Um importante contributo para este imperativo nacional de mal-dizer é-nos dado pelos Repórter Estrábico, com o tema “Biltre”, que podem ouvir na íntegra em Adenda: 701 insultos
Biltre, Repórter Estrábico
Do ‘Último Tango em Paris’ ao ‘Último Concerto no Vaticano’
A música, como outras artes, tem momentos efémeros e decora argumentos de contos, filmes ou mesmo de eventos socialmente relevantes. Representa um cenário sonoro de diversificadas narrativas, diria José Sócrates.
Todavia, à efemeridade do espectáculo junta-se, às vezes, a condição de última execução de determinada exibição musical. Sirvo-me de dois exemplos: o ‘Ultimo Tango em Paris’ e o ‘Último Concerto no Vaticano’.
A película de Bertolucci é um drama erótico franco-italiano, em que Marlon Brando e Maria Schneider foram estrelas. A censura salazarista proibiu a exibição em cinemas portugueses. Assisti, no pós-25 de Abril, ao filme no S. Jorge na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Trabalhava, então, na referida artéria, diante daquela sala. O corrupio, na altura, era enorme. De depravados, acusavam os mais conservadores.
No caso deste concerto, o argumento nuclear é constituído pela ausência do convidado de honra do evento, Papa Francisco, como a fotografia o demonstra:
Cadeira vazia do Papa Francisco
O alto clero do Vaticano, outros prelados eminentes e uma vasta plateia de distintos crentes aristocráticos foram esclarecidos da ausência do Papa Francisco por um arcebispo, com a justificação:
um compromisso urgente que não podia ser adiado
Elogio do carreirismo
José Xavier Ezequiel
Há meses que ouço na rádio, logo pela manhã, o anúncio da exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda. Dela diz o texto do anúncio que é “a mais prestigiada artista portuguesa da actualidade.”
Ora, na minha opinião, este tipo de afirmação roça a publicidade enganosa (cf. Código da Publicidade, art° 11°), por não ser facilmente mensurável essa coisa do prestígio. Até porque ninguém me convence que Paula Rego, que por cá parece ter agora caído em desgraça, não continua a ser a mais prestigiada portuguesa, viva, no domínio das artes plásticas. Pelo menos nas paredes que contam, bem entendido. [Read more…]
A casa de Aristides de Sousa Mendes

foto daqui
Antes de mais, saúdo a decisão da Secretaria de Estado da Cultura. O não restauro da casa do cônsul de Bordéus que salvou mais de trinta mil pessoas, contra a vontade de Salazar, era um atestado de indiferença e desprezo pelos actos de um dos raros portugueses que, sozinho, se dispôs a pagar um elevado preço para fazer o que julgava estar certo.
Durante anos, quase nada se soube sobre Aristides de Sousa Mendes. Pouco a pouco, (especialmente após o lançamento da Lista de Schindler) fomos sabendo de como possibilitou a fuga de milhares de pessoas do pesadelo nazi, de como morreu na miséria, de como ele e a sua família foram penalizados e ostracizados pelos seus actos.
Há muito tempo que se falava na necessidade da recuperação da Casa do Passal sem que sucessivos governos, autoridades regionais ou mecenas privados mexessem uma palha para honrar esta página exemplar.
Foi necessário que descendentes dos fugitivos, radicados nos EUA, começassem pouco a pouco a organizar-se para que o cenário mudasse. Com as pesquisas facilitadas pela internet, a Sousa Mendes Foundation localizou cerca de três mil sobreviventes e seus descendentes, passando a palavra e recuperando a memória do cônsul português de Bordéus. Foi ainda necessário que um jovem arquitecto americano, igualmente descendente da “diáspora Sousa Mendes” decidisse montar frente às ruínas da Casa do Passal um “museu temporário” cuja iluminação contrastasse com o buraco negro da casa, para que a campainha soasse em Portugal e a decisão fosse anunciada. [Read more…]
Coimbra não é uma lição
Mais emblemática e conhecida, a demolição de todo um bairro, incluindo diversos colégios universitários, para construir uma obra prima do mamarrachismo chamada universidade do Estado Novo, não é filha única de uma cidade cuja história se caracteriza por isso mesmo: demolir.
Tivemos uns séculos de presença árabe: não sobra um calhau. O espaço mais simbólico da fundação de Portugal, o Mosteiro de Santa Cruz, levou no século XVI com um camartelo que destruiu, por exemplo, o espaço onde o primeiro rei se quis sepultar. Outra torre, já no século XX, foi derrubada antes que caísse em cima de um passante.
Do castelo procuram-se vestígios entre o casario que levou em cima. Igrejas arrasadas, ou transformadas em mau gosto revivalista como S. Tiago, são ao pontapé.
A cidade que nasceu de uma ponte sobre o Mondego, e recebeu nome de um bispo foragido, é agora, em parte, património mundial, diz a Unesco. O nosso melhor edifício universitário, o Colégio da Sapiência, de S. Agostinho ou dos Órfãos não conta, o maneirismo deve ficar mal nas fotografias.*
A parte chama-se Universidade de Coimbra. Às vezes gosto de imaginar como seria um sossego a minha aldeia, sem a dita ter vindo para aqui de vez num dia em que João II se vingou sabe-se lá de quê.
Mas nada iguala o Mondego, rio da minha aldeia, muito menos o Tejo, nem a aldeia chamada Coimbra. É a minha aldeia, e a partir de agora património mundial, vai dar-lhes mais trabalho dar cabo dela. E sim, estou contente, parabéns a todos os que se esforçaram por isso, e vou fingir que não me lembro de todo o seu património destruído.
* Afinal dizem-me que está, embora não conste de um folheto distribuído à população.
Hoje é Dia da Música
Hoje é dia da música, a arte que faz de nós mais do que somos. Quem confia num homem que não gosta de música?
Hoje queria deixar aqui a minha gratidão aos criadores e aos intérpretes que deram voluptuosidade à minha imaginação. Não levem a mal que destaque os que, entre eles são, agora, mais injustiçados: os compositores e os orquestradores.
Os primeiros, esmagados pelo culto da mercantilização da imagem do intérprete, sobretudo na geralmente designada por música ligeira, os segundos, capazes, com a sua arte, de transformar lixo em mousse de chocolate, são quase sempre ignorados quando se trata de atribuir créditos. Basta pegarmos num molho de discos ao acaso, e tal é evidente. Por vezes nem um nem outro são mencionados! Se assistirmos a um daqueles – poucos – programas musicais dos vários canais televisivos, logo constataremos que, quando se refere “o criador”, se está a referir o intérprete dessa música mais conhecido.
A música é a aritmética dos sons, tal como a óptica é a geometria da luz”?
Ora, ora. Nem tu Debussy, que escreveste estas palavras, acreditas que a música – muito menos a tua! – seja só isto.
No olho do furacão
Documento de fotógrafo, Michel de Souza filmou-se enquanto fotografava uma manifestação no Brazil.
Excelente ideia, óptimo resultado.
Natação Obrigatória
Com esta coisa da mudança para as Ilhas há uma ferramenta que se tornará indispensável. Deixo aqui as instruções, em versão musical…
via Natação Obrigatória.
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia…
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
—AC
Parabéns, Fernando António!

