Napalm

trump
“Adoro o cheiro a napalm logo pela manhã”

Lettres de Paris #15

‘Be not inhospitable to strangers/ Lest they be angels in disguise’

This slideshow requires JavaScript.

É uma frase de W. B. Yeats que há décadas recebe os visitantes da livraria Shakespeare and Company, que sobem ao primeiro andar. É uma frase que se adequa a Paris e ao dia de hoje. A cidade não é pouco hospitaleira a estranhos, recebe-os bem, com simpatia, já o escrevi aqui em quase todos os postais. O André que chegou ontem a uma Paris chuvosa concorda comigo nisto da simpatia extrema dos franceses. Hoje quando acordámos na Rue Suger não chovia, o céu estava mesmo azul, embora houvesse nuvens que o tornavam ainda mais bonito. Depois do pequeno almoço, bebemos café no Cafe Saint-André, onde um rapaz se ofereceu, sem mais nem menos para nos tirar uma fotografia.
 
Na impossibilidade de escolher onde levar uma pessoa que visita Paris pela primeira vez, decidi pelo óbvio: um passeio de barco no rio Sena. O mesmo que havia eu mesma feito há poucos dias. Como então escrevi, não há maneira mais bonita de ver Paris. Antes de embarcarmos no BateauBus no Quai Montebello, parámos – claro – na Shakespeare and Company. Gostando ele de livros e livrarias, era impossível estar em Paris e não ver esta. Há muitas outras, muitas, livrarias em Paris, muitas encantadoras, mas nenhuma das que conheço já tem este encanto. Tirámos a típica fotografia no banco da entrada, passeámos entre os livros colocados nos sítios e recantos mais espantosos e depois apanhámos o barco. Gostava de saber – de me lembrar, melhor dizendo – da primeira vez que vi Paris. Gostava de sentir, com o André, hoje, essa sensação primeira. Mas não consigo, claro. Perguntei ao André o que sentiu a ver Paris pela primeira vez, suspirou fundo. Está tudo dito, penso. E é isso, Paris é um suspiro de espanto e admiração sem fim, em cada canto, a cada ponte, a cada pessoa, a cada bonjour, a cada bonne soirée.

[Read more…]

Ou sim ou sopas

gulle

Foto: dpa

Diz um ditado alemão que “até uma galinha cega acaba por encontrar um grão”; pois foi o que aconteceu, a Comissão Europeia encontrou um saboroso grão: a insuficiente protecção dos lençóis freáticos e consequente contaminação da água potável com níveis demasiado elevados de nitrato. Depois de vários avisos, a Comissão instaurou agora junto do Tribunal Europeu uma acção judicial contra a Alemanha.

A principal causa dos elevados valores de nitrato é a prática agrícola de fertilização da terra com chorume e estrume. Em exagero, o nitrato polui a água doce, sendo tóxico tanto para plantas como para animais. Estudos indicam que a substância pode ser cancerígena. No ecossistema marinho, o excesso de nitrato contribui para a proliferação de algas e consequente aumento de bactérias aeróbicas, rarefazendo o oxigénio na água e provocando a morte de outros seres vivos (por exemplo peixes).

Enfim, já não falando no “pequenino defeito” resultante deste uso e abuso que é aspirar o cheiro nauseabundo quando se passeia pelos campos, pensando nisso, até beber água da torneira se pode tornar ligeiramente desconfortável.

Em caso de condenação, a multa poderá ser da ordem dos milhões de euros por dia. A França já foi condenada por idênticas razões, podendo a multa ascender a 3 mil milhões de euros.

Só é pena a falta de coerência entre os diversos ressorts da UE: distribuir multas a prevaricadores ambientais é uma óptima ideia, mas enquanto se continuar com uma política agrícola comum que privilegia totalmente a agricultura e pecuária intensivas, não é possível ter mão nos problemas e prejuízos ecológicos – degradação da paisagem, perda da biodiversidade dos ecossistemas, erosão do solo e poluição. Talvez começando por aí…

LOL!

Foi apresentada/inaugurada, com pompa e circunstância (à parte a falta de pilhas no comando que ligaria a luz), a nova peça de Joana de Vasconcelos. Um galo de Barcelos à beira-Tejo.

Ao longe ouviam-se as grandes gargalhadas de dois Antónios, o Oliveira Salazar e o Ferro!

Carrrrrrrrros em movimento

12823326_1002114216521289_4486616446841678581_o

Sabem que porra é esta? É uma feira. Para além de cavalos, vacas e chouriços que se emborracham à noite para troca de fluídos, são transaccionados circuitos e aplicações seminais (e não me estou a repetir) entre megawatts sukarnoputris de luz e toneladas messiânicas de graves. O pessoal anda todo numa cloud muito marada de ideias vendidas como jogos de lençóis de flanela e infalíveis elixires da juventude. Anuncia-se a next big thing e… zás!, up with the cock from Barcelos da Joana Vasconcelos, seguido de um sonzinho lounge. A insofismável cultura da era techie não pode faltar. Vhils, Kalaf e a Lisbon Fado Sin. O turismo esfrega-se todo por summits, e para todos os gostos que os há: o sunset summit, o surf summit, o farturas summit, o crunchie’s dog summit, o caralho que os foda summit, tudo pináculos da excitação mediática e da diarreia comunicacional: as televisões rapidamente se afeiçoam a este evento e os écrans enchem-se dos Caras de cú habituais. Ir ao Web Summit é, em termos de gente, como ir ao Dragão ver o Benfica fazer o Porto descer à terra ou como encher um concerto da Lady Gagabyte. Mas a um nível superlativo e expialidoso. Os bilhetes, qrido, para os pobres ficam a € 1000, os remediados arrotam € 3000 e os Premium, Platinium e Uranium entre €4.245 e € 5.245, mas estão todos sold out. Ou isso ou 3 fichas para os carrinhos de choque. Não será preciso dares uma de penetra porque estamos nos idílicos domínios do marketing. Especulação a bem da nação, com os putos MC Costa e Funky Cold Medina na área. Alguém me arranja um bilhete para ir ouvir o investidor e empreendedor Ronaldinho Gaúcho falar da sua fantastic new internet venture? É que há uma nerd activista curda que eu queria deglutir que vai lá estar…

