Avós gregas

Circula por aí esta foto que não só é parte relevante de um grande retrato que aos poucos se vai compondo, o do drama dos refugiados que tentam chegar à Europa, mas é também dessas que nos fazem sorrir e renovar a esperança nessa frágil possibilidade de entendimento entre as criaturas humanas.

Lefteris Partsalis, fotógrafo grego, chegou a Lesbos e encontrou os barcos, a gente desesperada, as crianças a tremer de frio, o choro contínuo, os corpos naufragados, e foi isso que fotografou. Ou nem fotografou, porque, como contam muitos repórteres, o mais frequente é ter de pousar a câmara para poder ajudar quem chega. [Read more…]

Narcisos murchos

Talvez o mais bonito deste pequeno drama pós-eleitoral tenha sido observar o CDS-PP tomar consciência, dia após dia, da sua indiscutível insignificância.

Sem notícias de Deus

Do vizinho bem entrado em anos a quem um ataque fulminou antes de termos tido tempo de sabê-lo doente, o bairro sentenciou:

– Antes assim, Deus lembrou-se dele.

Nos anos da minha infância, quando era mais habitual ouvir essa frase, pensava em Deus como uma criatura distraída, ou absorta em temas para nós inalcançáveis, que por vezes se compadecia dos humanos em sofrimento e concedia-lhes a suprema mostra de compaixão que era fulminá-los. Isto implicaria que, enquanto viviam uma vida mais ou menos tolerável, estavam esquecidos por Deus. E que Ele se lembrava deles como de um refogado esquecido ao lume.

Deus negligente com as suas criaturas. Deus cruel quando insistia em deixá-las esquecidas, a sofrer para lá do tolerável. E nós, miseráveis, a agradecer a graça de sermos aniquilados quando Ele, por fim, se recordasse da nossa existência. Todos na sarjeta – assim o disseste, Oscar – mas alguns a olhar as estrelas. [Read more…]

Um arrumador de carros interpela Sísifo

Sísifo, ouvelá, que leve era essa pedra, man. Olha aqui para o pessoal, à fome e à sede de tudo, da boa, do pão, da cama, dum corpo quente. A roupa rasgada e os dedos escuros de lama e sangue seco. A cheirar vielas, como os cães, a meter as mãos nos caixotes, a farejar o que se apanha, a metê-lo à boca. A olhar de lado, a olhar com medo. A pensar no mal. A não querer fazê-lo. A juntar moedas como quem junta tempo, um dia mais, umas horas, um naco de vida, ainda quente, ainda pulsante.

A empurrar o calhau pelo monte acima, com as mangas da camisa negras, os sapatos rotos, eram de um morto, foi a viúva que mos deu. A empurrar para nada, só para não doer tanto, a empurrar para começar de novo e nem é amanhã, é já daqui a bocado. [Read more…]

Fetiches

A revista «Economist» tem uma explicação para os votos na PaF: está tudo nos pés.

João

Estava a tomar um café e uma água das pedras com o João, no Santa, há uns anos, quando apareceu o Luís Fernandes, o homem que conta as pequenas e grandes histórias da vida em Coimbra. Sentou-se à mesa connosco e o João começou a contar-lhe que tinha andado no Google Earth a investigar uns telhados e assim tinha chegado à conclusão de que havia um edifício que tinha uma parte oculta, que não se via da rua mas que se percebia, claramente, vista do céu. O Luís duvidava e o João insistia, explicava, detalhava. Tinha estado horas a seguir o rasto de um telhado, de um espaço que não batia bem com o que ele conhecia de calcorrear as ruas. Embrenharam-se os dois numa discussão que se foi tornando mais minuciosa. Era o telhado, era a fachada, era a esquina da rua, era uma pedra cuja história estava mal contada. E o João insistia: “Vai lá ver, vai lá, verás como é assim”. Eu, de outras paragens, não percebi nada a não ser o que tinha de perceber, que os amantes da sua cidade são assim, apaixonados e meticulosos, e o João era um estudioso daquelas paredes, das ruas, das casas, da gente, do que já não se via, do que tinha de ser resgatado para que a sua história não ficasse esquecida. O João amava tanto a cidade e amava tanto o rio. E devia ter tido tempo de escrever aquele livro sobre Coimbra, aquele.

