Santos em casa

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Santos Silva está nas suas sete quintas. Conspirar, aconselhar, encenar, trafulhar, são algumas das suas especialidades. Mal não é sabida a “disponibilidade para tudo”(?) de António Costa, ei-lo, excitado, a teorizar, naquele seu tom de maoista (mal) reciclado, sobre os cenários que se apresentam à candidatura do autarca à liderança do PS.

Esteve ao nível.

Depois de despachar a hipótese – que António Costa ainda considera a título cosmético – de conversar com o PCP (isso nunca, eles não se querem comprometer, eles querem sair do euro, da UE, da própria Europa – até parece que o homem leu a Jangada de Pedra – e outras aldrabices habituais no catálogo destas ocasiões), SS – ops! – Santos Silva discorreu demoradamente sobre como se ganhavam as gentes do PSD e CDS – órfãos, segundo ele, de liderança – e pessoas dispersas por “esses partidos sem importância, como o partido dos animais (?) e outros”. [Read more…]

Pensamento político

António Costa: “Portugal precisa de um governo forte”. Forte? Forte! Só forte? Forte só. Forte forte forte…

Abstenção e liberdade

Com o respeito possível por quem pensa o contrário, estou farto de justificações para a abstenção que culpam “os políticos” de não satisfazerem os sofisticados critérios de exigência dos eleitores ou não encontrarem preliminares suficientemente excitantes para os conquistar para o voto. Os comentadores acariciam, assim, o ego dos contumazes ausentes, retirando-lhes a culpa e, mais ainda, a responsabilidade. Somos livres. Estamos condenados a ser livres, como ensina o velho Sartre. Isso significa que, postos em situação, a vida não permite abstenção. As eleições também não. A abstenção como total demissão de intervir – e não ignoro que muitos dos que se abstêm têm plena consciência disto e não procuram desculpas, pois que a sua decisão é pensada – é uma ilusão, posto que, pensando que não estamos a escolher, escolhemos de facto, já que as nossas omissões pesam, aqui, tanto como as acções. Não podemos viver fora da realidade, logo, temos de assumir a responsabilidade das nossas decisões. Sob pena de a própria ideia de Democracia, ou mesmo a sua possibilidade, serem uma miragem. Somos cidadãos, não clientes face à oferta. Temos de estar à altura da nossa liberdade. Da nossa essência.

O Costa da Câmara

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António Costa, na Quadratura do Círculo, já leu a sina ao seu partido, deixando no ar, quanto ao seu próprio papel, mais um sibilino “não me comprometa”. Não deixou, porém, de traçar uma estratégia, não se ficando a saber se na condição de conselheiro se de putativo alternante. No seu estilo florentino e um tanto opaco, veio anunciar o que todos sabemos: que à derrota histórica da direita o PS tinha oposto uma vitória pífia.

onstatando, por outro lado, que os votos de rejeição do governo se tinham dispersado – além das enigmáticos votos em branco, nulos e “abstenção violenta” – por várias forças de esquerda, onde releva o excelente resultado da CDU, Costa deu a táctica: abordar essas forças de esquerda, com elas estabelecendo um diálogo que potenciaria a capacidade para determinar uma alteração de liderança no PSD. Posto isto, dir-lhes-ia adeus, agradeceria os serviços prestados e faria uma aliança com a direita. Só não percebe quem não quer. [Read more…]

Progresso

Está em marcha na Alemanha uma lei que prevê a expulsão, no prazo de três a seis meses, de emigrantes de países comunitários – mesmo que legais e perfeitamente integrados – que fiquem desempregados. Bom, pelo menos saem vivos. Já é um progresso.

O gato e o papel

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Numa hora mansa da tarde, o meu gato Alfredo – que os meus amigos homónimos não levem a mal, mas o nome decorre de o bichano miar com arte e sentimento – dormia, com aquela beatitude que só os gatos conseguem, esparramado sobre a passadeira que se estende até à entrada da casa, iluminado pela luz que se filtrava pelo vidro da porta. De repente, a paz é interrompida por uns ruídos quase imperceptíveis – para nós, não para um gato – vindos do lado de fora da entrada. Alfredo ergue a cabeça e fica alerta. E eis que um colorido panfleto surge, como que disparado, por baixo da porta, fazendo um voo raso de mais de meio metro. Em menos que leva dizer “sape gato lambareiro” o corpanzil de um indignado gato caiu sobre o papel e desfê-lo em tiras. Entretanto eu tinha acudido, não fosse algum documento importante, tentando salvar alguma coisa. Peguei nos pedaços que restavam – perante o olhar de censura do meu gato – e consegui ver nos destroços fragmentos dos malogrados rostos e troncos de Paulo Rangel e Nuno Melo e o que restava de algumas das suas patranhas propagandísticas. Alfredo tivera razão. Pedi-lhe desculpa e constatei, orgulhoso, que tinha um gato com convicções justas.

