Amor e Romance

 

 O sono dos sonhos. Amar e sermos amados. Entregar a nossa paixão a quem corresponda, A espera dessa paixão seja correspondida. No fogo do ardor emotivo que se dá a nada pede em troca. Distinguir entre paixão e amor. Uma problemática para quem sinta esse sentimento que movimenta o mundo. Tenho dito vezes sem fim que a paixão é uma força da natureza, porém, o amor é a força do destino da sina pessoal. Amar é diferente da paixão. Na idade de inocência, sempre pensava que amar era antes de se apaixonar. Mais adulto, distingui entre paixão e amor. O primeiro, é essa força da natureza por mim mencionada. Amar, é um sentimento, uma emoção casta e pura. A paixão procura erotismo e satisfazer a libido. O amor, tem várias versões e muitos significados. Enquanto a libido é apenas uma, atingir o orgasmo, o amor pode ser a observação da pessoa que nos atrai. Amar é galanteio, é ser requestado, é se entregar a uma causa, como esse sentimento de amar a Pátria, ou amar ao amigo, aos ascendentes e aos descendentes.

 

Ou, também, pode ser uma obrigação reprodutiva cultivada pelos totens de grupos étnicos ou par famílias que procuram um benefício na união de dos que, meigos ou não entre eles, é de conveniência familiar ou ainda profissional, juntar em acasalamento. Como os amores de Auguste Rodin e da escultora Camille Claudel: ele aprendia dela, ela endoideceu pelas imitações das suas esculturas que ele se atrevia a fazer. Ou o amor entre Pablo Picasso e Françoise Gilot: ele roubava a sua inspiração e não lhe permitia tempo para pintar. Todo o que Françoise pretendia era aprender dele, e ele a seduziu em 1943. Não havia pinturas, havia filhos: Claude e Paloma e o de outras mulheres que Fraçoise cuidara, especialmente, especialmente de Pablo, sobrevivente do desastre do matrimónio com a bailarina russa Olga Koklova, casados em1918. Quer Rodin, quer Picasso, abusavam suas mulheres. A única que o sobreviveu foi Françoise, não apenas em vida cronológica, bem como em obras de arte. Fugiu para os Estados Unidos com os seus filhos e passou a ser uma famosa pintora. Nenhum nem outro tinham amor, apenas o egocêntrico carinho por si próprios e a sua arte. Paixão, havia muita e desejo, ainda mais. Os dois artistas roubavam a arte das suas damas por meio da sedução. Camille e Françoise eram um negócio redondo para eles. Diferente aos amores de Abelardo e Heloisa. O primeiro era um académico pobre, sem dinheiro para trabalhar na Universidade. Sacerdote, começou a ensinar nas ruas de Paris e nos montes das províncias. Foi o criador do grupo de académicos sem Universidade ou Goliardos.

Goliardos, na Idade Média eram clérigos pobres, egressos das universidades. Desamparados pela Igreja, tornavam-se itinerantes (clerici vagantes), vagabundos, de espírito transgressivo e provocador. Em meados do século XIII, perambulavam pelas tavernas, portas das universidades e outros lugares públicos, cantando e declamando seus poemas satíricos, um tanto cínicos, muitas vezes denunciando os abusos e a corrupção da própria Igreja, ou poemas eróticos, frequentemente muito ousados.

Abelardo foi um deles. Pedro Abelardo, Petrus Abaelardus (Le Pallet próximo de Nantes, Bretanha, 1079Chalons-sur-Saône, 21 de abril 1142) ficou conhecido do público por sua vida pessoal e o relacionamento com Heloísa, de que fala em sua História das Minhas Calamidades.

Um dos túmulos mais bonitos que se encontra no Pére Lachaise é o de Pierre Abélard e Héloïse, protagonistas de um trágico romance interrompido na Paris medieval do século XII. Pedro Abelardo era um filósofo que se apaixonou por Heloísa, de quem era tutor e que era 20 anos mais nova. Os dois tiveram um filho, Astrolábio, e casaram-se às escondidas. Quando o tio de Heloísa, um clérigo de Notre-Dame, soube, mandou castrar Abelardo que foi viver na abadia de St. Denis, onde continuou seus estudos. Heloise retirou-se para um convento. Mesmo distantes, os dois se corresponderam em longas e amorosas cartas, mas nunca mais se falaram pessoalmente. Os mas hoje quase 700 anos depois, estão para sempre juntos numa tumba em estilo neo-gótico. Ou Romeu e Julieta.  Há a peça de teatro de Shakespeare de 1591 e há o mito italiano de 1562, mito que relata como o amor de dois adolescentes que casam por namoro, acaba por dar a paz as suas famílias de posse, na Mantua do Século XII. É um enredo que foi circulando ao longo dos séculos e que narra amor, erotismo, sexo e morte. A típica história para apaziguar a liberdade erótica entre os Séculos XI e XVI, travada pela Reforma Protestante. Os romanos e todas as religiões cristãs fecham no casulo do sacramento do matrimónio, este dilema do que é primeiro:  o amor ou a paixão. No meu ver, ao pensar nas histórias, é quase impossível separar. Ou, por outras palavras, são histórias que nos ensinam que paixão e amor são dois lados da mesma moeda, com a paixão em frente e o amor a seguir. O amor é a prova do romance, da união que perdura após a paixão se consumir. Freud a sintetiza no conceito libido que comanda os nossos sentimentos entre pares do mesmo o diferente género. O amor é a prova da devoção que sentimos por uma pessoa ao longo de muitos anos. Eis porque é denominado romance.

Não é história enovelada, é a fantasia da paixão. Vemos, gostamos, a libido age e, se é satisfatória, o amor acontece. Parece-me que é a ordem das emoções. A melhor prova de amor, a proteger a quem desejamos e a ter ciúmes de quem nos quer arrebatar essa pessoas. O amor é entre, a paixão, um entretenimento que pode durar ou um curto espaço de tempo, ou perdurar ao longo da vida. Pelo menos, no corpo de uma pessoa, que procura satisfazer a sua libido em que mais seduz, do mesmo ou diferente género. As histórias narradas, provam este meu acerto., como a história de Jenny von Westphalen, uma baronesa da Prússia, que todo abandona pelo amor da sua vida, Karl Marx. Como Maria Cheia de Graça, por mim.

 

Viver e morrer em Portugal

 

 

 

 Lenda: as terras do Luís

 

Tinha reservado o dia para comentar comentários de Aventar. Mas, uma má notícia, leva-me a protelar essas respostas para mais tarde. O filho de uma amiga deitou-se para descansar e nunca mais acordou. Deve andar pelos campos das Walküre, esse jovem engenheiro de alegre vida, cumprida cavalheira dourada enquanto a teve até aos seus trinta e poucos anos, cabelo que acabou por rapar no dia que começou a perder. Ficou….mais lindo que nunca. A sua mãe,  sem ajuda de ninguém, excepto da família, o criou como o menino preferido, o seu único filho, aliás, bom irmão da sua irmã mais velha e excelente sobrinho, primo e tio. A sua vida era diferente. Sabia imensa filosofia, lia tudo o que nas suas mãos aparecia e escrevia imensos comentários das suas longas viagens ao exterior, especialmente pelo Oriente. Essa sua vida diferente, foi aceite e apoiada por toda a família, que o guardou no seu seio, a ele e aos seus amigos e amigas. Há tanto texto escrito pelo Luís Miguel Pimentel Correia, que em duros apertos anda a mãe para editar cumpridos ensaios e publicar um livro dos seus poemas e outras histórias descritivas da família, de Tailândia, da China, do Japão e outros sítios exóticos que visitou. Teve uma vida cheia de felicidade e a sua melhor aventura, era o debate porque sim. Sabia tanto, que os debates eram sempre ganhos por ele: grande lábia, ideias esclarecidas. O seu melhor amigo guarda, na Grã-Bretanha, a papelada para entregar à família, amigo aceite pela família toda como mais um filho. Teve a morte do corpo mas não a das recordações e do conjunto imenso de pessoas que o adoravam. Porque em Portugal há 

várias formas de perecer. Há esta do Luís, que não é a pior, mas há outra que nos deixa tristes: a morte em vida. Ficamos doentes de bactéria social e as pessoas mais próximas afastam-se de nós. Não querem saber o que acontece connosco, pelo implícito temor da morte que levamos, desde a nascença até ao dia em que acontece. É a morte em vida: esse silêncio tão calado, que grita até  nos ensurdecer. Essa morte em vida que faz de nós pessoas que esquecem as palavras por não terem com quem as trocar; ou, se as trocamos, não sabemos qual é a palavra conveniente e adequada que deve ser proclamada. Acontece, especialmente, dentro das famílias em que ocorrem casos de violência doméstica. Não foi assim a vida do Luís, mas é a minha: família distante, família que não troca telefonemas com a desculpa de serem muito caros, pessoas que procuram a sua alegria de viver e tingem com sarna, na sua imaginação, o nosso corpo, esse ácaro que produz uma infecção cutânea e define certa distância entre amigos. Como a lepra, antigamente. Não foi o caso do Luís, mas é o meu. A família do Luís tem-me acolhido e cuidado: porque a minha, esqueceu-se da minha existência e culpa-me por factos nunca acontecidos. Nota-se bem que desconhecem a lei, nota-se bem a transferência do seu mal-estar para quem tem lutado imenso na vida para manter uma família isolada, unida. É como São Tomé costumava dizer: ver para crer. A vida do Luís foi uma vida calma e serena, tão calma que adormeceu de forma normal e não acordou. Mas vive nas recordações da família que sente o luto profundamente. Luto que por mim ninguém guarda por ser pessoa viva e aparentemente de boa saúde, como se as parcas não andassem por perto. Tive um amigo que me denominava, por escrito, campeão da amizade. Onde anda agora? Imenso trabalho? Todos temos, especialmente os etnopsicólogos, que analisamos e somos, também, escritores. Que escrevo mal em português? Paciência! Quem o aprendeu passados os trinta anos de idade e usa muitas outras línguas no quotidiano, é em todas elas faltoso…Viver em Portugal? Já o expliquei antes noutro texto: é andar pelas ruas da amargura e, para estar acompanhado e entretido, é preciso pagar. Sou português, faz-me falta uma família do país que me acompanhe. Triste? Estou. Inveja do acolhimento que o Luís Miguel teve? Imensa. Mas a sua família anda comigo enquanto a morte real não apareça, em silêncio. Se sou amado por outros? Sempre pensei que sim e vou continuar a pensar da mesma forma: choramingar nem acompanha, nem melhora, nem acorda o Luís do seu profundo sono. Ou a mim. Amei profundamente na minha vida, criei uma pequena família, adoro a minha descendência, mas faltam os amigos e a comunicação humana. Senhor leitor, é um desabafo que não merece ler, mas lá vai. Queria ser justo com os que me acompanham e, eventualmente, visitam. Estar doente neste país é a sarna que afasta de nós os mais queridos, excepto as senhoras que amam e amamos, sempre uma. Mania de ser fiel!

Lenda: homem feliz  que choraminga de forma injusta…

 

Os mortos têm dono?

Não é por acaso que temos a expressão  deve estar às voltas no túmulo,  usada quando entendemos que uma determinada homenagem póstuma não honra o homenageado, seja pela sua natureza, seja pela dos seus intervenientes.

Também tenho umas irritações deste género. Em particular chateia-me que os que mandaram Ernesto Che Guevara para o suicídio bolivariano, nomeadamente Fidel Castro às ordens do Politburo que então governava a URSS e estava farto das heterodoxias do revolucionário sul-americano, apareçam ainda hoje como fiéis herdeiros do seu pensamento.

Se Che não tivesse embarcado na armadilha que lhe montaram, como teria reagido ao evoluir da política cubana? Teria continuado em rota de colisão com o pseudo-socialismo soviético?

O facto é que ninguém sabe. Os mortos fazem-nos falta, mas não são nossos.

 

Ninguém é dono dos ses que podemos construir sobre o que acharia hoje Fulano ou Sicrano sobre o estado a que chegou a democracia portuguesa.

É que se muitos se preocupam com as más companhias de José Sócrates, eu digo que é ele a má companhia, sempre o foi, exemplo de arrivista sempre metido em trapalhadas obscuras, pisando quem for preciso para satisfazer uma ambição pessoal desmedida, político de uma geração que se fez em busca da carreira e cuja única causa sempre foi a sua. Não consigo defender um estado de direito onde os governantes passam incólumes a despeito de ser pública e notória a forma como se usam do estado em proveito próprio.

O que pensaria sobre isto Salgueiro Maia? Ninguém sabe, nem os que dele estiveram mais próximos, nem os que nunca o conheceram pessoalmente.

Ninguém é dono do pensamento dos outros, mesmo tendo sido seu camarada, nem das homenagens que quem o entende lhe queira fazer. Muito menos quem não é capaz de entender que num blogue se podem expressar ideias contrárias,e que mesmo com alguns abusos de linguagem consigamos coexistir pacificamente.

A terra é de quem a trabalha como os filhos de quem os ama, lembrava Brecht referindo-se a Salomão. E os mortos de quem os homenageia, acrescento eu, mesmo que tal por vezes nos traga amargos à boca.

 

Poemas com história: Falemos de paisagem

 

Novamente, com este poema de 1968, coloco a questão da forma e do conteúdo, neste caso incidindo sobre o «tema» do «conteúdo». Numa altura em que até poetas de insuspeito cariz democrático poetavam em torno de temas inócuos, transmitidos através de uma linguagem gongórica que, trocando as voltas à polícia e à vigilância censória, as trocavam também aos leitores que não fossem «do meio», tornava-se necessário, com todos os riscos que isso envolvia, falar dos problemas concretos que nos afectavam – a fome, a miséria, a guerra colonial, a emigração, a falta de liberdade – e deixar essas temáticas mais elevadas para quando o essencial tivesse sido conquistado. Exaltar a beleza da paisagem era inútil, se o poeta se esquecesse de que nessa paisagem maravilhosa havia pessoas trabalhando de sol a sol a troco de soldos de miséria.

No seu livro «Remol», publicado em 1970, o poeta galego Manuel María publicou um poema de sentido muito semelhante – «A paisaxe é fermosa», na minha opinião com uma qualidade poética muito superior à do meu poema, mas com um sentido geral muito semelhante. Não se pondo sequer a hipótese de ele se ter inspirado no meu tema, a coincidência leva-nos à conclusão de que, submetidos a condições semelhantes, os homens, neste caso os escritores, reagem de forma também similar. Este meu poema foi publicado em 1968 no livro «A Voz e o Sangue». Foi lido em numerosas sessões pelo actor e declamador Armando Caldas ao qual aproveito para agradecer a atenção que, nesses tempos difíceis, dispensou à minha poesia.

Falemos de paisagem

Mas, como podíamos cantar

Com o pé estrangeiro sobre o coração?

Salvatore Quasímodo

(Giorno dopo giorno)

 

           

       Como queres, amigo, que haja flores nos meus versos,  

            como queres grinaldas e primavera no meu poema?

