Xeque ao ensino: o meu cheque-ensino é melhor do que o teu

escolaImaginemos uma pequena povoação em que existam três escolas, uma privada e duas estatais. Para que o cenário fique, apesar de tudo, verosímil, será importante afirmar que a primeira, ao longo dos anos, tem sido sempre a mais bem classificada nos rankings. Não reflictamos, para já e novamente, sobre as virtudes ou os defeitos dos ditos rankings, mas não esqueçamos, a bem da verosimilhança, que a escola privada tem sido frequentada, ao longo dos anos, por filhos de pessoas de estatuto socioeconómico elevado, uma vez que as mensalidades não estão ao alcance de todas as bolsas.

Entretanto, as duas escolas estatais têm sido frequentadas por jovens cujas famílias não têm possibilidades de os matricular na escola privada ou não estão interessadas nisso, o que pode acontecer por desinteresse ou por confiarem que os filhos podem ter acesso a um ensino de qualidade sem que isso dependa da frequência da escola privada. Aproveitemos, de qualquer modo, para fingir, por momentos, que o estatuto socioeconómico ou sociocultural não tem influência no rendimento e nos resultados escolares dos alunos.

Num país em que os rankings se transformaram, mal ou bem, num critério quase único para se avaliar a qualidade de uma escola, é natural que a maioria dos encarregados de educação da nossa pequena povoação gostasse de ver os filhos entrar na “melhor escola” da terra, ou seja, a privada. Por outro lado, o lugar nos rankings, mal ou bem, passou a ser uma preocupação das escolas, pelo que a privada tem recorrido, sempre que necessário, à selecção de alunos, preferindo os que possam garantir melhores resultados e convidando a sair os que acabem por ter um rendimento escolar mais baixo ou que tenham problemas de comportamento, ao contrário das estatais cuja autonomia é menor e cujo espírito é o de tentar integrar todos os alunos, independentemente das limitações e dos problemas. [Read more…]

As “swapadelas” de Crato e as piruetas de Grancho

Santana Castilho*

Nos tempos que se sucederam ao 25 de Abril, os meses de preparação do ano-lectivo não eram fáceis. Recordo períodos de agitação social, sobretudo pela carência de espaço para albergar todos. Hoje, a meio de Agosto, temos professores sem horários, alunos sem escola e directores sem directivas. E, pesem embora os protestos, que são muitos, prevalece uma paz podre, que escancara portas à “swapagem” da competência mínima (para servir o público) pelo golpe máximo (para anafar o privado). Esta abulia cidadã, esta ausência de eficácia cívica perante as engenhosas formas de corrupção do futuro, permite, diariamente, o atropelo do Direito, da Moral e da Ética. Quanto mais tarde reagirmos, mas reagirmos de facto, com firmeza que diga não, não de verdade e para durar, maior será o número dos que ficam pelo caminho e mais tempo necessitaremos para reconstruir o que este Governo destruiu em dois anos de criminosa política educativa. Duas velhas frentes adormecidas foram reabertas para apressar a implosão do ensino público: o exame de acesso à profissão docente e o cheque-ensino. A manobra justifica público comentário. [Read more…]

Nuno Crato defende que há alunos a mais

Escolas forçadas a recusar alunos

NUNO-CRATO-PORTRAIT-RETRATOMerece leitura muito atenta a notícia do Correio da Manhã acerca das imposições do Ministério da Educação, obrigando várias escolas a recusar a entrada de alunos no primeiro ano do Primeiro Ciclo.

Nuno Crato tem declarado que há menos alunos no sistema de ensino, como quando quer, por exemplo, justificar o despedimento de professores. Fico a aguardar pelo briefing em que venha explicar que sentido faz recusar a entrada de alunos numa escola em que o número de alunos tem diminuído ou tomar medidas destas a menos de um mês do início do ano lectivo.

