uma contagem pessoal dos 40 dias para os 40 anos do 25 de Abril

Sob motes diversos, usando quase sempre um poema, uma canção e uma imagem, comecei a contar os dias que faltavam para os 40 anos do 25 de Abril, a 16 de Março.

Contei 40 dias.

Estão aqui.

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25 de Abril no Porto – Avenida dos Aliados

Foi assim o dia 25 no Aventar

 O Aventar agradece as colaborações recebidas. Daqui a outros 40 (ou antes) há mais.

A seguir, os artigos do dia 25 no Aventar. [Read more...]

Autor convidado – Tito Lívio Santos Mota

E o ar ficou mais leve

Tito Lívio dos Santos Mota

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De manhã levantei-me, comi a correr os corn-flakes e fui para o Liceu, sem ouvir notícias nem nada. O comboio chegou mais ou menos à hora, como de costume. Nada para assinalar até chegar ao largo do recreio. Estranhei ver os colegas em pequenos grupos que falavam baixo, com o Reitor e os outros professores, ar solene, que nos esperavam. « Houve um golpe de Estado, o liceu está fechado, façam o favor de voltar para casa ». Voltei. Desci a encosta até à Estação de Vila Franca de Xira, apanhei outro comboio e cheguei a Alhandra sem perceber bem o que se passava. Ao entrar em casa, dei com a minha avó que dançava e chorava e ria ao mesmo tempo, em frente do rádio-móvel que emitia comunicados. A minha avó sempre comedida, tão entusiasmada ? percebi logo que algo de bom acontecera, que era um « golpe bom ». [Read more...]

25 de Abril de 2014

João Esteves

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O 25 de Abril dos escroques

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Estive na segunda-feira ao lado do Otelo, numa comemoração organizada pela Junta de Freguesia de Rio Tinto. Senti uma emoção contida. Contida porque, aos 43 anos, já não tenho idade nem disposição para me sentir arrebatado seja por quem for.
A verdade é que uma das maiores frustrações da minha vida é não ter vivido o 25 de Abril. Acabara de fazer 3 anos e, numa família de consciência política duvidosa, o acontecimento deve ter suscitado mais preocupação do que alegria. Diz quem se lembra que o meu pai, por esses dias, andava numa fona a rasgar tudo o que tinha em casa sobre salazar. Obrigava toda a gente lá em casa, ao que parece, a levantar-se quando começava o hino nacional com que terminava a emissão diária da rtp.
Sinceramente não sei se foi asim. O que sei é que fui criado segundo os ditames de um catolicismo do qual, hoje em dia, fujo a sete pés, e num ambiente de direita em que o psd era sempre a escolha no momento do voto.
40 anos depois, cá estamos a comemorar o 25 de Abril, como se realmente tivesse mudado muita coisa em relação ao dia 24. Enquanto os bravos Capitães faziam as suas comemorações num Largo do Carmo que foi palco e cenário de um dos maiores portugueses do séc. XX, no parlamento um bando de escroques, que ostracizou os únicos que realmente fizeram e quiseram a Revolução, debitava um conjunto de palavras ocas e lugares-comuns. [Read more...]

Autor convidado: Cristina Torrão

Cristina Torrão

O meu 25 de Abril

A aula não tinha começado há muito tempo, quando a professora foi chamada à Diretora. Ao regressar, lançou, muito aflita, a caminho da sua secretária e sem olhar para nós, as suas alunas da 3ª classe:
– Ide para casa, hoje não há escola!
Além de ansiosa, parecia muito irritada. Nós perguntávamo-nos se tínhamos aterrado no filme errado. Aquele dia havia começado igual aos outros e, de repente, dava-se uma viragem que não estava prevista no guião. Tínhamos acabado de chegar, de abrir os cadernos e os livros, de afiar os lápis… E porque estava a professora tão nervosa?
– Não me ouvistes? Guardai as vossas coisas e ide embora!
Já muito inquietas, desejávamos uma explicação daquela em quem confiávamos. Mas ela, atrás da secretária, arrumava os seus pertences, ruminando:
– Isto até pode dar em guerra… Não sei. Não sei o que se vai passar. Uma chatice, uma grande confusão!
Desandou dali, abandonando-nos à nossa sorte. [Read more...]

