postal de um dia na estrada…

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saio de Aveiro com o Daniel pouco passa do meio dia. Chegamos à Boavista, Porto, pouco passa da uma da tarde. A primavera parece ter-se instalado neste dia e depois de o Diogo entrar no carro, seguimos A4 acima, IP4 mais acima (ao tempo que não subia o Marão para lá do qual ‘mandam os que lá estão’). Passamos Vila Real, reencontramos a A4, comemos qualquer coisa numa estação de serviço deserta e passa pouco das três quando chegamos a Mirandela. O Daniel entretanto pôs uma câmara no tejadilho do carro (aka a torradeira). Digo-lhe que não me responsabilizo, mas chegamos todos, incluindo a ‘GoPro’, bem ao parque em frente ao rio onde a Liliana já nos espera com o pequeno (e traquinas) Eduardo.

Fazemos a entrevista à beira do rio, à sombra de um chorão no qual definitivamente se entranhou a primavera. Já não parava em Mirandela há tanto tempo! A cidade está bonita, parece. O parque cheio de crianças. Dos pequenos ruídos das crianças felizes e livres. Do cheiro da erva e da água. A vida parece fácil. Acho que a vida é fácil, quando voltamos ao carro às quatro da tarde, depois de a Liliana nos confirmar que o caminho mais perto para Miranda do Douro é por Espanha.
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Crónicas de Timor-Leste VI

António José

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Ontem pelo final da tarde, atrasado com um stock de mercearia… acabei por não conseguir tomar bom café no único local em Dili, que eu conheça, em que o preço do café é 0,50 cêntimos… pois fecha pelas 18h… Sinto o trânsito mais rápido aos finais de tarde. Se souberem de outro, digam a ver. Peace Coffee. Até o nome tem pinta. É que os preços da “bica”, “expresso” ou mesmo a “aguadilha” que muitos (não timorenses) servem nesta cidade, é matéria para custar em média 1,5 USD, 2 USD… já os vi a 3’USD. No Peace Coffee há bom som, muito bom café, de Same e a melhor preço. [Read more…]

Crónicas de Timor-Leste V

António José

Estive à conversa com dois ex-guerrilheiros… delícia, mas não conto. O que posso contar é que conheci o Bosco. Pintor. Com atelier em Manatuto. Ignorância minha, desconhecia. Apenas lhe disse conhecer alguma coisa sobre “Dom Bosco”. Ele, que não… era só Bosco.

Ora leiam a narrativa que acompanha a ilustração… julgo que o texto será de José Amaral, músico, timorense. Posso estar enganado. A ilustração é do Bosco. Eu gostei.

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Crónicas de Timor-Leste IV

António José

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Não tenho muitas palavras para descrever ou sequer escrever sobre o que se passa hoje. Vem-me à memória uma frase batida… “a morte saiu à rua num dia assim”… O pai do meu amigo Aboly partiu… ontem. O Aboly é, digamos o meu guia, o meu tradutor, um companheiro. Conhecemo-nos em Coimbra há muito… Recorro a ele quando preciso. Um amigo. Até agora, recorri pouco. Disse-me, quando cheguei, que de noite “não vai sozinho toze”. Não vim apesar de… Esta manhã, cedo, fiz-me à estrada. Direcção, bairro de Sta. Cruz, onde habitava… telemóveis desligados. Dou com a casa apenas porque fui ajudado. Um jovem dialogante em PT que aguardava microlet para escola, decide perguntar-me “precisa de ajuda?”. Sim, muita. Tinha passado já por ela, a casa, sem saber, sem reconhecer os traços.

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Estou aqui como se fosse família. Indescritível… não vou contar ou mostrar mas siga, queria escrever umas palavras para chegar a este último pormenor que infelizmente, não vai acontecer.

Aboly contou-me que tinha falado de mim ao pai… e que recuperado, estaríamos então juntos… para ouvi-lo, para guardar para memória futura… “Cheguei” tarde demais… de nó na garganta…
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Admissão de culpa

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 Foto (http://cativarparaaprender.blogspot.pt/2012/05/uma-questao-de-honra.html)

Tenho consciência, não estou esquecido, conheço a Lei, fui notificado várias vezes. Infelizmente, devido à política seguida pelo Governo nos últimos 4 anos, não tenho é dinheiro!