É certo que a razão é conhecida. O Correio da Manhã faz, aliás, uma ligação entre estas restrições e a necessidade de cortar despesa. Não é que já não soubéssemos, mas ficamos sem ter a certeza se essa ligação provém de fonte ministerial, o que seria um momento de sinceridade absolutamente inédito, porque implicaria, finalmente, que Nuno Crato reconhecesse que não toma medidas a pensar nos alunos.

Note-se, ainda, que os alunos recusados e os respectivos encarregados de educação já tinham criado expectativas absolutamente legítimas, preparando-se para enfrentar os desafios de um novo ciclo de ensino. Mais uma vez, a insensibilidade do Ministro da Educação obriga educadores a tentar minimizar os estragos criados por políticos.

Ferramenta de Justiça Social

No Expresso de hoje, Martim A. Figueiredo, sugere que o cheque-ensino de Nuno Crato é uma grande ferramenta de justiça social.

Segundo o autor, metade dos portugueses é pobre antes dos apoios sociais e grande parte da população não é livre para escolher o melhor para si.

Defende que uma família de um bairro social ganha uma nova possibilidade com esta oferta de Nuno Crato ao conseguir ir para uma escola de uma outra área urbana, por exemplo, da classe média.

Pois bem, creio que fica, na argumentação, por explicar uma coisa: se todos os lisboetas decidirem ir para a Escola Secundária Camões ou se todos os Gaienses pretenderem ir para a Secundária de Valadares, quem vai decidir? O pai? Ou a Escola?

Se me permite, Martim sugeria que alterasse ligeiramente os seus argumentos e procurasse defender uma outra ideia que se enquadra, escrevo eu, na sua ideia: vamos aceitar esse cheque-ensino, por exemplo, para as famílias com RSI, para os filhos de emigrantes africanos ou para as crianças de etnia cigana, quase sempre à margem do sucesso no sistema educativo.

Depois, abra as portas dos melhores colégios, com esse cheque e permita que os alunos, das zonas desfavorecidas, possam integrar as melhores escolas e os melhores projectos educativos. Aqui no Porto podemos começar por levar alguns habitantes do Cerco ou do Viso para o Colégio Alemão ou para o Luso – francês.

Se quiser tornar a coisa ainda mais eficiente sugiro outra coisa: os alunos do Luso-Francês passam, no próximo ano, integralmente para a Escola do Viso. Os alunos desta passam para o Luso-Francês. Depois, poderá comparar melhor o sucesso do seu cheque-ensino.

Certo da sua adesão a esta ideia, aguardo pelo próximo sábado. E, já agora,  poderá tentar fazer uma conta: desse cheque, que parte fica para o lucro do colégio? Não faria mais sentido, numa lógica mais aberta de mercado, que cada colégio procure o lucro sem ser à custa do Estado?

Nuno Crato põe alunos em risco

NUNO-CRATO-PORTRAIT-RETRATONuno Crato é um mero continuador de políticas iniciadas por Maria de Lurdes Rodrigues. O principais objectivos dos três últimos governos, no aparente âmbito da Educação, têm sido o de diminuir as despesas com pessoal e o de contribuir para o lucro de entidades privadas (a festa da Parque Escolar, com o PS, e as ajudas descaradas aos colégios, com o PSD). Pelo meio, os riscos que os alunos correm vão aumentando, especialmente se se tratar de jovens de meios desfavorecidos.

Em primeiro lugar, as condições de aprendizagem têm vindo a piorar. Entre muitos outros factores, temos a diminuição do tempo individual de trabalho dos professores e o aumento do número de alunos por turma. Os alunos correm, portanto, o gravíssimo risco de frequentar uma escola em que é cada vez mais difícil ensinar.

