Visegrado putinista

Ainda me lembro quando a Polónia foi heroicamente elogiada, nas primeiras semanas da invasão russa, pelo seu contributo para o esforço de guerra ucraniano e pela forma como abriu as suas fronteiras aos refugiados que fugiam dos mísseis russos.

Quem ousou questionar o sentido de oportunidade de Varsóvia, foi imediatamente rotulado de putinista. O rótulo certo e eficaz para calar qualquer um que levante questões incómodas para a narrativa oficial.

Nunca tive dúvidas sobre o regime polaco. Uma autocracia em construção, que vem concentrando poder e erodindo a separação de poderes e as instituições que o suportam. Um regime que, tal como o húngaro, professa uma ideologia que tem mais pontos de contacto com Moscovo do que com qualquer democracia ocidental. [Read more…]

O dia em que a realpolitik bateu à porta de Zelenskyy

Stian Jenssen, chefe de gabinete do secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, afirmou, no início da semana passada, que uma possível solução para o conflito em curso na Ucrânia passaria pela cedência de território aos russos.

Em Kiev, as declarações foram recebidas com fúria, o que se compreende. E Jenssen, pressionado, tratou de se desdizer. Mas o dano estava causado. Porque a hipotética solução não foi algo que lhe ocorreu no momento. Foi, seguramente, um dos cenários discutidos na cúpula da Aliança.

Depois da fúria, o executivo Zelenskyy acordou para a realidade. E a realidade é que a cedência de território, para a NATO (logo para os EUA) é uma hipótese real. Porque a invasão dura há um ano e meio, as sanções, mais do que não surtir o efeito esperado, são permanentemente contornadas pelos países ocidentais (que continuam a comprar combustíveis russos), a contraofensiva está a léguas dos resultados pretendidos e as eleições americanas do próximo ano poderão muito bem resultar no fecho da torneira que alimenta o esforço ucraniano. E se Kiev não o sabia, sabe-o agora. [Read more…]

Slava Ukraini, mas só às vezes

“União Europeia já não depende dos combustíveis russos, garante Bruxelas”, leio num rodapé na SIC Notícias.

Ora aqui está um pedaço de notícia interessante e pouco esmiuçado. Aparentemente, não vale mais do que uma nota de rodapé.

É bom que Bruxelas não dependa dos produtos petrolíferos de Moscovo, mas…será que já não consome?

Luciano Barbosa, o já falecido e saudoso vocalista dos Repórter Estrábico diria “consome, consome”. E teria razão. [Read more…]

O futuro da Ucrânia nas mãos dos agiotas

Military cemeteries in Ukraine are expanding just as rapidly as the northern Virgina McMansion beach front estates of executives of Lockheed Martin, Raytheon, and assorted beltway contractors, benefiting form the second highest level of military spending since WWII.

Defender a autodeterminação da Ucrânia não te obriga a negar a realidade. A Ucrânia não é uma preocupação do Ocidente. É um negócio. Um negócio rentável. Muito rentável.

Papa da Silva

Excerto retirado de uma notícia da TVI.

Lula da Silva veio a Portugal e foi bombardeado com perguntas acerca da sua posição em relação à guerra na Ucrânia.

Uma posição que é mais difícil de explicar e defender (e também de entender), porque pressupõe uma real tentativa de alcançar a paz (que em qualquer guerra é sempre o mais difícil de alcançar), ao invés de, à boa maneira da avestruz, enfiar a cabeça na areia e papaguear simplesmente que “a Ucrânia tem direito a defender-se” (e é claro que tem e nunca ninguém disse o contrário), como se a postura belicosa e o prolongamento ad aeternum da guerra fossem, de forma mágica, resolver o problema. E gritar aos sete ventos que “a guerra só acabará quando a Ucrânia sair vencedora” é – para além de um grito cínico – pura romantização da guerra.

