O Aventar na Volta – Caldas – Castelo Branco

Duas cidades importantes na minha vida. Fui viver com o meu pai e com o meu irmão para Caldas da Rainha com 5 anos, andei na pré-escola junto do mercado do peixe, o que era uma porra porque me obrigava a subir uma rua bem empinada.

É uma cidade linda, com o Hospital termal e com aquela frondosa mata e belo jardim, onde se pode visitar o Museu de Bordal Pinheiro. As sua redondezas são do mais bonito que há em Portugal, desde Óbidos, uma cidade parada no tempo em termos urbanos, única no mundo, líndissima. Para o outro lado temos São Martinho do Porto, óptima praia, mais além Alcobaça com o seu maravilhoso Mosteiro e depois toda a história ligada aos Benedetinos, com quintas, moinhos, poços e ribeiras com a sua sabedoria que ainda hoje nos encanta.

Para Castelo Branco e a descida e as curvas de Vila Velha de Rodão, com os ciclistas a rodarem a 90 Kma/hora e que terminam na entrada do tabuleiro da Ponte, com a vista maravilhosa sobre as Portas do Sol, onde o rio acorda do seu preguiçar. Depois é pelo meio de terrenos que não respondem ao desejo do Homem de lhes plantar eucaliptos , que se corre para a cidade, hoje servida de uma bela autoestrada.

As recordações começam logo quando o pelotão, qual comboio, apanha os 5 ciclistas fugidos já sobre o Montalvão, terreno sagrado onde este vosso amigo foi rei de futebol descalço. A entrada da cidade faz-se por uma avenida bonita e larga que não havia no meu tempo, ali só havia a casa da Manela que eu adorava mas que o irmão, o Jorge, dito meu amigo não me deixava namorar. Ainda hoje não lhe perdoei. Era linda de morrer.

Não faço ideia de quem ganhou, já estou com os azeites…

Poemas com História: Vinte anos, meu amor

Antes do poema, a História. Este vídeo, comentado em português do Brasil, com uma outra afirmação menos correcta (do meu ponto de vista), explica a quem não se lembrar e a quem não souber, o que se passou naqueles dias de Agosto de 1945:

O poema que hoje vos trago foi escrito em 1965, quando se completaram 20 anos sobre o bombardeamento nuclear das cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui. Foi publicado na antologia Hiroxima, uma antologia de poetas portugueses que organizei, de colaboração com Manuel Simões, e que foi publicada em 1967 e também na colectânea A Voz e o Sangue (1968).. O título é uma clara alusão ao script de Marguerite Duras, Hiroshima mon amour, para o filme de Alain Resnais. Foi reproduzido em numerosas antologias, algumas estrangeiras, e traduzido em diversos idiomas, nomeadamente em castelhano, em francês, em inglês e em catalão. Vamos ao poema:
Vinte anos, meu amor
O relâmpago da bomba que assassinou Hiroxima,
esculpiu sombras sobre a pedra e o cimento
e diz-se que uma delas foi a de um pintor
cuja silhueta ficou para sempre tatuada
no mármore da frontaria de um banco comercial.
O operário, no pedestal do seu escadote,
mergulhava o pincel na lata de tinta
quando o grande clarão se abateu sobre a cidade.
Isto é,
às oito horas e quinze minutos do dia seis de Agosto
de mil novecentos e quarenta e cinco
(enquanto outros homens lançavam bombas),
um homem que trabalhava deixava o seu protesto
esculpido a luz na fachada de um banco.
A sua sombra é talvez o mais evidente e doloroso
monumento à glória dos trabalhadores de todo o mundo.
Mas isto foi há vinte anos,
quando Hiroxima e Nagasáqui foram duas flores de fogo
em cujas corolas explodia a carne e o vidro,
o sangue e o betão – foi há vinte anos,
quando os SS fugiam de Weimar e de Auschwitz,
deixando barracões atulhados de esqueletos vivos
e pátios com montões de cadáveres – carne podre
e ossos amarelecidos que não houve tempo de cremar,
foi há vinte anos e dos barracões saíram filas
de esqueletos vivos que partiram para as suas pátrias
desembarcando nas gares cinzentas da Europa Central,
com a palavra esperança bordada nos seus brancos lábios.
Tudo isto há vinte anos e desde aí os homens,
com os lábios em que tinham hasteado a palavra esperança,
decoraram nomes de terras onde outros homens morriam
para que a esperança deixasse de ser apenas uma palavra:
– Coreia, Indochina, Argélia, Cuba, Congo…
As fachadas dos bancos de Orão, de Havana, de Leopoldville,
viram passar sombras reivindicativas de trabalhadores
e – embora não eternamente – elas projectaram-se sobre o mármore
numa ameaça do Trabalho à indignidade.
………………………………………………………………………………..
A esperança é como uma grande bandeira que os homens levam
nos lábios, nos olhos e na memória,
e as suas sílabas, como pombas invencíveis,
sobrevoam os fornos crematórios, as cidades assassinadas,
as câmaras de gás, as selvas e as celas dos presídios.
Os homens levam a esperança desfraldada nos seus lábios
e um dia hão-de hasteá-la sobre todo o Universo.

O aventar na Volta – O campeão Fernando Moreira de Sá

Lembro-me dos meus tempos de miúdo a volta era uma epopeia. Desde logo porque “os forçados da estrada” era esta a ideia que se tinha deste desporto, arrancavam de manhã e depois só se sabia deles por volta da uma da tarde.

Com um bocado de sorte conhecia-se o vencedor e as classificações às 19 horas, as surpresas das desistências, as fugas de 100 kms a lutar sozinho. Um dos que fazia destas fugas era “o velho Venceslau” (já naquela altura era assim tratado por causa daquele ar sofrido ) o pai da campíonissima Vanessa, eram pouco mais de trabalhadores rurais e da construção que se lançavam à aventura.

Já mais tarde, na vida militar, um dos soldados do meu pelotão era um conhecido corredor a quem eu dava umas baldas para ele poder treinar. Quando voltou da volta metia medo e dó. Não era branco e magro. Era transparente. Drogas todos os dias durante os 15 dias da volta. Dizia-lhe eu, mas não ganhaste em Abrantes, levavas uma mão cheia de minutos de avanço no ínicio da subida (uma subida dificil à entrada da cidade)e ele, saltou-me a pedaleira, saltou nada o que é que se passou? e ele não podia ganhar ía ao controlo e era apanhado.

