Reorganização curricular – ouviram quem?

Neste (23.59 de 31 de Janeiro) preciso momento termina o prazo que o MEC definiu para a discussão pública sobre a reorganização curricular.

Há muitos pareceres disponíveis mas gostaria de chamar a atenção para um detalhe: o Conselho de Escolas e os Diretores (não identifico grandes diferenças, mas enfim) foram ouvidos pelo Ministro. Mas, ninguém consegue identificar uma única situação em que esses personagens se tenham dado ao trabalho de ouvir as escolas, nas suas mais diversas dimensões. Um péssimo serviço a que estes boys se prestam.

Sócrates e Passos Coelho: Uma diferença

Quando ouvi o Presidente da Câmara de Cabeceiras de Basto a propósito do encerramento dos Tribunais, referindo que todos os dias o Governo ataca um sector diferente (o que até é verdade) – serviços de Saúde, de Educação, etc. – lembrei-me de José Sócrates.
A verdade é que, apesar de tudo, há diferenças entre Sócrates e Passos Coelho. Independentemente das medidas, que são mais ou menos as mesmas – e por agora não me vou pronunciar sobre o encerramento dos Tribunais (que é diferente, ainda assim, de encerrar Escolas e Centros de Saúde), Sócrates personifica o que de mais odioso tem a política. Porque se Passos Coelho ataca os serviços públicos em nome do Orçamento, Sócrates atacava de forma constante os próprios funcionários, os próprios profissionais, em nome de guerras mesquinhas que tinham como única intenção pôr uns contra os outros.
Foram os Magistrados, depois foram os Professores e por aí fora. Nunca me senti insultado por Nuno Crato, por exemplo, apesar de não concordar com as suas medidas. Mas nunca fui tão insultado e humilhado, directamente, como no tempo da Prevaricadora Maria de Lurdes Rodrigues.
Estou completamente à vontade para escrever isto, até porque tenho batido em Pedro Passos Coelho, desde o princípio, com alegria e entusiasmo. Por isso rapidamente mudarei de opinião se vir que, afinal, estava errado.

Cratinice, o neologismo da moda

A nomeação de Nuno Crato como Ministro da Educação chegou a ser saudada por uma boa parte dos professores, por ser alguém que, durante muito tempo, deu voz a alguns tópicos considerados fundamentais, como a exigência, o rigor. Pela parte que me toca, confesso que senti alguma esperança de que a Educação voltasse a ser olhada por um prisma que, pelo menos, permitisse beneficiar os alunos, mesmo desconfiando de que a situação dos professores não iria melhorar.

Tal como Francisco José Viegas, Nuno Crato transformou-se, muito depressa, num político como os outros e é, agora, mais um fantoche que se limita a executar um programa de austeridade, fingindo que se preocupa com a Educação e desprezando qualquer espécie de coerência.

Hoje, mostrou uma absoluta insensibilidade relativamente à situação de muitos professores contratados, ao afirmar que não sabe quantos serão dispensados em consequência daquilo a que chama revisão curricular. Mesmo que fizesse sentido dispensar professores, num país subdesenvolvido, esta atitude revela a mesma desumanidade que pauta todo o comportamento dos maníacos do défice que fazem de conta que nos governam.

Como se isso não bastasse, e de acordo com declarações de Heloísa Apolónia no seu facebook, Nuno Crato, a propósito do aumento do número de alunos por turma, do fim do desdobramento em ciências e do fim do par pedagógico em EVT, terá dito que “um maior nº de alunos por turma cria melhores condições de aprendizagem!”, o que deve ter origem num estudo feito por alguém enquanto estava em coma alcoólico.

Nuno Crato, com o seu ar delicodoce, como se fosse uma Isabel Alçada inteligente, começa a acumular uma quantidade de afirmações cretinas que deverão passar a merecer uma classificação própria a meio caminho entre Crato e cretinice: cratinices.