Quem o conhece destas páginas e guarda a imagem de um homem tumultuoso e de língua afiada, não saberá do homem doce e generoso, do homem que cuidava os amigos e os sabia o seu grande legado. Não saberá do homem que amava as pessoas, as coisas e os bichos, os gatos, os peixes, as pedras, os livros, os filmes, o assobio da Lauren, que ia todos os anos fotografar os jacarandás em flor, que chamava às máquinas fotográficas “a minha namorada”, que cultivava jardins aquáticos, espaços de silêncio e liberdade, porque “quando o que anda no líquido nada, flutua e toma ar, ainda mais gosto”. [Read more…]

A um deus desconhecido

Por José Manuel Diogo.

“Correndo atrás da utopia”

Luís Fernandes, autor do blogue de Coimbra “Questões Nacionais”, despede-se do João José Cardoso.

Recebi a mensagem

Era de manhã e eu ainda não sabia. Dei de caras com aquela parede, nem era suposto eu passar ali. Raios me partam se não é tão teu deixar um recado escrito numa parede.

To have and have not

 

Aventares

 

aventares

Do João José Cardoso.

Está dizendo viva, viva

Sábado à tarde há iscas, bifanas, papas de sarrabulho. Não desfazendo, eu vou pelo convívio. É uma gente tímida, mas tímida também sou eu, e de tanto darmos um jeito para que caiba mais um acabamos por meter conversa.

A casa tem um canto, mais reservado, onde só há uma mesa grande, partilhada por desconhecidos ou disponível para grupos numerosos. Era lá que estavam eles e eu sentei-me por perto com o meu mais reduzido grupo. Eles eram dez, todos homens, todos velhotes, todos castigados por bastante mais do que os anos que tinham passado. Tinham pendurado os bonés no cabide atrás deles, alguns já não se atreviam a tirar o casaco. Um tamborilava os dedos sobre o tampo da mesa, que é uma forma, já se sabe, de marcar o compasso do que se evoca, e os seus olhos húmidos e enevoados confirmavam quão longe ele estava. Os outros seguravam os copos, cada um com o seu, como se houvesse que segurá-lo, não fosse a mesa virar a qualquer momento. Tem destas coisas, a casa, faz-nos sentir no mar alto.

Falavam alto, riam, contavam piadas. Ao segundo ou terceiro copo, um deles começou a cantarolar. Juntou-se logo outro, e outro, e outro. O que começara tinha boa voz, os outros desafinavam. Calaram-se logo em seguida, pediram mais vinho, mais iscas. Mas já se tinham soltado, estavam prontos. O cantor bateu com o copo, sinal de ordem à mesa, os outros calaram-se, a tasca calou-se também, sem saber por que o fazia, e ouviu-se, vinda do canto, uma voz sem rosto: [Read more…]

Isto agora também não interessa nada

A dívida pública está já 6000 milhões de euros acima da meta do governo para 2015 (Dinheiro Vivo).

Outros números que o governo não quer revelar

Governo atrasou para depois das eleições a divulgação do relatório de 2014 do Observatório da Emigração (DN).

Por que não se fala disto na campanha?

“Dois milhões [de portugueses] vivem em risco de pobreza. Quase 500 mil são crianças.”

Três efes

Nossa Senhora, que já nos salvou da esterqueira do Prestige (Portas dixit), foi convocada para a campanha. Mais os velhinhos, as criancinhas, e “a fé nas pessoas”, essas enternecedoras pieguinhas dispostas a dar mais uma oportunidade a quem prometeu e não cumpriu.

Conta o Expresso:

“Tem fé nos resultados?”, pergunta o repórter. Passos agarra a chance e vai ao bolso. Exibe. A cruz. A direita gosta disto.

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Sem contraditório

Opinador semanal durante a legislatura, oráculo das decisões por anunciar, participa agora nas acções de campanha, até vai arruar por Lisboa na sexta, e no sábado, dia de reflexão, lá estará no seu espaço de comentário, fresquinho e impoluto, a sós com a sua independência e objectividade. Palmas.

Sonho da direita, pesadelo dos portugueses

Uma síntese dos últimos quatro anos assinada por Alexandre Abreu.

O inútil

O vizinho que ficou desempregado há dois anos faz umas horitas nas lojas da rua. Meia hora na sapataria, três quartos de hora no parque de estacionamento, duas horinhas na loja ortopédica. O suficiente para que os donos, que já não têm dinheiro para contratar empregados, possam dar um saltinho às finanças, ao banco, a tratar daquele assunto que tem de ser em horário de expediente. Ele faz tudo sem ligar nenhuma a nada. Não está para vender nem para dar explicações. É só mesmo dizer que o patrão vem já, que é melhor passar depois, e garantir que ninguém deita a mão a nada. Aceita cartas e encomendas, atende o telefone para dizer que o patrão vai estar da parte da tarde. Mais do que isso não é com ele.