Ética

Pelos termos do novo Código de Ética que o Ministério da Saúde quer impor aos médicos, ficamos a saber duas coisas:

i) Que o MS tem dificuldade em distinguir a noção de ética de uma marca de batatas fritas em pacote.

ii) Que, para o actual MS, a velha censura do Estado Novo era uma instituição guardiã da ética e dos bons costumes.

Bacalhaus

Bacalhau

“Portas é um senhor bacalhau!” – declarou Paulo Rangel, elogiando o seu parceiro de coligação, que visitara, com o ar conhecedor do costume, uma fábrica de preparação desses gadídeos (como diria o Quitério).

É enternecedor ver as formas ternas, elegantes e eloquentes que podem revestir os elogios mútuos destes grandes… portugueses.

Vírus na campanha

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O Paulo Rangel, em vez de ficar muito abespinhado com a referência feita por Manuel Alegre, devia ir estudar, já que as palavras do seu discurso que motivaram este confronto podem, de facto, ser lidas como uma séria provocação. Nas habilidades retóricas não cabe tudo. A ignorância em História ostentada por incontinentes verbais como Paulo Rangel leva-os a este tipo de situação.

Isto não é novo. Não esqueçamos a proclamação, há tempos, de Paulo Portas, segundo a qual “o trabalho liberta”, palavras, como se sabe, inscritas no portão de Auschwitz. É inteiramente legitimo, da parte de quem ouve, duvidar da inocência deste tipo de afirmações, sobretudo vindas de quem quer convencer o auditório de que é muito culto e inteligente, como acontece com estas duas personagens. Quem semeia palavras ao vento, arrisca-se a colher a tempestade das respostas.

Assunto

Até que enfim! Paulo Bento vai anunciar os eleitos para o Mundial. Finalmente teremos um assunto importante para debater. Já era tempo.

Consigna revolucionária segundo Passos

Até agora os trabalhadores não fizeram mais que tentar mudar o país. Trata-se, agora, de mudar de país!

Chiça, que o BES está em todas!

Na convenção do PS, António Costa construiu o seu discurso a partir de uma metáfora assente na oposição entre o Cristiano Ronaldo e a D. Inércia. 

O longo adeus (?)

O modo como a SIC tratou hoje a “despedida” da troika, quase me comoveu. Os membros do governo mais ligados às finanças brilharam em depoimentos em tom entre o fadista e o tecnocrático, não faltando rasgados elogios ao ausente – mas já premiado e promovido – mestre Gaspar, o que mostra que a adoração aos “magos das finanças” tão própria de países subdesenvolvidos, não se perdeu. Tratadas em estilo hagiográfico, as personagens desfilaram looooongamente. Fiquei à espera de que, no final, se celebrasse uma missa de júbilo. Pelo milagre que fez esta boa gente e para pedir que se apresse a sua eminente beatificação.

A massa ou a vida

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Em pouco tempo, vendo os telejornais de hoje ouvi – contei-as! – 14 (catorze) vezes a sibilina referência ao custo do novo tratamento que permite a cura (cura, não alívio, não remissão, cura!) da perigosa hepatite C, no tom de “está bem cura, mas enfim,que diabo, tanto dinheiro…”. São 48.000 euros por uma cura completa, qualquer que seja o estádio da doença. Quase tanto como o preço de cada um dos carros que os ministros, secretários de estado, directores gerais, administradores de EPs, provedores da Santa Casa e outros que tais gostam de trocar com pornográfica frequência.