Lettres de Paris #14

Où aller, la première fois qu’on voit Paris?

This slideshow requires JavaScript.

Escrevo esta carta muito cedo hoje. Estou com pressa. A minha pressa é a da duração de um voo de alguém que vem de Lisboa para (me) ver (em) Paris. A pressa são das saudades que tenho dessa pessoa que espero ver daqui a umas breves horas. Breves se comparadas com aquelas em que não nos vimos, há 18 longos dias. Não, na verdade, não é que tivessem sido assim tão longos esses dias. Tempos virão que serão mais de 18 e talvez mais longos. Mas não vale a pena pensar nisso, por enquanto. O seu a seu tempo, a angústia da antecipação é uma coisa que desaprendo, embora devagar.
 
Apesar de tudo, das saudades quero dizer, fiz o mesmo de sempre, hoje, exceto que descobri novas ruas em que nunca tinha reparado, como a Rue du Jardinet e a Rue Monsieur-le-Prince. A primeira com o outono ao fundo. A segunda cheia de revoluções a cada esquina. As paredes de Paris falam connosco uma língua que alguns de nós conhecem bem. Interpelam-nos. Inquietam-nos. Aqui uma citação de Brecht, das Artes da Revolução. Acolá, um homem de olhos azuis diz-nos o que é a educação. Depois uma frase alegadamente de Victor Hugo – ‘a war between Europeans is a civil war’ – a lembrar-nos o que devíamos ser, Europeus, e a não nos deixar esquecer o que se passa hoje, entre nós. Uma guerra civil, portanto, mesmo se as armas não têm munições, ou mesmo que as munições sejam outras. Noutra parede da Rue Monsieur-le-Prince um casal está debaixo de um chapéu de chuva olhando em direções opostas. Calha bem, porque hoje chove em Paris e afinal, é uma cidade como todas as outras, indiferença incluída. Por cima do chapéu de chuva do casal um relógio sob o qual está escrito ‘Work Zombie’. Os ponteiros são euros, dólares, libras e ienes. É disto que nos falam as paredes do ‘quartier’ universitário de Paris.
 

[Read more…]

Lettres de Paris #12

Moi, j’aime bien la propreté*

This slideshow requires JavaScript.

Hoje acordei com uns senhores a baterem-me à porta do estúdio, já não era muito cedo. Vinham medir a alcatifa, para meu espanto. Parece que a vão substituir. Disse-lhes que a alcatifa, embora não seja nova, não me chateava nada. O que me chateava era a falta de candeeiro perto da cama – como vou ler? – e a falta de aquecimento na casa de banho. Ainda lhe falei no exaustor, mas afinal parece que é mesmo assim, fraquinho, e não está estragado.
 
Seja como for, mediram a alcatifa. Quando cheguei a casa à noite também já me tinham substituído o candeeiro estragado. O aquecimento ‘dans la salle de bain’ é que nada. Estão neste momento 4º em Paris. E ainda estamos só no início de novembro. Espero bem que me arranjem o aquecimento ou arrisco-me a morrer congelada cada vez que precisar de ir à casa de banho. Já morro gelada cada vez que vou à janela fumar um cigarro. Como hoje de manhã, depois do episódio da medição da alcatifa. Assisti a uma belíssima discussão, digna dos bairros mais populares de Lisboa, na Rue Suger. Um homem veio trazer uma encomenda de várias caixas, muito pesadas, aparentemente. Estacionou o camião grande, que bloqueava a rua, porque é bastante estreita. Tirou as caixas e deixou-as no chão, no meio da estrada atrás do camião. Uma das senhoras da limpeza da Maison Suger (para onde as caixas vinham) foi lá fora e disse ao homem que ele tinha de carregar as caixas para dentro. Começou a confusão! Que não tinha nada, que ele era só o homem das ‘livraisons’ e que portanto ela ou alguém que metesse as pesadíssimas caixas para dentro.
 

[Read more…]

Lettres de Paris #11

Petits jours, trés longues rues

This slideshow requires JavaScript.

Com a mudança da hora, já se sabe, os dias ficaram mais pequenos. Quero dizer, continuam a ter 24 horas, naturalmente, mas anoitece bastante mais cedo. Em Paris às cinco e meia da tarde anoitece. Isso entristece-me, mesmo gostando muito do outono e do inverno não gosto nada que os dias comecem a encurtar-se. O outono em Paris é francamente bonito. As árvores que há em quase toda a parte tomam cores perfeitamente deslumbrantes. Sou capaz de ficar um longo tempo a olhar para as cores das árvores e para as folhas a cair, amarelas, castanhas, vermelhas, até formarem grandes tapetes desalinhados.

