Desacordo Técnico: o exemplo

Os  estudantes do Instituto Superior Técnico dão o exemplo.

«A Assembleia de Escola do Instituto Superior Técnico, um órgão consultivo ao qual compete dar parecer acerca de todas as matérias de interesse relevante para a vida da escola, aprovou hoje — com 19 votos a favor, 5 contra e 7 abstenções — a inclusão da discussão de um parecer pela revogação do Acordo Ortográfico na ordem de trabalhos da próxima reunião. Todos os representantes dos alunos presentes votaram a favor»
Movimento para a Revogação do Acordo Ortográfico no Instituto Superior Técnico, 8/5/2012
https://www.facebook.com/desacordotecnico

Acordo Ortográfico: constrangimentos, insuficiências e implicações negativas

Há uns anos, dizia Gell-Mann que quando alguém dava a conhecer a Einstein (para quem não souber, um homem que lia e que estudava) uma teoria contrária à TRR este retorquia:  “Aw, that’ll go away”.

Em Portugal, o Poder continua sem ler e sem estudar o Acordo Ortográfico, mas a achar, com uma falsa segurança einsteiniana, que a nuvem há-de passar e que quem lê e estuda se calará, para que todos continuemos na nossa vidinha, com paz e com sossego. Desengane-se o Poder e desenganem-se todos aqueles que assim pensam. Enquanto houver estudo e enquanto o estudo não for devidamente considerado, não haverá nem paz, nem sossego. [Read more…]

Grandes títulos

ASAE deteta ‘dumping’ em 3 produtos

O desacordo ortográfico afinal tem piada.

NO PÚBLICO DE HOJE

No PÚBLICO de hoje. Boa leitura.

Os nomes dos meses: Abril na CPLP
Por Francisco Miguel Valada

Francisco José Viegas leu a Declaração de Luanda?

«O facto de [o Acordo Ortográfico] ser irreversível não quer dizer que não seja corrigível»

– Francisco José Viegas, “Correio da Manhã”, 30/10/2011 [Read more…]

Ligeira espreguiça ortográfica

Enquanto me vou divertindo com a raiva seven-up que se despeja sobre a minudência conhecida por acordo ortográfico, feita na maior parte dos casos por quem não tem a mínima ideia do tempo em que vive e se pensa ainda aristocrático dono da escrita, e me mantenho preguiçosamente com um único artiguito aqui deixado sobre a reforma ortográfica que há-de vir, recolhi este carta de um leitor que o Público publicou por estes dias, maltratada no título, e guardada no canto onde por ali se despeja o bom senso:

Acordo Ortográfico devia ter simplificado mais

Intriga-me a sanha anti-Acordo Ortográfico (AO) que o Público não se cansa de difundir. Também sou contra, mas não pelas razões apresentadas que se fundam essencialmente na tradição, no saudosismo, na etimologia.

Tentam ridicularizar a eliminação das consoantes mudas que ajudam a abrir a vogal anterior. Ora há numerosas palavras em que tal não se verifica (actriz, actual, actividade, etc.). Acabo de ler a carta de um leitor alarmado com e eliminação da consoante muda em “ótica” por poder ocasionar confusões que levem a operar aos ouvidos quem sofre de cataratas… [Read more…]

Pergunta d’o Diabo (10.4.2012)

Ortografia deficiente e carente de revisão

artigo de António Emiliano no Público de hoje é uma exemplar demonstração da imperiosa necessidade duma suspensão imediata do Acordo Ortográfico de 1990. Repito: imediata.

“O facto de o AO não concitar qualquer consenso nem contribuir para unificar seja o que for é razão suficiente para, no mínimo, se suspender a sua aplicação e fazer respeitar a Constituição (que protege explicitamente a qualidade do ensino e o uso da língua nacional) e a Lei de Bases do Património Cultural (pela qual a língua, “fundamento da soberania nacional, é um elemento essencial do património cultural português”

– António Emiliano, “A CPLP e a consagração do desacordo ortográfico”, PÚBLICO, 19 de Abril de 2012.

