Os factos de Câncio e os fatos da CMTV

Avec ses quatre dromadaires
Don Pedro d’Alfaroubeira
Courut le monde et l’admira.
Il fit ce que je voudrais faire
Si j’avais quatre dromadaires.
— Apollinaire, “Le Dromadaire

Sedulo curavi, humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere.— Espinosa

Woah oh oh oh oh oh oh oh.
Ian Astbury

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Convém sempre lembrar que nem só de fatos se vive no Diário da República:

Seja como for, de fatos efectivamente muito se vive, no Diário da República em particular e na realidade (orto)gráfica portuguesa europeia em geral, desde Janeiro de 2012.

Eis um exemplo, no Diário da República de hoje:

Quanto à realidade (orto)gráfica portuguesa europeia em geral, peguemos na nossa fidelíssima lupa e debrucemo-nos sobre um episódio extremamente interessante. Ao contrário do excelente Público, que traduziuperspectiva‘, para a nossa correcta interpretação da *perspetiva de Daniel Oliveira, a CMTV deturpou factos, indicando fatos,

quando Fernanda Câncio claramente não se refere aos fatos “de roupa” espalhados por Santana Lopes.

Apresentado este meu pequeno relatório, resta-me desejar-vos um óptimo fim-de-semana.

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Não é tarde para um obrigado

[Francisco Salvador Figueiredo]

Penso que num país em que tudo é demorado, me vão perdoar um pequeno atraso em relação ao assunto que abordarei. Hoje, irei debruçar-me principalmente sobre a estreia de três partidos na Assembleia da República. Temos um partido extremista, o Chega e a Iniciativa Liberal. Ah, o partido extremista é, obviamente, o Livre.

Mas antes de tudo, comecemos pelos partidos do costume. Temos um PS a repetir a mesma estratégia, só que com mais gente ainda. O PS faz lembrar aquelas crianças que irritam os pais um bocado e depois vão irritando cada vez mais para ver os limites. Neste caso, o pai é o povo português. Um pai demasiado passivo, diga-se.

Agora, tempo para elogiar uma nova cara na Assembleia, uma verdadeira oposição ao Governo. Estamos a falar do irreverente Rui Rio, que depois de meses a fazer campanha ao PS, assumiu a presidência do PSD e tornou-se numa voz ativa contra o governo. Não gosto de Rui Rio, ideologicamente. Mas tenho de lhe tirar o chapéu. Sempre foi sensato no que disse, sempre seguiu a sua cabeça e nunca teve medo de elogiar algo por não ser do seu partido. Na Assembleia, teve uma postura exemplar, ao tocar em pontos frágeis como, por exemplo, a situação do Hospital S. João, mas mesmo assim não caiu numa tendência populista e demagógica.

O CDS? O CDS pecou pela forma que abordou estas eleições. Quis agradar a todos os lados, não assumindo uma posição de direita firme. Desta forma, perdeu votos para outros partidos de direita. Neste momento, são 5, mas continuam a ser partido do Taxi. No entanto, são aqueles para 6 pessoas. O outro lugar é para chamar a atenção do André Ventura (Chega) ou João Cotrim Figueiredo (IL). Só pode…

Bloco e CDU continuam rigorosamente na mesma, sendo que o Bloco a cada ano que passa está cada vez mais extremista e a revelar a verdadeira pele. Livre? As pessoas que votaram Livre não se podem dar por desiludidas. Queriam aquilo e assim está. Joacine continua fiel às suas ideias, não alterando a forma de estar apenas por ter sido eleita. É de louvar. Mas não é por isso que deixa de ter um discurso ressentido, fraco e inútil. O que Joacine quer não é igualdade de tratamento entre raças, mas sim transformar as raças todas iguais. Há um discurso de ódio contra os portugueses. A minha questão é: Se eu achasse que os negros são contra os brancos, porque razão eu iria para o Ruanda defender uma suposta minoria branca? Não faz sentido. Em relação à gaguez, eu não sou terapeuta, por isso a minha opinião não interessa. No entanto, Joacine faz-me lembrar aqueles jogadores de futebol que fintam meio mundo e depois falham de baliza aberta. Uma pessoa até pensa que ela pode vir a dizer algo bom, mas acaba sempre por dizer algo mal. Em relação a este assunto, a direita, mais uma vez, consegue estar mal. O que tem de ser usado como argumento não é a gaguez da Joacine, mas sim as suas propostas.

