Somos um país de mouras encantadas, o que é bonito. Infelizmente somos também o país de Manuela Moura Guedes. ” A moral não é uma coisa que me preocupe muito”, diz ela em entrevista ao DN, com chamada de capa. Já tínhamos reparado, digo eu.
Crato nobelizado
Vi tudo. Na Assembleia da República o ministro Nuno Crato enfrentava as questões postas pelos deputados da oposição (dos grupos parlamentares afectos ao governo só vieram débeis balbucios). E então, enquanto o ministro e respectivo secretário de estado tentavam navegar naquela tempestade, entendi o olhar dos premiados pelo Nobel da Medicina este ano. É que, quando se esperava que o padrão de actividade das células de posicionamento – “place cells” – do hipocampo viessem sobrepor-se à grelha celular abstracta – “greed cells”- permitindo aos sujeitos orientarem-se pelos marcos politicamente relevantes que a situação apresentava, tal não aconteceu. Esta interacção falhou e os dois políticos não obtiveram a expectável orientação, apresentando um comportamento entre o errático e o cataléptico.
“Portaram-se como baratas tontas, queres tu dizer!” – protestareis vós. E com razão, foi mesmo isso que aconteceu. Mas com linguagem neurológica premiada a coisa tem outra frescura, outro gabarito, reconheçam.
A dona de casa, o “idoso” e o jornal
O Público, em tempos idos, tinha directores que escreviam os Editoriais. Não eram grande coisa, é verdade – em muitos casos eram mesmo péssimos -, mas quem os escrevia assumia a responsabilidade. Depois, passaram a ser anónimos com a duvidosa pretensão de responsabilizar o jornal no seu todo, o que é o mesmo que não responsabilizar ninguém. É lá com eles. Mas nós, os viciados no jornal diário, sempre em busca de avatares de jornais honrados como o saudoso Diário de Lisboa, por exemplo, lá vamos tragando a nossa decepção quotidiana com O Público e o DN. Falo por mim, claro.
Hoje, no seu editorial, o Público, a propósito de uma dada personagem política emergente, escreve este naco: “…o excesso da personagem é fundamental para captar a dona de casa preocupada com o almoço ou o pensionista estarrecido com o crime que acabou de ler no seu tablóide favorito”. Assim mesmo. Os estereótipos e os preconceitos como os interiorizou o bronco editorialista, a quem nem ocorreu que o “pensionista” pode ter na mão precisamente o jornal em que ele publica estas idiotices e pensar: “nesta parte do tablóide ele tem razão; estou a ler o Público”. A actual “imprensa de referência” está repleta deste tipo de lixo. E este jornalismo é, de facto, algo parecido com um crime. E este pensionista só tem uma coisa a dizer a estes editorialistas: sois umas bestas.
É preciso ter lata
Sois vós a falar, Senhor Presidente? “Últimas décadas”, sabendo que ainda não completamos quatro após o 25 de Abril? Isto significa que admirais, senhor, as décadas anteriores a estas ou tentais excluir a década que governastes – mal, para mal de (quase) todos nós – na condição de primeiro ministro, no tempo em que ereis vivo?Tereis vós tido o topete de afirmar:
“os agentes políticos devem assumir, de uma vez por todas, uma cultura de responsabilidade e uma cultura de verdade”, em vez da “prática constante, sobretudo nas últimas décadas, [de] fazerem-se promessas e anunciarem-se medidas irrealistas com vista a conquistar o apoio dos cidadãos e o voto do eleitorado”.
Tendes uma distintíssima lata, concedo-vos. E uma absoluta falta de vergonha na cara.
Cratenstein
Nuno Crato, qual Victor Frankenstein em versão imbecil, não consegue enfrentar o monstro que criou. Mas também não quer. Em vez de ficar horrorizado com o resultado da sua obra, como aconteceu com o original, justifica-a, desculpa-a e, no cúmulo da estupidez, insiste em elogiá-la.
Mas ele que se cuide, não vá a “Criatura” virar-se contra o criador e, como acontece na história de Mary Shelley, atacar-lhe a amada que, no caso de Crato, é a sua posição, o seu cargo, a sua glória efémera junto dos patetas. E, finalmente, exterminar o seu próprio “pai”.
Bustos
Já cá faltavam as boas almas a desancarem o PCP, os Verdes e o BE pela oposição que aqueles partidos manifestaram à presença dos bustos dos “presidentes” nomeados por Salazar na exposição da Assembleia da República. Pois eu subscrevo o protesto daqueles deputados. E isso não tem nada a ver com o “apagar da história” com que tanto se preocupam alguns.