O vómito e a revolta

«Quando num tratado internacional supostamente escrito em PORTUGUÊS (“unificado” — assinado por um governo português, aprovado por um parlamento português e ratificado por um presidente português — se lê, como lá em cima no número 7 da Base X, uma monstruosidade como “as formas rizotónicas/rizotônicas acentuadas fónica/fônica e graficamente” a única reacção possível é o vómito e a revolta»
António Emiliano, 16/4/2012

http://issuu.com/roquedias/docs/ae_nota_xlix/1

A CPLP, Abril, o sector e o setor

A Resolução sobre a Situação na Guiné-Bissau, ontem aprovada pelo Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), será sempre lembrada como uma referência quer da crónica inaplicabilidade do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), quer do conceito de heterografia que lhe está associado, quer da precipitação em aplicar-se algo que a própria CPLP assumiu há poucos dias precisar de “diagnóstico relativo aos constrangimentos e estrangulamentos na aplicação” e de posterior “ajustamento”. [Read more…]

Jornalismo para duros

Jornalismo pára duros? De certeza? Quem são os duros que o jornalismo pára? Por que motivo devem os duros ser parados? Quem pára os duros? O jornalismo? Que duros há para parar? Aqueles? Pára quem, o quê e para quê? Pára? Para?

http://bit.ly/HHxKK

Acordo Ortográfico: uma pergunta de António Emiliano

No Público de ontem, António Emiliano responde a um desafio do jornal, fazendo uma pergunta a Francisco José Viegas:

O Acordo Ortográfico [AO], feito há 22 anos, recebeu pareceres técnicos muito negativos e só dois membros da CPLP o aplicam de facto. Portugal subscreveu a declaração de Luanda de 30/03/2012 que diz que o AO produz constrangimentos no processo de ensino e aprendizagem e deve ser revisto (em prazo indeterminado). Não se deveria suspender imediatamente o AO nas escolas e nas instituições do Estado? [Read more…]

Acordo Ortográfico: uma carta que é de Homem!

A carta que Madalena Homem Cardoso dirigiu ao Ministro da Educação arrisca-se a ficar para a história do combate ao Acordo Ortográfico como um documento fundamental. É uma exposição completíssima e rigorosíssima das várias deficiências do Acordo Ortográfico, incluindo referências a aspectos pedagógicos, jurídicos e linguísticos.

Mais uma vez, seria importante que todos os que se interessarem pelo assunto lessem com a devida atenção o texto de uma cidadã responsável e informada. Os interessados em secundar Madalena Homem Cardoso podem fazê-lo aqui.

Acordo Ortográfico: o que nasce torto nem a CPLP endireita

No dia 30 de Março, os Ministros da Educação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) reuniram-se e, entre outros assuntos, abordaram, também, a questão do Acordo Ortográfico de 1990. A Declaração Final pode ser lida aqui.

O primeiro aspecto a merecer destaque é o facto de o texto respeitar a ortografia portuguesa de 1945, talvez por vontade das representações angolana e moçambicana.

No que respeita à secção relativa à questão ortográfica, para além de declarações vagas sobre a “promoção e defesa da Língua Portuguesa no espaço da CPLP e no Mundo”, os presentes reconheceram que a “aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 no processo de ensino e aprendizagem revelou a existência de constrangimentos que podem, no futuro, dificultar a boa aplicação do Acordo”. [Read more…]

Acordo Ortográfico: Vasco Graça Moura em entrevista a “O Globo”

Não nutro simpatia por Vasco Graça Moura, porque sempre me provocou repulsa a defesa cega de homens ditos providenciais ou a vivência da política como mera paixão clubística, pecados, quanto a mim, cometidos pelo poeta e tradutor nos anos oitenta, como defensor feroz que foi do cavaquismo, um dos muitos períodos negativos da democracia portuguesa.

Nada disso me impediu de lhe reconhecer mérito como praticante e estudioso da língua e da literatura portuguesas. Nesta entrevista, Vasco Graça Moura tem o condão de sintetizar as principais críticas que merece o Acordo Ortográfico, usando, com propriedade, argumentos linguísticos e jurídicos. A ler, portanto, sem leviandade e sem preconceitos.

“O Acordo Ortográfico é uma merda!”