Chega. Começou por parecer um partido de extrema-direita, mas depois desta campanha já se percebeu que é uma simples direita conservadora. Não me parece que tenha uma força construtiva, mas sim uma força destrutiva. A intervenção de André Ventura na Assembleia não foi uma defesa do Chega, mas sim um roast total ao PS. Nesse aspeto, esteve bem, mas parece pouco para um Partido. [Read more…]

Os gajos do apito

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Edward Snowden, o whistleblower, foi ontem saudado por uma multidão em êxtase, na Websummit. Já Rui Pinto, o whistleblower, continua preso e enfrenta a versão mais feroz e célere da frágil justiça portuguesa. Sorte a do Snowden, que não se meteu com o Benfica ou com a Doyen, ou nem por videoconferência o deixavam entrar em Lisboa.

Mundo Web Summit

“Se acordar num colchão Casper, se fizer exercício numa Peloton antes do café da manhã, seguindo de Uber para a sua secretária na WeWork, depois se pedir DoorDash para o almoço, se apanhar um Lyft casa e se jantar através da Postmates, você interagiu com sete empresas que coletivamente vão perder quase 14 mil milhões de dólares só neste ano.”

Derek Thompson, na revista The Atlantic, sobre a estratégia das startups perderem dinheiro para ganharem cota de mercado. Dantes, chamava-se concorrência desleal a esta prática e até há leis a proibi-la. Hoje responde pelo nome de empreendedorismo. Pelo caminho, morre o tecido económico local, incapaz de concorrer com as mesmas vendas com prejuízo. Em simultâneo, desaparecm os empregos que o suportavam – ou trocando-os por relações comerciais frágeis e mais mal pagas.

Não há almoços grátis, costumam os liberais afirmar a propósito do Estado. No entanto, parecem acreditar que estes existem para o caso destas empresas. O que até é verdade, caso apenas olhemos para o imediato. Mas as borlas têm um preço a pagar, em deferido, sendo a respectiva moeda a concentração do mercado em meia dúzia de empresas, com todas as consequências que estes monopólios trarão.

É necessário um novo acordo ortográfico da língua portuguesa

MAÎTRE DE PHILOSOPHIE.- Et l’R, en portant le bout de la langue jusqu’au haut du palais ; de sorte qu’étant frôlée par l’air qui sort avec force, elle lui cède, et revient toujours au même endroit, faisant une manière de tremblement, RRA.
MONSIEUR JOURDAIN.- R, R, RA ; R, R, R, R, R, RA. Cela est vrai. Ah l’habile homme que vous êtes ! et que j’ai perdu de temps ! R, r, r, ra.
MAÎTRE DE PHILOSOPHIE.- Je vous expliquerai à fond toutes ces curiosités.
Molière, Le Bourgeois gentilhomme

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Por muito paradoxal que possa parecer a alguns distraídos, o Acordo Ortográfico de 1990 impede uma límpida leitura brasileira das polémicas portuguesas, logo, deve ser substituído. Ao ler as perspetivas de Daniel Oliveira, um falante/escrevente de português do Brasil fica obviamente escandalizado e profundamente incomodado. Valham-nos os serviços de tradução do Público. De facto. Exactamente.

Efectivamente, a necessidade de um novo instrumento ortográfico para a língua portuguesa justifica-se também por outro motivo: hoje em dia, um falante/escrevente de português europeu fica naturalmente perturbado quer perante os contatos de hoje, no sítio do costume,

quer diante disto (*):

É preciso um instrumento ortográfico que substitua o Acordo Ortográfico de 1990. Como dizia há uns tempos Michel Onfray, nada fazer quando tudo desaba é efectivamente (effectivement) contribuir para a decadência. Para evitar o desabamento e a decadência, a solução é simples: regresse-se a 1945 (pdf).

Desejo-vos uma óptima semana.

(*) Os meus agradecimentos a Manuel Monteiro.

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Ouçam Snowden

“Ao longo do seu discurso, Snowden referiu ainda que o modelo de negócios de empresas como o Google e o Facebook “é abusivo””. Pois, Snowden, mas conforme se constata, as pessoas não se importam de ser abusadas. Gostam até, segundo parece… E os que já crescem neste estado de coisas acreditam que é apenas normal e que sempre foi assim.

Dizes “são as pessoas que estão a ser manipuladas e não os dados”, mas olha lá se se incomodam. Nadinha. E quanto a essa plateia de gente que te esteve a ouvir, está ela também toda desejosa de sugar dados, abusar, manipular.

Sacrificaste-te e advertes em vão. Os abusados e manipulados sentem-se bem assim.

As mentiras da propaganda contra a retenção

Voltámos Às Contas De Merceeiro Do Antigamente

Mais um indígena assassinado no Brasil

Os indígenas brasileiros estão perigo. O país foi tomado por uma onda violenta de ódio a povos indígenas.

Só de 2017 a 2018 o número de indígenas assassinados cresceu em 20%.  A pressão de latifundiários e exploradores das reservas de minério, madeireiros e etc estão invadindo e explorando terras já demarcadas em governos anteriores. Várias mortes se dão nesse contexto de invasão das terras protegidas. A escalada da violência a ativistas indígenas que denunciam as invasões e roubos vem aumentando nos últimos anos.