Enquanto isso, a guerra continua e estará para durar, a Ucrânia vai ficando cada vez mais depenada, as sanções à Rússia não estão a fazer surtir o efeito pretendido, a dívida externa da Ucrânia aumenta, os Estados Unidos e a Rússia esfregam as mãos e já se preparam novas formas de pôr os imperialismos todos a medir pilas (olá, China!). Enquanto isso, a guerra não acaba.

Por isso, senhores jornalistas e comentadeiros do chavascal, comecem já a preparar os microfones, pois vem aí o Papa que, ao que parece, tem uma posição semelhante à do presidente do Brasil, esse sacana pró-Putin que propõe que, em vez de se andar a apontar armas enquanto alguém lucra com a venda das mesmas, se sentem todos a uma mesa e haja uma saída limpa para as duas partes (e, depois disso, sim, poderemos começar a discutir de que forma a Federação Russa do abominável neo-fascista de cera poderá vir a pagar as reparações que são devidas à Ucrânia do fantoche de oligarcas sequestrado – desde a sua eleição – pelas forças neo-nazis que “protegem” o país).

Ps. Parece que o totó com óculos que é presidente da Câmara Municipal de Lisboa foi visitar o Papa… olhem, foi uma oportunidade perdida para lhe [ao Papa da Silva] fazerem as tais perguntas!

A invasão da Ucrânia e o PCP na twilight zone

Não me incomoda tanto a caracterização que o PCP faz de Zelenskyy como me incomoda a caracterização que não o vejo fazer de Putin. Ou de Xi Jinping e do seu Grande Irmão tecnológico. Ou do próprio Kim, que alguns comunistas entendem não dirigir um regime brutal de absoluta negação da liberdade e da democracia. Não me recordo de ler palavras tão hostis dirigidas a qualquer um deles.

Não que os seus críticos à direita, e mesmo em parte da esquerda, tenham grande arcaboiço moral para apontar dedos. Ainda me lembro, porque não foi assim há tanto tempo, de quando Putin era “um dos nossos”. De quando dançava com Bush, trazia o bobi para a reunião com Angela Merkel e dava carta verde aos seus oligarcas, então investidores, para comprar clubes de futebol, hotéis, iates e vistos gold na Europa. De quando a bandeira do VTB esvoaçava ao lado do Banco de Inglaterra, no coração da City. Dos braços abertos com que o Ocidente os recebia, apesar da lista interminável de crimes do regime russo. [Read more…]

Tatuagem do dia

Um ano depois, andam meia dúzia de pombos perdidos a tentar falar de paz num céu infestado de falcões que não querem o fim desta guerra e já andam a preparar as próximas.

PAULO BALDAIA, NO DN

20 DE FEVEREIRO DE 2023

Fotografia: BRENDAN SMIALOWSKI (AFP)

Joe Biden em visita surpresa a Kiev (c/ video)

Trump rastejou e poliu os sapatos de Putin em Helsínquia, Biden visitou Kiev ao som das sirenes. Goste-se ou não de Biden – e eu não morro de amores por ele – a diferença é inequívoca.

Zelenskyy distribui leite Mimosa em Bucha

Chamem-me parolo, mas encheu-me de orgulho ver um bocadinho de Portugal a fazer a diferença naquela terra onde o horror da invasão atingiu proporções doentias. Não vamos ganhar a batalha pelos ucranianos, mas temos sido enormes no apoio àquelas pessoas. Somos, como os ucranianos, um grande povo.

Zelenskyy VS Putin: o herói acidental e o odioso tirano

Existe um motivo, quer-me parecer, que faz com que Vladimir Putin não queira encontrar-se num frente a frente com Volodymyr Zelenskyy. Mais do que ser a personagem mais odiada do planeta, no presente momento, o que contrasta com a aura de último grande herói do presidente ucraniano, Zelenskyy é, literalmente, a antítese de Putin.

