Altruísmos

AI COIMBRA

Um dos tiques mais irritantes da comunicação económica e empresarial dos nossos dias – tributário do “politicamente correcto” que tantos veneram – é a persistente ideia de que uma empresa abre, não para ter lucro mas para, de modo altruísta, “criar postos de trabalho”. Agora mesmo foram autorizados em Coimbra – com potenciais efeitos devastadores sobre o tecido social e económico da cidade – mais dois hipermercados em pleno tecido urbano central da urbe, um deles na sua avenida axial. E como se comunica a golpada?

“Duas empresas vão criar em Coimbra 100 postos de trabalho”. O habitual servilismo jornalistico não cuida de saber quantos empregos esta operação vai destruir – obviamente muitos mais do que os que vai criar -, quais os seus efeitos funestos no pequeno comércio da baixa coimbrã e na relação dos habitantes com as áreas mais nobres da sua cidade. Que lhes importa isso se – não sei se já vos disse… – vão ser criados 100 – postos -100 de trabalho? Digamos todos em coro: “Obrigado, sr. Belmiro!”.

Rendição

O Tribunal de Contas era uma instância da qual, embora timidamente, saíam pareceres e relatórios onde se vislumbrava alguma da decência que gostaríamos de ver noutras estruturas do Estado. Por ser assim, muita da sua produção era ignorada pela comunicação social e pelo governo. Hoje não foi assim. Excitada pelo relatório agora publicado – e, designadamente, no que diz respeito à Segurança Social – a imprensa não se fez rogada em agitar os monstros habituais e o governo esfrega as mãos de contente. Através de estatísticas com metodologias que já fariam rir um cientista social sério há anos, o TC vem, agora, apresentar a sua rendição à doutrina social dos canalhas e oferecer-se para receber as festinhas no lombo que estas coisas sempre proporcionam. Tristeza.

P. H.

Os labregos do clube do croquete nacional estão exultantes. Uma das suas musas, Paris Hilton, está entre nós. E a televisão dá. Destacando-se por ter tentado, com igual grau de indigência, diversas actividades sociais e “profissionais”, resolveu agora ser DJ. E a televisão dá. Chegou entre luzes e aplausos, bamboleando-se pela passadeira vermelha – que, parece, tinha exigido…- com a sensualidade de uma esfregona. E a televisão dá. Subiu ao palco, colocando-se atrás das maquinetas com ar esclarecido. E a televisão dá. Lá deu com o botão que punha em marcha a mistura “musical” que alguém terá preparado para ela, começando a agitar-se como quem está com comichões várias. E a televisão dá. Posa depois, entre beijinhos, com o ramo feminino da família de Cristiano Ronaldo, sobre cujos atributos discorreu. E a televisão dá. Nos programas da manhã não faltarão comentários sobre comentários dos pomposamente designados “comentadores sociais”. Tudo a televisão dará. Até à náusea.
(Nota para os mais distraídos: este post não é sobre Paris Hilton)

E segue…

O Marinho largou a advocacia para ser parlamentar europeu; vai largar o cargo de parlamentar europeu para se candidatar a parlamentar na Assembleia da República; posteriormente, deixará este cargo para se candidatar à presidência da República.

Vamos lá Marinho, pá, ousa o golpe de asa final e candidata-te à coroa do Reino Portugal. Mal podemos esperar por um debate entre ti, o Duarte Nuno e o fadista Câmara.

