Nas Regiões Autónomas e na Infopédia também há “contatos”

Lisboa é Portugal, mas o resto não é paisagem. O país, tirante a capital, não é apenas uma cara bonita que Lisboa pode apresentar ao parceiro de negócios estrangeiro. O resto do país tem, igualmente, direito a “contatos”, também por não ser menos que a Eleven Sports.

As Regiões Autónomas fazem parte do resto do país, porque a autonomia não é à vontadinha. Como a globalização é grande e o acordo ortográfico é o seu pastor, os “contatos” já chegaram aos Açores e à Madeira. Sim, podemos dizer, em termos ortográficos, que já chegámos à Madeira ou que isto é a casa da Mãe Joana.

Nos Açores, o gabinete da Vice-Presidência do Governo dos Açores usa duas vezes “contatos”. O gabinete do Presidente, por sua vez, tem “contactos”, mas é mesmo assim que deve ser, porque a ortografia medieval é variegada e, portanto, avariada.

Na belíssima página Visit Madeira, da responsabilidade da Direcção Regional do Turismo, também há – todos juntos, agora! – “contatos”!

As imagens que provam a existência dos “contatos” insulares vêm mais abaixo. Não é preciso agradecer, é para isso que cá estamos.

O jovem português em idade de formação poderá ficar com a impressão de que se pode escrever das duas maneiras ou poderá optar pela que está errada, mesmo sendo difícil saber qual é que está certa. O estrangeiro desejoso de aprender a escrever a nossa língua tem à sua disposição uma grafia dupla, mas poderá escolher a que mais lhe agradar, porque, com o AO90, há liberdade, mesmo que não haja ortografia. [Read more…]

Rui Gomes da Silva lança o quê?

If collectors who don’t play guitars didn’t buy them, their value would be based on what players feel they’re worth. But when the people who would really use them don’t get the chance, it’s a real shame.
John Frusciante

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A situação é grave e os responsáveis, depois de terem ignorado os avisos, encolhem agora os ombros perante o desastre.

Depois dos contatos de ontem e do reto de hoje, de facto, não há condições.

Vou de férias.

Até breve.

Actualização (16h56 de Bruxelas): O reto já tem pê.  E o abruto também. Mas o que causa os retos e os abrutos mantém-se. Não vamos lá com cirurgia estética.

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A Eleven Sports tem “contatos”

Na página da Eleven Sports aparece a grafia “Contatos”, como se pode verificar pela imagem e como poderá verificar qualquer internauta mais corajoso, se se abalançar por esses mares ortograficamente tormentosos do mundo virtual.

Sendo uma página dedicada ao desporto-rei, os visitantes serão mais do que as mães, tendo muitos deles interiorizado uma grafia que tem alternado nos últimos anos com “contactos”. Foram muitos os avisos para a queda de consoantes articuladas por influência visual da queda de consoantes mudas e necessárias (que a mudez não é razão suficiente para se descartar pessoas ou consoantes). A culpa é de quem impôs um alegado acordo alegadamente ortográfico.

A Eleven Sports surgiu num momento em que Portugal deixou de ter uma ortografia para ter apenas escrita, porque Portugal, neste assunto, não é um país, é um lugar mal  governado.

«Porto vai celebrar o verão com música ao ar livre nos Jardins do Palácio»

Aguarda-se informação acerca dos festejos de verei, verás, verá, veremos e vereis. Exactamente.

Viagem ortográfica à Idade Média

Nas escolas, está afixado o documento que podeis ver na fotografia, com a tripla chancela da República Portuguesa, do Serviço Nacional de Saúde e da Direcção-Geral de Saúde.

Nesse mesmo documento, ao alcance de milhares de alunos, podemos ver que a mesma palavra, ao que tudo indica, surge grafada de duas maneiras diferentes: “antissética” e “anti-séptica”.

Nos documentos emanados das chancelarias medievais, também era possível assistir a este fenómeno das duplas grafias, numa época em que a ortografia era, tal como hoje, uma utopia, ou seja, um não-lugar, uma inexistência. [Read more…]

Factura rima com

contractura. Contratura rima com magistratura.

