Do nacionalismo

Este artigo de Pedro Cardim é das coisas mais pertinentes que já li nos últimos tempos no que diz respeito à questão dos nacionalismos ibéricos. A questão da Catalunha é secundária, apesar de começar por ser a razão do texto. O que interessa verdadeiramente são as considerações do autor sobre o chamado “nacionalismo” português. Infelizmente, alguns comentários ao artigo são, como sempre, mostras de alguma ingenuidade e anacronismo.

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A condição do académico

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Há uma semana fui ver o filme sobre a Hannah Arendt. Estava à espera de gostar e não saí desapontada. Hannah Arendt é uma filósofa e académica admirável e o filme demonstra algo que me é caro em vários sentidos. A coragem de um académico em publicar algo que vai ser polémico ou que pode constituir uma polémica é uma situação que hoje em dia tem vindo a ser diminuída porque chegou-se a este estado em que a polémica para ter dimensão tem que ser escandalosa. Actualmente, parece-me, é difícil existir polémica no mundo académico – e que esta passe para o mundo não-académico – sem um certo sensacionalismo.

 

Mas não é isso que acontece com Hannah Arendt. Arendt faz o seu trabalho como académica: ela tem um objecto de estudo, ela examina-o, estuda-o, pesquisa, pensa e chega a conclusões. Tenta fazê-lo com a maior honestidade intelectual possível e fá-lo sempre como académica, como alguém que foi treinada desde muito cedo a pensar e a raciocinar e a ser crítico. A academia é isto. Arendt no filme personifica aquilo que a intelectualidade e a academia têm de melhor. Não põe de lado as suas opiniões pessoais mas elas são suportadas. Não põe de lado a emoção porque é isso é necessário a um trabalho académico, mas utiliza a emoção para amplificar a qualidade da sua escrita e do seu trabalho.

 

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O sentido de Britishness

As aberturas dos Jogos Olímpicos foram sempre uma celebração de alguma coisa, nomeadamente do país que os organiza. Não há duvida que este ano foram uma celebração daquele sentido de Britishness. Do que é ser britânico. Estava, sinceramente, à espera de algo muito mais nacionalista com armadas espanholas e Henriques V. Mas afinal não. Os britânicos, espertos, celebraram o que têm de melhor. O humor, o fair play, a literatura, a fantasia, a diversidade. Sim, o Reino Unido que se mostra nestes Jogos não é o Reino Unido que o BNP (British National Party) gostaria que fosse. O que sópode ser uma coisa boa. É uma entidade que mais do que nunca celebra a junção entre o tradicional e o moderno. Entre o antigo e o novo. E mais nenhum país no mundo consegue fazê-lo com tanta mestria e com tanto sucesso, independentemente das tensões que surgem.

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Barça per sempre

Independentemente da bola de ouro ou não, qualquer pessoa que gosta do Barcelona – e percebe a filosofia inerente áquela equipa – estaria mais preocupada com a equipa, como eu estou, do que com este ou aquele jogador em particular. Equipa que está obviamente a atravessar uma fase má. O próprio Messi pensa assim. Faz parte da filosofia da equipa e do que incutem nos jogadores. O Messi já ganhou três bolas de ouro, acho que já está mais que afirmado que é um dos melhores jogadores de sempre e parece-me muito provável que vá ganhar outra, mesmo que não seja este ano será para o próximo ou próximo. Só tem 24 anos afinal de contas. Mas o que interessa na realidade é a equipa. Preocupa-me tanto o facto do Messi não vir a ganhar a bola de ouro como o facto do Villa estar lesionado, do Piqué ter ido para o hospital ou do Abidal continuar a jogar.

Eu, em resposta a um colega que perguntou no facebook “onde estão todos aqueles que apoiam o Messi?”. Estão aqui e estarão sempre.

Somente Braudel

Fernand Braudel nasceu em França em Agosto de 1902. Ele é na minha modesta e insignificante opinião, o melhor historiador do século XX. O que quer dizer que ele é o melhor Historiador da História, se tivermos em consideração o que hoje em dia entendemos por História. É de sublinhar, contudo, que este tipo de classificações valem o que vale, o que é “melhor” ou não é muito relativo quando falamos de Ciências Sociais, ou cientistas sociais. Mas se tivesse que haver um melhor seria Braudel. Ele queria ser médico mas o seu pai não concordou e então ele tornou-se professor depois de estudar História. Depois de ensinar em algumas escolas de Paris e depois de conhecer Lucien Febrvre, um dos fundadores dos Analles, foi para o Brasil onde ajudou a fundar a Universidade de São Paulo.

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O homem que gostava das mulheres

As minhas férias acabaram há uns dias. E para gastar os últimos cartuchos passei as últimas três semanas a ler os livros do Stieg Larsson, a saga Millennium. Li, nesse espaço de tempo, cerca de 1900 páginas. Normalmente não critico livros. Mas a verdade é que nos últimos dias a minha vida revolveu à volta desta colecção. E tenho sem dúvida algumas coisas a dizer.

