As minhas reais preocupações sobre o fato

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© Alain Rossignol / Jorge Cunha (http://bit.ly/1Denk24)

That no good. Ugh.

Allen Ginsberg, America

***

Segundo Elisabete Jacinto, o “problema reside no fato de desconhecermos onde está esse limite“. Por seu turno, Ricardo Leal dos Santos considerou importante “o fato de tudo ter corrido sem qualquer tipo de percalço“. Efectivamente, já em Novembro de 2014, de acordo com a mesma fonte, o piloto Nico Hulkenberg revelara estar “muito contente pelo fato do calendário da Fórmula 1“. Há poucas horas, surgiu “o fato de na véspera“. Através deste pequeno périplo, isolámos um exemplo muito concreto de geração de estrangulamentos e de constrangimentos. Estrangulamentos e constrangimentos? Exactamente.

Igualmente respeitador daquele princípio extremamente conhecido (“Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)”), Rui Caldeira, director do Observatório Oceânico da Madeiraescreve o seguinte:

Estes acontecimentos serviram também para despertar as minhas reais preocupações sobre o fato de que na condição de ilha no meio do Atlântico estarmos [sic] desprovidos de um sistema de monitorização permanente do oceano circundante.

Além das “preocupações sobre o fato”, poderíamos perguntar o porquê de ‘trajeto’, ‘boias’, ‘direção’ e até ‘efetuamos’, quando ‘Dezembro’, ‘afectam’ e ‘detectados‘ abriam boas (para não dizer óptimas) perspectivas.

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Admito que o «’orgulhosamente’ sós», escrito por Caldeira, isolando o orgulhosamente e deixando o sós à solta, me levou às aspas do Tarski. Não, não são do Tarski do Searle: são do Alfred.

Contudo, como o problema que hoje apreciamos “reside no fato“, terminemos com chave de ouro e debrucemo-nos sobre o assunto.

“Philae conseguiu enviar dados do cometa antes de ficar sem *batéria”?

Sem *batéria? Não. Afinal, desta vez, é mesmo “sem bateria“. OK.

Em louvor e glória dos egrégios avós

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Anda pela nossa extrema-direita dita liberal uma vaga de revisionismo histórico (ou de regresso à historiografia à moda do séc. XIX, mas essa deixo para outro dia).

Agora é o Ferreira, putativo candidato a salazarinho que quer fazer “fazer uma carta aberta aos portugueses a explicar porque é que a história é muito maior do que se diz. Escrever uma carta aos portugueses sobre “A tua história foi muito maior do que te dizem”, por exemplo. É que nós somos mesmo bons.” Modéstia e ignorância.

Já o ex-maoísta, ex-pioneiro do eduquês de Boston, ex-formador de professores mal formados, ex-autor de um blogue que apagou porque ali defendeu a escola pública contra os ataques da dupla Valter/ Rodrigues, aliás também ex-apagador de calúnias sobre um conhecido cronista que se lixe a colega que as reproduziu e deu com os costados em tribunal, e actual e único grande defensor do Crato e do “ensino” vocacionado para a mão-de-obra desqualificada e barata, Ramiro Marques, vem em defesa, imaginem, de Putin, e proclama que o Ocidente tem motivos para se orgulhar do seu passado e para celebrar os seus valores comuns. Não há sítio melhor para fazer isso do que as escolas. [Read more…]

Há Merkels a mais na Alemanha

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Comecemos por colocar os pontos nos ii:

1) O ensino técnico em Portugal é tratado como um ensino de segunda, ou pior, olhado frequentemente como uma via para delinquentes e marginais. Isso está muito errado. Deveria ser a base de uma carreira digna, responsável pela introdução de mais qualidade e de novas tecnologias na sociedade. Uma oportunidade para a criação de emprego com potencial para gerar novos empregos;

2) Gosto da Alemanha. Na Alemanha há mulheres e homens com intervenções políticas fantásticas (a minha onda é o bloco de esquerda: Verdes e Die Linke) contra a austeridade. A CDU/CSU de Angela Merkel é apenas a formação política mais votada, não é mais nem menos do que isso. Por isso não me revejo e repudio gracinhas anti-alemãs a roçar a xenofobia.

