Cumpriu-se

portugal flag

Coisas que me agradam muito:

  •  A vitória da Selecção.
  •  O Éder a marcar no fim; um momento de ironia e de justiça poética que pôs em causa a minha visão do universo e das leis que o governam.
  • O Quaresma a mostrar o melhor de si mesmo e o melhor de nós.
  • O Renato que aos 18 anos teve de enfrentar uma miríade de gente a chamar-lhe mentiroso e mesmo assim conseguiu ajudar a equipa em momentos importantes.
  •  O exorcismo de 2004. Já merecíamos.
  •  A prova que o futebol é – e deve sempre ser – um jogo de equipa, de interajuda, de solidariedade. A queda de um jogador – mesmo um jogador tão extraordinário como Ronaldo – não impede a vitória se houver vontade e espírito de sacrifício.
  • Ontem andei por Lisboa e as pessoas estavam visivelmente felizes. Isso apaziguou a cínica que vive em mim.

Coisas que me desagradam:

  • Qualquer dia (hoje não porque estou feliz e gostava de continuar por mais algum tempo) temos de falar sobre esta coisa das generalizações. Já não temos 20 anos para fazermos reduzirmos milhões de pessoas a epítetos ridículos e/ou insultuosos.
  •  Portugal ainda não ter ganho a Eurovisão.

Notas sobre o Brexit

 

 

  • Algumas almas pretendem apresentar o referendo como uma vitória dos eurocépticos contra a União Europeia. É verdade. Mas não é toda a verdade.

 

  • Esta campanha foi baseada na discussão sobre a imigração. Tornou-se um voto contra a entrada supostamente desenfreada de imigrantes vindos da União Europeia (o caso mais notório, polacos e búlgaros). Provas? Quem está à frente da campanha foi Nigel Farage e Boris Jonhson. A palavra chave da campanha foi Imigração.

 

  • Isto não quer dizer que todas as pessoas que votaram Leave são racistas ou xenófobas. Isso é uma visão redutora e simplista. Muitas votaram porque têm de facto preocupações legítimas sobre o futuro da União Europeia. E os votos, todos eles, seja porque razão forem, têm legitimidade e devem ser aceites. É a democracia.

 

  • Contudo, é inegável que muitas outras pessoas votaram em nome daquilo em que em Inglaterra se chama “the little Englander mentality”.  Mais do que isso, a campanha foi conduzida de acordo com essa mentalidade. Isto quer dizer o quê exactamente?

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Os pobres e pouco instruídos

É um bocadinho irritante esta recente mas não original tendência de se dizer que “as pessoas que votam no Trump são pobres e pouco instruídas” (o que deu origem à frase de Trump “I love the poorly educated!”). Não é que isto não seja verdade mas também aposto que há imensos “pobres e pouco educados” (“pouco educado”, um eufemismo que define pessoas que não chegaram às universidades) que votam na Hilary ou no Bernie Sanders – contudo, estes candidatos são vistos como a preferência das “educated middle classes”.

A causa deste conservadorismo bacoco e preconceituoso que tem vindo a ser a cara do Partido Republicano não se encontra na pobreza ou na educação mas sim num sistema que propícia estas situações. O que é que interessa a pessoa ser educada e estar na universidade se cresceu num Estado em que a Evolução não é ensinada nas escolas? Ou num Estado em que a bandeira da Confederação está hasteada em edifícios públicos?

Entristece-me ver parte da esquerda a ir neste discurso dos “pobres” e “pouco educados” sem o questionar, não percebendo que isto é só mais uma forma de demonizar a pobreza.

A um Mestre: Umberto Eco

 

SPETT.UMBERTO ECO A NAPOLI (SUD FOTO SERGIO SIANO)

O Riso liberta o vilão do medo do diabo, porque na festa dos tolos o Diabo aparece pobre e tolo, portanto controlável. Mas este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo é a sapiência. Quando ri, enquanto o vinho lhe borbulha na garganta, o vilão sente-se senhor, porque subverteu as relações de senhoria: mas este livro poderia ensinar aos doutos os enigmas argutos, e a partir daquele momento ilustres, com que legitimar a subversão. Então transformar-se-ia em operação do intelecto aquilo que no gesto irreflectido do vilão é ainda e felizmente operação do ventre. Que o riso seja próprio do homem é sinal dos nossos limites de pecadores. Mas deste livro quantas mentes corruptas como a tua extrairiam o extremo silogismo, pelo o qual o riso é a finalidade do homem! O riso, desvia, por alguns instantes, o vilão do medo. Mas a lei impõe-se através do medo, cujo verdadeiro nome é temor de Deus. E deste livro poderia partir a centelha luciferina que transmitiria ao mundo inteiro um novo incêndio: e o riso designar-se-ia como a arte nova, ignorada até de Prometeu, para anular o medo.