Os livros de Stieg Larsson não são seguramente literatura da primeira linha, uma obra de genialidade como as que saem da pena de Garcia Marquez ou Thomas Mann. Sublinho isto porque já sei que os intelectuais do costume gostam de olhar para este tipo de livros com o sobrolho franzido e com ar de “estás a ler isso? Com a tua idade lia Dostoievski!”. Ou o sexto melhor poeta bielorrusso. Descansem. Stieg Larsson não é um génio da História da Literatura. Mas se tivesse que descrever a obra dele há uma expressão que me parece muito apropriada: São francamente bons. Estão bem escritos, bem construídos e extremamente bem pensados. Estão bem relacionados. Quem escreve ou já tentou escrever ficção, sabe que uma das coisas mais difíceis de conseguir fazer é estabelecer ligações, ou seja, fazer com que tudo bata certo, com que tudo faça sentido. Larsson faz isso na perfeição. É óbvio que há um ou outro pormenor que escapa, uma ou outra coisa que seria muito difícil de acontecer na vida real. Mas mesmo assim, para a quantidade de personagens que são criadas, para os vários enredos que coexistem é fantástica a maneira como ele consegue conjugar tudo isto. Este é um dos muitos factores que explicam o sucesso desta colecção.

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Falha Felipe? (ou o Rei que sabia que não o queria ser)

No âmbito de uma apresentação oral (que está marcada para o final do semestre) para história moderna fui obrigada a acelerar os meus estudos em relação a Felipe II de Espanha e deixei para trás o Thomas More, com grande pena minha porque o tempo não dá para tudo.

Descobri então que a pergunta “política” mais óbvia que se faz em relação a Felipe, e que a mim sinceramente não me tinha passado pela cabeça, é: “Felipe é um falhanço? Falha nos seus objectivos? Falha para com o Império Espanhol?” Para responder a isto é necessário ter em conta certos factores.

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Mas é que eu nem estou a ver bem

MP’s to vote on Death penalty – Vocês livrem-se de aprovar isto. Provem que são a mais “antiga Democracia do mundo”.

Do Pecado

Bosch.

Hieronymus Bosch. H.á um livro de uma jornalista espanhola, a casa dos sete pecados, um romance histórico sobre o pecado, desejo, morte, traição. Bosch aparece por razões evidentes. Segundo o protagonista, Felipe II, “Ninguém melhor que ele sabe plasmar numa imagem a verdadeira essência da redenção dos homens”. Eu diria mais. Ninguém melhor que ele sabe plasmar a verdadeira decadência humana. Não se enganem, os quadros de Bosch têm pouco a ver com o Renascentismo. São quadros da Idade Média combinados com as novas técnicas do Renascimento.

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Para os que quiserem saber

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Venho por este meio divulgar que a informação que me foi fornecida e que mencionei neste post, estava certa. Há uma nova biografia do Felipe, e é do Geoffrey Parker. E tem 1500 páginas. E para abrir o apetite umas citações de Parker:

  “Entre las novedades, Parker destaca que los documentos en los que se observa cómo Felipe II a los 14 años escribía y “destrozaba” los libros que heredó y que ahora alberga El Escorial o las cartas de amor que le escribió a Isabel de Tudor en 1559.– Se vocês soubessem a minha histeria quando li esta parte das cartas de amor. Até dei três saltinhos. Eu tenho mesmo que comprar isto. 

Adentrándose en su personalidad, Parker resalta su comportamiento “obsesivo compulsivo” que incluye excesivo control emocional, austeridad, terquedad, insensibilidad y cierta astucia maligna que contrasta con las cartas que enviaba a sus hijos donde se mostraba lleno de afecto y de amor e incluso se permitía hacer ciertas bromas”. – 

(…) En este sentido, explica que Felipe había recibido una “herencia problemática” sin lengua, moneda, leyes o instituciones comunes y aún así estuvo cerca de alcanzar el éxito en sus numerosas empresas.

   Sobre los puntos oscuros de su reinado, Parker cita las muertes del príncipe Don Carlos, uno de los puntales de su leyenda negra, y de su secretario, Escobedo. Sobre la muerte de Don Carlos, Felipe II nunca dio una explicación detallada de lo sucedido. En cuanto a Escobedo, su asesinato fue organizado por Antonio Pérez con el consentimiento de Felipe II [Read more…]

Agora para coisas realmente importantes


Disseram-me que saiu uma nova biografia do Felipe II escrita pelo Geoffrey Parker. É verdade? É? É que me disseram que tem 1000 páginas.

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A melhor definição de sempre

Wolf Hall
Hilary Mantel, Civilização, p. 457

Catarina, uma senhora com os dedos inchados, confessa ao senhor Cromwell que falhou perante o país dele “que, nesta altura, também já é o meu país.” Como facilmente se depreende trata-se de uma imigrante ilegal que tenta seduzir um inspector do SEF, o senhor Cromwell. “É-me impossível acreditar que durante anos fui uma prostituta.” Não é o que dizem todas? Ainda por cima, Catarina tem uma ligação com um tipo conhecido no submundo do crime como “O Rei”.

Veredicto: Compro. Já tinha saudades de livros sobre prostitutas narrados na terceira pessoa.