O que é grave no discurso de Merkel é que a afirmação sobre o excesso de licenciados ibéricos tem a sua dose de ignorância. A percentagem de licenciados portugueses situa-se bem abaixo da percentagem espanhola e alemã (ver gráfico acima). Estamos a falar de realidades distintas.  [Read more…]

Negacionismo vermelho

Após um número de campanha sobre a erosão costeira para as intercalares da freguesia São Pedro da Figueira da Foz protagonizado por Miguel Tiago, escrevi um artigo no Beiras em que confrontava as posições negacionistas do deputado com a questão da subida do nível do mar e com as posições e a intervenção de Os Verdes. O Miguel Tiago respondeu. Sobre as questões levantadas pelo Miguel Tiago sobre erosão costeira, estas já tinham sido abordadas em artigo publicado em janeiro no Beiras onde refiro que os “estragos causados pela ondulação na Praia do Cabedelo resultam da acumulação de vários fatores: o prolongamento do Molhe Norte, a redução do volume de areia das praias pela retenção de sedimentos nas barragens dos rios e o aumento do nível da água do mar. O prolongamento do molhe é sem dúvida o fator mais importante. (…) O aumento do nível da água do mar, por enquanto em cerca de 20 cm nos últimos 100 anos, tem um contributo menor, mas não se prevê que possa abrandar dado que o aquecimento global progride.”

O que não se pode ignorar de maneira nenhuma é que o Miguel Tiago acha que o aquecimento global é pseudociência, logo deve ser obra do acaso o aumento da nível da água do mar que se verifica: 20 cm nos últimos 100 anos. Recordo que recente trabalho em que se estudou em grande detalhe os últimos 6 mil anos, demonstra que a rapidez desta subida é inédita neste período e provavelmente em período superior se for estudado. Aliás o Miguel Tiago tem um texto no Avante muito elucidativo sobre a sua peculiar construção negacionista sobre o aquecimento global, num misto entre a conspiração e o conhecimento superficial sobre a imensa matéria publicada sobre o tema. Segundo o Miguel, a “investigação Científica é também um processo social, sujeito a instrumentalização pela classe dominante“. Não são as companhias petrolíferas que o Miguel Tiago denuncia, não são a Shell, a Texaco, a BP, a Ford, a GM ou a Daimler-Chrysler que há cerca de 15 anos criaram a Global Climate Coalition (entretanto dissolvida) com o objectivo de inventar um ambientalismo alternativo que negava o aquecimento global. Quem é atingido pelos propósitos do Miguel são os investigadores que mais trabalho realizam e publicam sobre o assunto, como os investigadores da Universidade de Lovaina, da Universidade de East Anglia e da NASA (recordo que estes se bateram contra o negacionismo de Bush). Noto que alguns destes investigadores são frequentemente convidados pelo grupo político do Parlamento Europeu a que pertence o PCP para participar em atividades sobre o aquecimento global. [Read more…]

Tubarão

Amanda Brewer shark© Amanda Brewer (via The Huffington Post)

A óptica é óptima: parabéns ao Expresso

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Segundo Expresso, Stefan Hell, Eric Betzig e William Moerner

foram premiados pela Real Academia Sueca das Ciências por terem desenvolvido a microscopia óptica à nanoescala através de moléculas fluorescentes.

Efectivamente: óptica.

óptica2Saúde-se o Expresso por este feliz e auspicioso regresso à excelência ortográfica.

Grafia azul

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© LEHTIKUVA/Reuters (http://bit.ly/1nYg8Bx)

Acabo de saber, através de Brian Greene – a propósito, vale a pena assistir a este excelente debate entre Greene e Dawkins –, que o Nobel da Física foi atribuído a Isamu Akasaki, Hiroshi Amano e Shuji Nakamura, pela invenção de emissores eficientes de luz azul (convém ler o excelente texto de Teresa Firmino, no Público).

O Professor Jorge Manuel Torres Pereira lecciona a disciplina Fundamentos de Electrónica no Instituto Superior Técnico e explica (7.8) que

O díodo emissor de luz, LED – “Light Emission Diode”, é um dispositivo que converte a energia eléctrica em energia luminosa. A conversão está associada a transições electrónicas acompanhadas da emissão de fotões de comprimentos de onda compatíveis com a variação de energia ocorrida.

Contudo, segundo o Expresso,

O prémio Nobel da Física foi hoje atribuído (…) pela invenção do díodo eletroluminescente (LED), anunciou hoje o júri em comunicado.

