O Fardo de ser Europeu

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“Die macht mir mein Europa kaputt.” – Helmut Kohl

Há um livro chamado a Ideia da Europa de George Steiner. Steiner, nascido em Paris, filho de judeus de Viena, é provavelmente a pessoa que melhor entende a Europa, que melhor entende o que é ser Europeu. Para Steiner a Europa não é uma entidade homogénea em que todas as culturas são iguais. Pelo contrário, ser Europeu é encontrar os pontos comuns na diversidade de culturas. Daí os cafés, daí um Continente que foi durante gerações e gerações “percorrido a pé”. A ideia de Europa existe. Existe desde o século XVIII. Não é uma Europa tão inclusiva como é a nossa hoje em dia mas ela lá está. Para Steiner a Europa é a junção de duas coisas: a cidade de Sócrates e a cidade de Isaías. Os gregos e os judeus – e mais tarde São Paulo que forma o Cristianismo. Todos nós somos isto, fazemos parte disto, quer queiramos quer não.

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Da falta de dignidade

Os portugueses são um povo estranho. Somos facilmente atraídos por um sentido de superioridade, porque, na verdade, até agora fomos superiores poucas vezes e portanto aproveitamos qualquer oportunidade para alimentar a aparência que somos melhores do que os outros. É um fenómeno psicológico interessante espelhado nas notícias de “Portuguesa limpa o chão da Casa Branca e uma vez foi cumprimentada por Obama”, porque como se sabe qualquer noção de superioridade deriva essencialmente de um complexo de insegurança e inferioridade gigantescos. No caso dos portugueses, pelo menos, assim é.

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O chico-espertismo tuga

Nas últimas horas tenho visto no facebook, twitter e demais redes sociais vários exemplos de chico-espertismo alarve no que diz respeito à Grécia. Passo a citar alguns porque creio que o caro leitor deve precaver-se contra este tipo de coisa:

1- Ahahah estão a ver o SYRIZA a festejar com os da Aurora Dourada – diz a pessoa que é a primeira a postar discursos do Nigel Farage no Parlamento Europeu porque ele está carregadinho de razão apesar de ser racista, xenófobo e homofóbico. Como se o eurocepticismo fosse apanágio da extrema direita e não de um número cada vez maior de pessoas de esquerda, direita, centro, frente e atrás.

2- Os Gregos não queriam que Portugal entrasse na CEE e porque é a “gente” agora tem de os ajudar e ser solidários? – Tem tudo a ver claro, uma coisa é igual à outra e as pessoas até são as mesmas e tudo.

3 – As pessoas que por um lado dizem “ah mas perdoou-se a dívida à Alemanha” e que no post a seguir dizem “e eles têm que pagar o dinheiro das reparações que devem à Grécia” – Então por um lado queremos o perdão de dívidas mas por outro a Alemanha deve coisas e tem de as pagar?

4- Pessoas que acham (como o nosso Presidente) que a Grécia vai ser a única prejudicada no caso de sair do euro. Estas pessoas são especialmente hilariantes pela fé que têm na economia Europeia no geral e na Portuguesa em particular.

5- Esta é especial do Paulo Rangel (mas temo que se vá espalhar rapidamente): “os outros países podem querer referendar a ajudar à Grécia” – isto é uma versão menos trolha do “ah mas eles nos anos 80 queriam lixar-nos a vida”. Epá pois é Paulo, sabes, é  mesmo tudo igual. Votar para se acabar com a austeridade porque não se aguenta mais ou votar para dar dinheiro a um país é exactamente a mesma coisa. Aliás, Portugal chegou à situação onde chegou porque os portugueses são obrigados a dar dinheiro à Grécia. Não tem nada a ver a sucessão de governos do PS e do PSD que aumentaram a despesa pública, não tem nada a ver com a corrupção. Não, não, a razão pela qual os Portugueses não têm dinheiro é porque cada contribuinte tem de dar um x à Grécia. (Claro que outros países Europeus também nos deram um “x” portanto vê lá se a ajuda for referendada também não é referendada para este canto específico). Pessoalmente, juro do fundo da minha alminha, prefiro dar os 257 euros à Grécia do que votar no PSD. São escolhas.