Deixando de lado o facto de a exposição de bustos ter sempre associada a ideia de homenagem – dou de barato que não será esse o caso – a questão é de saber se o tempo que vivemos é a 2ª ou a 3ª República, ou seja, se o período fascista foi uma fase da República Portuguesa. Se esse regime se plasma numa “res-publica”, coisa do povo, coisa pública. Na minha modesta opinião, não. Logo, é totalmente desadequado classificar os três títeres fascistas como “presidentes da república”, já que tal república não existia. Não podemos ficar reféns da dicotomia república-monarquia. Diria mesmo, talvez para escândalo de alguns, que a monarquia constitucional em Portugal teve momentos mais próximos dos valores republicanos que o Salazarismo.
Explicação aos Músicos
Hoje, no Dia Mundial da Música, acompanhamos as notícias que dão conta das políticas insensíveis e boçais de que são vítimas os Conservatórios deste país. E se a proximidade e os afectos me fazem lamentar, desde logo, a situação no Conservatório de Coimbra, o que vejo e ouço faz-me solidário com todos os que sofrem idênticos ataques. Um governo que, ostentando a perversidade dos estúpidos aliada à persistência bronca dos obcecados, nem sequer consegue fingir a ilustração com que outras direitas poliam os seus desvarios, levanta-nos a inevitável pergunta sobre as razões de tanta cegueira. O Vate, da lonjura dos tempos, explica-nos:
O homem que não tem a música dentro de si e que não se emociona com um concerto de doces acordes é capaz de traições, conjuras e rapinas.
(William Shakespeare)
É o caso.
Critérios
Vi tudo. A bem dizer, vi várias vezes. Sempre que liguei para o telejornal. A história é emocionante e fundamental para a felicidade pública. É, também, a prova de que os que dizem que as televisões estão entregues aos bichos não têm razão; são uns exagerados.
Ora vejam: Fernando Santos dirige-se à sede da Federação Portuguesa de Futebol – e a câmara está lá! Filma as mãos e o rosto desta importante personagem. O engenheiro conduz o carro e as imagens testemunham esse facto. Somos informados de que a viagem demorou cerca de cinco minutos. Cinco minutos! É fundamental, como diria o Vasco Santana. Chegado o ilustre viajante, o que faz? Bebe uma bica! E a câmara bebe-a com ele. Cada golinho, em grande plano, ligeiramente contre-plongée. Somos esclarecidos, entusiasticamente, que o novo seleccionador aproveitou esse momento para ver algumas notícias na televisão.
Mas não era tudo. Não. Seguidamente, o importante novo protagonista da bola nacional foi – nada menos, oh, concidadãos – provar um fato novo e ajustar as medidas do dito. O fato oficial! Aproveitou o telejornal para mostrar que também alguns secundários desta história tiveram fato novo – e tudo isto as câmaras e a voz comovida do relator acompanharam! – mostrando que a FPF é uma mãos largas. Fiquei feliz por tão bem informado. E por constatar, mais uma vez, que a nossa comunicação social – neste caso a televisiva – continua a ter a plena noção do que é realmente importante.
O elogio
O porta voz do governo – um tal Luís Marques Guedes, se não erro – hoje, em conferência de imprensa, verberou severamente a CGTP por não querer assinar o “acordo” do salário mínimo e, pertencendo à “concertação social”, criticar sistematicamente os amorosos entendimentos entre patrões, governo e UGT.
Ena! Começar o dia recebendo um elogio destes, Arménio! Boa continuação.
