dela, mas gosto – talvez sobretudo – de ser eu a estranha nos lugares e não de sentir que estes são estranhos. De qualquer maneira ontem, hoje e uma pequena parte de amanhã, são dedicados a tudo me ser estranho e não a ser eu a estranha em tudo.

Acordo no Bed&Breakfast da Ardconnel Street às 10h, passada já a hora do pequeno almoço que neste sítio se faz apenas até às 9h. Tomo banho, visto-me e saio. Desço os Market Brae Steps até à High Street onde tomo um café e um croissant numa esplanada. Combinei encontrar-me com a Txus às 11 menos 5 na estação dos autocarros. Pouco depois da hora combinada aí estou. Apanhamos o autocarro que pára em Drumnadrochit e a seguir em Urquhart Castle, nas margens do Loch Ness. Vamos falando em castelhano (a Txus é basca e eu não falo, lamentavelmente, basco) e admirando a paisagem tão tipicamente escocesa. Mais verde, colinas, montanhas, ovelhas, vacas, cavalos, cercas, bosques e o rio Ness que, dali a um instante se há-de converter no espantoso e gigantesco Loch Ness.

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Postcards from Scotland #7 & 8 (Aberdeen and Inverness)

Being inside a David Lodge’s book for a while* or… not so much, after all

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O postal de ontem (que só publiquei no facebook) foi curto, basicamente dizia que havia muito para contar, mas o cansaço era extremo (ainda é) e que um grupo de europeus do sul, entre os quais me encontrava eu, tinha ‘coletivizado’ a caixa de bolachas que a comissão organizadora do congresso ofereceu ao Apostolos por integrar a comissão científica. Sendo todos de esquerda, a coletivização das bolachas pareceu-nos bem, uma vez que o Apostolos não estava presente no jantar. As bolachinhas foram comidas, assim, por mim, por uma espanhola e três ou quatro gregos. Eram bem boas.

Fiz as minhas duas comunicações ontem mesmo, na sessão das nove da manhã. Correram bem, suponho. A seguir assisti a outra sessão, almocei, mais duas sessões e bebidas ao fim da tarde, no centro, entre o antigo e o novo comité executivo, para que fui eleita no dia 19. A seguir, o jantar do congresso e a noite acabou, passava das duas da manhã, num pub local, com música ao vivo e danças escocesas que também se dançaram no jantar. Dancei uma em cada sítio e é violento ou então estou velha. É capaz de ser mais isso.

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Postcards from Scotland #6 (Aberdeen)

The grey city between Don and Dee*

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Aberdeen não é uma cidade particularmente bonita. É a capital europeia do petróleo. Tem um porto muito grande e cheio de atividade e as gaivotas parecem gatos. As gaivotas têm acompanhado a minha viagem desde Liverpool, com os seus lamentos. Em Glasgow havia menos no centro da cidade, mas aqui, parecem, como disse, gatos. Estão por toda a parte, pousam no meio das ruas indiferentes aos carros, em cima dos caixotes de lixo e das paragens de autocarro. Há bocado enquanto esperava pelo autocarro, com o Renato, para regressarmos dos centro aos nossos hoteis, havia tantas gaivotas a voar tão baixo que parecia que estávamos no filme ‘Birds’, do Hitchcock. Antes de vir para o Reino Unido passou-me pelos olhos uma notícia sobre o País de Gales que falava, justamente, de gaivotas. De gaivotas que mordiam as pessoas e os cães. Um pouco assustador, portanto, estar ao princípio da noite na Union Street com tantas gaivotas a voar tão baixo. E a ouvir os seus lamentos.