A partir daí tenho uma relação amor/ódio com este desporto. É um desporto que eu jamais conseguia praticar (falta-me tudo, coragem, capacidade de sofrimento…) mas é muito bonito. As emissões do TOUR são uma fantástica viagem pela França, uma propanganda extraordinária ao país. Não perco uma.

Depois o desporto evoluiu muito, hoje temos atletas muito bem preparados, com óptimas máquinas (muito longe das velhas pasteleiras) muito bem apoiados médica e tecnologicamente, a ponto de o Director saber pelas informações do ritmo cardíaco se o atleta pode ou não continuar no esforço ou se tem que abrandar.

O problema é que fazem 200 Kms, sobem 3 montanhas e fazem 45kms /h, após 5 horas em cima de uma bicicleta e no outro dia outro tanto, e isto por mais que me expliquem eu não consigo entender.

Dormem uma noite sossegada, tomam banho, fazem uma massagem e comem quilos de esparguete com um bife e no outro dia estão como se fossem “recarregados ?

Desculpem mas não consigo perceber!

PS: Ontem fui à volta aqui em Lisboa depois jantei e enfrasquei-me, andei “de bar em bar” como na célebre canção do Toni de Matos, a polícia às três da manhã estava á espera do pessoal, uma hora na fila, vai embora que já tens idade para ter juízo. As docas de Alcãntara estão um “must”!

O Fernando Moreira de Sá foi um muito antigo vencedor da volta. Como vêm o Aventar não brinca em serviço. Já é aventador!

Propriedade Industrial de Língua Portuguesa

O Presidente da República já voltou de férias da Cappadocia? É que o homem está sempre de férias e/ou em viagem, e eu nunca sei por onde ele anda. Mas já que anda sempre pelo estrangeiro a divulgar e a defender (muito bem) a língua portuguesa, e a importância da sua manutenção como uma das mais faladas no mundo, queria só alertá-lo para um problema (propositadamente ou não) escondido: traduções de patentes. Provavelmente ele nunca ouviu falar disto, nem sequer ouvirá, e até pode parecer ridículo estar a chamar a atenção para este problema, quando há tantos diplomas importantes para recambiar para o Tribunal Constitucional, mas fica na mesma para consideração.

Portugal, em princípio, deverá ratificar o Acordo de Londres. Seguindo o bom exemplo dessa grande potência mundial que é a Hungria.

O Instituto Nacional de Propriedade Industrial diz que é bom: “O Acordo de Londres foi assinado em 2000 por 10 países no seio da Organização Europeia de Patentes (OEP) e tem como objectivo tornar o sistema europeu de protecção de patentes mais competitivo, através da redução da carga burocrática e dos custos associados às traduções exigidas nos países da OEP.” Assim, nós aqui em Portugal, não precisamos de traduzir para húngaro. Óptimo! Assim só temos de traduzir todas as patentes para português! Parece-me lógico.
Não compreendo muito bem como pode ser bom limitar apenas a três línguas (inglês, francês e alemão (que surpresa!)) toda a componente técnica de patentes. É que quem quiser ter acesso a patentes (o alicerce da tecnologia) terá que mandar traduzir tudo às suas custas. Continuo sem perceber como isto pode ser bom para um industrial português, necessariamente pequeno à escala europeia, que queira apostar numa indústria tecnológica. A mim, só parece bom para os grandes requerentes de patentes que querem proteger a sua propriedade com o menor custo possível. Como sempre, os países pequenos ficam a perder e os grande países ficam a ganhar. Nada de novo, portanto.
Com este Acordo de Londres, transfere-se rapidamente o custo da tradução de patentes de quem desenvolve uma invenção, para os pequenos industriais como os portugueses. Continuo sem perceber em que é que isto beneficia o nosso país e a nossa pequena dimensão. De certeza que “importamos” mais patentes do que “exportamos“, como em tudo o resto.
Convém lembrar que metade das patentes europeias são detidas por americanos e japoneses, o que demonstra bem a génese destes tipo de acordos. Interesse comercial e maximização de lucros. O normal.
À parte das questões técnicas, preocupa-me que se esteja sempre a defender (e bem) a Língua Portuguesa como um património único, mas no entanto se ratifique um Acordo, seja ele qual for, que a deixa de fora. Parece-me contraditório. O Acordo de Londres é simplesmente, o apagar definitivo da Língua Portuguesa no campo técnico e tecnológico. E depois é só esperar que outro Acordo qualquer, vá também apagando a Língua noutros quadrantes. Nada de preocupante, claro está!

Países que já ratificaram o Acordo: França, Alemanha, Reino Unido, Croácia, Dinamarca, Islândia, Letónia, Liechtenstein, Luxemburgo, Mónaco, Holanda, Eslovénia, Suécia, Suíça e recentemente a Hungria.

Países que não ratificaram o Acordo: Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, República Checa, Estónia, Finlândia, Grécia, Irlanda, Itália, Lituânia, Macedónia, Malta, Noruega, Polónia, Portugal, Roménia, República Eslovaca, Espanha, Turquia.

Aqui, aqui e aqui mais alguns argumentos contrários a este Acordo de Londres.

recomendação do dia

Pedro Almodóvar recomenda ao Papa Bento XVI que dê uma volta “fora do Vaticano e veja como é a família de hoje” e recorda-lhe que uma família pode ser composta de “pais separados, travestis, transsexuais e freiras doentes com sida”.

Propriedade Industrial

O presidente da república já voltou de férias da Cappadocia? É que o homem está sempre de férias, e eu nunca sei onde ele anda. Ele que anda sempre pelo estrangeiro a divulgar e a defender a língua portuguesa [http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1372990], e a importância da sua manutenção como uma das mais faladas no mundo [http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=1059189], queria só alertá-lo para um problema (propositadamente ou não) escondido: traduções de patentes. Provavelmente ele nunca ouviu falar disto, nem ouvirá, e até pode parecer rídiculo estar a chamar a atenção para este problema, quando o homem tem tantos diplomas importantes para recambiar para o Tribunal Constitucional, mas fica na mesma para consideração.