OZ

–  “Finalmente, criadas salsichas de peixe que sabem a carne” (anúncio patrocinado pelo IPMA, dando conta de porfiadas investigações). Pronto. Agora já sabem o que o Crato entende por “investigação útil”.
– “Se reduzirmos as consultas para um máximo obrigatório de 15 minutos, deixa de haver falta de médicos de família” (declaração proferida, levantando o focinho das folhas de cálculo, pelos contabilistas do Tribunal de Contas). Pronto. Agora já sabem com resolver este grave problema e vislumbrar, seguindo este raciocínio até às últimas consequências, como se configura a solução final.
– “Ricardo Salgado não tem em seu nome um único bem; nem uma casa, nem um simples automóvel” (noticiam os jornais). Pronto. Agora, quando, para as bandas de Cascais, virem passar um homem de meia-idade, com um fatinho de 20 000 euros e acessórios personalizados, circulando de patins, já sabem: é o sr. Ricardo Salgado.

Em defesa da honra e consideração

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Arrastado pelas ruas da amargura, o nome de Crato, identificado com um conhecido ministro, espécie de híbrido entre a União Nacional e o maoismo à portuguesa, tem sido duramente injustiçado. Eu compreendo. Os meus colegas professores, emboscados pelo tratante e seus descerebrados colaboradores, adquiriram um compreensível asco pelo nome e pelos actos do tratante. É um processo de associação inevitável. Por isso, aqui estou a lembrar que o nobilíssimo nome Crato, que já brilhava nas bandeiras do priorado do mesmo nome, é ostentado por um pequeno mas justamente orgulhoso Concelho do Alto Alentejo. Ao contrário do que acontece com a corja da 5 de Outubro do outro Crato, neste tudo é bom. Não é muito povoado, mas os habitantes que tem – não mais de 4000 – são excelsos e entre eles estão algumas das minhas pessoas preferidas, como diria o Derek.

Assim, no sentido de desagravar a ofensa feita à insigne vila do Crato, desafio os meus amigos a visitá-la e comprovar o que aqui digo. Os que podem, assentem arraiais nesta pousada que aqui vos mostro ( restauro do antigo mosteiro da Flor da Rosa). Se não tiverem argumento$ – o que acontece a tantos de nós…- parem aqui para beber um copo ou um simples café. Serão bem recebidos. Mas quando estiverem a falar do Crato (Nuno) tenham cuidado, para não haver confusões. É que o pessoal por aqui anda muito susceptível. E compreende-se.

O garante

O presidente Aníbal (o que confiava no BPN) veio garantir-nos que podemos confiar no Espírito Santo. Não sei a qual deles se refere. Mas se for àquele que me explicaram na catequese, fica-lhe mal, porque Portugal deve ser e portar-se como um estado laico. Se for ao do BES, fica-lhe mal, porque Portugal não deve ser nem deve portar-se como um estado lacaio.

A justificação

Na sua selvática operação em Gaza, as tropas israelitas bombardearam, entre outros alvos civis, um hospital. Daí resultou mais um trágico cortejo de mortos e feridos. O argumento dos facínoras foi o habitual: os elementos do Hamas escondem-se entre a população, dizem. Tratando-se de um território minúsculo e de enorme densidade populacional, o argumento seria sempre inconcebível. Mas bombardear um hospital, sabendo-se exactamente o que se está a fazer – não se tratou de um erro de cálculo – é um acto que resume bem a barbaridade do que se passa no terreno. É que, mesmo que fosse verdade que havia homens do Hamas no hospital, pergunta-se: e daí !? Porque raio acham normal que isso explique o ataque? A naturalidade com que se procura justificar este gesto sanguinário mostra quão longe estamos da retórica dos “efeitos colaterais”. Agora é o puro terror arvorado em razão de estado. Com a bênção dos padrinhos

Falem por si

Ana Drago, dizem, vai abandonar o Bloco de Esquerda. Nada tenho com isso e muito menos com as razões que alega. Não sou comentador televisivo e não me apraz a especulação gratuita nem os julgamentos sumários que tanto agradam à maior parte dos nossos jornalistas. Mas há um ponto que, por ser coisa recorrente em crises de todos os partidos, importa relevar: a frequência com que os que saem fazem questão de arvorar a representação de um grupo ou organização que dê relevo – e, talvez, prestígio – à sua dissidência.