Um exercício em História comparativa

Pessoas no Panteão em França:

– Voltaire
– Rousseau (cidadão de Geneva a ser enterrado no Panteão francês mas está bem).
– Jean Lannes
– Victor Hugo
– Zola
– Jean Monet
– Condorcet
– Abbé Grégoire
– Louis Braille
– Pierre Curie
– Marie Curie
– Alexandre Dumas

Pessoas em Westminster Abbey:
– Isaac Newton
– William Wilberforce
– Clement Attlee
– Beatrice Webb
– Charles Darwin
– John Herschel
– Angela Burdett-Coutts
– Samuel Jonhson
– Charles Dickens
– Geoffrey Chaucer

Pessoas no Panteão em Portugal:
– Óscar Carmona
– Sidónio Pais
– Humberto Delgado
– Guerra Junqueiro
– Almeida Garrett
– Sophia de Mello Breyner Andresen
– Manuel de Arriaga
– Teófilo de Braga
– João de Deus
– Aquilino Ribeiro
– Amália
– E agora Eusébio.

A decadência de Houellebecq

Comprei na feira do livro por um preço que considero exagerado, o novo do Houellebecq, Submissão. Já tinha comprado há uns o meses o Mapa e o Território que comecei mas entretanto não acabei de ler porque se meteram outras coisas. Submissão é comparativamente mais fácil de ler mas a minha experiência com o Houellebecq não é muita e portanto o meu texto será em parte construído através de uma série de generalizações mais ou menos banais, mas sinto que vale a pena pensar nelas.

A pessoa lê Houellebecq e fica com a sensação de duas coisas: a primeira é que as personagens são todas iguais. Dei uma olhadela à sinopse dos outros livros dele e não me parecem ser diferentes. As personagens principais são sempre as mesmas (homens, introspectivos, com tendências depressivas, que gostam de mulheres, de beber e de comer): só muda o enredo. A segunda é que Houellebecq tem na cabeça uma série de ideias sobre a civilização ocidental (se quisermos ser generosos, sobre as várias civilizações) e os livros acabam todos por ser sobre isso. Aliás, não fiquei com muita vontade de ler os outros, embora queira acabar o Mapa e o Território que penso ser até mais interessante do que Submissão.

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Da série: não acredito no que acabei de ler

Há pessoas que sem dúvida acham que o Observador é um pasquim sem utilidade mas eu discordo. Eu até gosto de ler o Observador. E diverte-me especialmente ler o senhor padre Gonçalo de Almada. Eu passo a explicar. Eu estudo na minha vida quotidiana o século XVIII, nomeadamente o Iluminismo e a Revolução Francesa e um dos grandes problemas dos historiadores é compreender a mentalidade da época. Quando leio sobre o Hébert é me difícil compreender de onde vem aquela raiva iconoclasta. E como classificar exactamente a “infâmia” que Voltaire combatia? Mas o senhor Padre Gonçalo resolve-me estes problemas porque a diferença entre ele e um jesuíta francês da década de 1740 é muito pequena.

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Merci pour tout

The Charlie Hebdo' s cartoonist Luz shows a special edition of French satirical magazine Charlie Hebdo, on November 3, 2011 during an editorial conference at the Theatre du Rond-point in Paris, one day after the offices of French satirical magazine Charlie Hebdo have been destroyed in a petrol bomb attack last night. The edition of the paper published yesterday, which was called Charia Hebdo - a play on the Islamic word sharia, was intended to

O cartonista Luz do jornal Charlie Hebdo anunciou publicamente a sua intenção de sair do jornal após Setembro. Especula-se de uma forma oblíquia que a razão esteja ligada ás questões financeiras que estão agora a ser discutidas pela direcção do jornal. Mas é evidente que os motivos são muito mais profundos do que isso. Recorde-se que Luz não é só um dos históricos do jornal como foi das primeiras pessoas a chegar à redacção, ainda antes da polícia, e foi ele que encontrou os corpos dos colegas. Depois, forçou-se a si mesmo a trabalhar para chegar à famosa capa: “Tout est pardonné”.