            Em meu redor há homens humilhados, crianças

            descalças e com fome, mulheres grávidas

            trabalhando a terra. Como queres, amigo,

            que eu veja esse tal céu azul de que tu falas,

            esse sol eterno, que cante a beleza da paisagem,

            se o sofrimento humano altera a cor das coisas?

            É cinzenta a paisagem, é cor de cinza o céu,

            por isso os meus poemas são cinzentos e sem beleza

            (acaso tem beleza a fome?).

            Sim, eu sei, poesia não é bem economia política

            e humildemente sei que após os meus versos

            tudo continuará cinzento – o dealbar

            não será erigido pelos meus poemas

            nem por quaisquer outros – mas sei também

            que a poesia deve ser a verdade do poeta,

            a sua maneira de explicar o mundo

            e de o tentar transformar. Por isso digo

            – um de nós está enganado e creio bem que és tu,

            pois me pedes uma poesia que não pode nascer

            de um homem que queira ser fiel ao seu povo.

            Quando o céu for azul, prometo-te, amigo,

            os meus versos o dirão e o meu poema será lírio,

            deixará esta cor de lama e de sangue.

            Quando o céu for azul, amigo meu  

            – antes, não!

 

 

A máquina do tempo: Parabéns Saramago!

 

 José Saramago faz hoje 87 anos e continua a escrever. A escrever bem. Não gostei do seu «Caim», mas gostei muito do «Levantado do Chão», do «Memorial do Convento», de «O Ano da Morte de Ricardo Reis», do «Ensaio sobre a Cegueira»… E de outros de que gostei mais moderadamente, além de outros ainda dos quais gostei pouco ou não gostei nada. Sou só um leitor entre os milhões de leitores que tem espalhados pelo mundo. E não sou admirador incondicional de nenhum escritor . Os autores sabem que cada livro é sujeito a julgamento e cada leitor é um juiz.. Ter escrito tantos livros, entre os quais três ou quatro obras-primas, não é para todos. Diga-se o que se disser, goste-se dele ou não, Saramago é um grande escritor. Como juiz, este é o meu veredicto.

O que é pena é o cidadão José Saramago às vezes dizer coisas que não ficam bem ao escritor José Saramago. E não me estou a referir a esta questão da Bíblia, uma boa acção de marketing por parte do escritor e uma tontice por parte da Igreja. Refiro-me, por exemplo, à defesa da absorção de Portugal pelo estado espanhol, que é, como se costuma dizer, uma ideia de cabo de esquadra!  Mas hoje é dia de festa, cantam as nossas almas, como diz a estúpida letra brasileira da imbecil canção ianque, e antecedi este texto de uma declaração de Saramago que subscrevo inteiramente. Uma definição exemplar, na minha opinião, evidentemente, da falsa democracia em que vivemos. Em poucas palavras, disse aquilo que eu andei aqui semanas a tentar transmitir. Deste vez, o cidadão foi digno do escritor. E vou contar uma história.

Corria o ano de graça de 1966, mais precisamente o dia 24 de Novembro. Por esses anos, semanalmente, quando a censura não cortava tudo, publicava uma crítica de poesia no «Suplemento Literário» do Jornal de Notícias. José Saramago que, nessa altura era um nome apenas conhecido no meio editorial, publicara um livro na colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora – “Os Poemas Possíveis” – e teve a amabilidade de mo mandar com uma simpática dedicatória.

Ao contrário do que na maior parte das vezes acontecia, gostei da colectânea e escrevi um texto muito favorável que terminava assim: «Em conclusão. “Os Poemas Possíveis” é um livro bem escrito, onde se evidencia um meritoso trabalho de oficina, sem concessões à proverbial «inspiração» poética. Apenas nesta medida, apenas quem não pretenda pedir outras razões a José Saramago que as de um trabalho bem feito, este livro agradará plenamente.» Como já tenho dito, por aqueles tempos discutia-se muito a prevalência, ou não, do conteúdo sobre a forma. O poemário de Saramago ia ao encontro do que eu defendia semanalmente naquela pequena tribuna.

Até aqui, tudo estava a correr bem. Acontece que quem fazia a paginação do suplemento se enganou e no título, em grandes letras, a seguir ao nome da obra escreveu JOSÉ SERRANO. Guardei para sempre a cópia dactilografada para, em caso de dúvida, poder provar que a culpa não foi minha. Escrevi repetidamente ao director do suplemento (Nuno Teixeira Neves) pedindo-lhe que escrevesse ao autor, em nome do jornal, pedindo desculpa. O que, segundo me disseram, ele não fez. Por isso, espero que Saramago não se lembre do obscuro crítico literário que há mais de quarenta anos ficou sob suspeita de lhe ter trocado o nome.  

Há catorze ou quinze anos, estava no Aeroporto da Portela com o editor Lyon de Castro. Íamos, salvo erro, para Francoforte, para a feira anual dos editores, e de repente quem pára junto a nós – o José Saramago que cumprimentou o Francisco Lyon de Castro. (Saramago, num dos seus Cadernos de Lanzarote faz-lhe uma curiosa alusão; num sonho, o editor vem abrir-lhe um portão).

Estávamos perto do free shop e logo me afastei a ver com atenção excessiva uma qualquer mercadoria que ali se vendia. O Lyon de Castro ainda olhou para mim, com evidente vontade de me apresentar (ele adorava brilhar, e o Saramago ainda não ganhara o Nobel, mas já era um escritor muito conhecido). Pelo canto do olho observei as movimentações e debrucei-me ainda mais sobre qualquer artigo. Não fosse o Saramago lembrar-se do dia em que fui suspeito de lhe ter trocado o nome…Talvez tenha feito mal, pois era uma boa altura para lhe ter pedido desculpa por esse erro que não cometi. O que faço hoje com 43 anos de atraso.

Parabéns, José Saramago!

 

 

Poemas com história: Esplanada da praia

 

 

 

Numa tarde de sábado, em Abril de 1988 (foi a data que pus no final do poema) estava sentado numa esplanada de uma praia da linha de Cascais. Lembro-me que fazia uma temperatura elevada para a época e bebia cerveja enquanto observava as pessoas que colhiam os últimos raios de sol daquele belo dia. Sentia-me bem. Depois comprei o Diário de Lisboa, que ainda se publicava e publicou por mais um ano ou dois, folheei-o, li as notícias e lá se foi a sensação de beleza e de tranquilidade…

Esplanada da praia

Ah, meu amigo, o que é o coração do homem!

(Goethe)

Sim, na verdade

o coração do homem é assim,

espalha-se no vento,

escreve gritos na paisagem,

viaja no silêncio, enfim,

é assim –

é veleiro e astronave

em permanente viagem,

o coração do homem.

Coração, é um modo de dizer,

é uma expressão nada científica,

por sinal, que serve para definir

o local, o território misterioso

onde habitam o amor, o afecto,

o ódio, o medo e a coragem.

Onde mora também

A capacidade de sentir

os oceanos que golpeiam

o peito da humanidade.

Dizemos coração,

talvez por ser mais simples situar

num simples órgão

tudo aquilo que em nós transcende

o bisonho animal

que nos domina e vigia.

Por exemplo,

é Abril e é sábado,

estou aqui na esplanada da praia,

a cerveja está fresca,

a temperatura é amena,

o mar é azul, as pessoas são bonitas,

o céu é um lago de serenidade.

Tudo é tranquilo e belo.

Porém, compro o jornal da tarde

e a tranquilidade

quebra-se logo,

como um vidro frágil agredido

pela fúria selvagem

de um martelo à solta.

O meu coração viaja até à Palestina,

à África Austral, à América Latina,

onde a ânsia animal de dominar,

destrói a vida,

oculta o Sol,

impede o amor…

 

O meu coração,

muito habituado a caminhar,

abandona o corpo sentado na esplanada,

a cerveja, o mar azul,

o céu sereno, as gaivotas;

viaja até onde a morte é lei,

o passado e o futuro

se defrontam em áridas colinas

revolvidas por obuses.

Se queres que te diga,

A tarde deixou de ser tranquila

e primaveril,

a cerveja sabe-me a sangue

e no sangue passa-me a circular

vitríolo.

Nesta tarde de Abril,

em que tudo estava a correr

tão bem,

antes que me esqueça,

pergunto-me:

terá sido a cerveja

que me caiu na fraqueza,

ou terá sido o coração

que me subiu à cabeça?

 

 

Outros funerais

romagem-1908-01

Populares depondo flores nas campas de Alfredo Costa e Manuel Buiça

O meu colega Nuno Castelo-Branco escreve sobre os funerais do rei Carlos e  seu filho e faz muito bem.

Já agora aproveito para deixar aqui umas citações sobre as homenagens do povo de Lisboa a Manuel Buiça e Alfredo Costa, executores dos citados senhores.

“Buiça e Costa foram visitados na morgue, como confirmam até mesmo escritores monárquicos, por milhares de pessoas, sobretudo homens e rapazes. (…) o enterro (…) foi rodeado de medidas de segurança, mas realizou-se quase clandestinamente pela madrugada. (…) Este procedimento é fácil de explicar. As autoridades monárquicas não arriscaram a possibilidade de o enterro dos regicidas poder tornar-se uma homenagem aos mesmos.

Apesar das precauções, no cemitério do Alto de S. João as campas não deixaram de ser visitadas, originando mesmo uma verdadeira romagem, que se repetiria nos anos seguintes. O monárquico António Cabral referiu-se-lhe como uma “(ignóbil peregrinação da matulagem republicana (…). Falou-se de 80 mil pessoas (segundo outras fontes cerca de 22 mil) que foram depor flores e deixar bilhetes nas campas

(…).

“Milhares de pessoas foram hoje ao Alto de S. João pôr flores nas covas dos assassinos d’El-Rei e do Príncipie!! Dá vontade de renunciar a nacionalidade! Arre canalha!”, escreve o médico da Real Câmara Tomás de Melo Breyner em 16 de Fevereiro de 1908.”

Mª Alice Samara, O Regicídio

“Aquele mistério dos funerais nocturnos causara grande impressão e viu-se uma cidade dividida em cóleras profundas. Muita gente fechava a janela, envergara o seu luto, quedava-se numa dolorosa expectativa; outros iam para o cemitério e espalhavam flores sobre as sepulturas dos regicidas. Organizavam-se combinações nos centros republicanos e a determinada hora chegavam alguns dos redactores dos jornais avançados, sobraçando ramos, e deixavam-nos sobre as campas. Conheciam-se as dos assassinos; a do assassinado, por engano, durante o tumulto, não recolhia uma só pétala. Ousadamente atiravam-se bilhetes-de-visita para terra seca diante da polícia, num desafio. (…)

Nas montras continuava a exposição dos seus retratos. A fama dos dois homens enchera as bocas e as almas; à porta da necrópole, durante alguns domingos, vendiam-se postais com os seus bustos e os garotos gritavam: “Olha o retrato do Costa e do Buiça… Olha o retrato dos mártires!”

Rocha Martins, O Regicídio

A máquina do tempo: David Mourão-Ferreira

 

David Mourão-Ferreira é um escritor muito conhecido, muito falado, com muitos estudos e numerosas teses académicas sobre a sua obra. Não faria muito sentido estar aqui a glorificar os seus livros, a sua poesia. Há um pormenor, que me leva a subir para a minha máquina, a voltar uns anos atrás e ir ao encontro da recordação que dele conservo – a amizade. Sempre me tratou com amizade e eu era muito amigo dele. Por isso, não tecerei elogios à sua obra – deles não precisa – outros o fizeram e o farão melhor e com maior autoridade. Falarei um pouco da sua grande amabilidade, da generosidade que era nele uma segunda natureza.

 

Embora tenha sido director do serviço da Fundação Gulbenkian em que trabalhei durante dez anos, não nos cruzámos ali, pois saí em 1971, quando o director era ainda Branquinho da Fonseca. Conhecera-o na Faculdade de Letras, estive com ele em reuniões da Associação Portuguesa de Escritores; era uma relação cordial, mas mais ou menos formal.

 

 

Quando lancei o meu primeiro romance, «Talvez um Grito», dado que ele fizera parte do júri que o distinguira, fui à Gulbenkian pedir-lhe que fizesse a apresentação que seria no Solar do Vinho do Porto – imediatamente se disponibolizou, sem qualquer espécie de hesitação. Fez uma apresentação magnífica, que tenho gravada em vídeo (mas num standard que já se não usa, o Beta, e não sei se a conseguirei recuperar), lendo da forma expressiva que o caracterizava, e valorizando-as, como só ele sabia, algumas das páginas do livro.

Fomo-nos encontrando, almoçámos algumas vezes na Gôndola, um restaurante que ficava perto do meu escritório, na Av. António Augusto de Aguiar e a poucos passos do edifício da Gulbenkian onde estava instalada a direcção do Serviço de Bibliotecas. Num desses almoços, propus-lhe que dirigisse uma história da literatura portuguesa (não pôde aceitar, pois estava com mil e um compromissos, mas forneceu-me uma série de pistas de grande utilidade). Na Primavera de 1996 encontrámo-nos casualmente no restaurante do Hotel Continental – eu não o reconheci, pois estava muito magro, quase calvo, acabava de chegar de uma clínica de Londres,  desfigurado pela doença e pela quimioterapia. Estávamos costas com costas e ele chamou-me. Disse-me sorrindo que a sua vida estava por dias ou por semanas. Protestei e ele continuou a sorrir. Fiquei devastado. Em Junho morreu.

Fui à maldita Basílica da Estrela, onde o corpo estava em câmara ardente. Não sei por que motivo os escritores ali vão sempre parar (o Palácio Galveias não seria mais adequado?). Não era o caso do David, mas, por exemplo, o Orlando da Costa e o Luiz Pacheco, comunistas e ateus, numa basílica… A nora, a ex-apresentadora da RTP, Margarida Mercê de Mello, leu alguns poemas dele. Um era muito comovente, dizia: – «Há-de vir um Natal e será o primeiro/ em que se veja à mesa o meu lugar vazio…» No cemitério dos Prazeres, Amália (com a qual abri este post, cantando uma canção com letra de Mourão-Ferreira), chorava copiosamente.

David Mourão-Ferreira, um grande poeta, um grande professor e intelectual. E, acima de tudo isso, um homem de uma excepcional e humana capacidade de ser generoso.

Um bom amigo.

Deixo-vos com o seu poema «A Secreta Viagem», muito bem interpretado por António Moreira da Silva.

 

 

 

Poemas com história: Ode ao ciborgue

 

Quando no final dos anos 80 do século XX a introdução nas cirurgias de transplante dos fármacos anti-rejeição aumentaram as taxas de sobrevivência dos pacientes sujeitos a tais cirurgias, tiveram lugar algumas especulações sobre o futuro da espécie. Esse tipo de interrogação foi reforçado pelo isolamento do enzima de restrição que permitiu pensar-se em manipulação de mensagens genéticas e abriu a possibilidade de modificar as moléculas de DNA, cuja descodificação, mais recentemente, permitiu a clonagem. Este tipo de esperanças e temores, deu, como disse lugar a muitas especulações. Este meu poema (incluído em «O cárcere e o prado luminoso») acompanhou essa onda. Diz o seguinte:

      Ode ao ciborgue

           Os transplantes, a substituição

           de órgãos e membros deficientes,

           a intervenção humana nas leis da genética,

           vão ser, nas próximas décadas,

           cada vez mais vulgares e frequentes.