Portugal, em princípio, deverá ratificar o Acordo de Londres.

http://www.marcasepatentes.pt/index.php?action=view&id=155&module=newsmodule

O Instituto Nacional de Propriedade Industrial diz que é bom: “O Acordo de Londres foi assinado em 2000 por 10 países no seio da Organização Europeia de Patentes (OEP) e tem como objectivo tornar o sistema europeu de protecção de patentes mais competitivo, através da redução da carga burocrática e dos custos associados às traduções exigidas nos países da OEP.”
Não compreendo muito bem como pode ser bom limitar apenas a três línguas (inglês, francês e alemão (que surpresa!)) toda a componente técnica de patentes. É que quem quiser ter acesso a patentes (o alicerce da tecnologia) terá que mandar traduzir tudo às suas custas. Continuo sem perceber como isto pode ser bom para um industrial português, necessariamente pequeno à escala europeia, que queira apostar numa indústria tecnológica. A mim, só parece bom para os grandes requerentes de patentes que querem proteger a sua propriedade com o menor custo possível. Como sempre, os países pequenos ficam a perder e os grande países ficam a ganhar. Nada de novo, portanto.
Com este Acordo de Londres, transfere-se rapidamente o custo da tradução de patentes de quem desenvolve uma invenção, para os pequenos industriais como os portugueses. Continuo sem perceber em que é que isto beneficia o nosso país e a nossa pequena dimensão.
Convém lembrar que metade das patentes europeias são detidas por americanos e japoneses, o que demonstra bem a génese destes tipo de acordos. Interesse comercial e maximização de lucros. O normal.
À parte das questões técnicas, preocupa-me que se esteja sempre a defender (e bem) a Lingua Portuguesa como um património, mas no entanto se ratifique um Acordo que a deixa de fora. O Acordo de Londres é simplesmente, o apagar definitivo da língua portuguesa no campo técnico. Nada de preocupante, claro está!

Países que já ratificaram o Acordo: França, Alemanha, Reino Unido, Croácia, Dinamarca, Islândia, Letónia, Liechtenstein, Luxemburgo, Mónaco, Holanda, Eslovénia, Suécia, Suíça e recentemente a Húngria.
Países que não ratificaram o Acordo: Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, República Checa, Estónia, Finlândia, Grécia, Irlanda, Itália, Lituânia, Macedónia, Malta, Noruega, Polónia, Portugal, Roménia, República Eslovaca, Espanha, Turquia.

Aqui [http://pedraderoseta.blogspot.com/2009/07/nao-ao-acordo-de-londres-salvaguardar.html] e aqui [http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=28901&op=all] mais alguns argumentos contra o Acordo de Londres.

Segredos

segredo

Aqui está a razão do êxito (ou a falta dele) do Benfica.

Daqui para a frente vai ser um Ai Jesus para o Clube da Luz.

Será que Nossa Senhora de Fátima os vai salvar?

Logo se verá..

Evocações do aniversário de Hiroshima

Música, projecções de video, exposições de fotografia, largada de balões, com origamis, sementes de árvores, e pedidos pela paz escritos pelos participantes, são algumas das várias iniciativas que irão assinalar mais um aniversário do bombardeamento nuclear de Hiroshima. No âmbito das actividades da Marcha Mundial pela Paz e a Não-Violência (MM), as cidades de Lisboa e Porto irão hoje acolher estas iniciativas. No Porto, o local escolhido será a Praça dos Leões, e o início está marcado para as 18h00. Em Lisboa, o local será o Largo de S. Domingos (Rossio), a partir das 19h00.

A irritação de Ferreira Leite

Diz o adágio popular que o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Talvez seja esse o caminho do PSD no processo eleitoral para as legislativas.

Quando tudo estava a correr bem para Manuela Ferreira Leite, bastou a contestação de algumas distritais às suas opções para a construção das listas do PSD às eleições e uma mão cheia de perguntas de jornalistas, para a líder do partido “laranja” exibir uma estranha irritação.

Ser presidente do PSD, partido que pode ser governo de Portugal dentro de poucos meses, dá-lhe poder e autonomia para decidir sobre quem pretende integrar nas listas mas também obriga Ferreira Leite explicar essas opções aos portugueses. E, de preferência, sem arrogância e irritação.

Computadores perigosos

Um em cada cinco computadores do Estado está vulnerável a ataques. É o que diz um estudo realizado pelo Instituto Pedro Nunes. Pois. Mas isso não é nada. Eu acho que andaram aqui a vasculhar os meus textos, no meu computador, em minha casa. Sinto-me inseguro. É que eu estava a ver umas notícias sobre hackers, a escrever sobre isso, e aparece-me logo um estudo a dizer que isto “Não está famoso, mas podia ser muito pior. O nível de segurança em Portugal é perigoso“. Exactamente o que eu estava a pensar e a escrever. Adiante.

Alguém conhece o Gary McKinnon? Eu também não, mas há dois dias atrás, quando li uma notícia que ele provavelmente ia ser extraditado para os Estados Unidos, fiquei a conhecer a personalidade. Está tudo aqui na wikipedia. Fiquei então a saber que alguém, a partir de casa, sobre o efeito de drogas e a quem foi diagnosticado Síndrome de Asperger, consegue entrar em 97 computadores da NASA, Exército, Marinha, Força Aérea e Departamento de Defesa dos Estados Unidos para procurar provas de OVNIS… e sim, claro que ele encontrou provas sobre a presença de extraterrestres na Terra, mas está claro que também ninguém acredita…

Gary Mckinnon, 43 anos, desempregado e autista: o maior hacker de todos os tempos? Bem, deve ser, porque querem dar-lhe 60 ou 70 anos de cadeia e até já esteve para ir até Guantanamo! Ingleses e americanos lá se entenderão de certeza, mas o mais certo é que o homem vá mesmo ser julgado nos Estates e se calhar por lá vai ficar. Eu acho que por demonstrar a total falta de segurança informática da mais poderosa nação do mundo, ele merecia era um prémio! Vou apoiar o homem aqui.

Face ao primeiro estudo e a este “pequeno” incidente tenho de perguntar-me: Segurança na net? Níveis de segurança? Segurança de dados informáticos? Que segurança?