Posso acrescentar, que o senhor Cromwell para além de inspector do SEF também fazia tráfico de droga e de influências nas horas vagas. Era também conhecido por difamar pessoas e especialmente por arranjar falsos testemunhos para os amigalhaços (o seu preferido para fazer este papel era o seu subalterno- Richard Rich). Teve uma morte macaca porque os outros sócios do chefe do submundo o tal “Rei”, deixaram de engraçar com ele e finalmente perceberam que isto da boa administração não rendia as despesas em património cultural destruído.

(Pobre Catarina, era uma senhora simpática ela)

Dorian – o filme

Toda a gente conhece a história de Dorian Gray: o rapaz belíssimo que vende a alma para que seja o seu retrato que envelhece e não ele. Ao mesmo tempo, Dorian vai-se tornando mais perverso, mais corrupto, mais cruel. Nada disto tem efeito nele, mas sim na sua pintura.

O filme segue esta história mas adiciona alguns volte-faces interessantes. No livro, sempre se deu atenção a Basil, o homem que pinta o retrato. É normal pois diz-se que Basil é o alter-ego de Óscar Wilde. Contudo, para mim, a personagem mais interessante, talvez até mais que o próprio Dorian, sempre foi Lord Henry que corrompe Dorian. E este filme, esta nova versão, dá a Henry uma renovada importância. É ele o responsável pela transformação terrível que se dá em Dorian, mas ele Henry nunca se transforma em algo semelhante. E porquê? O filme oferece uma excelente explicação.

Este filme é também mais gráfico que o livro sendo que o espectador fica com uma muito boa ideia da crueldade e perversão de Dorian Gray algo que no livro não é totalmente explícito e devia ser. Dorian é afinal aquilo que qualquer pessoa se pode tornar, se as condições em seu redor permitirem.

Be of good cheer

Estava eu, ontem à noite, sossegadinha na minha cama a ler o Peter Ackroyd que interrompi durante meses em prol de um bem superior quando de repente me deparo com uma passagem excelente. Contava eu à meia noite e meia, o número de hereges cuja morte tinha sido da directa responsabilidade de Thomas More, (foram 7, embora o John Petyt tenha morrido na prisão por isso não sei bem se conta), quando o Ackroyd escreve isto:

“The central theme of Confuntation [with Tyndale] is that there is only one true Church, the visible and orthodox communion of Catholics. Throughout its history its members have been frail or weak, but that in no way affects its authority as Christ´s mystical body upon the Earth. It is the permament and living sign of Christ´s presence, sustained by inherited custom and maintained by traditional knowledge. It is a visible, extensive and palpable community (…). Just as parliament was considering plans for the reformation of abuses among the clergy, More was insisting that the sinfulness or folly of individuals – even the wickedness of a bad Pope – in no way affected the divinely instituted sanctitas of the Catholic Church.”

Ah Thomas é curioso como mesmo no fim do mundo medieval as preocupações eram as mesmas. Sim, vocês viam o Lutero como um anti-cristo e o Tyndale era uma “beste” com uma ” brutyshe bestely mouth” mas não deixa de ser curioso como as coisas funcionam. More era católico e defendia uma fé antiga. Lutero era um homem novo como se chamavam. Tudo apontava para que quem morresse pela fé fosse Lutero e não More.

E enquanto eu reflectia na questão dos padres e Igreja e tudo, aparece-me isto. O novo destrói sempre o velho, já dizia o Beresford no “Felizmente há luar”. Mas nem por isso o velho é esquecido ou diminuído. Ou pelo menos, não o deve ser. E Sir Thomas é o melhor exemplo disso.

O fim de tudo

Às vezes (raras vezes!) fala-se de livros, o que é muito bom. E foi exactamente esse o ponto de partida para este texto. Um amigo, tendo lido o livro A Estrada (de Cormac McCarthy), comentou que lhe tinha provocado uma perturbação insinuantíssima e que entendia que depois da sua leitura já não éramos os mesmos. Ooops! Aluna e professor acharam que queriam experimentar “o veneno” puseram-se a ler o objecto perturbador, cada um por si, com a sensibilidade e o background próprios. Daí sairia uma reflexão, talvez à flor da pele, que fosse um desafio para outros – alunos, professores e tutti quanti. É o que lerão seguidamente.

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O óbvio que o tem de deixar de ser

Há uns dias, dizia-nos uma professora a propósito de um “remark” clássico de um aluno, que os alunos portugueses não se apercebiam que precisavam da escola. Baseava-se a professora num estudo apresentado, que eu por acaso tinha visto, que dizia que a educação portuguesa é aquela que oferece menos “mobilidade social”, ou seja, a hipótese de se “subir na vida” por causa da escola.

A minha professora tem efectivamente razão. A escola é um instrumento muito importante para uma vida melhor e para alcançarmos os nossos objectivos. Apesar de não ter sido bem essa a minha conclusão quando vi o estudo, a minha professora atribuía o resultado deste ao abandono escolar e à falta de interesse dos alunos e devido efectivamente ao facto de não se aperceberem que precisam da escola. Isto é algo que eu já ando a dizer há séculos e não constitui nenhuma novidade para mim.