O primeiro é um actor e humorista que decidiu enveredar pelo mundo da política, como é seu direito (eu “punha” muito rápido o RAP, o Bruninho, a Cátia Domingues, o Markl, a Joana Marques ou o Diogo Batáguas no lugar de 80% dos deputados que estão na AR, sem pestanejar), e que agora lidera, com bravura e uns imensos tomates, a resistência à violenta invasão de um tirano que não pode argumentar estar rodeado pela NATO para invadir, esmagar e ocupar um Estado soberano que nem sequer integra a Aliança. Até porque os mísseis dele também estão apontados para cá. O argumento é real, mas não legitima, de forma alguma, a destruição em curso. Para “libertar” o Donbas, não precisa de sitiar Kiev ou bombardear Mariupol. Putin, um dos maiores financiadores da extrema-direita europeia, ele próprio um ultranacionalista, não quer desnazificar coisa nenhuma. Quer, apenas e só, decapitar e substituir o poder político ucraniano, para lá colocar outro do seu agrado.

Nenhum argumento, real ou ilusório, justifica uma invasão militar. Resistir é a única saída, mais ainda para quem recusou uma extradição segura e um exílio de luxo no outro lado do oceano. E essa é a grande afronta, talvez a maior de todas, que Zelenskyy poderia fazer ao rei-sol do Kremlin, que o olha com desdém e indigno, ele ao seu povo, de existir como nação. E eles a resistir, outnumbered and outgunned:

  • If I was in World War III they’d called me Spitfire.

A música anda sempre à frente do seu tempo.
Adiante.

O segundo é um carreirista de dois regimes, sendo hoje proprietário de facto do segundo. Começou nos serviços secretos, fez-se a vida, subiu até onde pôde e deu o salto para a política, como qualquer carreirista que se preze. Foi, desde sempre, do sistema. Mas a escalada foi impressionante, seguramente apoiada nos mesmos métodos que aprendeu e desenvolveu – com mestria, diga-se – no KGB, e é hoje o senhor absoluto da Federação Russa. Algo que lhe poderá até correr mal, mas outro dia lá iremos.

Putin é o sistema. No seu expoente máximo. O grande irmão que tudo controla, que corrompe, que persegue, que discrimina, que agride. O sistema elitista que dizima quem se lhe opõe. Que tortura, envenena e mata. Putin é a negação da democracia. E a democracia também tem os seus pequenos putin-minions, que o digam iraquianos, iemenitas ou vários povos da América Latina. Acontece que, por cá, temos o poder de lhes tirar o poder. Algo que não acontece na Federação Russa. Não é uma diferença de somenos. Faz toda a diferença. Toda.

Há muito que pode ser dito e apontado a Zelenskyy. Deixarei esses factos para outro dia. Mas não existe comparação possível entre um tirano e um político imperfeito, como o são todos, em maior ou menor grau. Em todo o caso, Zelenskyy é hoje a figura mais aproximada a líder do mundo livre, ainda que acidentalmente. Pela coragem, pela determinação e pelo exemplo. Quando os americanos saíram cobardamente do Afeganistão, ainda “ontem”, Ashraf Ghani foi o primeiro a pôr-se a milhas. Com uma mala cheia de dólares. Zelenskyy podia ter seguido a mesma via. Podia ter sido o Puidgemont que fugiu para o exílio em Bruxelas. Mas ficou. E talvez venha a morrer nas próximas semanas. Mas é ele, não as armas “cedidas” pelo Ocidente, um dos poucos que poderão dar a vitória, altamente improvável, à Ucrânia. A História contará a sua história. Cantará a sua história, concorde-se ou não com ela. Já Putin será apenas mais um merdas do Hall of Fame das abominações, à mesa com Hitler e Estaline. No esgoto da História. Para ser odiado para sempre, excepto por aquela malta que, por motivos variados, opta por branquear o ocasional ditador. A democracia tem destas coisas. É uma brincalhona.

Propaganda de guerra

Segundo o Washington Post, do senhor Amazon, o FSB informou o governo de Kiev que o Kremlin enviou uma milícia chechena para assassinar Zelenskyy.

Informado pelos serviços secretos russos, o governo ucraniano reagiu, neutralizou e abateu os mercenários, a soldo do governo russo, entidade patronal do FSB.

End of story, para quem acredita nela. Teoria da conspiração por teoria da conspiração, prefiro a dos microchips do Gates.