Para além disso, há riscos crescentes para a integridade física e psicológica dos alunos. Para isso concorrem, por exemplo, o fim do par pedagógico em disciplinas que exigem o manuseamento de materiais ou de instrumentos perigosos e um processo de despedimento de funcionários não docentes que está a atingir o seu auge a menos de um mês do início das aulas. É importante relembrar que cabe a muitos destes funcionários zelar pelos alunos nos espaços exteriores às salas de aula: tal como fez com os professores, Nuno Crato está a falsear números para poder despedir funcionários que, já se si, eram insuficientes para que as escolas pudessem funcionar satisfatoriamente. [Read more…]

30 por turma é um crime

O Paulo chama a atenção para a singularidade do momento – Nuno Crato, Paulo Portas, Cavaco e Passos Coelho têm em mãos uma missão que passa por entregar a Escola Pública nas mãos do mercado.

O cheque ensino parece permitir aos pais a escolha da escola dos filhos, mas vai, na realidade, permitir a cada escola a escolha dos seus alunos e será, por isso, um instrumento muito interessante para dar uma mão ao ensino privado que está com a corda no pescoço.

É uma medida que mostra a marca ideológica desta gente, que, ao mesmo tempo que dá a mão ao privado, procura destruir a Escola Pública. Nos últimos anos trataram de diminuir a Escola Pública, retirando horas lectivas e apoio aos alunos. Hoje, dois anos depois, a Escola Pública está pior porque tem menos ferramentas para ajudar os alunos com mais dificuldades.

Dois anos depois, em pleno mês de Agosto, Crato volta à carga com mais um prego no caixão da Escola Pública. Continua a fazer crescer o número de alunos por turma o que, além do desemprego docente, vem prejudicar a qualidade da escola. [Read more…]

Nuno Crato quer despedir funcionários

NUNO-CRATO-PORTRAIT-RETRATOA menos de um mês de começar o ano lectivo, numa altura em que já devia estar preparado há meses, o Ministério da Educação continua a aproveitar, como nunca, o mês de Agosto para lançar medidas perniciosas sobre as escolas e sobre as pessoas que aí trabalham.

Agora, a menos de um mês de começar o ano lectivo, as escolas estão a receber ordens para transferir para outros estabelecimentos os funcionários considerados excedentários. Ao contrário do que o Ministério da Educação afirma, não se trata de um procedimento habitual, mas sim inédito. Também ao contrário do que afirma o Ministério da Educação, a transferência não é voluntária.

De qualquer modo, convém lembrar que, para pessoas mal pagas como é o caso destes funcionários, uma simples deslocação de 30 km pode significar um aumento de despesa, o que é ainda mais grave num contexto em que os rendimentos baixaram de modo substancial.

Curiosamente, ou talvez não, esta medida surge pouco depois de o Ministério ter proibido a criação de turmas nas escolas, o que servirá para criar a ideia, mais uma vez artificial, de que há funcionários a mais: na realidade, havendo, ainda que momentaneamente, menos alunos nas escolas, é fácil vender a ilusão de que há trabalhadores excedentários. [Read more…]

Nuno Crato não sabe o que é um ano lectivo

NUNO-CRATO-PORTRAIT-RETRATONão saber o que é um ano lectivo corresponde, na prática, a uma condição sine qua non para se ser Ministro da Educação em Portugal. Nisso, como em muita outras coisas, Nuno Crato tem-se mostrado à altura do cargo, não destoando dos seus antecessores.

Tentarei, de forma sumária e simples, ajudar os próximos ministros a perceber este conceito tão espantosamente simples.

Em primeiro lugar, é importante perceber que se trata de um período. Foi por isso que o inventor do conceito resolveu usar a palavra “ano”. Concedo, ainda assim, que a dificuldade do ministro não esteja neste termo. Talvez o problema esteja em “lectivo”, que os adjectivos são palavras terríveis.

Uma consulta a qualquer dicionário ajudará Nuno Crato a perceber que o adjectivo é equivalente a escolar. Poderemos, assim, concluir que “ano lectivo” se refere a um período em que há aulas. [Read more…]

Menos turmas com os mesmos alunos

Trabalhar numa escola não pode ser fácil, porque implica lidar com muitos e variados domínios do ser humano. Como se isso não bastasse, para se trabalhar numa escola, em Portugal, é-se obrigado a lidar com uma opinião pública frequentemente hostil ou indiferente e com sucessivos governos que, relativamente à Educação, baseiam as suas decisões numa mistura de incompetência, insensibilidade e ignorância que se parece demasiado com má-fé.