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Postcards from Scotland #5 (Aberdeen)

We, the great people of the South…

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Este postal vai escrito sem muito cuidado. Estou cansada. Passei o dia praticamente todo fechada em salas a ouvir os colegas, moderei uma sessão, falei com muitas pessoas em várias línguas, sobretudo em inglês, é certo, mas com pessoas com sotaques muito diferentes. E amanhã tenho de acordar cedíssimo para mais um dia (uma parte dele, pelo menos) fechada em salas a ouvir pessoas falar em inglês com diferentes sotaques. Não é que não goste, que gosto, acho que se percebe que uma das coisas que mais me dá prazer na vida é o meu trabalho, mas, reparem, um congresso no meio das férias, mesmo que reencontremos amigos, não é exatamente a melhor das ideias. E depois os congressos são sempre muito cansativos, a começar pelos horários estapafúrdios, e a acabar na sobrecarga de sessões e na quantidade de gente com quem se fala. Claro que há a outra parte, a mais agradável de todas, jantar com os amigos que vemos apenas de vez em quando, beber umas cervejas com eles, falar de política, dizer piadas, rir.

O dia começou relativamente cedo e chovia quando acordei. A custo levantei-me da cama antes das oito e meia. Ontem fiquei até bastante tarde a ler mais do fabuloso ‘The First Bad Man’, da Miranda July. Já vos contei como estou fascinada com a escrita dela e completamente rendida à história que nos conta neste romance. Quando acordei chovia, como já disse. Era suposto que eu visse o mar da janela do meu quarto, mas quando abro as cortinas só vejo água e névoa. O tempo escocês, ao que dizem. Suponho que até agora tive sorte na minha viagem. Só ontem e hoje de manhã choveu verdadeiramente. Mas hoje, depois de almoço, o sol brilhava outra vez e estava até ligeiramente quente. Para a Escócia, quero dizer.

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Postcards from Scotland #4 (between Glasgow and Aberdeen, by train)

«Tenha um dia bonito», disse-me o condutor do autocarro, em português

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As férias estão oficialmente interrompidas até sexta-feira. Quanto aos postais, não tenho a certeza, já que creio que o que acontece num congresso de sociologia rural interessará pouco aos que não tiverem este assunto como objeto de estudo. Claro que num congresso – mesmo que seja de sociologia rural – acontecem mais coisas para além do congresso. Mas, ainda, assim, veremos se haverá material não académico suficiente para escrever postais.

Por falar em escrever postais, hoje ao meu lado no comboio que me trouxe de Glasgow para Aberdeen (a cidade ‘between Don and Dee’) uma rapariga escrevia postais para alguém na Hungria. Lembrei-me que tenho de escrever um postal a sério para Itália. Devo esta carta ou este postal há mais de 4 meses e começo já a ficar envergonhada com a minha demora. É verdade que há sms, emails, telefonemas, e talvez por isso, porque essas coisas são rápidas e usamo-las logo ali, no momento em que nos apetece ou temos um bocadinho de tempo. As cartas e os postais, sobretudo escritos à mão e numa língua diferente da minha, ainda que a mais bela do mundo, levam tempo a escrever. Levam mais cuidado a serem compostas, trabalhadas, palavra a palavra, com a caneta sobre o papel – branco, geralmente. Mas vejo a rapariga escrever postais e lembro-me disto. Tenho de comprar um postal aqui em Aberdeen ou depois em algum outro local e escrever, com vagar, a quem devo carta. Gosto, além do mais, da expressão ‘devo carta’. Devo carta, e cuidado e tempo a uma pessoa, portanto. Uma pessoa que conheci noutra viagem, que fala a língua mais bonita do mundo (à parte o napolitano, claro) e que vive num país bastante mais quente do que este onde agora me encontro.

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Postcards from Scotland #3 (Glasgow)

«Touch the Earth Lightly»*

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Glasgow é uma cidade agradável, já o disse ontem. Emendo, aliás, Glasgow é uma cidade viva, saudavelmente viva. E linda na sua imperfeição honesta. Fico a gostar bastante desta cidade e dos seus habitantes, simpáticos todos, trocando sorrisos com os estranhos na rua. Uma dimensão humana, mais humana que Liverpool. Creio que não será supreendente. Aqui quase não dou pela presença de turistas. Em Liverpool também não encontrei muitos, exceto quando passava pelo Cavern Quarter e pelos sítios dedicados aos quatro fabulosos rapazes – sim, os Beatles, de que não sou fá, tirando uma ou duas músicas. Mas aqui já me esqueci dos Beatles completamente, enquanto passeio pelas ruas e vou reparando nos prédios e nos recantos, enquanto visito a GoMA ou The Lighthouse.