Podem estar certos de que estão errados

Por SANTANA CASTILHO*

O ministro da Educação referiu a revisão da estrutura curricular que concebeu como um primeiro passo de alterações mais profundas, que ainda irão ser estudadas. Quando fixou horas de leccionação antes de estabelecer metas e programas, errou. Agiu como um curioso. Mas a este erro técnico, grave, acrescenta-se um erro político de base, bem maior: Passos Coelho teve um discurso e um programa para a Educação até pouco tempo antes das eleições.
Era um todo coerente, servido por uma política que acomodava as imposições financeiras da troika, a breve prazo, sem sacrificar uma via de desenvolvimento estratégico, a médio e longo. Estava alicerçado em estudos sólidos e fundamentados, financeiros e pedagógicos, e tinha uma visão política de profunda mudança estrutural.
Mentindo aos professores e mentindo ao país, Passos Coelho abandonou esse programa e assumiu a Educação como mero adereço do xadrez contabilístico em que se move. A montante das intervenções casuísticas que têm sido feitas, os verdadeiros problemas jazem na paz dos anestesiados.
Vejamos um exemplo. Sabemos que, até agora, cerca de metade dos alunos que terminam o 9º ano se “perdem” pelo caminho e não concluem o 12º. Mas este ano vão chegar ao ensino secundário os primeiros a quem se aplica a escolaridade obrigatória de 12 anos. Significa isso que duplicará o número daqueles que se vão “arrastar”, algures, entre o 10º, 11º e 12º anos.
Será um desastre nacional manter coercivamente no sistema quem não quer estudar mais. [Read more…]

São necessários mais professores, estúpidos!

Se é certo que defendo que é a solidariedade que deve presidir à actuação do Estado e que, portanto, me faz muita confusão que se fale em despedimentos como se as pessoas fossem objectos que se podem pôr no lixo, não me custa, igualmente, reconhecer que o Estado não tem a obrigação de garantir emprego a qualquer cidadão. Assim, é óbvio que o Ministério da Educação não tem de ser visto como uma agência de emprego que ofereça colocação a todos os que queiram ser professores.

É, então, fundamental que se analisem as necessidades das escolas, para que se possa saber quantos professores são, efectivamente, necessários. Não será admissível outro critério, sob pena de se estar a pôr em risco aquilo que verdadeiramente interessa: a educação dos jovens. Na pior das hipóteses, e aceitando que estamos em crise, poder-se-ão discutir medidas transitórias decorrentes de uma austeridade que, pelo menos, a Chanceler da Alemanha considera imperativa, mas isso é outra questão.

Desde 2005, têm sido tomadas várias medidas que tiveram como reflexo o aumento do desemprego entre os professores. Esse processo iniciou-se com Maria de Lurdes Rodrigues e prossegue com o actual ministro, afectando milhares de docentes que não têm conseguido entrar nos quadros, apesar de darem aulas, por vezes, há mais de dez anos. Também com a actual equipa, mantém-se um discurso de omissão relativo a esse problema, sendo sinal disso a não resposta do Secretário de Estado João Casanova de Almeida, ao dizer que os professores do quadro não seriam afectados pela revisão curricular, depois de lhe ter sido perguntado quais seriam os efeitos dessa mesma revisão sobre os professores contratados. [Read more…]

Com Crato é sempre a poupar: viva a revisão curricular!

A divulgação da proposta de revisão curricular feita ontem pelo Ministério já está a ser comentada pelo mundo blogosférico, sendo de destacar, mais uma vez, vários textos do Paulo Guinote, com realce para este, e outro do Arlindo.

Nuno Crato afirmou, para não ser diferente das suas antecessoras, que estas medidas foram tomadas, tendo em conta, apenas, o interesse dos alunos. Permito-me duvidar.

João Casanova de Almeida, não querendo divergir dos seus antecessores, recusou-se a dizer se estas medidas iriam afectar os professores contratados, (não) respondendo que não iriam afectar os professores do quadro.

Tentarei, num texto posterior, explicar por que razão considero que esta revisão curricular faz parte de um caminho profundamente errado para a Educação, no que não serei, decerto, original.

Entretanto, embora compreendendo, em parte, a atitude quase festiva da Associação de Professores de Geografia, parece-me uma posição demasiado corporativista. Dos professores deve esperar-se uma visão mais holística do Ensino, porque, neste momento, não basta que uma disciplina seja beneficiada – mesmo que justamente – para que haja lugar a comemorações.

Consulta pública: revisão da estrutura curricular

O Ministério da Educação apresentou, hoje, a proposta de revisão curricular para os Segundo e Terceiro Ciclos e para o Ensino Secundário. O documento pode ser consultado aqui. A consulta pública decorrerá até 31 de Janeiro de 2012.