Gostava de ter sido eu a inventar esta frase, mas a sua autoria pertence ao hoje falecido Millôr Fernandes, um dos grandes cultores da língua portuguesa, homem cultíssimo, amigo de Raúl Solnado, humorista de tal modo universal que pode ser tão citado como Oscar Wilde. Como se isso não bastasse, era um brasileiro com a lucidez suficiente para saber que os falantes e os escritores da lusofonia sabem ouvir-se e ler-se uns aos outros e que, portanto, o lugar de um monte de merda não é no meio da ortografia.

Uma defesa acaciana do Acordo Ortográfico

No meio dos seus muitos afazeres, o deputado Acácio Pinto, do Partido Socialista, resolveu, também, defender o Acordo Ortográfico. O texto, publicado no Diário de Notícias, está replicado aqui. Passo a parafrasear e a comentar.

O Acordo, na opinião de Acácio Pinto, é bom porque foi aprovado pela esmagadora maioria dos deputados da Assembleia da República, contrariando uma esmagadora maioria de pareceres negativos e de críticas vindas dos especialistas. Fraco argumento: não é novidade que os deputados decidam contra a opinião dos especialistas e, muitas vezes, contra o mais elementar bom senso.

Depois, o Acordo é virtuoso, porque permitirá que haja uma grafia comum na CPLP, o que não é verdade, pois continua a não haver uma grafia comum. Quanto às novas oportunidades da edição em português, ficamos à espera que Acácio Pinto mostre os estudos de mercado que provam isso ou o contrário. Caso existisse uma ortografia comum, não duvido de que houvesse um festim para as editoras brasileiras. [Read more…]

Viriato Teles e o Acordo Ortográfico: todas as letras do afecto

Viriato Teles é um homem das palavras, vivendo delas e por elas. Li-o, durante anos, nos saudosos Se7e e n’ O Jornal, numa altura em que eu já sonhava ser jornalista e pude invejar-lhe o privilégio  de contactar pessoalmente com monstros fundamentais da cultura portuguesa, como, por exemplo, Zeca Afonso ou Fausto. Continuo a lê-lo no seu site, onde arquiva e publica muito daquilo que escreveu ou escreve.

Mais recentemente, deleitei-me com este texto, em que explica as razões da sua afeição pelas letras que o Acordo Ortográfico quer suprimir. Não se trata, no entanto, de um texto meramente afectivo, o que seria legítimo porém insuficiente. É um conjunto de argumentos, construído por quem conhece as palavras de que vive.

Fernando Paulo Baptista sobre o Acordo Ortográfico: a etimologia é o futuro

Uma das censuras recorrentes  dirigida aos que criticam o Acordo Ortográfico é a de estarem prisioneiros da etimologia, ciência que, para os que a desprezam, cheira a bafio e a corredores cheios de humidade e que deveria estar exposta num museu, ao lado das caixas de rapé e das retortas de alquimista.

Fernando Paulo Baptista é, entre outras coisas, licenciado em Filologia Clássica. Sobre o Acordo Ortográfico, teve palavras judiciosas que podem ser lidas aqui.

Muitos vêem no Acordo Ortográfico a garantia da sobrevivência da língua portuguesa. Fernando Paulo Baptista, no entanto, especialmente no que se refere à perda das consoantes mudas e ao consequente afastamento da etimologia, chama a atenção para o facto de que isso vai provocar a diminuição da “qualidade competitiva e sobretudo dialogal, dialógica, com as outras línguas que mantêm a raiz [latina]”, criticando aquilo a que chama, com propriedade, “ditadura fonética”.

Imagine-se, a título de exemplo, a dificuldade que sentirão um inglês ou um francês em relacionar “actuality” ou “actualité” com “atualidade”, multiplique-se o exemplo e será possível descobrir que, afinal, o futuro está no passado, ou seja, na etimologia, naquilo que nos une, portanto.

Letra O – Ônibus

O Acordo Brasileiro da Língua Portuguesa já entrou em força nas escolas primárias…
E como explica um pai a um filho que “ônibus” não existe, é uma palavra de outro país? 