Devo confessar que tenho um enorme respeito por este homem. Se dois fanáticos matassem os meus amigos em nome de uma ofensa imaginária, em nome do ódio e da babaridade pura, em nome de fosse o que fosse, eu nunca perdoaria. A capa de Maomé a chorar, o “está tudo perdoado” é um dos maiores exemplos de perdão. Eu não perdoaria. Mas eu também não sou Charlie. Na realidade, muito pouca gente o é. Muito pouca gente teria a coragem desinteressada para o ser. Muito pouca gente tem coragem para rir e para pensar – porque é disso que estamos aqui a falar. Luz teve-a e tem-na e pagou por isso. Agora é tempo de descansar.

Do problema sério que é o bullying

Eu pensei, ingenuamente claro, que das pessoas da blogosfera, o Rodrigo Moita de Deus fosse um dos que estivesse mais predisposto a simpatizar com o rapaz da Figueira da Foz. Afinal de contas, o Rodrigo há meses (anos?) anunciou publicamente no blog que ele e a família, nomeadamente os filhos, recebiam ameaças de morte por parte dos anónimos que vagueiam o 31. Portanto, não deixa de me espantar que o Rodrigo, face a receber este tipo de lixo que é apesar de tudo, uma forma de bullying psicológico porque nenhum pai devia ser posto perante uma situação de ameçada aos filhos mesmo que a ameaça seja anónima e online, não consiga encontrar em si uma reacção qualquer que não seja gozar com o rapaz. É uma pena.

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Chamem a PBS

socrates

Por razões várias dei por mim a ler o artigo da Wikipedia de José Sócrates e cheguei à conclusão que a Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada deviam por os olhos nisto. Somente esta lista era suficiente para mais 21 livros da colecção Uma Aventura. Mas em vez do Pedro, do Chico, das gémeas e do outro cujo nome ninguém se lembra, temos José Sócrates. “José Sócrates e a aventura do uso das línguas estrangeiras.” “José Sócrates e a aventura para controlar os meios de comunicação social.” José Sócrates e a aventura dos processos contra jornalistas”.

Isso ou uma nova temporada de F.R.I.E.N.D.S. Mas em vez de serem cinco amigos em Nova Iorque é José Sócrates, João Araújo e o motorista na prisão de Évora. The one with the Magalhães computer. The one with Correio da Manhã’s sexiest man. The one with all the gaffes. The one with the accusations made to his mother

Acabem com a infâmia

Já que aqui estou, o Rui Rocha chamou-me a atenção para este artigo em que um membro da Igreja Católica – Padre Gonçalo de Almada – acha que deve aproveitar a violação de uma criança de 12 anos para dizer que o Hospital estava errado, que o aborto é a privação de uma vida e as merdas do costume, um artigo que me dá, sinceramente, voltas ao estômago, um artigo que faz o possível para evitar usar a palavra “criança” para descrever a vítima (A real vítima) mas que aplica a mesma palavra para descrever o feto de cinco meses. Um artigo que usa toda uma série de argumentos para diminuir o drama e o horror ao qual esta criança foi sujeita com o simples objectivo de fomentar a agenda da Igreja em relação ao aborto, de continuar a fomentar estas ideias absurdas. Nem há a decência de se mantarem calados em relação a este caso. Só há – só pode haver – uma palavra para descrever este oportunismo sem vergonha: Nojo. Este artigo é nojento.

É nestes momentos que eu penso: Voltaire tinha razão. Écrasez l’infâme. Todos eles.

Pablo Iglesias e a retórica de Maximilien Robespierre

marat robespierre danton

Iglesias tem um vídeo e um artigo em que explica muito bem que a fundação da modernidade se encontra na Revolução Francesa. É verdade. É também verdade que a Guilhotina e a morte do rei tornaram-se um símbolo da Revolução e, quase mais importante, um símbolo da República. É obvio o que Iglesias está a dizer: Uma Revolução, especialmente uma Revolução como a francesa, que pretendeu – especialmente a partir de determinada altura – mudar por completo a sociedade em que se vivia, que pretendeu, na realidade, uma regeneração não só politica e social mas sim de valores e mentalidades, não se faz sem violência. Robespierre, tal como Iglesias aponta no vídeo, disse de facto que “castigar os opressores é clemência, perdoá-los é uma barbaridade.”