Uma das actividades a que as escolas se dedicam, no final do ano lectivo, apesar do mito de que está toda a gente de férias, consiste na criação de turmas. Trata-se de um serviço que envolve membros das direcções, funcionários administrativos e muitos professores. Antes disso, com a maior antecedência possível, cada escola divulga a sua oferta formativa. Graças a todo este processo trabalhoso, os alunos matriculam-se no ano e/ou nos cursos que pretendem frequentar. Assim, a pouco e pouco, é com base em matrículas e inscrições que se vão criando turmas, de cada vez que se atinge o número mínimo de alunos exigido por lei.

Entretanto, a definição da rede escolar deveria ter sido feita até 30 de Junho, o que não aconteceu. Quando alguém, no Ministério, se lembrou de a divulgar, as escolas ficaram surpreendidas com uma redução do número de turmas imposta com a habitual negligência de quem não perde tempo a estudar o terreno. De qualquer modo, quem trabalha nas escolas, já sabe que é em Julho e em Agosto que os ministros ditos da Educação tomam decisões que – das duas uma – ou não deviam tomar ou já deviam ter tomado. [Read more…]

Calendário Escolar 2013/2014

já é conhecido.

Calendário Escolar 2013/2014

Está publicado em Diário da República.

Nunca fiz greve e dizem que sou da direita

Quando aconteceu o 25 de Abril, eu era quase um puto. Ou melhor, tinha acabado de deixar de o ser, já que tinha quase 22 anos. Nos dia de hoje seria homem e com capacidade para votar e influenciar a vida das outras pessoas há já quase quatro anos, mas na altura não era assim. Naqueles dias deixei de ser um puto porreiro e amigo das pessoas, preocupado com o bem estar dos que eu conhecia e dos que, sem conhecer ouvia falar, e passei a ser, por via da minha simpatia confessa (naquela altura) pelo PPD acabado de criar, um gajo da direita, por vezes até um fascista. E vivi assim até aos dias de hoje, ouvindo pareceres sobre a minha pessoa, ora bons ora maus, apesar das minhas simpatias não mais terem tido nome. Mas as minhas antipatias sempre o tiveram, apesar da condescendência para com elas que sempre me prezei de ter!

Na minha meninice e na minha juventude (fazia parte dos meninos beneficiados pela sorte por pertencer a uma posição social média e com estudos), a educação que me deram os meus pais, os meus tios e os meus avós, baseou-se sempre no imenso respeito pela maneira de viver dos outros, em especial pelos que menos tinham, no imenso respeito pelas ideias alheias, mesmo que fossem completamente diversas das minhas, no cuidado extremo na forma de falar e no que dizer, por forma a não ofender fosse quem fosse, fosse de que maneira fosse, na solidariedade e na entreajuda. À minha custa, aprendi nos primeiros anos de adulto, que muitos outros não tinham sido educados da mesma forma. Ao longo destes já muitos anos que levo de vida fui batalhando contra essa minha ingenuidade intrínseca, confesso que sem muito proveito. [Read more…]

Crato coloca Almeida no mapa dia 2

Ou será que vai mudar o feriado?

A greve, o presente e o futuro dos alunos

Santana Castilho

Em dia de manifestação de professores, em véspera da greve de tantas discórdias, permito-me lançar ao vento estas perguntas:

Não foi mau para o presente e futuro dos alunos cortar os planos de estudo dos ensinos básico e secundário?

Não foi mau para o presente e futuro dos alunos diminuir a carga horária de algumas disciplinas, sem que os respectivos programas tenham sido alterados?