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Grandes filmes

A man for all seasons.

Sir Thomas More: You threaten like a dockside bully.
Cromwell: How should I threaten?
Sir Thomas More: Like a minister of state. With justice.
Cromwell: Oh, justice is what you’re threatened with.
Sir Thomas More: Then I am not threatened.

Invictus

How do we inspire ourselves to greatness when nothing else will do?

A pergunta ecoa-nos na mente, desde o encontro de Mandela com Pieenar. Como o fazemos? Como nos inspiramos, onde vamos buscar força quando temos que ser os melhores, melhores que todos os outros?

E a resposta é nos dada quando Pieenar e a equipa de raguêbi visitam Robben Island. Aí, o capitão da equipa ouve a voz de Mandela a recitar o Invictus e percebemos como ele, Mandela, o fez, e percebemos como é que a África do Sul foi ganhando todos aqueles jogos, mesmo que a final tenha sido adulterada. Percebemos como Mandela conseguiu unir o país, conseguiu perdoar as pessoas que o tinham colocado na prisão, percebemos como é que viveu anos e anos dentro de uma cela minúscula e sair de lá, ainda acreditando que tinha forças para liderar um país.
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I am the master of my fate: I am the captain of my soul

Através deste belíssimo texto, a Leonor “mostrou-me” este poema.

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

William Ernest Henley

E aqui uma breve história do poema e do senhor que o escreveu.


(Admito: chorei um bocadinho com este poema)

O problema da História

O problema de se escrever sobre História, ou de se realizar um filme sobre um qualquer tema ou personagem Histórica é quase sempre a questão da fidelidade aos factos. Muito poucos filmes ou mesmo livros (Wolf Hall grita-me uma vozinha no meu cérebro) são acurados. Isto acontece por muitas razões e parece-me que a primeira é que muitas vezes a realidade não é tão excitante como a ficção. E isso não é condenável, uma obra de arte não tem que factual. Podemos depois falar em puro desconhecimento de factos por parte de escritores ou realizadores ou mesmo diferentes interpretações deles.

O que salta à vista é uma questão que acaba por estar acima de tudo isto: Nem sempre, na História, é possível saber-se tudo. Mesmo que se saiba muito sobre um assunto e mesmo que haja factos que estejam mais que provados, há sempre outros factos e aspectos e pormenores que não se sabem, ora porque não há fontes ou porque elas são muito problemáticas ou por outra razão qualquer. Por outro lado, também há certezas na História. Quando se diz que os nazis mataram 6 milhões de judeus, isto é um facto não há volta a dar.

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Para reflectir

Esta semana dei por mim a ter uma conversa com uns colegas sobre os cursos que vamos tirar. Se têm ou não saída. Sobre o que nos vai acontecer. Sobre o que queremos na vida, sobre a felicidade e a falta dela. Sobre tudo o que pode correr terrivelmente mal. Estamos em humanidades, bolas, estas preocupações são justificadas em todas as áreas e especialmente na nossa. Contudo, ás tantas alguém mencionou o terramoto no Haiti, e nós percebemos que as nossas preocupações, apesar de perfeitamente justificáveis para a nossa idade, e para o nosso contexto, são pouco comparado com as preocupações daqueles desgraçados. Depois de um silêncio há um colega que diz: “a pergunta que eu faço todos os dias, mas mesmo todos os dias, é: se eu morresse hoje, será que moria feliz?”

Hoje em dia, há muito a noção de que toda a gente tem é que ser feliz, e de que tudo tem que ser fácil, e este sentimento está generalizado, especialmente entre os jovens. Eu não concordo nada com isto. Acho que a vida não é fácil, e não é para ser fácil, e não vai ser fácil. E é preciso esforço, muito esforço, e lutar e muito. E no meio disto a chamada felicidade pode ficar pelo caminho. Mas também acho que é bom relativizar as coisas. Parar um pouco, para pensar, realmente, se moressemos hoje, será que morríamos felizes.

Vamos lá ver se isto é perceptível

Caro Charles Dickens

Eu sei que é estranho estar a escrever a um escritor que já morreu. Para já, põe-se o problema de como é que vai ler esta carta. Eu sinceramente não faço ideia a quem mandar. Para resolver isto, inspirei-me numa frase que uma vez li: “os grandes homens só morrem quando são esquecidos pelas pessoas”. Era qualquer coisa deste género. E o Mr. Dickens, sendo escritor, ainda mais imortal deve ser. Por isso, penso que vou deixar esta carta num sítio visível para que possa ver. Talvez no parapeito na janela. E decentemente traduzida. [Read more…]

A problemática dos testes

Hoje, na aula de inglês tivemos uma discussão sobre o sistema educacional português. Tudo isto porque, basicamente, eu resolvi dizer que achava que os testes não deviam valer tanto, como valem especialmente no ensino básico e secundário. Acho que somos obcecados com testes. Mas já vou a este ponto. Eu disse que achava absurdo que numa disciplina como História o teste valesse 60% da nota. Enquanto trabalhos maiores, em que é preciso fazer pesquisa, planificação, montagem do trabalho, por vezes até entrevistas ou gravações, e dá, consequentemente, muito mais trabalho, valem uns meros 20%. O meu professor, o Harry, perguntou a opinião dos restantes colegas. Todos olharam para mim como se eu fosse uma ave rara e disseram que achavam muito bem a existência e importância de testes pois eles obrigam a estudar, e obrigam os estudantes a estar preparados. O Harry riu-se e disse que achava divertida a reacção dos alunos quando ele lhes dizia que ia fazer um teste. Ficavam pálidos e assustados, até porque ele tem o hábito de chegar à sala e dizer: olhem hoje vamos fazer um teste. É preciso dizer que os testes que faço no inglês são praticamente uma maneira de aferir os nosso conhecimentos e não propriamente algo que vai influenciar a nota que vamos ter.