Para que essa consulta tenha início com acesso a informação relevante, consultar os blogues do Paulo Guinote e do Arlindo pode ser um bom início de conversa. No fim de tudo, estarão, muito provavelmente, cortes e desemprego disfarçados de alegados ganhos pedagógicos e embrulhados na ladainha do “fazer mais com menos”.

Pois pois

meu, nosso? vosso?…

E os comunas dão injecções atrás da orelha aos velhinhos

Ramiro Marques, tanto quanto sei, é professor na Escola Superior de Educação de Santarém. Durante os governos de Sócrates, usou o seu blogue para atacar duramente as políticas educativas de Maria de Lurdes Rodrigues e de Isabel Alçada e fez-se fotografar sorridente nas várias manifestações dos professores. Apesar de não gostar da sua escrita, a fazer lembrar o simplismo de José António Saraiva nos editoriais do Expresso, a verdade é que dei por mim, várias vezes, a coincidir com algumas das suas posições, ou não parecêssemos estar do mesmo lado da barricada, a favor de um ensino de qualidade e do respeito pela profissão docente.

É certo que o simplismo – ia a dizer, a infantilidade – de Ramiro Marques levava-o, por vezes, a deixar escapar afirmações sectárias em que confundia incompetência ou má-fé com socialismo ou com esquerda, duas coisas com que o Partido Socialista nada teve a ver. Pelo caminho, lá ia defendendo, sempre de modo muito básico, os ideais americanóides da livre escolha e da concorrência entre escolas e outras panaceias paraneoliberais que resolveriam todos os problemas da Educação em Portugal.

[Read more…]

O desígnio de Crato é cortar

Santana Castilho *

Nuno Crato encheu de nada e de cortes três páginas deste jornal. Lê-lo a 31 de Outubro traveste-lhe a graça para Nuno Cortes. Quando não identifica medidas para cortar, responde que não sabe. Nuno Nada, tão-pouco destoava para sua nova graça. Que desgraça!

Tirando o desígnio de castrar, despedir e poupar, não há na entrevista a mais ligeira ideia consistente sobre Educação. Perguntado sobre como se vai cumprir a escolaridade obrigatória até aos 18 anos, responde com profundidade: “Está tudo em aberto”. Interrogado sobre a verdadeira grandeza da redução orçamental, riposta com rigor: “Depende do quadro que se leia”. Questionado sobre o número de professores estritamente necessário, que antes havia invocado, é preciso: “É um bocado menos do que temos hoje. Não consigo quantificar”. Solicitado a esclarecer o objectivo que propõe para um novo modelo de financiamento do ensino superior, que acabara de preconizar, repete-se: “Está tudo em aberto”. À insistência dos entrevistadores, que querem conhecer os critérios a incluir no tal modelo, responde filosoficamente: “Vamos pensar nisso”. Quando lhe perguntam se já começou a pagar as bolsas de estudo, é negativamente claro: “ Ainda não”. Quando lhe perguntam se tem ideia de quantos alunos perdem o direito à bolsa, é claro, negativamente: “Ainda não”.

Estamos a estudar”, “estamos a ver”, “estamos a identificar”, “temos de ver” “temos que pensar” e “vamos ter de repensar” são fragmentos frásicos abundantes na entrevista, que ilustram a vacuidade predominante. Mas há passagens concretas, que patenteiam impreparação, ignorância e manipulação da realidade. Passo a fundamentar. [Read more…]

Convivência coerente

O pior do Crato

Só quem andar muito distraído – e Portugal é um país essencialmente distraído – é que pode negar o péssimo estado da Educação em Portugal. Não se pode negar, evidentemente, que houve avanços assinaláveis, se olharmos para a herança do Estado Novo, que nos deixou um país analfabeto e ignorante, com os cofres cheios de dinheiro. A democracia trouxe a massificação do acesso à escola. Ainda não trouxe a qualidade legitimamente esperada.

Nos últimos 37 anos, a Educação não tem sido uma prioridade dos cidadãos e, portanto, não foi uma prioridade dos governantes, a quem tem bastado distribuir uns subsídios europeus e inaugurar umas obras para irem alternando confortavelmente no poder. Pelo meio, a Educação tem sido um adorno, um campo para experiências, sempre em prejuízo dos alunos.