Tal como supus ontem à noite, quando me mudei do 3º andar para o 1º da Maison Suger, o meu novo estúdio, além de ter algumas coisas que não funcionam, apanha muito pouca luz do sol. De maneira que hoje, embora o despertador tenha tocado, supus que era ainda madrugada e, sendo feriado, deixei-me ficar na cama – agora grande – a preguiçar. Levantei-me passado um grande bocado e abri a janela. A Rue Suger estava calmíssima e estreita, como de costume. Olhando para cima via-se o céu azul, como uma risca larga no meio dos edifícios. Depois do pequeno almoço, enquanto fumava um cigarro debruçada no varandim, com a cabeça apoiada nos braços, olhei a janela em frente e a rapariga – que agora mesmo, há bocadinho, percebi que estava grávida – que mora nas janelas em frente, viu-me e sorriu-me. Sorri-lhe também, naturalmente. A casa em frente não tem cortinas, parece-me que se mudaram há pouco tempo. Reparei há bocadinho, enquanto fumava outro cigarro debruçada na janela, que estão a arranjar o quarto do bebé. Há um armário verde claro, de portas abertas mesmo em frente à janela e o rapaz andou um bocado de volta dele, de certeza cheio de cuidados e amor. A barriga da rapariga é bonita e está já grande.

[Read more…]

Lettres de Paris #10

‘Faites de chaque sortie une aventure’…

Este slideshow necessita de JavaScript.

está escrito num anúncio de uma das lojas Au Vieux Campeur, do Boulevard Saint Germain. Eu esforço-me, mesmo porque e fácil fazer de cada saída uma aventura, nesta cidade cheia de coisas para ver. Não é que hoje sea tenha passado grande coisa, além de ter ido trabalhar, de o Ladyss estar vazio, como tem sido hábito e de ter voltado para casa, para mudar de estúdio.
Mas de manhã em vez de ir pelo boulevard Saint Germain, resolvi ir pela Rue de l’École de Médecine e ainda bem que o fiz. Dei com a Université René Descartes, bem bonita e com a Université de Paris III – Sorbonne Nouvelle. Muitas universidades e ‘ramos’ há nesta cidade. Sobretudo no ‘meu’ bairro. O bairro latino ou Quartier Latin. Universidades, cinemas, bares, livrarias, restaurantezinhos simpáticos como aquele em que jantei ontem, La Fourmi Ailée, que é como quem diz, a Formiga Alada, ou com asas, como quiserem,

Lettres de Paris #9

‘Miraaaa mi amor la torre es tan chulaaaaa!!’

This slideshow requires JavaScript.

Não há melhor maneira de ver Paris que de barco. Sempre que venho cá, ando de barco no Sena e de todas as vezes é mesmo, sem exagero, como se fosse a primeira. Sempre a mesma maravilha. Paris a partir da água fica ainda mais bonita. E hoje está um dia glorioso, um céu azul quase sem nuvens e um sol intenso que desenha sombras ao longo das paredes de todos os cais do Sena.
De maneira que desta vez, não sendo turista, fui ser turista e apanhei o BateauBus no Quai de Montebello. Allez hop. A bordo. Passei a tarde inteira no barco, saí aqui e ali, demorei-me mais (e arrependi-me) na Torre Eiffel, a que não subi desta vez. Estavam multidões à volta dela e sinceramente, preferi observá-la de baixo para cima, nos Champs de Mars e no Quai Branly, nos primeiros admirando também os patos, completamente indiferentes aos turistas. A caminho – cruzando todas as pontes sobre o Sena, tão bonitas, tão encadeadas umas nas outras – uma menina dizia para a sua avó, ‘mais la tour, elle est minuscule!!’. Vista dali era, de facto minúscula. Mas a criança, e todos no barco, à medida que nos aproximávamos da torre, foi ficando silenciosa, entre o maravilhado e o espantado. O rendilhado da enorme torre impõe a maravilha, o espanto e até muito respeito por quem foi capaz de idealizar e de construir uma torre ‘minuscule’ como esta.

[Read more…]

Lettres de Paris #8

Les grandes villes n’existent pas*

This slideshow requires JavaScript.

e Paris aqui está para o demonstrar. Não existem as cidades grandes. Existem muitas cidades dentro de uma cidade. Cidades pequenas que, eventualmente, formarão a cidade grande. Paris é uma cidade formada por muitas cidades e bairros e pessoas e pontes e o rio Sena. Paris é uma cidade tão bonita que custa a descrever e as fotografias jamais dirão dela aquilo que deveriam. Paris é a cidade do amor, ou é isso que as pessoas pensam, pelo menos. E agem de acordo. Nunca vi em mais lado nenhum tantas pessoas a beijarem-se cinematográficamente, tantos casais de mão dada, tantas noivas em cima das pontes, tanto cadeado, tanto amor, no fundo ou aquilo que parece ser amor.
 
