Olha a uniformização ortográfica fresquinha! (6)
Monte de merda é uma metáfora
Adoro, adoro, adoro, quando uma figura pública, depois de fazer uma declaração, vem explicar a declaração que fez. Raramente a dita figura pública pede desculpa pelo que disse, preferindo inventar desculpas: que foi um mal-entendido, que foi mal entendida, que retiraram as palavras do contexto, que retiraram o contexto das palavras, que havia ruído nas proximidades.
Assunção Esteves, mesmo tendo chamado Beauvoir a Babeuf, comparou os cidadãos que protestaram nas galerias a “carrascos”. Depois, é claro, veio explicar a declaração, reduzindo o apodo lançado a uma metáfora: “Carrasco significa qualquer elemento de perturbação. Sem querer ofender nada nem ninguém. Significa que quando as pessoas nos perturbam, não devemos dar atenção.”
Podia, agora, dar início a um debate sobre a importância de criar escolas para utentes de metáforas, à semelhança das escolas de condução, mas prefiro deter-me no precedente criado, inconscientemente, pela jurista Assunção Esteves: o que fazer, a partir do momento em que se explique que aquilo que parecia um insulto era, afinal, uma metáfora?
Quando Miguel Sousa Tavares chamou “palhaço” a Cavaco, poderia ter recorrido a uma argumentação semelhante: “Palhaço significa qualquer elemento que nos faz rir. Sem querer ofender nada nem ninguém. Significa que quando as pessoas nos fazem rir, não devem ser presidentes.”
Às vezes, dei por mim a pensar que a maioria que nos governa é um monte de merda. É claro que é uma metáfora, porque não há nenhum ser humano que seja apenas um monte de merda, mesmo que esteja com prisão de ventre há vários dias, porque ainda sobra muita pessoa para além das fezes acumuladas.
Poderão objectar-me que um monte de merda é o resultado encontrado no meio da rua, mas isso ainda torna mais evidente o carácter metafórico da expressão, porque nenhum grupo de pessoas é uma acumulação de excrementos no passeio.
A verdade é que ao considerar que um grupo específico de cidadãos é um monte de merda não quero ofender ninguém, até porque não tenho nada de pessoal contra um monte de merda. O meu principal objectivo até é caridoso: não quero pisá-lo. O meu grande desejo é que seja removido, porque com a saúde pública não se brinca.
Assunção faz citação em segunda mão
Há dias em que uma pessoa se sente herói de uma epopeia, capaz de enfrentar multidões em nome de um ideal. Assunção Esteves, agarrada ao leme da Assembleia da República, foi atingida pelos protestos de cidadãos presentes nas galerias, elementos incómodos que mandou evacuar.
Excitada pela descarga de adrenalina, Assunção incitou os deputados a não terem medo, tendo sido aplaudida pelos do PSD e do CDS. Impelida pelas aclamações, ei-la, pressurosa, a declarar que é necessário repensar o acesso às galerias. Muita animação na maioria gozosa.
Eis senão quando, Assunção, já imparável, já de velas enfunadas, declara julgando-se preclara: “Como dizia Simone de Beauvoir, não podemos permitir que os nossos carrascos nos criem maus costumes.” Escusado será dizer que a maioria sentiu calores e calafrios e revirou os olhos.
Seria, no entanto, importante, que alguém explicasse a Assunção que é feio fazer uma citação em segunda mão e que é bom confirmar as fontes, regra fundamental para quem tem uma carreira académica. Ora, Simone de Beauvoir não disse; citou, isso sim.
Na realidade, a frase foi escrita por Gracchus Babeuf numa carta à sua mulher. A escritora francesa fez uma citação truncada dessa mesma carta, no ensaio “Oeil pour oeil” que consta da obra L’existentialisme et la sagesse des nations (há edição portuguesa na Esfera do Caos).