Umberto Eco, O Nome da Rosa. 1980.

A melhor forma de homenagear qualquer escritor, especialmente um génio como Eco, é lendo-o.

 

Jean-Luc Mélenchon e os bons conselhos

jean luc

 

jean luc 2

 

DiEM

O lançamento do movimento Democracia na Europa está a acontecer agora em Berlim.

 

J’Accuse, agora e sempre

j'accuse

Foi a 13 de Janeiro de 1898 que Émile Zola publicou o seu “J’accuse” no jornal Parisiense Aurore. Uma carta aberta ao Presidente da República Félix Faure onde era denunciada a injustiça do julgamento e prisão de Alfred Dreyfus, oficial francês e judeu, acusado de traição (e efectivamente condenado por isso). Excepcionalmente, numa época em que o anti-semitismo estava absolutamente disseminado pelas sociedades europeias,  Zola teve a humanidade suficiente para perceber a imoralidade – e o perigo – do preconceito, denunciando o anti-semitismo do governo e dos oficiais que trataram do caso.

A seguir à publicação da carta, Zola foi condenado a pena de prisão. Fugiu para Inglaterra onde continuou a lutar por Dreyfus que tinha sido enviado para o exílio numa ilha na Guiana Francesa. Mais tarde, em 1899, Dreyfus regressou a França e ofereceram-lhe um perdão – por um crime que não tinha cometido. Em 1906, foi oficialmente exonerado tendo-lhe sido atribuído a Legião de Honra.

Zola morreu em 1908 e Dreyfus estava presente aquando a transferência das suas cinzas para o Panteão nacional.

Versão Portuguesa da carta.

 

A esperança está na cultura

Um livro sobre uma história de amor entre uma israelita e um palestiniano foi retirado dos programas curriculares dos liceus israelitas. Em resposta, Geder Haya tornou-se um dos livros mais vendidos em Israel e “ocupa o primeiro lugar lugar na lista de livros do jornal Haaretz”.
A resposta dos leitores Israelitas só por si agrada-me bastante (assim como a resposta da Time Out de Tel Aviv). Mas também me agrada o comentário de Amos Oz:

“Por que não, então, proibir o estudo da Bíblia, já que se trata de censurar relações sexuais entre judeus e não-judeus?”

Na adversidade, meus amigos, a resposta é ler livros.

 

7 de Janeiro

Charliekosher

 

Hoje, dia 7 de Janeiro, um ano depois dos atentados que vitimaram os jornalistas do Charlie Hebdo, vamos lembrar-nos de que aquelas pessoas morreram porque faziam desenhos. Morreram porque rejeitavam todas as ideologias relacionadas com a religião. Porque as criticavam, porque gozavam com elas, porque se riam delas. Morreram no século XXI, em França, na Europa, porque gozavam com uma religião – com todas as religiões.

Lembrem-se também de que os terroristas atacaram um supermercado kosher e mataram quatro Judeus. Este não foi só um crime contra a liberdade de pensamento e de expressão. Foi um crime anti-semita. Lembrem-se que o anti-semitismo continua vivo na Europa.

Espero que cada pessoa que abra a boca para acrescentar aquele “mas” após o “matar é mau…” se lembre disso. Desejo que hoje essa gente fique assombrada pelo ódio a tudo o que de bom pode existir numa sociedade, a liberdade de expressão e de pensamento, e por um dos mais antigos e repugnantes crimes contra a humanidade, o anti-semitismo.

 

O jornalismo em Portugal

Pelo menos três jornais portugueses, o Record (que entretanto apagou a notícia), o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias estão a publicar uma notícia falsa. Supostamente, o treinador do Rayo Vallecano disse que Cristiano Ronaldo lhe metia nojo. Vai daí, os jornalistas tugas, feridos na sua dignidade, apressaram-se a publicar a notícia e as declarações sem se incomodarem a procurar uma fonte credível.