‘Et moi je vais seule’, como na canção da François Hardy ’touts les garçons et les filles de mon âge’. Vou sozinha mas bem acompanhada pelas cidades que Paris é e pela beleza de todas elas. Quando saio da Rue Suger vou direita ao Quai des Augustins para chegar à Pont Neuf, que cruza a ponta mais estreita da île de la Cité. Atravesso-a, vejo os namorados e os cadeados, a meio, e continuo para o outro lado, para o Quais du Louvre. Continuo, admirando o outono absoluto de Paris. O cinzento de vidro do céu, as cores quentes das árvores, o sena da cor de um espelho. Percorro o Quai du Louvre até entrar no Quai François Miterrand, aqui vou até meio da Pont des Arts para ver melhor a île de la Cité e a Pont Neuf que se parte em duas, ao cruzá-la. Ando à beira do Sena a reparar nas pessoas sentadas nos bancos, nas mãos dadas dos casais e depois entro no Louvre. Ou melhor, entro no exterior do Louvre. Só lá fui uma vez, mas desta tenho tempo e o Louvre não se vê numa tarde. Descobri ontem à noite que há ciclos de cinema no Louvre (neste momento Abel Ferrara). Adoro os franceses e o seu amor ao cinema, acho que já tinha dito, mas direi as vezes que me apetecer. Um povo que adora tanto o cinema não pode ser mau, nem antipático. Um povo que enche salas de cinema só pode ser o que os parisienses parecem ser: um pouco românticos, um pouco ternos, um pouco intelectuais, um pouco despassarados, até. Todos os ingredientes que me agradam, portanto.

Lettres de Paris #7

«le comptoir d’un café est le parlement du peuple»

This slideshow requires JavaScript.

E se o povo francês tem coisas a dizer! Falam bastante os franceses e em geral são absolutamente amistosos. Bem sei que a maioria das pessoas que não são francesas acha este povo antipático e arrogante. Eu, exceção feita às meninas do RER no aeroporto Charles de Gaulle, no dia em que cheguei, ainda não tive – nem das outras vezes que aqui estive – qualquer razão de queixa. Até já arranquei um sorrisinho à velhota da padaria, que tem umas baguettes excelentes. Por outro lado, o alegado racismo dos franceses também ainda não o experimentei. Quando digo que sou portuguesa ninguém me ostraciza ou me olha com pena (embora, convenhamos, no que se refere a esta última parte, devessem, por muitas razões de que agora não vamos falar).
Hoje ao jantar ali na brasserie da esquina – a Brasserie Saint-André des Arts – o empregado reconheceu-me de ter lá ido beber um chocolate quente no dia em que cheguei de armas, mas sobretudo bagagens, à Rue Suger. Reconheceu-me e apesar de eu estar sozinha – ou talvez por isso, e estes gestos dizem muito acerca de um povo – sentou-me numa mesa boa, bem no centro do café. Deve ter intuído que a mim me agrada observar as pessoas. E ali havia imensas para observar. Não levei o telemóvel a jantar e por isso estava absolutamente preparada para o meu desporto preferido: peoplespotting.

[Read more…]

Lettres de Paris #6

‘How would you like to die and in what form would you chosen to come back?’

This slideshow requires JavaScript.

é a questão final do chamado Proust Questionnaire que hoje me entretive a ler e a fazer na Shakespeare an Company, no café, não na livraria, quando fui lá almoçar um sumo de laranja e um bagel de salmão. A resposta a esta pergunta é simples, gostava de morrer de repente, sem sentir, nem sofrer senão o minuto antes da hora da morte e gostava de regressar como Parisiense. Humana e parisiense. E, mesmo sendo pormenores, com melhores pernas e bastante mais dinheiro.
 
Bem sei que ainda há menos de dois meses declarei que queria ser nova iorquina, mais exatamente west villager, e ter uma pequena livraria. Mas acontece que me adapto facilmente aos lugares (bastante mais que às pessoas e que às situações inesperadas), sobretudo quando os lugares são assim. Cinematográficos, e também por isso familiares. Portanto, como já disse tantas vezes e em tantos contextos, eu poderia ser bem de qualquer parte, ou de quase toda a parte. Basta um pouco de reconhecimento, familiariedade e cinema. Voilá.
 

[Read more…]

Lettres de Paris #5

La sociologie est un sport de combat*,

img_1280
estava escrito no chão mesmo em frente ao Collège de France, na Rue des Écoles. Ontem também passei lá mas não ia, talvez, de olhos no chão. Vi isto ao fim da tarde, quando regressava do Ladyss, onde não estava praticamente ninguém. Conheço muita gente que trabalha em casa. Eu não sou exatamente uma dessas pessoas. Quer dizer, corrijo testes, leio artigos e teses, mas escrever não consigo a partir de casa. Escrever com alguma substância, quero dizer. Desde pequena sempre separei um pouco o trabalho da casa. A casa é sobretudo para descansar e para realizar tarefas menos pesadas. Estudar e trabalhar a sério é uma coisa que sempre fiz fora de casa. Os meus colegas não parecem pensar o mesmo, de maneira, que tive o Ladyss praticamente por minha conta. Minha e do porteiro que fala muito depressa, mas hoje me disse que ia começar a falar comigo ‘plus doucement’. Agradeci-lhe. Fala depressa e para dentro e odeia aparentemente o trabalho que tem. Pelo menos queixa-se muito. Talvez gostasse de ir trabalhar para casa também.