A dimensão do contato

This is not a playable instrument.
Flea

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Efectivamente, o Acordo Ortográfico de 1990 não funciona. Se ainda houver dúvidas, o Diário da República esclarece-as. Para uma visão pormenorizada do assunto, podeis recorrer à etiqueta sítio do costume.

Com votos de um óptimo fim-de-semana, eis o pano de fundo musical dos últimos dias, distinguindo-se um toque de deliciosa assimilação progressiva no primeiro verso:

Ainda há (pelo menos) seis dúvidas no Orçamento Suplementar

Efectivamente, há (pelo menos) seis (cinco mais uma) e não (pelo menos) cinco.

Nuno Santos tentou fazer uma recepção

Levantávamos a cabeça e tínhamos jogadores a voar por todo o lado
Aimar, o Poeta

Eddie, I spilled some coffee in the kitchen. I’m sorry. I’m apologizing now.
Chris Cornell

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Ao contrário do que se depreende das deturpações feitas pelo jornal A Bola, o futebolista Nuno Santos não se referiu nem a receção, nem a janeiro. Aquilo que este magnífico jogador, campeão pelo FC Porto e pelo maravilhoso Benfica, escreveu há dias na sua conta do Instagram foi o seguinte:

Grafias impecáveis: não há reparos a fazer. Nuno Santos, segundo sei, não pratica profissionalmente o acto de escrever. Nuno Santos ganha a vida a dar pontapés e cabeçadas numa bola. Mesmo assim, como se viu, escreve bem.

Todavia, ao lerem estes disparates, escritos por quem é pago para escrever e transcrever,

os leitores do jornal A Bola ficarão a julgar que o jogador Nuno Santos trata o portuguez lingua escripta como ele é tratado no jornal A Bola: ao pontapé e à cabeçada (o Estebes diria “à cabeçada e ao pontapé”). Já sabemos que A Bola preferiu comer e calar, em vez de colaborar no desenvolvimento de uma sociedade livre e moderna. Mas nós não temos culpa das altamente duvidosas opções cívicas da direcção do jornal A Bola. Além disso, esta mania de andarem por aí a deturpar a óptima grafia dos outros, francamente, é inadmissível. Obviamente, Nuno Santos está à espera de um pedido formal de desculpas do jornal A Bola.

Nótula: Um grande abraço ao excelente leitor do costume.

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Vejo imensa gente preocupada por António Costa ter dito que os vírus se combatem com

antibióticos. Vejo muito pouca gente preocupada por Santana Lopes ter escrito que “agora facto é igual a fato (de roupa)“.

Supremo confirma multa ao FC Porto por comportamentos correctos de adeptos?

Segundo o Record, houve “comportamentos incorretos”. Ora, como sabemos, correto não é correcto. Logo, um comportamento incorreto é correcto.

João Cotrim Figueiredo tem razão

Efectivamente, embora por outras razões, o OE suplementar é “complicado, incoerente e opaco”.

O Orçamento Suplementar para 2020 é uma treta

Europe has now become the world’s beating heart of solidarity.
Ursula von der Leyen

Wir haben jetzt angeboten, daß 1000 freie… freiberufliche Interpreten
Florika Fink-Hooijer

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Foto: MANUEL DE ALMEIDA/LUSA [https://bit.ly/2CrHxJP]

De saída do Governo, não satisfeito com um OE2020 que é uma mentira e uma vergonha, Centeno anexou-lhe um Orçamento Suplementar que é uma treta. Este Orçamento Suplementar da treta, aprovado anteontem, foi apresentado pelo estreante ministro João Leão. O PS votou a favor e fez mal. O PSD, o BE, o PCP, os Verdes, o PAN e Joacine Katar Moreira abstiveram-se e fizeram mal. O CDS, o Chega e a Iniciativa Liberal votaram bem, mas infelizmente não foi pelas melhores razões ortográficas. Efectivamente, o pacote anteontem aprovado faz jus ao caos orçamental iniciado com o OE2012, provocado por gente deslumbrada com a RCM n.º 8/2011 que o Governo decidu mandar pôr em cima de uma oliveira, para gáudio dos crentes.