José de Almada Negreiros
Retrato de Fernando Pessoa
1964
http://bit.ly/12nBNaf
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Virgílio e Scheppele
Quicquid id est, timeo Danaos et dona ferentis.
But beware of Hungarians bearing gifts.
Rectificação (11/6/2013): Link de Scheppele dava para texto de Krugman.
10 de Junho, haja poesia
Enquanto facturava 2500€ Marcelo Rebelo de Sousa choramingava-se ontem porque Dilma Rousseff estava em Portugal e não ia meter os pés em Elvas. Dilma é uma mulher culta e com uma cultura de esquerda. A simples ideia de que a Presidente do Brasil sendo uma mulher culta e com uma cultura de esquerda ia meter os pés nas celebrações do dia do colonialismo arraçado de Camões só lembra a uma Marcelo, e por isso recebe 10000 ao mês, para mentir, debitar propaganda e dizer disparates. Sim, o 10 de Junho é isso, a celebração da escravatura, do genocídio, das páginas mais negras da História de Portugal inventada pelos republicanos no séc. XIX, abençoada por Salazar no seguinte e reciclado em mais gesta embora cada vez menos heróica. Um dia que devia levar mais 14 em cima e aí sim, ser o Dia de Portugal, celebrando o primeiro momento da sua fundação.
Dilma, que veio aos saldos dos CTT, TAP e outros pedaços de Portugal que os migueisvasconcelos meteram à venda ao preço da uva mijona, vai estar presente na entrega do Prémio Camões, onde se celebra o vate pelo que valeu, a poesia e não a épica, e sobretudo a língua e quem a pratica.
Entretanto Nuno Judíce prestou-se à vassalagem da medalha, enquanto Artur Queiroz travestido em Álvaro Domingos (quem te viu e quem te vê) acusa um filho de Herberto Hélder de ser “filho de ninguém“. Grande Herberto, que nunca te prestaste a homenagens, quem se não os poetas para salvarem a honra da pátria.
Sim, temos poetas
O Jorge Sousa Braga, por exemplo. Sem rimas certinhas, sí-la-bas, decassílabos e o séc. XVI (um século de merda, fedendo a atraso cultural, inquisidores e sebastiões).
Poetas que cantam Portugal como ele é e gozam com o Portugal que nunca foi.
Camões e a tença
Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce
Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto
Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência
Este país te mata lentamente
—Sophia, “Camões e a tença”, Dual (1972), p. 73.
Camões
Dama d’estranho primor,
Se vos for
Pezada minha firmeza.
Olhai não me deis tristeza,
Porque a converto em amor.
E se cuidais
De me matar, quando usais
D’esquivança,
Irei tomar por vingança
Amar-vos cada vez mais.
Perdigão perdeu a pena
Perdigão Perdeu a Pena
Não há mal que lhe não venha.
Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha. [Read more…]
Conversa de moucos
Mário da Costa
A relação dialógica de uma Companhia de Teatro com uma Direção Regional de Cultura
E assim ficam registados estes factos para descarga fisiológica da minha consciência e memórias vindouras.
A meu pedido, fui recebido pela Directora Regional da Cultura do Centro, em Coimbra.
Estranhou ver-me, alegando como saudação que se faziamos 25 anos de existência e nunca tinhamos pedido nada à Secretária de Estado da Cultura, estando a fazê-lo agora só podia ser sinal de estarmos a perder qualidades.
– Como assim, perder qualidades?
– Se vocês como Companhia de Teatro se conseguiram “desenrascar” durante tanto tempo, sem precisarem de “pedinchar” e agora o fazem, só pode significar que já não têm o mesmo talento.
– Talento artístico, quer a senhora dizer?
– Não, talento para se safarem. Encontraram um nicho de mercado que vos satisfez e agora que as câmaras estão “tesas” é que nos vêm apoquentar. [Read more…]
Manifesto contra o amor
Sou contra o amor. Que me perdoe o médico argentino Rafael de La Serna, mas não acho que um revolucionário seja movido por um grande sentimento de amor, mas já lá vamos. Eu não gosto do amor. Não me refiro ao amor fraternal, paternal, aquele que sentimos por quem amamos mesmo; é ao outro. Aquele amor que os escritores e poetas inventaram para vender livros e despejar frustrações.
Não gosto do amor dos clássicos da literatura. Aquilo não é amor, chamem-lhe outra coisa. Sofrimento, dor, estupidez, uma boa fórmula que, ao longo dos anos, vendeu bem. Chamem-lhe outra coisa, mas não é amor.
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Procuram-se Mulheres Lacobrigenses Desempregadas para Trabalho Pontual