Versão integral publicada originalmente em: http://wp.me/p29WGc-AU

Crónicas de Timor-Leste – III

António José
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Não me apetece muito usar a net, confesso, pelo que aí vai, duma assentada, provavelmente muita palha mas é a que tenho…

na madrugada de Sábado para Domingo, uns valentes estrondos e uma impressionante enxurrada… seriam 1h… Chuva a potes. Tudo natural. Durou que fartou. Dum salto acorda-se. Trovoada das grandes e o barulho seco sem décalage de som… e sem fazer aquelas contas entre “a luz e o som” percebe-se, caiu ali, a menos de 50 metros… Dá para entender que as “fases” tinham ido abaixo… o poste transformador ficou com o dito fora “de jogo”. Entra em serviço o barulho de geradores, quem os tem, claro. O resto imagina-se. Uns vizinhos timores afinam com precisão vassouras e outros adereços para mudarem o curso à água que rola com o que transporta, montanha abaixo. Barrenta, quase vermelha, sem paragem, até ao mar. É como uma dança. Lanternas “mãos livres” na testa, eficazes. Devia ter saído e dado uma mão, melhor duas mas via-os calmos naquele tráfego. Voltei ao abrigo da cama e lá continuou o ribombar afastando-se lentamente. Com a luz do dia, percebe-se que o percurso da água da montanha, se fundiu por caminhos de terra batida. Invade a estrada pavimentada. Limpa o pó que estava, para recolocar substituto de outras paragens. Está-se em época de chuvas. A água como vem, rápida se vai. Aqui pelo menos. [Read more…]

Crónicas de Timor-Leste II

António José
#2 – Quanto acordo é isto…

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ou isto se deslizar umas escassas dezenas de centímetros… [Read more…]

“Le donne odiavono il jazz’?*

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(Com Carlos Cerqueira)

No dia internacional da mulher, o dia em que se lembra que a luta das mulheres por uma vida digna, por direitos iguais não está ainda, apesar de longa, terminada, o Jazz faz Noite ** celebra as vozes femininas do jazz que cantam temas sobre as mulheres. Dos que falam do amor e dos desgostos do coração, próprios de todos, mulheres e homens, aos que nos dizem que as mulheres tudo podem ser e fazer, como os homens.

Este Jazz faz Noite encerra, no entanto, com Bread and Roses, interpretado por Judy Collins, que não é uma voz do jazz. Mas essa luta das mulheres por salários dignos e iguais, que essa canção e o poema (abaixo traduzido por mim) de James Oppenheim nos recordam, não pode e não deve ser esquecida em nenhum 8 de março ou noutro dia qualquer do ano.

As mulheres querem pão e rosas, como os homens, ‘porque os corações morrem de fome’ exatamente como os corpos. [Read more…]

O exílio da vontade

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Quando preciso de alento (a que outros chamam esperança) releio Albert Camus. Há nos seus textos, e até mesmo nos mais tardios, uma combinação benfazeja de propriedades apaziguadoras dos inquietos, o sopro da verdade profunda que apenas a arte diz, a voz dessa sabedoria sem época. Um dos seus livros que prefiro é L’été (O Verão), originalmente publicado em 1959. Trata-se de uma compilação de pequenos textos, e num deles, intitulado O exílio de Helena, Camus detém-se no lugar da Grécia na Europa.

Há nos territórios (e numa certa e relativa medida também nos seus passados) da Grécia e de Portugal uma espécie de insuportável beleza do Mundo que aproxima os seus povos: gentes nascidas na angustiante superlativa beleza de lugares que se habituaram a abandonar, para procurar noutras partes do Mundo os modos de vida que nos seus países não têm aparente vontade de erguer. Bastará dizer que, no caso da Grécia, foi um país que teve retornados (em significativa quantidade, comparável à de antigos impérios) sem ter sido colonizador.

Quando Camus refere «o nosso tempo», é evidente que o seu tempo (dele Camus) não é o nosso, mas ao mesmo tempo é, nesse pós-guerra em que escreve Camus que é em certa medida o nosso também. Outros textos dessa recolha chamada O Verão foram escritos antes da Segunda Grande Guerra, outros ainda muito depois do seu término, mas na essência não importam as datas: em pano de fundo está a guerra, e a supremacia pragmática e impositiva da razão técnica sobre a vontade, que é o que vivemos por estes dias. | S.A.