Nuno Crato, ao longo dos últimos anos, produziu um discurso interessante, mesmo se demasiado conservador, sobre Educação, pondo em evidência muitos dos erros cometidos, como a falta de rigor, o excesso do lúdico ou a preponderância da pedagogia sobre os conteúdos. Como ministro, seria lógico que tentasse uma viragem, usando de um discurso que iniciasse uma alteração de paradigma acerca de todos os intervenientes no processo altamente complexo que é a Educação, chamando a atenção para valores como a responsabilidade dos encarregados de educação, a aprendizagem como esforço, a escola como comunidade, a revalorização de todos os funcionários que trabalham nas escolas, sempre partindo do princípio de que vivemos, ainda, uma situação de subdesenvolvimento educacional, pelo que há ainda muito investimento por fazer, nomeadamente no que respeita aos recursos humanos necessários.

Em vez disso, o ministro da Educação dá uma entrevista ao Público em que se limita a falar de cortes, confessando que vão muito além do exigido pela troika e caindo no ridículo de insistir na ideia de que é possível fazer mais com menos. Hilariante, como é costume, Ramiro Marques limita-se a realçar a ideia de que os professores dos quadros não serão despedidos. Para uma visão mais crítica – ou seja, com lugar à utilização do espírito crítico – da entrevista, leiam o que escrevem Paulo Guinote, Manuel António Pina e, evidentemente, o nosso Jorge Fliscorno.

O Eduquês não gosta de informatiquês

Nuno Crato diz que a informática no 9º ano é para acabar, já que, afirma, os alunos quando chegam a este nível de escolaridade já a dominam. Depois de me ter sobressaltado, reflecti e concluo que o autor do termo “eduquês” tem toda a razão. Como todos saberão, a informática corresponde, na sua essência a uns e zeros. Como 1 tende a ser uma nota frequente entre os alunos e 0 começa a ser o dinheiro disponível nas carteiras dos respectivos pais, que aluno não dominará ainda a informática aos 15 anos? Os ricos, claro, e esses que paguem as suas lições de Facebook.

Soube também, de fonte segura, que as software houses já aplaudiram a medida. Depois de terem começado a pagar 500 euros a recém licenciados, vêem nesta medida a oportunidade de finalmente serem competitivos com a China e com a Índia, indo buscar os seus IT expert saídinhos do 9º ano.

Finalmente, quanto aos que passaram anos a dizer que o programa e-escola, e-escolinha  em nada contribuiria para desenvolver competência tecnológicas nos alunos e que os Magalhães não passavam de brindes eleitorais, espero que mordam a língua e reconheçam o seu colossal erro. Que outro país consegue à saída do ensino básico fornadas de Steve Jobs, de Bill Gates e de Linus Torvalds? Aprendam, seus velho-restelianos.

Rankings leva-os o vento

Mais uma vez, saudavelmente, foram publicados os chamados rankings das escolas. Dito de um modo simplista, foi publicada uma lista ordenada de acordo com os resultados obtidos nos exames nacionais. Tal publicação pode e deve ser sempre objecto de reflexão. A verdade é que, graças à sociedade da pseudo-informação em que vivemos, não há verdadeiro debate nem reflexão autêntica, há sobretudo tiques e reacções.

Neste texto, o nosso Pedro Correia exprime preocupações legítimas, fazendo o mesmo nas respostas aos comentários. Também legitimamente, na mesma caixa comentários, o João José Cardoso lembra que, muitas vezes, estamos a comparar o incomparável, tendo em conta que nas escolas privadas é possível escolher ou expulsar alunos, não sendo, ainda, possível esquecer que, muitas vezes, entre o público e o privado há uma diferença brutal no que respeita ao estatuto socioeconómico e/ou sociocultural dos alunos, factores que têm uma grande influência no rendimento escolar, graças a pormenores que vão desde a estimulação precoce até à importância concedida à necessidade de aprender. [Read more…]

A História a ele não lhe assiste?

Pelo Paulo Guinote fico a saber de uma ameaça de poupança administrativa que

passará por corte nas aulas de História e Geografia e fim da segunda língua estrangeira obrigatória.

O que sai nesta altura do campeonato no pasquim de todos os governos, vulgo Diário das suas Notícias, pode ser muita coisa, de areia para os olhos a aviso prévio. Jornalismo ali há pouco, muito pouco, e sempre foi assim.