Autor convidado – Maria Helena Loureiro

“O dia inicial inteiro e limpo…”

Maria Helena Loureiro

25 abril
O rádio despertador acordou-me cedo, à hora do costume, que a primeira aula do dia era Inglês II com o John Byrne e eu não a perdia por nada deste mundo. Saltei da cama, fui tomar banho e, de regresso ao quarto, ouço “…desencadearam na madrugada de hoje uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina” “Olha”, penso eu, “lá se lixou o Selassie!” que as coisas, desde janeiro, andavam sérias para aquelas bandas e logo ligo o secador de cabelo. Mas o barulho que abafava as palavras não disfarçava a música sem coro ou refrão e acabei por desligar o aparelho e ali ficar, especada, escova numa mão, secador na outra, ouvido na rádio. [Read more...]

O 25 de Abril como Eu o Vejo

25abril-40anosQuarenta anos depois, resumo-o a isto.
Não tenho muito mais a dizer.

Autor convidado – Mário Fernandes

Que os 40 anos da revolução de abril sirvam para unir esforços e gerar esperança!

Mário Fernandes

Uma das melhores formas de celebrar o 40º aniversário da revolução de abril era aprovar a redução do número de deputados, a limitação do número de mandatos, bem como o seu desempenho em exclusividade!

Completam-se na próxima semana os 40 anos do «25 de Abril», aquela data mágica que restituiu a democracia e a liberdade às portuguesas e aos portugueses. Com sete anos de idade, à data, não posso dizer ter experimentado o anterior regime, ditatorial, os meus pais sim, mas posso afirmar a lembrança que tenho daqueles dias de abril de 1974, pois existem três palavras que me foram ficando na memória: «revolução», «liberdade» e «povo». [Read more...]

Memórias do meu Abril

Há 40 anos vivia num aldeia da zona oeste, num vale assente entre montes, onde só ia quem tinha que ir, pois não era zona de passagem. E esse isolamento sentia-se na mentalidade das pessoas, fechadas sobre si próprias, sobre o trabalho nos campos, ao ritmo da migração da geração mais nova para a zona da Grande Lisboa e sobre a vida uns dos outros. Os homens usavam um barrete preto com uma borla na ponta, que servia também para guardar o tabaco e as poucas moedas que tinham disponíveis para o dia a dia, as mulheres vestiam-se de escuro, e na hora da missa usavam véu sobre a cabeça.

A vida das mulheres resumia-se à casa, a lavar no chafariz (já que água canalizada era uma miragem, tal como a luz eléctrica em muitas delas) e a alguns pequenos trabalhos no campo. Era o Portugal do “respeitinho é muito bonito” e o homem é que mandava na casa, na mulher e nos filhos.

Os meus pais eram muito jovens, na casa dos 20 quase à beira dos 30, mas tinham já feito uma incursão pela estranja. Meu pai tinha emigrado primeiro, com uma das famosas autorizações de Salazar, depois de ter passado 31 meses, em Alto Moloqulé, em Moçambique, em plena zona de guerra, onde vira morrer muitos dos seus camaradas.  Primeiro partira ele, com contrato de trabalho, mas sem casa. Mais tarde juntar-se-ia a minha mãe e, só tempo depois, tinham voltado para me vir buscar.