E isto é quase o mesmo que dizer

que, dentro de relativamente pouco tempo,

o corpo humano estará crivado de próteses

e enxertos, irá sendo cada vez mais

um artefacto onde, como solitárias ilhas,

restarão alguns órgãos de origem.

O nome que alguém deu a esse ser híbrido

e futuro, quase imortal,

viagem entre o homo sapiens e a máquina,

foi o de ciborgue,

simbiose articulada de plástico e plasma,

silicone e carne, ossos, titânio e aço inoxidável,

ouro, músculos, alumínio, vísceras,

platina, chips, circuitos integrados…

Um cérebro, talvez provisoriamente,

prolongado pela água e pela gelatina

dos olhos (talvez acoplado a um computador),

registará a negra paisagem citadina,

a superpopulação, a água do rio

navegada pelos resíduos da central.

Sejamos corteses, saudemos o ciborgue,

metálico milagre do processo evolutivo,

o machina sapiens, cidadão do amanhã,

herdeiro longevo do mundo irrespirável

já hoje em construção febril.

E (quem sabe?), oleando as articulações,

mudando as baterias solares do coração,

registando mensagens nas memórias

do seu cérebro-computador,

talvez que nos dígitos luminosos,

implantados onde nós, os antigos,

tínhamos os lábios e a voz,

talvez, quem sabe? Quem sabe?

se acenda por momentos a palavra amor.

 

 

Today is More’s day

 

 

Sir Thomas More nasceu em Londres a 7 de Fevereiro de 1478, filho de John More, um Juiz. Estudou na St. Anthony School, em Londres e mais tarde em Oxford, onde começou a escrever pequenas comédias e onde traduziu um biografia de Pico Della Miradandola, um humanista italiano.

Depois de concluir os seus estudos em Oxford, foi para Londres para os os “Inns of Court” estudar e trabalhar com magistrado. É nessa altura que integra um grupo de “Reformers” ou Humanistas intitulados os London Reformers, dos quais faziam parte John Colet, Thomas Linacre, William Lily, William Grocyn, entre outros. Estes homens aspiravam operar uma mudança em alguns sectores da socieidade e da Igreja, como a educação, tendo, contudo, sempre em conta que a a religião e a “piety” estavam em primeiro lugar, embora se procurasse uma religião mais pura que se afastasse da corrupção da época. A religião é um tema central na vida de Thomas More e de todos os seus contemporâneos e dela não podemos fugir quando analisamos a vida de More.

Foi aliás, durante a sua estadia num Mosteiro em Londres que Thomas More pensou em tornar-se monge e seguir a vida eclesiástica em vez de uma vida dedicada à Função Pública (não é bom dizer isto desta maneira. Parece que estou a ver o More atrás de uma secretária a preencher impressos e a atender clientes). Contudo, acaba por desistir da ideia e escolhe definitivamente dedicar a vida ao país, entrando para o Parlamento inglês em 1504. As razões pelas quais More desiste da vida eclesiástica são sobretudo, duas. A primeira, consiste na ideia de que More tinha um grande um sentido de dever e acreditava que todos os homens tinham um papel a ocupar no “palco” que era a vida. E o seu dever era servir o seu país. A segunda razão, mas não menos importante, é o facto de More temer a possibilidade de se vir a tornar um padre impuro. Aparentemente, e segundo Erasmus, More percebe que os seus apetites sexuais o podiam levar a desviar-se da religião, caso a ela se dedicasse por inteiro.  A isto podemos evidentemente associar o facto de Thomas More usar um cílicio e outros meios de auto-flagelação. Alguns anos, mais tarde é nomeado Undersheriff da Cidade de Londres. Ao ocupar este posto, a sua reputação cresceu e STM era conhecido por ser imparcial e justo.

Durante a década seguinte, Thomas More começa a atrair a atenção de vários membros da Corte, inclusivamente o Rei, Henrique VIII. Em 1515, More acompanha uma delegação à Flandres devido a um problema no comércio de madeira, e a sua “Utopia”, torna-se uma referência nesta viagem. More foi extremamente importante quando conseguiu suprimir uma revolta em Londres contra os estrangeiros. Depois começou a acompanhar a Corte em diversas “viagens de Estado”, inclusive uma viagem a França quando Henrique VIII tenta fazer uma aliança com o Rei de França, Francisco. Em 1518, More entra para o Privy Council e é ordenado cavaleiro em 1521.

Com o aparecimento de Lutero e do Protestantismo, More ajuda Henrique VIII a redigir a sua “Defesa dos sete sacramentos” e escreve uma carta à réplica de Lutero embora sobre um pseudónimo. A relação entre Henrique VIII e Thomas More é uma de proximidade, e More torna-se Presidente da Câmara dos Comuns. Neste cargo, More contribuiu para o estabelecimento do discurso livre no Parlamento.

O seu declínio começa quando Henrique VIII se quer divorciar de Catarina de Aragão para casar com Ana Bolena. Apesar de no início More ter aceite o argumento de que o casamento entre Henrique VIII e Catarina foi ilegal, este torna-se cada vez relutante em aceitar a decisão, especialmente depois de Henrique VIII começar a negar a autoridade do Papa. Mesmo assim, More torna-se Lord Chancellor em 1529, depois da queda do Cardeal Thomas Wolsey.

More demite-se deste cargo em 1532 alegando motivos de saúde, mas sabe-se que a verdadeira razão pela qual o fez foi a sua desaprovação da posição de Henrique VIII para com a Igreja Católica. Henrique VIII separou-se da Igreja Católica, formando assim a Igreja anglicana e proclamou-se chefe desta. Depois de Catarina de Aragão ser afastada, Ana Bolena é coroada Rainha e More não vai à sua coroação. Em 1534 More foi acusado de cumplicidade com alguns opositores de Henrique VIII mas não foi condenado devido à protecção da Câmara dos Lordes. No entanto, em Abril de 1534, More recusou-se a jurar sobre o acto de Sucessão (que legitimava todos os filhos de Ana Bolena como possíveis herdeiros) e recusa-se a fazer o Juramento da Supremacia (que advém do acto de Supremacia que reconhece Henrique VIII como o chefe da Igreja Anglicana). Desta maneira, Sir Thomas More é preso na Torre de Londres e executado a 6 de Julho de 1535. É comum dizer-se que as suas últimas palavras foram: “The King’s good servant, but God’s First.”

Thomas More casou duas vezes, tendo quatro filhos, um rapaz e três raparigas. More educou todos os seus filhos nas diversas disciplinas: latim, grego, lógica, astronomia, medicina, matemática, teologia, não fazendo distinção entre os sexos. A sua casa ou “household” era uma autêntica escola onde a educação era dada não só aos seus filhos mas também a outras crianças. Thomas More foi também um dos primeiros  ingleses a usar a ideia humanista que a instrução devia estar aliada ao prazer: era comum ensinar através de jogos ou charadas. Era um grande amigo de Erasmos de Roterdão que nunca escondeu a admiração pelo inglês e chegou a dedicar-lhe “Praise of Folly”.

Como sabemos, More escreveu vários livros sendo o mais conhecido a “Utopia”. Este livro cria uma ilha imaginária com o seu Estado, sociedade e costumes. Alguns estudiosos acreditam que este livro trata-se de uma sátira à Europa do Século XVI. More escreveu mais livros, como “História de Ricardo III”, “Piedosa instrução”, “Díalogo de Conforto contra a Tribulação“, “Diálogo contra as heresias” e fez algumas traduções.

Apesar de se ter batido pelos seus ideais, e em última analise, ter morrido por causa deles, Thomas More não é uma personagem que reúna consenso. Os católicos adoram-no e o Papa Pio XI tornou-o Santo em 1935. Contudo, alguns estudiosos dizem que More era um fanático religioso, extremamente intolerante, que chegava a auto-flagelar-se. Sabe-se, efectivamente, que More conduziu e condenou à morte cerca de 6 pessoas acusadas de heresia assim como queimou e destruiu livros e obras relacionadas com o Protestantismo.

Mesmo não reunindo consenso, Sir Thomas More é uma figura que desperta grande curiosidade e por vezes, admiração. A peça “Sir Thomas More” de Anthony Munday, foi escrita a várias mãos e acredita-se que William Shakespeare tenha também participado na sua elaboração. Outra peça, agora do século XX, “A man for all seasons”, foi escrita por Robert Bolt e mostra More como o epíteto da Consciência e da integridade. Karl Zuchardt escreveu também outra peça sobre STM, intitulada “Stirb Du Narr!” (“Morre seu idiota”). O escritor católico G.K. Chesterton chegou a dizer que More foi a “greatest historical character in English history.” Muitas biografias foram escritas sobre Sir Thomas More, algumas acusando-o de ser intolerante, f
an
ático e pervertido, (como é o caso de escritores como Richard Marius  e Jasper Ridley) e outras mostravam-no como sendo um inteligente humanista, devoto que acreditava na necessidade de autoridade do Estado (de acordo com a biografia de Peter Ackroyd). O mais recente retrato de Thomas More é feito através da série “Tudors”, que se revela bastante simpática para com a personagem, chegando a colocar em dois extremos a integridade e a consciência de Sir Thomas More e a amoralidade de Henrique VIII.

Para bem ou para mal, a complexidade de More e a falta de consenso sobre esta personalidade histórica é o que o torna interessante. Um homem integro ou intolerante? Um fanático religioso, ou um crítico da sua própria Igreja? Um visionário ou um político autoritário? Um humanista ou um homem sedento de poder?

 

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A máquina do tempo: Claridade – uma luz sobre o arquipélago

 

Viajar no tempo é a função desta máquina. Mas viajar no espaço, tal como navegar, também é preciso. Fiz umas viagens a Cabo Verde. Na primeira, há uns 12 anos tive uma grande surpresa. Pela positiva, diga-se. Mesmo os que, como eu, se julgam prevenidos contra os preconceitos, a eles não são completamente imunes.

Para os brasileiros em geral, como vimos pelo recente caso da Maitê Proença, os portugueses são os ridículos heróis de anedotas imbecis – padeiros, comerciantes analfabetos – gente estúpida e ignorante que comete gafes e faz disparatadas confusões. Para os portugueses em geral, os brasileiros são sambistas, jogadores de futebol, traficantes de droga, prostitutas dos bares de alterne, gente alegre, mas sem nível cultural. Sobretudo, pessoas que falam mais depressa do que pensam.

Não nos podemos, por isso, ofender em demasia com as tontices da Maitê. Os brasileiros devem ter herdado de nós o pendor para ridicularizar o que é diferente. Ou, pensando melhor, talvez essa característica seja inerente à condição humana e não pecha exclusiva das gentes da lusofonia.

Relativamente aos cabo-verdianos, sei existir em Portugal o preconceito, a ideia de que dessa comunidade imigrante provém grande parte da marginalidade que nos atormenta. Alguma daí virá, porque entre mais de cem mil pessoas nem todas podem ser santas e sabemos em que condições muitas delas vivem. Por outro lado, muitos portugueses, quando pensam em cabo-verdianos, mesmo não os associando à marginalidade, logo se lembram dos trabalhadores da construção civil, das empregadas de limpeza. E quando aterram no Aeroporto Internacional da Ilha do Sal pela primeira vez, subconscientemente pensarão: como é que será um país de trolhas, pedreiros, e mulheres-a-dias? Pois, quem ali chegar com essa ideia, sofrerá uma profunda surpresa.

 A Ilha do Sal e o Hotel Morabeza, onde estive apenas três ou quatro dias, nada me disseram – a beleza da praia foi o que mais me impressionou. Mas depois vieram Santiago, São Vicente, Boavista – a cidade da Praia e a encantadora cidade do Mindelo (uma cidade portuguesa parada no tempo). Aí começou o maravilhamento e a paixão que desde então me liga ao arquipélago. Cabo Verde é um país lindo. Os cabo-verdianos são, no geral, pessoas amáveis e educadas. Contudo, o meu interesse por Cabo Verde começara muitos anos antes em Portugal.

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No quadro de um projecto institucional de erradicação dos bairros de lata, no período pós-25 de Abril, tive ocasião de contactar núcleos de cabo-verdianos que viviam em bairros da então chamada «cintura industrial de Lisboa» – particularmente na Pedreira dos Húngaros (Algés), nas Marianas (Parede) e no Bairro do Fim do Mundo (Cascais). Fiz muitos amigos cabo-verdianos (e não só) e pude constatar, por um lado o apego que aqueles imigrantes mantinham à sua terra e, por outro, a quase total ausência de instrumentos culturais que alimentassem esse amor.

Com o escritor Manuel Ferreira, do qual fui amigo desde 1964, pois conhecemo-nos durante o II Encontro da Imprensa Cultural, realizado em Cascais, por diversas vezes comentámos essa circunstância que na altura era gritante e que hoje em dia está relativamente superada ou, pelo menos, mitigada. Com ele preparei (na qualidade de director editorial, visto que a direcção científica lhe pertencia), uma História da Literatura Africana de Expressão Portuguesa, destinada a sair na sequência de uma História da Literatura Portuguesa.

Por motivos que ignoro, a obra, que Manuel Ferreira entregou dentro do prazo estabelecido contratualmente, acabou por não ser publicada. Estávamos em 1990. No decurso deste trabalho, falámos por diversas vezes em Cabo-Verde e na sua cultura. Foi incentivado por estas trocas de impressões que visitei pela primeira vez o arquipélago e pude confirmar, não só a ideia com que ficara pelo contacto directo com os imigrantes, como também o que Manuel Ferreira me dizia sobre a singularidade das gentes cabo-verdianas e  sobre o valor ímpar da sua cultura. Entretanto, Manuel Ferreira faleceu e, passados anos, eu saí da editora.

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Pode dizer-se que antes de Eugénio Tavares (1867-1930), não existia, mesmo entre as elites do arquipélago, em Cabo Verde uma consciência explícita da identidade cultural dos cabo-verdianos. Pode também dizer-se que, com a sua luta, criou o conceito, até então inexistente, de caboverdianidade. Este foi o primeiro e importante passo. Assente esse pilar da dignidade nacional, a cultura cabo-verdiano, sobretudo a literatura, divide-se em duas épocas distintas – antes e depois da revista Claridade. Em Março de 1936 surgia o primeiro número; em Dezembro de 1960 publicou-se o último. Foram dez números o que, em 24 anos não parece muito, sobretudo se analisarmos esse facto à luz da realidade actual.

