O jornal A Bola e as aspas

Já nos vamos começando a habituar a esta excelente prática. Qualquer dia, em vez de “reflete” teremos reflete (sic) ou mesmo *reflete. Devagar, devagarinho, regressaremos a reflecte — e não só: voltaremos igualmente a acção, a direcção, a decepcionado, a corrector, a pára, enfim, paulatinamente, regressaremos à ortografia.

abola 6112013

A boa prática das aspas e o *busão de Higgs

Expresso8102013

O manual de boas práticas do jornal A Bola parece estar a fazer escola. O próximo passo será o de pôr entre aspas todas as palavras escritas em AO90, não se limitando essa boa prática àquelas que se encontram no título.

O passo seguinte? É fácil: abandonar as aspas e, como Daniel do Rosário (e não só), cumprir o disposto quer no Decreto n.º 35 228, de 8 de Dezembro de 1945, quer no Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro.

Post scriptum: Ao contrário daquilo que por aí se escreve, não é *busão. Não, não é: é bosão. Escrito isto, parabéns a Peter Higgs e a François Englert e uma merecida homenagem a Robert Brout. Para terminar, o New York Times explica o bosão (sim, bosão).

Cardozo nunca mais pára

Pára Abola

De facto, Jorge Jesus disse: “quando começar o primeiro, nunca mais acaba” (áudio). No entanto, na chamada para a notícia d’A Bola, a frase encontra-se reformulada e ‘acaba’ desaparece, dando lugar a ‘pára’. Sim, a ‘pára’. Pára. Com acento, claro.

A Bola adoptou o AO90? Dizem que sim e até parece que resistiram, mas silenciosamente, claro, não fosse alguém dar por ela — todavia, pelos vistos, não, não adoptou.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Acordo Ortográfico de 1990: alto e para o baile!

Hänninen

Peter Spinney/ Lat Photographic Archive (http://bit.ly/19vk417)

Dizem-nos que “a comunicação social já está quase toda a usar a nova ortografia” e garantem-nos que “a adoção [sic] do AO está em curso acelerado“.

Convém refrear o entusiasmo.

Segundo nos informam,  “[e]sta notícia foi escrita nos termos do Acordo Ortográfico”. Parece que esta também. No Correio da Manhã, escrevem ‘pára’ e assumem. Hoje, no Diário da República, mais três ocorrências de ‘fato’ em vez de ‘facto’. Na TVI, “Tino comenta o fato [sic] de não ter ficado nomeado” e a FERLAP pronuncia-se sobre “o fato [sic] de o Ministério da Educação…”. N’A Bolao “curso” da “adoção [sic]” da “nova ortografia” é tão acelerado que até se despistam nas traduções (sem a elegância de Hänninen).

Efectivamente, está na altura de o baile parar.

Expresso e Visao 762013

Subsídios para uma teoria geral da resistência silenciosa

O conceito “resistência silenciosa” voltou à ordem do dia, com o duran adam.

Como podemos ler no Público (via agências), o protesto mais visível

[F]oi protagonizado na segunda-feira pelo artista Erdem Gunduz, que, durante várias horas, ficou, de pé e em silêncio, frente ao retrato de Kemal Ataturk, fundador da moderna Turquia, na Praça Taksim. Centenas de pessoas juntaram-se ao mudo protesto, antes de serem dispersadas pela polícia, mas nesta terça-feira dezenas de outros turcos seguiram-lhe o exemplo, permanecendo de pé, e em silêncio, na emblemática praça que se tornou símbolo da revolta.

Para a resistência silenciosa ter impacto, precisa de ser perceptível ou, em última análise, visível. Contudo, como sabemos, há quem prefira pôr o Tarnhelm e deturpar o campo semântico de “manifesta apatia”, confundindo-o com o de “silenciosa resistência”.

Como exemplo prático de resistência silenciosa, desaconselha-se, obviamente, o da direcção d’A Bola e recomenda-se, vivamente, o de Erdem Gündüz. Como epígrafe, sugere-se este parágrafo do Marx in Soho:

HZ Marx in Soho

Post scriptum: Outro potencial contributo para [Read more…]

O L’Équipe é o melhor jornal desportivo português

471609_10150932661678556_290607909_o (1)

Hoje, joga a Selecção.

Ao contrário daquilo que acontece noutros jornais (embora, lá no fundo…), no L’Équipe conhece-se a diferença entre Selecção e Seleção.

Sim, está bem, ‘ao’ em vez de ‘ão’: acontece aos melhores.

Post scriptum: O excelente título do Público daria para estarmos uma ou duas horas entretidos com jogos semelhantes a este — “seleção evitará recessão na receção?”, “a recessão da seleção na hora da receção?”, “mais vale uma receção sem recessão do que uma seleção a voar”…  —, mas hoje é sexta-feira.

“Tenho um *ótimo entendimento”?

Claro que não. As aparências, como é sabido, iludem. “Tenho óptimo entendimento”. Exactamente. Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

a bola 762013

Hoje, serei espectador

Serei um entre 51 800 espectadores na ArenA.

Subitamente, lembrei-me da areia/arena, mas não nos dispersemos.