Não foi mau para o presente e futuro dos alunos aumentar o número de alunos por turma? [Read more…]

Respondam à Inês

30370O Vítor Cunha muniu-se de cachimbo e lupa e, convencido de que o hábito faz o monge, deu por si a pensar que já era o Sherlock Holmes. Depois de ter lido com alguma atenção o texto da Inês Gonçalves que aqui republicámos, deduziu, julgando-se decerto brilhante, que a Inês se preocupava com assuntos reservados a homens de meia-idade com bigode, já que está cientificamente provado que é necessário possuir ornamentos pilosos na cara e próstatas inchadas para uma pessoa se preocupar com problemas tão chatos como a criação de mega-agrupamentos ou os cortes de horários lectivos.

É claro que o nosso Sherlock quis parecer suficientemente hábil para poder afirmar que nunca tinha dito que a Inês não existia, embora tenha deixado a insinuaçãozita a espreitar com o rabo de fora. Ainda que reconhecendo a hipótese remota de que uma adolescente tivesse um facebook sem o Justin Bieber, Vítor Cunha, esquadrinhando, ainda e sempre de lupa em riste, pôs a mão no queixo e ter-lhe-á cheirado que, a existir uma jovem Inês Gonçalves, o texto talvez tivesse sido ditado pelo misterioso homem de meia-idade, enquanto cofiava o provável bigode. [Read more…]

Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros

Inês Gonçalves

Estudo no 12º ano, tenho 18 anos. Sou uma entre os 75 mil que têm o seu futuro a ser discutido na praça pública.

Dizem que sou refém! Dizem que me estão a prejudicar a vida! Todos falam do meu futuro, preocupam-se com ele, dizem que interessa, que mo estão a prejudicar…

Ando há 12 anos na escola, na escola pública.

Durante estes 12 anos aprendi. Aprendi a ler e a escrever, aprendi as banalidades e necessidades que alguém que não conheci considerou que me seriam úteis no futuro. Já naquela altura se preocupavam com o meu futuro. Essas directivas eram-me passadas por pessoas, pessoas que escolheram como profissão o ensino, que gostavam do que faziam.

As pessoas que me ensinaram isso foram também aquelas que me ensinaram a importância do que está para além desses domínios e me alertaram para a outra dimensão que uma escola “a sério” deve ter: a dimensão cívica.

Eu não fui ensinada por mágicos ou feiticeiros, fui ensinada por professores! Esses professores ensinaram-me a mim e a milhares de outros alunos a sermos também nós pessoas, seres pensantes e activos, não apenas bonecos recitadores!

Talvez resida aí a minha incapacidade para perceber aqueles que se dizem tão preocupados com o meu futuro. Talvez resida no facto de não perceber como é que alguém pode pôr em causa a legitimidade da resistência de outrem à destruição do futuro e presente de um país inteiro! [Read more…]

A lindíssima voz de um professor

Crónica de uma greve lavrada em português suave – Manuel Fontão

Quem anda a fazer mal aos alunos?

Lobo_Mau-263x300Peço ao leitor que imagine um aluno. Dê-lhe um nome, escolha-lhe o sexo, invente-lhe dificuldades. Pense, ainda, que essas dificuldades podem resultar de vários factores mais ou menos malignos: violência doméstica, bairro complicado, pais ausentes, dificuldade de acesso a bens materiais e/ou bens culturais, ausência de estímulos intelectuais, o que quiser.

Dê a mão ao seu aluno imaginário e leve-o até à Escola do Primeiro Ciclo do Ensino Básico (se, com o fecho de centenas de escolas, ficar muito longe, vai ter de lhe dar boleia). A turma tem trinta alunos, todos eles numa idade em que a energia parece ser inesgotável. O seu aluno, devido às referidas dificuldades, precisa de um acompanhamento próximo, o que se torna impossível, porque o professor (pode imaginar uma professora, se preferir) não tem tempo para atender a todos os problemas de cada uma daquelas trinta crianças, trinta universos únicos.