Infelizmente, a notícia é falsa. Começou com uma conta falsa no Twitter e assim se propagou. Bem sei que é difícil fazer source checking de todas as notícias online (são muitas e constantes) mas numa altura em que os leitores recorrem cada vez mais ao formato online, espera-se um maior rigor nestas notícias – embora assumo que este caso tenha mais a ver com o vigor pseudo-patrioteiro dos jornalistas.

Gostaria de ver, agora, um pedido de desculpas da parte destes jornais (e de outros que provavelmente também publicaram a notícia) aos leitores e ao treinador do Rayo, Paco Jémez.

(É também caso para perguntar até onde vai esta incompetência. Hoje é um treinador de um clube espanhol mas amanhã, ou hoje mesmo, pode ser um primeiro-ministro, um presidente, um orçamento de Estado. Sabe-se-lá onde isto vai parar).

Nota: O DN publicou uma notícia em que clarificava que a notícia anteriormente publicada era falsa. O JN também já veio corrigir a notícia que tinha dado. É excelente ver os jornais e jornalistas a admitir estes pequenos erros, mesmo aqueles que são aparentemente insignificantes.

Em defesa da laicidade

 

Há uns meses li uma entrevista de Elisabeth Banditer em que ela dizia uma frase extraordinária: “Não perdoo à esquerda o ter abandonado a laicidade”. Comecei a perceber, como o tenho percebido desde Janeiro, que a Esquerda ocidental está a entrar por um caminho ideológico muito tortuoso e confuso: que perdeu, que está a perder a sua identidade. Desta vez a culpa não é da Direita, não é dos grupos extremistas, não é de ninguém a não ser da própria esquerda e dos próprios elementos de esquerda que esqueceram as suas origens.

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Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam

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Quando eu soube a notícia dos atentados estava a ir buscar o meu irmão a um concerto no Campo Pequeno. A primeira coisa que, naturalmente, me atravessou o espirito foi “e se fosse ele? E se fosse eu?”

Depois achei que seria uma boa ideia tentar ver e ouvir testemunhos dos ataques, das pessoas que sobreviveram. Pensei eu, numa vã e absurda tentativa, que ao ver aquilo eu poderia estar preparada caso me acontecesse. Podia pensar, ora se algum dia estiver num concerto e um sacana qualquer abrir fogo eu posso fazer isto ou aquilo. Esconder-me, baixar-me, fingir que estou morta. Rapidamente percebi que estava só a tentar enganar-me e acalmar-me. Não valia a pena estar a ver aquelas imagens que me deixaram ainda pior do que estava. Não há forma absolutamente nenhuma de controlar. Há sorte. A sorte a que uns podem chamar Deus, a sorte que eu chamo o acaso. O acaso de alguém se sentar dentro ou fora de um restaurante, de estar mais perto da porta numa sala de espectáculos ou mais longe, a sorte de ter decidido não ir a um determinado sitio numa determinada noite, a sorte de ter apanhado trânsito ou perdido o autocarro. A sorte que é lei neste mundo feito de probabilidades.

Durante todo o Sábado não consegui rir-me. Eu rio-me muito e choro muito pouco. Às tantas dei por mim, estupidamente e incompreensivelmente, a chorar. Não com imagens de pessoas mortas mas com uma descrição de pessoas a ajudarem-se umas às outras: os taxistas que não cobraram para levar as pessoas para casa, as pessoas que gritavam os números das portas dos prédios para os que fugiam se puderem refugiar. Porque no meio de toda a desumanidade e crueldade o que é revolucionário é a bondade das pessoas. E só me ri no Domingo, de repente, quando um rapaz diz que a razão pela qual ele e a namorada se salvaram é porque tinham discutido e abandonado a esplanada mais cedo.

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O que responder?

voltaire statue

Voltaire, Dicionário Filosófico, excertos do artigo “Fanatismo”:

Resumindo, todos os horrores de quinze séculos podem ser renovados num só, desde as pessoas sem defesa chacinadas aos pés dos altares, dos reis esfaqueados ou envenenados, um vasto Estado reduzido a metade pelos seus próprios cidadãos, desde a nação mais belicosa até à mais pacífica dividida pela espada desembainhada entre o pai e o filho, os usurpadores, os tiranos, os executores, os parricidas e os sacrilégios violando todas as convenções divinas e humanas pelo espírito da religião: cá está a história do fanatismo e dos feitos.