Eu dei então os exemplos com que me deparei ao longo dos meus anos de estudante. Ou seja, colegas que nada faziam nas aulas e cujo o comportamento nem era dos melhores mas, quando chegava o teste, estudavam e acabavam por se safar.

Ninguém pareceu estranhar isto. Pedi então ao Harry para explicar como funcionava em Inglaterra. Ele explicou-nos que para eles importantes são os exames – e só há 2 anos que têm exames – e a avaliação do resto da escolaridade  é feita através daquilo a que ele chamou desenvolvimento do trabalho e do estudante. Afinal, parece que há outras maneiras de saber se o aluno estava ou não a aprender.

No fundo a questão é esta. O aprender. Nós a estudar para os testes decoramos a matéria e já está. Eu sei do que falo, afinal estou em Humanidades. O facto é que no momento em que saímos da sala em que estivemos a fazer o teste aquilo varreu-se da nossa mente, mas isso não interessa para nada. Sim, eu estive a decorar as características da pintura modernista; lembro-me lá eu agora quem eram os pintores do Expressionismo. Se for estudar outra vez, é óbvio que me lembrar-me-ei com muito mais facilidade. Mas será que sei mesmo? Será que é isto que é conhecimento? No ano passado, durante o malfadado trabalho sobre o Humberto Delgado sinto que aprendi muito mais do que a estudar para meia dúzia de testes.

Vejo pelos meus colegas, alguns mais do que outros, que há uma obsessão nada saudável em relação aos testes. Lembro-me de colegas minhas que choravam – choravam! – quando o teste lhes tinha corrido pior e tinham uma nota inferior à que esperavam. O que é que isto diz sobre o nosso ensino? Os testes são uma maneira de obrigar os alunos a estudar e a esforçarem-se. Mas será que, no fim do dia, aprendemos alguma coisa?

And the stars are black and cold

O problema deve ser meu, pensei. Meu e dos três colegas que concordavam comigo. A coisa passou-se mais ou menos desta maneira: a minha professora de Sociologia resolveu dizer que os portugueses tinham uma tendência para a corrupção e para a desonestidade, dando o clássico exemplo do tipo que tira tudo o que seja canetas, marcadores, papel e restante material do trabalho para levar para casa para os putos. Logo uma horda de colegas disseram que não fazia mal nenhum, porque não prejudicava ninguém. Devem pensar os marcadores crescem nas árvores, pensei eu. A seguir deu-se o exemplo dos jornais. A minha professora mencionou que em alguns países, os jornais estão colocados na rua e as pessoas colocam a moeda e retiram o jornal. Lembro-me de ter visto esta situação em Londres várias vezes, e várias vezes me interroguei porque razão não havia ninguém que tirava o jornal e ia-se embora, sem pagar. Logo uma colega minha disse que também não percebia o que é que prejudicava tirar um jornal sem pagar. Penso, mas não tenho a certeza, que foi por essa altura que levei as mãos à cara e gemi. Depois deu-se o exemplo dos bilhetes de comboio. São poucos os que pagam porque “acham que é muito caro”, e eu respondi que depois se fossem apanhados pagavam os 70 euros de multa que era uma maravilha. Percebi então que a maior parte só não anda de comboio sem pagar por medo da multa. Ai, digo qualquer coisa como: “então é assim, fazemos as coisas bem feitas, não porque é o que deve ser feito, mas por medo da punição?”. Ninguém disse nada excepto a professora que deve ter dito qualquer coisa como “mas é evidente”.

Naquela aula percebi várias coisas, infelizmente, mas percebi uma acima de tudo: isto não está a melhorar. Dos que concordavam comigo, não chegavam a 6 e bolas, somos 25 embora alguns não tivessem ido. Eu, já exasperada, (e a professora que não estava tão chocada como eu porque, suspeito, deve estar habituada a estas tiradas) tentei explicar que se toda a gente pensasse como eles e não pagassem o bilhete de comboio, deixava de haver comboio, que se não pagassem os jornais e, basicamente, os roubassem, deixava de haver jornais, e em última análise, porque era para ai que a conversa estava a ir, se não pagassem impostos não havia Estado. Mas não. Poucos foram os que perceberam e saíram dali a continuar a achar bem que não se pague o bilhete de comboio, que a “pessoa deve ser honesta mas não pode ser parva” (juro que houve uma colega que disse isto), e que o que interessa é que cada um se vá safando à sua maneira.