Aquilo que anteontem se aprovou na Assembleia da República foi uma proposta (pdf), onde se refere, por exemplo:

  • respetivo sector de atividade” (p. 35);
  • “entidades do sector público” (p. 38);
  • “solidariedade sobre o setor bancário” (p. 41);
  • “suportada pelo setor financeiro à que onera os demais setores” (p. 41);
  • “passivos por ativos não desreconhecidos em operações de titularização” (p. 43);
  • “Ambiente e Ação Climática” (p. 28).

A proposta traz com ela mapas (pdf), nos quais encontramos “RESPECTIVOS SERVIÇOS SOCIAIS” (p. 2).

Além disso, temos o sempre esclarecedor relatório (pdf), no qual podemos rever estas deliciosas e correctíssimas grafias:

  • acção social” (p. 10);
  • activos financeiros (excepto privatizações)” (p. 14).

O pacote anteontem aprovado é uma enjoativa salada orçamental suplementar e deveria fazer corar de vergonha quem a aprovou e quem com ela é conivente.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

No jornal A Bola, escreve-se à bruta

EVH. Now, we had an eleven-point deal and three points went to Ted, our producer.
DLR. Ted still makes more money than I do on those first two records.
EVH. Oh yeah, he makes more than all of us.
AVH. But he’s still Ted.
— VH (2012)

***

Ia aproveitar o serão para escrever umas notas sobre este diálogo entre Steve Jones e Kim Thayil:

Steve Jones. … and we’re here with Kim /feɪl/ — am I saying that right?
Kim Thayil. Yeah, pretty much.
Steve Jones. OK. How would you say it?
Kim Thayil. /θʌɪl/.
Steve Jones./fʌɪl/!
Kim Thayil. /θʌɪl/.
Steve Jones. Like a file [fʌɪl].
Kim Thayil. No. Thayil rhymes with ‘smile’, I suppose. TH. I’m sure my family pronounces it incorrectly, I’m sure there is a traditional Indian pronunciation.

Todavia, as minhas voltas foram trocadas pelo jornal que gosta de resistir em silêncio e ceder, em vez de viver plenamente uma vida democrática.

Efectivamente, em vez de me debruçar sobre o interessantíssimo TH-fronting, vi-me obrigado a perder tempo com um título escrito à bruta.

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Walcott para quatro semanas?

Claro que não. Walcott pára quatro semanas. Efectivamente, A Bola não adopta o AO90.

Preconceito e racismo, diz ela

[João Roque Dias]

Hoje, volto ao embuste de continuar a haver gente que acha que português e brasileiro são a mesma língua. Este achismo tem uma explicação simples: os achistas deste achismo acham que sim, porque sim. A apoiar o seu achismo, os achistas apresentam um argumento que tem, contudo, algo de verdade: como há ainda muitas parecenças entre o português e o brasileiro, os achistas ficam-se por aqui e acham que sim, que as parecenças são suficientes para acharem que têm razão. Quanto ao facto de uma e outra língua não servir para comunicação – natural e pronta, como devem ser as línguas – fora do seu espaço original, os achistas fazem de conta que não é verdade. Mas é! E quanto mais a língua, uma e outra, serve para comunicação especializada, mais verdade é. Como vamos ver, os achistas continuam a achar que não é, e acham que resolvem o problema com “glossários”.

E hoje, o embuste vem até profusamente ilustrado por uma achista com doutoramento e tudo, Margarita Correia. Conta ela, hoje, 9 de Junho de 2020, no Diário de Notícias (“E por falar em racismo…”), o seu encontro com uma brasileira, a Juliana, e as vicissitudes desta com a língua que, como ainda tem parecenças com a sua, ela achou até que era a mesma. E mais. Achou até que podia usar livremente, e com proveito, a sua língua (numa espécie de salvo-conduto), em Portugal. E foi a realidade, que é teimosa, que se encarregou de lhe demonstrar quão errado, e perigoso, é insistir neste achismo: [Read more…]

O confinamento voluntário do poder político português

O que quer que aconteça na vida não se reduz nunca ao facto do seu acontecer.
— António de Castro Caeiro, ‘Epidemia’ e ‘pandemia’: manifestações de totalidade (pdf)

I believe it was inevitable
VH

nothing but an ego[‘s]-trip, yeah!
Bach

***

Em primeiro lugar, esta comparação entre Cristiano Ronaldo e o ministro das Finanças — seja ele Centeno, seja ele Leão, seja ela Alburquerque ou seja ele Gaspar — é inadmissível e ridícula. A culpa inicial é de Schäuble, sim, mas não vale a pena perpetuar o delírio: já chegam as vaidades patrocinadas pelo Expresso. Estou de acordo com Tennessee Williams, não nos devemos intrometer nas vaidades dos homens — embora o maravilhoso dramaturgo só tenha chegado a esta conclusão depois de satisfeito com a tareia dada à ego-trip de Menotti. No entanto, a vaidade de um maestro ainda é como o outro: mas um ministro, efectivamente, não é um maestro.