Reparem que não discuto aqui – era o que faltava – as razões ou convicções que levam alguém a abandonar um partido. Muitas pessoas o fizeram com dignidade e discrição sem alardear um ego sobre-dimensionado. Outros portaram-se como ratos num barco que pensam em risco. Há de tudo. Até os que mudam de partido e mantêm o seu lugar no Parlamento, atacando, em nome do seu novo amor, o partido a que pertenceram (não é, José Magalhães?). Outros há que vão tratar da vidinha. Há ainda quem sofra uma epifania e faça uma volta de 180º, passando a servir o Senhor ( e os senhores…não é Zita?). Mas o que me traz aqui é, como escrevi acima, a batota da falsa representatividade que alguns dissidentes alegam, por iniciativa própria ou embalados por uma comunicação social rapace e tendenciosa.

É a vez de Ana Drago. Por que diabo não desmente publicamente as notícias que proclamam que consigo toda uma corrente sai do BE? Por que diabo é para aqui chamado o Fórum ou a Política XXI e, pior ainda, porque se usa despudoradamente o nome de Miguel Portas? Não tendo nada com o BE – mas nele não me faltando amigos e companheiros de luta de tempos mais difíceis – a minha reacção decorre da náusea de já ter visto este número muitas vezes – incluindo no meu partido – e sempre com argumento semelhante, só mudando os actores. Por que diabo não se mantêm na sua dimensão e falam por si? Se alguém os quer acompanhar, tem voz e cérebro próprios.

O lapso

Fernando Leal da Costa
Porque são os mais pobres e os mais fracos que têm de vir ao Serviço Nacional de Saúde“, disse Fernando Leal da Costa, secretário de estado adjunto do MS, deixando clara a sua perspectiva sobre o que deve ser o SNS. O cardeal Cerejeira não diria melhor.

Tubarão na costa

sopa_cacaoParece que pelas praias de Grândola foi avistado um tubarão. Eu se fosse ao bicho tinha cuidado, já que, por aquelas bandas, tem grandes hipóteses de acabar numa panela transformado em sopa de cação.

É que, na relatividade destas coisas, o animal é cação quando o comemos. Só é tubarão se for ele a comer-nos a nós…

Sede uns senhores, carago!

jose-gomes-ferreira
É extraordinário o ódio que despertam entre os escrevinhadores e comentadores oficiais homens que pensam, falam e agem coerentemente com as convicções que (se) constroem. A adoração pelas alforrecas morais e os invertebrados cívicos e políticos continua a ser uma toxina incurável herdada dos 48 anos malditos de infecção das consciências. E não faltam arautos bem pagos e apaparicados para manter tal doença crónica. Como eles gostavam de ter um bastonário da Ordem dos Médicos ( e de outras ordens profissionais) de cerviz caída, fazendo vénias ao poder e frequentando o clube do croquete. Como lhes era grato ter um dirigente da Fenprof calado, obediente e beijando a mão ao governo. Mas não têm nada disso. Os senhores doutores em geral e de todos os graus – veja-se bem! – portam-se mal. Parece não se importarem que os considerem “trabalhadores” (bbrrrrr…), prescindindo das fidalguias com que os tentam seduzir. E, para cúmulo, não só defendem os seus interesses como parecem preocupados com os de todos nós! Abusadores! Assumi o vosso ilustre estatuto e portai-vos como os senhores que deveríeis ser. Afinal tendes – todos! – mais habilitações académicas que os membros do governo. Se continuardes a fazer ondas, sereis execrados por todas as pessoas finas da elite – desde o Relvas à Lili Caneças! E, assim, é bem feito que continueis merecer os exorcismos comentatórios dos senhores José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira, Marques Mendes e outros répteis

Conselho de Estado

Houve Conselho de Estado. Dele resultou um daqueles comunicados. Quando o secretário lia o comunicado o meu gato miou. Uma coincidência.