No entanto, não podemos esquecer que, em 1936, ano em que foi desencadeada a Guerra Civil de Espanha, o governo de Salazar tentava limpar o País dos derradeiros resíduos da democracia que, desde o advento do liberalismo, e com breves interregnos, se vivia em Portugal. As colónias não escapavam a essa limpeza metódica que, procurando erradicar tudo o que cheirasse a vestígios de hábitos democráticos, fazia também desaparecer nichos culturais que, à gente do regime e ao ditador, pareciam ser (e, de facto, eram) refúgios das oprimidas ideologias políticas.

Os primeiros «claridosos» foram os escritores Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes. Aos nomes dos três fundadores vieram juntar-se, entre outros, os de Félix, Monteiro, Henrique Teixeira de Sousa, Arnaldo França, Tomaz Martins, Nuno Miranda, Luís Romano, Abílio Duarte, Virgílio Avelino Pires, Onésimo Silveira, Xavier Cruz, Artur Augusto .

O conteúdo dos dez números, algo heterogéneo (ou ecléctico, se preferirmos), permite estabelecer afinidades com o movimento neo-realista que, em Portugal, velejava a todo o pano por esses tempos. Afinidades que também teve com a literatura brasileira. Em todo o caso, mantendo sempre a inclusão de textos em crioulo, poemas sobretudo, apesar de o português ser dominante, a «Claridade» conservou, ao longo da sua existência, um carácter de genuinidade autóctone.

Não pretendo com esta crónica esgotar este tema ou sequer abordá-lo com a profundidade que merece. Aliás, existem sobre o tema estudos de grande qualidade, nomeadamente os de Manuel Ferreira e os de Alfredo Margarido. Quis apenas chamar a atenção para este marco da cultura do povo irmão de Cabo Verde – a revista «Claridade», um farol de cultura de um arquipélago, onde existe agora uma literatura fecunda com nomes como os de Germano Almeida, Aguinaldo Fonseca, Yvone Ramos, Corsino Fortes, Arménio Vieira, Yolanda Morazzo, Gabriel Mariano e tantos outros.

A «Claridade» lançou uma luz intensa e duradoura sobre o arquipélago.

 

 

 

Poemas com história: Enquanto

 

 

Pelo final dos anos 60 os jornais traziam muitas fotografias semelhantes à que mostro: camponeses vietnamitas, guerrilheiros ou não, colhidos pela guerra, jazendo mortos sobre os arrozais. Lembro-me de uma imagem de uma criança com o rosto queimado pelo napalme, moribunda e cega. O texto explicava que os meninos pediam às mães que lhes rasgassem as pálpebras para as poderem ver uma última vez.

 Foi uma fotografia dessas que, apanhando-me a beber o café matinal, me chocou profundamente e desencadeou o poema que, afinal, procura demonstrar a futilidade das palavras, inclusivamente dos poemas e das canções de protesto. Ainda que bem intencionadas,  nada são perante a cruel enormidade das realidades que denunciam. Pensei também nessa manhã de há quarenta anos em como as nossas vidas, mesmo a de pessoas perseguidas pela polícia política, eram comezinhas quando comparadas com a daquelas gentes sobre as quais se abatiam as garras assassinas da guerra. Nunca me considerei um poeta, sempre disse que a poesia era para mim uma arma de arremesso contra a ditadura e contra o imperialismo. Não um fim, mas um meio. De acordo com esse princípio, o poema, publicado na colectânea «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos»,  diz:

Enquanto

Enquanto apunhalada a paisagem arde,

um homem dorme num arrozal de pranto

deixando nas estrelas o olhar parado.

 

Eu canto,

canto com revolta e sem ela, canto

nesta janela de espanto e fel

           onde debruçado me revolto e canto

cravando a raiva na brancura do papel.

           Enquanto tudo arde à minha volta,

há um homem que apodrece no arrozal

e um fogo criminoso que percorre a aldeia.

Um menino morre, mas não chora

enquanto a morte vem

(as pálpebras queimadas

pelo napalme assassino

são duas mãos de fogo e pus

abatidas sobre os olhos do menino).

Não pode ver a luz e à mãe implora

que lhe rasgue à faca as pálpebras

de pus. Não para ver a luz.

mas para poder ver a mãe

ainda uma vez antes de morrer.

E eu canto, eu canto enquanto

as flores são assassinadas.

os frutos da vida são colhidos

por garras criminosas,

as escolas são bombardeadas

o gado, as pastagens, as aldeias

destruídos impiedosamente.

As crianças agonizam, as flores fenecem

e o sangue circula normalmente

nas minhas veias, enquanto

ardem as colheitas e os homens apodrecem

acometidos pela fúria de mão odiosa.

Enquanto canto, vou ao café ou leio,

Em meu redor a paisagem arde

e eu neste litoral a ocidente da coragem,

o sangue bem guardado no meu corpo,

capitalizado em napalme e morte.

Afinal,

cada qual tem a sorte e o esquife que merece

e se o coração não é maior do que o peito

qualquer leito nos serve para morrer:

uma cama, uma câmara de gás,

um túmulo de lama, tanto faz.

O homem que apodrece lentamente

trazia o Sol dentro de si a palpitar,

por isso investiu no futuro a sua carne,

transformou-a em semente

que a terra não devora em vão,

porque embora a paisagem arda,

tudo pareça morto e acabado,

 gado, a floresta, a pastagem,

tudo apodrecido ou incendiado,

um homem com os dedos na espingarda

funde-se com a terra lentamente.

Um dia, uma flor ou uma cidade,

uma árvore e talvez mesmo a liberdade,

nascerão nessa terra que comeu

o camponês no arrozal tombado.

 

 

 

 

A máquina do tempo: José Gomes Ferreira – um «lisboeta» nascido no Porto – 2

 

Quando José Gomes Ferreira, vindo da Noruega, voltou a Lisboa, encontrou um outro  país – A Revolução continua – diziam os apoiantes da «nova ordem» que reinava nas ruas e com a repressão que condicionava as mentes. Com um ou outro acidente de percurso, a direita católica e conservadora, o chamado Governo da Ditadura Militar, ia, decreto a decreto, sob a orientação cautelosa, mas obstinada, de um tal Oliveira Salazar, eliminando os vestígios da República, suprimindo as liberdades fundamentais. Alguns amigos eram os mesmos, outros tinham morrido.

 

E surgiram alguns novos – Manuel Mendes, Bernardo e Ofélia Marques (seus «compadres», padrinhos de seu filho Raúl), Carlos Botelho, Diogo de Macedo, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões Cottinelli Telmo, a Maria e o Chico Keil… E os neo-realistas Alves Redol, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Queiroz… Olha, ainda há flores/ Mas quem se atreve/a cantar as flores do verde pino/no madrigal desta manhã de pesadelos?/ E tu, papoila, minha bandeira breve,/quando voltarás ao teu destino/ de enfeitar cabelos? Estes versos, escreveu-os José Gomes Ferreira para As Papoilas, uma canção popular composta por Fernando Lopes-Graça. Na realidade, os tempos não corriam de feição «a cantar as flores do verde pino».

 

Em 1933, logo em Janeiro, o governo a que Salazar presidia criava a Polícia de Defesa Política e Social, que passaria a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e depois a Polícia Internacional de Defesa do Estado, a PIDE, que ensombrou gerações de antifascistas, perseguindo, prendendo, torturando, matando. Em 1936 desencadeava-se em Espanha a rebelião fascista de Franco contra o governo legítimo da República – era a Guerra Civil que iria durar até 1939, num prelúdio sangrento da II Guerra Mundial, que eclodindo nesse ano, se manteria até 1945, deixando o mundo em ruínas.

 

Foi um período negro em que não publicou livros. Colaborou, sim, em revistas como a Presença, a Seara Nova, a Gazeta Musical e de Todas as Artes, na revista de cinema Imagem, no jornal infantil Senhor Doutor, onde publicou em folhetins As Aventuras de João Sem Medo. Foi na Presença que, em 1931, publicou o poema Viver sempre também cansa, que representou o arranque para uma fase decisiva da sua obra poética. Colaborou também na legendagem de filmes estrangeiros sob o pseudónimo de Álvaro Gomes.

 

Terminada a guerra com a vitória dos Aliados, nasceu entre os antifascistas portugueses a ilusão de que todas as ditaduras nazi-fascistas, lixo da História, iriam ser varridas pelas democracias vencedoras do conflito. Mas foi mesmo uma ilusão. Salazar, qual ilusionista de circo pobre, faz um truque, um passe de mágica – Portugal uma ditadura? Que ideia! – O regime corporativo, onde a saudação de braço estendido, como na Itália fascista ou na Alemanha nazi, foi ritual corrente e, por vezes, obrigatório, transformou-se numa «democracia orgânica».

 

Foi criado o Movimento de Unidade Democrática e Gomes Ferreira aderiu, tal como a grande maioria dos intelectuais portugueses e, em 1947, quando nasceu o ramo juvenil do MUD, escreveu a letra do hino «Jornada» ou «Vozes ao Alto», como é conhecido, com música composta por Fernando Lopes-Graça. Durante as frequentes e intensas lutas estudantis dos anos sessenta, será cantado até à saciedade por jovens, mesmo pelos que, mais à direita ou mais à esquerda, não militam no Partido Comunista, organização que estava por detrás do MUD Juvenil. O Jornada, foi também o hino que serviu de indicativo à estação clandestina Rádio Portugal Livre que, a partir de Praga, emitia diariamente para Portugal desde Março de 1962. Da colaboração entre Fernando Lopes-Graça e José Gomes Ferreira, nasceu também este «Acordai» aqui cantado pelo coro da Academia dos Amadores de Música:

 

Entre 1950, ano do O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens, selecção de crónicas publicadas na Seara Nova, e a sua morte, publicou cerca de quarenta títulos – poemas, obras de ficção, crónicas, livros de memórias, ensaios, peças teatrais, introduções, prefácios, comentários, notas, traduções. De um escritor que, nos primeiros cinquenta anos de vida, produzira pouco mais de meia dúzia de títulos, passou a ser um criador prolífico. No segundo fôlego do seu espírito criativo, vieram as grandes obras, as que o converteram num dos mais importantes escritores portugueses do século XX. Naturalmente que José Gomes Ferreira não publicou muito nesse primeiro meio século de vida, mas escreveu. Foi «enchendo gavetas com nuvens», para usar a expressão que ele próprio utilizou para classificar esses anos em que acumulou projectos que, por uma razão ou por outra, não concluiu.

 

Depois, as nuvens foram saindo das gavetas transmutadas em sóis luminosos: Em 1948 saiu a público Poesia I, que José considera o seu verdadeiro livro de estreia; em 1950 é publicado o volume de Poesia II, sendo também editado o livro de ficções O Mundo dos Outros. Colabora com Lopes-Graça em Líricas. Em 1956 publica Eléctrico. Em 1960 é a vez da obra de ficção, O Mundo Desabitado. Em 1961 é-lhe atribuído o Grande Prémio da Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pela Poesia III. Em 1962 é editada a Poesia IV e publicado Os Segredos de Lisboa. Em 1963 edita-se Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo. Em 1965 sai A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim.1966 é o ano de publicação de Imitação dos Dias – Diário Inventado. Em 1969 publicou os contos de Tempo Escandinavo. Em 1971, O Irreal Quotidiano – histórias e Invenções. Em 1973 Poesia V.

 

25 de Abril de 1974: manhã cedo, Rosália acordou-o dizendo-lhe que havia movimentos de tropas em redor de Lisboa. José refilou, rabugento. Levantou-se e espreitou pela janela. Pouca gente na rua. Tocou o telefone. Era o Carlos de Oliveira: «Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa? Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso. Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro»: Depois «A Rosália chama-me, nervosa: – Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço.» (…) «Na Rádio a canção do Zeca Afonso…» «Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas». Agora, sim, é tempo de cantar flores. É tempo das papoilas, bandeiras breves, voltarem ao seu destino de enfeitar cabelos. Mas José, nos seus 74 anos de vida, já sofreu muitas desilusões. Por isso, num encontro com escritores portugueses antifascistas regressados a Portugal após o 25 de Abril, José diz-lhes: «Que esta revolução das flores não seja a revolução das flores de retórica.»

 

Em 1975 saiu Gaveta das Nuvens – tarefas e tentames literários e o volume de crónicas Revolução Necessária. Em 1976 editou-se O Sabor das Trevas – Romance Alegoria. Em 197
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foi a vez de novo volume de crónicas: Intervenção Sonâmbula. Em 1978 saíram os volumes I, II e III de Poesia Militante. Foi eleito presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Publicou Coleccionador de Absurdos e Cinco Caprichos Teatrais. Em 1979, nas eleições legislativas intercalares, foi candidato, por Lisboa, nas listas da APU (Aliança Povo Unido).

 

Em 1980 começou o tempo das homenagens – o presidente Ramalho Eanes, condecorou-o como Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, recebendo depois o grau da grande oficial da Ordem da Liberdade. Nesse ano, numa altura em que o PCP já não estava «na mó de cima», portanto por idealismo e não por oportunismo como aconteceu com tantos, filiou-se no Partido Comunista Português. Publicou O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial. Editou-se ainda o Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II. Em 1983 foi submetido a uma melindrosa operação cirúrgica, sendo também homenageado pela Sociedade Portuguesa de Autores. Em 8 de Fevereiro de 1985, morreu na sua casa da Avenida Rio de Janeiro, em Lisboa, vítima de doença prolongada.

 

Na obra de José Gomes Ferreira cruzaram-se três tendências ou correntes literárias, sem que se possa ligá-lo a qualquer delas: o eco da matriz saudosista que lhe ficou da iniciação com Leonardo Coimbra orientando-o para a devoção a Raul Brandão e a Teixeira de Pascoaes, a atracção pela forma insolitamente bela e onírica do surrealismo e o apelo constante do conteúdo do realismo socialista ou, como se chamou entre nós, do neo-realismo. Esta miscigénese deu lugar a uma escrita muito pessoal, muito original, muito fora das escolas e das classificações que os bem-pensantes usam como prótese, a crítica literária como bússola e a análise académica como bengala.

 

Falar, nestas breves linhas, de José Gomes Ferreira, foi como descrever o caminho trilhado pela inteligência através de um século manchado por numerosos estigmas – duas guerras mundiais com uma grave crise económica de permeio, o deflagrar da Guerra Fria, a ameaça da destruição nuclear, e as vésperas do colapso do «socialismo real». Em Portugal, o florescer e o ruir do sonho republicano, submerso no caos da I República e do episódio da aventura sidonista, a eclosão do corporativismo, a guerra colonial, a Revolução democrática e a desilusão que se lhe seguiu. José Gomes Ferreira, o escritor, o cidadão, viveu tudo isto nos 85 anos que a sua vida durou – alternâncias de períodos de vibração popular, de entusiasmo e esperança, com o doloroso e cinzento marasmo de quase cinquenta anos de ditadura de permeio.