[Read more…]

Lettres de Paris #4

Hollande: peut-il y aller? Ou la ‘jungle’ à Paris

Vejo na televisão (que só tem canais em francês) que se as eleições presidenciais em França fossem hoje, Marine Le Pen teria 28% dos votos. Alain Juppé a mesma percentagem. Aflige-me que Le Pen esteja em primeiro nas intenções de voto. Como me aflige, malgré tout, que apenas 9% dos franceses declarem que votariam em Hollande. Não é que tenha especial simpatia por ele, mas tenho seguramente menos por Le Pen e por Juppé. De facto anunciam agora mesmo na tv, enquanto em rodapé passa a notícia de um novo desmantelamento da ‘jungle’ de Calais*, a insatisfação dos franceses com Hollande. Não é à toa que a direita sobe nas intenções de voto, quando na televisão, nos canais de notícias, aparecem constantemente as imagens da dita ‘jungle’. Aliás, só o nome é já todo um programa ideológico.
Em Paris há muitos sem-abrigo e pedintes. Hoje, por exemplo, vi um homem deitado ao comprido no cruzamento da Rue Danton com o Boulevard Saint-Germain. Ali, estendido, descalço, enquanto à sua volta a cidade se movimentava indiferente. Olhei para o homem e baixei-me, mas parecia estar a dormir, talvez bêbedo, talvez apenas cansado da selva que podem ser as cidades. Sendo que Paris, apesar de toda a sua beleza, não é uma exceção. À saída do supermercado, um homem disse ‘Madame, vous n’avez pas un euro?’. Não lhe dei o euro, mas agora penso que talvez devesse ter-lho dado. Afinal o que é um euro, numa cidade onde um café, de qualidade muito duvidosa, custa, no mínimo, 2,5 euros ou uma água de 50 cl custa mais de 4? Não lhe dei o euro porque vinha carregada de sacos de compras, que com dificuldade transportei até casa. Podia ter-lhe dado uma maçã, mas talvez a não quisesse.

[Read more…]

Lettres de Paris #3

Le monde est tout petit

This slideshow requires JavaScript.

Esta é uma carta curta, como ontem prometi que vão ser a maior parte das cartas de Paris. Fui hoje ao centro de investigação onde terei um lugar e uma secretária. A minha colega trabalha sobretudo a partir de casa, como a maior parte dos outros colegas, mas eu creio que preferirei trabalhar lá, mesmo porque a minha ligação vpn à universidade de Aveiro não quer funcionar no meu computador e, bem, a partir de lá tudo será – espero – mais fácil. Digo espero porque hoje apenas reuni com a Aline. Ideias há bastantes, não sei se haverá tempo para as concretizar. Mais tempo dela, quero dizer, que anda muito atarefada com o trabalho de campo.
Fui, então, à hora combinada à Rue Vallete. Fui devagar, chovia, eu tinha tempo. Parei no café ao fundo da rua – Le Metro – e comi un croque madame. Depois subi a rue des Carmes e a seguir, já na Rue Valette entrei no LADYSS. As pessoas parecem-me todas simpáticas. Parece-me que apreciam igualmente o meu esforço para falar francês, mesmo se falo com imensos erros, sobretudo dos tempos verbais. Acho que acabarei por melhorar isso. A reunião com a Aline foi toda em francês, mesmo porque ela deixou bem claro, desde o início que se recusava a submeter-se à ditadura do inglês. De facto, publica – como atualmente a maioria dos franceses – sobretudo em francês. Podia ter começado um debate com ela sobre a importância de haver uma língua comum, na qual possamos entender-nos, mas depressa compreendi que não valia a pena.

[Read more…]

Nos 160 Anos do Caminho de Ferro em Portugal

160anos_caminho_de_ferro_portugal_comboio_avenida_franca_porto

“Perto do meio dia chegaram SS.MM. em pequeno estado, e tendo-se procedido às bençãos das locomotivas, que foram feitas pelo cardeal patriarcha, e a todo o mais cerimonial, como se determinava no programa, e de que já aí haverá conhecimento, partiu para o Carregado o comboyo real puxado pelas locomotivas Coimbra e Santarém” (…) – 28 de Outubro de 1856.

A Terra revolveu já o Sol 160 vezes desde a primeira viagem de comboio em Portugal.
Era Terça-feira e principiava uma nova forma de viação, para já até ao Carregado; depois, sobretudo enquanto durasse monarquia, e sobretudo até 1949, o comboio haveria também de chegar a Monção (não chegou a Melgaço), a Braga (não chegou ao Gerês), à Póvoa de Varzim (e dali não mais para Norte), a Fafe (não continuaria até Chaves), ao Arco de Baúlhe (40 anos depois de derivar da Linha do Douro), a Chaves (não chegaria à fronteira), a Bragança (também não chegaria à fronteira), a Duas Igrejas (não chegaria, afinal, a Miranda do Douro), a Barca d’Alva (por onde passaram muitos comboios para Madrid e outras partes do mundo). Chegaria também à Régua mas, para sul, não subiria nunca a Lamego ou a Viseu (a Viseu chegaria desde Santa Comba-Dão ou Espinho e Aveiro). Nem do Pocinho subiria, afinal, a Foz-Côa ou Vila Franca das Naves.
Da Figueira da Foz chegaria à Guarda-Gare e Vilar Formoso (um povoado insignificante à época). Chegou à Lousã e a Serpins (Arganil é que não). Chegou a Tomar, não chegou a Seia. Chegou a Sintra e a Cascais (até criou “a linha”).
Chegou à Beirã, a quilómetros escassos de Marvão. A Elvas e a Badajoz.
A Beja, a Évora, a Moura, a Mora (e dali não chegou ao Ribatejo), a Reguengos de Monsaraz, a Vila Viçosa desde Estremoz. À Funcheira. A Alvalade do Sado e Sines, Aljustrel, a Faro, à foz do Guadiana em Vila Real de Santo António, a Lagos, depois de passar também na Baixa da Banheira, Valdera, Grândola e Canal Caveira.