Passando àquilo que interessa, sabemos que é inevitável. Abre-se o Diário da República e… ei-los.

Continuai no vosso confinamento voluntário, encolhei os ombros, assobiai para o ar, tapai o sol com a peneira, escrevei Orçamentos do Estado vergonhosos, dai-nos música sobre a língua, blá, blá, blá, e, principalmente, mantei-vos no vosso buraquinho, muito escondidinhos, bem distantes da realidade, para que o vosso faz-de-conta tenha um ar bastante sincero.

***

Nótula: Segue-se um desabafo em forma de nótula, com reactivação dos primeiros apontamentos para este meu texto publicado na Torpor. Por mero acaso, tropecei neste debate entre Jack Lang e Éric Zemmour. Estava tudo a correr relativamente bem, até aparecer a história do pai de Zemmour. Enquanto os intelectuais que se pronunciam sobre tradução se mantiverem preguiçosamente encostados ao bordão do traduttore tradittore, continuaremos a assistir a debates vazios, travados por quem insiste em discutir pela rama assuntos efectivamente sérios. Como podereis reparar, o “traduire, c’est trahir” de Zemmour é acompanhado por aquela expressão corporal do “não se fala mais sobre o assunto“. Como diria Finkielkraut, “cette arrogance est absolument insupportable”. Quando políticos discutem língua, já se sabe que há despistes, mas, francamente, “idiot utile” (ou “inutile”, vai dar ao mesmo) não se admite e a réplica “idiot calculé“, passados uns dias, é igualmente inaceitável.

***

A GNR chama a atenção para a *contrafação

E o que é a *contrafação? É a contrafacção contrafeita.

A sessão ortográfica

It was a new breed of men, created by the Renaissance cult of the individual, who embarked on these hazardous voyages of exploration.
Gustav Jahoda

You’re perfect, yes, it’s true.
Mike Patton

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Já aqui se reconheceu a vantagem de sexão em relação a secção, por não haver cê à mão de semear para suprimir. Ou seja, enquanto secção é uma presa fácil, sexão é uma grafia à prova de bala. Há uns anos, secção começou a transformar-se em seção na consciência grafémica de determinados escreventes e chegámos ao ponto de sessão. De facto, no caso aqui apreciado, a doutrina alternativa de 1990 — a do n’importe quoi, estimulada por pérolas como “agora facto é igual a fato (de roupa)” ou “se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’” — dividir-se-á entre duas interpretações extremamente sofisticadas: por um lado, a sexão de voto e, por outro, a sessão de voto.

Secção de voto, algures na cidade de Lisboa. Foto: Cristina Carvalho (http://bit.ly/2JGgAo2), cf. Aventar, 26/5/2019 (https://aventar.eu/2019/05/26/sexao-seccao-secao/)

Tudo começou a descambar [Read more…]

O fim-de-semana da RTP

No outro dia, a RTP enganou-nos, dizendo que a semana de calor estava a acabar.

Hoje, a RTP recuperou a forma ortográfica clara.

Todavia, pouco depois, sabe-se lá porquê, a RTP arrependeu-se.

Dizem por aí que está tudo bem.

É provável.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

O tom de Trump

Novoselic escreve direct, mas a Blitz traduz direto. Como diria Cobain, “I don’t know why“. É directo. Lembrai-vos dos One *Diretion.

«BCE faz teste de stress a maiores bancos para quantificar impatos da pandemia»

Nuno Pacheco denunciou estes *impatos do Expresso. Impatos? Do professor Expresso? Efectivamente: impatos da pandemia.

«Kestão ou cuestão, eis a questão»

Por Eduardo Affonso.