Não há outro remédio a esta maldita epidemia que o espírito filosófico, que espalha, passo a passo, os costumes dos homens e que impede os acessos do mal. As leis e a religião não chegam para lutar contra a peste das almas. A religião, longe de ser um alimento salutar, torna-se um veneno nos cérebros infectados. Os miseráveis inspiram-se sem cessar no exemplo de Aod que assassinou o rei Églon; de Judith que cortou a cabeça de Holopherne enquanto dormia com ele; de Samuel que desfez o Rei Agag; do padre Joad que assassinou a sua rainha etc. etc. Eles não percebem que estes exemplos, que são respeitáveis na Antiguidade, são abomináveis no tempo presente: eles põem a sua loucura na própria religião que os condena.

O que podemos responder a um homem que te diz que prefere obedecer a Deus que aos homens e que em consequência disso ele está certo de merecer o céu por te matar?

Os líderes dos fanáticos, que colocam os punhais nas suas mãos, são uns velhacos maliciosos. Eles assemelham-se ao Velho da montanha que, diz-se, deu às pessoas fracas uma pequena amostra do paraíso, prometendo-lhes uma eternidade de tais prazeres, desde que eles matassem todos aqueles que ele lhes ordenasse. Em todo o mundo só uma religião não foi conspurcada pelo fanatismo, a dos literatos chineses. Quanto aos filósofos, em vez de serem infectados por essa pestilência, eles foram um remédio contra ela pois o efeito da filosofia é compor a alma e o fanatismo é incompatível com a tranquilidade. Relativamente à nossa santa religião ter sido tão corrompida por estes infernais impulsos, é a loucura dos homens que se deve culpar.

Pior a emenda que o soneto

As declarações de Michael Seufert sobre a inaptidão da JSD são infelizmente outro tiro no pé. No meio de uma série de considerações, o Sr. Seufert afirma:

“E se é um facto que Hitler foi derrotado no momento em que esse exército chegou a Berlim, vindo de Leste, é um reescrever da história chamar-lhe libertação ou celebrar esse dia. É que trocar um ditador – por muito horrível que fosse, como foi o caso de Hitler – por outro – e Estaline jogava com Hitler na liga dos crimes contra a humanidade – não é propriamente ficar livre ou ficar melhor. É trocar uma bota com uma suástica por outra com uma foice e martelo. As duas pisam a liberdade e a vida. Para o povo é igual.”

Vamos lá ver, que a vitória comunista não significou uma libertação é totalmente verdade porque depois foram instauradas uma série de ditaduras comunistas. Contudo, aquele imagem em concreto simboliza a vitória do comunismo, do Exército Vermelho, sobre o Nazismo (porque apesar de todas as atrocidades a verdade é que foi o avanço do Exército Vermelho que ajudou e muito à derrota do Nazismo). Portanto, a analogia é óbvia: a JSD inclui aquela bandeira ali simplesmente como símbolo do comunismo. O que se esqueceram, e o que tem verdadeiramente piada, é que ela é o símbolo da vitória do comunismo sobre o nazismo. Não necessariamente de libertação até porque como foi dito não houve para os Europeus de leste qualquer tipo de libertação. Mas o importante no dia 2 de Maio não era a libertação. Era a vitória. Portanto, a analogia que a JSD estabeleceu nada tem a ver com libertação mas com o facto de associarem, sem querer evidentemente, o anterior governo aos nazis. A bandeira simboliza a vitória comunista sobre uma Berlim em cinzas, a capital da Alemanha Nazi. Aliás, a bandeira é hasteada no dia 2 de Maio, o dia do fim da batalha de Berlim, uma das ofensivas mais sangrentas da segunda guerra, por cima do Reichtag, um dos símbolos do regime alemão. Nada tem a ver com libertação. Tem a ver com triunfo. Como, aliás, a revista TIME aponta neste artigo, dizendo: “The iconic image of Nazi Germany’s defeat”. E acrescenta: ” It was stage-crafted from beginning to end. Khaldei, in fact, had been at his Tass headquarters in Moscow when Soviet forces captured Hitler’s capital. The photographer had received orders from on high — possibly from Stalin himself, it was murmured — to rush there and produce a picture symbolizing the Soviet victory.”