E em 1875 chegou a Nine, no caminho para Braga. Em Couto de Cambeses começaria a parar lá por volta de 1915, dizia o meu avô materno cujo pai fora contemporâneo da chegada da “máquina preta” que, dizia o povo, “matava o povo até certa distância“.
Entre Nine e Couto de Cambeses havia raposas que atravessavam a linha, lembro-me eu.
Havia também a casa dos avós paternos. Era tudo junto à linha.

Meu pai surge naquela fotografia que um japonês captou na Avenida da França (no Porto) em 1975, no ano em que o meu pai entrou para a CP, e 100 anos depois de o comboio começar a circular a norte do rio Douro. Seria assim nos próximos 35 anos, o meu pai em cima dos carris, ele e muitas pessoas.
Também por isto, o 28 de Outubro deveria ser o Dia do Ferroviário e do Caminho de Ferro.
Obrigado.

Lettres de Paris #2

Mon coeur qui bat

This slideshow requires JavaScript.

Vou passar a escrever cartas pequenas, sobretudo porque estou aqui para trabalhar, embora Paris tenha distrações para me entreter para o resto da vida. A própria cidade, com os seus recantos, cafés, esplanadas, fontes, pontes, monumentos e o Sena. Devia dizer A Sena, visto que em francês o Sena é feminino e compreende-se.
Saio da Maison Suger já passa bastante do meio dia. Dormi mal e pouco. Quando me levanto e abro a janela, vejo o sol e o céu azul e animo-me, apesar do cansaço. Percorro a Rue Suger até encontrar a Place Saint-André des Arts e logo depois a Place Saint-Michel. Fico um bocadinho a admirar este domingo nas duas praças e atravesso a estrada para a Pont Saint-Michel. Ali está A Sena e ali está a Catedral de Notre Dame e ali está esta paisagem tão familiar de quase todos, mesmo daqueles que nunca aqui vieram. Peço a uma rapariga loira que me tire uma fotografia. Ela tira mas aconselha-me (deve ter sido por causa da máquina) a ‘faire attention aux pickpockets’. Rio-me e digo-lhe que sim, farei. Não é que faça, na verdade, quero dizer, não ando na rua a pensar que vou ser assaltada. Até hoje só fui assaltada uma vez e foi na minha própria cidade, dentro de um supermercado.
Deixo a rapariga e os seus conselhos e atravesso a ponte. Percorro os poucos metros que me separam da Notre Dame e constato que não há muitos turistas. Quase nenhuns, o que me agrada. Volto a atravessar para o outro lado, na Petit Pont, mesmo em frente à belíssima livraria Shakespeare & Company. Entro um bocadinho e ponho-me a folhear A Moveable Feast (em português Paris é uma Festa) do Hemingway, numa versão supostamente revista. Talvez o compre e o releia na língua em que foi escrito. Mas hoje não comprei nada, a não ser comida e um bilhete de cinema. Da livraria vou pela Rue Saint-Julien Le Pauvre, passo a igrejinha onde se concentram, à entrada, as pessoas que saem da missa e aprecio a calma de Paris, neste domingo com sol e céu azul. Mais à frente bebo um café na esplanada do San Severin, mesmo diante da igreja com o mesmo nome, e tenho mesmo que tirar o casaco, por causa do sol que me bate em cheio.

[Read more…]

CETA Showdown

magnette1

Continuam a todo o vapor as negociações em Bruxelas para produzir “uma solução” de última hora para o CETA. Paul Magnette esteve ontem numa reunião de emergência com os Premiers das outras regiões e do governo central belga. Antes do início da mesma, Magnette afirmou que não toleraria um quarto ultimato, dizendo: “Já nos fizeram três ultimatos. Não toleraremos um quarto, venha ele de onde vier; caso isso aconteça, suspenderemos as negociações (…)”. E, desta vez, um porta-voz da comissão anunciou que as conversações decorrem sem ultimatos nem prazos, pois “a Bélgica está a procurar a sua posição, o que a comissão respeita”.

Após as seis horas de ontem, as conversações continuam hoje, quarta-feira, a partir das 8 horas da manhã. Entretanto, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, afirmou ter muitas dúvidas quanto à possibilidade de assinatura do CETA na próxima quinta-feira, mas afirmou estar convicto de que isso acontecerá dentro de duas semanas. E Justin Trudeau não vai, como era previsto, discursar hoje no parlamento europeu em Estrasburgo.

Nestes últimos dias, parecemos coelhos estáticos, encandeados pelos holofotes de um espectáculo que tem tudo, mas tudo, a ver connosco.

Lettres de Paris #1

I guess this is my lucky day

Esta carta começa antes de Paris. Em Amsterdão, onde dormi até quase às 10 da manhã, tranquilamente, junto ao Amstel e à Magere Brug. As senhoras da receção hoje parecem-me mais simpáticas, sobretudo depois do pequeno almoço, quando me dizem que arranjaram um homem forte para me carregar a mala. De facto, o rapaz era gigante e louro e carregou-me a mala pelas escadas abaixo sem um ai nem um ui. Deduzi, portanto, que as senhoras da receção teriam razão. Apanhei um táxi para a estação, mas afinal fui até ao aeroporto de Schiphol com ele. Fez-me um preço camarada, um pouco mais caro do que custaria o bilhete de comboio e a corrida até Amsterdam Centraal.
 