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A Simone e o Miguel

Senhores do Observador,

Eu sei que vocês são de Direita e eu até aplaudo a iniciativa e o site está muito giro do ponto de vista gráfico. Mas este tipo de artigos são escusados. Por um homem (Miguel Freitas da Costa) a debitar meia dúzia de lugares comuns sobre a Simone de Beauvoir e o feminismo, um homem que usa a expressão patriarcado entre aspas, é insultoso para a inteligência de quem lê o jornal. Eu sei que são de Direita mas têm mesmo de cair no erro de detestar intelectuais que não partilham das vossas opiniões políticas? Eu fui de Direita durante algum tempo e sempre gostei do Garcia Marquez. Agora que já não sou tanto de Direita continuo a gostar do Jorge Luis Borges. Pode-se ser de direita e gostar do Mário Cesariny. Não, a sério, juro que é verdade. Não estamos no século XVIII em que todos temos que imitar os philosophes. As percepções literárias mudaram e a forma como lidamos e experimentamos a literatura também.

E depois, meus amigos, vocês são os primeiros a queixar-se das pessoas que dizem, erroneamente, que não há intelectuais de direita. Haver há, nenhum escreve é para o Observador. O que é uma pena.

Adeuzinho e leiam mais livros, está bom?

Dois minutos para o jogo do tanso*

Leio no Público que a Igreja Católica quer que ver o Aborto a ser debatido na Campanha Eleitoral. Leio que: “Movimento de cidadãos defende que as mulheres que estão a pensar abortar devem ver antes as ecografias e pretende que os pais participem na decisão. “

Três comentários:

1- Eu acho muito bem porque assim como assim nunca ninguém vê um boi nas ecografias portanto esta medida parece-me tão estúpida quanto útil.

2- Eu acho óptimo que os pais participem na decisão até porque tenho a certeza que o puto de 17 anos que engravidou a namorada está cheio de vontade de ser pai e de explicar á familia dele e dela o que aconteceu. Aliás, não se fiquem por aqui. Se os paizinhos depois não demonstrarem qualquer interesse na criança devem ser multados e/ou presos. Ah, o quê, isto já não é chantagem emocional barata? Perdoem-me.

3- Eu percebo que a Igreja tenha que fazer este papel e eu nem lhes estou a pedir para serem a favor do aborto, ou da homosexualidade ou da ideia de que as pessoas têm direito de fazerem o que querem com o próprio corpo e que há algo chamado direitos individuais que têm que ser respeitados e que não cabe aos homens decidirem pelas mulheres ou heterossexuais pelos homossexuais ou brancos por pretos. Mas não deixo de me perguntar se a Igreja portuguesa não deveria dar ouvidos ao Papa e pensar que em vez de se dedicarem aos temas fracturantes, deviam começar a dar importância a outras coisas que se calhar não aparecem nos jornais mas que são mais úteis para a sociedade em geral.

*Título roubado a Cátia Rodrigues do Canal Q.

As pérolas do Henrique, número 24601

Eu concordo com o Henrique Raposo. Acho que chamar Ernesto ao filho é um disparate. Se é para dar nome de revolucionário a sério que chame Maximiliano à criança.