Da aula saí, triste e incrédula, pronta para ir para o Cambridge, a pensar que se isto continuar assim que não fica cá de certeza, sou eu.

Today is More’s day

 

 

Sir Thomas More nasceu em Londres a 7 de Fevereiro de 1478, filho de John More, um Juiz. Estudou na St. Anthony School, em Londres e mais tarde em Oxford, onde começou a escrever pequenas comédias e onde traduziu um biografia de Pico Della Miradandola, um humanista italiano.

Depois de concluir os seus estudos em Oxford, foi para Londres para os os “Inns of Court” estudar e trabalhar com magistrado. É nessa altura que integra um grupo de “Reformers” ou Humanistas intitulados os London Reformers, dos quais faziam parte John Colet, Thomas Linacre, William Lily, William Grocyn, entre outros. Estes homens aspiravam operar uma mudança em alguns sectores da socieidade e da Igreja, como a educação, tendo, contudo, sempre em conta que a a religião e a “piety” estavam em primeiro lugar, embora se procurasse uma religião mais pura que se afastasse da corrupção da época. A religião é um tema central na vida de Thomas More e de todos os seus contemporâneos e dela não podemos fugir quando analisamos a vida de More.

Foi aliás, durante a sua estadia num Mosteiro em Londres que Thomas More pensou em tornar-se monge e seguir a vida eclesiástica em vez de uma vida dedicada à Função Pública (não é bom dizer isto desta maneira. Parece que estou a ver o More atrás de uma secretária a preencher impressos e a atender clientes). Contudo, acaba por desistir da ideia e escolhe definitivamente dedicar a vida ao país, entrando para o Parlamento inglês em 1504. As razões pelas quais More desiste da vida eclesiástica são sobretudo, duas. A primeira, consiste na ideia de que More tinha um grande um sentido de dever e acreditava que todos os homens tinham um papel a ocupar no “palco” que era a vida. E o seu dever era servir o seu país. A segunda razão, mas não menos importante, é o facto de More temer a possibilidade de se vir a tornar um padre impuro. Aparentemente, e segundo Erasmus, More percebe que os seus apetites sexuais o podiam levar a desviar-se da religião, caso a ela se dedicasse por inteiro.  A isto podemos evidentemente associar o facto de Thomas More usar um cílicio e outros meios de auto-flagelação. Alguns anos, mais tarde é nomeado Undersheriff da Cidade de Londres. Ao ocupar este posto, a sua reputação cresceu e STM era conhecido por ser imparcial e justo.

Durante a década seguinte, Thomas More começa a atrair a atenção de vários membros da Corte, inclusivamente o Rei, Henrique VIII. Em 1515, More acompanha uma delegação à Flandres devido a um problema no comércio de madeira, e a sua “Utopia”, torna-se uma referência nesta viagem. More foi extremamente importante quando conseguiu suprimir uma revolta em Londres contra os estrangeiros. Depois começou a acompanhar a Corte em diversas “viagens de Estado”, inclusive uma viagem a França quando Henrique VIII tenta fazer uma aliança com o Rei de França, Francisco. Em 1518, More entra para o Privy Council e é ordenado cavaleiro em 1521.

Com o aparecimento de Lutero e do Protestantismo, More ajuda Henrique VIII a redigir a sua “Defesa dos sete sacramentos” e escreve uma carta à réplica de Lutero embora sobre um pseudónimo. A relação entre Henrique VIII e Thomas More é uma de proximidade, e More torna-se Presidente da Câmara dos Comuns. Neste cargo, More contribuiu para o estabelecimento do discurso livre no Parlamento.

O seu declínio começa quando Henrique VIII se quer divorciar de Catarina de Aragão para casar com Ana Bolena. Apesar de no início More ter aceite o argumento de que o casamento entre Henrique VIII e Catarina foi ilegal, este torna-se cada vez relutante em aceitar a decisão, especialmente depois de Henrique VIII começar a negar a autoridade do Papa. Mesmo assim, More torna-se Lord Chancellor em 1529, depois da queda do Cardeal Thomas Wolsey.

More demite-se deste cargo em 1532 alegando motivos de saúde, mas sabe-se que a verdadeira razão pela qual o fez foi a sua desaprovação da posição de Henrique VIII para com a Igreja Católica. Henrique VIII separou-se da Igreja Católica, formando assim a Igreja anglicana e proclamou-se chefe desta. Depois de Catarina de Aragão ser afastada, Ana Bolena é coroada Rainha e More não vai à sua coroação. Em 1534 More foi acusado de cumplicidade com alguns opositores de Henrique VIII mas não foi condenado devido à protecção da Câmara dos Lordes. No entanto, em Abril de 1534, More recusou-se a jurar sobre o acto de Sucessão (que legitimava todos os filhos de Ana Bolena como possíveis herdeiros) e recusa-se a fazer o Juramento da Supremacia (que advém do acto de Supremacia que reconhece Henrique VIII como o chefe da Igreja Anglicana). Desta maneira, Sir Thomas More é preso na Torre de Londres e executado a 6 de Julho de 1535. É comum dizer-se que as suas últimas palavras foram: “The King’s good servant, but God’s First.”