Ou seja, simboliza os comunistas a triunfarem sobre os nazis. E foi essa bandeira que a JSD mostrou.

Post scriptum: Para falar em Libertação, deve-se falar no 8 de Maio. Richard Von Weizsäcker explica porquê, melhor do que ninguém.

Não à romantização da História, sff

No Delito de Opinião, um comentador lamentava a ausência de uma comemoração relativa aos 600 anos da tomada de Ceuta. E eu pensei duas coisas: olha, isto lembra-me que tenho de mostrar ao Paulo um artigo sobre o D. João II e depois pensei, mais validamente, por que raio é que se havia de “comemorar” a tomada de Ceuta. Procurei, procurei e mesmo assim não consegui achar razão em mim para “comemorar” um acontecimento que teve lugar há 600 anos. Comecei então a perceber que o problema não era tanto a tomada de Ceuta mas o verbo aplicado que provavelmente até foi escolhido aleatoriamente pelo comentador, não tendo o valor qualificativo que eu lhe estou a atribuir: A comemoração. Comemorar.*

É óbvio que a tomada de Ceuta se enquadra num contexto de guerra e conquista medieval e que foi o começo de uma série de iniciativas semelhantes no Norte de África. Tudo isto tem um contexto histórico que merece obviamente ser estudado e discutido. Mas comemorar? Porquê? A comemoração de alguma coisa implica que ela é boa. A tomada de Ceuta para os portugueses do século XXI não tem que ser boa. Nem má. Todo o processo que envolveu a tomada de Ceuta e as guerras de conquista no Norte de África relacionam-se com um contexto que uma pessoa do século XXI não percebe, não compreende, não se identifica. Não partilhamos das mesmas ideias, não vemos o mundo e as vivências sociais, políticas e religiosas da mesma forma. E ainda bem que assim é, porque estamos a falar de História.

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Um sintoma na vida pública portuguesa

ferreira leite

Tenho notado com agrado que determinadas tradições absolutamente salutares da vida pública e social portuguesa continuam a persistir (Com vida pública/social refiro-me aos variados comentadores: os que aparecem na televisão e jornais e os que escrevem nos blogs e no facebook). Há várias tradições, antigas, provavelmente até com séculos, mas a que prefiro é aquela que consiste em deixar de ter consideração por alguém e proceder a desacreditar essa pessoa por ela ter deixado de partilhar das nossas opiniões.

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Frases que nunca pensei escrever ou sequer pensar…

…Mas cá vamos nós:

Alemães dizem ao Primeiro-Ministro de Israel que foram eles os culpados pelo Holocausto e não o árabe que ele quer culpar.

Eu acrescento:

1- O holocausto não foi obra do acaso. Não aconteceu porque alguém “incentivou” ou encourajou Hitler. A ideia da eliminação de determinadas “raças” está inscrita na ideologia nazi que tem como base a pureza racial e a glorificação da violência. Não aconteceu porque um dia alguém se lembrou de dizer a Hitler, “então e se em vez de os expulsar os matasses a todos?” A violência e a destruição fazem parte desta ideologia e não podem nunca ser dessaciados dela.

2- O apoio do Mufti a Hitler – ou o facto dele apoiar a perseguição e os massacres de judeus – nada tem a ver com os palestinianos que hoje vivem e morrem na Faixa de Gaza. Usar o Holocausto para justificar a ocupação ilegal de territórios, para fomentar o ódio entre dois povos, para fomentar a guerra é nojento. Netanyahu não honra o próprio povo. Está a instrumentalizar a Shoah. É um inimigo do povo que diz defender.

O Dicionário Filosófico de Voltaire: Liberdade de Pensamento

 

Por volta do ano de 1707 quando os ingleses que haviam vencido a batalha de Saragoça protegiam Portugal e na mesma altura em que, durante algum tempo, deram um rei a Espanha, Lord Boldmind, um oficial que tinha sido ferido, estava a tomar as águas em Barèges. Ele encontrou nesse local Conde Médroso que tinha caído do seu cavalo atrás da bagagem, a uma légua e meia do campo de batalha e que também tomava as águas. A Inquisição era-lhe familiar enquanto Lord Boldmind era apenas familiar na forma de conversar. Um dia, após o vinho, ele teve o seguinte diálogo com Médroso:

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O que Portugal precisa é de um Arnaldo Matos em cada paragem da Carris

Política de esquerda esta? Isto não é política de esquerda. Isto é tudo um putedo!