 

Depois, antes da sua morte, ainda pôde assistir ao «regresso à normalidade», ao vazio que esta democracia formal nos deixa nas mãos e no coração. A sua escrita incorporou-se na luta de resistência activa que os intelectuais portugueses moveram contra a ditadura salazarista. Os seus versos, as páginas dos seus livros, as letras de canções que, musicadas por Lopes-Graça, andaram nas bocas dos antifascistas, fazem parte da luminosa estrada que sulcou uma noite mesquinha e criminosa. A sua obra foi um grito de inteligência no deserto de ideias que um regime tacanho quis fazer prevalecer sobre as mentes dos Portugueses.

 

Por isso, concorde-se ou não com as suas opções políticas, deve-se-lhe reconhecer a coragem de quem nunca se preocupou com o que lhe era conveniente, de quem sempre fez e disse o que lhe pareceu estar certo. Falar de José Gomes Ferreira foi como narrar o caminho que as suas palavras luminosas abriram através da noite escura que durante 48 anos desceu sobre Portugal. Falei de um dos grandes, de um dos maiores poetas portugueses. Ouçamos Luísa Basto cantar a sua (e de Lopes-Graça) «Jornada», mais conhecida por «Vozes ao Alto!»:

 

Today is Churchill’s day

 

Em meados de 1940, Churchill e a Inglaterra estavam sozinhos. Hitler tinha, em poucos meses, invadido vários países. A França estava em ruínas e à beira do armistício, os Estados Unidos não cedia apoios, Rosevelt conspirava contra Churchill, Mussolini acabara de se juntar a Hitler e, para cúmulo, os britânicos tinham sido forçados a uma retirada humilhante em Dunquerque e Hitler preparava-se para invadir a Inglaterra.

 

Tudo corria mal.

 

Churchill percebeu então que as ilhas britânicas estavam em sério risco. O Primeiro-Ministro inglês, que tinha sido Ministro de Guerra, sabia que Inglaterra estava a correr sérios riscos de derrota. Abandonado por todos, sabia que a única esperança era a “Royal Navy”. A frota inglesa era considerada a mais poderosa do mundo, e ele sabia que a defesa da Grã-Bretanha e mais do que isso, a sua sobrevivência, dependiam directamente da sua Marinha.

 

A Inglaterra tinha assinado um tratado com a França que dizia que nenhum dos dois países podia render-se sem a aprovação do outro.

 

Quando Hitler invade a França e o Primeiro-Ministro francês se demite, o novo Governo decide rasgar o tratado que tinha feito com a Inglaterra e assinar o Armistício. No acordo que Hitler propõe ou impõe à França, diz que deixa o Sul de França desocupado, mas que a frota francesa tem que passar para as mãos dos alemães. Ao saber disto, Churchill fica aterrorizado.

Se os navios franceses passassem para a posse dos alemães, juntando ainda à frota alemã e italiana, a marinha inglesa, por muito poderosa que fosse, nunca conseguiria fazer frente ás outras três. Contudo, foi prometido a Churchill, pelo Almirante Darlan, que caso os alemães tentassem apoderar-se dos navios franceses, estes iriam ser destruídos antes de serem entregues aos alemães. Darlan deu a sua palavra.No entanto, Churchill, sentindo-se traído pelos franceses, não acreditou. Prepara então a “Operação Catapulta”, que consistia em mandar navios britânicos a todos os portos onde estavam atracados navios franceses e reclamar para os britânicos a entrega dos navios. Por qualquer meio que fosse. Isso aconteceu com os navios que estavam na costa inglesa, com os navios em Alexandria, e com os navios que estavam na Argélia, pois eram nestes locais que estavam atracados os principais navios da frota francesa. Os navios franceses situados na costa inglesa foram entregues aos ingleses com alguma retaliação o que acabou por matar três britânicos e um francês. Os navios na Alexandria foram entregues sem retaliações, mas o maior problema deu-se na Argélia, em Mers el Kébir. Era aqui que se encontram os maiores navios franceses, o Dunquerque, Provence e o Bretagne. Churchill dá ordens expressas ao Almirante Somerville, para entregar um ultimato ao almirante francês Gensoul, que era Almirante de um dos maiores navios que estavam em Mers el Kébir. Este ultimato dava aos franceses três opções: 1- acompanhem os britânicos, com os navios, para continuarem a lutar contra os alemães 2 – Dirijam-se a um porto britânico com a menor tripulação possível. 3- Ou então dirijam-se para algum porto francês nas Caraíbas ou para os Estados Unidos. Caso recusassem alguma destas opções, os britânicos não teriam outra hipótese senão atacar os navios.

Este ultimato provocou uma onda de indignação. Gensoul sentiu-se ofendido e transmitiu a situação a Darlan que, furioso, lhe disse para ele empatar até que reforços franceses chegassem a Mers el Kébir. Os ingleses interceptaram-se esta mensagem e Churchill percebe que não tem outra hipótese senão dizer a Somerville para abrir fogo. O que se segue é absolutamente terrível. Os marinheiros franceses foram encurralados no porto, e os ingleses abriram indiscriminadamente, fogo. Os que ainda há poucas semanas tinham sido seus aliados estavam agora a atacá-los. No documentário que passou na RTP 2 e que motivou este texto, há um relato arrepiante de um marinheiro francês que conta como viu os seus companheiros sem membros, a morreram queimados, implorando pela morte. A água, supostamente a única salvação, “fervilhava” como se fosse uma fritadeira, e ele próprio não teve outra hipótese senão saltar para a água arriscando-se também a morrer queimado. O navio em que estava, Bretagne afundou-se vinte segundos depois. Os navios Provence, Dunquerque e Mogador foram reparados, e dirigiram-se para Toulon. Morreram mais de 1200 franceses, sem contar com os que ficaram feridos.

Churchill ao saber das baixas sentiu-se fisicamente doente, como os relatos contam. Tinha ainda outro problema. Como é que ia justificar as suas acções perante a Câmara dos Comuns? No discurso que fez disse que não podia arriscar que a frota francesa passasse para as mãos dos alemães. No discurso que fez, chorou e a Câmara dos Comuns levantou-se para aplaudir. Todos aprovaram. A imprensa, os deputados, os ingleses, e finalmente, Rosevelt percebeu que Churchill e a Inglaterra nunca desistiriam. Nunca cederiam. E o Presidente americano acedeu finalmente aos pedidos de Churchill e começou a ajudar a Grã-Bretanha.

Meses depois, quando os alemães foram apoderar-se dos restantes navios franceses, Darlan cumpriu a sua promessa. Os marinheiros franceses afundaram ou incapacitaram os navios para que os alemães não pudessem apropriar-se deles. Em resultado disto, o Almirante Darlan, mandou uma carta a Churchill dizendo que era aquela a prova de que o ataque de Mars el Kébir tinha sido completamente despropositado.

Churchill disse a História o iria julgar. E julgou, sem dúvida. E a História foi bastante simpática. Há, contudo, algo que é semelhante a todas as grandes personagens históricas. Todas elas são complexas. Todas elas são contraditórias. Todas elas tiveram os seus maus momentos, os seus erros. Como devemos então decidir quem admiramos? Se vamos buscar inspiração à História e se quase ninguém na História é completamente Bom, se toda a gente na História cometeu erros, como decidimos que determinada pessoa deve ser idolatrada e admirada? Não decidimos. Pura e simplesmente aprendemos. Aprendemos e tiramos lições com os erros deles e inspiramo-nos com os seus feitos e com a sua coragem. É assim que deve ser.

Poemas com história: Reunião conspirativa

Este poema foi escrito em 1968. Inspirei-me numa reunião em casa de antifascistas abastados de uma cidade de província no Outono daquele annus horribilis do capitalismo internacional e da ditadura portuguesa – com a onda de choque do Maio parisiense a atingir as universidades, com Salazar a cair da cadeira, com a agudização da Guerra Colonial, sobretudo na Guiné. A repressão aumentava, mas a esperança dos antifascistas também. A forma de exprimir essa esperança assumia, por vezes, aspectos caricatos, como os que refiro no poema. A «unidade antifascista» obrigava, porém, a pactuar com este tipo de «resistência», onde havia mistos de reunião conspirativa, cocktail e vernissage. Com outros dois companheiros, percorremos algumas centenas de quilómetros para assistir a uma suposta reunião política e deparou-se-nos um agradável e acolhedor, mas politicamente inócuo, convívio social  entre a burguesia bem pensante da pequena cidade. Nessa altura, por bem pensante já se entendia ser democrata e antifascista. Apenas se salvou a recolha de fundos a que procedemos (o uísque também não era nada mau). O poema com que reagi a esta realidade só foi publicado, no meu livro O Cárcere e o Prado Luminoso, mais de vinte anos depois de ser escrito. Diz assim:

 

Reunião conspirativa

Uma memória dos anos sessenta

 

Chez revolucionário de lareira,

cada coisa está no seu lugar:

Lenine na estante,

uísque na garrafeira.

Nas paredes é uma festa:

Mondrian, Utrillo e Leonardo

(em boas molduras de aço anodizado),

submetem-se ao poster;

«Che» preside,

com os cabelos ao vento da Baía e a boina guerrilheira. (1)

Cá em baixo,

ao nível da alcatifa,

o Zeca chora a morte da ceifeira.

Come-se aperitivos de importação

e (presença da cultura popular)

pastéis de bacalhau.

Entre um cigarro americano

e uma (oportuna) citação

do presidente Mao,

a anfitriã cala o Zeca

e liga a televisão.

_________

(1)     – O muito divulgado poster com o retrato de Ernesto «Che» Guevara, depois também estampado em T-shirts, pensava-se na altura que era uma fotografia tirada quando foi repelida a invasão da Baía dos Porcos, organizada pela CIA. Soube-se depois que fora feita em 5 de Março de 1960 pelo grande fotógrafo cubano Alberto Korda, quando uma sabotagem fez explodir um barco em Havana.

 

Dicionário de Parlamentares da III República (1974 – 2009). ADEGAS – AGUIAR

continuação daqui

 

 

ADEGAS, Mário Martins – Nasceu em 25 de Outubro de 1935. Economista. Exerceu funções de chefia em diversas instituições bancárias, caso do BNU e do BESCL. Integrou, como Vice-Presidente, o Conselho Nacional do Plano. Foi Deputado à Assembleia da República entre 1978 e 1985, eleito nas 3 primeiras Legislaturas pelo PSD, círculo de Aveiro. Empenhou-se então na elevação administrativa de vilas e aldeias do distrito, para além das várias intervenções que fez sobre temas económicos e sociais. Fez parte do VII Governo Constitucional, como Secretário de Estado do Tesouro.  Actualmente, é membro do Conselho Económico e Social.

 

AFONSO, Fernando José Russo Roque Correia – Nasceu em 3 de Julho de 1929 em Lisboa. Advogado. Foi técnico consultor do Ministério das Finanças e membro de diversas delegações portuguesas a organismos internacionais na década de 60. Entre 1984 e 1989, desempenhou as funções de Vice-Presidente do Conselho Superior da Ordem dos Advogados. Eleito Deputado à Assembleia da República, pelo PSD, da III à VI Legislaturas, entre 1983 e 1995. Num curto espaço de tempo, em 1987, foi Presidente do seu Grupo Parlamentar. Na VI Legislatura, foi um dos autores do Projecto de Revisão constitucional e o relator de diversas iniciativas.

 

ÁGUAS, Maria do Rosário da Silva Cardoso – Nasceu em Coimbra em 21 de Fevereiro de 1961. Licenciada em Gestão e Organização de Empresas, trabalhou em várias empresas privadas. No mandato de 1997/2001, foi eleita Vereadora da Câmara Municipal da Figueira da Foz. Eleita Deputada à Assembleia da República, pelo PSD, na IX Legislatura, suspendeu o mandato para integrar o XV Governo Constitucional, como Secretária de Estado da Habitação. No XVI Governo, foi Secretária de Estado Adjunta do Ministro da Segurança Social, da Família e da Criança e Secretária de Estado da Administração Pública. Voltou ao Parlamento na X Legislatura e, nesta que agora se inicia, foi de novo eleita. Nos últimos 4 anos, foi uma das mais dinâmicas Deputadas do Grupo Parlamentar do PSD.

 

AGUIAR, António Júlio Simões de – Foi Deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, eleito na I Legislatura pelo PPD, círculo da Guarda – foi o primeiro Deputado do Partido por aquele Distrito. Na Assembleia Constituinte, em finais de 1975, dirigiu-se à Assembleia para questionar o rumo do PPD e da facção liderada por Mota Pinto. Quase no final da Assembleia, protagonizou uma forte polémica com Jaime Gama a propósito de um comício do PPD no Porto.

 

AGUIAR, Manuela – ver MOREIRA, Maria Manuela Aguiar Dias.

 

Telejornal: 50 Anos

Dicionário de Parlamentares da III República (1974 – 2009). A – ABREU

 

 

 A

 

ABECASIS, Nuno Krus – Nasceu em 1929 em Faro, morreu em 1999. Engenheiro civil. Fez parte do II Governo Constitucional, em 1978, como Secretário de Estado das Indústrias Extractivas e Transformadoras. Foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa entre 1979 e 1989, um período correspondente a 3 mandatos. Na parte final do seu último mandato, entregou a Siza Vieira a reconstrução da zona do Chiado, alvo de um grande incêndio em 1988. A sua passagem pela edilidade ficou marcada por muitas críticas, relativas à especulação imobiliária que permitiu. Depois de abandonar a Presidência, integrou a Assembleia Municipal, ao mesmo tempo que presidia à Fundação Cidade de Lisboa. Foi Deputado à Assembleia da República, pelo CDS, nas 4 primeiras Legislaturas, entre 1976 e 1987, embora tenha ocupado poucas vezes o seu lugar devido às funções autárquicas que entretanto assumiu.

 

 

 

ABRANTES, Afonso Sequeira  – Nasceu em 1945 na Guarda. Professor do ensino básico, com licenciatura em Filologia Românica. Presidiu à Comissão Instaladora da Escola Preparatória de Mortágua em meados dos anos 80. Desde 1989, é Presidente da Câmara Municipal de Mortágua, tendo vencido, pelo PS, 6 eleições consecutivas, sempre com maioria absoluta. Nos anos anteriores, fora membro da Assembleia Municipal e Vereador da edilidade. Foi Deputado à Assembleia da República, pelo PS, círculo de Viseu, entre 1987 e 1990.

 

ABRANTES, Domingos – ver FERREIRA, Domingos Abrantes.

 

ABRANTES, João Carlos – Nasceu em 1945. Engenheiro técnico agrário. Trabalhou na Direcção Geral dos Recursos e Aproveitamentos Hidráulicos. Foi Deputado à Assembleia da República da II à IV Legislaturas, sempre em regime de substituição. Exerceu o cargo pelo PCP, círculo de Coimbra. Interveio de forma activa no Parlamento, sobretudo através de requerimentos a diversos ministérios. A nível autárquico, integrou a Assembleia Municipal de Montemor-o-Velho.