Ou se quiserem: não me apetece despertar hoje o corporativo que também há em mim. Até porque só um idiota chapado faria uma destas, levando em cima com todos os que têm formação em História (somos mesmo muitos, e somem os de Geografia, menos é certo, mas igualmente espalhados pelas mais diversas profissões) sejam ou não professores no activo, e com todos os que muito simplesmente teimam na mania de se pensarem portugueses. Embora tipos que evoluem da Economia para a matematicazinha (não estou a dizer mal da Matemática, que como todas a ciências sérias tem tronco grande mas também ramificações e ramos muito menores) sejam potenciais candidatos a mandar uma artilharia destas para o pé, com danos imediatos no corpo todo.

A acontecer também se pode interpretar como um discreto pedido de demissão, por vezes as pessoas acordam e descobrem que não nasceram para ministro. Se eu me chamasse Nuno Crato, ou não tinha dormido todo o mês de Setembro, ou já teria acordado assim.

O grau zero da decência e a excelência do cinismo

Santana Castilho *

Os argumentos que sustentam a revogação dos prémios de mérito dos alunos ilustram a excelência do cinismo. Comecemos pela incoerência. Nuno Crato foi um arauto da meritocracia, da superioridade dos resultados, da competição e do reconhecimento dos melhores. É verdade que nunca se ocupou a reflectir sobre o que é ser melhor em Educação, nem perdeu tempo a clarificar “as poucas ideias” (a expressão é dele próprio) que tem sobre ela. Mas apontou o “eduquês”, sempre, como a antítese daqueles paradigmas doutrinários. Ora os prémios que estoiraram eram o melhor símbolo da meritocracia e da oposição ao “eduquês”. Nuno Crato implodiu, portanto, a sua coerência. Vejamos agora a forma e a legalidade dúbia. [Read more…]

Está encontrada a geração “menos 500 euros”

Depois da chamada geração “500 euros”, Nuno Crato ajudou o país a descobrir uma outra: a geração “menos 500 euros”, constituída por jovens a quem a referida quantia estava prometida.

Miguel Saraiva, que também não recebeu os 500 euros atribuídos aos melhores alunos do país, propôs que os prémios dados aos administradores das grandes empresas fossem também cancelados. Eu acrescentaria, apenas, que, para haver completa equidade, esse cancelamento deveria ser feito a menos de quarenta e oito horas de esses mesmos prémios serem depositados.

Entretanto, foi criado um movimento para que a sociedade civil possa compensar aquilo a que Nuno Crato, com muita graça, chamou “problema de comunicação”. Na sociedade civil, aliás, a atitude do governo poderia ser sintetizada numa frase como “Lembras-te dos 500 euros que te prometi há quase um ano? Esquece!”

O movimento500 está, também, no Facebook e no Twitter.

Há a possibilidade de ser tudo ao contrário do que pensamos

Depois de vários anos em que o Estado tem sido visto como um recurso ou como um trampolim e nunca como uma responsabilidade, chegou, finalmente, ao poder um grupo de pessoas que assumiu, de modo quase indisfarçado, a função de comissão liquidatária de um país. Para que as contas tivessem chegado ao ponto a que chegaram, foi necessário o contributo, por acção e por omissão, de muitos, ao longo de cerca de trinta anos, ao ponto de não ser difícil imaginar uma conspiração em que muitos privados poderosos terão conseguido, pacientemente, conduzir os negócios públicos, de modo a que possam, agora, apropriar-se deles sem sequer ser necessário gastar muito dinheiro, como se pode ver no caso BPN ou como se pode confirmar nas palavras de um primeiro-ministro que, em plena televisão, afirma que há empresas públicas que terão de ser vendidas nem que seja por um euro, o que configura uma posição negocial fortíssima.

Com um povo desinformado, intoxicado por uma comunicação social que serve para propagar o pensamento único da troika, já preexistente e agora transformado em religião, a tarefa da comissão liquidatária está facilitada. Basta ver como, nas entrevistas de rua e nos inúmeros programas que permitem a todos dar opiniões, todos reproduzem, sem pensar, frases como “gastámos acima das nossas possibilidades” e “a austeridade é necessária”, como se a austeridade alguma vez tivesse sido desnecessária. [Read more…]

Privatizem, filhos, privatizem

Num artigo agora disponível no Público narram-se os planos de Nuno Crato para privatizar o ensino básico e secundário em Portugal. O argumento é o da clássica liberdade de os empresários obterem lucros à conta dos subsídios do estado, seja-lhes dado o nome que entenderem. As experiências de referência resultaram num enorme fracasso em termos de qualidade, mas obviamente engrossaram as contas bancárias de alguns.