Chamamos todas as mulheres Lacobrigenses desempregadas para participar numa performance de arte a realizar-se em Junho. Remuneração.
Este projeto enfoca a situação económica que se vive em Portugal, mais especificamente em Lagos, e pretende-se como um acto simbólico de contestação silencioso. Para tal, são precisas voluntárias que estejam dispostas a rapar os seus próprios cabelos para um filme que será projetado no exterior de edifícios em Lagos; na galeria LAR e no Centro Cultural de Lagos.
Em tempos de crise, seja ela qual for, precisamos de arranjar um símbolo que seja abrangente e abarque todas as contradições afectivas que estes momentos despertam em nós.
Rapar os cabelos tem muitas leituras diferentes e até mesmo contraditórias, dependendo das diferentes culturas e contextos onde esteja inserido. Poderá significar vergonha, castigo, humilhação, luto, perda, desespero mas, por outro lado, simboliza também um renovar de energia, revolta, contestação, provocação e um repensar de novas direcções, um novo começo. [Read more…]
Incultura
Imagine-se que se perguntava a dois mil alunos do secundário em Portugal quem foi Luís de Camões e que boa parte deles respondia que teria sido um apresentador de televisão.
Imagine-se que outros tantos responderiam que Eusébio foi primeiro-ministro durante a segunda guerra mundial, que Amália Rodrigues foi mulher de D. Dinis, que Florbela Espanca foi cantora de rock ou que Fernando Pessoa foi atleta olímpico.
Imagine-se ainda que, postos perante um mapa, não saberiam apontar a localização aproximada de Lisboa.
É precisa muita imaginação para conceber tal cenário? Talvez não, pelo menos a julgar pelos resultados obtidos num inquérito realizado em Inglaterra. [Read more…]
Um cacilheiro em Veneza II

Pavilhão de Portugal, Bienal de Veneza 2013 (http://bit.ly/11bu6yt)
Ainda estou a recuperar da machadada final — golpe desferido sem dó, nem piedade — e da mágoa de não ter conseguido ver em directo aquilo que queria. Em diferido verei.
A propósito, quando leio ‘Taxing the rich’, lembro-me não só dos Aerosmith, mas também desta excelente versão e desta obra de arte.
Quanto aos Aerosmith da retentiva (sim, da retentiva) e para que não haja dúvidas, Krugman já esclareceu não se tratar nem de inveja, nem de desejo/vontade/intenção de castigar os ricos, apenas o reconhecimento da necessidade de o equilíbrio ser atingido através de compensações. Creio que se trata de algo tão elementar, como saber-se que atirar gente para o desemprego não é solução, antes pelo contrário: mas há quem discorde.
E, claro, desejo-vos um óptimo fim-de-semana.
Ao contrário de Veneza, mesmo sem o cacilheiro, o fim-de-semana sem hífenes (*fim de semana) não tem nem lógica, nem piada.
















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