 

ABREU, Filipe Manuel da Silva – Nasceu em 1947 em Paços de Ferreira. Consultor jurídico. Anteriomente, trabalhou como comerciante de arte. Foi coordenador do Gabinete Autárquico Distrital de Faro, Vereador da Câmara Municipal de Portimão e membro da Assembleia Municipal do mesmo concelho. Foi Deputado à Assembleia da República, eleito pelo PSD, entre 1987 e 1998 na V, VI e VII Legislaturas, sendo que nesta esteve em regime de substituição. Revelou-se muito interventivo durante a V Legislatura, tomando frequentemente a palavra para debater os problemas do Algarve, região pela qual foi eleito.

 

ABREU, João Eduardo Coelho Ferraz de – Nasceu em 1917 em Sever do Vouga. Médico cirurgião. Trabalhou em vários estabelecimentos hospitalares antes e depois do 25 de Abril. Aderiu ao PS em 1976, tendo coordenado, durante muitos anos, o sector da Saúde no Partido. A nível autárquico, foi membro da Assembleia Municipal de Sever do Vouga. Eleito Deputado à Assembleia da República da III à VI Legislaturas, entre 1983 e 1995. Neste período, exerceu os cargos de Vice-Presidente da instituição, Presidente do Grupo Parlamentar e Presidente da Comissão de Saúde. Foi ainda Presidente do Partido. A maioria das intervenções que fez no Parlamento versaram o tema da Saúde. Foi Presidente do PS. Em 1997, passou a presidir à Comissão do Conselho Nacional para a Política da Terceira Idade. Mais recentemente, integrou o Conselho Geral da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

 

(continua)

A máquina do tempo: a «Noite Sangrenta»

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Faz hoje 88 anos. Elementos republicanos radicais da Marinha e da G.N.R. desencadearam uma tentativa de golpe revolucionário. Gerou-se uma situação confusa e descontrolada em Lisboa no decurso da qual foram barbaramente assassinados o chefe do Governo, António Granjo, Carlos da Maia, Freitas da Silva e Machado Santos, o herói da Rotunda em 5 de Outubro de 1910. Na foto acima, pode ver-se o governo de Granjo. Ele está ao centro de chapéu e barba.

Onze anos após a proclamação da República os republicanos davam largas ao sectarismo e matavam-se entre si. As sementes do pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926 estavam lançadas. O fim da I República aproximava-se. Porquê tanto ódio? A nossa máquina do tempo vai levar-nos até esse dia negro.

A I Grande Guerra deixara a Europa devastada e desmoralizada. As democracias liberais estavam desacreditadas e os regimes autoritários, capitalizando o fracasso dos governos democráticos, iam ganhando peso. Em Itália, Benito Mussolini e os seus camisas negras estavam a um passo do poder. Na Alemanha, digeria-se com dificuldade a humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes e o nazismo ia nascendo nesse caldo de incontida raiva.

Em Portugal, ultrapassados os episódios do consulado sidonista e da Monarquia do Norte, atravessava-se um período de particular instabilidade – os golpes revolucionários, sucediam-se e os governos eram derrubados uns atrás dos outros. O escritor Raul Brandão caracterizava a situação como «uma marcha heróica para um cano de esgoto». Segundo Carlos Ferrão vivia-se «uma agonia colectiva e declínio nacional».
Os grandes vultos da república estavam afastados – Afonso Costa exilara-se em Paris, Brito Camacho fora para Moçambique… António José de Almeida era o presidente da República. O chefe do Governo, desde 30 de Agosto, era António Granjo (1881-1921). Activo militante republicano, foi deputado, director do jornal República, ministro da Justiça e da Agricultura e quatro vezes presidente do Ministério. Poeta e combatente da Grande Guerra era um homem de grande coragem e vivacidade. Quer o presidente da República, quer Granjo, líder do Partido Liberal, tinham derrotado nas urnas o Partido Democrático. Eram os militares apoiantes deste que agora se revoltavam.

Naquele dia 19 de Outubro de 1921. Lisboa acordou com os tiros de mais uma revolução. Eram sete e dez e desde as cinco e quarenta e cinco que tropas da GNR haviam começado a ocupar pontos estratégicos da capital. Na Rotunda a Guarda, que à época era a força militar mais bem apetrechada, instalou artilharia pesada e obuses, com os quais começou a flagelar alvos hostis. Só na Rotunda, a GNR concentrou 7000 homens.

Granjo foi com alguns dos seus ministros para o campo de aviação da Amadora. Apresentou a demissão do seu cargo ao presidente António José de Almeida que a aceitou. Cerca das cinco da tarde regressou a Lisboa. A cidade estava em poder dos revoltosos e Granjo refugiou-se em casa de Cunha Leal, seu amigo e vizinho e seu ministro das Finanças. A casa do ministro estava vigiada e os revoltosos depressa souberam que Granjo ali estava.

A situação política estava perdida. A revolta triunfara, com as tropas insurrectas ocupando todos os pontos-chave da cidade. Os ministros andavam fugidos. Manuel Maria Coelho, um nome mítico, o lendário tenente Coelho da revolução de 31 de Janeiro de 1891, agora no posto de coronel, comandava os revoltosos. Embora os acontecimentos trágicos daquela noite tivessem escapado ao seu controlo. Aliás, ninguém, nenhum partido ou organização reivindicou o horror que foi aquela noite em Lisboa; quase todos o condenaram.
A «camioneta fantasma» (da qual hei-de falar mais em pormenor) começava a sua sinistra tarefa dessa noite, transportando António Granjo e Cunha Leal para o Arsenal, junto ao Terreiro do Paço.

José Brandão, o autor de «A Noite Sangrenta», um dos livros que melhor narra o que se passou e porque se passou, descreve de maneira viva e veraz o assassínio de Granjo: «O chefe do Governo, vencido, mantém até ao fim a coragem que o abatimento não excluiu. Salta os três degraus e, então, lança as suas últimas palavras, em que há ódio e resignação: – Já sei o que vocês querem! Matem-me, que matam um bom republicano! Soou uma descarga; debaixo, corresponderam. António Granjo caiu ao comprido, vertendo sangue por inúmeros ferimentos. Estava ainda nas últimas convulsões quando um dos assassinos, que, no dizer da testemunha ocular, é um clarim da GNR, de desmedida estatura, sacou da espada e a cravou no estômago com violência tal que, atravessando o corpo, ficou presa no sobrado. Depois, friamente, o facínora, pondo o pé sobre o peito de António Granjo, sacou a arma e gritou triunfalmente, mostrando-a aos companheiros: – Venham ver de que cor é o sangue do porco!»

Como houve diversas testemunhas oculares dos crimes, sabe-se como tudo aconteceu. O que até hoje permanece um mistério, são as razões que conduziram a actos tão horrorosos. Vitoriosa a revolta, tendo Granjo pedido a demissão, por que motivo teve de ser eliminado fisicamente? Depois de ler muito sobre o tema, a minha explicação é a de que não há explicação – um atávico ódio de classe? Os assassinos eram gente do povo, soldados rasos ou de baixa patente, com leituras apressadas de escritos revolucionários; as vítimas eram senhores, bacharéis, oficiais. Talvez fosse apenas isso (a luta de classes tem as costas largas).
O livro de que já falei – «A Noite Sangrenta», do historiador José Brandão, vai tão longe quanto é possível na clarificação. Sendo uma edição de 1991, creio que está esgotada. Talvez o possam encontrar em bibliotecas.

Poemas com história: Em louvor dos equilibristas

 

Quase um lugar-comum, nem é uma metáfora muito engenhosa, esta dos equilibristas para designar aqueles que durante a ditadura, vestiam a pele de oposicionistas ou de situacionistas, conforme mais conveniente lhes fosse, oscilando entre a direita e a esquerda e conseguindo, nesse equilíbrio difícil, ser considerados democratas pelos antifascistas e «respeitadores da ordem» pelos salazaristas. Hoje, na democracia que temos continua a haver «equilibristas», gente que é de esquerda quando quer parecer «bem-pensante», mas suficientemente conservadora para ser aceite por quem governa e para ocupar cargos e receber sinecuras. Pensando nessas pessoas que continuam a equilibrar-se entre o «democraticamente correcto» e o «conveniente para a conta bancária», escrevi este texto que publiquei em «O Cárcere e  o Prado Luminoso» (1990):


 

Em louvor dos equilibristas

Falta ainda uma condecoração,

ordem ou comenda que consagre

o esforço do equilibrista

em prol da civilização.

Formidável ciclista,

verdadeiro paganini da circulação

em cima do arame,

o ciclista percorre,

sem qualquer hesitação,

o ténue espaço que separa

a esquerda direita.

É um simples traço,

quase uma abstracção,

um risco passado

por onde não há espaço.

Ágil, aproveita

o espaço inexistente

deslocando o corpo obliquamente:

metade sobre o risco da direita

e a outra debruçada

sobre os riscos da vertente

que à esquerda, sobre o abismo,

espreita.

Mas ouçamos a receita do artista

(que ninguém está livre

de a ter de usar:

quando menos se espera e pensa,

a corda tensa, a pista, a vertigem,

lá estão à espera

dos que não aprenderam a voar).

Diz, com modéstia,

o frágil saltimbanco:

– Afinal nem é assim tão complicado.

Sigo pela direita

quando

ando;

avanço pela esquerda

quando estou

parado.

 

A máquina do tempo: a «Leva da Morte»

ferragial

Há quem, mais de 90 anos decorridos, queira descrever o consulado sidonista como um oásis de ordem no meio do caos da I República. Esquecem-se, entre outros actos de despotismo, os que assim descrevem o período em que Sidónio Pais presidiu aos destinos do País do sinistro episódio da «Leva da Morte», ocorrido faz hoje 91 anos, portanto em 16 de Outubro de 1918.

No ano anterior tinham acontecido muitas coisas – logo em Janeiro partira para França a primeira brigada do Corpo Expedicionário Português (Comandado pelo general Gomes da Costa). Portugal entrava na Grande Guerra. Os contingentes continuariam a seguir para a frente de batalha. Em 25 de Abril formou-se o terceiro governo de Afonso Costa. Em Maio noticiavam-se as primeiras «aparições» de Fátima, logo aproveitadas pelas forças conservadoras.

O pano de fundo de tudo isto, eram os motins, as greves, mas esse caos social, económico e político serviu de trampolim ao major e professor Sidónio Pais que, mobilizando algumas unidades militares e, sobretudo, os cadetes da Escola de Guerra, e com algum apoio popular, desencadeou em 5 de Dezembro uma revolta. Mais uma. Afonso Costa foi preso, o ministério demitiu-se, o presidente Bernardino Machado partiu para o exílio. Instaurou-se uma ditadura militar, apoiada pelo Partido Unionista. O Congresso foi dissolvido, destituído o presidente da República, a constituição alterada. Instalou-se um regime presidencialista – aquilo a que se veio a chamar o sidonismo. A Sidónio, muitos chamavam o «Presidente-Rei». Era a «República Nova».

Os decretos eram publicados a uma velocidade estonteante. A máquina administrativa, a lei da imprensa, o ensino, tudo ia sendo reformulado. As relações com o Vaticano foram restabelecidas e restituído ao clero muitos dos privilégios que a República lhe retirara. As sucessivas revoltas contra a ditadura sidonista iam sendo dominadas. Em Janeiro de 1918, foi neutralizado um levantamento de marinheiros da Armada. Em 28 de Abril, realizaram-se eleições presidenciais com Sidónio como único candidato, foi eleito. Em França, em La Lys, as tropas portuguesas sofreram uma pesada derrota o que reforçou a germanofobia do presidente e dos seus apaniguados. A direita reforçava-se. Em Julho surgia a «Cruzada Nun´Álvares» formada por monárquicos e sidonistas católicos com o objectivo de unir a direita anti-republicana.

Tudo isto ocorria sem que os problemas fulcrais do País se resolvessem – continuava a miséria, a carestia da vida, o racionamento de bens essenciais… O descontentamento, mesmo dos que tinham saudado o aparecimento de Sidónio, reavivava-se. Recomeçavam as greves, os motins, os levantamentos populares. O benefício da dúvida terminara. Sidónio apenas resolvera problemas da hierarquia da Igreja, de terra-tenentes e industriais. O povo não figurava nos seus planos. Gente ligada ao Partido Democrático, agitava-se. As prisões enchiam-se de opositores ao «presidente-rei». A «lei-da-rolha» estendia-se a todos os domínios. Tudo estava tão mal como antes, só que agora nem sequer se podia protestar. E chegamos ao 16 de Outubro de 1918.

Na manhã de 12 de Outubro eclodiu em Coimbra uma revolução constitucionalista, saindo para a rua o Regimento 35. O comandante da Divisão sediada na cidade foi preso pelos revoltosos e o alferes Sidónio Pais, o filho do presidente, perseguido pela cidade. Em Lisboa e no Porto, o movimento não encontrou eco, a revolta foi jugulada Face à rebelião que alastrava por todo o País, o governo decretou o estado de sítio. As prisões encheram-se de presos políticos, gente do Partido Republicano Português na sua generalidade.
Cerca das 3 da tarde, não cabendo mais presos nos calabouços do Governo Civil de Lisboa, as autoridades decidem transferir uma parte deles para os fortes do Campo Entricheirado – São Julião da Barra, Alto do Duque e Caxias. O comboio especial que os iria transportar, estava previsto sair às 18 horas do Cais do Sodré, sendo depois a partida adiada para as 21 horas. Ao cair da tarde, 153 detidos são concentrados no pátio central do Governo Civil e, rodeados por 253 guardas saem do edifício. Há um pormenor bizarro. O cortejo é aberto por uma formação de corneteiros e tambores.

Entre os presos, destaca-se a figura fisicamente enorme de Francisco Correia Herédia, um sexagenário forte e combativo. Fora deputado e fizera, antes do Regicídio, parte do grupo da dissidência Progressista, liderado por José Maria de Alpoim. Estava filiado no PRP de Afonso Costa e voltara ao Parlamento, agora como deputado republicano. Deixara de usar o título de visconde e usava apenas o seu nome civil. Como disse, os presos marchavam enquadrados por guardas armados. Apontando as armas aos curiosos, gritavam:
– Fechem as janelas! Afastem-se das ruas!

Quando o cortejo, vindo da Rua Serpa Pinto, atravessando o Largo da Biblioteca e chegando a cabeça da coluna à Rua Vítor Córdon soou um tiro. Estabeleceu-se o pânico e desencadeou-se um forte tiroteio com os guardas a disparar quase à toa em todas as direcções. Quando a calma e o silêncio se restabeleceram a rua estava juncada de mortos e de feridos, alguns agonizantes. No rescaldo, apuraram-se sete mortos, seis presos e um guarda, sessenta feridos, sendo trinta e um preso e vinte e nove guardas. Entre os mortos, na valeta junto à Rua Vítor Córdon, estava o visconde de Ribeira Brava, degolado pelo que parece ter sido um golpe de baioneta.