O Medina Carreira, num dos seus oftálmicos programas, no caso dedicado aos “gastos” – como ele gosta de dizer – com a saúde, abordou a questão com aquela sensibilidade e empatia que lhe são habituais – a ele e às alforrecas. Ao ouvir o convidado declarar o preço da dita cura, todo se abespinhou e, com o seu ar de pitonisa descabelada a quem nasce o sol pelo olho do cu, murmurava: “quarenta e oito mil? tsssch, pode lá ser”, desatando, com o nervozinho do costume, a destilar a habitual peçonha sobre o estado social e quem o inventou.

Esta corja não consegue ter uma atitude decente sem ficar com uma espécie de hesitação, entalada entre a inevitabilidade de fazer o que deve ser feito e a má vontade de levar as coisas até ao fim. Vamos, cambada de invertebrados morais, avancem nem que tenham, para acalmar a raiva que vos dói, de colar na testa dos beneficiários um letreiro que os deixe com má consciência para o resto da vida “eu estou vivo porque gastei 48000 euros do estado”. Ou então recuem, não adquiram o medicamento e tenham a coragem de vir dizer-nos isso na cara. De preferência em directo e ao vivo.

O autocarro

O autocarro. A porta do autocarro. A roda do autocarro. O tecto do autocarro. A frente do autocarro. A traseira do autocarro. O autocarro parado. O autocarro estacionado. A câmara chega-se às bagageiras do autocarro. O zoom aproxima-as lentamente. O repórter, excitado, informa: as bagageiras ainda estãããoo vazias.

Pois. Aí está: a metáfora ao jornalismo de merda que acompanha estes eventos.

O milagre e o incréu

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Tudo aconteceu na década de cinquenta, era eu um puto sem voto em nenhuma matéria, durante uma procissão em que a Sra. de Fátima (na sua versão de imagem peregrina) se deslocava, no seu andor (com a ajuda dos carregadores, bem entendido), pelas terras próximas de Fátima, numa itinerância que, veio a ver-se, era como que um ensaio para maiores viagens e aventuras por esse mundo.

A coisa passava-se em Torres Novas, nobilíssima terra de onde sou natural. E lá estava eu, acompanhando uma devota tia, senhora estimável, mas muito dada a converter todos os que a rodeavam. Naquele dia, era a minha vez, já que desde miúdo me mostrava algo renitente em seguir os apelos divinos.

Ora, ia a procissão passando solenemente entre as alas de fiéis – ou penduras inconscientes como eu – quando, de súbito, irrompe um homem visivelmente furioso que, sem temer a ira celeste, desatou a invectivar a imagem com sórdidas palavras – mas não tão sórdidas que pudessem por em risco a sua integridade física ali mesmo. “É um democrata, coitado – dizia, com um ar esclarecido, uma amiga da minha tia – a Senhora. já trata dele; não é a primeira vez que assisto a isto”. [Read more…]

Cavacos úteis

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Foto dedicada aos amigos que têm declarado a inutilidade do cavaco, em que se prova que nem sempre assim é.

Ao que giro!


Hoje é dia de cortejo da “queima das fitas” cá em Coimbra. A criatividade anda à solta. Há 60 anos desfilavam camionetas armadas com rede de galinheiro ornada com pindéricas flores de papel. Hoje – o progresso não pára – desfilarão camionetes armadas com rede de galinheiro ornada com pindéricas flores de papel. É consolador admirar tanta imaginação! O ano passado, por exemplo, houve uma recreação nova: engraçados estudantes urinavam nas caixas de correio a que podiam chegar com os respectivos instrumentos. Que engraçado! A minha vizinha que recebia nesse dia o cheque da sua pensão não parou de rir. Também outro vizinho que nesse dia recebeu um subscrito com fotografias dos seu filho e netos há muito tempo emigrados e que há muito tempo não via, achou um piadão. Até eu, a quem os amáveis foliões destruíram vários vasos de flores – duas das quais com mais de vinte anos de cuidados – não pude deixar de rir. O humor inteligente é sempre bem vindo. Não sei, por isso, porque um amigo meu neurocirurgião prescrevia, furioso, para estes simpáticos criativos, um transplante de cérebro. Feitios…

O cão fiel

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As manobras de manipulação eleitoral em favor da maioria têm, em todos os canais televisivos, atingido níveis demenciais, nunca vistos (e os deuses sabem que já vimos muito!…). Dá resultado? Vai dando. As sondagens parecem mostrá-lo (já sei, já sei, as sondagens valem o que valem, etc. e tal).

