Ontem, Mário Cláudio falava acerca da “objectificação da mulher“. Hoje, o Presidente da República diz: «Mas a filha ainda apanha uma gripe! Já a viu bem com o decote?».

E agora?
Viva o Porto! Mas lá está a ressalva:
Eram 37
Pois eram. Ilda Figueiredo, “uma das 37 signatárias da petição que pede a remoção da obra, voltou atrás“.
A satisfação da vontade popular
Este livro não pode agradar a ninguém.
— Camilo Castelo BrancoUne histoire abracadabrantesque.
— Jacques Chirac
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A propósito da Ponte Almeida Garrett (que acabou por se chamar Ponte Dona Antónia Ferreira ou Ponte da Ferreirinha), Rui Moreira, presidente da câmara do Porto, pronunciou-se nos seguintes termos:
A parceria com o JN vai permitir-nos chegar a um nome para a nova ponte que prestigie a história das duas cidades, valorize a infraestrutura [sic] e satisfaça a vontade popular.
Hoje, ficámos a saber, através do Público, que Rui Moreira estará prestes a satisfazer a vontade de alguns (37 pessoas) que não querem esta estátua:
Rui Moreira quer que a escultura de Francisco Simões, inaugurada há 11 anos, vá para as reservas municipais. Artista [Francisco Simões] diz que petição subscrita por 37 cidadãos é “lamentável” e treslê a obra.
Há uns anos, Steve Hackel, professor de História na Universidade da Califórnia, Riverside, e promotor de uma moção a favor da substituição da denominação Dia de Colombo pela de Dia dos Povos Indígenas, criticou a vereação de Los Angeles (EUA) por ter retirado uma estátua de Cristóvão Colombo do Grand Park, numa decisão tomada “quase em segredo e sem debate”.
Veremos se há consulta da vontade popular ou se nos ficamos pelos gostos pessoais de alguns e sem debate.
Efectivamente, abradacadabrant.
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Amor de Perdição, de Francisco Simões