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Memórias com quarenta anos

Era madrugada alta quando acordei, estremunhada, com o telefonema de António Valdemar que, à janela da sua casa na Avenida da Liberdade, estava a ver passar os primeiros blindados. Que ia já ter com ele, respondi. Queria lá saber de recomendações dos militares para não sair: nunca tinha visto uma revolução,nunca tinha votado, nunca coisa nenhuma por causa da ditadura, não faltava mais nada do que não ver como era. Mas antes de sair, telefonei a todos os meus amigos que tinham filhos pequenos: que não deixassem as crianças ir para a escola de manhã cedo e ligassem o rádio. E porta fora. Estava uma madrugada fresca, macia, perfumada, dava gosto subir até ao largo e descer ao saltos as escadas da Praça da Alegria. Eu morava numa rua de fronteira entre o Bairro Alto e o Príncipe Real, a dois passos do SNOB, o bar que era poiso certo de jornalistas, e a casa do Mestre Agostinho da Silva, que pelas sete da manhã era certo a dar milho aos pombos no largo, pretexto meigo para meter conversa com os trabalhadores que partiam para a labuta diária e, sem saberem porquê, adoravam aquele velhinho que falava tão claro quando lhes contava histórias que os faziam pensar. Não era longe, também, do restaurante onde jantava todos os dias, o Rina, que era o nome da patroa, na Travessa dos Fiéis de Deus. Sempre os mesmos, amesendados ali por anos a fio: Edite Soeiro, Acácio Barradas, José de Lemos, Urbano Carrasco, Artur Agostinho, Joaquim Benite, Fialho Gouveia, António Soares, o pintor, malta do teatro e dos fados, com Maria da Fé à cabeça, enfim receita garantida para estarmos ali sem cerimónia, como em nossa casa, até às tantas. Às vezes a Rina chegava-se a nós, mansa, a pedir que nos fossemos embora para outro lugar porque tinha de se levantar muito cedo, e nós obedecíamos. Como naquela noite em que, absolutamente em brasa, todos discutimos a Lei de Imprensa que os liberais, liderados por Francisco Sá Carneiro e Francisco Balsemão, levaram à Assembleia Nacional, na esperança de travarem a censura. José Carlos Ary dos Santos chegou, sentou-se junto a nós e logo entrou na discussão, que prometia entrar pela noite dentro. Lá veio a Rina, com o seu jeitinho maternal, e emigrámos para uma leitaria do bairro que estava aberta toda a noite. E ali voltámos à discussão. A certa altura, o Ary dos Santos levantou-se e foi em direcção aos lavabos, mas sempre a virar o corpanzil para trás, sempre a berrar as suas razões naquela voz (inesquecível). Foi então que o tasqueiro, aflito, lhe gritou: “Oh sor Ary, sor Ary, por ai não, por aí é das senhoras!”. O poeta estacou, pôs a mão à ilharga e perguntou com a cara mais séria do mundo: “E eu sou alguma galdéria?”. Ficou submersa por um mar de gargalhadas a magna discussão. [Read more...]

Autor convidado – Fernando Torres

25 de Abril

Fernando Torres

Tinha 8 anos.
Andava na terceira classe.
Apenas recordo, daquele dia, o facto de se saber da revolução, a meio da manhã.
As aulas foram suspensas.
Na minha freguesia, existiam três escolas primárias.
A escola onde anda, naquela data, distava perto de 2 km de minha casa.
Recordo, como se fosse hoje, que uma das colegas foi para casa numa carrinha de caixa aberta.
Eu, fui a pé!

O 25 de Abril que não vivi

Foto retirada do blogue folha de poesia

Foto retirada do blogue folha de poesia

Era uma miúda naquele histórico, admirável e já demasiado distante dia 25 de Abril de 1974. Para ser mais correcta, nem bem uma miúda era. Era assim a modos que um projecto de pessoa.

Tinha exactamente 4 anos e 27 dias. Memórias desse dia? Zero. Nada. Um vazio total. Infelizmente, não era uma menina-prodígio, não me recordo de absolutamente nada, para grande desgosto meu. Nem uma coisinha.

O único momento da pátria que merecia ser recordado e vivido na primeira pessoa e eu, nada! Há coisas que nos deveriam ficar gravadas na memória, mesmo que as não tivéssemos presenciado, mesmo que fôssemos demasiado pequeninos para as sentirmos, para abarcar toda a sua importância.

Mas, então, por que raios estou eu a escrever isto? Escrevo exactamente porque não vivi, mas gostaria de ter vivido. Escrevo porque há memórias que, não sendo originalmente minhas, me dominaram, tomaram conta de mim e passaram a ser minhas, ou, para ser mais correcta, eu é que passei a ser dessas memórias, de tal forma elas são, ainda hoje, ou talvez hoje mais do que nunca, tão importantes. Escrevo porque quero que as minhas filhas nunca tenham que passar por uma ditadura. Escrevo porque acho vital que nos lembremos do que antecedeu esse dia, de tudo o que conduziu ao que foi esse dia, por muito distante que ele nos pareça, por muito que a democracia nos cheire a podre. Antes o cheiro a podre da democracia do que o cheiro a mortos da ditadura.
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Devemos-te a ti, bêbado de merda