Não querendo gastar-vos a paciência com especulações sobre a alienação dos oprimidos, aqui vos deixo um poema breve do velho mestre, que dedico a todas as vítimas que tencionam votar nos seus carrascos:

O cão fiel

Era um cão fiel…
Foi a dar ao rabo atrás do dono
até à oliveira em que este
o enforcou com um arame.
(Joaquim Namorado)

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Asas pelo ar

f16O governo português, informou Aguiar Branco, esticando o pescoço e fazendo peito para dar um ar marcial, vai mandar uma esquadrilha de F16 para patrulhar os céus dos países bálticos. Eu sei que a NATO, ultimamente, tem tido o comportamento dos agressores juvenis descerebrados ( Obama conseguiu, sobre o tema, fazer o discurso mais imaturo e burro que já ouvi de um presidente norte-americano – não, não me esqueci de G.W. Bush), mas este feliz evento (Portugal já vai à guerra/ Com uma data de aviões/ Que custaram mil milhões/ Mas que ladrões – inspirei-me em Juca Chaves…) mostra que, não só saímos da crise, como saímos ricos e em grande! E com o sentido de prioridades dos sábios. Tremei, bárbaros do Leste, que agora é connosco!!
Nota: já agora, tanto quanto sei, um F16 custa mais que cem milhões de euros (leram bem, + de 100 000 000 00, fazendo as contas pelo preço – em 2ª mão – de há anos, que era de vinte milhões de contos) e custa por hora no ar centenas de pensões de reforma. Pensem nisso quando os canalhas, de ar compungido, vos falarem na necessidade de austeridade já que “vivemos acima das nossas possibilidades”.

Limpo mais limpo não há

Anunciada a “saída limpa”, espécie de Nirvana para nabos, os nossos “amigos” falaram. Não tardou que o vice-presidente da UE, qual sargento falando às mulas na parada, viesse, de sobrolho levantado, bradar ordens e instruções sobre o que o governo português tinha de fazer. O despenteado mental do eurogrupo já veio prometer-nos as penas dos infernos se não nos portarmos como eles acham que “deve ser”. O FMI exige um mini-memorando (que coisa tão querida, ’tá ver tia) com as nossas obrigações detalhadas e a garantia de controlo das nossas contas públicas nas próximas décadas.

“Estamos livres”, “é 1640”, “Portugal recuperou a independência”, dizem os governamentais papagaios. Pois é. É uma maçada. Os nossos governantes sopram sobre nós esta brisa libertadora e vem a realidade e atira merda para a ventoinha.

Abençoai

Abençoai a alegria de quem, apesar do abismo que nos rodeia, encontra motivos para sorrir. Abençoai o meu vizinho que, mau grado estar desempregado e em dificuldade, se apaixonou e não consegue esconder o jubilo. Abençoai os amigos que ficam felizes porque viram o roubo das suas pensões reduzido e, se descontaram toda a vida honradamente, não lhe invejeis a quantia que recebem só porque é mais elevada que a vossa; a inveja é um veneno na nossa vida. Abençoai até os nossos amigos benfiquistas que festejam alegremente embora muitas das suas vidas estejam submersas no escuro do drama. Abençoai aqueles que foram hoje brincar para as praias já que, vendo bem as coisas, a maior parte deles vive a uma distância gratuita do mar. Abençoai os que, no calor da luta, se encontraram fraternalmente nas manifestações de Abril e Maio e trocaram sorrisos pela felicidade de estarem juntos. As melhores coisas da vida são, realmente, gratuitas e malditos sejam os que nos ensinaram o dever da tristeza e lançaram o anátema sobre o direito à felicidade como se esta fosse um pecado ou, pior ainda, um erro. Não precisamos de nos alienar na alegria para a provar. Podemos olhar a beleza da paisagem sem esquecer de que dela faz parte um abismo. Afinal o símbolo da nossa liberdade é uma flor. E uma arma. Destas coisas me lembrei quando, há pouco, caminhava à beira mar contemplando um glorioso pôr do sol. Se estou a desvairar, só me resta pedir a vossa indulgência e, talvez, a vossa bênção.

