Um atoleiro de fatos e defeitos

To talk of Nicaragua as a security threat [to the United States and to the hemisphere] is a bit like asking what security threat Luxembourg poses to the Soviet Union.

Noam Chomsky

These beings seem completely indifferent to my progress. In fact I might just as well not be here at all as far as they’re concerned. I’ve tried talking them into banishing me entirely—then at least I’d be rid of them. Excommunication. But they don’t speak my language. They don’t speak no language at all. They just hover and moan. Water and blow. Like I’m not here at all.

Sam Shepard, “The One Inside” (p. 141)

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Há quase dois anos, indiquei o tratamento dado pela Assembleia da República à ortografia como um excelente exemplo de assimetria entre a vontade do eleitor e a atitude do eleito. Felizmente, no dia em que o Projecto de Resolução do Partido Comunista Português estava a ser discutido, encontrava-me já longe de Chicago, estrada fora, a conduzir na América profunda, em direcção a Bloomington, Indiana, para apresentar uma comunicação numa conferência de Fonologia. Assim, para minha imensa alegria, andei a ouvir a WASKa WBPE, a WLIT (*) e a WBOW e a abastecer-me de víveres no excelente Pilot Travel Center de Remington.

US Highway 24, Remington, IN, 22 de Fevereiro de 2018

Por isso, fui poupado quer a mais este acto, quer às consequèncias que advêm deste acto e de actos semelhantes a este.

Efectivamente, ovação de pé para o PCP, para o PEV e para Filipe Lobo d’Ávila e Ilda Araújo Novo, deputados do CDS-PP. Exactamente: “um atoleiro“.

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(*) Curiosamente, ao chegar à estação de serviço de Remington, era esta a canção que a 93.9 Lite FM transmitia — vai já para a lista da 66. E a Ann Wilson (cf. AiC) cantou imenso este clássico:

Marcelo desmentido, mais uma vez

Marcelo Rebelo de Sousa está a ter uma pré-campanha difícil, o que é natural, porque está afastado do debate político há muito tempo, tendo-se limitado, no últimos anos, a desempenhar papéis em revistas à portuguesa, acolitado por compères compreensivos. Hoje, foi, mais uma vez, desmentido, depois de, no debate com Maria de Belém, ter citado o deputado comunista João Ferreira, que, na sua página de facebook, explica:

No debate com Maria de Belém, ontem na RTP1, disse Marcelo Rebelo de Sousa: “como disse o deputado comunista João Ferreira, Maria de Belém é ziguezagueante, tem duas caras, faz um discurso à esquerda enquanto procura charmar à direita”. Presumindo que o candidato se referia a este que vos escreve, já que outro João Ferreira deputado do PCP não conheço, cumpre-me humildemente advertir que:
1. Não disse nem o que está acima nem rigorosamente mais nada, publicamente e até à data, sobre a citada candidata;
2. Se o tivesse feito, se alguma coisa tivesse dito publicamente sobre Maria de Belém, certamente não seria que ela “faz um discurso à esquerda”, optaria antes por destacar e criticar aspectos reais do seu posicionamento político.
3. Juro que não sei o que é “charmar”, pelo que dificilmente usaria essa palavra para dizer o que quer que fosse;
4. Não sendo propriamente novidade, mais uma vez se confirma que o candidato do PSD e do CDS alia à sua conhecida (e reconhecida pelos pares) qualidade de cata-vento uma notável capacidade de invenção ou uma delirante imaginação. Ou ambas, melhor dizendo.

 

“Portugal deve manter a austeridade?”,

pergunta-nos o The Telegraph. Respondamos.

sem surpresas (mas com um certo ar de alarme)

pela primeira vez desde que tenho consciência cívica e política (desde os meus 11\12 anos) decidi não assistir a uma noite eleitoral. deixei o professor marcelo a pregar aos incautos, o dr. karamba marques mendes a adivinhar o número exacto dos próximos cortes orçamentais, a Judite de Sousa (sem ou com Montenegro; com ou sem equívoco na pessoa) num saco do Pingo Doce e a televisão desligada de forma a poupar energia e pagar menos à China Three Gorges. encontrei-me com a minha princesinha AMF e fomos ao cinema ver Grace of Monaco de Olivier Dahan. apesar da história ser batida, o filme de Dahan acaba por ser bastante interesse e, no plano técnico, é simplesmente fantástico. desde os planos à direcção das cenas, passando pelo límpido som de voz nos diálogos entre personagens.

a campanha foi degredante. do surfer rosa (bem que queria ir ver os pixies para a semana ao primavera sound mas mas todo o argent é escasso nos dias que correm) nos currículos escolares aos vírus despesistas. de reminiscências do holocausto que não foi vivido em verso à governação socratina. Até o filósofo (cientista política, teorético político) teve que se meter na querela e vir a público lavar roupa suja. Sócrates himself, teve ali uns 7 orgasmos seguidos durante os 3 episódios em que pode comentar a campanha. discutiu-se tudo excepto política europeia. discutiu-se tudo excepto os problemas que neste momento precisam de ser resolvidos na europa bem como os que estão a rebentar. como a deflação. o partido socialista ainda tentou lançar a discussão sobre a mutualização da dívida na fórmula desusada de eurobonds mas… com tamanha babugem estavam à espera que a malta andasse informada e estivesse minimamente ciente dos projectos europeus defendidos pelos candidatos?

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Fuzilando a torto e a direito

No 5 Dias, Carlos Vidal queima os neurónios em horas de sono, estabelecendo um padrão para um “golpe de Estado” dirigido pelo PC disfarçado de militares das Forças Armadas e com o auxílio de “milicianos” – vulgo “turras” – estrangeiros. Chega mesmo ao ponto de sugerir um atentado à vida de Cavaco e Passos Coelho.