Como candidamente explica um dos comerciante da educação em Portugal

“Ao nível dos instrumentos de liberdade de escolha, Portugal não fica atrás dos EUA, Suécia ou Reino Unido. A questão é que estes instrumentos jurídicos não têm sido utilizados em todo o seu potencial”

Já conhecemos o potencial. Também conhecemos o memorando de entendimento com a troika, onde se pedia uma “racionalização das transferências para escolas particulares com acordos de associação“. Racionalizar será então dar-lhes ainda mais. Ou de como a troika enquanto desculpa se esquece num instantinho, tratando-se de subsidiar a iniciativa privada. E viva o empreendedorismo.

Coitus Interruptus

Senhor ministro da educação,

Imagine que lhe prometem um prémio (por exemplo, uma reforma antecipada por bons serviços prestados ao Bem da Nação) se atingir determinado objectivo à frente do seu ministério. Por exemplo, se conseguir aumentar o nível de credibilidade do sistema de ensino, o Estado entrega-lhe um prémio (qualquer, ainda que de valor pouco mais que simbólico) em mãos, numa cerimónia perante a comunidade escolar.

Volvido todo um ano de empenho, esforço e expectativa, o senhor ministro sai de casa, apanha o transporte público para chegar à escola que o viu dedicado durante todo o ano lectivo já vencido; sai de casa animado porque vai receber um prémio prometido e merecido porque cumpriu e até superou objectivos.

O senhor ministro da educação entra na escola para receber o prémio e descobre que um ministro da educação, que ali está para lhe entregar o merecido prémio, deliberara entretanto suspender a entrega dos prémios já conquistados no ano lectivo anterior.

Como se sentiria o senhor ministro?

Português Língua Não Materna – mais um disparate do Ministério da Educação

O que está a passar na minha escola deverá ser igual ao que acontece em muitas outras. Durante os últimos dois anos, nos 10º e 11º anos, uma aluna estrangeira frequentou a disciplina de Português Língua Não Materna, tendo direito a três blocos de noventa minutos que ficavam a cargo de um professor. Quando a aluna julgava, legitimamente, poder contar com mais um ano nas mesmas condições, eis que “esclarecimentos” vindos da DGIDC atiram com a referida aluna para uma turma de Português de 12º, criando uma de duas situações: ou a aluna fica sujeita ao programa de Português de 12º, para o qual não está preparada, sendo que, ainda por cima, irá realizar o exame de Português Língua Não Materna, ou o professor da turma será obrigado a leccionar duas disciplinas ao mesmo tempo, o que não faz sentido, ainda para mais, em ano de exame nacional. Segundo as referidas instruções, só seria possível formar uma turma de Português Língua Não Materna, caso houvesse, na escola, um conjunto de dez alunos estrangeiros, independentemente de estarem ou não no mesmo nível, o que também teria a sua graça, em termos pedagógicos.

Os responsáveis por ter criado esta situação quiseram apenas poupar dinheiro, com a habitual insensibilidade dos burocratas de gabinete e baseados naquilo que, de acordo com a terminologia do Ministério da Educação, se designa por “As escolas que se desunhem!”. Neste caso, haverá um professor que irá dar apoio à aluna, resolvendo, à custa do seu tempo particular, uma situação que nunca deveria ter sido criada, se vivêssemos num país civilizado. Para os burocratas, ter um professor ocupado apenas com uma aluna estrangeira durante três blocos de noventa minutos semanais constitui um gesto demasiado humanista. Era o que faltava permitir que uma sociedade receba as crianças estrangeiras como gostaria de ver os seus filhos recebidos em terras alheias.