Acordei bastante depois da hora do pequeno almoço. Eram dez e meia, uma hora depois de terminar o período dedicado a esta refeição, quando saí do quarto em direção à cozinha, esperançosa ao menos numa chávena de café. O hotel tem cupcakes e bolachinhas espalhadas pelos corredores, em frascos e boleiras, pelo que – pensei eu – uma chávena de café e uma destas coisas e está o pequeno almoço tomado. Entro na cozinha e peço a chávena de café. Não só me a dão, como me servem um pequeno almoço completo. Acho que os hotéis se vêem também por estas pequenas coisas. Um hotel existe para os seus hóspedes. Se não te tratam bem, dificilmente voltarás. Já eu tenho a dizer que se alguma vez voltar a Glasgow voltarei a ficar no The Grasshoppers Hotel, não apenas por estas simpatias, mas porque é um sítio verdadeiramente magnífico. Limpíssimo, branquíssimo, com gravuras e fotografias brilhantes e com a melhor das vistas que se pode ter, pelo menos do meu quarto.

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Postcards from Scotland #2 (Glasgow)

«Swirling clouds in violet haze»*

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Afinal levantei-me a tempo de tomar o pequeno almoço que, hoje, por ser domingo, terminava às 10h30. São 10h10 quando entro na bela cozinha do Grasshopper (que é como quem diz gafanhoto… o hotel fica na Union Street, 87). O pequeno almoço é bom, mas não sei se justifica que me levante de madrugada. De qualquer maneira não fiquei com fome. São quase 11h quando ponho os pés na rua e fumo o primeiro cigarro. O hotel é completamente anti-fumadores pelo que tenho de refrear o meu vício durante várias horas. Decidi ontem à noite apanhar hoje o autocarro turístico cuja primeira estação é na George Square. Antes vou à estação central, aqui mesmo ao lado do hotel, para tirar umas fotografias, porque ontem a achei soberba. Ainda acho. Está uma brisa muito fresca enquanto avanço pela Gordon Street para encontrar a Buchanan e subir um pouco até à St. Vincent. Aqui encontro um café italiano aberto no meio de todo o silêncio e o vazio de domingo, que percorrem as ruas. Bebo um expresso sofrível. Deambulo um pouco pela praça onde fica o City Chambers e um memorial às vítimas da I Guerra Mundial. As nuvens parece que redemoinham contra o céu azul, mas não demasiado, aqui e ali salpicado de cinzento, laranja, violeta.

Apanho o autocarro turístico e fico a saber que o percurso completo demorará uma hora e cinquenta e cinco minutos. Gosto de fazer primeiro o percurso todo e só depois, entrar e sair onde me apetecer. Se me apetecer. Deste modo creio que fico a dominar melhor as cidades. Até hoje nunca falhou o meu método. A guia do autocarro é fenomenal. Com o mesmo humor escocês que encontrei hoje no senhor que entrou no 2º andar, no elevador, quando eu descia do hotel. Diz-me que por momentos pensou que eu lhe iria cobrar bilhete. Ainda não estou bem acordada e levo uns minutos para perceber a piada. Depois de me rir o senhor fala do tempo. ‘Lovely day’, diz ele e não sendo piada, eu penso – sem lhe dizer, no entanto – ‘só se for para um escocês, com este frio…’. Na rua eu acento o cigarro e ele aquelas maquinetas eletrónicas. Digo-lhe adeus e ele retribui ‘have a nice day’.