Acordo Ortográfico: a opinião de Maria José Abranches

Aqui, é possível ler-se um currículo resumido de Maria José Abranches, para além de um texto em que explica a sua oposição ao Acordo Ortográfico. Mais recentemente, enviou esta mensagem de correio electrónico a uma rádio francesa em que o AO foi tema: o programa intitulava-se “La réforme de l’ortographe passe mal”. O texto de Maria José Abranches está carregado de informação rigorosa e merece ser lido por quem queira, verdadeiramente, informar-se sobre o tema. Deixo aqui uma citação lapidar acerca da supressão das chamadas consoantes mudas: “L’adoption de ce changement défigure notre langue, lui retire de l’intelligibilité, nous éloigne des autres langues européennes et, surtout, entraînera des changements phonétiques inévitables.” 

Acordo Ortográfico: Juiz condena leviandade

aqui tinha feito referência a uma decisão de um juiz de Viana do Castelo que encontrei aqui. O mesmo juiz aparece agora identificado nesta notícia.

A clarividência e a frontalidade do juiz Rui Estrela Oliveira são evidentes e é fácil perceber cada um dos três motivos que apresenta para ter emitido uma ordem de serviço a impedir a aplicação do Acordo Ortográfico no segundo Juízo Civil do tribunal de Viana do Castelo.

Embora o próprio qualifique esta situação como “uma questão eminentemente jurídica”, não posso deixar de realçar um dos pormenores contidos nesta crítica: “Se há campo onde há mais mudanças, na intensidade de utilização de certas palavras, é no Direito. Pode provocar, com o mesmo texto, um sentido totalmente diferente. Isto nunca foi pensado nem acautelado de nenhum modo. Juridicamente é muito importante o que se diz e o modo como se diz.” Eu diria que este problema se estende a muitos outros campos. Para além disso, mesmo sem ser essa a sua intenção, Rui Estrela Oliveira põe o dedo numa ferida que continua em carne viva: o AO foi imposto com a habitual leviandade portuguesa que prescinde de verdadeiros estudos.

Este é o país em que o estudo e a argumentação, aliás, estão extintos há muito: reformas curriculares são inventadas porque sim, alteram-se PDMs porque é fundamental, constrói-se uma barragem em cima de património histórico porque está decidido,  esmagam-se os cidadãos com austeridade porque é inevitável e impõe-se um acordo ortográfico porque certamente.

Acordo Ortográfico não entrou na ordem jurídica portuguesa

É o que diz este documento assinado por um Juiz. Já tive ocasião de afirmar que as questões jurídicas, face às enormidades linguísticas do AO90, são para mim, leigo em questões de Direito, pouco importantes, mas a verdade é que tudo indica que existem, também, problemas legais que, tal como os linguísticos, continuam sem resposta.

Nada disto é de admirar, num país em que os feudos partidários ou algumas quintas universitárias se dispensam do dever de reflectir e de explicar, preferindo impor, mesmo contra factos e argumentos e, pelos vistos, ao arrepio da legalidade.

Acordo Ortográfico: a Associação de Professores de Português explica

A imagem acima reproduzida foi retirada da página da Associação de Professores de Português (APP). Neste momento, mantêm-se os erros assinalados, como se pode confirmar, porque escrever segundo diferentes acordos ortográficos só pode ser considerado erro.

Trata-se do anúncio de uma acção de formação da responsabilidade de Edviges Ferreira e Paulo Feytor Pinto, a actual e o antigo presidentes da APP e defensores do Acordo Ortográfico, naturalmente. Diante da indecisão ortográfica patente no facto de que as consoantes mudas ora caem ora nem por isso, e não sendo aceitável pensar que tal se deva à incompetência linguística de uma associação de professores de Português, só posso deduzir que este anúncio é material didáctico elaborado com a finalidade de levar os formandos a perceber algumas das novidades introduzidas pelo AO. Fico muito mais descansado.

Feytor Pinto, curiosamente, terá afirmado que o AO era algo que os professores poderiam aprender num ápice, logo após uma primeira leitura, mesmo em cima do joelho. Ainda assim, terá sido, certamente, a pensar nos mais duros de entendimento que o mesmo Feytor Pinto se sacrifica a ensinar o óbvio aos ignaros.

Acordo Ortográfico: o primado da escrita

Nunca me deu para endeusar pessoas ou ter ídolos, mas nunca deixei de admirar aqueles que exercem uma actividade com competência comprovada. Ainda hoje, considero um privilégio poder ler ou ouvir quem sabe e sempre por duas razões profundamente egoístas: prazer e enriquecimento.