SG, UGT (II)
Carlos Silva, secretário geral da UGT, garantiu-nos a todos que o aumento do salário mínimo “era pouco, mas era um sinal”. Um sinal?! Fiquei em pulgas para saber se o líder sindical tinha tido, em êxtase místico, uma revelação, se era mais um vislumbre obtido nas artes de bruxaria, se se trata de uma complexa operação de física quântica ou se, mais prosaicamente, o sinal é coisa do foro dermatológico.. Por favor, Carlos Silva, não nos deixe nesta dúvida!…
SG, UGT
O secretário geral da UGT veio esclarecer-nos do feliz facto de um trabalhador brindado com o aumento de salário mínimo poder agora pagar uma explicação ao seu filho. Uma. É mais ou menos o mesmo que dizer-lhe que pode comprar uma colcha de chita para a sua cama estilo Luís XIV
Mínimo, mesmo
É sempre a tal história: vem um e do seu optimismo retira que o copo está meio cheio; outro dirá, a partir do seu pessimismo, que o copo está meio vazio. Raramente se dá a merecida consideração ao que, usando a sua razão, diz que o problema é o copo ter o tamanho desadequado. É o que se está a passar com o salário mínimo. Uns dizem que um pequeno aumento é uma festa e um grande favor do patronato (raramente o reclamam com vitória). Outros reafirmam que isto é demais e as empresas não aguentam. E ambos atacam agressivamente os que, quanto a mim com razão e bons argumentos, defendem que o aumento é desadequado, por ser insuficiente.
Dificuldade do conceito
Previsões
O governo atirou-se ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) por considerar – tal como já tinha feito um ilustre vereador da Câmara de Lisboa – que este não foi suficientemente preciso na sua previsão meteorológica para hoje. Depois de ouvir de um assessor a explicação sobre o que é o IPMA e o significado da palavra meteorologia, Passos Coelho mandou abrir concurso para que as previsões do tempo passassem a ser feitas em outsourcing. Já foram contactados para o efeitos o Prof. Karamba, a bruxa Maya, Marques Mendes e outros peritos em adivinhação com chá, borras de café, entranhas de animais, tarot, búzios, cartas de bisca lambida e outros métodos verdadeiramente científicos.
Segundo fontes geralmente bem informadas, o 1º ministro atribuiu as culpas do alegado erro do IPMA aos malefícios de uma tal “salsicha educativa”, conceito, ao que nos dizem, de uma complexidade só ao alcance de mentes superiores como a do sr. presidente do concelho. As mesmas fontes sublinharam ainda a preocupação deste alto magistrado da Nação pelo facto de um colega de governo lhe ter dito – com uma cordial palmada no ombro – “ó Pedro, nos discursos, cada vez estás mais conselheiro Acácio”. Não tendo a certeza de que se tratasse de um elogio – o tal colega é um bocado graçolas e tem a mania que é esperto -, Passos Coelho quer saber quem é esse tal Acácio. Mas nenhum assessor parece capaz de o informar, fugindo dele com caretas esquisitas e expressões de uma estranha pressa.
Escócia e o lobo mau
Não, não tenho a certeza de qual é a melhor escolha para os escoceses. A complexidade da questão e a ausência de propostas de caminhos e opções políticas para além da independência pura e simples levam-me a reservar entusiasmos e suspender a opinião, até por não dominar grande parte das variáveis em jogo. Além do mais, tenho as maiores reservas sobre o referendo como instrumento de deliberação democrática – por razões que podemos discutir noutro lugar e em diferentes condições.
Mas coisa bem diferente é não reconhecer o direito dos escoceses tomarem a sua decisão sem ameaças torpes vindas do poder – de todos os partidos parlamentares – político e económico inglês. Tais ameaças vêm de todo o lado. Até a União Europeia já resmunga ameaças. Mesmo Platini e a merdosa UEFA se sentem no direito de ameaçar! Os últimos dias têm sido um compêndio da arte de fazer uma campanha suja. [Read more…]
Eu assumo, tu assumes
Uma das mais caricatas patologias políticas de que sofrem os nossos governantes é a “assumoaresponsabilidadite”, consistindo esta maleita no pundonoroso hábito de os ministros assumirem, com empáfia, responsabilidade sobre coisas que toda a gente sabe serem efectivamente da sua – deles – responsabilidade. Normalmente isso só acontece quando tal é tão evidente que, calculando vantagens e prejuízos, é melhor botar figura de franqueza. Ou quando o mandante que lhes dá corda – no caso, geralmente, o 1º ministro.
Hoje assistimos a duas dessas cenas. A ministra da justiça assumiu uma responsabilidade que todos sabemos ser sua; até pediu desculpa em tom de quem ralha aos destinatários. O Crato, na Assembleia da Republica, ensaiou coisa parecida naquele seu jeito atarantado de quem parece ter alguma coisa para dizer mas não sabe como. Há, até, assunções de responsabilidade que podem valer, como prémio, belos tachos – a presidência de uma grande empresa de construções, por exemplo. Termino dentro deste espírito, anunciando que assumo a responsabilidade pelas palavras que acabo de escrever.