Desenrasquem-se

 

Há umas boas semanas tive uma discussão sobre este artigo. Ele anuncia que a maioria dos cérebros está a fugir de Portugal porque tem emprego lá fora. A argumentação que me foi apresentada ia no sentido de demonstrar que afinal de contas, as pessoas emigram porque querem. O referido artigo é baseado num estudo que conclui que:

“Dos 1.011 emigrantes que responderam ao inquérito, 53,8% disseram que estavam empregados em Portugal quando tomaram a decisão de partir, 10,1% estavam empregados ocasionalmente (subempregados) e 36,1% estavam desempregados.”

E continuam:

“Então porque emigram os trabalhadores qualificados? Vão em busca de realização profissional. A quase totalidade dos inquiridos neste estudo (95,4%), que foi apresentado esta sexta-feira no Porto, apontou razões profissionais (carreira, realização) como o principal motivo para abandonar o país de origem, logo seguidas de razões económicas (80,6%), como melhores salários e fuga a uma situação de desemprego.”

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Apesar de nunca ter tido a oportunidade de o conhecer pessoalmente penso ser importante dizer que o João sempre foi alguém que me impressionou pela forma como defendia as suas opiniões e pela coêrencia que sempre o caracterizou. O João partilhava de principios salutares e defendia-os de uma forma que está a desaparecer: franca e livremente, sem constragimentos, sem aderir a esta ou aquela posição só porque “é suposto” ou porque “encaixa”. Todos os seus posts neste blog revelam esta independência de pensamento e este espírito crítico. E isto é tão, tão essencial, tão necessário.

O que é preciso são mais pessoas como ele. Até sempre, camarada.

Da xenofobia vigente

Nos últimos dias por intermédio das redes sociais, tenho contactado com opiniões compiladas de várias pessoas que estão contra a vinda dos refugiados. Não vou estar aqui a dizer o que é óbvio: que nas redes sociais há muita xenofobia, que todas estas opiniões xenófobas e racistas são baseadas somente em ignorância e que as pessoas que debitam estes disparates são imbecis. Tudo isto são evidências. Para mim o problema, no caso de Portugal, vai para além disso.

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Pontos sobre os refugiados

1- A verdadeira ameaça à Europa não são os refugiados. Não foram refugiados que há 70 anos mataram seis milhões de pessoas. A verdadeira ameaça são pessoas como o Viktor Orbán que debitam disparates sobre os valores Europeus sem saber nada de história ou de valores Europeus. Como dizia o editor judeu – húngaro – de Thomas Mann, a propósito de alguém que ambos conheciam:

Kein Europäer, sagte er kopfschüttelnd
Kein Europäer, Herr Fischer, wieso denn nichts?
Von grossen humanen Ideen versteht er nichts.

Ele não é um Europeu, disse ele abanando a cabeça.

Não é um Europeu, Herr Fischer? O que quer dizer?

Ele não percebe nada sobre os grandes ideais humanistas.

2- Do ponto de vista das infra-estrutras é evidente que a Europa não tem condições, especialmente se as coisas continuarem assim, para acolher tantos refugiados. A Alemanha diz que vai receber 800 mil pessoas, mas estará mesmo preparada para receber um influxo de quase um milhão de pessoas, especialmente num espaço de tempo tão curto? Mas a questão que se põe agora é como resolver a crise. A resolução passa por atacar a fonte ou seja, a instabilidade que começou nos países de origem. Para isso a Europa tem de admitir, juntamente com os Estados Unidos, a sua responsibilidade na criação desses mesmos problemas. O que teria acontecido se o Iraque não tivesse sido invadido, ou até, indo mais para trás, se a Europa e os Estados Unidos não tivessem interferido sistematicamente na região do médio oriente como andam a fazer desde há 40 anos?

3- Admitindo que haja radicais islâmicos nos milhares de pessoas que chegam à Europa, a experiência diz-nos que os terroristas vêm de avião e têm dinheiro ou nascem na periferia de Paris. Custa-me a acreditar que a malta que arrisca a vida em barcos de borracha porque a alternativa – ficarem em casa – é tão má, venham para matar gente na Europa.