Albert Camus, L’été, «L’exil d’Hélène», 1948
[tradução rápida da autora deste post]
«O Mediterrâneo tem a sua própria tragédia solar, que não tem nada a ver com a das névoas. Certos fins de dia, no mar, junto ao sopé das montanhas, a noite cai na delineação perfeita de uma pequena baía e, provinda das águas silenciosas, emerge então uma plenitude angustiada. Apenas estando lá podemos compreender até que ponto os gregos conheceram o desespero através da beleza, e do que ela tem de opressivo. É nessa infelicidade dourada que a tragédia culmina. (…)

Forçámos a beleza ao exílio, e os gregos limpam as armas para defendê-la: eis uma primeira diferença, que no entanto vem de longe. [Read more…]

As bibliotecas também se abatem

Jorge Gustavo Lopes

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Na bela vila da Nazaré famosa pela sua história e tradições e, mais recentemente, pela sua onda gigante, existe uma bela biblioteca inaugurada em 2008. Mas neste cenário idílico algo aconteceu….
No passado mês de Março de 2014 foi dispensada uma equipa de quatro funcionários qualificados que asseguravam, desde a abertura da biblioteca em 22/11/2008, o seu pleno funcionamento e a possível transformação deste espaço numa espécie de “Pavilhão Multiusos Cultural” num evidente atropelo à utilização de dinheiros públicos e fundos comunitários e numa lógica de destruição de um espaço cultural moderno e de serviço público. [Read more…]

Portugal não é a Grécia

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Depois dos casos BPN, BPP, BCP, BANIF, BES, Sobreiros, Miguel Relvas, Submarinos, Vistos Gold e do seu próprio caso pessoal – contributivo e Tecnoforma -, entre muitos outros, percebe-se agora que ao insistir na ideia de que “Portugal não é a Grécia!”, Passos Coelho estava afinal a defender o bom nome e a honorabilidade do povo grego (que não as das elites dirigentes da Grécia que são iguais às nossas).

Publicado originalmente em: http://wp.me/p29WGc-Ah

Crónicas de Timor-Leste – I

António José

Nota prévia:

O meu amigo Tozé é, há uns bons 30 anos, o mais ardente defensor da causa timorense que em Portugal houve. Anarquista e libertário, dos verdadeiros e dos sete costados, passou de Tozé Fotógrafo ao Tozé por Timor. Não abraçou a causa, como tantos fizemos, porque entre ele e a causa houve mais fusão que dialéctica.

Um dia, tantas vezes o esperámos, Timor tinha de conhecer o Tozé, e o Tozé não se importava nada de conhecer Timor. Já lá está, Coimbra emprestou-vos o Tozé, é favor devolverem intacto e bem disposto, e aqui vou adaptar o que nos vai contando no Facebook; são crónicas de um fotógrafo, as imagens não me chegam nas melhores condições, mas faz-se o que se pode e a mais não somos obrigados.

João José Cardoso

 

25/2/2015

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Há coincidências engraçadas… acabo de me cruzar com Adelino Gomes. Não resisti e incomodei-lhe a leitura. Uns dedos de conversa … “lembra-se nuns Dias do Desenvolvimento?”… Em que o encontrei mais de três décadas depois de o ouvir falar pela primeira vez, sobre Timor-Leste … tinha a Indonésia invadido Timor e dizimava… Obrigado Adelino Gomes. Foi consigo que a ilha encantada começou aqui “por dentro”. [Read more…]

Pais do Amaral, o inquisidor

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Os livros ardem mal, avance a guilhotina.

Postcards from London #5

Do a thing a day that scares you

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repetimos as coisas, quase sempre, quase todas as coisas. como se fosse a primeira vez e fosse tudo sempre novo. assim é nas viagens. em toda a parte, suponho. falo da maioria das pessoas. creio haver uma minoria que já nada repete. e se fecha ao mínimo desgosto ou susto. gosto de pensar que é mesmo uma minoria, mas na verdade não tenho a certeza.

não que eu seja particularmente destemida ou corajosa. Mas gosto de começos. do princípio. quando tudo se anuncia e é possível. não é, no entanto – acho – possível estar sempre a começar qualquer coisa. uma viagem, um texto, um trabalho, uma amizade, um amor, tudo. Começamos tudo muitas vezes e acabamos tudo vezes demais. tudo com idênticas repetições, mas que, a cada vez, nos parece diferente e novo. escrevo isto no avião e se calhar porque me sinto sempre frágil aqui. E hoje é também do cansaço do fim desta pequena viagem, outras vezes repetida mas, sim, desta vez anunciando não sei bem o quê, um pouco assustador.