No dia seguinte, o Governo emitiu um comunicado em que se dizia que tudo começara quando Francisco Herédia disparou sobre os guardas da escolta, tentando evadir-se. Nesta disparatada versão pormenorizava-se que a pistola entrara na prisão dentro de um tacho de açorda! – a pistola nunca foi encontrada. Dizia-se também que dos bordéis da Calçada do Ferragial tinham sido disparados tiros contra a polícia. Foi preso um garoto de 12 anos, acusado de cumplicidade no ataque.

No entanto, a versão em que toda a gente acreditou era a mais óbvia: o massacre fora preparado pela polícia sidonista. O insólito grupo de tambores e cornetas abrindo o cortejo foi interpretado como uma forma de referenciar a marcha da coluna aos olhos de quem do exterior iria intervir.

No sábado, 14 de Dezembro de 1918, quando o ditador ia partir para uma viagem ao Norte, foi abatido a tiro na Estação do Rossio por um atirador que, ao que parece, não fazia parte de qualquer grupo político. Um tal José Júlio da Costa que, apesar de todos os esforços da polícia, do avultado número de prisões efectuado, nunca se provou estar organizado fosse em que partido fosse.

A chamada República Nova morrera com Sidónio. Nunca se diga que os doze meses da ditadura sidonista foram um hiato na violência e no caos da I República. A «Leva da Morte», episódio ocorrido faz hoje 91 anos, foi apenas um dos muitos crimes cometidos pelas autoridades nesse período.

Parlamentares da III República (1974 – 2009)


Como forma de marcar o início de mais uma sessão legislativa, inicio amanhã a publicação regular de uma obra encomendada há uns anos por uma editora de Vila Nova de Gaia, que nunca chegou a ver a luz do dia devido à falência da empresa.
Chamar-se-ia essa obra «Dicionário de Políticos Portugueses» e a parte que estava a meu cargo era a da III República – entre 1974 e a actualidade. Mais do que meras biografias e curriculuns, pedia-se uma apreciação pessoal, dentro do possível, de cada um dos parlamentares que passou pela Assembleia da República desde o 25 de Abril.
Apresentarei esta obra, a partir de amanhã, como a deixei na altura, com os erros e as lacunas decorrentes do facto de nunca ter sido concluída, mas actualizada já com os nomes da actual Legislatura.

"Aos vindouros, se os houver"

Vós, que trabalhais só duas horas

a ver trabalhar a cibernética,

que não deixais o átomo a desoras

na gandaia, pois tendes uma ética;

 

que do amor sabeis o ponto e a vírgula

e vos engalfinhais livres de medo,

sem preçários, calendários, Pílula,

jaculatórias fora, tarde ou cedo;

 

computai, computai a nossa falha

sem perfurar demais vossa memória,

que nós fomos pràqui uma gentalha

a fazer passamanes com a história;

 

que nós fomos (fatal necessidade!)

quadrúmanos da vossa humanidade.

 

Alexandre O’Neill, Poemas com Endereço

A máquina do tempo: a «Monarquia do Norte» (ou o «Reino da Traulitânia»)

Vamos fazer mais uma curta viagem no tempo, recuando até 1919. Porque 90 anos à escala da História não é quase nada, é como irmos de passeio até aos arrabaldes da cidade em que habitamos. Vamos lá. Como se sabe, no dia 14 de Dezembro de 1918, quando entrou na Estação do Rossio, em Lisboa, para fazer uma viagem de Estado ao Porto, o presidente Sidónio Pais foi assassinado. Com os sidonistas divididos em monárquicos e republicanos e digladiando-se entre si, as duas Câmaras, Parlamento e Senado, no dia 16 desse mês, elegeram o almirante Canto e Castro como presidente da República, seguindo a Constituição de 1911. No dia 23, este convocou Tamagnini Barbosa para formar Governo.

O objectivo era desenvolver uma política prudente, de compromisso entre a direita e a esquerda, tentando evitar-se o perigo iminente de uma guerra civil. Por direita entendia-se os defensores sidonistas da «República Nova», por esquerda os que eram pela «República Velha», ou seja, pelo regresso aos princípios de 1910. No dia 3 de Janeiro de 1919, no Porto, constituiu-se uma Junta Governativa Militar, que se reivindicava da herança do sidonismo. Em consonância, em Lisboa, o coronel João de Almeida concentrou algumas unidades militares em Monsanto.

O fantasma da guerra civil ensombrava o País.

No dia 8 de Janeiro de 1919, Tamagnini Barbosa apresentou perante as Câmaras a formação do novo gabinete. Logo no Parlamento, Cunha Leal verberou violentamente a cedência que o novo chefe do Governo fizera às Juntas Militares de Lisboa e Porto. No Senado, Machado Santos, o herói da Rotunda, reagiu de forma similar.

No noite de 10, em consonância com esta indignação, eclodem revoltas militares, quase simultaneamente em Lisboa – a guarnição do castelo de S. Jorge e o Arsenal de Marinha, na Covilhã e em Santarém. A sedição é rapidamente dominada em Lisboa e na Covilhã. Em Santarém os militares resistem e exigem que o presidente constitua um «Governo de Concentração Republicano», com representação dos partidos democráticos da chamada «República Velha».

Os pronunciamentos que visavam o regresso à normalidade constitucional republicana e que, aqui e ali, se iam verificando, foram todos eles neutralizados pelas forças leais ao Governo. Mas essas forças «leais» não estavam coesas., pois o quadro da direita sidonista apresentava-se diverso no Norte e no Sul: a Sul predominavam os republicanos enquanto que no Norte, os monárquicos eram amplamente maioritários. As duas facções, inspiradas pelo Integralismo Lusitano de António Sardinha, estavam unidas no desejo de impedir o regresso dos políticos de 1910, mas divididas quanto ao regime a instaurar após o seu eventual triunfo.

Até que no dia 19 de Janeiro, sob a liderança de Paiva Couceiro, novo golpe militar no Porto proclamou a restauração do regime monárquico. Foi constituída uma Junta Governativa do Reino. Em Lisboa, o Governo da República apressou-se a decretar, para todo o território continental, o estado de sítio. Por toda a cidade surgiram manifestações de apoio à República e começaram a constituir-se batalhões de voluntários.

O Batalhão Académico, formado por estudantes do ensino superior foi muito falado. José Gomes Ferreira, que esteve integrado na coluna comandada pelo general Abel Hipólito, com quartel-general em Viseu, faz uma colorida descrição da sua intervenção militar em «A Memória das Palavras-I». O Governo lançou um dramático apelo aos militares do CEP, recém desmobilizados da frente de batalha, para que lutassem em defesa da República.

No dia 23 foi a vez de rebentar em Lisboa um golpe monárquico. Chefiado por Aires de Ornelas, concentrou novamente na serra de Monsanto importantes efectivos. O Governo tomou medidas de excepção, libertando os presos políticos – anarquistas, republicanos e socialistas, para que engrossassem as fileiras de defensores do regime. No dia 24, cercados e flagelados pela artilharia, os monárquicos de Monsanto renderam-se. No rescaldo, contaram-se trinta e nove mortos e aproximadamente trezentos feridos. Navios de guerra de países estrangeiros foram fundeando no Tejo, prontos a intervir.

Em 27 de Janeiro tomou posse um governo de «concentração republicana» encabeçado por José Relvas. Por todo o País, sobretudo no Norte e no Centro, iam-se verificando confrontos entre forças monárquicas e republicanas. O perigo de uma guerra civil generalizada é potencialmente grande. E a situação instável manteve-se até que em 13 de Fevereiro as tropas monárquicas comandadas por Paiva Couceiro, se renderam. As unidades leais à República afluíam de todos os lados e avançavam para o Porto sem encontrar grande resistência pelo caminho. No interior da cidade, o capitão Sarmento Pimentel comandou a revolta da «Guarda Real», como fora crismada a GNR, apoiado por civis armados e ajudou a derrotar as forças de Paiva Couceiro.

Embora ainda subsistissem focos insurreccionais pelo Norte, que foram sendo jugulados, a revolta monárquica foi dominada. O Estado deu começo aos julgamentos dos cidadãos envolvidos na tentativa de restaurar a Monarquia. As liberdades, direitos e outros mecanismos constitucionais suspensos pelo golpe de Sidónio Pais em Dezembro de 1917, foram postos novamente em vigor. Chegara ao fim a Monarquia do Norte – a que também se chamou o «Reino da Traulitânia», devido aos maus tratos e sevícias infligidos aos prisioneiros republicanos caídos nas mãos dos couceiristas.

Foi, nos quase cem anos de República, a mais forte tentativa verificada no sentido de restaurar o regime abolido em 5 de Outubro de 1910.

Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido. Salgado Zenha

continuação daqui

«Quem ironicamente tudo percebera – e digo ironicamente a pensar no que viria a acontecer, dez anos depois, em 1985 – foi Salgado Zenha que, apesar do importante trabalho que desenvolvia no Ministério da Justiça, passou a dar maior importância às actividades do Partido Socialista. Mas a sua total lealdade para com o sempre ausente Mário Soares era um raro exemplo nas relações entre os dirigentes socialistas . Não fosse isso e teria facilmente sido ele a liderar o Partido Socialista. É que, com algumas raras excepções, entre os quais me conto, os principais quadros de então estariam com Zenha se assim ele o desejasse. Este apercebera-se durante o Congresso da manobra do PCP, sendo bastante expressiva a cerimónia de encerramento do I Congresso, em que Soares e Serra de pé cantam o hino do Partido de mãos dadas ao ar, com um Zenha «carrancudo» sentado entre ambos. Convencido de que chegara a altura de travar o avanço dos comunistas, e enquanto Soares em Moscovo se esforçava por estabelecer com as autoridades soviéticas relações tão cordiais quanto possível, passa ao ataque empenhando, pela primeira vez, a bandeira da resistência contra o sonho bolchevique. No dia 6 de Janeiro publicaria um artigo no «Diário de Notícias» contra a «unicidade sindical», decretada pelo então Secretário de Estado Carlos Carvalhas, que Zenha afirma ser inconstitucional. A firmeza com que foi lançada esta inesperada oposição do PS provocaria o abandono de Manuel Serra e mudaria o rumo dos acontecimentos em Portugal. Salvaria o país da ditadura que estava na forja sem qualquer reacção até então das forças democráticas e salvaria Mário Soares de vir a desempenhar o papel de Kerensky que Henry Kissinger lhe preconizara em Outubro de 1974.
Foi o grande herói socialista e aquele que, um dia, feitas todas as análises e escritas todas as memórias, os Socialistas portugueses recordarão como, provavelmente, a sua maior figura do século XX. Mas disso falarei mais à frente quando, com total candura, também explicarei os pontos que me levaram a dele discordar em várias ocasiões. Mas como diria Mário Mesquita, em 1976, “ao fim destes dois anos de excessos vários e alguma anarquia, Salgado Zenha, pela sua visão englobante e nacional, credita-se como um dos nossos raros homens de Estado. O que não é, necessariamente, boa sina, porque o Estado ainda está por fazer e os portugueses nem sempre perdoam aos que fogem à bitola comum.»

Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido. Frank Carlucci e o Partido Comunista

continuação daqui

«Ignorando por completo as gravíssimas declarações do então chefe do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho, Carlucci rapidamente perceberia a lógica da «Revolução». O velho amigo dos americanos, Costa Gomes, então Presidente da República, tinha caido na mão dos comunistas, Vasco Gonçalves era mais radical do que o próprio Álvaro Cunhal, os militares estavam ansiosos por protagonsimo e, na sua ignorância política e vaidade revolucionária, pendiam mais para o PCP, Partido que, com o apoio soviético, mais condições tinham para os aliciar. O Embaixador era um liberal de centro-direita e nada tinha, ainda hoje, de socialista. Mas compreendeu, para desespero injustificado de Sá Carneiro, que nem o então PPD, nem a Direita democrática (pág. 64)

A máquina do tempo: a lição magistral de Unamuno

Andando exactamente 73 anos em direcção ao passado, viajemos até 12 de Outubro de 1936, para Salamanca, uma das mais belas cidades de Castela e assistamos a uma cena dramática. Uma entre milhares das que, por aqueles últimos anos da década de 30, Espanha foi cenário. Quando a Guerra Civil foi desencadeada, de 17 para 18 de Julho, com o desembarque do Exército de África, Salamanca foi rapidamente tomada pelas tropas rebeldes (no dia 22). A cidade transforma-se na capital provisória, com ministérios e sede de organizações falangistas. O reitor da Universidade, Miguel de Unamuno, defendera inicialmente a sedição contra a República, chegando a fazer um apelo aos intelectuais europeus para que apoiem a rebelião. Mas a sua adesão ao movimento é breve. A repressão criminosa anda à solta pela cidade. Começam os fuzilamentos. Os intelectuais são presa apetecida pelos falangistas – e fácil, pois em geral não são de grandes resistências. Em fins de Julho, nos bolsos do reitor amontoam-se cartas de familiares e de amigos seus presos – professores, escritores, jornalistas, artistas, pedindo-lhe que use a sua influência para livrar os entes queridos da morte. Unamuno vai, no início de Outubro, ao paço episcopal, onde Franco está a residir e instalou o seu posto de comando, suplicar clemência para os amigos. Inutilmente, pois todos vão sendo executados.

Unamuno já não acredita naquela gente e arrepende-se de a ter apoiado com o seu prestígio de figura mundialmente conhecida, espantando e desiludindo a intelectualidade internacional que, salvo raras excepções, condena o golpe militar fascista contra a República. Vai-se apercebendo, dia a dia, do horror que alastra por Espanha. Em 12 de Outubro (faz hoje 73 anos) decorre no sala dos actos (o «paraninfo») da Universidade a abertura solene do ano académico. Unamuno, acabrunhado, decidira não falar e vai tomando apontamentos enquanto os discursos «patrióticos» se sucedem. De súbito, põe-se de pé. As palavras saem-lhe de um jorro, como um impetuoso rio de lava:

«Falou-se aqui de guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu próprio o fiz. Mas não, a nossa é apenas uma guerra incivil. » (…) «Vencer não é convencer e é preciso convencer, principalmente, e não pode convencer o ódio que não deixa lugar para a compaixão. Falou-se também de catalães e bascos, chamando-lhes anti-Espanha; pois bem, com a mesma razão podem eles dizer o mesmo. E aqui está o senhor bispo, que é catalão, para vos ensinar a doutrina cristã que não quereis conhecer, e eu, que sou basco, levei toda a minha vida a ensinando-vos a língua espanhola, a qual não sabeis…»

Nesta altura, o general Millán-Astray, que odiava Unamuno, que o acusara de corrupção, começou a gritar «-Posso falar? Posso falar?» A sua escolta puxou das armas e alguém entre o público gritou – «Viva a morte!». O general derrama todo o seu estúpido rancor, designando a Catalunha e o País Basco como cancros de Espanha. Contudo, acrescenta, o fascismo redentor de Espanha iria exterminá-los cortando em carne viva como um frio bisturi. Está tão enraivecido que fica sem voz. Ouvem-se então diversos vivas a Espanha. Fez-se um silêncio absoluto e mortal. Os olhos voltaram-se para Unamuno. Erguendo-se, este profere um discurso que será a sua derradeira lição, a sua lição magistral:

«Conheceis-me bem e sabeis que não sou capaz de ficar em silêncio. Por vezes, ficar calado é o mesmo que mentir, pois o silêncio pode ser interpretado como aceitação» (…) «Acabo de ouvir o grito necrófilo e insensato de “Viva a morte!” Isto soa-me igual a “Morra a vida”. E eu que passei toda a vida a criar paradoxos que provocaram a reprovação e o enfado daqueles que os não compreenderam, tenho de vos dizer, com autoridade na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. Uma vez que foi proclamada em homenagem ao último orador, entendo que foi a ele dirigida, se bem que de uma forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele próprio é um símbolo da morte. E outra coisa. O general Millán-Astray é um inválido. Não é preciso que o diga em tom mais baixo. É um inválido de guerra. Também o foi Cervantes. Porém os extremos não servem como norma. Desgraçadamente, hoje em dia há demasiados inválidos. E depressa haverá mais se Deus não nos ajudar. Custa-me pensar que o general Millán-Astray possa ditar normas de psicologia de massas. Um inválido que não tenha a grandeza espiritual de Cervantes, que era um homem, não um super-homem, viril e completo apesar das suas mutilações, um inválido, como disse, que não possua essa superioridade de espírito, costuma sentir-se aliviado vendo como aumenta o número de mutilados em seu redor» (…)«O general Millán-Astray gostaria de criar uma Espanha nova, criação sem dúvida negativa, à sua própria imagem. Por isso ele desejaria uma Espanha mutilada».