Não devemos nada aos Capitães de Abril

Autor convidado – Pedro Andrade

O meu 25 de Abril… uns anos depois do primeiro

Pedro Andrade
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Em 1974 ainda não tinha nascido, pelo que não tenho memórias do 25 de Abril. Da minha família também não recebi alguma memória particularmente marcante desse dia. Passei a minha infância nos anos 90, uma época que em retrospectiva parece quase mágica, de “vacas gordas” como se costuma dizer, em que Portugal se encheu de optimismo. Na minha infância e adolescência o 25 de Abril era só mais um feriado, mais um dia sem aulas, e pouco na escola se fazia por nos passar o verdadeiro significado da data. Se calhar porque, passada a revolução, tudo está bem. Como se Portugal tivesse o seu próprio “fim da história”… [Read more...]

Quando os lobos julgam a justiça uiva

No dia 25 de Abril de 1974, de manhã, cheguei ao Liceu de V. N. de Famalicão, terra onde vivia, e não havia aulas. De acordo com o que nos disseram havia mudanças e ninguém sabia muito bem o que se iria passar. Uma coisa ficamos logo a saber, não íamos para a tropa! (ir para a tropa significava, para mim e para os meus amigos, então com 16 anos, ir para a guerra, e falávamos muito disso).

Durante toda a manhã ficamos nas imediações do Liceu, entretanto fechado, em pequenos grupos e a conversar sobre o que ainda não percebíamos muito bem. Lembro-me de dois aviões que passaram nos céus, e não eram os da TAP. De tarde, e depois de mais informações, quer de alguns professores quer de alguns pais, ficamos a saber algo mais. Tudo iria mudar.

Para mim, verifiquei logo uma mudança, alguns livros que havia em minha casa, escondidos pelos meus pais, começaram a estar à vista, junto com os outros. Lembro-me de alguns do Miguel Torga, do Aquilino Ribeiro, e outros, que um amigo de meus pais trazia às escondidas do Brasil (Roberto das Neves, um célebre anarquista, Tomás da Fonseca, etc.). E assim tratei logo de ler alguns desses livros que estavam proibidos. Lembro-me do Bichos, do Torga, e Quando os lobos uivam, do Aquilino Ribeiro. Este retrata o que foi a expropriação violenta dos terrenos baldios (que tem uma administração própria, em regime comunitário) pela administração fascista do Estado Novo, com a consequente plantação de pinheiro em grandes parcelas do nosso território, e que matou a economia local em muitas localidades. O romance descreve essa luta, as perseguições e a repressão, com mortos.
Proibido, pois.

Junto com este havia outro, editado no Brasil, que hoje conservo. Trata-se da transcrição da  acusação e da defesa em tribunal do Aquilino por causa daquele livro.

Passados 40 anos do 25 de Abril, relembro esse, intitulado Quando os lobos julgam a justiça uiva.

Autor convidado – Fernando Monteiro

O meu 25 de Abril

Fernando Monteiro

Eram sete e tal da manhã e dormia, na véspera dia 24 de Abril de 1974 tinha estado com o Benite o Virgilio Martinho e mais malta do Grupo de Teatro de Campolide no Goa a beber umas cervejas, muitas, e a fumar uns cigarros, muitos, quando sou acordado com safanões e gritos pela D. Ester, minha mãe, com um ar aflito a dizer “levanta-te filho tens que ir prá tropa que há uma revolução “oh mãe cale-se e deixe-me dormir” “é verdade filho estão a dizer na telefonia”, liguei o rádio e só ouvia marchas militares de permeio, coisa rara, com musicas do Zeca do Fausto do Adriano e do Fanhais, entretanto toca o telefone,  do outro lado do linha era um colega e amigo dos Serviços Cartográficos, “é pá estão a transmitir na rádio que está em curso uma operação militar e que todos os militares se devem dirigir para as suas unidades qué ca gente faz?” “É pá se estão a dizer isso a gente vai”, eu que era militar, mas pouco, afastei os lençóis, pus um pé fora do sofá-cama, morávamos numa vila operária não havia quartos para todos, depois o outro, passei as mãos pelos olhos para afastar as ramelas fui lavar a cara, não tínhamos casa de banho, vesti-me e fui prá tropa, cheguei à porta da tropa e estava fechada, isto já deviam de ser prái umas nove e tal da manhã, toquei à campainha e vieram abrir-me a porta “entra rápido” e eu entrei. [Read more...]