ao acordar esta manhã estava um sol encantador. arrumei por isso as tralhas rapidamente, tomei o pequeno almoço servida pelas miúdas portuguesas que me trataram como se fossem a minha mãe, ou seja, com muito mimo, deixei a mala no hotel e saí para a rua. lembrei-me de voltar a covent garden e assim fiz. apanhei o metro para leicester square e caminhei um pouco até ao mercado animadíssimo como dele me lembrava. e com sol, como nunca o tinha visto. turistas misturados com locais, porém numa proporção desequilibrada a favor dos primeiros, é evidente. ando por ali, sento-me ao sol, fumo ao sol, sou um pequeno gato ao sol, esta manhã. há palhaços, homens-estátua, equilibristas, vendedores de tudo e de nada que (me) importe. coisas pequeninas, que na sua maioria não servem para nada, objetos diversos, quinquilharia. como nem sequer tenho fome, não gasto um cêntimo, devia dizer um ‘penny’, em covent garden. apenas aproveito o sol para olhar para as pessoas na sua vida pachorrenta de domingo. enquanto estou ao sol lembro-me da noite de ontem, no pub. o peixe e as batatas fritas e uma conversa inesperada à chuva. nada que vá começar, seja como for. [Read more…]

Postcards from London #4

Ride with Pride, despite this is a highway to nowhere


quando chego à universidade de westminster, depois de ter dado de caras com a estátua do sherlock holmes mal saio do metro, há pessoas de cabelos coloridos a fumar dentro do ‘perímetro’. e balões em vários tons de rosa e uma passadeira arco-íris. apesar de ir fazer a minha apresentação hoje duvido que tanta animação seja por minha causa e estou, evidentemente, certa. trata-se de uma festa organizada pelos estudantes lgbt – ‪#‎ridewithpride‬.
o átrio da universidade está transformado numa feira, com pessoas coloridas, com palcos onde se canta e toca. quase me dá vontade de esquecer a apresentação e ficar por ali a apreciar a agitação e a observar as pessoas. mas depressa realizo que a música é horrível e, por isso, decido ir para a sala 303.
a apresentação corre bem. os meus colegas gostam principalmente dos traillers dos filmes, que apresento, especialmente de ‘dot.com’ e de ‘ainda há pastores?’. No final e ao almoço e cá fora no ‘perímetro’ (se hoje a regra é infringir as regras, eu aproveito) enquanto se fuma um cigarro no meio dos balões cor-de-rosa, muitos hão-de vir falar comigo e dizerem ‘que coisa interessante! nunca tinha pensado em analisar o rural no cinema’ ou ‘os filmes que analisaram têm legendas em inglês?’ ou diante da minha resposta de que pelo menos os trailers tiveram de ser legendados pelo Diogo em inglês, ‘oh! sim, é esse o problema dos filmes portugueses, sabe? é tão difícil encontrar obras legendadas?’. Sei. Acontece o mesmo com muitas outras coisas. esta espécie de demissão de sermos vistos e compreendidos. mas, no entanto… [Read more…]

Postcards from London #3

Perímetros de segurança… ou os fumadores que nos matam a todos, tão prematuramente, ou ainda a arte, tão delicada afinal, de ser português

londres – e não é o único lugar do reino unido ou do mundo em que senti já isto – é uma cidade que mistura a agressividade com a delicadeza. sim, é aparentemente possível ser delicado e agressivo, ao mesmo tempo. tudo é possível, já o sabemos, e as cidades e as pessoas são sempre tantas e imensas coisas que se torna difícil estabelecer perímetros em redor dos comportamentos, dentro dos quais caibam noções claras e arrumadas. as pessoas tratam-te por ‘love’ e por ‘darling’ como em mais nenhum lugar, com um tom animado e querido, como se fosses um velho amigo e, no momento seguinte, se alguma coisa não lhes soa bem no que dizes ou no que fazes olham-te com uma agressividade, ainda por cima fria, que te faz querer fugir dali. Olhas em volta, em toda a parte e as ordens gritam-te num silêncio agressivo, do asfalto – ‘look left’, ‘look right’, no metro ‘mind the gap’ , ‘keep your ticket’, ‘this side to go up’, ‘keep on the right’… – e outras vezes gritam-te mesmo, num tom de voz muito ‘cheerful’ no entanto, pelos altifalantes das carruagens, das estações, dos autocarros.
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Fernando Alvim, 1934-2015

O viola que foi de Carlos Paredes, um ribatejano e um beirão, deixou-nos.