O problema n.º 4 só aparece daqui a uns meses

Tende paciência. Entretanto, ide-vos entretendo com o problema n.º 1, o problema n.º 2 e o problema n.º 3.

Problema n.º 3: COVID-19

Resolvidos os problemas n.º 1 e n.º 2, descubra agora, no seguinte parágrafo, as cinco palavras escritas com os pés pela redacção da Rádio Renascença:

“Sempre que uma pessoa é validade como infetada há um trabalho do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de procurar os contatos recentes dessa pessoa, por serem potenciais infetados”. Este trabalho de detetive pode ser facilitado com o recurso à aplicação agora desenvolvida pelos investigadores do INESC Tec, e assim poupar-se tempo ao SNS.

SOLUÇÃO: [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 e a consagração da falta de respeito

A thing of beauty is a joy for ever.
Keats

***

José Cutileiro (1934-2020) escreveu o livro Inventário. Desabafos e divagações de um céptico. Além de o título permitir uma identificação imediata do código ortográfico adoptado pelo Autor — aliás, a melhor ortografia disponivel —, no próprio livro se declara: “Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990“. Convém lembrar que “a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990” não é a prescrita pelo Acordo Ortográfico de 1990. É a outra, a anterior, a óptima.

No obituário dedicado a Cutileiro, António Araújo, como qualquer pessoa minimamente correcta, decente e educada, grafa céptico, ao referir-se ao título do livro. Todavia, numa entrevista postumamente publicada pela plataforma SAPO 24, escreve-se três vezes o título do livro e nessas três vezes surge a grafia *cético. *Cético? José Cutileiro não merece tamanha afronta. Além de atrevidamente apagarem um pê que Cutileiro manteve de forma intencional na palavra que encerra o título do livro, os redactores da plataforma SAPO 24 desrespeitam uma vontade explícita do Autor. Esta prática, corrente noutras publicações, como Diário de Notícias, Observador ou TSF, ou seja, entre gente sem o mínimo de respeito pelos outros, é completamente inadmissível.

Por exemplo, na Visão — outra publicação de empresa privada ortograficamente obediente ao que o Governo determina para o próprio Governo, para quem dele depende, para o sistema educativo e para o Diário da República—, apesar de adoptarem produtos cientificamente deficientes, pelo menos, há respeito pelos outros.

Continuação de um óptimo resto de fim-de-semana e votos de óptima saúde.

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Nótula: Estive com José Cutileiro uma única vez (há dez anos, na Orfeu), quando apresentou o livro Retrovisor, da minha querida colega Vera Futscher Pereira (1953-2019). Houve vários momentos que me impressionaram durante a intervenção de Cutileiro. Um deles, logo a abrir, foi o Keats da epígrafe. Eis a resenha.

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Fim de semana de calor

But there is no [i]skin.
Kiko Loureiro

Music has its written language, but it’s audio.
Steve Vai

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Durante toda a semana, esteve calor em Portugal. Foi semana de calor. E essa semana de calor terminou. Acabou-se o calor. Doravante, durante os próximos dias, provavelmente, estará frio em Portugal. Por isso, temos o título deste texto e, mais importante, deste oráculo:

Obviamente, dir-me-ão, trata-se do fim-de-semana. Não é uma semana de calor que termina, é um fim-de-semana com calor que começa ou se prevê. Então, se tão obviamente se trata de um fim-de-semana com hífenes, por que motivo lhos tiraram? Como já explicou António Emiliano, fim-de-semana não é o fim da semana e um bicho-de-sete-cabeças não é um bicho com sete cabeças.

É escusado perguntarmos o motivo de tal supressão a quem assinou de cruz o Acordo Ortográfico de 1990. Ainda nos respondiam com algo de semelhante a:

Fim-de-semana passa a fim de semana, porque agora facto é igual a fato (de roupa).

Continuação de um fim-de-semana com hífenes e votos de óptima saúde.

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Óptimas notícias:

Alemanha pede tecto salarial no futebol europeu.