Em uma década, mais de 300 desses defensores da floresta foram assassinados, de acordo com os dados compilados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e utilizados pela Procuradoria-Geral da República. Algumas vítimas eram agentes públicos, mas a maioria eram indígenas ou outros moradores que denunciaram a exploração ilegal de madeira às autoridades.

Após a posse de Jair Bolsonaro, a situação de ataques às reservas se agravaram. As invasões já somam um aumento de 40% em relação a 2018.  Na ultima sexta-feira, 01/11 o  indígena e ‘guardião da floresta’, Paulo Paulino Guajajara, foi assassinado em uma emboscada na Terra Indígena Arariboia, na região de Bom Jesus das Selvas, no Maranhão. Segundo nota do governo estadual, “os guardiões Paulino e outro índigena, por nome Laércio saíram da aldeia buscar água, quando foram cercados por pelo menos cinco homens armados, que de início já dispararam dois tiros contra os dois”. Paulino foi assassinado com tiros na cabeça.

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Paulo Paulino Guajajara, morto nessa sexta-feira, 01/11 em uma emboscada Foto: Reprodução Mídia Índia

 

Ele era Guajajaras, um dos maiores grupos indígenas do Brasil, com cerca de 20 mil habitantes e que criaram os Guardiões da Floresta para patrulhar a  reserva. Na área demarcada aos  Guajajaras vivem indígenas  Awá Guajá, uma tribo pequena  e isolada de contato com o mundo exterior e ameaçada de extinção.

Para as lideranças indígenas o atual presidente Jair Bolsonaro tem a culpa por incitar a violência aos indígenas.  “O governo Bolsonaro tem sangue indígena em suas mãos”, disse a organização pan-indígena brasileira APIB, que representa muitos dos 900.000 habitantes do país, em comunicado no sábado.“O aumento da violência em territórios indígenas é resultado direto de seus discursos odiosos e medidas tomadas contra nosso povo”, afirmou a Sonia Guajajara da  APIB.

A líder da APIB, Sonia Guajajara, disse que o governo está desmantelando agências ambientais e indígenas e deixando tribos para se defender da invasão de suas terras.

Meses antes de sua morte o indígena Paulino Guajajara, que estava na casa dos vinte anos e deixa um filho, disse à Reuters em entrevista na reserva em setembro que proteger a floresta dos intrusos havia se tornado uma tarefa perigosa, mas seu povo não podia ceder ao medo.

 

Fonte: Reuters, Exame, El Pais e G1

Magia de Hong Kong

Bolsonaro, a Amazónia não é sua!

Líder indígena defensor da floresta assassinado

Premiar e negociar

Ao receber, no passado dia 20 de Outubro, o Prémio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado afirmou que “passou grande parte de sua vida testemunhando o sofrimento do nosso planeta e de seus habitantes que vivem em condições cruéis e desumanas”. “A missão de iluminar a injustiça guiou meu trabalho como fotógrafo social”.  “As minhas fotografias mostram o presente e por mais que ele seja doloroso, nós não temos o direito de desviar nosso olhar“.

A profunda sensibilidade social de Sebastião Salgado tinha já sido notavelmente documentada por Wim Wenders e Juliano Salgado no premiado filme Sal da Terra.

O fotógrafo e fundador do Instituto Terra denuncia agora, também através de palavras certeiras e transparentes o que está a acontecer na Amazónia. “(…) o modelo económico do Brasil e do mundo é um modelo predatório, que destrói a Amazónia”.*

Entretanto, os dirigentes europeus fazem de conta que se indignam, mas não deixam de desviar o olhar, promovendo e assinando o acordo de comércio UE-Mercosul e assim contribuindo para essa destruição e dando mais uma estocada contra uma agricultura e pecuária sustentável, a bem da indústria automóvel.

Quão esquizofrénica é uma Comissão Europeia que promove a importação de produtos agrícolas do Brasil, quando o Governo brasileiro, sob a presidência de Bolsonaro, autorizou há alguns meses atrás mais de 150 novos pesticidas, enquanto essa mesma Comissão Europeia está a pretender adoptar uma estratégia para os produtores europeus que visa ter exactamente o efeito contrário?

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Onde colocar um aeroporto perante a subida do nível das águas do mar?

O degelo dos glaciares, com a consequente subida do nível das águas do mar, está longe de ser um mito – que o digam, por exemplo, os noruegueses.

Sendo um aeroporto uma obra para funcionar durante décadas, onde é que se deve construir um nova infraestrutura destas?

Junto ao nível do mar, obviamente.

Pergunta para bingo

O que é que se há-de fazer com um pedaço de paraíso?

Um aeroporto, obviamente. Stairway to heaven.