Jornais

Uma das tristezas quotidianas que muitos de nós partilham é a da frustração que se segue aos momentos em que, não resistindo ao síndroma de privação adquirido desde tenra idade, que consiste na compra e leitura – cada vez mais rápida – de jornais, nos deixamos tentar pelas folhas de couve que se vendem sob essa nobre designação.

Só uma coisa é certa: seja qual for o jornal que compremos, arrependemo-nos de não ter comprado outro. Má escrita, servilismo, auto-censura, aldrabice e manipulação pura e dura é o que recebemos em troca do nosso dinheiro. Cada vez mais rareiam os bons jornalistas e mais abundam os pedantes e ignorantes. [Read more…]

O irrelevante nada

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Na Assembleia da República, Cavaco falou. A sua tentativa de estupro retórico esbarrou na sua impotência política. Reptando entre os bons sentimentos de papelão e a provocação reles, Cavaco falou. Conseguiu o feito de apenas ser aplaudido pela sua gente. Cavaco falou. Como garante a sabedoria popular, a sua voz não chegou ao céu.

TVI24, a comemorante

nogueira pintoJaime Nogueira Pinto é salazarista. É e sempre foi. Não o escondia dantes, não o esconde hoje. Mas a TVI, com aquela pulsão tão ao estilo Correio da Manhã, gosta de temperar as suas iniciativas com um toque de escândalo que, no pequeno cérebro dos seus editores, dá um je ne sais quoi de estimulante nojo às suas produções. Assim, para “debater” o 25 de Abril, nada como convidar jurados inimigos da revolução. Não questiono o direito de JNP acalentar os seus devaneios coloniais, mas já ter de aturar as suas tiradas de “saudade do império colonial” que o Jaime promove a sua “utopia pessoal” e cuja perda reputa como a sua mais relevante recordação do 25 de Abril, é demasiado indigesto. Isto perante a perplexidade do pobre Eduardo Lourenço, que bem faria em escolher melhor as companhias para estas andanças. E a procissão ainda vai no adro. Não falta quem queira transformar esta festa numa vingança. O próprio banqueiro vigarista Jardim Gonçalves já decretou, há dias, que o 25 de Abril está arrumado. Por esta semana, é a segunda vez que suporto as catilinárias do Nogueira Pinto. Não tardarão a aparecer outros democratas de (28) Maio. As comemorações televisivas vão de vento em popa. No que mostram e, sobretudo, no que escondem.

“Nós”

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O gangster que chefia os amanuenses da banca internacional da habitualmente designada por “delegação da troika”, botou discurso. E se o conteúdo nos provoca uma agressiva náusea, a forma não lhe fica atrás. É que o homem falou usando, constantemente, a 1ª pessoa do plural quando se referia ao que “tínhamos” de fazer. “Temos” de cortar mais pensões; “temos” de cortar salários; “temos” de fazer mais sacrifícios. O tipo dá as instruções com a prosápia do capataz protegido pelos donos. Os eunucos que nos governam fazem vénias. O Portas reforça na AR dando explicações com aquela retórica pegajosa e oca que tanto impressiona os iletrados. E nós temos que aturar isto. Temos? “Temos”?

Lamento de uma morte anunciada

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Sabíamos que estava para acontecer, mas resistimos à ideia. Não queremos acreditar que a obra está completa, porque a sentimos infinita. Gabriel Garcia Marquez – o jornalista, o escritor, o cidadão integro e corajoso – é uma daquelas presenças que, para muitos de nós, mede a dimensão dos homens bons. E dos grandes artistas. Quem sentiu o arrebatamento da leitura de Cem Anos de Solidão sabe bem o caminho pelo qual se descobrem estas simples evidências. “Ninguém merece as tuas lágrimas, e quem as merecer não te fará chorar”, dizia. Não choremos, pois. Sobre a morte, pensava o escritor que a melhor é a morte por amor. Não sei. Mas sei que se é verdade que a medida de um homem é, não o quanto ele ama, mas o quanto é amado, Gabriel é gigantesco.

Ladrões profiláticos

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Manuel e Maria iam pela rua fora, de braço dado. Iam felizes. Tinham-se oferecido a oportunidade – rara, por estes tempos – de jantar fora e antecipavam momentos agradáveis.