A diferença entre os dois sons é que o miado do meu gato tinha sentido e um significado: o seu prato de biscoitos estava vazio e ele reclamava. Quanto ao Conselho de Estado, só produziu uma declaração relevante quando Manuel Alegre declarou que tinha fome. Como o meu gato, afinal.

Eleições primárias

“Primárias”? A língua portuguesa é mesmo tramada…

Os pensadores e os carrapatos

Está por aí a tentar fazer caminho, com a ajuda de esforçados comentadores televisivos, a ideia de que há uma geração de intelectuais de direita a “sair do armário” ou lá que raio é – a imagem não é lá grande coisa, mas é lá com eles.

Dada a consabida fragilidade dos afloramentos reflexivos de tal gente, apesar da sua promoção mediática (o deserto de ideias que são, hoje, as televisões, é propício, como outros desertos, à sobrevivência de tais espécies), resta aos mais atrevidos alegarem convictamente a sua condição de herdeiros de Edmund Burke e C.K. Chesterton. Assim, pensam eles, à sombra tutelar destes vultos, talvez os levem a sério. ‘Taditos. E infelizes de nós.

Diferença no detalhe

No confronto entre Seguro e Costa é, hoje, consensual a constatação do vazio de propostas concretas ou de um debate conceptualmente interessante. Como era de esperar, os discursos de Costa no American Club e no Tivoli foram simples exercícios de oratória em que a ausência de ideias se escondia sob a muralha das palavras. Todavia, por ser de justiça, gostaria de relevar uma das pouquíssimas diferenças de substância entre eles: interpelado pela torpe golpaça eleitoral tentada por Seguro (redução para 180 deputados na Assembleia da República e alteração “ao conveniente” das leis eleitorais), Costa refutou e rejeitou tal proposta, garantindo que, na sua perspectiva, ela era inaceitável por ferir o principio da proporcionalidade – que considerou intocável – e consistir numa ilegítima tentativa de “ganhar na secretaria o que se perdeu nas urnas”. Mau grado a pobreza da analogia futebolística, louve-se e grave-se na pedra esta declaração de António Costa, já que aquele vai ser um caminho tentado pelos sectores mais golpistas do “bloco central”, com previsível efeito catastrófico sobre a legitimidade da representação parlamentar.

Hoje começou o Verão

A baixa temperatura que se regista só tem uma explicação: o governo cortou no calor.

Goldfinger à moda da casa

Lembram-se daquela cena de Golfinger em que o arqui-vilão, depois de promover uma luta de morte entre dois peixitos combatentes, dá o vencido a comer ao seu gato que aguardou sabida e pacientemente ao colo do dono? Ocorreu-me isto ao constatar que os donos da direita têm uma nova tarefa para os seus servidores: aproveitar a luta pela direcção do PS e, promovendo combates televisivos vários, alimentar-se dos despojos.

Ainda ontem, duas figuras de segunda linha – Brilhante e Perestrelo – se degladiaram ferozmente perante um Paulo Magalhães que, normalmente provocador e reacionarote, se deleitou deixando falar livremente os intervenientes, na certeza de que quanto menos interrompesse mais eles se enterravam. Como aconteceu. E não se espere ouvir nestas discussões uma ideia, um projecto, uma proposta concreta. Tudo o que se obtém é má língua, indiscrição, deslealdade. Só uma proposta concreta se ouviu: a redução do número de deputados, alteração das leis eleitorais e bipolarização forçada. E foi isto que me motivou esta nota. Esgatanhem-se, devorem-se, mas deixem-nos em paz.

Outra vez, Herberto?