Falando de democracia: Um dia já não me lembrarei. De nada (sobre Hiroxima e Nagasáqui)


Foi há 64 anos. A era de um novo terror começara. Os Estados Unidos lançaram a 6 e a 9 de Agosto sobre Hiroxima e Nagasáqui, respectivamente, as primeiras bombas nucleares a atingir alvos civis. Em 1965, com o poeta, e agora professor universitário, Manuel Simões, organizei uma antologia com «depoimentos de poetas portugueses sobre o flagelo atómico, no 2º aniversário da destruição de Hiroxima e Nagasáqui». Mais de trinta escritores contribuíram com os seus poemas para esta edição que foi publicada em 1967 – nomes como os de António Cabral, António Rebordão Navarro, Casimiro de Brito, Eduardo Guerra Carneiro, Egito Gonçalves, Fernando J.B. Martinho, João Rui de Sousa, Manuel Alegre, Maria Rosa Colaço, Papiniano Carlos… Transcrevo alguns excertos do prefácio (estávamos a 7 anos de Abril e o livro foi proibido, não só pelo seu prefácio, mas também pela agressividade da maioria dos poemas):
«Agosto de 1945 é para o mundo, um fundamental marco miliário: é a partir dessa altura que é lícito falar-se dos Estados Unidos como da mais poderosa potência do Ocidente. A ambiciosa e florescente nação dos anos vinte, ressurge, já recomposta das cicatrizes que a crise económica de 1929 abrira. Poder edificado sobre os 130 000 cadáveres de Hiroxima e de Nagasáqui, consolidado com o sangue e com as lágrimas de tantas vítimas.
«Em nome da Liberdade, os E.U.A. deram o seu contributo para a destruição do nazi-fascismo, mas hoje, após a guerra da Coreia, após a invasão da Guatemala, após o desembarque na Baía dos Porcos, após a intervenção no Congo, em plena guerra do Vietname e em flagrante e escandalosa ingerência na política interna da República Dominicana, é oportuno perguntar até que ponto a «democracia» ianque se identifica com os fantasmas que ajudou a derrubar.» (…) «Os 130 000 mortos de Hiroxima e de Nagasáqui, são diariamente agitados ante os nossos olhos como um negro estandarte. A América serve-se dessa terrível recordação que inseriu a fogo na memória deste século, para amedrontar o mundo.»(…)«No Verão de 45, o Japão estava virtualmente derrotado – esgotara as suas fontes de energia humana e económica. Mas, nos Estados Unidos, temiam-se as consequências de uma batalha final em que o império nipónico empregasse desesperadamente as suas últimas forças.» (…) «É preferível que morram 100 000 japoneses a que morra um só Americano, eis uma explicação oficial citada num livro de J. Robert Oppenheimer.» (…)«Hiroxima, se é um terrível símbolo de morte, se é o aval do cheque com que os americanos exercem a sua chantagem atómica, é, para os homens verdadeiramente livres, e referimo-nos àqueles que o são em pensamento, ainda que os seus pulsos levem algemas, um símbolo de Paz.» (…)«Símbolo de Paz, porque nos ensinou, entre outras coisas, que Hiroxima pode, amanhã ou ainda hoje, acontecer em Londres, em Lisboa, em Moscovo ou (quem sabe?) em Nova Iorque.»
*
Mais de 40 anos depois, estas palavras continuam actuais Com pequenas alterações de circunstância e pormenor, voltaria a subscrevê-las. O que aconteceu de 1967 a esta parte não as desmentiu, antes as confirmou. Inclusive na medida em que o reflexo da prepotência norte-americana, apoiada pelos seus aliados da NATO, sob a forma do fundamentalismo islamista, atingiu Londres, Nova Iorque e Madrid. Porém, perdura, nos dias de hoje, 64 anos depois, a memória de Hiroxima?
Para nos recordarmos, vejamos acima algumas cenas de «Hiroshima mon amour», o inesquecível filme que, em 1959, Alain Resnais realizou com script de Marguerite Duras.

O professor Eduardo Lourenço, num artigo publicado no Público há vinte e quatro anos diz: «Desde Heródoto que a História existe como discurso contra o esquecimento, como estratégia para conferir um ¨sentido¨, uma plausível inteligibilidade inerente à vida e acontecimentos humanos. Para termos essa existência plena, semelhante à dos deuses gregos, imunes ao tempo, assumimos a vigília sem noite que chamamos História. Nela e com ela, sabemos de onde vimos e para onde vamos. Subsidiariamente, quem somos. Desta ilusão fundadora Hiroxima nos despiu. Os seus “cem mil sóis” não podem ser olhados sem morrer. Mesmo a sua recordação é mortal. Hiroxima impõe o esquecimento.» (…) «Hiroxima é um não-lugar, uma Pompeia fabricada de mão pensada pelos homens. Os japoneses deviam tê-la conservado assim, arrasada como Cartago pelos novos romanos, insuportável à vista e intolerável para o coração. Preferiram dissimulá-la e ninguém está no seu lugar para os julgar. Para sobreviver, incorporaram o esquecimento na sua história privada. Sem o saber, inauguravam a lúdica era da pós-modernidade que não é culto pedantismo de intelectuais europeus expulsos de uma História como fonte de sentido, mas tempo de gente que incorpora o esquecimento-Hiroxima por saber de mais que, sem ele, desembocaria descalça num terraço com vista privilegiada sobre o nada. Aquele onde tão festivamente estamos.» Vejamos mais um pouco do filme de Resnais.

Como Eduardo Lourenço, citando Marguerite Duras, lembra nesse artigo publicado no Público quando do cinquentenário da destruição atómica: «Un jour je ne me souviendrai plus. De rien». São palavras de Emanuelle Riva, a intérprete principal do filme: «- Um dia já não me lembrarei. De nada». Um dia, Hiroxima será uma data nos livros de História. Não nos lembraremos. De nada.

O essencial

Vamos lá ver se desta vez percebem, porque a malta está fartinha de explicar:

– a carreira de professor tem um conteúdo funcional que é igual do primeiro ao último dia. OK?
Se querem gastar menos dinheiro com os profs, assumam, mas não continuem a colocar remendo atrás de remendo num estatuto que está mais que caduco!

O empobrecimento nos próximos dez anos

“…uma taxa de crescimento tendencial durante o próximo ciclo que não deverá ser superior aos valores situados entre 1,25 e 1,5 que se registaram no último ciclo!