Eis, porém, que das sombras da noite surge um vulto ameaçador empunhando o que parecia uma arma. “Alto! – disse – isto é um assalto”.

Perante o evidente medo do casal, o assaltante explicou-se: “Iam jantar ali, de certeza” – disse, apontando o letreiro do restaurante que já se vislumbrava. “S-s-sim”, assentiu o Manuel.

“Foi o que pensei” – tornou-lhe o ladrão. “Pois fiquem sabendo que o que ali se come é bom, mas faz mal. Os salgados levam sal, os doces levam açúcar, a carne está cheia de proteínas e gordura, os fritos são…enfim, são fritos. Por isso, fico com o vosso dinheiro para vosso bem e na defesa da vossa saúde. Não comem, mas também não aumentam o colesterol nem incorrem em riscos alimentares”.

O casal lá entregou as notas que trazia para o seu serão gastronómico e regressou, entre a tristeza e a raiva, a casa. Sentaram-se desanimados e, já sem apetite, ligaram a televisão procurando evasão para a sua inquietude. Estava a dar o telejornal. Lá ouviram a notícia de que o governo se aprestava a lançar pesados impostos sobre alimentos que, segundo os especialistas, fazem mal à saúde. Sal, açúcar, gorduras, vários alimentos preparados e outras coisas mais. Tudo a bem da saúde dos portugueses com a qual, como sabemos, se preocupam. Concordante, o Manuel saudava as medidas:

“Vês, Maria, nesta tristeza em que estamos sempre é bom saber que o governo se preocupa connosco. É o que vale. Já agora, bem podiam tomar medidas para melhorar a segurança nas ruas. Já não se pode sair sem nos arriscarmos a ser roubados…”

Partiu Sue Townsend

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A morte de uma escritora com a qual se mantém, ao longo dos anos, uma empatia e uma cumplicidade que ultrapassa a dimensão literária, entristece-nos como se nos desaparecesse um amigo. E a repetida constatação de que a obra continua ou, quem sabe, cresce com o tempo, é fraca consolação.

Sue Townsend era, para além dos seus inegáveis méritos literários, uma mulher e uma artista corajosa. A saga de Adrian Mole que a tornou famosa, não é só uma incursão pelo desenvolvimento, da infância à idade adulta, do seu neurótico e impagável anti-herói. É ainda um retrato humorístico, sim, mas também cáustico e implacável do thatcherismo e, no final da saga, de um blairismo que vem a decepcionar profundamente a socialista – mesmo! – que Sue era. Nada escapa – e não deixou de ter sérios incómodos por isso – à sua pena afiada, como se prova no hilariante A Rainha e Eu, onde a autora nos conta as desventuras da família real britânica, reduzida a utente de um bairro social após a vitória de um imaginado “partido republicano”.

Leiam, pois, um livro dos seus em sua memória e, se não a conhecem, verão que não resistem a ler os seguintes.

Assunção

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Assunção teve oportunidade de hoje, mais uma vez, responder às dúvidas dos jornalistas. O assunto era a possibilidade de um militar de Abril se dirigir ao parlamento e, desse modo, ao país, no dia em que se comemoram 40 anos sobre a revolução libertadora. Nós ouvimos e nem pensamos no conteúdo das respostas de Assunção: ficamos mesmerizados pelo seu estilo.

No país de Fernando Pessoa a heteronímia não é uma novidade, mas a presidente da AR, não conseguindo emular na escrita o poeta, tenta fazê-lo na fala. Valha a verdade, o reportório da Assunção, além de limitado, é desgostantemente medíocre, mau grado já ter brilhado com uma citação de Simone Beauvoir – da qual não sabemos se conhece outra coisa – que, por razões de contexto, lhe saiu desgraçadamente mal.

Assunção conhece dois registos de discurso: o do pesporrente e ininteligível ” inconseguimemto” e o do sucinto, lacónico mas agressivo – por vezes quase raivoso – “evacuem as galerias” (compreende-se, porém que a ordem seja gritada, para que os cidadãos não se confundam com o “as”, interpretando-o como “nas”…) ou o “isso não existe” com que respondeu aos jornalistas sobre a questão da possibilidade do discurso do intruso militar na AR. Não é de agora que se sabe da multiplicidade caleidoscópica de Assunção e dos espantos que ela motiva. [Read more…]