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Herberto Helder é um poeta e escritor enorme – só não digo que é o maior poeta português vivo porque sou pouco dado a fazer estas proclamações, pelo menos sem passar todos os vates a fita métrica – e sempre esperei os seus livros com o afecto que se dedica àquilo que se ama. Mas desta vez, após ter vivido repetidamente esta cena – há livros que só possuo porque mão amiga, estando eu impossibilitado, me valeu – declaro que estou farto. Não me sujeito mais a ir para a fila dos ansiosos clientes ou a maçar os livreiros meus amigos para obter a raríssima e irrepetível edição de A Morte Sem Mestre.

A recorrente cena do “ou compras hoje ou nunca mais o vês” não terá mais em mim um expectante basbaque. Não sei se esta situação é uma técnica de marketing saloio um uma manifestação de egomania por parte do poeta. Herberto é magnífico. Herberto tem, entre outras virtudes, as de não nos massacrar com entrevistas, não espernear nos media para chamar a atenção, não fazer conferências a explicar o que queria dizer nos seus poemas. Ele é simplesmente grande no seu silêncio. Ele compreende como ninguém a importância do silêncio do artista e a autonomia do leitor. É no uso dessa autonomia aqui digo que não tenciono mexer uma palha para ter este último livro – esgotado em poucos minutos e já com oferta no mercado negro – nem tenciono alinhar, mais uma vez, no golpe de comprar a próxima Poesia Toda para preencher o vazio. Chega.

A coelha

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No dia de Portugal, além dos discursos protocolares, brilhou, graças ao jornalismo rastejante que nos brinda, geral e entusiasticamente, com este lixo, Teresa Leal Coelho. Deputada, portadora do oportuno título de “professora de direito” – que foi para isso que foram criadas “universidades” como a Lusíada -, investigadora – como qualquer idiota pode ser – do “instituto de defesa nacional” (desculpem, mas não consigo usar aqui maiúsculas), titular de cargos vários no PSD e despedida de todas as funções e empregos não protegidos politicamente, botou jornalística entrevista e, mais do que qualquer das individualidades presentes, mereceu a servil atenção da imprensa.

Não se fez rogada, claro. As infames baboseiras que já tinham lamentável existência escrita passaram e entrar-nos pelos olhos e pelos ouvidos. Não temos para onde fugir. Retenho, sobretudo, a vontade que a senhora tem de que sejam punidos os juízes do Tribunal Constitucional sempre que decidam inconvenientemente (não estou a brincar, a criatura defende mesmo esta e outras). Em verdade vos digo: se, naquele tempo, Jeová tivesse enviado aos Egípcios semelhante praga de láparos, o Faraó Ramsés tinha cedido logo à primeira.

Ovos

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“Como é que uma sociedade (…) pode conferir tamanhos poderes a alguém que não foi escrutinado democraticamente?”. Não, esta frase não foi proferida por algum anónimo analfabeto político. Ou, pelo menos, não anónimo. O seu autor é Passos Coelho, 1º ministro de um país europeu do século XXI.

O juízo é torpe e canalha por tantas razões que seria fastidioso percorrê-las todas. A democracia tem em si, entre outros, como pilares centrais, as ideias de que a lei obriga igualmente todos os cidadãos e que a soberania reside no povo. Existem, como se sabe, diversas perspectivas sobre a sua realização, diversos modos de conceber como a vontade do povo se traduz em mandatos e qual a sua natureza, mas nenhuma delas dispensa aqueles dois pontos fundadores. Decorrendo deles se encontrou um equilíbrio na separação de poderes, estabelecida num momento em que a comunidade concorda consensualmente em estabelecer o seu contrato fundamental. Os mecanismos representativos respondem à complexidade das sociedades modernas. Como é óbvio, nem todas as entidades detentoras de poder de estado são eleitas. O próprio governo só o é indirectamente. Tal como o Tribunal Constitucional, cuja legitimação assenta em eleição por maioria qualificada na Assembleia da República, a que todos chamam “casa da democracia” e, no caso presente, por uma maioria do bloco central e da direita. O seu papel, consensualmente aceite é, precisamente, velar pelo respeito, a todos os níveis, da Lei fundamental, fonte de todas as leis.
Passos Coelho ignora tudo isto e é apenas um pateta ignorante? Não nos iludamos. O ovo da serpente choca à nossa vista porque os idiotas pensam que é um ovo de galinha.

