25 Poemas de Abril (XX)


O Patrão e Nós

Vejam aquele homem de cartola, de lacinho e casacão
A mala cheia de dinheiro que ele transporta na mão
Vive em Cascais ou no Estoril e mora numa mansão
Goza as férias de Verão quando quer e lhe apetece
Tem um Banco e muitas fábricas e tem nome de patrão
Mas agarra que é ladrão
Não faz falta e é cabrão

E olhem agora cá pra nós, boné roto e macacão
Saco da ferramenta e de lancheira na mão
Vivemos no Casal Ventoso, moramos num barracão
O ano inteiro a trabalhar sem Verões nem Primaveras
Temos filhos, muito filhos, sem escola nem sacola
Mas isto vai acabar
À porrada no patrão.

Fausto

25 Poemas de Abril (XIX)

Abril de Sim Abril de Não

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.

Manuel Alegre

Abril não desarma

Associação 25 de Abril, 23 de Abril de 2012

Há 38 anos, os Militares de Abril pegaram em armas para libertar o Povo da ditadura e da opressão e criar condições para a superação da crise que então se vivia.
Fizeram-no na convicta certeza de que assumiam o papel que os Portugueses esperavam de si.
Cumpridos os compromissos assumidos e finda a sua intervenção directa nos assuntos políticos da nação, a esmagadora maioria integrou-se na Associação 25 de Abril, dela fazendo depositária primeira do seu espírito libertador.
Hoje, não abdicando da nossa condição de cidadãos livres, conscientes das obrigações patrióticas que a nossa condição de Militares de Abril nos impõe, sentimos o dever de tomar uma posição cívica e política no quadro da Constituição da República Portuguesa, face à actual crise nacional. [Read more…]

25 Poemas de Abril (XVIII)

A Valsa da Burguesia

É a valsa da burguesia
Tocada bem a compasso
Pela social-democracia
Para nos travar o passo

Umas vistas muito plurais
Sobre a questão sindical
Nós somos todos iguais
Mas quem manda é o capital

Um ar santinho e beato
De vitima inocente
É o bem triste retrato
Dos que querem dar cabo da gente

Socialismo, sim mas pouco
Para não levantar suspeitas
Barafustar como um louco
E alinhar sempre com as direitas

José Barata Moura

25 Poemas de Abril (XVII)


Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.
Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão. [Read more…]

25 Poemas de Abril (XVI)


Monangambé

Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão: [Read more…]

25 Poemas de Abril (XV)

Assim cantamos e escrevemos

nas cartas e nas paredes.

Porque nem vida nem sonhos

cabem nas malhas das redes

que o inimigo nos lança.

Temos coisas na lembrança

que cantamos tantas vezes.

Ao ponto de ser mais branca

uma canção sobre os meses

que uma pomba em pleno voo. [Read more…]

25 Poemas de Abril (XIV)


Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência [Read more…]

25 Poemas de Abril (XIII)

Para Aquém de Abril

Entardeceram
nos umbrais da aurora
as memórias do teu rosto
Abril…
Nunca mais soprou o vento
depois
de Novembro
a vida
petrificou-se na inconstância
do rio…
não mais navegam
o teu sorriso
de florestas virgens [Read more…]

25 Poemas de Abril (XII)

De Coração e Raça

“Sou português de coração e raça
Não há talvez maior fortuna e graça”

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso trabalhar
em vez de andar para alugar
com escritos na camisa
e o dinheiro que desliza
do salário para a despesa
compro cama vendo mesa
deito contas à pobreza [Read more…]

25 Poemas de Abril (XI)

Eu Sou Português Aqui

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento. [Read more…]

25 Poemas de Abril (X)

XÁCARA DAS BRUXAS DANÇANDO

1.

Era outrora um conde
que fez um país,
com sangue de moiro,
com laranjas de oiro,
como a sorte quis.

Há bruxas que dançam
quando a noite dança,
são unhas de nojo,
são bicos de tojo,
no tambor da esperança.

Ventos sem destino
que dizeis às ramas?
Desgraça bramindo
é a nós que chamas.

No país que outrora
um conde teceu
com laranjas de oiro,
com sangue de moiro,
tudo apodreceu. [Read more…]

O Américo Tomás do século XXI

Luís Manuel Cunha

Costuma dizer-se que a história tem tendência a repetir-se. Primeiro como tragédia, depois como farsa. Estávamos em 1969. Em 22 de Junho de 1969. A Académica preparava-se para disputar a final da Taça de Portugal com o Benfica no Estádio Nacional, no Vale do Jamor. Estava-se em plena crise académica despoletada após a prisão de Alberto Martins, então presidente da Associação Académica e na subsequente greve aos exames. A equipa de futebol, constituída maioritariamente por estudantes universitários, respeitava escrupulosamente o luto académico decretado em Assembleia Magna da Academia. Preparavam-se grandes manifestações dentro dos estádios, de apoio aos jogadores, de informação à população e de divulgação das razões da luta estudantil. O Vale do Jamor e particularmente o Estádio Nacional iriam transformar-se no maior comício alguma vez feito contra o regime salazarista. Que fez então Américo Tomás, a quem competiria entregar ao vencedor a taça conquistada? Simplesmente não apareceu. Cobardemente. [Read more…]

25 Poemas de Abril (IX)

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Aproveito a tua neutralidade,

o teu rosto oval, a tua beleza clara,

para enviar notícias do bloqueio

aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos

nos dias que embranquecem os cabelos…

tu lhes dirás a comoção e as palavras

que prendemos – contrabando – aos teus cabelos. [Read more…]

Na Coreia do Norte como em Celorico de Basto

coisas iguais, outras apenas parecidas.