Uma nota final sobre o Charlie Hebdo

Após ler este texto e este conjunto de textos comecei a pensar que todos têm as suas pertinências, uns mais do que outros. Mas parece-me também trágico que Charlie Hebdo, um jornal que nunca pretendeu ser o símbolo da República francesa (lembro-me de Luz a dizer nesta entrevista “I didn’t go to the spontaneous rally on January 7th. People sang the national anthem. We’re talking about Charb, Tignous, Cabus, Honoré, Wolinski: they would’ve scorned this kind of attitude.” E que “I’m going to think about my dead friends, knowing they didn’t fall for France!” ) que não pretendia influenciar ou coagir, que não pretendia fazer dinheiro ou ser popular, que era, sobretudo, um jornal anti poder e anti-sistema se tenha tornado num argumento para esgrimir em discussões sobre a laicidade, ou o universalismo do republicanismo francês, a forma como lidam com o colonialismo, os limites da laicidade, da liberdade de expressão, ou pior ainda uma discussão sobre a sociedade de valores francesa. Não é que estas discussões não sejam válidas, não é que não se devam ter. Custa-me é ver este jornal que tem tão poucas pretensões, que nunca pretendeu ser um símbolo, ser dado como exemplo máximo de todas estas coisas (ou o exemplo contrário a todas estas coisas, dependendo do autor), como um ponto de partida essencial para todas estas discussões. Charlie Hebdo era só um jornal satírico que nem sequer tinha grande público (esteve praticamente à beira da bancarrota nos últimos anos). Custa-me ver no fundo, o jornal a ser instrumentalizado desta forma não só por políticos mas por intelectuais e activistas que de certeza que têm até as melhores intenções.

É difícil de ver isto porque não há ninguém para falar em nome do jornal, porque as pessoas que podiam falar sobre o jornal em si estão mortas. Parece-me óptimo que se debata estes pontos de vista, que se ponha em causa visões de sociedade mas acho um absurdo caírem no erro de atirar o jornal para todas estas discussões como se Charlie Hebdo fosse de repente um símbolo da França, como se estivesse para o regime como está Charles de Gaulle ou a Marselhesa.

Ao menos tenham a decência de ouvir um dos sobreviventes: ” Today, it seems that Charlie fell for the freedom of speech. The simple fact is that our friends died. The friends we loved and whose talent we admired so very much.”

Portugal a fazer rir

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Partiu uma excursão da Covilhã para Évora com o mui nobre objectivo de ir visitar Sócrates. Foram três autocarros e numa bela proporção só poderão entrar três pessoas. A minha parte preferida foi quando uma das senhoras disse que José Sócrates “não pode provar a inocência porque foi preso logo à saída do avião, na manga” (deve ser da pressão do ar nos ouvidos) e a outra que afirmou que “Porque ainda não disseram o porquê dele estar preso, os jornais dizem o que querem, as pessoas dizem o que querem” (pois o que é preciso é um Salazar em cada estação da CARRIS para acabar de vez com o Correio da Manhã e a Manuela Moura Guedes). E por fim, a mesma senhora da manga do avião acha que Sócrates está na prisão para o silenciarem. O porquê de o quererem fazer não se sabe mas claramente não resultou porque nós continuamos a ouvi-lo.

Ainda dizem que isto está ultrapassado

Para o D.Duarte com muito Amor e Carinho.

 

(É só para frisar que isto é uma brincadeira. O presente blogger não tem qualquer intenção de guilhotinar o D. Duarte. Hoje em dia é preciso avisar não vá alguém ser incapaz de distinguir as coisas. Infelizmente, a imbecilidade do D.Duarte é real).

Também eu falo de Charlie

Deixei passar esta semana para escrever sobre os acontecimentos de dia sete de Janeiro. Li bastante, várias opiniões, passei eu também por várias fases e agora cá estou.

Charlie Hebdo é uma revista satírica que faz parte de uma tradição humorística não só “muito francesa”, como se tem dito por aí, mas ainda mais relevante, uma tradição que deriva do Maio 68. Nem Deus nem mestres, como Wolinski dizia. Independentemente do que faziam ou escreviam ou desenhavam, nada, mas nada, mas mesmo – garanto-vos – nada justifica a morte de alguém. As pessoas civilizadas como eu e espero também como o leitor são contra a violência, são contra a morte de alguém em retaliação por ofensas reais ou imaginadas no cérebro de loucos.

Contudo, não foi a esta conclusão que muitas das pessoas chegaram. Temos agora debates sobre a liberdade de expressão. “Afinal eles provocavam…”. Foi-se desencantar a história sobre o Philippe Val e o Siné que foi despedido por antissemitismo. “Ai, afinal eles próprios não eram assim tão pela liberdade de expressão…”dizem as pessoas com uma desonestidade intelectual estonteante porque sabem perfeitamente que Val não estava no jornal desde 2009.