Autoria da foto (e os meus agradecimentos): http://permanentereencontro.blogspot.com/2012/12/amores-de-perdicao.html
A propósito desta notícia de hoje.
Afinal, a notícia não é aquilo que Rui Moreira escreveu
A notícia é a reacção de Pinto da Costa ao acontecimento que o Porto Canal não noticiou. Uma tristeza. Siga.
O Porto Canal, sempre pronto a dar notícias sobre o FC Porto
(porque é um canal de fretes, apesar de o FC Porto não ser o clube da cidade do Porto), não transmite esta notícia. Porquê?
Almeida Garrett continua disponível
Já que na terra dele o ignoram (lembrei-me logo da “pátria que vos foi ingrata“, de Vieira), aproveite-o Lisboa, depois da nega do 17.º Patriarca.
Dois actualíssimos retratos de Portugal
We elicited four pairs of words for each of the two contrasts embedded in 16 response sentences in L2-Spanish (/e/-/ei̯/: maceta-aceite, pena-peina, reno-reino, vente-veinte; and /d/-/ɾ/: cada-cara, moda-moras, oda-oras, todos-toros) and the same in L2-English (/i/-/ɪ/: cheap-chips, feet-fit, seat-sit, sheep-ship; and /ʃ/-/ʧ/: shake-cheque, sheep-cheap, shows-chose, shops-chops). The task took 5–7 min to complete.
— Mora & Darcy (2023)
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Hoje, além deste testemunho n’O Jogo
É bom falar nesse assunto, porque na altura retratei-me lá [em Portugal], foi uma coisa totalmente inesperada. Só me retratei no momento, nunca falei sobre isso. Estávamos a comemorar o título lá nos Aliados, estávamos muito empolgados, a praça estava lotada e, ao chegar lá e ver aquilo… Era boné para cima, faixas, bandeiras… Antes do cachecol, eu já tinha aberto umas trinta. O meu erro foi abrir à frente da Imprensa. Não vi, não pensei. Até me lembro do rosto da pessoa que me atirou. Apanhei aquilo, levantei dois ou três segundos. Sou um rapaz que respeita as instituições, mas depois, como não estava com o telemóvel, vi que a Internet estava a bombar três horas depois. Recebi ameaças e tive de me retratar. Sou uma pessoa que gosta da rivalidade dentro de campo, faz parte do futebol, mas do outro lado também há profissionais, amigos. Senti-me mal com esse momento, não faz parte da minha pessoa. Não preciso de desrespeitar um clube para ser amado no meu. Não sei se em Portugal houve outro atleta a retratar-se com um clube rival, não sei se já aconteceu, mas eu fiz isso porque achei que era necessário.
temos este pitoresco episódio político [Read more…]
Está tudo como dantes no sítio do costume?
For phonological similarity, for example, Flege (2003) concludes: “It will be necessary to study a wide range of L1–L2 pairs and L2 speech sounds in order to draw general conclusions regarding the nature of constraints, if any, on L2 speech learning” (p. 28).
— Schepens, van Hout & Jaeger (2020)
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Curiosamente, na semana em que voltei a ouvir uma entrevista dada por Richard Dawkins, apareceu-me no Facebook um vídeo publicado pela Universidade de Oxford, com uma apologia do envio de memes aos amigos. Dawkins é um celebérrimo oxoniano e criador do conceito meme original. Por isso, tão-somente curiosamente. Adiante.
Nessa entrevista, Dawkins cita Bertrand Russell. Já lá vamos. Pouco antes de Russell, Dawkins citara Mark Twain, dizendo:
I was dead for billions of years before I was born, and never suffered the smallest inconvenience.
Tudo bem. É uma simplificação, chamemos-lhe uma “citação livre” de um clássico das citações de algibeira:
I had been dead for billions and billions of years before I was born, and had not suffered the slightest inconvenience.
Não há qualquer problema. Aliás, a simplificação até tem piada e é riquíssima em dados para as minhas notas.
No entanto, depois disto, quando Dawkins cita Russell, cita-o assim: [Read more…]
O Manuel do Laço (1947–2023)
Vi-o, pela última vez, há quatro anos, no dia 28 de Abril de 2019. Eu, ao balcão do nosso Convívio, entre a melhor tosta mista do Porto, um príncipe e o SC Braga — Benfica. Ele, vindo do lado da tabacaria, a espreitar à pressa o mais cobiçado televisor da sala. Na ausência de informação do resultado no ecrã, olhou para mim, com confiança, à espera do veredicto: “O Glorioso está a ganhar”, disse-lhe eu: “3–1”. “Este já não me escapa”, rematei, piscando-lhe o olho. O Manuel riu-se, ainda viu uns cinco minutos do jogo — não chegou a ver o 1–4, golo do Rafa — e despediu-se. Um abraço aos familiares e amigos e a toda a nação boavisteira.
Se tiver havido ocorrências de recepção em vez de recessão, agradeço que mas facultem

Corrigiram? Antes isso. Mas o mal já estava feito. Exactamente.
Nem só de *fatos e *contatos se vive no Diário da República
Aucun énoncé pris en lui-même (sauf, bien sûr, s’il appartient à un metalangage) ne peut remplir la signification d’adverbes comme «aujourd’hui », «demain », « ici », de pronoms comme « je » et « tu », de formes comme le présent de l’indicatif, d’un verbe aux deux premières personnes.
— Michel Foucault (2023: 22)L’histoire s’écrit désormais depuis la partie occidentale de l’Amérique, qui voit s’éloigner d’elle « l’Europe aux anciens parapets », pour la nommer avec les mots de Rimbaud, à la vitesse d’un corbillard emballé».
— Michel Onfray (2023: 377)
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Todos conhecerão o “agora facto é igual a fato (de roupa)” e saberão que o autor anda há anos a fugir com o rabo à seringa, ajudado pela conivência de uma comunicação social portuguesa apática, sorridente e serena. Alguns ter-se-ão mesmo aventurado pelos labirintos da veracidade dos fatos e dos contatos e do contato social (e outros contatos).
Por seu turno, a seção é um elemento igualmente presente no imaginário dos deputados portugueses (pdf), dos leitores do Aventar, dos leitores do Público e até, imagine-se, da comunidade portuguesa na Bélgica — efectivamente.
E hoje, dia 6 de Junho de 2023, tudo continua exactamente na mesma:

A culpa disto não é minha. A culpa é de quem anda há imensos anos a alimentar, a comentar, a perder-se em (e a fazer-nos perder tempo com) «“casos e casinhos”, “horas e horinhas”, e outros “inhos” deprimentes», em vez de:
- Assumir que criou um problema grave
- Resolver o problema.
Até breve.
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Afinal, a Ponte Almeida Garrett vai chamar-se
“Ponte Dona Antónia Ferreira“. Mas o nome que ganhou foi “Ponte da Ferreirinha“. “Vontade popular”? “Pela população”? Como diria Krugman, yuk-yuk-yuk, hahaha.