Assim que fica livre, vai sentar-se na cadeira de rodas que está todo o dia em exposição à porta da loja ortopédica. A cadeira está protegida por um plástico que já começou a rasgar-se, mas o dono da loja sente-se em dívida e não diz nada. Sentado na cadeira, a olhar o mundo a passar, aí é que ele se sente bem. Se pudesse dedicar-se a isso na vida… [Read more…]

Nostalgia

Eu ainda sou do tempo em que a ministra das Finanças culpava o Tribunal Constitucional pela derrapagem do défice.

A luz ao fundo do penico

Desta vez, confesso que estou de acordo com Marinho Pinto. Soube que o candidato à Assembleia da República afirmou que “não vale tudo em matéria de política – e de humor também” e não podia estar mais de acordo, pelo menos quanto à primeira parte. Estas declarações do candidato vinham a propósito do sketch do programa “Isto é tudo muito bonito, mas…” do qual Marinho Pinto disse “Vi uma pessoa desconhecida a urinar na minha imagem.”

Eu também vi o sketch e acho que pecou sobretudo pela falta de graça, mas acho que já valeu a pena quanto mais não seja por ter arrancado a Marinho Pinto essa tardia, mas nem isso menos valiosa constatação: “Não vale tudo em matéria de política.”

E tomo esta declaração como um sentido mea culpa  de um político que, por exemplo, classificou a adopção e co-adopção por casais homossexuais como “disponibilizar crianças para satisfazer os caprichos onanísticos e preconceitos heterofóbicos dos gays e das lésbicas”. [Read more…]

Primeiras letras

Uma das primeiras profissões que pensei que poderia vir a ter era a de preenchedora de impressos. Ocorreu-me isso quando me levaram ao serviço de identificação para fazer o meu primeiro bilhete de identidade e descobri que à porta vagueava um grupo de homens (confesso que não me lembro de nenhuma mulher), cada um munido de capinha e caneta, à espera do recém-chegado cliente com letra débil, caligrafia insegura, gramática titubeante, para de imediato apresentar os seus serviços e se ocupar de preencher os indigestos formulários estatais.

Para muitos, o contacto com a pesada máquina da administração pública cingia-se a renovar documentos, requisitar uma certidão, pedir um subsídio, e traduzia-se invariavelmente em impressos, formulários, requerimentos que metiam medo a quem raramente escrevia uma linha. Eram obrigados a comprar folhas que não sabiam como preencher, tinham medo de se enganar, a caneta tremia-lhes nas mãos quando se preparavam para fazer a primeira mancha, o primeiro traço de tinta no formulário impecável. Desistiam, não eram capazes. E aí estavam os solícitos preenchedores, gente calejada na tarefa e que não se atrapalhava quando se enganava numa letra e tinha de passar por cima com mais força. [Read more…]

O louco da vila

O louco da vila, todas têm o seu, pediu que lhe tirássemos uma foto, e pôs-se muito sério, em pose de retrato. Quis vê-la e aprovou-a com um aceno de cabeça. Depois disso, começou a acompanhar-nos pelas ruas. Apontou a igreja, a torre sineira, o velho edifício da câmara, e fez-nos sinal para que os fotografássemos. Caminhava com passos largos, as mãos atrás das costas, o rosto fechado, uma preocupação muito sua, impartilhável. Mantinha-se a uma distância cautelosa de nós, não porque nos temesse mas porque não lhe apetecia entrar em confidências. [Read more…]

Portugal lá atrás

Doentes psiquiátricos ao cuidado das misericórdias e instituições católicas, ao melhor estilo medieval; informação sobre contracepção e doenças sexualmente transmissíveis excluída, “por opção política”, da disciplina de Educação Sexual; um vice-primeiro-ministro que entende que é função das mulheres “organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos”, numa tirada que parece saída de um manual da Mocidade Portuguesa Feminina.

Junte-se a isto uma televisão pública cada vez mais descaradamente voz do patrão e está composto o retrato da nossa aldeia, que Deus a proteja, a ver passar a procissão.

Votem em mim mas não me chateiem

Primeiro-ministro a um dos lesados do BES:
“Diga às pessoas que estão consigo que percebo que estejam angustiadas com este problema, mas não é por virem a todas as minhas acções de campanha que vão resolver isso”.