25 Poemas de Abril (VIII)

Cantar Alentejano from Gustavo Imigrante on Vimeo.

Um poema de Jose Afonso, “ilustro-animado-analogicamente”,
por Gustavo Imigrante.
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

25 Poemas de Abril (VII)


SEGREDO

Lá, na última das celas
nódoa negra de açoites,
não há dias, não há noites
porque as as noites têm estrelas.

Lá, só na sombra que dói.
Sombra e brancura de um osso
que o preso remói, remói
no fundo do seu poço.

Lá, quando o vierem buscar
amanhã, depois ou logo,
terá na alma mais um fogo,
mais uma chama no olhar.

Luís Veiga Leitão

25 Poemas de Abril (VI)

Como lobos de súbito
irrompem na planície citadina
carregados de morte

Seu nome é violência
Trazem nas mãos mortíferos sinais
e de órbitas vazias

caminham em silêncio
envoltos na terrível solidão
do crime encomendado [Read more…]

25 Poemas de Abril (VI)

Por ti , pelo teu ódio à Liberdade
à Razão e à Verdade
a tudo que é viril, humano e moço
a fome e o luto apagaram os lares
e os homens agonizam aos milhares
no exílio, no hospital, no calabouço

Por ti, raivoso abutre,
cujo apetite sofrego se nutre
de lágrimas, de gritos, de aflições,
gemem nas aspas da tortura
ou baixam em segredo à sepultura
os mártires que atiras às prisões [Read more…]

25 poemas de Abril (V)

 
O Viandante
 
Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu,miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite,foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.
 

Carlos de Oliveira

O Fim das Reformas (quaisquer reformas)

Há, na verdade, imagens que dispensam mais palavras.
Mas aceitam comentários.

25 poemas de Abril (IV)

 

As colunas partiam de madrugada

 As colunas partiam de madrugada

Para o norte partiam para a morte

Partiam de Luanda flor pisada

Levavam morte de Luanda para o norte.

 

De Luanda partiam flor pisada

Colunas que levavam.

Luanda para o norte para a morte

De Luanda partiam madrugada.

 

 De Luanda madrugada para o norte

As colunas partiam

Levavam de Luanda a flor pisada

Para a morte do norte para a morte. [Read more…]

25 Poemas de Abril (III)

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho… [Read more…]

25 poemas de Abril


Estamos em Abril e, como sempre, quero assinalar uma das datas mais importantes das nossas vidas, mesmo que a minha tivesse começado apenas 3 anos antes. Não vivi o 25 de Abril e não conheci Salgueiro Maia, que é provavelmente a pessoa que guia de forma mais marcante a minha existência. O meu farol, a minha linha de rumo. Não o conheci – é algo de irrecuperável no meu percurso de vida.
Daí os 25 poemas sobre o 25 de Abril. Porque é isso mesmo que Abril é – poesia.

A SALGUEIRO MAIA

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

Sophia de Mello Breyner Andresen

20 anos sem Salgueiro Maia

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O-tolices que dão Tejeradas


Quer um golpe de Estado e está-se como sempre nas tintas para as eleições, mas ainda não percebeu qual a real situação interna nas forças armadas. Aparentemente nem sequer deu conta do que se passa pelo mundo, neste longo processo de mais de trinta anos que tem feito cair as mais seguras cadeiras do poder. Fala da perda da “alta” soberania – só ele saberá o que isto quer dizer -, como se esta mitigação da nossa autonomia fosse absolutamente voluntária e consciente. Não, o problema reside no facto da perfeita inconsciência e irrealismo por gente que como este cavalheiro, se vê sempre sobre um palco declamando “pás e gajos” diante de um espelho. Enquanto isso, lá fora Roma arde. É sempre assim.
Tenha Otelo em boa nota a seguríssima hipótese de a haver qualquer “golpe de Estado”, o seu anúncio não nos chegar através de cantorias ou militares woodstock. Teremos provavelmente alguém em grande uniforme e de óculos escuros. Ele que pense no caso.

êta-lê-lê, ki-bê-lêza…


Há uns dias, foi dizendo que dentro em breve teria de iniciar os discursos de forma diferente, onde a par dos “amigos e amigas, companheiros e companheiras”,  coubessem também os “camaradas”.

Paulo Portas esteve na feira de Sátão, lá para as bandas do Cavaquistão. De cravo na mão, foi dizendo coisas acerca do seu estado de espírito, “mais esquerda que o PSD” . Culminou esta acção de campanha, com uma visita a uma exposição de murais sobre o 25 de Abril. Sim, leram bem, é isso mesmo.

Com um bocadinho de sorte, um dia destes, Jerónimo de Sousa ainda o convida para substituir o desaparecido MDP/CDE, fazendo ingressar o CDS na CDU. Como a Frente Nacional da antiga RDA.

E para o próximo, a senha pode ser esta

Grândola Vila Morena, arranjo de Vítor Rua

25 de Abril: deixaram-no para ontem, queremos outro amanhã

Deolinda – Movimento Perpétuo Associativo

25 de Abril: tinha um defeito de fabrico, queremos um novo

Oquestrada – Se Esta Rua Fosse Minha