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Postcards from Scotland #1 (between Liverpool and Glasgow, by train)

«The railway cuttings covered in wild flowers, the deep meadows where the great shining horses browse and meditate»*

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Acordo em Liverpool antes das dez e meia e está um sol encantador e um céu azul de verão. Arrumo as coisas, tomo banho, visto-me, pago e deixo as malas para ir tomar o pequeno almoço à Dale Street Eatery, como nos últimos dias. O hotel é muito simpático, tem apenas seis meses e, já o disse no postal de antes de ontem, era uma antiga prisão. É tudo limpo e confortável, mas minimalista. Deve ser por isso que não é caro, apesar de ser absolutamente central. É o Main Bridewell (da cadeia Staycentral) e fica em Cheapside. O pequeno almoço é servido a 2 minutos de distância, num café muito simpático. Mal entro, hoje, uma das meninas pergunta se quero o mesmo que ontem, ou seja, fruta e ovos. Digo que seria ‘lovely’ ter outra vez fruta em vez de feijões e tomates guisados e que desta vez quero os ovos mexidos. Uma taça com maçã, uvas e, que bom, morangos. Os ovos mexidos, pão e um sumo de laranja a que acrescento depois um café expresso. A arte de fazer café não é muito praticada nesta parte do mundo. Mas bebo o café, assim mesmo. Penso que na estação poderei beber outro, no Costa. Aí tenho a certeza que um café expresso é um café expresso. Assim farei.

Ando um bocado pelas ruas a seguir ao pequeno almoço até que são horas de ir para a Lime Street Station e apanhar o comboio para Glasgow. Quando chego à estação cumprimento, e despeço-me, do senhor e da senhora da escultura Chance Meetings e, desta vez, tiro uma fotografia com o senhor. Bebo o café e vou procurar a plataforma 5. Quando me aproximo ouço um barulho de vozes grossas e vejo mais de 10 polícias daquele lado da estação. Chego-me à frente e vejo um grupo pequeno de homens vestidos de preto, com as cabeças rapadas e, alguns, com as caras tapadas. Sei imediatamente do que se trata mas, mesmo assim, pergunto a um rapaz que tem uma máquina fotográfica… responde-me que são nazis e que vai haver uma manifestação em Liverpool, hoje – a White Men March. Faço uma cara de nojo e ele diz-me que lá fora estão manifestantes de esquerda e que a polícia teme que existam confrontos. Os nazis gritam muito alto com as mãos estendidas e aquilo assusta-me tanto que digo adeus ao rapaz da máquina fotográfica e vou fumar um cigarro do outro lado da estação, arrastando o trambolho da mala. Enquanto fumo vejo mais nazis do lado de fora da estação. Penso que é um excelente dia e uma excelente hora para deixar a cidade.

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Postcards from Liverpool #3

«All the lonely people, where do they all belong?»*

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Visitei hoje Another Place. Outro lugar. Uma das razões principais por que vim a Liverpool. Já lá iremos a esse outro lugar onde parece que estão todas as pessoas sós em frente ao mar. Talvez achem estranho vir a uma cidade de propósito para ver, afinal, outro lugar.

O dia começa cinzento. Devo dizer que acaba do mesmo modo. Mas estou no Reino Unido, suponho que faça parte do cenário, o cinzento dos dias. Chovia quando acordei, quando tomei banho e me vesti e saí para tomar o pequeno almoço no bar que serve o hotel. Pedi à menina se podia trocar os feijões e restantes vegetais por fruta. Que sim. Preparou-me uma bela taça com maçã, uvas e, suprema amabilidade, morangos. Dispensei o bacon e comi os ovos, desta vez estrelados como dois sois amarelos a subsitituir o que faltava no céu. Empurrei isto tudo com sumo de laranja e aí vou em em direção a Lime Street Station onde, pensava eu, apanharia o comboio para Waterloo. Passo em frente aos St. John Gardens, subo mais um bocadinho e aqui está a bela estação de Lime Street. Aproveito e tiro os bilhetes, que comprei via internet, da máquina. Tendo comprado 4 viagens, a máquina parece, ao produzir cada bilhete com o respetivo recibo, oferecer-me um jackpot de bilhetes de comboio, o que faz – claro está – todo o sentido, já que adoro viajar assim.