Thomas More casou duas vezes, tendo quatro filhos, um rapaz e três raparigas. More educou todos os seus filhos nas diversas disciplinas: latim, grego, lógica, astronomia, medicina, matemática, teologia, não fazendo distinção entre os sexos. A sua casa ou “household” era uma autêntica escola onde a educação era dada não só aos seus filhos mas também a outras crianças. Thomas More foi também um dos primeiros  ingleses a usar a ideia humanista que a instrução devia estar aliada ao prazer: era comum ensinar através de jogos ou charadas. Era um grande amigo de Erasmos de Roterdão que nunca escondeu a admiração pelo inglês e chegou a dedicar-lhe “Praise of Folly”.

Como sabemos, More escreveu vários livros sendo o mais conhecido a “Utopia”. Este livro cria uma ilha imaginária com o seu Estado, sociedade e costumes. Alguns estudiosos acreditam que este livro trata-se de uma sátira à Europa do Século XVI. More escreveu mais livros, como “História de Ricardo III”, “Piedosa instrução”, “Díalogo de Conforto contra a Tribulação“, “Diálogo contra as heresias” e fez algumas traduções.

Apesar de se ter batido pelos seus ideais, e em última analise, ter morrido por causa deles, Thomas More não é uma personagem que reúna consenso. Os católicos adoram-no e o Papa Pio XI tornou-o Santo em 1935. Contudo, alguns estudiosos dizem que More era um fanático religioso, extremamente intolerante, que chegava a auto-flagelar-se. Sabe-se, efectivamente, que More conduziu e condenou à morte cerca de 6 pessoas acusadas de heresia assim como queimou e destruiu livros e obras relacionadas com o Protestantismo.

Mesmo não reunindo consenso, Sir Thomas More é uma figura que desperta grande curiosidade e por vezes, admiração. A peça “Sir Thomas More” de Anthony Munday, foi escrita a várias mãos e acredita-se que William Shakespeare tenha também participado na sua elaboração. Outra peça, agora do século XX, “A man for all seasons”, foi escrita por Robert Bolt e mostra More como o epíteto da Consciência e da integridade. Karl Zuchardt escreveu também outra peça sobre STM, intitulada “Stirb Du Narr!” (“Morre seu idiota”). O escritor católico G.K. Chesterton chegou a dizer que More foi a “greatest historical character in English history.” Muitas biografias foram escritas sobre Sir Thomas More, algumas acusando-o de ser intolerante, f
an
ático e pervertido, (como é o caso de escritores como Richard Marius  e Jasper Ridley) e outras mostravam-no como sendo um inteligente humanista, devoto que acreditava na necessidade de autoridade do Estado (de acordo com a biografia de Peter Ackroyd). O mais recente retrato de Thomas More é feito através da série “Tudors”, que se revela bastante simpática para com a personagem, chegando a colocar em dois extremos a integridade e a consciência de Sir Thomas More e a amoralidade de Henrique VIII.

Para bem ou para mal, a complexidade de More e a falta de consenso sobre esta personalidade histórica é o que o torna interessante. Um homem integro ou intolerante? Um fanático religioso, ou um crítico da sua própria Igreja? Um visionário ou um político autoritário? Um humanista ou um homem sedento de poder?

 

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Today is Churchill’s day

 

Em meados de 1940, Churchill e a Inglaterra estavam sozinhos. Hitler tinha, em poucos meses, invadido vários países. A França estava em ruínas e à beira do armistício, os Estados Unidos não cedia apoios, Rosevelt conspirava contra Churchill, Mussolini acabara de se juntar a Hitler e, para cúmulo, os britânicos tinham sido forçados a uma retirada humilhante em Dunquerque e Hitler preparava-se para invadir a Inglaterra.

 

Tudo corria mal.

 

Churchill percebeu então que as ilhas britânicas estavam em sério risco. O Primeiro-Ministro inglês, que tinha sido Ministro de Guerra, sabia que Inglaterra estava a correr sérios riscos de derrota. Abandonado por todos, sabia que a única esperança era a “Royal Navy”. A frota inglesa era considerada a mais poderosa do mundo, e ele sabia que a defesa da Grã-Bretanha e mais do que isso, a sua sobrevivência, dependiam directamente da sua Marinha.

 

A Inglaterra tinha assinado um tratado com a França que dizia que nenhum dos dois países podia render-se sem a aprovação do outro.

 

Quando Hitler invade a França e o Primeiro-Ministro francês se demite, o novo Governo decide rasgar o tratado que tinha feito com a Inglaterra e assinar o Armistício. No acordo que Hitler propõe ou impõe à França, diz que deixa o Sul de França desocupado, mas que a frota francesa tem que passar para as mãos dos alemães. Ao saber disto, Churchill fica aterrorizado.