Apesar da minha tendência para a Literatura, a reflexão que me tenho sentido obrigado a fazer a propósito do Acordo Ortográfico fez-me regressar a leituras no âmbito da Linguística, o que me levou a descobrir, graças, também, ao milagre da Internet, estudiosos como Francisco Miguel Valada e António Emiliano.

Há poucos dias, tive oportunidade de aconselhar a leitura de um texto deste último. Volto, agora, a fazê-lo: nesta nota, António Emiliano contraria a ideia de que escrita é uma mera maquilhagem. Existe uma outra versão mais desenvolvida dessa mesma nota aqui.

Ler o que escreve António Emiliano dá trabalho? Dá, mas não há outra maneira de aprender. Na verdade, julgo que há, até, poucos prazeres que não dêem trabalho. Quem quiser criticar ou elogiar o AO deve, portanto, trabalhar muito.

Bota aí no vocabulário do AO: Inadimplência, inadimplemento e inadimplir

Um inadimplidoQuerem ver que FJV tem alguma razão! Precisamos, de facto, de alguns “ajustamentos pontuais” no Acordo Ortográfico e mesmo no Vocabulário, para ficarmos a par dos nossos companheiros brasileiros. Hoje, deparei na ‘Folha de São’ Paulo com o seguinte título:

Bancos se preparam para aumento da inadimplência

Assim, de chofre, interroguei-me: o que é isto? Inadimplência? Da leitura do texto da notícia, lá percebi que equivalia à nossa frase ‘Bancos preparam-se para aumento de incumprimentos’; isto é, lá como antes cá, a banca na louca corrida de se esvair em crédito concedido, colhe, em contrapartida, a explosão de casos de incumprimento de empresas e particulares – em 2011 as provisões para cobranças duvidosas de 23 bancos de grande e médio porte subiram muito, 42,2%.

Percebi. Todavia, nas buscas efectuadas nos dicionários de casa, entre os quais o ‘Dicionário da Língua Contemporânea Portuguesa’, da Academia das Ciências de Lisboa, não detectei o vocábulo ‘inadimplência’. Valeu-me o ‘Ciberdúvidas’ e também a ‘Wikicionário’. Este, porém, ressalva que ‘inadimplência’ não é um termo correcto. O ideal seria ‘inadimplemento’ como derivado do verbo ‘inadimplir’.

Por outro lado, o ‘Wikicionário’ diz que o sinónimo da ‘inadimplência’ ou ‘inadimplemento’, no vocabulário do Brasil (Direito) é ‘descumprimento’, ou seja, o nosso ‘incumprimento’. O melhor é mesmo descomprimir-me, porque me sinto deveras inadimplido.

Acordo Ortográfico: António Emiliano e a insignificância da ortografia

Não sei se é um hábito exclusivamente luso, mas a tudologia parece-me ser um vício entranhado no carácter do cidadão português. Escrevi, há alguns anos, dois textos (aqui e aqui) sobre a facilidade com que aqueles que não são professores têm opiniões que consideram fundamentais e fundamentadas sobre Educação e sobre o próprio quotidiano da profissão docente.

Não é de admirar que isso aconteça num país habitado por treinadores de bancada, aptos a resolver, de modo expedito, os problemas da equipa que apoiam, ao contrário dos treinadores encartados que se sentam no banco.

No que se refere às ciências humanas e sociais, o tudólogo sente-se à vontade, porque matérias como História, Literatura ou Geografia parecem ao alcance de qualquer mortal com dois dedos de testa e três dedos de conversa. Não desejo defender que só os especialistas sejam autorizados a emitir opiniões sobre as matérias em que se especializaram, mas nada me impede de aconselhar aos leigos que tentem, pelo menos, informar-se sobre aquilo que pensam os estudiosos.

O debate sobre o AO tem sido um campo fértil do exercício da tudologia, com o consequente desprezo pelos especialistas. Um dos disparates mais defendidos pelos apressados defensores do AO é o de que não tem importância nenhuma mexer na ortografia, dislate repetido recentemente pelo Secretário de Estado da Cultura, com o argumento de que é um objecto artificial.