No hall da estação, antes de perceber como e onde comprar o bilhete de ida e volta para Waterloo, reparo numa escultura muito engraçada – Chance Meeting – que retrata o encontro casual de dois liverpoolianos (espero que seja assim) de gema. Tiro fotografias. Peço a um senhor que me tire uma a mim, junto da mulher da escultura. Imito as suas mãos para alegria do filho pequenino do senhor, que se ri divertido. Depois deste encontro casual com estes dois habitantes da cidade vou tentar perceber como comprar os bilhetes para ir a Crosby Beach. Pergunto nas informações onde um rapaz extraordinariamente solícito me imprime um mapa e escreve as indicações. Tenho de sair da estação, apanhar o metro para Liverpool Central e depois daí o comboio em direção a Southport. Assim faço, sem me enganar.

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Postcards from Liverpool #2

In My Life*

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Há lugares de que me lembro, é assim que começa ‘In My Life’ dos Beatles. Liverpool será provavelmente por mim lembrado como uma cidade silenciosa. Falo do centro da cidade, evidentemente, que para mim, hoje, vai do Knowledge Quarter até aos Pier Head e Albert Dock, passando pelo Hope Street Quarter, pelo Ropewalks Quarter e, claro, pelos Stanley Street e Cavern Quarter. Talvez tivesse uma ideia diversa de Liverpool, mas, na verdade, eu sabia pouco sobre esta cidade. Não é que agora saiba mais, mas sei do seu silêncio e da sua calma. Talvez os habitantes de Liverpool estejam de férias em Portugal ou noutro país do sul da Europa. Ontem, um dos rapazes da recepção disse-me, diante da minha queixa sobre os preços dos bilhetes de comboios (e sobre a necessidade de ele me imprimir as referências dos que, depois, comprei, pela internet), que aqui é tudo caro e que é exatamente por isso que os britânicos vão de férias para Espanha e Portugal. Em qualquer caso, sei que ele foi hoje de férias. Para a Flórida.

Não acordei muito cedo, mas não me importei logo. Mais tarde haverei de me importar, quando descobrir que tudo termina cedo. Os museus, as viagens de autocarro turístico, a comida e o café. Mas agora acordei e ainda não estou preocupada com isso. Tomo um pequeno almoço extraordinariamente calórico (bacon, ovos, dispensei os feijões guisados mesmo se já eram 11h30, sumo de laranja e um café horrível). Deixo a Cheapside e viro à esquerda para a Dale Street que se junta mais adiante à Water Street. Faz sentido que assim seja, já que esta é a principal rua que desagua no porto. Os edíficos da Dale e da Water são belíssimos, principalmente os desta última e sobretudo quando nos aproximamos do rio Mersey, já muito largo, quase a desaguar no mar da Irlanda. Tal como eu, acabada de sair da Water Street, desaguo no porto. À minha esquerda as Três Graças, como aqui lhe chamam. Três edifícios – do Royal Liver, do Cunard e do Porto de Liverpool – imponentes. O primeiro deles tem dois relógios enormes, hei-de saber mais tarde que maiores que os do Big Ben, e dois pássaros igualmente enormes de pedra em cada torre. Hei-de também saber mais tarde que reza a lenda que se estes pássaros voarem ou cairem, Liverpool cairá também. Espero que nunca voem, estes grandes pássaros de pedra.
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Postcards from Liverpool #1

Day Tripper*
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Este postal é curto e não é inspirado. São estas horas e eu quero dormir que amanhã há muito que ver e que fazer e nem estou a falar das coisas dos Beatles. Acho que já terei mencionado que não sou particularmente fã dos quatro rapazes de Liverpool. Mas aqui chegada é, realmente, impossível não tropeçar, em cada esquina, em toda a espécie de referências.