O Crato

O Crato! Conheci-o, sabes, Horácio? – desculpem, mas não resisti a polir-me neste tom shakespeariano. Era um eloquente comentador naquele programa em que o Crespo e mais três economistas – sim, o Crato é economista, tendo feito uma pós-graduação em matemática; que querem, ninguém é perfeito – botavam sentença uma coisa chamada, se não estou em erro, “plano inclinado”.
E era vê-los, todos lampeiros, discorrendo sobre o facto de, com excepção dos presentes no programa, os portugueses serem todos, em maior ou menor grau, oligofrénicos.
Eles não usavam muito aquilo que se designa por argumentos. A sua retórica era mais próxima do que, na velha terminologia coimbrã, se chama – com vossa licença – caga-tacos. Jogando todos em casa e sem grande risco de contraditório, Crato, Medina e Duque pareciam, aos ingénuos, saber do que falavam e havia até quem pensasse que tais figurões eram pessoas sérias. Agora que vemos Crato com a responsabilidade do Ministério da Educação e (os deuses nos valham!) da Ciência, não no cargo – ao seu alcance, penso – de porteiro, mas no cargo de ministro, espantamo-nos com o seu desempenho no Parlamento. Perdido no labirinto da sua própria incompetência. Intelectualmente trôpego, pouco informado, não-sei-se-vá-se- venha, incapaz de defender os pontos de vista que, acreditavam alguns, possuía.
Eis Crato, em quem luz algum talento. Só não conseguimos vislumbrar qual.
Vai um tirinho, freguês?
Pronto. Nós não nos queremos meter na vida interna do PS, mas não há como ficar calado perante a provocação pública de António José Seguro.
É que levo a sério – e levo a mal! – a proposta de redução de deputados da Assembleia da República para 181. O demagógico embrulho com que é apresentada não esconde o seu conteúdo essencial: diminuir a representatividade regional, atacar a força parlamentar dos partidos à esquerda do PS, reduzir a proporcionalidade, forçar o “voto útil” dos incautos. Como o proponente quer esta alteração legislativa antes das próximas eleições legislativas – isto é novidade! -, propõe-se fazê-la de braço dado com o PSD e Passos Coelho. Como a prostituta que procura aliciar o cliente mostrando a perna, Seguro oferece ao PSD o extermínio eleitoral do CDS. Revoltante.
Contentores

Você é ministro da saúde, fez uma reorganização de serviços, fechou Centros de Saúde e Hospitais e agora descobre que os sítios para onde os deslocou não têm condições? Não há problema. Permita-me que sugira uns contentores. Você é ministra da justiça, reorganizou o mapa judicial, fechou tribunais, deslocou pessoal, fez, numa palavra, uma daquelas “reformas estruturais” e agora não há edifícios para alojar os resultados da sua ousadia reformista? Não há problema. Sugiro uns contentores.
Você é ministro da educação, fechou escolas, reorganizou, empandeirou serviços e agora não tem onde meter alunos, professores, funcionários, recursos? Não há problema. Nada como uns contentores. Você é ministro dos assuntos sociais e não tem estruturas de apoio para disfarçar a miséria que você e os seus colegas andam a espalhar? Não há problema. Sugiro uns contentores.
Você é cidadão, o seu governo esfarrapou-lhe a vida, sente-se roubado, agredido, traído e tem vontade de se atirar a tal governo mas não sabe o que fazer aos patifes que o compõem? Não há problema. Permita-me que sugira uns contentores…
Comemoração mediática
Comemorando os 35 anos do Serviço Nacional de Saúde, a RTP2 não encontrou melhor destaque que fazer uma extensa entrevista ao seu maior inimigo, Artur Osório Araújo, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada. A banha da cobra foi vendida sem vergonha nem a mais pequena sombra de rigor ou decência. Ficamos a saber o que vem aí para abocanhar os restos do BES Saúde e ferrar o dente na jugular do SNS. Mais tarde, a RTP tentou disfarçar o golpe e, assim, José Manuel Silva teve direito a duas ou três perguntas “a despachar”a que, felizmente e como era de esperar, respondeu rigorosa e certeiramente. Preparem-se, que isto agora é a sério. (Nem falo aqui nas discretas e envergonhadas comemorações governamentais; só faltou pedirem desculpa aos donos por ainda não terem feito o serviço de destruição completo).