Ofereceram-nos tudo o que de umas cordas para cima cheira e sabe a belo.

No dia em que os capitalenses se calarem com a peta do fado ser só deles, mantendo a lenda salazareira e de sua besta férrea, teremos entre outras coisas ensinado à UNESCO que leva banhadas. O Fado  é nosso, do Tejo para cima, ponto final, parágrafo.

Fiquem com a homenagem no sítio óbvio, Coimbra, Santa Cruz.

Leonard Nimoy

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“Live long and prosper”, disse ele, ao partir. Até Sheldon vai deixar correr uma lágrima.

Tornado: fundamentos filosóficos

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Indulgências

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Lá estão os auto-proclamados gourmets (como eu detesto esta palavra!) a aconselhar o vinho do Porto para acompanhar sobremesas. Nunca percebi isto. Doce sobre doce. Ainda por cima com doce de ovos, o que é uma péssima ideia. A minha modesta sugestão é que o provem – um vintage decente, que não precisa de ser caro nem velho – com um bom queijo Terrincho, um Serra bem curado ou, como eu pequei há pouco, com um Parmesão de cura velha. Que diabo, temos o direito a mimar-nos de vez em quando. Se pudermos, claro…

Postcards from London #2

‘what is that landscape? / it is the landscape in my head’

tenho a sensação que nada fiz senão andar, hoje. andar na paisagem. andar à chuva. subir e descer escadas. andar. na paisagem que tenho na cabeça. andar por dentro das paisagens que outros têm ou tiveram na cabeça.

revisito de manhã a tate britain. o kiefer já não mora ali. mudaram-no para a modern mas também ali não está em exibição. fico um pouco desapontada com este desarranjo na paisagem que tenho dentro da cabeça. mas visito o mar de turner, tempestuoso, esbatido, violentamente poético. o céu de turner. igual ao mar. visito o resto, também, está bem de ver. blake. moore. e os demais cujas paisagens se exibem nos meus passos. saio da tate britain já é hora de almoço. ando um pouco ao longo de millbank. apanho um autocarro embaciado até parliament square e de novo se repetem paisagens, gestos. apanho o metro para southwark. quando saio chove copiosamente. tanto que resolvo almoçar num pub mesmo ali em frente. não chove dentro do pub e por momentos até penso sol dentro da minha cabeça. [Read more…]

Postcards from London #1

esta claridade obscura que escorre das estrelas*

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hei-de sempre lamentar que a humanidade não tenha ainda descoberto o teletransporte, como nas séries que via em miúda, por exemplo, ‘espaço 1999’, em que as pessoas demoravam segundos a mudar de planeta. era um tempo, aquele em que eu era miúda, em que ninguém que (me) importava tinha morrido. nem sequer eu vez nenhuma ainda, e em que 1999 parecia um futuro tão longínquo, que ía demorar séculos – e não décadas – a chegar. na escola eu fazia frequentemente de doutora helen devido ao meu corte de cabelo. havia outra miúda que fazia de maya habitualmente e eu, apesar de admirar a doutora helen e de com ela partilhar o corte de cabelo, por vezes chateava-me porque, claro, quem tinha os olhos verdes era eu e não a outra miúda.
isto nada tem a ver com londres, ou terá tudo. por um lado, ainda ninguém inventou o teletransporte e tendo saído de casa às três da tarde, entrei no número 83 de gower street apenas às onze da noite. por outro lado, quando eu era miúda e via o ‘espaço 1999’ era, genericamente, feliz. tal como sempre fui em londres desde há muitos anos. a primeira vez era tão nova, ía a caminho da irlanda, com o meu cabelo muito curto, já nada parecida com a doutora helen, os meus óculos redondos e a minha solidão menos desejada que hoje, é verdade, mas ainda assim, agradável. das outras vezes tive sempre companhia. a mesma, algumas vezes. outra, diferente de muitas maneiras, da última vez, já lá vão quase seis anos. fui sempre feliz em londres. e não é verdade que não podemos voltar, ou não devemos, aos lugares onde já fomos felizes. devemos. e é bom que possamos. voltar a todos os lugares, de certo modo familiares. não digo caseiros, mas aqueles lugares onde nos movemos razoavelmente bem, como em casa de um amigo que só às vezes visitamos. [Read more…]

Carta aberta a Wolfgang Schäuble, ministro das finanças alemão

De um jornalista “com tomates”. Bravo!