Cheguei a Liverpool, ao hotel-prisão maravilhoso onde estou agora, em Cheapside, eram quase 11 da noite. Costumo enfatizar o tempo que demoro nas viagens e desta vez não será exceção. Era uma da tarde quando saí de casa dos meus pais, 3 e meia quando o avião descolou. 5 e meia da tarde quando aterrou sem sobressaltos em Heathrow e 7 da tarde quando entrei na Euston Station para apanhar o comboio para aqui. Antes apanhei o Heathrow Express para Paddington. Daí atrevi-me a tomar um taxi para a Euston Station, já farta do enorme trambolho que contém, entre outras coisas, a minha roupa para os próximos 16 dias. Isto significa que passei 10 horas em viagem. Comi no comboio (cujo bilhete me custou os olhos da cara e me ensinou a comprar, a partir de agora, na internet) já farta de saber que depois das 11h da noite não há grandes hipóteses de comer e de beber em praticamente qualquer cidade inglesa. Fiz bem. Também aqui se confirma que um copo que seja depois desta hora é extraordinariamente difícil. [Read more…]

Postal de Sendim

«Enquanto vai e vem, o caminho não está sozinho»

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Saio de Aveiro com a Rosário e o Jorge na sexta-feira. A direção é o Festival Intercéltico de Sendim. Nunca fui a Sendim, o que é relativamente incrível, uma vez que durante alguns anos, o caminho para Trás-os-Montes foi a minha direção. Costumávamos, eu e o Nuno, tomar outras estradas, então. Talvez mais longas. Pensávamos que eram mais longas, melhor dizendo, mas afinal, também essas estradas se tornaram mais rápidas com o passar dos anos. Rápidas demais. Curtas demais, pelo menos para um de nós. Embora esteja em crer que para os dois. Suponho que seja a vida a acontecer. E o betão a tomar conta de tudo, a cruzar os montes e os vales e os rios e as ovelhas que pastam mansamente alheias aos poucos carros que cruzam as autoestradas e vias rápidas. Julgarão elas, as ovelhas, que os automóveis são bichos raros, alimentados a alta velocidade naquelas pastagens de betão.

Vamos, eu a Rosário e o Jorge a deitar paisagens fora. Está calor no carro e fora dele quando vamos A25 acima até encontrarmos o IP2. Ainda há pouco tempo fiz este caminho, de noite, de regresso de Miranda do Douro, com o Diogo e o Daniel. Trabalho, portanto. Escrevi um postal então dessa viagem em que cruzámos Portugal mais ou menos na horizontal duas vezes em menos de 14 horas. [Read more…]

Postal de Sevilla #4…

… … que não é um postal de Sevilha

Tal como o anterior, este postal vai escrito a partir de Aveiro. Não é um postal de Sevilha porque não foi escrito em Sevilha e porque as fotos não são de Sevilha (mas espero que, pelo menos, sejam de Espanha, o que é difícil de dizer ao certo a não sei quantos pés de altitude, a bordo de um avião minúsculo, desta vez chamado Gaio).
Não gosto particularmente de andar de avião, já vos disse de outras vezes. Menos ainda de andar em aviões minúsculos mesmo que tenham nomes de pássaros simpáticos. Também não gosto de viajar à janela, ao contrário, penso, da maioria das pessoas. Não aprecio a vista porque, mais a mais, tenho vertigens e fico enjoada quando olho para baixo e vejo os minúsculos pontinhos das casas, ou as grandes serras transformadas em colinazinhas sem qualquer importância ou os grandes rios transformados em pequenos risquinhos azuis. De qualquer modo reconheço que, dali de cima, tudo o que se vê abaixo parece desenhado perfeita e rigorosamente. Como num mapa. E eu gosto de mapas. E desta vez, a bordo do Gaio, atrevo-me até a tirar umas fotografias.