Babeuf escreveu: “Les supplices de tous genres, l’écartèlement, la torture, la roue, les bûchers, le fouet, les gibets, les bourreaux multipliés partout, nous ont fait de si mauvaises mœurs !”. Simone citou: “«Nos bourreaux nos ont fait de bien mauvaises mœurs.» écrivait avez regret Gracchus Babeuf.” Assunção enganou-se na autoria e terá consultado uma tradução manhosa, já que o revolucionário francês relata factos num pretérito infelizmente perfeito; Assunção transformou uma constatação num incentivo, o que é um exagero, mesmo sabendo-se que todo o tradutor é um traidor.
Porque temos a preocupação de que o Aventar funcione como um serviço público, deixamos aqui a frase que Assunção Esteves poderá dizer quando voltar a haver agitação nas galerias, o que já não deve tardar muito: “Como escreveu Simone de Beauvoir, citando, de forma incompleta, Grachhus Babeuf, «os nossos carrascos habituaram-nos mal»”
Quero, ainda, aproveitar para sossegar Assunção, porque aprendi a lição: os nossos carrascos são o Presidente da República, os membros do governo e os deputados da maioria e não há maneira de me acostumar a que continuem a torturar o país.
Zeca e os vampiros
Há cinquenta anos, Zeca Afonso publicava um EP intitulado “Baladas de Coimbra”. Lá estava “Os Vampiros”. Os vampiros lá estavam.
A lembrança do composipoetocantor resiste na limpidez da voz e na frontalidade do homem (e a frontalidade é só uma maneira de ser límpido).
Os vampiros continuam irrevogavelmente agarrados ao nosso pescoço. Austeridade é o nome que dão aos caninos.
Detesto a frase feita: “Isto é tão actual!” Hoje, não tenho outro remédio senão repeti-la, porque continua a haver pouca gente a comer tudo.
O vídeo é o do célebre concerto no Coliseu, em 1983. O Zeca estava muito doente e o país também não se sente muito bem.
Olha a uniformização ortográfica fresquinha! (5)
Acepção (Bras.)/Aceção (Port.)
Nota: antes do AO90, escrevia-se da mesma maneira no Brasil e em Portugal. É ou não é uma uniformização ortográfica fresquinha? É, pois!
Campanha de troikas
Que me desculpem os Silvas, mas não há nome que, por ser tão vulgar, assente tão bem a um presidente da república que representa o pior do portuguesinho. Cavaco, o silva, é a imagem fiel da pior mediocridade possível: julga-se iluminado e tem poder. Tivesse o engolidor de bolo-rei ficado por Boliqueime e estaria a divertir os amigos, ao tentar pronunciar correctamente a palavra “programa”, numa qualquer tasca algarvia, para animação do estabelecimento e alívio de um país inteiro.
Do alto da sua mediocridade, e na qualidade de empregado de uma das troikas, não tentou sequer disfarçar que está ao serviço de interesses que, sendo classificados como patrióticos, são puramente económicos e financeiros, ao arrepio de qualquer sentimento minimamente humano. Como não tem na cara qualquer vestígio de vergonha e acredita, com razão, que o povo é desmemoriado, é claro que faz de conta que não contribuiu em nada para o estado actual do país, sabendo-se que, ocupando cargos diferentes, está no poder há quase vinte anos. Se nos lembrarmos que o 25 de Abril faz quarenta anos em 2014, é só fazer as contas. [Read more…]
Olha a uniformização ortográfica fresquinha! (2)
Portas é irrefutavelmente estável
José Luís Arnaut afirmou que Paulo Portas é uma garantia de estabilidade. Ao princípio, podemos estranhar que se possa fazer uma afirmação destas acerca de um homem que considerou que o seu pedido de demissão era irrevogável, para, poucos dias depois, revogar o mesmo pedido. No fundo, Portas, discípulo de Vinícius, acredita que um pedido de demissão é eterno enquanto dura.
Não devemos ser injustos com Arnaut. A verdade é que o moço de recados do PSD tomou Portas como seu mestre: assim, o líder do CDS é estável no mesmo sentido em que irrevogável era o seu pedido de demissão. A fontes mais próximas, Arnaut terá mesmo declarado que Portas é “tão estável como qualquer bipolar.”
Diz que é preciso despedir funcionários públicos (4)
Isto precisava era de um Pinochet!