quando o mundo era a preto e branco*

 

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Esta sou eu, em 1974. Impossível dizer se antes ou depois do dia 25 de Abril. Mas nesse ano, definitivamente era assim que eu era. Uma miudinha de sete anos. De longuíssimos cabelos, grandes olhos, a quem vestiam riscas com xadrez – devia ser moda, porque as outras miúdas (a Júlia e a Isabel) também estão vestidas do mesmo modo, numa das fotografias. Ainda não usava óculos e, em duas das fotografias, também não tinha o aparelho na perna direita. A minha mãe às vezes deixava-me andar sem ele. O que eu considerava um sinal de grande liberdade. Parecia-me mais com as outras miúdas, sem o aparelho, ainda que me fosse, obviamente, mais difícil acompanhar os seus passos. [Read more...]

Autor convidado – Ana Cristina Leonardo

A gente ri-se porque houve o 25 de Abril


Ana Cristina Leonardo
Foto de Victor Valente
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Em minha casa foi tudo preso pelo menos uma vez. A qualidade das estadias na cadeia variou muito, com o meu pai a bater o recorde de mais ou menos três anos entre os Fortes de Caxias e Peniche — o de Peniche, consideravelmente mais húmido —, mas a história que quero contar diz respeito à minha mãe. [Read more...]

Uma memória do meu 25 de Abril*

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Tinha 6 anos e estava uma manhã primaveril fantástica em toda a aldeia, com um céu azul salpicado de uns farrapos brancos. Eram 10 da manhã quando o meu pai e eu estávamos a sair de casa para sulfatarmos uma vinha. O nosso vizinho de frente, que não falava connosco fazia anos, surpreendentemente dirigiu-nos a palavra:

- Então ó vizinho, está a haver uma revolução, sabia?

O meu pai, homem da terra e mais preocupado com a abundância de água para as searas do que com golpes de estado, não respondeu. Continuámos o passo apressado mas eu estava curioso:

- Ó pai, o que é que aconteceu?
– Chiu, cala-te. Isso não interessa nada.

A forma receosa como ele me respondera calou-me realmente e só anos depois é que soube o que era uma revolução.

* Uma memória, que é a única que tenho

Ternura dos quarenta

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Autor convidado – Paulo Guinote

25 de Abril

Paulo Guinote – A Educação do Meu Umbigo

Tinha 9 anos, não pude combater pelo 25 de Abril. Sou apenas um beneficiário da Liberdade e da Democracia que nasceram há 40 anos.

A comemoração do 25 de Abril deveria ser algo consensual, mas, em simultâneo, é impossível que o seja.

Porquê? Porque há muita gente que dele se quer apropriar e outra tanta que o quer esquecer, mesmo se quase tudo lhe deve. Ao fim de 40 anos parece que há quem pareça querer contar os tostões gastos em tal comemoração.

É triste, é mesquinho, é vergonhoso.

O 25 de Abril não é de todos porque há quem dele não goste. Tudo bem, estão no seu direito, mas esse direito só é possível graças a esse mesmo 25 de Abril.

Era bom que disso se lembrassem.

O Rebuliço

Acordo para a semi-escuridão do quarto. Só umas quantas barras da persiana estão descerradas, e pouca luz deixam entrar. O meu quarto é ao fundo do corredor, e todos os sons da casa parecem viajar até à minha porta entreaberta, acidentalmente amplificados por um qualquer jogo de pingue-pongue que persistem em jogar paredes fora pelo caminho. Foi isso que me acordou, em vez do habitual chamamento da minha mãe, São sete horas, anda, levanta-te, ao mesmo tempo que ergue a persiana para deixar entrar as manhãs. Fico por momentos a observar os pontinhos de luz na parede, em fileirinhas alinhadas e bem comportadas, e a tentar decifrar o que se estará a passar. Olho para o meu relógio: o ponteiro ainda nem sequer bateu nas sete.