Isto aponta para um crescimento gradual do desemprego que andará pelos 10% em 2010 e uma variação negativa do valor dos salários em termos nominais este ano.

Portugal segundo as projecções voltará a ter um comportamento e um desempenho inferior aos dos seus parceiros europeus. (MOODY’s, Público)

Este é o nosso futuro imediato pelas mãos de quem está no governo há 11 anos nos últimos 14 anos, o PS e o seu intervencionismo cada vez maior e mais prejudicial para a parte da economia que produz riqueza.

Anos e anos perdidos com uma visão centralizadora e estatista, de braço dado com as grandes empresas públicas e grandes grupos económicos, megainvestimentos, deixando no esquecimento o tecido empresarial que cria riqueza e emprego, produz bens transaccionáveis e para exportação.

Olhem para o Programa do PS e é isto que lá vão encontrar, mais do mesmo, uma máquina ávida pronta a abocanhar o seu (grande) pedaço.

Não podemos esquecer o ” contrato Liscont” o TGV, o aeroporto, as autoestradas em duplicado, as SCUTs, a Empresa Frente Ribeirinha e esse buraco negro que são as empresas públicas de transportes…

Há que mudar de modelo político e económico sem o que não há esperança para as gerações vindouras!

Frases e factos de hoje

1-Portugal vai sair da empresa que explora os diamantes em Angola. Não é um negócio decente onde um país possa estar sem problemas de consciência. Óptimo!

2 – Em dois anos os cidadãos que não têm médicos de família aumentaram em 250 000 .O governo criou as unidades de Saúde Familiar para trazer mais gente para dentro do sistema mas os resultados não são famosos. Em 2006 havia 1 146 635 pessoas sem médico de família , em 2008 tinhamos 1 416 277 nas mesmas condições!

3- O Sporting apurou-se com um golo já para além dos noventa minutos. Quem não se cansa de lembrar isto são os mesmos que se esquecem que tinha sofrido um golo no primeiro minuto, quando ainda ninguem tinha feito nada para merecer um golo! Estamos sempre contra os “nossos”.

4- “O primeiro ministro José Sócrates parece ter perdido as certezas que justificaram as acusações de arrogante e autoritário. O seu hiper-activismo nas actuais caracteristicas da luta política vira-se agora contra ele”( helena Garrido, Público )

5- Portugal resiste à crise mas não se prepara para a retoma, diz a agência Moody’s. É preciso saber se as autoridades de país têm a vontade política de tomar as medidas necessárias para enfrentar a falta de competitividade. (Público)

6- Petróleo volta a ameaçar a retoma económica, tendo ontem ultrapassado a fasquia dos 70 dólares/barril. Aos primeiros sinais de retoma económica aí estão os mesmos problemas. É preciso mudar de vida foi o que nos ensinou esta crise mas a lição não foi ouvida por quem manda!

Na Madeira o jornal O Diário de Notícias anuncia o despedimento de 13 pessoas, enquanto isso o jornal oficial do governo regional, decidiu tornar o título gratuíto e aumentar a tiragem para 15 000 exemplares. Tudo pago pelos “cubanos do contenente”. Viva o Jornal da Madeira ! Se disserem isto a Alberto João ele diz que a RTP custa muito mais. E não é que tem razão?

MONIZ

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A SAÍDA ANUNCIADA
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Quem se mete com quem se mete, leva!
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José Eduardo Moniz, por ventura o melhor dos directores da televisão Portuguesa, saiu da TVI.
Poder-se-ia dizer que estava já anunciada a sua saída há muitos meses, desde que a estação televisiva escolheu como principal alvo o ainda nosso Primeiro.
Poder-se-ia dizer, lá poder podia, mas ninguém dirá, pelo menos os que mandam na gente, e muito menos eu que destas coisas, percebo nada.
Moniz mexeu onde não deveria, e está-se mesmo a ver, o pau partiu pelo lado mais fraco.
É lamentável e deprimente que se viva desta maneira, neste nosso País, e, pior, com gentinha desta laia.
A vida é feita de ciclos, alguns são assim, e acabam desta maneira!

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Ora nem mais…

Ler AQUI e não deixar de ler, igualmente, AQUI

O que é o Iberismo ?

Pela primeira vez foi feita uma sondagem em Portugal e em Espanha sobre uma eventual federação Ibérica.

Portugueses são 39,9% que dizem sim à ideia, Espanhóis são 30% os que acham boa ideia essa união política.

Em primeiro lugar não sei bem se aqueles conceitos se identificam, confesso. Federação Ibérica é o mesmo de “fusão” ibérica? E Iberismo tem como objectivo a Federação de todos os Estados que reivindicam autonomia ou trata-se de um só Estado, um só território, e vários povos?

E agora que estamos na UE porquê este súbito reacender do Iberismo?

O Miguel Gaspar no Público diz-nos que é a razão mais cínica que nos faz mover. Acabados “os fundos comunitários” os portugueses mandriões e pobretes voltam-se para Espanha para o novo “el dorado”. Porque por muito que não gostemos de Espanha a verdade é que o país vizinho vive muito melhor do que nós, tem condições para sair da pasmaceira, evoluiram muito melhor que nós na cultura, na sociedade, na economia.

Como não somos capazes de nos aproximar deles pela competência então juntamo-nos a eles. A muito portuguesa inveja, leva-nos sempre a procurar a solução mais cómoda.

Ora, o único iberismo possível é sermos capazes de dar o salto como eles deram, ficar ao nível deles e compreender onde falhamos e eles não!