É claro que a Escola sempre teve e continuará a ter dificuldade em resolver os problemas cuja origem esteja a montante ou ao lado, mas cabe a uma sociedade civilizada criar as condições para que, pelo menos, se aproxime, o mais possível, de um ideal. Aumentar o número de alunos por turma é escolher o caminho oposto ao do ideal. [Read more…]

Ser governante é dizer umas graças

Quando Maria de Lurdes Rodrigues inventou as chamadas aulas de substituição, e tendo em conta que essa decisão tirava tempo individual de trabalho aos professores, alguém lhe perguntou se isso não afectaria a qualidade das próprias aulas de substituição. A impagável ministra respondeu que os professores podiam ocupar o tempo dizendo “umas graças” ou recitando uns poemas.

Os decisores políticos divulgam, frequentemente uma ideia, no que são acompanhados por muita opinião pública e publicada: ser professor consiste, basicamente, em dizer umas coisas durante cerca de vinte horas por semana e ficar de papo para o ar o resto do tempo. Terá sido também por isso que transformaram as licenciaturas em cursos acelerados, desvalorizando a formação científica dos alunos universitários, com reflexos inevitáveis, obviamente, na formação dos futuros professores. De qualquer modo, se dar uma aula é dizer umas graças, quase nem vale a pena tirar um curso superior. [Read more…]

Cavaco Silva critica Nuno Crato

Cavaco Silva afirmou, hoje, que “estudantes não podem ser meios para atingir fins”. Embora pertença a outro quadrante político, não posso concordar mais com o Presidente da República.

Nuno Crato quer baixar os salários dos professores, despedir professores e entregar a Educação a privados que poderão contar com uma classe docente tão precária que estará disposta a fazer tudo o que lhe mandarem, com medo de perder o emprego.

Para isso, Nuno Crato tem usado os alunos, pondo de parte qualquer preocupação com a qualidade das suas aprendizagens: continuou a criação de mega-agrupamentos que desumanizam as escolas, impedindo que os profissionais de Educação possam estar o mais próximos possível dos alunos; aumentou o número de alunos por turma, o que impede os professores de dar o melhor acompanhamento possível aos que têm mais dificuldades; impôs alterações curriculares que empobrecem as aprendizagens dos alunos; prepara-se para aumentar a carga horária dos professores, retirando-lhes o tempo necessário para a preparação de aulas e para a formação individual.

Em resumo, Nuno Crato amontoa alunos para dispensar professores. A crítica de Cavaco a quem usa os estudantes como meios para atingir fins revela-se, portanto, justíssima.

Azia

Ou indigestão ou…
É só um palpite!

Crato: tens um dia!

A GREVE dos Professores começa amanhã!

greves

Nuno Crato tem uma oportunidade, quem sabe a última de se aguentar com a cabeça de fora.

Na imagem que acompanha o post e que pedi emprestada ao Público podemos verificar a sequência do protesto docente:

– de 7 a 14 GREVE ao serviço de avaliações;

– dia 15: manifestação em Lisboa;

– dia 17: Greve de TODOS os professores (a todo o tipo de serviço).

Para além da habitual falta de chá dos Governantes – é uma imbecilidade que os Sindicatos conheçam um documento tão importante como o da Organização do ano lectivo através da Comunicação Social – fica patente uma completa incapacidade de gerir uma negociação. Focar o problema nos exames e dizer que a classe está a fazer mal aos alunos só ajuda à mobilização. [Read more…]

A GREVE dos Professores é pelos alunos

Há momentos em que se colocam alguns valores em causa. Confesso que fico confuso com algum tipo de argumentos e o dicionário é sempre uma boa solução para situar o significado de alguns vocábulos:

greve2 (2)


greve

(francês grève)