Ora, independentemente de, por exemplo, por estas bandas, LED significar “diode électroluminescente” e até o Professor Lobo Ribeiro ter vacilado entre “díodos emissores de luz” (p. 6) e “díodos electroluminescentes” (p. 93), há um dado grafemicamente adquirido: eletroluminescente é grafia inadmissível em português europeu. Sim, eletroluminescente. Efectivamente, inadmissível.

Recordando as sábias palavras de outro Nobel da Física,

I’m not going to do this, I’m not going to simplify it, and I’m not going to fake it. I’m not going to tell you it’s something like a ball bearing inside a spring, it isn’t.

No, it isn’t. Se não souberdes o que significa ‘ball bearing’, não vos preocupeis. O Eng.º João Roque Dias explica-vos.

Continuação de uma óptima semana.

Ativadas? I’ve smelled a rat

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© Brian Cliff Olguin for The New York Times (http://nyti.ms/1pGZbGN)

Como aconteceu ao James Bond, no final de Os Diamantes São Eternos, “I’ve smelled a rat”. De facto, quando se lê ‘ativar’ em vez de ‘activar’ ou ‘ativo’ em vez de ‘activo’, num texto aparentemente escrito em português europeu, devemos desconfiar. Sendo verdade que o Mouton Rothschild é um clarete, também não podemos esquecer que ‘ativar’ e respectivas formas flexionadas são características do português do Brasil.

Para que não haja dúvidas, consultemos a Folha de S. Paulo:

Cada conjunto de neurônios de localização só se ativa em um local específico.

Mais de 30 anos depois, em 2005, o casal Moser descobriu outro tipo de neurônios que se ativam no córtex entorrinal quando os animais estavam em uma região, formando um mapa.

Efectivamente: ‘neurônios’ e ‘ativa’ (como “em uma região” ou “em um local”, mas essa é outra conversa) indicam-nos que estamos a ler um texto escrito em português do Brasil.

Por isso, ao contrário daquilo que se lê no Expresso, as células nervosas identificadas por John O’Keefe não são *ativadas. Aliás, basta ler-se o texto de Ana Gerschenfeld, no Público de hoje, para rapidamente se perceber que “certas células se activavam”. Exactamente: activavam.

O Comité Nobel é claro

In 1971, John O´Keefe discovered the first component of this positioning system. He found that a type of nerve cell in an area of the brain called the hippocampus that was always activated when a rat was at a certain place in a room.

Por esse motivo, é incompreensível esta adaptação do Expresso:

John O’Keefe identificou, em 1971, o primeiro componente deste sistema de localização ao perceber que um determinado tipo de células nervosas de um ratinho, localizadas numa região do cérebro – o hipocampo -, eram ativadas quando este estava num determinado local de uma sala.

Dito isto, parabéns a John O’Keefe, May-Britt Moser e Edvard Ingjald Moser.

Chamam-lhe a nova lei da cópia privada, eu chamo-lhe a lei da extorsão (acho que faz mais sentido)

Caros senhores do Governo, da SPA, Agecop e afins, posso fazer-vos umas perguntas?

Sempre me disseram que perguntar não ofende, por isso desde muito cedo comecei a fazer perguntas. Um vício que ainda não perdi. Hoje, os senhores do Conselho de Ministros aprovaram uma nova lei, uma nova versão da lei da cópia privada. Mexe com direitos de autor e, acima de tudo, mexe com o dinheiro de todos os cidadãos.

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Dia Mundial da Fotografia

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É hoje. Honra aos pioneiros da imagem fotográfica como Emílio Biel, sem cujo trabalho seria difícil, por exemplo, imaginar o vale do Douro e a foz do Tua em finais do séc. XIX.

Centro de Linguística da Universidade do Porto

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Como é do conhecimento público, em consequência de um processo de avaliação internacional conduzido pela FCT em parceria com a European Science Foundation, uma parte muito significativa das unidades de investigação do país não passou à segunda fase do processo e não terá, por esse motivo, financiamento a partir de 2015.

O CLUP – Centro de Linguística da Universidade do Porto é uma dessas unidades. Nas últimas semanas, vários órgãos de informação têm publicado notícias, entrevistas ou reportagens sobre a situação específica do CLUP. No entanto, é importante reforçarmos, também através de outros meios, o nosso sentimento de injustiça e de rejeição perante a avaliação que nos foi atribuída.