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Coisas que me ocorrem às 3 da manhã

Sabem o que é irónico? Irónico é pensar que ao longo dos anos, Oeiras tornou-se no alvo das piadas de humoristas, comentadores políticos, analistas e afins que abertamente criticavam ou gozavam com os eleitores do concelho que repetidamente votaram em Isaltino e nos seus sucessores. Irónico é perceber que não vimos nem metade das piadas, dos comentários sarcásticos, dos artigos tipo, “oh meu deus o povo é tão estúpido” quando Soares abraçou Isaltino e disse para toda a gente ouvir que o que lhe aconteceu foi uma injustiça. Não me lixem. A elite política de Soares a Portas (nem venham com a história dos partidos que não há paciência) e uma parte da elite “intelectual” portuguesa funcionam dentro da ideia de que há uma justiça para uns e uma justiça para outros. Funcionam assim porque no fundo, o povo, como os eleitores de Oeiras, eram ignorantes e atrasados enquanto Soares é o pai de Democracia e um iluminado que nós temos no mínimo de “respeitar”. A relação das classes “pensantes”, políticas, académicas, literárias etc. com o povo sempre foi má porque o “povo”- essa massa homogénea de pessoas que vota no Isaltino e vai aos saldos ao Pingo Doce no 1 de Maio – desaponta. Mas o povo também são eles.

Entretanto

Enquanto em Portugal andamos a por ex-primeiros-ministros em prisão preventiva e a queixarmo-nos muito do nosso sistema de Justiça, convém recordar que nos Estados Unidos, Darren Wilson, que deu seis tiros a um adolescente desarmado, não vai ser acusado.

Os pais de Michael Brown querem levar o caso ás Nações Unidas.

Michael Brown tinha 18 anos e tinha acabado o liceu. Era negro.

Também tenho coisas para dizer

Interrompo o meu retiro nos planaltos das Lowlands para dizer quatro coisas que me parecem fundamentais:

1- Sócrates, como qualquer cidadão de um Estado Direito democrático, é inocente até prova em contrário. O facto de ser arguído não é prova da sua culpa ou inocência. Não serve de nada, penso eu, voltarmos ao caso da licenciatura ou do Freeport porque não é disso que Sócrates está a ser acusado. Ir buscar isto ou aquilo para provar a sua culpa na praça pública é um erro que descredibiliza quem escreve.

2- Contudo, (e isto vai para a Clara Ferreira Alves com quem eu desde já assumo uma relação amor-ódio) faz-me “espéce” o argumento que muitas pessoas já assumiram: que o processo está descredibilizado porque Sócrates foi preso mal chegou a Lisboa (e de noite, ainda por cima!), ou porque a televisão estava lá (!) ou porque a Felícia Cabrita entrou em histeria no Sol ou porque o Correio da Manhã foi, enfim, o Correio da Manhã. Tudo isto é entrar por um caminho que não devia interessar minimamente. Quer queiram quer não, parece que estão a tentar desviar a atenção do que é importante, como se o Procurador e a Procuradoria não tivessem pensado nas coisas antes de irem deter um ex-primeiro-ministro ao aeroporto, como se o tivessem feito para se vingar de Sócrates (com que razão? Não se sabe porque nesta linha de pensamento fica-se sempre pela insinuação) como se nós, os bloggers, os jornalistas de serviço, comentadores e malta do facebook, soubessemos mais e melhor do que quem está de facto envolvido no caso.

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*Este post contém uma total ausência de empreendedorismo

 

Hoje ouvi o Ministro Pires de Lima na sic notícias a falar sobre os benefícios do empreendedorismo (fiquei sem perceber se isto é recente ou se é uma entrevista antiga mas para o caso não interessa muito). Porque foi a criação de novas empresas e negócios que ajudaram – e ajudam, assumo – Portugal a sair da crise, e que estes são os sinais de retoma da economia portuguesa. Passando à frente desta banalidade, Pires de Lima voltou à carga com a ideia maravilhosa de ter a disciplina de empreendedorismo nas escolas (no básico!). Porque é preciso incutir nos jovens a importância das potencialidades das novas tecnologias e indústrias, é importante estabelecer parceiros de negócio, é importante ensiná-los a construir uma empresa.