No que diz respeito a espectador, recordemos um clássico da indecisão ortográfica (para outros clássicos, é favor consultar a versão actualizada da Choldra Ortográfica em Portugal, organizada por João Roque Dias):

241237_10151165754928556_828978815_o

Além dos 51 800 espectadores na ArenA, haverá milhões de telespectadores atentos à grande final europeia. A propósito de telespectadores, não esqueçamos aquilo que foi escrito por José Carlos Abrantes, em 16 de Junho de 2011, relativamente à grafia adoptada para a designação do cargo de Provedor, na RTP:

Prov JCA

Seria importante [Read more…]

E fiquemo-nos pelas consoantes

Não constitui qualquer novidade a confusão actualmente instalada na ortografia portuguesa europeia, sendo este apenas mais um exemplo. Lembremos, pela terceira vez, as palavras de Gonçalves Viana:

Les lecteurs seront surpris de rencontrer dans les textes des contradictions et des irrégularités orthographiques. J’ai gardé l’orthographe de chaque écrivain, à fin de mettre sous leurs yeux l’état anarchique où elle se trouve.

Por estranho que possa parecer a algumas almas mais atreitas à distracção, já não nos encontramos em 1903. Este exemplo é fruto do péssimo serviço cívico prestado pelo jornal A Bola, que consequentemente perdeu, pelo menos, um leitor e se meteu num imbróglio já devidamente aventado

Post scripta:

  1. A propósito de Marx, darei futuramente nota das minhas impressões sobre a interpretação de Michel Poncelet e espero poder abstrair-me da sublime prestação do Brian Jones
  2. Os meus parabéns ao António Fernando Nabais por mais este excelente texto.
  3. Já agora, um comentário perfeitamente superficial, inútil, pessoal e banal: na quarta-feira, estarei aqui.

ABola 1252013

O Tractor e os *tratores: Toni, o Grande

A partir de hoje, infelizmente, depois do despedimento de Toni, o Grande, as ocorrências de tractor diminuirão drasticamente em órgãos de comunicação social que capitularam (pois, capitularam; a propósito, a interpretação do Brian Jones é soberba) perante a inenarrável proposta ortográfica adoptada pelo Estado português. A não ser que haja reflexão profunda e necessária, além de respectivas e adequadas medidas (esperemos pelas conclusões), doravante, só órgãos de comunicação social de referência em ortografia portuguesa europeia adoptarão a grafia correcta. Entretanto, ficámos a saber que a maior fábrica de *tratores do Irão é dona do Tractor. Sim: Tractor porque *tratores. Exactamente. Percebemos perfeitamente. .

Tractor

Ninguém pára o Benfica

É verdade, ninguém pára o Benfica. Pára? A sério? Sim, pára. Claro.

abola 1742013

Os jornais desportivos de Lisboa mudaram-se para Madrid

Tenho uma lágrima no canto do olho

abola_21092010

Agradeço a Bonga ter criado um tema musical que ilustra na perfeição o meu sentimento neste momento. Hoje o jornal oficial do Benfica teve a amabilidade de dedicar um espaço à quinta vitória do FC Porto no campeonato.

Com mais nove pontos que o glorioso na tabela classificativa, o FCP teve direito a uma área importante na maravilhosa primeira página do periódico, que soube mostrar suficiente desportivismo para dedicar uns 10 centímetros ao triunfo na Madeira, ainda assim, e bem, lá bem distante da estrondosa informação dos 16 segundos de posse de bola do Tacuara no derby.

Estou enternecido. Acho que não vou conter as lágrimas.

Ainda assim espero que o jornal oficial não abuse destas situações e amanhã quero saber tudo sobre os mais recentes reforços da equipa de carica em pista coberta do clube da águia.

Roberto, Deus, Jesus, A Bola e os burros do presépio

“Deus mandou mais que Jesus”, diz hoje o jornal A Bola, só porque Roberto defendeu uma grande-penalidade no jogo entre o Benfica e o poderoso Vitória de Setúbal, ontem.

Do jornal oficial do Benfica não se espera grande coisa (ia-me saindo ‘grande merda’) mas esperava-se um pouco de contenção e de vergonha. Há uns dias estavam a crucificar o guarda-redes por causa dos ‘frangos’, hoje, porque defendeu um penalti depois de ter começado o jogo no banco, estão a coloca-lo como o espírito santo que iluminou o caminho de Jesus na obtenção dos primeiros três pontos.

Será que o jornal quer dizer que Deus protegeu Roberto e provocou a sua reabilitação no altar da catedral? Se assim é, Jesus levou uma reprimenda do pai por não ter colocado o jogador a titular? E isto faz do Vitória de Setúbal o quê? O exército de Satanás?

E o jornal A Bola e o brilhante autor do título são os burros do presépio? Espero que não, é que tenho muito respeito pelos burros.

Calúnia

.
NÃO SE ADMITE
.a bola
Coitado do jornal «A Bola».
Imaginem que os jogadores do clube campeão Nacional, resolveram cortar relações com esses senhores. Não os querem ver nem pintados e ouvir, nem por sombras. E tudo porque os senhores que se dizem jornalistas e escrevem nesse jornal, escreveram ontem coisas que deverão ser calúnias. Assim, com este corte de relações, o jornal vai perder vendas e ainda acaba falido.
Na realidade não acredito que pessoas tão isentas como o serão por certo esses jornalistas, tenham escrito coisas, falseando a verdade. Os jogadores do clube azul e branco, deverão estar enganados. Os acontecimentos narrados terão sido mal interpretados pelos jogadores e bem descritos pelos jornalistas. Só pode ser! Os jornalistas são pessoas correctas e os jogadores uns mentirosos que só querem limpar o seu nome.
De qualquer forma, e por via de dúvidas, não vou mais comprar esse jornal, o que me não fará diferença alguma já que nunca o fiz. Esse tipo de jornais, não entra, por norma, nos meus hábitos literários.

.