De quem é amigo o Tribunal Constitucional?

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Está no senso comum, alimentado pelos aflitos, por um lado, e pelo governo, por outro, a ideia de que o TC é o paladino do povo contra os abusos do governo, o aliado dos oprimidos. A guerra obscena e politicamente perigosa que os nossos governantes desencadearam contra este órgão jurisdicional parece dar razão a esta impressão. Ora, o Tribunal Constitucional não tem de ser amigo de ninguém; tem de ser justo – justo de justiça, não de justeza.

Por mim, bastava-me que o TC avaliasse com a isenção e objectividade possíveis as questões que lhe submetem. Penso que ninguém espera que ele se transforme num negativo do governo e invada as áreas de competência de outros órgãos de soberania, como proclama o governo, dantes com a sobriedade de quem bebeu meia garrafa e, agora, com a boçalidade de quem bebeu a caixa inteira. O que, bem vistas as coisas, acrescenta a este governo mais um atributo a juntar a todos (negativos) os que já mereceu: a ingratidão. [Read more…]

Ai!

Os vários canais de televisão estão embevecidos com estas histórias de princesas e princeses. Ai que magnânimo e sábio que foi o rei! Ai que jovem tão aprumado e educado que é Filipe! Ai a anorexia de Letícia! Ai que bondoso foi o príncipe que casou com uma plebeia! Ai o partido socialista espanhol que é republicano mas jurou defender para sempre a monarquia! Ai que os malandros dos republicanos, que não percebem nada disto e não sabem nada de amores românticos, andam na rua a exigir um referendo! Aiii!!

Rotina

Depois dos crápulas nacionais, chegou a vez dos gangsters internacionais se pronunciarem sobre o acórdão do Tribunal Constitucional. Lá está o boneco de corda Barroso a falar de alto como se lhe tivessem enfiado uma vassoura no cu, logo seguido pelo psicopata Olli Rehn com as suas ameaças veladas. Arrebitado, o jornalista cita não sei quê do Financial Times. Liga depois para a bolsa para a desastrosa notícia da subida dos juros da dívida mas, azar dos diabos, eles já tinham baixado outra vez. Surgem mais insinuações sobre impostos e cortes em pensões e subsídios. É a extática felicidade da canalhada.

Quadrinhas da época ao jeito popular

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Aqui estou pelos santinhos
A versejar a preceito
As musas dão-me beijinhos
P’ra que faça obra de jeito

Estão murchos, os manjericos
Que os ares andam pesados
Andam contentes os ricos
E os pobres andam lixados

Mas até os Santos notam
Que se há muitos que dão luta
Há muitos outros que votam
Naqueles filhos da p****

Este governo é um colosso!
Está- se a cagar p’ro povinho
O Paulo a cagar fininho
O Pedro cagando grosso
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Cavaco recebeu a selecção e respectiva comitiva

Forneceu almoço e tudo. Os jogadores resistiram e parecem estar bem.

Era fatal

Não adianta fazer platónicos votos para que o PS trate em paz dos seus problemas, deste modo fazendo contrato: nós deixamos o PS em paz e o PS deixa-nos em paz a nós. Nada a fazer.