A segunda pessoa do plural

Disse-me que pusesse a mesa para dois mas o convidado do senhor engenheiro, a segunda pessoa, vai demorar muito tempo?
— António Lobo Antunes, “A Morte de Carlos Gardel

***

Em português, a segunda pessoa do plural tem tanta importância como as primeira, segunda e terceira do singular e as primeira e terceira do plural e esta realidade deve estar reflectida formalmente (ou seja, no ensino). O caso do padre Carlos Cabecinhas, abundantemente divulgado nas redes sociais, é uma prova daquilo que acabo de afirmar. Convém recordar a teoria dominante: a forma vós é “muito rara em Portugal e limitada a registos dialectais (sobretudo no Norte de Portugal), litúrgicos ou muito formais” e tem “géneros textuais específicos (oratória e textos religiosos)” (pdf). Isso não impede que, felizmente, haja quem defenda a “utilidade no ensino destas formas” — contudo, como veremos, o aspecto “textos históricos” para “os alunos (pelo menos os que seguem Humanidades)” aduzido por Ana Martins, sendo verdadeiro, é demasiado redutor. Já agora, no Brasil, a conversa é outra (pdf).

Quando me dizem que o vós caiu em desuso (pdf), servindo isso de justificação para não ser ensinado, por exemplo, a alunos de português língua estrangeira, instintivamente e, às vezes, admito, um pouco exaltado (ou seja, nem tecnicamente, nem pedagogicamente), alego ter exactamente o mesmo direito à vida que têm outros compatriotas meus, igualmente falantes de português, permanentes utilizadores de vocês (+ terceira pessoa do plural), pronunciadores de dez[ɔ]ito e c[o]mo (“é como queijo”), calçadores de ténis sempre dispostos a fechar as respectivas malas de viagem e os respectivos cacifos com cadeados. Tenho exactamente os mesmos direitos, apesar de pronunciar dez[o]ito (“tens dezoito anos”) ou c[u]mo (“são como divãs”) e de dizer sapatilhas ou aloquete e, para o caso em apreço (o único aqui relevante), recorrer frequentemente ao vós, tendo a minha infância e a dos meus amigos de infância sido fértil em “onde ides?” e “tende cuidado!” dos mais velhos.

E não estou sozinho: há mais meliantes que praticam algumas destas patifarias em português actual. Por exemplo, [Read more…]

O discurso do Presidente da República e o excessivo *contato com a luz

Item 3 (diente ‘tooth’) and Item 9 (tribus ‘tribes’) do not fit the structure /ˈCVCV/ strictly; nevertheless, diente was used to allow for closer comparison with the comments from Moya Corral (1977: 34–35) and tribus was used as the combination /ˈCiCu/ is extremely rare in Spanish.
A. Herrero de Haro

Et cantant novum canticum dicentes:
“Dignus es accipere librum et aperire signacula eius, quoniam occisus es et redemisti Deo in sanguine tuo ex omni tribu et lingua et populo et natione; et fecisti eos Deo nostro regnum et sacerdotes, et regnabunt super terram ”.
— Ap 5,9 (apud NV, cf. KJV)

The high linguistic diversity resulting from the extreme multiethnic and multilingual composition of the post – De Boeck recalled that in 1901-2 Bangala-Station was composed of “people ex omni tribu et lingua” and a real “Tower of Babel” (De Boeck 1940a: 91) – made a lingua franca a dear necessity, for which the Europeans considered the Bobangi pidgin the most ready candidate.
— Michael Meeuwis (pdf)

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Apocalipse significa descobertaApocalipse significa revelação. No entanto, os assuntos de hoje diferem um pouco do implícito na epígrafe, onde encontramos salientadas palavras interessantes e muito actuais, quer no Antigo Testamento, quer em investigação recente. O primeiro assunto de hoje é, imagine-se só, política portuguesa pura e dura. O segundo assunto é o do costume.

Fiquei intrigado com o conteúdo deste texto de Alfredo Barroso e fui espreitar o discurso do Presidente da República. Efectivamente, pode discutir-se a consistência de argumentos contra a cerimónia na Assembleia da República, aduzidos, por exemplo, aqui no Aventar, por António Fernando Nabais, Carlos Garcez Osório, Fernando Moreira de Sá ou Francisco Figueiredo, e alhures, por outros intervenientes na vida pública, como Pedro Correia, Miguel Sousa Tavares ou João Soares. Aquilo que não se pode fazer, como faz Marcelo Rebelo de Sousa, é reduzi-los globalmente à [Read more…]