s. f.
1. Interrupção voluntária e colectiva de actividades ou funções, por parte de trabalhadores ou estudantes, como forma de protesto ou de reivindicação.
Parece-me então consensual que uma greve é uma iniciativa que e voluntária, organizada por quem trabalha e que implica a interrupção das suas funções laborais, certo? E para quê?
Para protestar ou reivindicar.
Pois bem!
O que estão a fazer os Professores?
A fazer uma interrupção nas suas actividades laborais, curiosamente até naquela parte do ano em que boa parte dos ignorantes que comentam o país costumam dizer que estamos de férias. Aliás, se temos 3 meses de férias (Junho, Julho e Agosto), creio que o contador já começou a andar e por isso, realmente, as aulas que tenho para dar hoje  e os testes para corrigir devem ser parte das minhas férias. Não se preocupe sr. Marcelo, que nós não vamos deixar de dar aulas para lutar. Vamos levar as aulas até ao fim, respeitando, assim, integralmente o direito dos alunos à Educação.
E que motivos levam os Professores a iniciar a luta mais dura desde o 25 de Abril?
A permanente vontade de Nuno Crato em despedir Docentes ( pode chamar-se mobilidade, requalificação ou outra coisa qualquer, mas verdadeiramente, o que está em causa é o despedimento de milhares de professores) e o aumento do horário de trabalho para 40 horas.
Ora, não me parece que seja crime defender o posto de trabalho – se os trabalhadores não lutam pela essência da sua condição, vão lutar para???
Diria que, antes pelo contrário,  temos a obrigação de o fazer – até podemos perder e ver o despedimento acontecer, mas que isso aconteça depois de lutar tudo o que for possível.
E, o que vão fazer os Professores? [Read more…]

Eles estão com medo da greve

ColigaçãoO primeiro-ministro, de acordo com a SIC Notícias, “garante que não vai pôr professores efetivos na mobilidade especial.”   É claro que Passos Coelho se refere a efectivos, mas isso é outra questão. Muitos jornalistas insistem em usar o verbo “garantir”, quando, na realidade, só se sabe que alguém “declarou”. Como se isso não bastasse, é do conhecimento geral que, de qualquer modo, as garantias de Passos Coelho são enfeites eleitorais.

A mobilidade, prática usual no mundo do trabalho, é, nos dias que correm, um acto de pura e simples selvajaria, imposta cegamente por empregadores que se limitam a olhar para os empregados como peões de xadrez. É, aliás, importante, numa sociedade que de sociedade só tem o nome, lutar pela manutenção e recuperação de direitos laborais.

A mobilidade, no entanto, está longe de ser a única razão para que os professores lutem e seria bom que a classe deixasse isso claro: o problema está, também, nos milhares de profissionais do ensino que foram artificialmente colocados no desemprego, graças a uma série de medidas contrárias ao interesse dos alunos.

Paulo Portas, com o ar compungido de quem está a recitar a “Balada da Neve”, veio pedir aos professores que não façam greve, porque isso prejudicará os alunos, os pais e os próprios professores. É claro que Portas nunca perceberá que é o governo que está a prejudicar toda essa gente. [Read more…]

A favor das turmas pequenas

Why small is beautiful when it comes to class sizes

Greve dos Professores

Só para manter a agenda actualizada, será importante recordar, caro leitor, que a Greve na área da Educação, ao serviço de avaliações continua em cima da mesa.

Quer isto dizer que, no período de 7 a 14 de Junho, não se realizarão as reuniões de avaliações onde se decide quem são os alunos que têm notas para ir a exame – 6º, 9º, 11º e 12º.

As dúvidas são muitas, mas das escolas chega uma força já antes vista e que torna mais possível o futuro. Há gente a mexer-se, a organizar, a fazer contas, tabelas e esquemas e, pela primeira vez, em muitos anos de serviço vai ser possível ver a classe a lutar de forma séria e inteligente.

Há escolas onde no primeiro dia se pensa que poderão fazer greve os colegas de línguas, no segundo os das expressões, no terceiro… Outras há, serão os Directores de Turma a avançar. Em todas, uma situação comum: o movimento está lançado e com mais de uma semana para o dia 7, a certeza é uma: as reuniões de Avaliação não se vão realizar.

Para esta realidade concorre, e muito, a unidade sindical criada em torno da luta contra o despedimento de professores. É claro que há Dirigentes Sindicais com responsabilidades, mas militantes do PSD, no terreno – por exemplo na área de Paredes – a desmobilizar para estas lutas.