Cheguei ao aeroporto, apesar de ter já feito o check in online com bastante antecedência. O peso da mala preocupava-me. Efetivamente, os mesmos 25 quilos com que saí de Lisboa. A menina do drop off informou-me que teria de pagar uma exorbitância (nem vos digo quanto, por vergonha) pelos dois quilos a mais. Disse-me que fosse ao cashier da KLM pagar a exorbitância. A mala ficou com ela, para meu alívio. Quando cheguei ao balcão do cashier, ia danada comigo mesma e com os dois quilos a mais e com a exorbitância. O homem estende-me um novo cartão de embarque e diz que não tenho de pagar nada. Surpreendo-me. E ele diz que no ‘sistema’ (whatever that means) estão registados ‘apenas’ 23 quilos. Eu digo que não é possível, que a menina do drop off me mandou ir ali pagar. Ele insiste que está tudo em ordem. Eu repito que tenho de regressar à menina com o comprovativo do pagamento. O homem consulta uma senhora alta e loira que deve ser a chefe. Ela diz que não me preocupe, que o que está registado no ‘sistema’ é que conta. Acompanha-me à menina do drop off. Confirma-se que apenas registou 23 quilos. Diz que o erro foi dela. A chefe diz-me que vá para as portas de embarque e não me preocupe. Eu agradeço-lhe e digo ‘I guess it is my lucky day’. Ela ri-se e deseja-me boa viagem. Eu penso ‘bendito sistema’ que me fez poupar uma exorbitância.
 

[Read more…]

Crónica do Rochedo IX – De Maria Leal a Umberto Eco

600-maria-leal

Um dos humoristas que mais aprecio é o Rui Unas. O seu último projecto chama-se “Maluco Beleza”. Sempre que posso passo pelo seu canal na net ou pelo facebook para assistir às entrevistas (gostei especialmente da entrevista ao Luís Franco Basto). Ontem, tropecei na da Maria Leal.

Obviamente, vi no facebook a sua famosa actuação no programa do Goucha e da Cristina. Como muitos outros, fui invadido pelo mais puro espanto, seguida da mais franca sessão de gargalhadas e terminando num genuíno sentimento de vergonha alheia. E por aqui me fiquei. Fui assistindo, já sem grande espanto e com a possível saudável distância ao histerismo das redes sobre o tema. Até ontem.

O ódio destilado sem qualquer freio por boa parte dos internautas que participavam em directo nas redes ao programa é inenarrável. Desde insultos, passando por desejos que a senhora morra e terminando em tentativas de enxovalho pelo facto da senhora dar calinadas de português ao mesmo tempo que esses mesmos escreviam num português de fugir. Porquê? A sério, porquê?

[Read more…]

A Single Postcard from Amsterdam

No bikes for tourists

This slideshow requires JavaScript.

Hoje dormi mais um bocadinho. Levantei-me às 9h20, tomei o pequeno almoço no hotel no meio do bosque e depois, com o Luis e outra pessoa que não conhecíamos que também esperava um táxi, fui para a estação de Ede-Wageningen, tão familiar já, por tanta espera de comboios. Quando vivi 3 meses em Wageningen, em 2009, já o disse de outras vezes, apanhava aqui frequentemente o comboio para outras paragens, aos fins de semana, que Wageningen é uma terra pacata e de vez em quando sempre é necessária alguma agitação.
Hoje, na estação, despedi-me do Luís que tomava um comboio diferente para o aeroporto de Schiphol e ali fiquei a ver os comboios que chegavam e partiam, antes do meu. Um rapaz ajudou-me a por a mala grande dentro do comboio e um senhor ajudou-me a tirá-la de lá, certificando-se que eu conseguia levar as duas malas sozinha em Amsterdam Centraal. Consegui, claro, têm rodas e se o caminho for a direito não há problema. Saí da estação e Amsterdão acertou-me em cheio na memória. Não vinha a Amsterdão há 6 anos mas bom, é como se tivesse saído daqui ontem.

[Read more…]

CETA: Ponto da situação

Primeiro, os tops da UE anunciaram que os governos europeus se tinham MESMO que pôr de acordo sobre a assinatura do CETA durante a cimeira da UE na sexta-feira passada; como a pressão não funcionou, Chrystia Freeland declarou o abandono das conversações pelo Canadá; como mais uma vez não funcionou, atiraram com um ultimíssimo ultimato dirigido a Magnette, que terminaria hoje à noite. Acontece que Magnette não se deixa nem intimidar (as interpretações acusatórias sobre os seus motivos raiam o foro psicanalítico) nem comprar (já lhe ofereceram muitos bombons para a sua região assolada pelo desemprego e cujos habitantes sabem muito bem que terim a perder com o CETA), mas hoje à noite Donald Tusk, presidente do concelho europeu, anuncia via Twitter:

tuskO suspence continua.

A hora da verdade para o CETA

valonie

Na sequência da recusa de assinatura do CETA pela Valónia, Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu, fez um ultimato à Bélgica para tomar uma decisão a esse respeito até hoje à noite (segunda-feira). Magnette já respondeu, através do seu porta-voz, que a imposição de tal prazo é “incompatível com o processo democrático” e que não se sujeitará a ele.

Referindo-se à pressão de que tem estado a ser alvo por parte da UE desde que Chrystia Freeland, ministra do comércio canadense, abandonou as conversações na sexta-feira passada, Magnette comentou ontem (domingo) no Twitter: “É pena que a UE não exerça uma pressão igualmente intensa sobre aqueles que bloqueiam a luta contra a fraude fiscal”. [Read more…]

Postcards from Wageningen #3 (2016)

Just another ordinary day at the ‘office’

2016-10-20-14-08-09
Já ontem disse que os holandeses são um povo organizado. Contam o tempo das intervenções e das reuniões ao minuto e andamos todos num virote o dia inteiro. Foi mais um dia em que me levantei extraordinariamente cedo. Às sete da manhã mais concretamente. É uma violência para uma noctívaga como eu, convenhamos.
 