Se os navios franceses passassem para a posse dos alemães, juntando ainda à frota alemã e italiana, a marinha inglesa, por muito poderosa que fosse, nunca conseguiria fazer frente ás outras três. Contudo, foi prometido a Churchill, pelo Almirante Darlan, que caso os alemães tentassem apoderar-se dos navios franceses, estes iriam ser destruídos antes de serem entregues aos alemães. Darlan deu a sua palavra.No entanto, Churchill, sentindo-se traído pelos franceses, não acreditou. Prepara então a “Operação Catapulta”, que consistia em mandar navios britânicos a todos os portos onde estavam atracados navios franceses e reclamar para os britânicos a entrega dos navios. Por qualquer meio que fosse. Isso aconteceu com os navios que estavam na costa inglesa, com os navios em Alexandria, e com os navios que estavam na Argélia, pois eram nestes locais que estavam atracados os principais navios da frota francesa. Os navios franceses situados na costa inglesa foram entregues aos ingleses com alguma retaliação o que acabou por matar três britânicos e um francês. Os navios na Alexandria foram entregues sem retaliações, mas o maior problema deu-se na Argélia, em Mers el Kébir. Era aqui que se encontram os maiores navios franceses, o Dunquerque, Provence e o Bretagne. Churchill dá ordens expressas ao Almirante Somerville, para entregar um ultimato ao almirante francês Gensoul, que era Almirante de um dos maiores navios que estavam em Mers el Kébir. Este ultimato dava aos franceses três opções: 1- acompanhem os britânicos, com os navios, para continuarem a lutar contra os alemães 2 – Dirijam-se a um porto britânico com a menor tripulação possível. 3- Ou então dirijam-se para algum porto francês nas Caraíbas ou para os Estados Unidos. Caso recusassem alguma destas opções, os britânicos não teriam outra hipótese senão atacar os navios.

Este ultimato provocou uma onda de indignação. Gensoul sentiu-se ofendido e transmitiu a situação a Darlan que, furioso, lhe disse para ele empatar até que reforços franceses chegassem a Mers el Kébir. Os ingleses interceptaram-se esta mensagem e Churchill percebe que não tem outra hipótese senão dizer a Somerville para abrir fogo. O que se segue é absolutamente terrível. Os marinheiros franceses foram encurralados no porto, e os ingleses abriram indiscriminadamente, fogo. Os que ainda há poucas semanas tinham sido seus aliados estavam agora a atacá-los. No documentário que passou na RTP 2 e que motivou este texto, há um relato arrepiante de um marinheiro francês que conta como viu os seus companheiros sem membros, a morreram queimados, implorando pela morte. A água, supostamente a única salvação, “fervilhava” como se fosse uma fritadeira, e ele próprio não teve outra hipótese senão saltar para a água arriscando-se também a morrer queimado. O navio em que estava, Bretagne afundou-se vinte segundos depois. Os navios Provence, Dunquerque e Mogador foram reparados, e dirigiram-se para Toulon. Morreram mais de 1200 franceses, sem contar com os que ficaram feridos.

Churchill ao saber das baixas sentiu-se fisicamente doente, como os relatos contam. Tinha ainda outro problema. Como é que ia justificar as suas acções perante a Câmara dos Comuns? No discurso que fez disse que não podia arriscar que a frota francesa passasse para as mãos dos alemães. No discurso que fez, chorou e a Câmara dos Comuns levantou-se para aplaudir. Todos aprovaram. A imprensa, os deputados, os ingleses, e finalmente, Rosevelt percebeu que Churchill e a Inglaterra nunca desistiriam. Nunca cederiam. E o Presidente americano acedeu finalmente aos pedidos de Churchill e começou a ajudar a Grã-Bretanha.

Meses depois, quando os alemães foram apoderar-se dos restantes navios franceses, Darlan cumpriu a sua promessa. Os marinheiros franceses afundaram ou incapacitaram os navios para que os alemães não pudessem apropriar-se deles. Em resultado disto, o Almirante Darlan, mandou uma carta a Churchill dizendo que era aquela a prova de que o ataque de Mars el Kébir tinha sido completamente despropositado.

Churchill disse a História o iria julgar. E julgou, sem dúvida. E a História foi bastante simpática. Há, contudo, algo que é semelhante a todas as grandes personagens históricas. Todas elas são complexas. Todas elas são contraditórias. Todas elas tiveram os seus maus momentos, os seus erros. Como devemos então decidir quem admiramos? Se vamos buscar inspiração à História e se quase ninguém na História é completamente Bom, se toda a gente na História cometeu erros, como decidimos que determinada pessoa deve ser idolatrada e admirada? Não decidimos. Pura e simplesmente aprendemos. Aprendemos e tiramos lições com os erros deles e inspiramo-nos com os seus feitos e com a sua coragem. É assim que deve ser.

Apresentação

E é este o meu primeiro post no blogue. Fui recentemente (e surpreendentemente) convidada para escrever no Aventar, um blogue que já conhecia e onde escrevem bloggers que respeito e de quem gosto.

Prometo pouco porque, admito, promessas não me agradam. Prometo apenas escrever sobre temas que me interessam e prometo colocar mal as vírgulas algo que nunca soube fazer. Espero vir a revelar-me como uma boa “contratação” assim com o Jorge Jesus foi para o Benfica.

Dito isto, resta-me agradecer aos que me endereçaram o convite e dizer apenas que nas eleições presidenciais já poderei finalmente votar.