Egyptians would be lucky if their new ruling generals turn out to be in the mold of Chile’s Augusto Pinochet, who took power amid chaos but hired free-market reformers and midwifed a transition to democracy. If General Sisi merely tries to restore the old Mubarak order, he will eventually suffer Mr. Morsi’s fate.
Este é o discurso habitual dos que governam o mundo: preocupam-se muito com os mercados e nada com as pessoas, reduzidas a cordeiros sacrificiais que servem para bulir e nem sequer para balir. Que Pinochet tenha sido responsável por torturar, matar e silenciar pessoas não tem importância nenhuma, face aos mercados, esse novo Deus castigador do Velho Testamento. [Read more…]
Cuidado com a caixa de esmolas!
Diz que é preciso despedir funcionários públicos (3)
Para baixar as calças não dava jeito
Um autocarro chamado recessão
O motorista sem carta diz que “está a abrandar”. Atropelar muitos peões reduz a velocidade.
Diz que é preciso despedir funcionários públicos (2)
Diz que é preciso despedir funcionários públicos (1)
Eu próprio tenho vergonha de ser da mesma nacionalidade
Negociações com o Ministério da Educação
Enquanto decorrem as negociações entre o Ministério da Educação e os Sindicatos, há algumas preocupações nas redes sociais.
Anda a circular a notícia de que os professores do quadro que venham a ser sujeitos à mobilidade especial não possam ser colocados a mais de 60 quilómetros da sua escola. Há quem pergunte por que razão os professores de quadro de zona pedagógica e os professores contratados não estão abrangidos pela mesma regra.
O alargamento do horário semanal de trabalho para 40 horas será considerado inaceitável, a não ser que recaia exclusivamente sobre o tempo individual de trabalho.
Para além disso, a promessa de que o referido alargamento não incidirá sobre a componente lectiva dos professores já está posta em causa a partir do momento em que o tempo reservado para a direcção de turma deixe de estar integrada nessa componente.
Uma outra preocupação mais ou menos silenciosa reside, no entanto, no facto de estarmos a lidar com um governo que está sempre disposto a cometer ilegalidades e a quebrar promessas.
Viva a meritocracia!
Secretário de Estado demitido devido aos “swaps” volta à Metro do Porto. A culpa de o país estar como está é dos funcionários públicos, pá!
Mostruário dos tiques anti-professor (3)
Os professores não são diferentes dos outros trabalhadores
A claque anti-professor e alérgica aos funcionários públicos, de uma maneira geral, parte deste princípio para criticar qualquer reivindicação. Para a referida claque, se a maioria das pessoas tem 40 horas no contrato de trabalho, a que propósito é que outros reclamam contra a inclusão do mesmo número de horas no seu contrato.
É claro que os decisores políticos pretendem passar a ideia de que estão a realizar uma reforma do Estado, espalhando a ideia de que é preciso acabar com as diferenças entre privado e público. Os professores, essa manada de privilegiados, têm de aceitar que terão de ser iguais a outros, embora se descubram excepções com demasiada frequência, pelo que os professores vão perdendo direitos, à medida que outros os vão mantendo.
Em princípio, ainda assim, não custa concordar com a frase: os professores não são diferentes dos outros trabalhadores, porque são trabalhadores como os outros. É certo que há muitos elementos da claque que, na realidade, pensam que os professores não são sequer trabalhadores, pela simples razão de que aquilo que fazem é tão pouco ou tão insignificante que não pode ser considerado trabalho.
Por outro lado, também é verdade que os professores são diferentes dos outros trabalhadores, até porque, continuando a explorar truísmos, é fácil descobrir especificidades que tornam as profissões incomparáveis, no sentido mais neutro de que não é possível compará-las. [Read more…]
Mostruário dos tiques anti-professor (2)
Greve sim mas e daí é melhor não
Fazendo jus à pluralidade do Aventar, já antes discordei do meu caríssimo Carlos Garcez Osório e volto agora a fazê-lo. Não será, muito provavelmente a última vez, o que será sempre bom sinal.