O dia de trabalho – embora andemos num virote – corre bem. As apresentações dos investigadores são geralmente boas e estão já bem encaminhadas. As reuniões são rápidas e sucedem-se (um virote, pois, já disse). As sessões e reuniões de hoje são no campus da WUR – Wageningen University and Research. O campus é muito bonito. Menos que o da Universidade de Aveiro (mas eu sou suspeita, obviamente) mas ainda assim bonito. Muito verde, salpicado de vermelho e de castanho aqui e ali. É outono. Absolutamente outono em Wageningen. Um outono que equivale a um inverno em Portugal. Está frio e chove de vez em quando. O costume, portanto.

[Read more…]

Sinais…. de que tempo?

halloween3Ontem, no centro de uma cidadezinha do norte da Alemanha, deparamos com as lojas já cheias de enfeites de Natal.

  • Já estou toda baralhada, diz a minha filha, ainda quero divertir-me com as minhas amigas no Halloween – outra festa do comércio – e já me fazem pensar no Natal… Recuso-me!

Digo só “pois é”, mas interiormente fico contente pelo acrescento dela sobre a festa do comércio e dou-lhe toda a razão, no que toca a baralhação e comércio…

Postcards from Wageningen #2 (2016)

This slideshow requires JavaScript.

 A Holanda é, provavelmente, o país mais organizado do mundo

Penso isto desde que, há muitos anos, vim pela primeira vez aqui. É tarde e não tenho muito tempo para elaborar. Amanhã o despertar será igualmente às 7 da manhã e, depois de um dia inteiro a falar inglês, a ser organizada, a não ter um momento de solidão, estou prestes a desfalecer.
Mas foi um bom dia. A organização é quase sempre uma boa coisa, acho eu, que tenho também a mania da ordem. Fomos a Nijmegen, que – apesar de ser a quinta vez que venho à Holanda – não conhecia. Vimos um rio a que foi dado mais espaço. Estivemos numa espécie de Lx factory, mas sem Lisboa. Conversámos bastante. Rimos alguma coisa. Observámos, da janela do autocarro, as paisagens ordenadas e muito verdes. E a àgua, claro, sempre a àgua. Também ela ordenada nos canais.
Ao fim da noite bebemos um vinho tinto chamado ‘just fucking good wine’. A Holanda é, provavelmente o país mais organizado do mundo. Mas os holandeses têm sentido de humor e isso salva-(n)os.

O Expresso da Manhã

expresso

Contrariamente àquilo que aconteceu durante a governação Passos/Portas, que falhou, sucessivamente, quase todas as metas a que se propôs, 2016 será, tudo parece indicar, o ano em que Portugal sairá do procedimento por défice excessivo, apesar da dívida pública que se mantém em níveis estratosféricos. Contudo, e sendo certo que o défice se situará abaixo dos 3% exigidos por Bruxelas, resta saber quão abaixo desse valor ficará. [Read more…]

Postcards from Wageningen #1 (2016)

Do not walk outside this area

Há um ano, mais ou menos, também estava em Wageningen. O João tinha morrido há uns dias. Todos os postais de então foram para ele. Hoje, mais ou menos um ano depois, o João continua morto. Vim a pensar nisso – de há um ano mais ou menos estar aqui e do que senti nessa altura com a morte do meu amigo – no avião para Amsterdão.
A Sandra e o Luís, que vieram pelo Porto, estavam já no aeroporto de Schiphol quando aterrei. O Luís ajudou-me com a mala grande até ao comboio. Encontrámos o Talis na plataforma 3 e viemos os 4 para Wageningen. Pouco a pouco foram chegando outros colegas ao hotel no meio do bosque. Um hotel moderno, clean, muito confortável onde vou ficar 3 noites. Amanhã começamos cedo, às 8h30 da manhã. Tenho de dormir e não me apetece. Na verdade, nunca me apetece dormir e resisto até o sono me vencer sem dar por isso. Custa-me entrar dentro do sono, aqui como em qualquer outro lugar.
Passei a tarde toda em viagem. Há pouco para contar. A Holanda é, mais a mais, um país tranquilo, de casas com janelas sem cortinas, de casas transparentes. Isso agrada-me, confesso. Gosto de espreitar para dentro das casas das pessoas. Aqui nem é preciso espreitar. Elas mostram-se. Já eu fechei as cortinas da grande janela do quarto. Hábitos.

[Read more…]

De ASurf a ATudo…

peniche(foto tirada daqui)
O ministro da economia vai amanhã, por ocasião da etapa do campeonato mundial de surf em Peniche,  anunciar a alteração do nome da A8 para ASurf. Para que as outras regiões do país não se sintam discriminadas, venho por à consideração do sr. ministro as seguintes mudanças:
A1 (troço Lisboa-Alverca) – ABejecas
A1 (troço Coimbra-Mealhada) -ALeitão
A13 – ACoiratos
A17 – AOvosMoles
A2 – AVinho
A22 – AConquilhas (hoje, amanhã não sabemos)
A23 – ACereja
A25 – AMorcelaDaGuarda
A28 – AFrancesinhas
A29 -ATripas
A2 (troço Lisboa-Setubal) -AMoscatel
A4 – AEnchidos
A5 – ATias