Não aprendem. Num país onde a pena de morte foi abolida há 150 anos, querem um um Che fuzilador, mas o mais provável será sair-lhes um Pinochet na “rifa”.

Como ouvir a esquerda?

Posso sentir uma alergia burguesa a à dureza repetitiva da retórica comunista ou uma aversão provinciana aos tiques lisboetas de muitos bloquistas, posso não gostar que alguma esquerda consiga descobrir virtudes em regimes tenebrosos como o da Coreia do Norte ou de Cuba, posso detestar o conservadorismo sindical na escolha das formas de luta, posso, até, ver com desagrado a promiscuidade entre partidos e sindicatos (que, apesar de tudo, me parece mais legítima do que aquela que ocorre entre governo e empresas).

Ultrapassando as críticas e as embirrações, como é possível não ouvir com atenção as palavras de Arménio Carlos nesta entrevista? É um comunista empedernido? Partilhará, com os seus camaradas, de uma estranha admiração por ditadores sinistros? Convive mal com a queda do Muro de Berlim? Talvez sim, mas não é verdade que os trabalhadores têm perdido direitos? Não é verdade que os problemas do défice se devem a uma gestão incompetente e corrupta dos dinheiros públicos, pela mão de sucessivos governos? Não é verdade que, em muitos casos, os prejuízos do Estado se devem, por exemplo, a contratos leoninos que favorecem privados, como é o caso da Fertagus? Insistir em retirar direitos aos trabalhadores, injustificadamente, poderá ter outro nome que não seja “exploração”, mesmo que isso incomode Mário Crespo? [Read more…]

A Esquerda parlamentar está contra a Democracia

O acesso generalizado a bens como a saúde, a educação ou a cultura constitui o exercício pleno da Democracia. Num país democrático, o acesso a esses bens deve ser fiscalizado, com certeza, mas tem de ser, sobretudo, facilitado.

O progresso arrasta consigo virtudes e defeitos, novos perigos e novidades extraordinárias. A possibilidade de armazenar e transportar bens culturais em formato digital constitui um progresso extraordinário, uma revolução no conhecimento, por muitos efeitos perversos que suscite.

Num país ainda em desenvolvimento, por muito que o novo-riquismo das classes dirigentes o queira desmentir, é fundamental incentivar os cidadãos a uma utilização responsável de todos os meios de formação e de informação ao dispor.

Num país em que os rendimentos desses mesmos cidadãos diminuem e as despesas aumentam, contribuir para o encarecimento de meios de reprodução e de armazenamento digital é mais um acto antidemocrático a somar aos muitos que têm sido cometidos na espiral regressiva dos últimos anos. Que uma medida dessas seja aprovada pelos partidos do costume não é de espantar; que a esquerda participe nesta estúpida unanimidade é escandaloso.

Votar na Esquerda e esperar que, pelo menos, mudem as moscas

Como homem de Esquerda, no Domingo, gostaria de comemorar duas coisas eventualmente incompatíveis: a derrota do socratismo e a inexistência de uma maioria absoluta PSD-CDS.

Se, do ponto de vista programático, pode haver diferenças entre o PS e o PSD e o CDS, na prática, os seis anos de socratismo foram anos de políticas de direita, pelo que não há diferença nenhuma entre estarem uns ou outros no poder. Aliás, PS e PSD souberam entender-se imediatamente, quando foi preciso escolher o caminho das políticas que estão, agora, plasmadas na troika, o texto que, na realidade, corresponde ao programa de governo de qualquer um dos dois partidos.

O PS tem mantido, ao longo dos anos, uma divisão de personalidade, virando à direita, quando governa, mostrando-se de esquerda, na oposição. O socratismo manteve essa característica, mas foi muito mais longe na apropriação dos aparelhos de Estado e do aparelho partidário, com base em clientelismo, em incompetência (quando não má-fé) e em mediocridade. Aliás, se o PS perder, mesmo que Sócrates se demita (o que não está garantido), o cheiro perdurará por muito tempo. Não me apetece imaginar o que será se ganhar.

É certo que a vitória do PSD não me preocupa menos, pois também já deu provas sobejas de incompetência em tempos idos, bastando lembrar que devemos a Cavaco Silva, entre outras benfeitorias, a destruição das pescas e da agricultura. Mais recentemente, pudemos confirmar a falta de carácter de Durão Barroso e o apoio desastrado a um desastrado Santana Lopes, com o CDS a manter uma reserva cínica que não disfarça a cumplicidade.

Os votos que forem para o Bloco e para o PCP enfraquecerão o PS, é verdade, mas o PS e a Esquerda serão derrotados pelos votos flutuantes do centro que Sócrates terá, finalmente, afugentado. A clique socrática mostrou incompetência e arrogância, afastando-se da Esquerda e afastando, também, eleitores de Esquerda.

No Domingo, festejarei a derrota de Sócrates e lamentarei a vitória da Direita, o que trará uma melhoria relativamente às duas últimas eleições em que lamentei a vitória de Sócrates e a da Direita. É fraco consolo, mas já não é mau se mudarem as moscas.

Resta à Esquerda, enquanto não chega ao governo, vigiar e protestar, ao mesmo tempo que deve reflectir sobre os seus próprios erros, erros de forma e de conteúdo. Resta à Esquerda continuar a preocupar-se com os direitos sociais e laborais, esse empecilho para o capitalismo desavergonhado que governa o mundo de braço dado com a especulação descontrolada e com os defensores dos privilégios dos que sempre foram privilegiados.

Qualquer voto no Bloco de Esquerda ou no Partido Comunista é, portanto, um voto útil. Qualquer outro voto é um voto na Direita.