Apontamentos & desapontamentos: As eleições autárquicas em Lisboa

Hoje é um mero apontamento, pois ao falar da classe política já não faz sentido manifestar qualquer espécie desapontamento. Sou lisboeta, filho, neto e bisneto de lisboetas. Nasci em plena Baixa, ali pelas mesmas paragens por onde o Pessoa, e o seu Bernardo Soares, remoíam o desassossego e às vezes o afogavam num copinho de aguardente ao balcão do Vale do Rio (aquele em que o Fernando foi fotografado «em flagrante delitro»). Porém, não moro na cidade e, por isso, não posso votar na eleição do presidente do município da «minha» Lisboa. De todos os candidatos em presença, tenho dificuldade em escolher um do qual o programa e as provas dadas me dêem garantias de que as coisas vão correr bem. O António Costa, apesar de pertencer a um partido de que não gosto (na verdade, não sendo anarquista, não gosto de nenhum dos partidos existentes), desiludiu-me. Por aquilo que dele sabia – fui muito amigo do pai, excelente escritor e cidadão de primeira água – pensei que fosse fazer melhor. Bem sei que herdou uma situação difícil, mas isso é um dado adquirido – todos os autarcas herdam situações complicadas. Porém, a maneira como lidou com essas dificuldades, definem-no como um autarca vulgar, com soluções de compromisso nem sempre, quase nunca, aceitáveis. Não me parece que devesse insistir neste cargo. Não lhe assenta bem. Mas ele é um político profissional e, na sua perspectiva, não tem alternativa. O candidato do Bloco, não sei, seria um voto em alguém que não vai ganhar, mas não seria por esse motivo que deixaria de votar nele. Dizem-me que, pese embora a sua «genealogia» estalinista, é pessoa séria. Talvez fosse a minha escolha. Talvez. Nos candidatos do PCP e do CDS, sejam quem forem e prometam o que prometerem, nunca votaria por uma questão de princípios. E Santana Lopes?
Não é candidato que se apresente. Comparando-o com outro autarca do mesmo partido, o Rui Rio, por exemplo, Santana fica a perder (Não digo em obra feita, mas, pelo menos, em imagem). Mas esse é o drama do PSD – não tem gente de qualidade – o PS tem-na bem arrumada no sótão e empacotada, mas tem-na. O PPD, ainda vá que não vá, tinha aqueles jovens da Ala Liberal da ANP, teve pessoas como a Natália Correia, enfim, sempre era outra coisa. Agora tem o Pacheco Pereira, que é um homem de cultura, mas esse teria de criar um partido só para ele. Tem o Marcelo Rebello de Sousa, uma espécie de «bruxa má» destilando, sempre com um sacaníssimo sorriso, veneno a torto e a direito, até entre os seus correligionários. Em suma, o PSD é um deserto de ideias e de pessoas apresentáveis. Veja-se a Manuela Ferreira Leite – hesitante, mentindo tanto como Sócrates, parecendo mais séria só porque, de facto, se ri menos. Mentindo porque tem a desvergonha de criticar até mesmo medidas económicas lançadas por ela quando fez parte do ministério de Durão Barroso. A Manuela Ferreira Leite não existe. É uma sombra de outra sombra – da inexistente personalidade de Cavaco Silva. Tenho dito por diversas vezes que nunca gostei de Francisco Sá Carneiro enquanto era vivo e não seria pelas condições trágicas em que morreu que iria passar a apreciá-lo. Era um político no mau sentido da palavra – oco de ideias, chicaneiro, manipulando a oratória, a sua e a dos adversários. Em todo o caso, era um político. Ponto final. Os que lhe têm sucedido são gente sem vergonha em busca de tachos para eles e para os amigos. Tachos e protagonismo. E Santana Lopes, não sendo propriamente um político, é um paradigma desse tipo de pessoas.
É um homem do jet set, das revistas cor-de-rosa, mas não é um político (embora considerando toda a carga pejorativa que o termo comporta, mesmo assim ele fica aquém). Lá habilidoso e desenrascado é ele – envia um postal ao Machado de Assis, o grande escritor brasileiro morto em 1908, confunde um anúncio do livro Cuidado com os Rapazes com uma ameaça e convoca uma conferência de imprensa para denunciar a conjura, mede o Co2 em magawatts e inventa concertos de violino ao pobre do Chopin… Era quando desta gaffe secretário de Estado da Cultura, veja-se.

E secretário de Estado de quem? De Cavaco Silva, claro – o tal primeiro-ministro de Portugal que não sabia quantos cantos têm Os Lusíadas. Que pronunciava pograma e supreza. Gaffes e atropelos da língua e da cultura que o actual presidente da República não comete, já se vê). Mas Santana não se prende com ninharias. Ah não são megawatts, são toneladas? E então, não faz tudo parte do sistema decimal? O Chopin não compôs concertos para violino? E não podia ter composto? No século qualquer coisa já se fabricavam violinos, ou rabecas… Então esse tal gajo, o Machado não sei quantos, morreu há cem anos? Qual é o mal de lhe mandar um postalinho? É o chamado «desenrascado», não se prende com pormenores. Passa adiante. Só que a política autárquica é feita de pormenores, pelo conhecimento de pequenas coisas que às vezes têm um grande significado para os munícipes, de amor pela cultura (que ele arrogantemente despreza, porque a ignorância é sempre arrogante). Desta vez chega prometendo mais um túnel, avisando em todo o caso que provavelmente não o fará. Enfim, a verdade é que o António Costa, menos ignorante, com menos gaffes, mais ponderado no discurso, pessoa mais séria, também não fez grande coisa e a cidade está num caos. Duma coisa podem os lisboetas estar seguros – os múltiplos problemas da sua cidade, incluindo a excessiva emissão de magawatts de Co2, não será Santana Lopes que os resolverá. É a escolha mais óbvia a não fazer. Mas, e a escolha certa? Há alguma? Parece-me que não. Em todo o caso, oxalá os meus conterrâneos façam outra escolha, seja ela qual for será provavelmente uma má escolha – só que com o Santana o «provavelmente» não faz sentido. O Santana outra vez, não. Dêem o benefício da dúvida a qualquer um dos outros. Porém, desde que vejo o mafioso Berlusconi a ser eleito pela quarta vez, na Itália da cultura, como posso acreditar que os alfacinhas, com o seu pendor fadista e fatalista, não sejam também eles seduzidos pelo charme indiscreto da fatal ignorância do playboy Santana?