Não passa pela cabeça do Pires de Lima que a ambição de alguns jovens pode passar por outras coisas. Se calhar o que o João quer ser é xadrezista. Ou médico. Se calhar a Filipa quer ser cantora ou filósofa ou quer passar o resto da vida a resolver problemas complexos de matemática, e ambos têm zero interesse em construir uma empresa. Ao Pires de Lima nada disto ocorre. Também não lhe ocorre que nos países civilizados toda a gente sabe que estas “skills” que ele considera tão importantes, se aprendem – se é que se aprendem – num curso de três semanas. Não ocorre ao Pires de Lima que o importante é ensinar os jovens a fazer contas, a ler, a pensar, a falar outras línguas.  Não lhe ocorre que disciplinas como “empreendedorismo” terão tanto ou mais sucesso como Área de Projecto ou Formação Cívica – ou seja, formas de retirar tempo a discplinas válidas como Português, História, Matemática, Ciências.

Nada disto lhe ocorre. É uma pena.

 

Então e os outros?

 

O que eu acho verdadeiramente estranho é andarmos todos aqui a falar das causas para a derrota de Portugal e de quem é a culpa, e do Paulo Bento que podia ter posto o William Carvalho logo desde início e convocado beltrano e cicrano e não falamos daquilo que para mim é flagrante e que também merece ver-lhe atribuída a sua quota-parte de responsabilidade . Falo evidentemente, do papel da Comunicação Social.

A comunicação social, ou seja, a miríade de comentadores e jornalistas que nos informavam a cada momento das movimentações da Selecção, conseguiram convencer-se, a si próprios e ao país, de que Portugal era de uma forma ou medida, candidato a alguma coisa. Em primeiro lugar, gerou-se a ideia de que o grupo era fácil, com excepção da Alemanha, e que Portugal facilmente passaria. Não percebo como é que se chega a esta conclusão quando em 2010, o Gana chegou aos quartos e os Estados Unidos possuíam um treinador experiente que tinha levado a cabo uma enorme revolução na equipa. Não percebo igualmente como é que conseguiram convencer as pessoas de que Portugal, que não tinha ganho ao Luxemburgo, ia ganhar à Alemanha; a Alemanha cuja maioria dos jogadores fazem parte daquela que é a melhor equipa europeia. Mas mesmo assim havia muito boa gente convencida que no “mínimo era um empate”.

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O meu post de 25 de Abril

Demorei até escrever este post porque fui obrigada a pensar bem no que queria dizer. Nem sabia bem o que havia de escrever até que um sketch do Ricardo Araújo Pereira me iluminou.

A minha visão do 25 de Abril e do Estado Novo nem sempre foi aquela que é hoje. Desde muito cedo que tive opiniões e elas nem sempre foram as mais inteligentes, especialmente não o eram quando eram fruto de influências alheias. Felizmente, rapidamente me passaram, e hoje sou menos parva do que era há 6 anos. Ou há 6 meses, há 6 dias, há 6 horas. As pessoas devem, penso eu, evoluir.

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Vive la Révolution

Este artigo de Pedro Cardim é das coisas mais pertinentes que já li nos últimos tempos no que diz respeito à questão dos nacionalismos ibéricos. A questão da Catalunha é secundária, apesar de começar por ser a razão do texto. O que interessa verdadeiramente são as considerações do autor sobre o chamado “nacionalismo” português. Infelizmente, alguns comentários ao artigo são, como sempre, mostras de alguma ingenuidade e anacronismo.

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Finalmente, a praxe

Sendo que sou estudante e estou inserida no sistema de ensino superior português penso que tenho alguma legitimidade para falar sobre este assunto.