4  – Historicamente, na Europa, o racismo, a xenofobia, as perseguições e os preconceitos religiosos protagonizados por cristãos mataram mais gente que o radicalismo islâmico. Lembrem-se disso quando falarem de História.

A decadência de Houellebecq

Comprei na feira do livro o novo do Houellebecq, Submissão. Já tinha comprado há uns o meses o Mapa e o Território que comecei mas entretanto não acabei de ler porque se meteram outras coisas. Submissão é comparativamente mais fácil de ler mas a minha experiência com o Houellebecq não é muita e portanto o meu texto será em parte construído através de uma série de generalizações mais ou menos banais, mas sinto que vale a pena pensar nelas.

A pessoa lê Houellebecq e fica com a sensação de duas coisas: a primeira é que as personagens são todas iguais. Dei uma olhadela à sinopse dos outros livros dele e não me parecem ser diferentes. As personagens principais são sempre as mesmas (homens, introspectivos, com tendências depressivas, que gostam de mulheres, de beber e de comer): só muda o enredo. A segunda é que Houellebecq tem na cabeça uma série de ideias sobre a civilização ocidental (se quisermos ser generosos, sobre as várias civilizações) e os livros acabam todos por ser sobre isso. Aliás, não fiquei com muita vontade de ler os outros, embora queira acabar o Mapa e o Território que penso ser até mais interessante do que Submissão.

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Merci pour tout

The Charlie Hebdo' s cartoonist Luz shows a special edition of French satirical magazine Charlie Hebdo, on November 3, 2011 during an editorial conference at the Theatre du Rond-point in Paris, one day after the offices of French satirical magazine Charlie Hebdo have been destroyed in a petrol bomb attack last night. The edition of the paper published yesterday, which was called Charia Hebdo - a play on the Islamic word sharia, was intended to

O cartonista Luz do jornal Charlie Hebdo anunciou publicamente a sua intenção de sair do jornal após Setembro. Especula-se de uma forma oblíquia que a razão esteja ligada ás questões financeiras que estão agora a ser discutidas pela direcção do jornal. Mas é evidente que os motivos são muito mais profundos do que isso. Recorde-se que Luz não é só um dos históricos do jornal como foi das primeiras pessoas a chegar à redacção, ainda antes da polícia, e foi ele que encontrou os corpos dos colegas. Depois, forçou-se a si mesmo a trabalhar para chegar à famosa capa: “Tout est pardonné”.

Devo confessar que tenho um enorme respeito por este homem. Se dois fanáticos matassem os meus amigos em nome de uma ofensa imaginária, em nome do ódio e da babaridade pura, em nome de fosse o que fosse, eu nunca perdoaria. A capa de Maomé a chorar, o “está tudo perdoado” é um dos maiores exemplos de perdão. Eu não perdoaria. Mas eu também não sou Charlie. Na realidade, muito pouca gente o é. Muito pouca gente teria a coragem desinteressada para o ser. Muito pouca gente tem coragem para rir e para pensar – porque é disso que estamos aqui a falar. Luz teve-a e tem-na e pagou por isso. Agora é tempo de descansar.

Do problema sério que é o bullying

Eu pensei, ingenuamente claro, que das pessoas da blogosfera, o Rodrigo Moita de Deus fosse um dos que estivesse mais predisposto a simpatizar com o rapaz da Figueira da Foz. Afinal de contas, o Rodrigo há meses (anos?) anunciou publicamente no blog que ele e a família, nomeadamente os filhos, recebiam ameaças de morte por parte dos anónimos que vagueiam o 31. Portanto, não deixa de me espantar que o Rodrigo, face a receber este tipo de lixo que é apesar de tudo, uma forma de bullying psicológico porque nenhum pai devia ser posto perante uma situação de ameaça aos filhos mesmo que a ameaça seja anónima e online, não consiga encontrar em si uma reacção qualquer que não seja gozar com o rapaz. É uma pena.