O DIAGNÓSTICO

O DIAGNÓSTICO

(Mais um conto da Guiné. Espero que saboreiem como eu saboreei)

O sol baixava a sua fogueira comendo a sombra à medida que a luz crescia. Como sempre, meti o corpo dentro de uma velha bata branca e dirigi-me ao posto de socorros, onde me aguardavam soldados e nativos para a consulta matinal. Hora respeitada. Ritual.
Logo que cheguei, os olhos caíram-me na figura de uma velha cuja idade mirrara na secura das carnes. A pele parecia colada aos ossos e a silhueta nem sombra dava. Os sorrisos esqueceram-se para lá da boca, e dois ninhos de rugas guardavam os olhitos faiscantes.
O “Manjaco”, nome da etnia de que era originário, um dos meus ajudantes nestas tarefas clínicas, alto e desengonçado, sempre feliz e afável, surgia acima de todas as cabeças.
– Manjaco, vamos ao trabalho.
-Dotô, manga pessoal, manga chatice!
Quando chegou a vez da velha, o Manjaco torceu o nariz, dando a perceber que era de língua difícil e de terra sem lugar, lá onde acabam bolanhas e começam mangueiros e coqueiros. Por universal defeito de raças e linguagens as nossas falas não se cruzaram. O Manjaco olhou em volta procurando intérpretes para aquele resto de corpo. Bateu o pé no chão para espantar a pequenada, debruçada na curiosidade.
-Maldita canalha, maldita velha qui só vem no chateanço. Tu, vem cá, e tu.
Os dois rapazes entreolharam-se como se mutuamente se desconfiassem. Um deles era mandinga e o outro não me lembro.
Puseram a velha a queixar-se. Ela sacudiu os ossos em imitação de tosse, ao mesmo tempo que apertava entre os dedos a pele seca da garganta. Numa espécie de dança, mexia o corpo para a frente e para trás baloiçando a magreza. Agitava-se em tremuras fingidas, emitindo uma espécie de grunhidos salpicados de baba, enquanto as mãos apanhavam o baixo-ventre ou se espalmavam nas hipotéticas ancas. O Manjaco ia observando toda aquela mímica com ar enfastiado:
-Ché! A velha é maluca!
Olhou de maneira inquisidora os dois moços, apontou para a velha, e já com a paciência a apagar-se, exclamou:
-Fala pá, fala maleita di velha.
Os dois esquinaram o olhar, torceram a boca, e a aflição somou as duas caras. O primeiro virou-se para o segundo e disse numa lenga-lenga:
-“blá, blá, blá.
O segundo voltou-se para o Manjaco e traduziu:
-blé, blé, blé.
O manjaco encolheu os ombros, esboçou o gesto de quem nada percebeu, olhou-me de soslaio e exclamou:
-Dotô, isto estar grande merda!
De novo solicitada, a velha repetiu a cena escorrendo as palmas das mãos pelas pernas abaixo, esboçou um espasmo figurativo de dor, enroscou-se num ar felino e cravou os olhos desafiadores na cara do Manjaco. Disso é que ele não gostou. Com ar zangado, agarrou os dois rapazes pelos ombros, e numa última tentativa interpelou de novo:
-Tu ca sabi pá, tu ca sabi puto língua di velha, puxa por mimória, pá. O primeiro virou-se para o segundo e disse:
-Blá, blá, blá.
O segundo voltou-se para o Manjaco e traduziu:
-Blé, blé, blé.
O Manjaco não atingiu e enraivou o anterior desabafo, espaçando as palavras:
-Dotô,…isto…estar…grande…merda!
Caracoleou então por entre queixas e deixas, desmontou os arrebiques da velha, denunciou a incapacidade dos intérpretes, e bufou de furor e impaciência. Tomou ele a iniciativa. Ensaiou uma cantoria zombeteira e atirou à cara da velha uma autêntica algaraviada. Furiosa, a mulher fez assomar ao nariz uma lágrima de ranho, fincou no chão os pés calçados de lama seca, olhou os dois intérpretes, fulminou o Manjaco, calou uns segundos de silêncio e voltou aos mesmos gestos e grunhidos, com força redobrada e descrição veloz, como cena de filme a correr em acelerado. Parou de repente, fitou de maneira desafiadora os circunstantes e cravou pela primeira vez os olhos em mim, como que a dizer:
-Então, já percebeste?
O Manjaco estava desorientado. Começou a dar uns passos curtos e outros compridos, rodopiou sobre si mesmo, volveu os olhos ao céu, e a despeito da vontade de estrangular a velha, voltou-se calmamente para mim e disse:
Olha Dotô, corpo de ela tá todo fodido.

                (manel cruz)

(manel cruz)

José Sócrates conseguiu

Não foi de uma maneira, foi de outra…

Cartazes para as Autárquicas (Valongo)

(iniciativa explicada aqui)
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Maria José Azevedo, Candidata independente, Valongo.

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Não sei fazer uma rosa
nem me interessa
não sei descer à cidade
cantando
nem é grande a pena minha
não sei comer do prato dos outros
nem quero
não sei parar o fluir dos dias e das noites
nem isso me apoquenta
não sei cativar o brilho
do poema azul…
…e isso dá-me vontade de morrer.

               (adão cruz)

(adão cruz)

QUADRA DO DIA

Comem tanto que dá nojo
Tem mão neles ó S. João
Se não lhes dás cacetada
Ficamos sem um tostão.

AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAÚDE (7)

AS QUESTÕES ÉTICAS NOS CUIDADOS DE SAUDE (7)

Os projectos humanos vivem do ancoramento temporal do passado, em luta contra o estreito espelho do nosso vazio presente, com os olhos no poderoso estímulo projectivo do futuro. A educação, toda a educação, neste caso a educação médica, está acima de tudo, acima da própria saúde de que vai ser o suporte, acima do pão e da paz. Da mesma forma que com a educação em geral, dentro de uma correcta educação e formação médicas tudo é possível em termos de saúde. O gene saudável ou a mutação patológica do exercício da medicina e de toda a ética que a envolve podem coexistir no útero da Faculdade e no seu leite natural. Claro que esta educação não se limita à transmissão, pura e simples, dos conhecimentos científicos. Não é preciso ser muito esperto para compreender que a formação global e estrutural do homem é bem mais complexa.
Eu costumo dizer que a cultura é a capacidade que o Homem tem de entender os fenómenos que o rodeiam. Parecendo demasiado simplista, esta definição encerra um profundo conteúdo. A cultura, empilhamento de conhecimentos, suporte de medíocres serventuários e de incriativos plagiadores, simples potencial quantitativo, não produz o saber vital, o saber estar na vida. Nenhum médico pode ser bom médico se não for culto, se não for uma pessoa bem formada. Não vou aqui estabelecer os critérios que definem uma pessoa culta, uma pessoa bem formada. Mas posso dizer que uma pessoa que não entenda o mundo, que não compreenda a razão das razões, que não agarre a essência e a substância dos complicados fenómenos com que tem de lidar, que não saiba o valor da humildade, que não reconheça o mal da presunção e da arrogância, que não aceite a indispensabilidade do bom-senso, que não seja capaz da linguagem falada, escrita, gestual e psicológica exigida pela sua missão, não veicula, nem de longe nem de perto, os elementos indispensáveis à criação da tal “relação privilegiada com uma pessoa muito especial, o doente.”(Continua).