Parece-me que o Carlos revela um estranho conceito de democracia: é coisa boa, se servir para eleger os nossos, e é detestável por trazer agarrada a si excrescências como o direito à greve. O governo que o Carlos apoia tem, ainda, sonhos lúbricos em que o Tribunal Constitucional desaparece numa enxurrada, arrastando, na voragem, a Constituição, apontada como a única razão para a ingovernabilidade do país, em substituição do bode expiatório, com a vantagem de cheirar melhor.
Ora, tal como o Carlos, também eu tenho alguns problemas com a democracia. Chateia-me, por exemplo, que a maioria da população insista em votar nos partidos em que eu não voto, sabendo-se, para mais, que são os responsáveis pelos vários desmandos que colocaram o país nesta encosta perigosa, porque nem sequer temos dinheiro para comprar um abismo a sério. Tenho de confessar que, em sonhos enraivecidos, chego a pensar que, se fosse eu a mandar, só deixava votar os eleitores que elegessem deputados do mesmo partido em que voto.
O problema é que isso iria dar origem a um partido único na Assembleia, o que seria recuar aos tempos da União Nacional. Aos tempos, já agora, em que as greves eram proibidas. [Read more…]
Mostruário dos tiques anti-professor (1)
Os malandros dos sindicatos
A época de caça ao professor abriu em 2005, com José Sócrates, e ainda não fechou. Os últimos dias, com reacções diversas de tantos ignorantes à contestação dos professores, teve o condão de acordar, dentro de mim, um estranho animal, cruzamento de semiólogo com observador de animais em estado selvagem. É como se Umberto Eco e David Attenborough tivessem casado e, tendo procriado, fosse eu o seu descendente.
A revolta dos professores surpreendeu um governo que acredita, à boa maneira salazarenta, que a maioria deve obedecer em silêncio à sua voz. Face ao atrevimento dos professores, os bandos de comentadores têm soltado a sua raiva.
Um dos animais que mais frequenta o habitat do comentário tudologista é o Raposo. O Raposo é uma subespécie do cronista domesticado, alimentado a grandes doses de preconceito contra tudo que seja público. Provavelmente, quando era cria, mostravam-lhe uma fotografia de um funcionário público e batiam-lhe logo a seguir, obrigando-o a regougar a revolta interior.
Para que não fique sozinho, Raposo recebeu a companhia de mais um triste exemplar de jotinha, esse estranho parasita que sobreviveu à custa da cola dos cartazes que andou a afixar em pequenino e que se alimentava das botas que conseguia lamber.
De que se lembraram estas duas magníficas criaturas? De tentar atingir os sindicatos, essa malandragem cujos membros não têm direito a protestar, porque são pessoas que não trabalham e porque alguns chegam mesmo a pertencer a partidos políticos, um crime hediondo, especialmente numa sociedade que não se quer democrática. [Read more…]
“Os professores estão muito divididos”
O título deste texto corresponde a uma afirmação de Nuno Crato, em mais uma tentativa de intoxicar a opinião pública e de semear a dúvida entre os professores.
A grande maioria das reuniões de avaliação marcadas para a semana passada não se realizou. A manifestação de ontem levou a Lisboa 80 000 professores, num universo de 100 000 profissionais.
A notícia de que os professores estão muito divididos é, portanto, manifestamente exagerada.
Nuno Crato utiliza tudo o que possa servir para demonizar os professores. Para isso, cultiva, com grande habilidade, as declarações e os silêncios.
Assim, não hesitou em afirmar que os professores transformaram os alunos em reféns e apelou a que não fizessem greve aos exames, depois de ter falhado a exigência dos serviços mínimos.
No que se refere aos silêncios, hoje, na SIC, recusou-se a dizer o que poderá acontecer aos alunos que possam ser impedidos de fazer exame, amanhã, em consequência da greve. Com esta atitude, tenta amedrontar os professores mais hesitantes, ao mesmo tempo que mantém os pais e os alunos sob tensão, lançando-os, mais uma vez, contra os professores. Bastaria que tivesse afirmado que os alunos que não fizerem exames não serão prejudicados, mas isso seria contrário ao maquiavelismo que norteia a sua actuação. [Read more…]







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