Devo confessar que – devido à  natureza e à história da minha universidade – até há relativamente pouco tempo eu achava que as praxes nas universidades públicas eram brincadeiras em que a malta era pintada e faziam flexões e todos bebiam cerveja por 50 cêntimos. Sabia que Coimbra era uma excepção mas sinceramente não fazia ideia que na maioria das universidades a praxe era tão divulgada e tão universal. Entretanto, comecei a ler umas coisas e a falar com pessoas e a desenhar algumas conclusões. Escusado será dizer que a minha faculdade não precisa de retirar legitimidade da “tradição académica”. Isto tudo para explicar que a partir do momento em que entrei para a faculdade nunca me foi incutido que a tradição académica era importante para avaliar o valor de uma universidade, seja ela qual fosse.

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Também não deixa de ser irónico que esta novela do Ronaldo alcançou o seu ponto máximo (com as declarações do governo) hoje. No dia em que se descobriu que este ano a emigração foi superior à Natalidade. É certo que daqui a 100 anos talvez já não haja Portugal, porque vai deixar de haver Portugueses mas ao menos defendemos o Ronaldo. Infelizmente, esqueceram-se do resto.

Quando se perguntarem, esta é a razão

Portugal: O país que aceitou a Troika, que aceitou o FMI, que aceitou a austeridade, que lê o Sócrates, que votou em Passos mas que pede a demissão de Blatter porque disse não sei o quê sobre o Ronaldo.

 

O problema de Sócrates

Demorei algum tempo até conseguir perceber porque razão é que este repentino protagonismo de José Sócrates me irritava de formas que só são comparáveis áquilo que sinto quando leio o Daily Mail.

E finalmente, acabei de perceber.

É esta atitude de homem que não deve nada a ninguém, não só de quem acha que não tem responsabilidade nenhuma, mas de quem pretende fazer um balanço e distanciar-se daquilo que fez, como a dizer que superou tudo e saiu a ganhar, como que saído de uma música do Sinatra ou da Edith Piaf. Esta superioridade moral de um homem descansado e de bem com a sua consciência que ele pretende mostrar. Esta distinta lata de dizer de forma nem disfarçada que foi para Paris enquanto o País está a arder e de regozijar-se pelo tempo que lá passou. Esta atitude de “agora sou um homem franco e honesto e ninguém pode tocar-me até porque não quero saber do povo” como se nunca tivesse mentido, inventado, como se não tivesse responsabilidade no estado a que isto chegou. É esta ausência de responsabilização, a dele e daqueles que lhe dão atenção, que me choca. Uma falta de dignidade, de gajo que nunca teve talento mas que continua a escrever livros.

É a falta não de qualidades democráticas, mas de dignidade, de saber sair de cena e estar calado porque só neste país é que continuamos a alimentar estes “pais da pátria” e corremos o risco de permitir que Sócrates – porque disse merda e chamou filho da mãe a um alemão – se torne mais um pai da pátria que andaremos todos a sustentar e a ouvir durante os próximos anos. Mas cada um tem as elites que merece, e nós, by God, nós merecemos.

A condição do académico

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Há uma semana fui ver o filme sobre a Hannah Arendt. Estava à espera de gostar e não saí desapontada. Hannah Arendt é uma filósofa e académica admirável e o filme demonstra algo que me é caro em vários sentidos. A coragem de um académico em publicar algo que vai ser polémico ou que pode constituir uma polémica é uma situação que hoje em dia tem vindo a ser diminuída porque chegou-se a este estado em que a polémica para ter dimensão tem que ser escandalosa. Actualmente, parece-me, é difícil existir polémica no mundo académico – e que esta passe para o mundo não-académico – sem um certo sensacionalismo.

 

Mas não é isso que acontece com Hannah Arendt. Arendt faz o seu trabalho como académica: ela tem um objecto de estudo, ela examina-o, estuda-o, pesquisa, pensa e chega a conclusões. Tenta fazê-lo com a maior honestidade intelectual possível e fá-lo sempre como académica, como alguém que foi treinada desde muito cedo a pensar e a raciocinar e a ser crítico. A academia é isto. Arendt no filme personifica aquilo que a intelectualidade e a academia têm de melhor. Não põe de lado as suas opiniões pessoais mas elas são suportadas. Não põe de lado a emoção porque é isso é necessário a um trabalho académico, mas utiliza a emoção para amplificar a qualidade da sua escrita e do seu trabalho.

 

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