                 (adão cruz)

(adão cruz)

Os políticos que "estão" arguidos

Estar arguido é uma situação que pode acontecer a um qualquer de nós. Ser arguido num determinado processo requer que haja fundadas razões e dá um conjunto de condições de defesa que só são usufruíveis se se estiver nessa condição.

É, pois, o Estado de Direito a funcionar. Não há mal nenhum ser arguido e até prova em contrário todos são inocentes.

Outra coisa muito diferente é um arguido concorrer a um cargo público seja de nomeação seja por eleição. Porque estas funções requerem antes de tudo, credibilidade. Se uma pessoa está sujeita à suspeição desde logo fica fragilizada no que, para ela, é a característica mais importante.

Isto é indesmentível, e não se percebe porque a Lei não acolhe este argumento. Poderá dizer-se que se assim fosse não haveria governo ou Assembleia ou Executivo camarário que chegasse ao fim do mandato. É certo, pois então gradue-se as circunstâncias. Se estiver a exercer só sairá se for considerado culpado, se for para concorrer basta estar arguido.

Há uma terceira questão talvez a mais importante. O eleitor não pode exercer o seu direito de escrutínio e “individualizar” os nomes que não quer ver eleitos. Se há quem eleja “isaltinos” e “felgueiras” só podemos lamentar o baixo nível de exigência desses eleitores, mas que os eleitores conscientes e exigentes não possam impedir a eleição de quem , a coberto de uma lista partidária, passa sem o seu apoio é profundamente lamentável.

Aqui está uma medida que muito contribuiria para a limpeza do balneário!

O Grande Irmão engordou

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“Data e hora das chamadas ou da ligação à Internet, endereço de IP, nome e endereço do utilizador ou subscritor do serviço, localização de aparelhos móveis – são alguns dos dados que, a partir de amanhã (hoje, quarta-feira), os operadores de telecomunicações passam a ter de guardar durante um ano, para o caso de um juiz requerer a informação. De fora desta medida fica todo o conteúdo das comunicações, cuja retenção continua a ser proibida”, relata o Público.

Quase nada de novo. Continuamos a ser controlados. Cada vez mais. Continuamos à disposição dos senhores juízes e dos senhores das operadoras de comunicação. O que nos vale é que é tudo boa gente e de confiança. Tenho a certeza disso. Você não tem?

The new movie

Michael Moore estará em breve de volta. Desta vez, Capitalismo, Bancos, Corporações. Fico ansioso. Pelo filme em si, e pelas reacções dos americanos que têm sempre muito medo do comunismo. Mas calma! É só para Outubro! Fico à espera.

“It’s got it all — lust, passion, romance and 14,000 jobs being eliminated every day. It’s a forbidden love, one that dare not speak its name. Heck, let’s just say it: It’s capitalism.”

PSD – As listas da vergonha

As listas sempre foram um problema para os partidos. Em especial para o PSD.

No caso de listas de deputados a coisa repete-se legislatura após legislatura. Como com o mal dos outros podemos todos bem, vamos cingir-nos ao caso do PSD de Manuela Ferreira Leite.

A escolha da líder é clara. Mantendo a tradição, desrespeitou o espírito da lei colocando barões de Lisboa e do Porto a liderar listas na parvónia. Fazendo de conta que não é nada com ela, esqueceu as sábias palavras de Marques Mendes (que classificou domingo, em entrevista à Agência Lusa, como “uma vergonha” para a democracia e uma “atitude chocante” para o comum dos cidadãos que políticos acusados, pronunciados ou condenados judicialmente por crimes graves – como corrupção – “possam impunemente ser candidatos a eleições”) e lá colocou dois ou três elegíveis com processos às costas – só faltou o Arlindo Carvalho para compor o ramalhete.

Em suma, Manuela Ferreira Leite acabou de desiludir alguns militantes e, certamente, inúmeros potenciais eleitores. Ao colocar António Preto nas listas, Manuela Ferreira Leite deu um sinal de recuo. Um estranho recuo. Mesmo acreditando que António Preto é inocente (e é até sentença transitada em julgado) o mais indicando seria não colocar este militante e esperar pelo fim do processo mantendo uma filosofia que ela defendeu até hoje e era exactamente neste ponto que poderia marcar a diferença para com Sócrates. Ao colocar ilustres nos locais mais estranhos e, simultaneamente, vetar o nome do seu principal adversário interno, regressou ao pior do aparelhismo, ao mais baixo e trágico da política rasteirinha a que nos habituamos mas que, com ela, acreditamos estar arredado do Partido Social Democrata nos próximos anos.

Ao seguir esta via, mostrou que é mais do mesmo, que faz exactamente aquilo que criticou aos seus antecessores. Sendo mais do mesmo, não serve.

Lamento.

POEMAS DO LUSCO-FUSCO

Dizia-me o rouxinol
na manhã de orvalho transparente
que um dia iria cantar.
O mar fechou o sol na manhã de nevoeiro
o horizonte perdeu-se no mar
e sem manhã de orvalho transparente
o rouxinol não sabe cantar.

                      (adão cruz)

(adão cruz)

ERRARE HUMANUM EST

Quaquer um pode prevaricar, reconhecer o erro, envergonhar-se, arrepender-se. Ser corrupto significa ser podre, e uma coisa podre é irrecuperável, o seu lugar é o lixo. Como é possível que determinados seres, condenados pela justiça, isto é, postos de lado por estarem podres, se apresentem como branco mais branco não há? Querem brincar com a dignidade do povo…ou será mesmo que o povo gosta que joguem à bola com a sua própria dignidade? Esperem pela resposta.