O bulício desusado chega-me em sussurros e passadas, para cá e para lá e de lá para cá, os chinelos arrastados do meu pai, as chinelitas apressadas da minha mãe, o raspar de dedos na porta da rua que se fecha e se abre de mansinho. Vozes. A primeira coisa que me lembra é que a minha avó terá morrido. Só pode ter sido coisa qualquer assim.

Aproximo-me devagar, corredor fora. É o vizinho de cima. A porta abre-se e fecha-se outra vez. Detenho-me antes de virar a esquina. Reviro as palavras que ouço, sacudo-as e espremo-as, exijo-lhes sentido, respostas. Já sou suficientemente grande para perceber. Há muito tempo que percebo muita coisa, a bem dizer. E fico-me por ali, naquele canto, encostada à parede, especada. Não tanto menina marota a ouvir a conversa dos adultos, quanto jovem estupefacta a tentar fazer sentido da realidade.

ler o resto

40 anos desta espécie de democracia

Já nasci nesta espécie de democracia em que vivemos hoje. Por favor, não me tomem por ingrato: estou eternamente agradecido à revolução e como é óbvio, prefiro viver nesta espécie de democracia do que na ditadura que não conheci (ainda bem) mas sobre a qual li e ouvi inúmeras histórias, de pessoas com diferentes “sensibilidades”, sobre como era, o que aconteceu e o que mudou. Tenho exemplos na família, de um bisavô distinguido pelo seu contributo para o enchimento do Celeiro de Portugal até ao pai da tia paterna que foi perseguido, torturado e assassinado pela polícia política. Estou certo que, se o meu bisavô fosse vivo, seria ainda mais salazarista do que outrora depois de ver o que esta espécie de democracia fez ao seu Alentejo, deixado ao total abandono e progressiva desertificação, onde nem uma auto-estrada que seja chega a Beja, no país com a suposta 4ª melhor rede da estradas do mundo . E como diz o meu avô, seu filho, teria “500 carradas de razão”. Esta espécie de democracia parece ter abandonado o Alentejo à sua sorte e aridez. Da mesma forma, estou certo que o resistente anti-fascista e pai da minha tia ficaria “ligeiramente” desiludido com o resultado daquilo por que deu a sua vida.

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A véspera (rutilante) do futuro (ainda) adiado

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Ela era linda. Morena, como ainda convém hoje aos meus olhos, fiéis a esse tom de pele inultrapassável e absoluto. Tinha 17 anos; eu, 23. Partilhávamos ao jantar a mesma sala, as mesmas mesas (uma em frente da outra) e trocávamos olhares desde o primeiro dia em que entrei na Tubuci para uma das especialidades da sua cozinha. Eu estava fardado, ela vestia de negro. Quando a via de negro, deixando faiscar os seus incríveis olhos verdes num contraste de sonho, todo eu me derramava por dentro e deixava que a minha energia voasse pela sala ao seu encontro.

Decidimos namorar aí por finais de Fevereiro. Exacto, nos meus anos. Ia buscá-la ao liceu, ficávamos a semear beijos e a cultivar a ternura até quase à hora de jantar. Depois, chegavam os meus camaradas de mesa, ela ia deixar os livros ao quarto e descia.
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Sophia

Sophia

Sophia, sempre Sophia. Sempre. Há um ano, aqui no Aventar, também o Ricardo Santos Pinto nos trouxe este Poema. Como já tive a oportunidade de escrever, «Em português europeu, Abril não é abril. Em português europeu, Abril é Abril. Sempre».


Feliz Dia do Trabalhador!

Versão Continente

Peixe Pequeno

Uma rede que apanha peixe pequenino, consegue apanhar tubarões?
Façam-me rir, vá.

Vencedores e Vencidos – Abril, o Grande Vencedor

   (adão cruz)

Presume-se que os vitoriosos deste Mundo, sejam os vitoriosos que provocaram ou facilitaram a fabricação desta plataforma em que vivemos, da barbárie ocidental dos tempos modernos, da poluição, da fome, da super-alimentação e da alimentação envenenada, o mundo da degradação, da auto-destruição e da massificação da economia, o mundo-universo da droga, do suicídio, da delinquência, da violência e do extremismo. [Read more...]