(leitor devidamente identificado)

Pensar sem palas

Santana Castilho *

1. Eles serão fortes enquanto formos fracos e a indignação for só dalguns. Só pararão quando estivermos secos como os gregos e apenas nos restar o coiro, esbulhado todo o cabelo. Nas últimas semanas, depois do Instituto Nacional de Estatística e do Banco de Portugal terem “descoberto” o que muitos sabiam há anos, a degradação da política expôs-se em crescendo. Dum lado, reclama o PS contra o escândalo da Madeira. Do outro, grita o PSD que a responsabilidade pelo buraco do continente é do PS. Os dois têm razão. Porque os dois são culpados. Os notáveis do costume, alguns deles outorgantes da impunidade que protege a política, emergiram do ruído pedindo leis que sancionem os que gastam o que não está autorizado. Como se o problema fosse da lei, que existe e é ignorada, e não fosse dessa espécie de amnistia perpétua que decretaram. É, assim, fácil prever como terminará o inquérito que o Procurador-Geral da República determinou. O destino dos mesmos é o de sempre: sem o mínimo incómodo, muito menos de consciência, uns, eles, continuarão a dizer aos outros, nós, cada vez mais sufocados, que temos que pagar o que (não) gastámos.

Sobre a Madeira, um notável de Bruxelas mostrou surpresa. Estava em Wroclaw, na Polónia, com todos os ministros das finanças da Europa. Foram para decidir sobre a Grécia, que se afunda e arrastará com ela a Europa e o euro. Não sei quanto gastaram, mas foi muito. Sei que decidiram coisa nenhuma. Sobre a Madeira, outro notável, o presidente da nossa República, disse com ar grave: “Ninguém está imune aos sacrifícios”. Estava nos Açores, onde teve a oportunidade de apreciar o “sorriso das vacas” e verificar que “estavam satisfeitíssimas, olhando para o pasto que começava a ficar verdejante”. Não sei quanto gastou, mas não terá sido pouco. Disse-me Rita Brandão Guerra, deste jornal, que Sua Excelência se fez acompanhar de 30 pessoas, 12 seguranças, dois fotógrafos oficiais, médico e enfermeira pessoais, dois bagageiros e um mordomo inclusos.

[Read more…]

A matemática é uma coisa fácil

rigor, upa! upa!

Quando menos por menos não dá mais

Santana Castilho *

Em Álgebra, menos por menos dá mais. Mas o sistema educativo não se gere com as leis algébricas. Fazer mais com menos, como pede o ministro, supunha saber. E ele não sabe. Sou precoce na sentença? Não, não sou. A emergência financeira que o país vive não se compadece com estados de graça. Quem criticou tanto (ele, Crato) e jurou que faria tanto (ele, Passos), não pode chegar e cortar, só, cegamente, erradamente. Não podem ser mais rápidos que a própria sombra para cortar e taxar e remeterem para decisão posterior o que deviam fazer no dia seguinte à tomada de posse. [Read more…]

O Demo Crato

Depois da Sinistra Ministra dedicado a Maria de Lurdes Rodrigues e de Uma Aventura Sinistra que homenageava Isabel Alçada, chegou a vez de Nuno Crato ter direito ao seu Demo Crato. Dizem que também por lá vou andar, disfarçado de anjinho.

 

Cabum

será?

Nuno Crato versus Nuno Arrobas

Santana Castilho *

Ouvi o professor Nuno Crato, no domingo, no programa do professor Marcelo. Sujeito a perguntas indigentes, nada disse. Só falou! Uma excepção: Nuno Crato estabeleceu bem a diferença entre estar no Governo e estar de fora. Quando se está no Governo, disse, “tem de se saber fazer as coisas”; quando se está de fora, esclareceu, apresentam-se “críticas e sugestões, independentemente da oportunidade”. A feliz dicotomia trouxe a luz: arquivemos Nuno Crato, crítico, e ajudemos Nuno Arrobas, ministro, a saber fazer as coisas. Eis sugestões oportunas:

Desista de implodir o ministério, mas discipline-o. Se não sabe o que fazer, contenha-se enquanto aprende. Mas respeite quem trabalha para preparar o próximo ano lectivo. Desleixo, impreparação e descoordenação são qualificativos apropriados para referir a trapalhada dos últimos dias. Ora extinguiram turmas de cursos de Educação e Formação de Adultos, ora as recuperaram. Feito o trabalho com base nas informações de meio de Julho, veio a directora-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular dizer, a 29, que, afinal, a música era outra. E para partitura, puxou de um decreto-lei que respeitava à Saúde ou de outro que já não era. Não demore a explicar esta palhaçada. Se o Nuno, o Arrobas, não souber fazer as coisas, tente o outro, o Crato! Mas faça algo, rápido! [Read more…]