Millán-Astray que entretanto recuperara a voz, ruge: «Morra a inteligência!». Unamuno responde-lhe com a serenidade de quem se sabe irremediavelmente condenado: «Este é o templo da inteligência! E eu sou o seu supremo sacerdote! Vós estais profanando o seu recinto sagrado. Sempre fui, apesar do que diz o provérbio, profeta no meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque tendes força bruta de sobra; mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir necessitais de uma coisa que vos falta – razão e direito na luta. E parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha».

Carmen Polo, a mulher de Franco, dá o braço Unamuno e acompanha-o até sua casa, protegendo-o da fúria dos falangistas. Em todo o caso, o marido censura Millán por não ter executado o professor logo após o seu discurso. Há quem proponha a sua expulsão do cargo de reitor, acusado de tudo, o que da perspectiva fascista era condenável. No dia 22 de Outubro Franco assina o decreto da destituição. Prisioneiro em sua casa, dá uma entrevista ao escritor e filósofo grego Nikos Kazantzakis (1883-1957) em que, em certo passo, afirma: «Um dia, em breve, levantar-me-ei, e lançar-me-ei na luta pela liberdade, eu sozinho. Não, não sou fascista, nem bolchevista; sou um solitário». Morre em sua casa em 31 de Dezembro de 1936, de doença súbita. Apesar de tudo o que se tinha passado e de praticamente o terem mantido sob prisão domiciliária, os falangistas fazem-lhe um funeral exaltante, como se em vida ele tivesse sido um deles. Morto, já não os pode desmentir nem afrontar.

Ortega y Gasset escreve: «A voz de Unamuno ecoava sem parar por toda a Espanha há um quarto de século. Ao cessar para sempre, temo que o nosso país sofra uma era de silêncio atroz». Não se engana – o «silêncio atroz» irá durar até 1975.

Poemas com História: Luto em Outubro

Este poema foi escrito em 11 de Outubro de 1967, quando se confirmou a morte do Comandante, pois passáramos os dois último dias na dúvida se o que constava sobre a sua execução era verdade ou manobra de intoxicação. No dia11 os jornais traziam a fotografia de Guevara morto, estendido sobre uma padiola em Valle Grande, de olhos abertos. Num grupo de amigos, reunidos em torno das notícias, havia quem duvidasse, mesmo assim, que fosse verdade. Foi um dia negro. Guevara que saíra de Cuba, todos o sabíamos, por não suportar ver a Revolução submeter-se a um imperialismo para fugir a outro, constituía para os que amavam a liberdade a esperança numa «terra sem amos». A nossa tristeza era indizível. Vim para casa e escrevi este texto que, mais tarde, publiquei em «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos».

Luto em Outubro

Onze de Outubro – há um rosto
que ensanguenta o jornal
e anoitece o dia –
Guevara caiu sob o céu da Bolívia,
morto na sua guerra pela paz.
Flor que nasce negra na tarde
triste e fria,
a sua fotografia é um cartaz
desfraldado ao vento da história.
É um rosto
que ensanguenta a página
e anoitece o dia.
Uma lâmpada apagou-se na treva
debruçada sobre a terra americana
– silêncio no teu fuzil de esperança,
Comandante,
tombado no teu posto de combate.

As palavras nos teus lábios
não eram só palavras,
mas acção.
Espingardas e punhais
dentro da tua voz havia.
Hoje há um rosto, sim um rosto,
que ensanguenta o jornal
e anoitece o dia.

Guevara caiu no seu posto,
cremado o seu corpo, as cinzas
sobem no ar da América,
saúdam as estrelas,
beijam os pássaros,
caem
como chuva justiceira,
pranto dos humildes
de todo um continente
que de escuridão se cobre.
Milhares de mãos se estendem
para empunhar as tuas armas órfãs.
Sim, há um rosto em Outubro
que ensanguenta o jornal.
Há um rosto vitorioso
que anoitece o dia.

Che Guevara morreu há 42 anos: Hasta siempre, comandante!


Aprendimos a quererte
Desde la histórica altura
Donde el sol de tu bravura
Le puso un cerco a la muerte.

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia,
De tu querida presencia
Comandante Che Guevara.
Tu mano gloriosa y fuerte
Sobre la historia dispara
Cuando todo santa clara
Se despierta para verte.

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia,
De tu querida presencia
Comandante Che Guevara.

Vienes quemando la brisa
Con soles de primavera
Para plantar la bandera
Con la luz de tu sonrisa.

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia,
De tu querida presencia
Comandante Che Guevara.

Tu amor revolucionario
Te conduce a nueva empresa
Donde esperan la firmeza
De tu brazo libertario.

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia,
De tu querida presencia
Comandante Che Guevara.

Seguiremos adelante
Como junto a ti seguimos
Y con Fidel te decimos:
Hasta siempre comandante.

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia,
De tu querida presencia
Comandante Che Guevara.

SERMOS CIDADÃOS GOVERNADOS PELOS AUTARCAS

Lautaro (del mapudungun Lef-traru o Lev-Traru, «Traro veloz», n. Tirúa, ca. 1534 – Peteroa, 1557) fue un destacado líder militar mapuche en la Guerra de Arauco durante la primera fase de la conquista española.Levtraru o Leftrarü, hijo del lonco de la zona llamado Curiñancu (KuRü: Negro, Ñangkü: Águila, en Mapudungún) vivió una vida normal hasta que en 1546 y teniendo alrededor de 11 años de edad, fue capturado por las huestes de Pedro de Valdivia en las inmediaciones de Concepción. Tras la captura se le hizo yanacona. Permaneció como prisionero de los españoles durante seis años, en los que llegó a ser paje personal de Valdivia. Como era difícil para los españoles el pronunciar su nombre original, se le dio el nombre de Felipe Lautaro, finalmente se le llama Lautaro. Fonte: os meus livros de Historia, as minhas lembranças, as minhas pesquisas e o meu convívio.

Nos dias que correm, todo o ser humano tem uma nacionalidade (1). Ou por outras palavras, pertence a uma Nação (2), para bem ou para mal. Se digo para bem, é porque essa pessoa está protegida por um grupo de pares, como defini na nota 2. Não há apenas nações Estado, há também os grupos clânicos que se agrupam dentro de um mesmo território, como acontece com os Mapuche do Chile, os Kwakitul do Canadá, ou os Esquimós da Groenlândia e outros grupos que, sendo uma Nação própria, são governados pelos gestores do estado que os acautelam, governam ou, simplesmente, tomam as suas terras, passando o nativo desses parâmetros, praticamente a escravo dos que se apoderam dos seus territórios. O exemplo mais flagrante, é o dos Quechua, antigos súbditos dos Inca do Peru. Os Quechua, como define Ciro Alegria (3) em El mundo és ancho y ajeno (4), texto impar, que não se pode deixar de ler, uma e outra vez. Retrata de forma romanceada, a constituição de um país cheio de raças e costumes diversos que, no entanto, constituem uma nação. Constituem-na, como defini antes, por ser um conjunto de indivíduos habituados aos mesmos usos, costumes e língua.

A língua dos Quechua é quase impenetrável, nunca aprenderam castelhano, ou, se o aprenderam, aprenderam-no à sua maneira, misturando as formas de língua dos Aimara do Chile, Bolívia e Peru, às formas antigas do Castelhano colonial, especialmente pelos textos escritos em quechua e aimara, preservados desde o Século XVII, época em que governou o derradeiro Inca Garcilazo de la Vega (Cusco, Peru, 12 de Abril de 1539 – Córdoba, Espanha, 23 de Abril de 1616), escritor e historiador peruano, dito o Príncipe de los escritores del nuevo mundo (príncipe dos escritores do Novo Mundo), pertenceu à época dos cronistas pós-toledanos, durante o período colonial da História do Peru. Baptizado com o nome de Gómez Suárez de Figueroa, trocou-o anos mais tarde durante a sua estadia em Espanha, para Inca Garcilaso de la Vega.

Tido como o peruano mais insigne da colónia, soube expressar a sua exaltada nacionalidade na obra-prima: Comentários Reais dos Incas, a qual chegou a ser vetada, nos Vice-reinos do Peru e Buenos Aires, pela coroa espanhola por ser considerada judiciosa e perigosa para os seus interesses, devido ao levantamento de Tupac Amaru II (5), de 4 de Novembro de 1780.

captura

Captura de Tupac Amaru por Felipe Guamán Poma de Ayala (também Felipe Guamán Poma).

Ser nacional é uma salada de hábitos e costumes, especialmente, quando se luta pela independência que, no caso do Chile, foi liderada em 1556 pelo Toqui (6) Lautaro, que tinha aprendido com os espanhóis todos os mistérios por eles introduzidos naquele território sul-americano, nomeie-se, a título de exemplo, o do ser de quatro patas e duas pernas, metade humana, metade animal desconhecido (no Chile) nesses tempos: um cavalo. Soube usá-lo, montá-lo e sublevar centenas de Mapuche para se libertarem de 12 estrangeiros que lhes tiravam a liberdade.

Não eram nacionais, eram prisioneiros subordinados a estrangeiros que, para além de lhes tirarem as terras, os mais novos eram tornados escravos e os mais velhos levados para trabalharem nas sementeiras por saberem e dominarem as tecnologias de produtos diferentes das dos europeus.

Como Portugal fez com as antigas Colónias, actualmente países livre e independentes, com os seus grupos clânicos dentro de cada Estado: os Handa em Angola, estudados por Rosa Maria Melo comigo para a sua tese de doutoramento; os Nalu da Guiné-Bissau, sítio onde morou vários meses, quase um ano, a minha discípula, hoje doutora em etnobotânica, a Professora Universitária Amélia Maria Frazão Moreira ou os Maconde de Moçambique, estudados por Jorge Dias e, mais tarde, pelo seu discípulo José Manuel Viegas Guerreiro, os dois académicos, doutores e etnógrafos, como as senhoras anteriormente nomeadas.

Mulheres cidadãs, fortes e sem medo. Nacionais dos povos que estudaram, como Darlinda Moreira, Professora Doutora em Etnomatemática, na Guiné.

Nalu da Guiné-Bissau, em: http://www.aup.org/lista/pr8236.htm

São cidadãos? Na Grécia antiga, já havia, em Tróia, em Esparta, na Antiga Roma, bem como autarcas que governavam para a sua conveniência, sem saber muito da história dos concelhos que presidiam, a maior parte das vezes.

Ser cidadão está definido em todas as Constituições e ninguém desfaz essa noção. Ainda os povos subordinados são cidadãos da Comunidade de Camões e é responsabilidade do autarca e da autarquia, tomar conta dos nacionais que um dia conquistaram, para depois libertarem, como Salgueiro Maia fez com o movimento das forças armadas.

Diz a constituição:

Artigo 4.º – Cidadania portuguesa

São cidadãos portugueses todos aqueles que como tal sejam considerados pela lei ou por convenção internacional.

Estes, Senhores Autarcas, são os que passam a governar em grupos pequenos, como fizeram os antigos autarcas dos vários grupos clânicos que habitaram no nosso país, todos com pronúncia diferente e que procuram essa orientação de que ontem falei.

Esperamos de vós paz, igualdade e justiça, como procuraram, no seu tempo, os invadidos grupos que, hoje em dia, são cidadãos.

1) O que constitui o carácter de nacional, Independência política, Pátria, naturalidade.

2) Conjunto de indivíduos habituados aos mesmos usos, costumes e língua. Estado que se governa por leis próprias. Casta, raça, naturalidade, pátria.

3) Ciro Alegría Bazán, conhecido como Ciro Alegría, (Hacienda Quilca, Huamachuco, 4 de Noviembre de 1909 – Chaclacayo, 17 de Febrero de 1967), escritor, político y periodista peruano.

4) Obra que reflecte as bases de um Perú moderno, mestiço, rico em regiões, culturas e costumes. As suas personagens vêem-se obrigadas a abandonar a sua comunidade andina (Rumi) depois da injusta expropriação das terras preconizada por um cruel fazendeiro (Don Álvaro Amenábar), disseminando-se por todo o país na procura de trabalho. Os dois personagens centrais da história são Rosendo Maqui, que representa o indio sábio, ancião e tradicional e Benito Castro, um joven que regressa à sua Comunidade (depois da morte de Rosendo), envolvendo-se na defesa dos direitos dos nativos, nomeadamente no direito à terra.

5) Tupac Amaru I (morto em 24 de Setembro de 1572) foi o último líder indígena do povo inca da época da conquista espa
nh
ola.

Filho de Manco Inca Yupanqui (também conhecido como Manco Capac II) foi feito sacerdote e guardião do corpo de seu pai. Depois de o seu meio-irmão, o Inca Titu Cusi, morrer em 1570, Tupac Amaru assumiu o título de supa inca, na época em que o Império Inca já havia perdido a capital Cuzco e resumia-se apenas à região de Vilcabamba, dezenas de quilómetros ao norte de Cuzco.

Durante um ataque dos espanhóis a Vilcabamba, Tupac Amaru fugiu em direção à Amazônia, sendo capturado e depois assassinado pelo vice-rei espanhol.

O seu nome e sua história inspiraram o movimento revolucionário Tupamaro.

6) Toqui palavra mapudungun, língua dos Mapuche, denominados erradamente Araucanos, que significa El-rei.