Mas, como diz um companheiro de escrita no Aventar, em tempo de Guerra, não se limpam armas e é muito bom ver que  as escolas e os professores começam a tomar posições públicas sobre o que se está a passar.

 

 

Carta aberta de um estudante liceal grego

Tradução de José Luiz Ferreira (de Echte Democratie Jetzt)

Aos meus professores… e aos outros:

O meu nome é K. M., sou aluno do último ano num liceu em Drapetsona, Pireu.

Decidi escrever este texto porque quero exprimir a minha fúria, a minha revolta pelo atrevimento e pela hipocrisia daqueles que nos governam e daqueles jornalistas e media mainstream que os ajudam a pôr em prática os seus planos ilegais e imorais em detrimento dos alunos, dos estudantes e de todos jovens.

A minha razão para escrever é a intenção dos meus professores de fazer greve durante o período dos exames de admissão à Universidade e os políticos e jornalistas que choram lágrimas de crocodilo sobre o meu futuro, o qual “estaria em causa” devido à greve.*

De que falam vocês? Que espécie de futuro tenho eu devido a vocês? E quem é que verdadeiramente pôs em causa o meu futuro? [Read more…]

Professores a mais?

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Os exames do Primeiro Ciclo

primáriaReitero o meu agnosticismo face às eventuais virtudes pedagógicas dos exames de quarto ano, em particular, e dos exames, em geral. Por outro lado, não consigo compreender que os eventuais traumas provocados nas crianças (a carecer de demonstração científica) ou que as semelhanças com outros tempos sejam argumentos suficientes para se excluir a realização dos ditos exames. Não nego, no entanto, que o assunto mereça um debate, ainda que menos apaixonado e o mais informado possível, tendo sempre em conta os interesses dos alunos. Parece-me, a propósito, muito equilibrada a reflexão do Mário Carneiro.

Dito isto, a verdade é que, mais uma vez, o Ministério da Educação e da Ciência (MEC), impondo medidas sem pensar nas consequências, confirmou ser o maior problema da Educação em Portugal, o responsável pelo acumular de caos na vida das escolas e das famílias.

Em primeiro lugar, ao obrigar muitos alunos a deslocarem-se à escola-sede do mega-agrupamento (o trambolho logístico), criou problemas acrescidos a pais e directores. Os primeiros, em muitos casos, viram-se obrigados a fazer malabarismos para levar os filhos ou a abandoná-los no local do exame, com horas de antecedência; algumas escolas, por decisão das direcções, perante a irresponsabilidade do MEC, tiveram de pagar transportes a quem não tinha possibilidade de levar os filhos ao exame. É claro que, com a leviandade do costume, Nuno Crato desvalorizou as críticas[Read more…]

O exame de matemática da 4ª classe

Está feito o segundo exame do 4º ano – depois de terem realizado o de Português hoje foi a vez dos pequenitos se sentarem perante o exame de matemática.

E, tal como a Associação de Professores de Matemática, também eu considero que os exames são um mal desnecessário – são um instrumento de regulação que não acrescenta qualidade, antes pelo contrário.

Algures ali pelo Freixo, além da ponte e da Marina, desaguam dois cursos de água – o Torto e o Tinto. Há quem lhes chame rios e um até dá nome à terra dos melhores habitantes desta casa, o Aventar.

Não é preciso fazer o cruzeiro das três pontes para perceber que ao Douro chega, também, mais do que a água vinda lá dos Picos da Serra de Urbião, nomeadamente, os esgotos do Porto e de Gaia e muitas outras realidades, deslocadas do conteúdo deste post que começou por ser de matemática.

Não me parece honesto exigir que algures na Afurada se possa exigir um Douro fantástico e limpinho (sim, limpinho, limpinho, limpinho).

Pois, Crato imagina o exame da 4ª classe como um processo que na foz do curso vem resolver todos os problemas. Infelizmente, como não sabe mais, não percebe que está completamente enganado. [Read more…]