Pequenos e médios trafulhas
Maria de Lurdes Rodrigues foi condenada. Por alegado crime insignificante (embora importe que se vá acumulando jurisprudência sobre casos que tais), comparado com o mal irremediável que fez no ministério que tutelou. As próprias palavras por si proferidas à saída do Tribunal ( “Nunca tinha entrado num tribunal. Estou muito mal impressionada com aquilo que aqui vi”) mostram a distância a que esta gente está dos problemas reais de que sofre o país, que governaram de modo, como diz a lei, “solidariamente responsável”.
Ela e o seu herdeiro espiritual Nuno Crato conseguiram um desolador efeito de devastação no sistema de ensino com o qual parecem ter uma relação no limite do patológico. Para lá de todos os problemas já conhecidos, hoje multiplicaram-se as notícias de escolas – algumas novas! – que vão encerrar, embora algumas tenham mais de quarenta alunos. Já não há limites para a barbaridade. No fim, restam condenações por pequenas e médias aldrabices, favorecimentos, tráfico de influências. Mas o mal pesado que foi e continua a ser feito ficará sem outra resposta que as anémicas reacções eleitorais. Só os crentes ficarão descansados, já que acreditam – como uma pessoa com quem falei hoje – que Deus ajustará as contas depois. Chamam a isto esperança de justiça. Eu, com o devido respeito, chamo alienação. Nisto, eles são mais felizes. Mas também mais disponíveis para ser enganados de novo.
Franchsing – o renascer do velho cabeça de ovo!

Isto ia acontecer um dia. Depois das desvairadas recriações de famosas personagens literárias em filmes e séries de televisão, por vezes com recursos cénicos delirantes ou anacronismos patuscos – eventualmente com resultados interessantes, diga-se -, chegou-se ao puro gangsterismo editorial.
Um descendente/herdeiro de Agatha Christie, decidiu – e pode! – fazer negócio com uma escritora inglesa, à qual vendeu o direito de “continuar” a obra da mestra do policial, nomeadamente ressuscitando a figura de Poirot que vai, assim, continuar a exercitar “his little grey cells”. Isto é, Poirot é um franchising! Como asas de frango, cachorros quentes, hambúrgueres. Aposto que o pobre Hastings vai ser substituído por uma capitosa loira cheia de truques e o brioso chief inspector Japp por algum mutante especialista em artes marciais.
Mas o herdeiro e a autora estão felizes, que eu vi. Já lançaram o livro. E em vários países simultaneamente. Ousam declarar que vão continuar a obra de Agatha Christie e já prometem uma sequela. Se isto faz escola, vai ser o bom e o bonito. Estou a ver algum descendente de Proust autorizar um Em Gozo do Tempo Encontrado. De Eça poderá sair Padre Amaro II: o Gay ou A Reliquia II – o Regresso a Jerusalém. De Camilo, Amor de Perdição – Mariana Sabia Nadar!. E nem quero pensar nos heterónimos que Pessoa pode vir a ganhar. Para não falar na publicação de um Azul e Verde, que continuará, em variação cromática, Stendhal, ou na mina que seria continuar a obra de um velho moralista como Sade. E por aí fora. Tremei, escritores vivos! Um qualquer bisneto desusado pode continuar-vos. A possibilidades são infinitas. Basta arranjar um descendente/herdeiro com o adequado perfil de chulo.
E você? aumentava os impostos?
Os actos de banditismo político em que consistem os saques – pomposamente designados por “cortes na despesa” – dos vencimentos dos funcionários públicos e das reformas dos aposentados, espécie criminosa de imposto dirigido a grupos específicos e, por isso, ilegal, estiveram, curiosamente, ausentes do debate entre os candidatos à liderança do PS. Isto percebe-se e pelas piores razões.
Sei que é injusto para muitos dos melhores portugueses dizê-lo, mas a verdade é que tais esbulhos têm apoio popular e dão votos. É que a soma dos espoliados por estes meios não chega a 10% do eleitorado. Os restantes pensarão – que as muitas excepções me perdoem – que enquanto os predadores estiverem a atacar os servidores públicos e os reformados, não lhes aumentam a eles os impostos. Isto explica que a questão fiscal seja a pérola de todos os debates. Até deste. A palavra de ordem é: “touche pas mon IRS“.
Os meninos querem brincar às guerras
Carlos Zorrinho fez hoje a mais miserável das declarações sobre as vantagens do aumento do esforço militar na Europa – com correspondente agravamento orçamental em cada país -, considerando que tal situação fará esquecer a crise, com sempre acontece quando tem de se defender “um bem maior”.