Tal como aqui se prognosticava desde a fala de António Costa na Quadratura, o programa ia ser fazer a cantada à esquerda para casar com a direita. E digo cantada porque toda esta retórica é e será oca de ideias e propostas concretas de entendimento e recheada dos truques habituais, com uma nota só, como o samba: convencer o pagode de que não há alianças à esquerda porque a esquerda “radical” não quer comprometer-se. Soares, ontem, até lembrava os “bons tempos” – que lata! – de Álvaro Cunhal em que foi possível a unidade (referia-se às presidenciais, em que ele, Soares, enfrentava na 2ª volta um recente – posteriormente reciclado – delfim do regime deposto). [Read more…]

História infantil ou o “Euro-Não Euro” explicado às crianças

(plateia infantil atenta; o contador começa)

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Era uma vez um avião muuuiiito bonito chamado Euro. Nesse avião iam, em passeio, meninos e meninas de todos os partidos, embora alguns gostassem mais do avião que outros. Tinham sido as suas famílias a fretá-lo – embora, valha a verdade, todos tivessem sido obrigados a pagar. Iam muuuuiiiito contentes, embora não soubessem ao certo o programa da viagem. De repente – horror! – o avião pegou fogo! “Não tenham medo”, diziam os meninos que gostavam muito do avião, entre os quais os que vestiam bonitas camisas laranja e cor de rosa tinham visível ascendente sobre a maioria dos outros. “Os nossos pais garantiram-nos que é seguro e muito bom. Vamos ficar aqui sossegados que tudo se resolverá, o fogo apagar-se-á.”

“Não!”- gritaram alguns pequenos de camisas sortidas e de cores mais ou menos indistintas. “Antes queremos morrer da queda que queimados! – gritavam, fazendo menção de se dirigir para a porta. Entretanto, um puto de conspícua camisa vermelha foi-se dirigindo para o fundo da cabina. “Onde vais, ó comuna?”- perguntou-lhe um dos garotos. “Vou ali ao fundo providenciar, à cautela, um para-quedas. E, já agora, um extintor…”.
E assim, meninas e meninos, acaba a nossa história, disse o contador. Perceberam? Siiiiiim – responderam as crianças. Para os seus botões, o contador sussurrava: se estes percebem, porque diabo não percebem os crescidos?

Legislativas

Passos Coelho, no seu estilo de traste dialéctico, inaugurou a campanha eleitoral para as legislativas, discursando – na condição de 1º ministro! – com violência, grosseria e sem qualquer consideração dos mecanismos legais parlamentares contra o PCP – pela sua iniciativa da Moção de Censura – e contra o PS – pelo facto de este se encontrar em processo de discussão de liderança.

Passos e o seu títere Portas perderam qualquer noção do que significa vivência democrática – nos termos da lei e, até, do mais elementar bom senso. Isto não é um governo, é um caso clínico.

O Presidente da C.E.

Ângela Merkel estava preocupada. Aquela ideia de incluir na nomeação do presidente da Comissão Europeia a consideração dos resultados eleitorais do Parlamento Europeu nunca lhe agradara. E quando viu os candidatos, pior ainda. Começando no gá-gá luxemburguês até ao vermelho grego, passando por uma ecologista e o seu próprio rival interno, aquilo não augurava nada de bom. E agora, perante os resultados, como fazer? Estava nestas elucubrações quando recebeu como que uma revelação! Na verdade, embora os resultados dos vários candidatos fossem expressivamente diferentes, nenhum tinha tido verdadeira maioria, isto é, face ao parlamento, cada um deles tinha menos votos que todos os outros juntos. Só havia uma solução: legitimar um escolhido por uma bênção do alto e, já que as igrejas ficam muito caras e Ângela não sabia como falar com Deus, como faziam os antigos, só lhe restava ungir o escolhido com uma bênção mágica, como a que Merlin tinha brindado Artur, por exemplo. Então, ocorreu-lhe que o seu próprio nome tinha algo de celestial: Ângela! Quer dizer: Anja (lamento incomodar os eruditos que discutem o sexo dos anjos, mas esta é mesmo feminina). Ela própria podia, pois, outorgar a bênção legitimadora. Escolheu um nome que lhe agradava – nenhum dos candidatos, claro – e lá foi ela para a reunião do Conselho Europeu, rosnando “Eles vão ver, eles vão ver…”.