António Emiliano pode ser um homem detestável ou uma excelente pessoa ou alternar ambas as características ao longo do dia ou conforme as estações do ano, mas é um linguista com provas dadas. É por essa razão que é importante, pelo menos, ler o que escreve e, depois, aproveitar para reflectir.

CONAR Vai Julgar o Azeite Gallo

No Brasil, o Azeite Gallo está a ser acusado de racismo.
Felizmente, vem aí um Acordo Ortográfico que, garantem os crentes, vai homogeneizar a língua portuguesa.

Professores apoiam declarações sobre acordo ortográfico

O título deste texto é tão enganoso como o do Diário de Notícias de hoje, em que se pode ler “Professores lamentam declarações sobre acordo ortográfico”. Na verdade, desconhecemos, o DN e eu, o que sentem os professores, de uma maneira geral, acerca das declarações de Francisco José Viegas, pelo que seria da mais elementar honestidade termos escolhidos ambos títulos diferentes. É claro que a minha escolha é provocatória; a do DN é, apenas, incompetente. O título escolhido pelo Paulo Guinote no comentário que faz a esta mesma notícia corresponde, afinal, à pergunta que deve ser feita.

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP), representando-se a si própria e falando, eventualmente, em nome dos associados da dita associação, lamenta as declarações de FJV e considera que se anda a “a brincar com os professores, alunos, pais, e toda uma comunidade”. Devo dizer que, em grande parte, concordo com muito daquilo que afirma a minha ilustre colega e, desde há vários anos, que vejo a APP participar em muitas dessas brincadeiras, tendo em conta a facilidade acrítica com que tem cavalgado várias ondas, incluindo a cobertura dada ao empobrecimento dos programas de Português do Secundário, passando pela aprovação dada à nova terminologia gramatical e terminando na aceitação deslumbrada do Acordo Ortográfico.

O DN quis também ouvir o professor Carlos Reis, um estudioso rigorosíssimo de matérias como a obra literária de Eça de Queirós ou a Teoria da Literatura. Na defesa do Acordo Ortográfico, no entanto, Carlos Reis tem revelado um entusiasmo inimigo do rigor e uma pobreza de argumentos que repete aqui, ao deixar implícito que só pode haver “política da língua” se houver um acordo ortográfico, como se a primeira implicasse necessariamente o segundo. Ao admitir “ajustamentos pontuais” coloca-se, no entanto, numa posição que se pode confundir com a de Francisco José Viegas.

Finalmente, aproveito para deixar aqui uma palavra de pesar para a displicência com que a comunidade docente aceita muitas imposições: é especialmente grave que continue a não existir uma reflexão sobre o Acordo Ortográfico. Como tem acontecido em muitas outras ocasiões, os professores limitam-se a encolher os ombros e a dizer, com um desencanto sofrido: “Agora é para fazer assim…”

Acordo Ortográfico: a gaguez de Francisco José Viegas

Esta entrevista a Francisco José Viegas (FJV) sobre o Acordo Ortográfico (AO) é um amontoado de gaguez, de indefinições e de disparates. Depois de ter ouvido atentamente, limito-me a aglomerar, também eu, alguns comentários, tentando gaguejar menos, definir melhor e evitar o disparate.

Francisco José Viegas começa por confessar que há coisas no AO de que gosta e outras de que não gosta, o que é irrelevante, porque a discussão sobre este assunto só faz sentido a partir do momento em que não se fale de gosto.

Depois, e após relembrar que o AO está a ser discutido há vinte anos, afirma que foi discutido à última da hora, o que é muito semelhante a um paradoxo. Sobre este arremesso alegadamente tardio, aproveita para ironizar acerca de uma tendência lusa para esperar até ao último momento e contestar uma medida há muito anunciada. FJV revela, assim, um profundo esquecimento acerca dos vários pareceres dados por especialistas.

Aproveitando a deixa de FJV, e analisando um outro tique português, a verdade é que, nas questões ligadas às Ciências Humanas e Sociais, há uma tendência do poder e da opinião pública para desprezar repetidamente os contributos dos especialistas nas matérias. Assim tem sido com a Educação, com o desprezo a que são votados avisos e contributos dos professores, e assim tem sido com a questão do Acordo Ortográfico, em que os muitos pareceres emitidos por linguistas foram ignorados e  considerados manifestações de mera caturrice. [Read more…]