Por um preço de outro mundo

A coligação PSD/CDS aprovou a redução, no Orçamento de Estado de 2013, do subsídio que a Segurança Social concede para gastos com funerais. De repente, caiu de 2.515,32 Euros para 1.257,66 Euros. Metade, portanto. Acredito que o ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social tenha apresentado a medida com aquela hipócrita expressão de “isto custa-me mais a mim do que a vós” que já se lhe colou à cara.

Ora, um funeral decente – sem luxos, mas digno – facilmente ultrapassa os 2000 euros. E se antes o subsídio cobria os gastos, agora é insuficiente. Por isso há cada vez mais famílias a meterem-se num crédito para enterrar os seus defuntos, afinal um adequado corolário de uma vida endividada.

Já as funerárias cobram como se os salários médios do país fossem o triplo, enquanto os funcionários se desfazem em mesuras e sentimentos postiços. Nesta história, só mesmo o coveiro, com as cinzas debaixo do braço, é que não finge o que não sente.

O título é um verso roubado ao “Coro das Velhas” do Sérgio Godinho.

Imperfeito

Começa-se por tropeçar num tempo verbal: o pretérito imperfeito. Quem já não está connosco gostava, ria, comia, ia, costumava. O presente já não é possível porque o nosso presente não o é para ele, e apenas nos resta mantê-lo entre nós com esse artifício do pretérito imperfeito, situado num passado repetido na nossa memória, transformado num presente que é agora também imperfeito porque não existe. Digo “ele gosta” e logo me dou conta da impossibilidade, habituo-me à imperfeição do pretérito, obrigo-me a corrigir o tempo verbal como se o rigor gramatical fosse um auxiliar de cura, uma terapia, quase um amigo. “Ele gostava”. [Read more…]

O céu sobre nós

Pode dar-se o caso de levantarem os olhos da estrada e descobrirem a figura de cartão no topo de um edifício, como me aconteceu a mim. Era a silhueta de um dos anjos de Wim Wenders, quase de certeza o Damiel, e suponho que deveria ser o anúncio de um ciclo de cinema. No cimo do edifício, olhando cá para baixo, as costas ligeiramente curvadas, os braços caídos ao longo do corpo, as assombrosas asas atrás de si, como se não lhe pertencessem, como podem elas pertencer a um homem de gabardina? Um homem curvado sobre os monólogos de quem está preso à terra e dela não pode desprender-se. Curvado sobre a dor do mundo e as suas finitas, previsíveis variantes.

Ainda bem que o vi de longe, de fugida, e que assim não pude deter-me nas imperfeições de um cartaz que o vento destroça, que a chuva deforma. Apenas vi uma silhueta, tão improvável que tomou a força de um anjo calado e impotente, ele que jamais poderá resolver um problema terreno. Poderá escutar os monólogos de cada um de nós, o sofrimento calado que vamos desembrulhando, dissecando, carregando connosco como pele, como carne, como memória que não se apaga. Ainda bem que o vi assim, de fugida, com o sol a fazer-me semicerrar os olhos, com a necessidade de não deixar de atentar na estrada, porque assim ele foi uma aparição inútil e transformadora, como todas as aparições. [Read more…]

Alugam-se jardins centenários

No domingo passado, estava eu a dormitar na relva dos jardins de Serralves quando um dos seguranças se aproximou para avisar-me de que tinha de sair porque estava a ocupar indevidamente os jardins centenários da Fundação. Lá fui eu, estremunhada, para outras paragens com o meu paninho de estender sobre a relva.

Na edição de hoje do Jornal de Notícias fiquei a saber que os mesmíssimos jardins centenários vão ser encerrados ao público durante os próximos dias porque foram alugados a Jorge Mendes, super-mega-hiper empresário do futebol, que se casará em Serralves e pretende que a boda, recheada de estrelas do seu calibre, se mantenha livre de olhares indiscretos. [Read more…]

Orgulho

Nem sei se devia contá-la, porque há histórias que nos dão vergonha só de vê-las, assistir ao seu desenrolar faz-nos cúmplices do que vimos, e contá-las pode ser uma forma de servir-nos delas, ou isso tememos, que por contar estejamos a instrumentalizá-las e não é isso que queremos. Mas não contar é também como fechar os olhos ao que se viu, negar que tenha ocorrido, e tampouco podemos permiti-lo.

Era uma tarde de muito sol numa rua central da cidade. À porta de um hotel há dois contentores de lixo sempre cheios, muitas vezes os sacos ficam no chão até serem recolhidos. Passo por ali todos os dias, muita gente o faz. [Read more…]