O Centro de Linguística da Universidade do Porto, unidade da FCT fundada em 1976 pelo Prof. Doutor Óscar Lopes, goza de uma grande reputação entre investigadores nacionais e estrangeiros, é responsável por publicações prestigiadas e lidas pela comunidade científica, apresenta índices de produtividade muito significativos em termos quantitativos e qualitativos e é a única estrutura científica de apoio à formação graduada e pós-graduada especializada em Ciências da Linguagem na Universidade do Porto.
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Einstein a mostrar a língua

E a TSF a mostrar o estado actual da adopção do Acordo Ortográfico de 1990 em Portugal:

A fotografia é uma arte, mas não são necessariamente as obras de arte mais belas que se tornam as mais famosas, mas sim aquelas que registam fatos

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Exactamente: fatos.

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Sim, em Portugal.

Albert Einstein sticks his tongue out to photographers in 1951

© Arthur Sasse/ AFP (http://bit.ly/1nr6nXc)

Paisagem de Marte

O mais recente panorama interactivo do Curiosity em Marte, cosido a partir de 138 imagens e estende-se por mais de 30.000 pixels de largura pelo fotógrafo Andrew Bodrov da Estónia.

Do Androids Dream of Electric Sheep?

A nova versão do robot da Honda, ASIMO, a executar tarefas complexamente triviais, como abrir um termo e verter o conteúdo num copo de plástico.

* Do Androids Dream of Electric Sheep?

Antropofagia mental

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Brindou-me o professor do ensino básico mas não colocado que antes foi astronauta não colocado Vítor Cunha com um artigo em resposta a um comentário meu, feito nesta casa. A “argumentação” é a do costume ou os tratamos bem ou os investidores fogem, e eles é que criam emprego, os beneméritos, há que erguer estátuas, tão bonzinhos que eles são, patatipatatá.  No meio compara o gasto em putas, carros e automóveis topo de gama com o dispêndio de quem vive do salário mínimo em necessidades básicas, mas quanto a isso estamos habituados, e hoje não me apetece repetir o vai viver com o salário mínimo durante seis meses e depois falamos.

Pareceu-me uma boa ideia, isto de ir aos comentários,  e mais uma vez me inspira, mas como já é tarde limito-me a republicar o que escreveu, a minha opinião ficou no título: [Read more…]

XP

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Já não há paciência para aturar o tonitruante obituário do Windows XP. Não há quem não cante o que foram as suas maravilhas na altura, agora que a Microsoft decidiu deixar cair o sistema e os seus possuidores em nome do progresso. O argumento é que o sistema já tem 12 anos e é tempo de o abandonar, bem como aos incautos clientes destes aldrabões. Esquecem-se de dizer que ainda há 3/4 anos vendiam portáteis dotados com XP. Os modelos pequenos, sobretudo, não usavam outra solução, o que não era nada mau, já que era muito mais leve e sensato que o Vista que se seguiu. Por isso, façam lá a vigarice mas não nos dêem música com as maravilhas do futuro, até porque alguns aspectos do Windows 8 parecem saídos da cabeça de tecno-ideotas fumadores de coisas esquisitas. E porque, finalmente, esta operação não passa de um acto de terrorismo comercial. O resto é conversa.

O princípio do fim da Internet como a conhecemos

O Parlamento Europeu (PE) aprovou hoje uma lei que podia ter sido escrita pelo Squealer, por significar o oposto do que realmente representa.

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Em causa, como notícia o PÚBLICO, está uma lei que, no entender do PE,  salvaguarda a neutralidade da Internet. A notícia explica muito bem este conceito mas, resumidamente, é o que garante que um pequeno site, como este blog, por exemplo, consiga ter acesso à infraestrutura da Internet com a mesma qualidade que um gigante como a CNN consiga. Sem esta neutralidade, passam a existir sites de primeira e sites de segunda.

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Adivinhem quem é que se passou (novamente)…

Pois é, o Facebook comprou um produto que ainda não existe, os Oculus Rift (disponível apenas para desenvolvimento),  pela módica quantia de dois mil milhões de dólares e não demorou até aparecer o clássico vídeo da reacção à compra, aqui contextualizado como se visto por estes óculos de realidade virtual.