Isto, a que se podem juntar os entusiasmos belicistas tão frequentes em quem nunca ouviu um tiro e se sente, por assim dizer, entediado com tanta paz, faz-me corar de raiva e lembra-me uma velha canção de caserna dos tempos da guerra colonial, dedicada aos que, no conforto do ar condicionado, davam ordens imbecis aos que estavam no terreno: “ora vai p’rá mata, ó meu malandro, por tua causa é que eu aqui ando…”.
Isto faz-me sonhar com a cena de uma fileira de engravatadinhos e sortidos entusiastas na prosteridade das industrias militares – encabeçados por Barroso, o gangster sec. da NATO, Obama, Cameron, Coelho… enfim, todos esses broncos, prontos para o combate à cabeça das suas tropas – ou “à cabeça da manada”, como canta o fado. A imaginação não tem limites. Aparentemente, a estupidez também não. Por isso, estes crápulas terão quem os apoie. É fatal.
“L’état c’est moi”
A ministra das finanças (porque será que resistimos tanto a gastar maiúsculas com esta gente?) veio hoje anunciar, depois de intimar o ensino superior (não aquele que ela frequentou; o outro, o propriamente dito) a “fazer mais e melhor com menos”, resolveu estender esta determinação a todas as áreas do estado e da governação e, entusiasmada com a sua própria ousadia, intimou todos os ministros a seguir o rumo por ela estabelecido.
Até disse umas gracinhas, o que convém nestas alturas, não vá o pagode pensar que a mulher não é humana e sim uma espécie de bruxa má do Oeste.
Garganta funda
Confesso: quando ouço as “análises” de Marques Mendes, eivadas da sua irreprimível vocação de bufo, nasce em mim uma náusea que, tenho a certeza, é tão ampla que se deixa partilhar por gente muito diversa, podendo chegar a incluir os próprios governantes. Uma bosta é uma bosta, seja quem for que a olhe e cheire. As declarações sobre a venda do Novo Banco ( “ao que pude apurar”, como costuma bolsar a criatura enquanto agita a breve pata, de dedos abertos, sobre a mesa) fazem-me lembrar as possibilidades pedagógicas de umas boas e camilianas bengaladas. Pensar isto eu, que sou um homem de paz!…
“O PSD é um partido de justiça social”
– afirmou, na “Universidade” de Verão do dito partido, Leonor Beleza. Gostava de ter alguma coisa a dizer sobre esta declaração, mas fiquei ágrafo e mudo de espanto. Assim, humildemente, aqui a deixo para que brilhe em todo o seu esplendor.
“Politicamente incorrecto”? seja…
Depois de ter falhado a tentativa de pôr os ucranianos a escolher em referendo se preferiam o imperialismo americano ou o russo, as forças “ocidentais” resolveram forçá-los de modo vário. Quando patrocinaram um governo golpista com a participação de confessos nazis, sabiam (saberiam?) qual seria resposta da terra dos heróis.
Uso estas palavras sem receio de exagero. Há muitos anos, quando estive na Ucrânia vi o que qualquer observador minimamente atento veria: a(s) diversidade(s) dessa república. A oeste, com forte presença católica (sobretudo junto à fronteira polaca) e uma história que envolveu manchas de colaboração com o nazismo; a leste um verdadeiro culto aos mártires e heróis da Grande Guerra Pátria (segunda Grande Guerra). Não admira, pois a extraordinária resistência destas populações perante o avanço das hostes nazis deixou um rasto de morte ( a maior chacina num só país na II Grande Guerra) e de feitos de coragem que ainda hoje são venerados com respeito, o que é patente nos muitos monumentos e memoriais que lembram estes eventos. [Read more…]
Abriu a época da caça
Abriu a época de caça. Aos patos, aos coelhos, às rolas, aos pombos e mesmo a alguns animais em vias de extinção, como os funcionários públicos.
“Estes calendários, têm como objectivo indicar aos caçadores quais as espécies que podem ser capturadas, o período em que a caça pode ser exercida, o número de peças que podem ser abatidas e os locais onde a caça é permitida”, dizem os jornais. Confere. De resto, quanto às espécies classificáveis como “funcionários públicos”, raramente os períodos de defeso são respeitados, sendo frequente a caça furtiva. Mas agora é oficial. [Read more…]








Recent Comments