Foto: FMV, 26/05/2023
Viva o Benfica!
O Dia Mundial da Língua Portuguesa é o dia em que se assinala e se festeja a morte do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990
Feature theory is part of a general approach in cognitive science which hypothesizes formal representations of mental phenomena. A representation is an abstract formal object that characterizes the essential properties of a mental entity.
— Bruce Hayes
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Depois da recente bandarilha espetada pelo Presidente da República, temos hoje o Primeiro-Ministro a dar a estocada final. No Dia Mundial da Língua Portuguesa. Efectivamente. Obrigado, caríssimo António Costa. Exactamente. Muito obrigado.

O PR e o PM nāo adoptam o AO90.
E você?
Adopta?
Porquê?
Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.
Nótula: Os meus agradecimentos aos excelentes leitores do costume.
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Nótula sobre a “Nota” do Presidente da República
I hope that what I have been saying has made clear why I chose “Philosophy and the Mirror of Nature” as a title. It is pictures rather than propositions, metaphors rather than statements, which determine most of our philosophical convictions.
— Richard Rorty
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Como sabereis, João Galamba apresentou a demissão, o Primeiro-Ministro não a aceitou e o Presidente da República (PR) reagiu negativamente.
Mas reagiu de uma forma que, para escrever as coisas como elas são, não é nem carne, nem peixe.
Se o PR efectivamente adoptasse o AO90, o terceiro parágrafo da Nota teria factos e perceção. Seria carne portuguesa podre, com certeza, mas seria carne.
Se o Presidente da República fosse o homólogo brasileiro, esse mesmo parágrafo teria fatos e percepção. Seria peixe brasileiro com qualidade, mas o PR não é o homólogo brasileiro.
Todavia, o PR reage com uma terceira via, com a ortografia que actualmente vigora em Portugal.

Se Marcelo Rebelo de Sousa quiser escrever percepção, contará sempre com todo o meu apoio. Mas deverá escrever infra-estruturas, dar ordens aos serviços para que se grafe Maio e, mais importante do que tudo isto, assumir explicitamente e de uma vez por todas que o AO90 não existe. E terá de fazer alguma coisa. Por exemplo, mexer-se.
Nótula: Os meus sinceros agradecimentos aos competentíssimos serviços secretos do Aventar.
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Mais uma oportunidade perdida
Mal Santana Lopes desse o flanco («a que eu tinha aventado…»), aproveitava-se e atacava-se: «Por falar em aventado, então, “agora facto é igual a fato (de roupa)”»?
Amanhã, Vítor Gonçalves pode começar por perguntar a Santana Lopes:
«Ora bem, então, “agora facto é igual a fato (de roupa)”»?
É uma tendência interessante
Além do previsível sujeito nulo (“eu estou orgulhosa”), o verbo nulo (“eu estou orgulhosa”): “Orgulhosa de ser oradora portuguesa convidada”.
Por onde anda o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990?
The SLM employs three criteria for classification. A preliminary step is to consider the IPA symbols used to represent the L1 and L2 sounds. This is followed by acoustic measurements and listeners’ perceptual judgments of sounds in L1 and L2. The SLM posits that interlingual identification occurs at a phonetic rather than a phonemic level, so the procedures operate on sounds (that is, phonetically-relevant phone classes).
— J. E. Flege (1992) (pdf)
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Devido a uma queixa-crime relativa a este capítulo (pdf), o Expresso voltou a adoptar momentaneamente a única ortografia que é óptima no acto de reflectir grafemicamente a actual realidade do português europeu.


Quanto ao Diário da República, [Read more…]












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