Não era ainda conhecida esta apetência do Facebook pela realidade virtual, se bem que as sementes já lá estivessem, ou não fosse o Facebook lugar para se ter amigos que não se conhecem. Agora, uma coisa é certa, o Facebook com esta capacidade financeira aliada à apetência pelo virtual, se descobrem Portugal estamos safos. Senhor primeiro-ministro, por favor continue com o discurso do país estar melhor; se a mensagem chegar até ao senhor Zuckerberg, compra a sua realidade virtual, salva-nos a todos e deixa de precisar de ir ao lambe, perdão, beija-mão da senhora Merkel.

Um sinal do princípio dos tempos

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Ondas gravitacionais poderão ter sido detectadas neste padrão de luz dos primórdios do universo, podendo ajudar a explicar como este começou.

A importância desta descoberta reside em, pelo menos, dois aspectos. Por um lado, é a primeira detecção de ondas gravitações, tal como previstas na teoria da relatividade geral de Einstein. Mas mais importante é que, acreditam os cientistas, poderá ser a primeira prova directa que o universo ter-se-á expandido exponencialmente apenas uma fracção de segundo depois deste ter surgido (artigo completo na WIRED). (post scriptum: link para este assunto no Público)

A confirmar-se com mais experiências, isto será literalmente uma janela para os inícios dos tempos. Politólogos portugueses concluíram também que não será possível encontrar responsáveis pelo buraco financeiro em que nos encontramos antes desse big bang. Temos, portanto, uma boa janela temporal para apontar dedos a responsáveis mas, mesmo assim, acredita-se que eventuais culpas apuradas acabarão por prescrever devido a insuficiente tempo de preparação processual.

Do nacionalismo

Este artigo de Pedro Cardim é das coisas mais pertinentes que já li nos últimos tempos no que diz respeito à questão dos nacionalismos ibéricos. A questão da Catalunha é secundária, apesar de começar por ser a razão do texto. O que interessa verdadeiramente são as considerações do autor sobre o chamado “nacionalismo” português. Infelizmente, alguns comentários ao artigo são, como sempre, mostras de alguma ingenuidade e anacronismo.

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A onda da Nazaré: a perspectiva e o objectivo

Um excelente filme do Instituto Hidrográfico, a explicar o fenómeno da onda da Nazaré. Há uma perspectiva (“científica”) e um objectivo (“elucidar o público em geral numa linguagem acessível”). Óptimo.

O caso prático do Kit do Mar (sim, do Kit do Mar)

A equipa Kit do Mar (sim, Kit do Mar) – ontem recebida no Palácio de Belém, pelo Presidente da República – quer “facilitar a implementação”, etc., através do “recurso a ferramentas diversificadas e ao trabalho de casos práticos”.

Peguemos num caso prático – por exemplo, nas acções de formação do Kit do Mar –, para testarmos o estado actual de aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

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Vejamos aquilo que acontece nos Professores a Bordo.

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Pronto, já testámos.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

Bonobos: nova perspectiva

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Bonobo  ou  chimpanzé-pigmeu (pan paniscus) com cinco anos, na reserva de Kokolopori, República Democrática do Congo.

© Christian Ziegler / National Geographic Magazine/EPA (via National Geographic The Guardian).

Nótula: “Christian Ziegler ficou com o terceiro lugar na categoria Reportagem – Natureza do World Press Photo 2014 com as imagens feitas para a matéria Bonobos: nova perspectiva, publicada na edição de maio de 2013 de National Geographic Brasil“.

Comentário: Sim, perspectiva.

A confrangedora ingenuidade dos revisionistas

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Há na Helena Matos historiadora (tomo aqui a palavra no sentido amplo, de quem investiga mas também daquele que divulga) uma candura e uma habilidade que me encantam. Ouço-a ainda ensonado na Antena 1 nos Sons de Abril, que nas metáforas mais poéticas dos meses tresanda a Sons de Dezembro, e apetece-me voltar para a cama, readormecido nos sonhos de uma realidade imaginada.

Talentosa, não se lhe escuta um erro, antes qual discípula do cientista político Rui Ramos nos enreda com palpitantes omissões, e o que não se conta é como se nunca tivesse acontecido.

