O legalista de circunstância

A legalidade é, no discurso, algo que muito importa a André Ventura. O respeito pela Lei, em variações mais ou menos autoritárias em termos concepcionais, é um aspecto fundamental da sua narrativa: os ciganos têm de cumprir a Lei, os imigrantes têm de cumprir a Lei, quem viola a Lei deve ser punido, quem é pedófilo deve ser quimicamente castrado, etc.

Todavia, o respeito é de circunstância, pois, quando o que a lei prevê não é conveniente aos seus fins, então faz-se de conta que a Lei não existe, conquanto tal soe bem aos ouvidos dos receptores.

O mais recente exemplo, é o apelo do adiamento das eleições presidenciais, extensível a todo o território nacional. Como se a Lei aplicável não previsse, especificamente, em que circunstâncias e quais os procedimentos. E a regra é muito simples: quem decide o adiamento da eleição, que tem de ser por sete dias, é a Câmara Municipal. Trata-se, pois, de uma decisão local, de acordo com as condições apuradas por quem está mais próximo dos respectivos palcos de crise, não podendo o Governo, ou quem quer que seja, decidir a nível nacional.

Assim reza o DL 319-A/76, de 3 de Maio, com a redacção dada pela Lei Orgânica n.º 1/2011 de 30 de Novembro (anteriormente alterado pelas Leis n.ºs 143/85, de 26 de Novembro, e 11/95, de 22 de Abril):

Artigo 81º

Não realização da votação em qualquer assembleia de voto

1 — Não pode realizar-se a votação em qualquer assembleia de voto se a mesa não se puder constituir, se ocorrer qualquer tumulto que determine a interrupção das operações eleitorais por mais de três horas ou se na freguesia se registar alguma calamidade no dia marcado para as eleições ou nos três dias anteriores.

2 — No caso de não realização da votação por a mesa não se ter podido constituir ou por qualquer tumulto ou grave perturbação da ordem pública realizar-se-á nova votação no segundo dia posterior ao da primeira, tratando-se de primeiro sufrágio.

3 — Ocorrendo alguma calamidade no primeiro sufrágio ou em qualquer das circunstâncias impeditivas da votação, tratando-se de segundo sufrágio, será a eleição efectuada no sétimo dia posterior.

4 — Nos casos referidos nos números anteriores consideram-se sem efeito quaisquer actos que eventualmente tenham sido praticados na assembleia de voto.

5 — O reconhecimento da impossibilidade de a eleição se efectuar e o seu adiamento competem ao presidente da câmara municipal ou, nas Regiões Autónomas, ao Representante da República.

6 — No caso de nova votação, nos termos dos n.ºs 2 e 3 não se aplica o disposto na parte final do n.º 3 do artigo 35.º e no artigo 85.º e os membros das mesas podem ser nomeados pelo presidente da câmara municipal ou, nas Regiões Autónomas, pelo Representante da República.

7 — Se se tiver revelado impossível a repetição da votação prevista nos n.ºs 2 e 3, por quaisquer das causas previstas no n.º 1, proceder-se-á à realização do apuramento definitivo sem ter em conta a votação em falta. [Read more…]

“Começaste por dar um rico exemplo…”

Nos inícios de carreira, o meu pai, que partilhava um gabinete de arquitectura com outros colegas, decidiu forrar de novo a prancha do seu estirador, com o seu habitual meticuloso cuidado.

Dava gosto ver aquele forro liso, imaculado, de vincos e dobras perfeitos, a contrastar com os estiradores dos demais colegas, já cheios de esquissos, apontamentos, contas e outras anotações sarrabiscadas.

De modo a evitar que o mesmo se passasse naquele primor de forro acabado de fazer, colocou no canto superior direito o seguinte aviso: “É favor não escrever neste forro”.

No dia seguinte, quando se sentou frente ao trabalho, apercebeu-se do seguinte escrito, logo abaixo do predito aviso: “Começaste por dar um rico exemplo…”.

Lembrei-me deste episódio, que o meu pai contava com um sorriso próprio de quem aprecia o humor, mesmo quando se é o alvo, quando este fim-de-semana ouvi António Costa dizer que os políticos têm de respeitar a maioria absoluta conferida pelo povo ao PS. [Read more…]

A Batota

Há muitas expressões que podem caracterizar o Povo Português. Umas melhores, outras piores e, ainda, outras “assim-assim”. Mas há uma que particularmente nos assenta que nem uma luva: batoteiros. Somos um povo de batoteiros. Desde a base da pirâmide até à cúpula. Batoteiros.

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Respeito

Confesso que não conheço o Rui. A cara dele não me é estranha, mas distraído como sou, é natural que o tenha visto na tv…

Tropecei hoje num texto que ele escreveu e que merece ser lido. Aqui ficam as palavras do Rui: [Read more…]

Nós também Primeiro, nós também…

Eu espero que isso não venha a acontecer, porque o acordo que foi alcançado está a ser respeitado pelo Governo e, normalmente, nós gostamos que os acordos que vamos fazendo possam ser respeitados” (Presidente do Conselho de Ministros)

Sr. António Jorge

 

Os nossos caminhos cruzaram-se, que eu saiba, ontem pela segunda vez.
O nosso primeiro «encontro» deu-se num dia de Setembro, creio, estava eu a sair de casa. Tinha caminhado poucos metros e ainda na minha rua vi uma pessoa deitada no chão, no passeio, com um pé a escorregar para a estrada. Antes de mim, várias pessoas passaram por ele. Ninguém fez o menor gesto para tentar perceber o que se passava. A situação parecia facilmente explicável. Um alcoólico caído no chão. Desmaiado de tanto beber. Fazer o quê? [Read more…]

Ser Gente

adão cruz

Quando eu era criança, diziam-me os meus pais que eu tinha de fazer tudo para ser gente. Ser gente? Mas o que é ser gente? [Read more…]

II- Religião, Economia e Manifesto Comunista. As pretensões da família Marx

O que os trabalhadores mereciam, e poderiam obter se acordassem de sua sonolência, era o controlo de seu próprio trabalho, a posse do valor que geravam com esse trabalho e, consequentemente, auto estima, liberdade e poder. Pretendia que os trabalhadores passarem a possuir o produto do seu trabalho, acabar com a alienação. [Read more…]

Respeito

A Nai Esperanza Revisitada

lembranças dos tecidos da alma da Nai Esperanza

Parte do livro que escrevo: Esperanza

É-me quase impossível tornar a escrever qualquer texto, sem me referir mais uma vez a essa mulher que não se furtava ao trabalho. Essa Senhora que sabia ser não apenas Nai (em luso galaico, Mãe em luso português), mas também uma boa mulher do seu marido. Sempre pensei nela como uma Senhora. Não dessas Senhoras que sabem vestir à moda imperante, com fatos de seda e penteados de cabeleireiro. Desde que me lembro, vestia da mesma forma, uma blusa com fundo amarelo, com flores estampadas para decorar esse fundo. A saia era cor castanha obscura, até os joelhos, e meias grosas para se defender do frio.  [Read more…]