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Postal de Sevilla #3

Que nunca seja ‘la azquena’

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este postal e o próximo são escritos já de Aveiro, ainda que neste as fotografias sejam de Sevilha ou dos seus arredores. Foram 4 dias cheios para mim, ainda que só dois os tenha de facto passado em Sevilha. Dois dias inteiros, três noites e uma manhã. Dias de dormir, exceto hoje que dormi mais, entre três a cinco horas. Dias que foram dois num só. Na verdade dias de estar acordada quase 20h. Trabalhar entre 7 a 10 horas e ir ‘de copas’ a seguir. Querer fazer muita coisa em pouco tempo. Querer estar com os colegas que também são, alguns, amigos e, todos, pessoas de que gosto. Aproveitar bem o tempo. Trabalhar, mas também rir muito, brincar, falar de política, levantar o punho cada vez que uma máquina fotográfica nos observa.

Do dia antes de ontem escrevi já um postal, sem fotografias. Sevilha é uma cidade magnífica. Dizem-me que tem o maior centro histórico da Europa e, pelo que andei (e não vi metade) acredito que assim seja. Sevilha e o seu folclore. As procissões, as meninas vestidas de Sevilhanas, os bares recriados como tradicionais para os turistas. A ‘movida’ intensa de sexta e sábado à noite. O flamenco mal cantado nas esplanadas, os turistas americanos, as mil e uma tapas e montaditos, as cañas frescas, o tinto de verano con blanca, uma exposição de ‘Genesis’ de Sebastião Salgado no meio de uma praça. A catedral, o alcazar, o pátio Banderas onde fica uma parte da UIMP, a Plaza Carmen Benitez, onde fica o hotel onde dormimos. Já não me lembrava que Sevilha fervilha e não é (só) do calor que falo.

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Postal de Sevilla #2

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Se esta rua fosse a minha…

O postal de hoje é curto. Não tenho energia para mais. Estou acordada há 19 horas depois de ter dormido umas três. Se continuo a viver dois dias num não sei o que vai ser de mim.

O dia foi de trabalho até às cinco da tarde. Um calor abrasador. Três ataques de tosse violentos que me tiraram (ainda mais) as forças. Em parte a culpa foi do ar condicionado, que me seca a garganta, fragilizada nestes dias, mas sem o qual não é possível viver aqui. Não sei com sobrevivem os sevilhanos em Agosto. .. mas imagino que derretam. [Read more…]

Postal de Sevilla #1

(com fotografia de Madrid)
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Um avião chamado Pardal…

Um comboio. Um táxi. Um avião. Um comboio. Outro comboio. Sevilha finalmente, 10 horas depois de ter saído de casa. Não me canso de dizer que é sempre tudo tão complicado, chegar de Aveiro a qualquer parte, que não entendo por que raio hei-de viver eu ali ou (mais frequentemente) por que raio não foi ainda inventado o teletransporte. 10 horas é imenso tempo. E mal aproveitado, neste caso, sempre entre meios de transporte. Sem sossego.

Agora mesmo devia estar a dormir. Daqui a 4 horas e pouco tenho de me levantar. Mas nada. Nem ponta de sono. Cheguei a Sevilha era meia noite e dez. Exatamente à hora prevista. 12 anos sobre a primeira -e até hoje, única – vez. Há 12 anos era Agosto. Sevilha estava um forno insuportável. Viemos de carro, depois de Ronda e da Ruta de los Pueblos Blancos – bem bonitas. Lembro-me do calor que fazia (muito mais que hoje), do N. ter ido comprar água enquanto eu fiquei sentada à sombra (como se adiantasse). Um homem sentou-se ao meu lado e disse banalidades antes de me perguntar se eu era italiana.Disse-lhe que não, no mesmo instante em que o homem que me importava chegou com a água. O outro desinteressou-se, naturalmente e foi pousar noutro banco qualquer. Talvez tenha conhecido uma italiana. [Read more…]