Ouça-se a croniqueta  de hoje sobre as primeiras mulheres na PSP.  Saltita sobre a fonte (onde se disse que algumas tinham o actual ensino secundário brotam miraculosamente licenciadas) e explica tudo nada explicando: “como praticamente não havia desemprego…

Ah que saudades do Marcelo Caetano e seu  presidente de Deus Rodrigues Thomas. Bons tempos, os do anterior milagre económico ainda mais beato que o actual, faltou apenas reforçar que desemprego jovem, desse nem vestígios. A mobilização obrigatória para a guerra, a deserção e o emigrar massivo e maciço (em recorde que pouco falta para alcançarmos) são meros detalhes, uma vaga poeira que não pode estragar o retrato. Estava tudo tão bem como estava e só poderia ter ficado pior, era, não foi?

Imagem

TEDx Oporto


Outras informações aqui

De fato, todos esses fatos e todos esses contatos

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Darwinilus sedarisi (*)
© Museu de História Natural de Londres

Soube-se hoje que Mendes Bota defendeu, numa reunião do grupo parlamentar do PSD, a suspensão da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

Sim, exactamente: a suspensão da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

Se não souberem o que é o Acordo Ortográfico de 1990, eu explico. O Acordo Ortográfico de 1990 é aquele acordo ortográfico que tem sido aplicado “sem problemas de maior” e cuja adopção tem vindo a contribuir, “numa base quotidiana e de forma progressiva e natural”, para “a população” se familiarizar “com [Read more…]

Excepcionais: com pê, claro

Neste texto de Daniel Oliveira, encontramos, no mesmo parágrafo, ‘excepcionais’ e ‘atual’.

DOLIVEIRA

Para quem ainda tiver dúvidas (apesar das bases: quer a teórica, quer a outra) acerca de escreventes da norma portuguesa europeia intuírem a função diacrítica de consoantes não pronunciadas, a recaída excepcionais de Daniel Oliveira – apesar da aparente destreza na supressão do ‘c’ de actual (com função, sim, embora não diacrítica) – poderá ajudar a perceber que a simplificação proposta pelos negociadores do Acordo Ortográfico de 1990 lhes toldou (fiquemos pelos aspectos técnicos – aqueles que me interessam – e não enveredemos pelo labirinto político) a dimensão leitura, indissociável, em leitores/escreventes experientes, da dimensão escrita.

Dito (ou escrito) de outro modo, ao grafar ‘excecionais’, um escrevente português terá a sensação de que o -cecionais dessa palavra, em vez do [-sɛsjuˈnai̯ʃ] pretendido,  reflecte um [-sɨsjuˈnai̯ʃ] inexistente e, por isso, não abdica do ‘p’.

Sim, porque não é só no livro do Eduardo Guerra Carneiro e na canção do Sérgio Godinho que isto anda tudo ligado.

É evidente que tudo se complicará se Daniel Oliveira (ou qualquer falante de português europeu) tiver o hábito de ler textos em português do Brasil. Pois, claro, no Brasil, excepcion |-al-ais continua a existir (ide ver ao Houaiss, ide, ide) e significa “em que há exceção”. Pois. Isto do AO90 não é tão simples como andaram por aí a dizer e, claro, não é bem a meia hora vaticinada pelo antecessor de Edviges Ferreira. Sim, é muito complicado. Mais vale acabar com este imbróglio, antes que seja demasiado tarde.

Desejo-vos um óptimo e excepcional fim-de-semana.

Post scriptum: Em discussão no edge.org: “what scientific idea is ready for retirement”? Vale a pena ir lá dar uma espreitadela.

Rhynchophorus ferrugineus

«Portugal tinha um ano para se candidatar a fundos comunitários para o seu combate, que é caro, mas não chegou a fazê-lo».

A História não voltará a ser a mesma

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A partir de um texto de Manuel Loff (no Público), e que por acaso tem uma afirmação muito discutível sobre o fado, fica para outro dia, Vítor Cunha decide desbravar os caminhos da História. Intrépido, arrasa toda a historiografia que consensualmente define a criação dos estados modernos vulgo nações nos últimos 200 anos, como banalissimamente Loff refere.

Nada disso, com o entusiasmo de quem pega num algoritmo complexo sem saber a tabuada, e a sabedoria de quem na semana passada demoliu o cálculo de probabilidades tal como era conhecido na véspera, Vítor Cunha quer a Padeira de Aljubarrota metida ao barulho, e manda um doutorado tomar chá de malvas com a ” sua tese dos 200 anos que não explica nada excepto vergar a construção de uma nação ao tempo necessário para incluir Marx“. A teoria da conspiração no seu melhor. [Read more…]