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Acabem com a infâmia

Já que aqui estou, o Rui Rocha chamou-me a atenção para este artigo em que um membro da Igreja Católica – Padre Gonçalo de Almada – acha que deve aproveitar a violação de uma criança de 12 anos para dizer que o Hospital estava errado, que o aborto é a privação de uma vida e as merdas do costume, um artigo que me dá, sinceramente, voltas ao estômago, um artigo que faz o possível para evitar usar a palavra “criança” para descrever a vítima (A real vítima) mas que aplica a mesma palavra para descrever o feto de cinco meses. Um artigo que usa toda uma série de argumentos para diminuir o drama e o horror ao qual esta criança foi sujeita com o simples objectivo de fomentar a agenda da Igreja em relação ao aborto, de continuar a fomentar estas ideias absurdas. Nem há a decência de se mantarem calados em relação a este caso. Só há – só pode haver – uma palavra para descrever este oportunismo sem vergonha: Nojo. Este artigo é nojento.

É nestes momentos que eu penso (e peço desculpa pelo anacronismo de estabelecer paralelos directos): Voltaire tinha razão. Écrasez l’infâme. Todos eles.

Pablo Iglesias e a retórica de Maximilien Robespierre

marat robespierre danton

Iglesias tem um vídeo e um artigo em que explica muito bem que a fundação da modernidade se encontra na Revolução Francesa. É verdade. É também verdade que a Guilhotina e a morte do rei tornaram-se um símbolo da Revolução e, quase mais importante, um símbolo da República. É obvio o que Iglesias está a dizer: Uma Revolução, especialmente uma Revolução como a francesa, que pretendeu – especialmente a partir de determinada altura – mudar por completo a sociedade em que se vivia, que pretendeu, na realidade, uma regeneração não só politica e social mas sim de valores e mentalidades, não se faz sem violência. Robespierre, tal como Iglesias aponta no vídeo, disse de facto que “castigar os opressores é clemência, perdoá-los é uma barbaridade.”

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As pérolas do Henrique, número 24601

Eu concordo com o Henrique Raposo. Acho que chamar Ernesto ao filho é um disparate. Se é para dar nome de revolucionário a sério que chame Maximiliano à criança.

Uma nota final sobre o Charlie Hebdo

Após ler este texto e este conjunto de textos comecei a pensar que todos têm as suas pertinências, uns mais do que outros. Mas parece-me também trágico que Charlie Hebdo, um jornal que nunca pretendeu ser o símbolo da República francesa (lembro-me de Luz a dizer nesta entrevista “I didn’t go to the spontaneous rally on January 7th. People sang the national anthem. We’re talking about Charb, Tignous, Cabus, Honoré, Wolinski: they would’ve scorned this kind of attitude.” E que “I’m going to think about my dead friends, knowing they didn’t fall for France!” ) que não pretendia influenciar ou coagir, que não pretendia fazer dinheiro ou ser popular, que era, sobretudo, um jornal anti poder e anti-sistema se tenha tornado num argumento para esgrimir em discussões sobre a laicidade, ou o universalismo do republicanismo francês, a forma como lidam com o colonialismo, os limites da laicidade, da liberdade de expressão, ou pior ainda uma discussão sobre a sociedade de valores francesa. Não é que estas discussões não sejam válidas, não é que não se devam ter. Custa-me é ver este jornal que tem tão poucas pretensões, que nunca pretendeu ser um símbolo, ser dado como exemplo máximo de todas estas coisas (ou o exemplo contrário a todas estas coisas, dependendo do autor), como um ponto de partida essencial para todas estas discussões. Charlie Hebdo era só um jornal satírico que nem sequer tinha grande público (esteve praticamente à beira da bancarrota nos últimos anos). Custa-me ver no fundo, o jornal a ser instrumentalizado desta forma não só por políticos mas por intelectuais e activistas que de certeza que têm até as melhores intenções.

É difícil de ver isto porque não há ninguém para falar em nome do jornal, porque as pessoas que podiam falar sobre o jornal em si estão mortas. Parece-me óptimo que se debata estes pontos de vista, que se ponha em causa visões de sociedade mas acho um absurdo caírem no erro de atirar o jornal para todas estas discussões como se Charlie Hebdo fosse de repente um símbolo da França, como se estivesse para o regime como está Charles de Gaulle ou a Marselhesa.

Ao menos tenham a decência de ouvir um dos sobreviventes: ” Today, it seems that Charlie fell for the freedom of speech. The simple fact is that our friends died. The friends we loved and whose talent we admired so very much.”