Carta aberta a Wolfgang Schäuble, ministro das finanças alemão.

via Carta aberta a Wolfgang Schäuble, ministro das finanças alemão.

A memória e a cultura

Há uma “corrente de opinião”, especialmente na capital e nos meios  “culturais”, ou ditos culturais, de que a esquerda é que é capaz de tratar a cultura e o património como deve ser.

Relembro a promessa de António Costa, recente, de, se  fôr  1º Ministro, dotar o seu governo de Ministério da Cultura como se isso fosse a solução para tudo e mais alguma coisa (erradamente, os  ilustres órgãos da comunicação social continuam a referir-se a esta área da governação como Secretaria de Estado da Cultura, que não existe na orgânica deste governo).

Por outro lado, a maior parte das pessoas ligadas ao PSD aceita essa  narrativa (como se diz agora), com muita dose de vergonha. São uns nabos. Nem sequer conhecem o que o seu próprio partido fez nos últimos trinta anos (claro que exemplos como os de Rui Rio e Francisco José Viegas, por exemplo, não ajudam). Isto a propósito da foto que publico, e que diz respeito à inauguração de Serralves em 1987.

Sim, a Casa de Serralves (o conjunto todo) foi comprada pelo Estado. Era governo o  PSD (a Secretária de Estado da Cultura era Teresa Patrício Gouveia e o 1º Ministro era Cavaco Silva).

É fodido.

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Para um retrato da pobreza em Portugal

«(…) Num país de consensos, onde uma sociedade acrítica sobrevive no meio da infiferença (…) e em que as elites dominantes aproveitaram a crise económica mundial para internamente restringir direitos adquiridos.»

«Um país debilitado, empobrecido e a caminho da demência. (…) Depois das políticas sociais de combate à pobreza, verifica-se (…) um desprezo pela igualdade (…) e um apodrecimento das conquistas feitas em 1974. (…)»

Na imagem (uma página da revista TimeOut), uma representação da pobreza que se vê, com a assinatura satírica a que João Tabarra nos habituou (ele que é que tantas vezes objecto e sujeito das suas imagens fotográficas). Mais desafiante será representar a outra, prevalecente, e que não se vê: a miséria envergonhada, a miséria moral (dos que não votam, por exemplo), e tudo o que fica escondidinho na casa e no espírito dos portugueses, pobretes cada vez menos alegretes.

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Luísa Dacosta (1927-2015)

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«Os malmequeres tinham os olhinhos abertos a furador e as pétalas de um cheio alto, minuciosamente, pespontado à volta. As rosas? De um coração de crivo, muito trabalhado, partia um recorte fino e sinuoso, preenchido a barras de cheio baixo que um ponto arrastado sublinhava. Nas folhas de pé cheio e bainhas assimétricas, o bordado era ainda mais requintado: uma trama axadrezada e ziguezagueante de pontos sobrepostos. Malmequeres e rosas formavam duas hastes entrelaçadas, como mãos que quisessem colher um rosto, e rodeavam um L — de Letícia? de Luz? de Luísa? A letra era almofadada e o crivo entalhava-se-lhe no corpo e na volta, que terminava em volutas, texturadas e nosinhos minúsculos. Uma bainha aberta, larga, geometrizada a bastidor, e quase musical, fazia-lhe uma moldura, nos cantos rematada por um florescer de pétalas, como que colhidas em frágil teia de aranha. [Read more…]

Daniel Buren

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Daniel Buren, “Comme un jeu d’enfant, travaux in situ“, no Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Estrasburgo (até 8 de Março de 2015).

Imprima-se a lenda

 

A Arthur Machen (1863-1947), escritor galês que ficou conhecido pelos seus relatos de terror e sobrenatural, aconteceu a fatalidade que atinge alguns ficcionistas: não foi capaz, ainda que muito tenha tentado, de convencer os seus leitores de que aquilo que contara não tinha acontecido.

Em Setembro de 1914, publicou no jornal londrino “The Evening News”, um conto sobre a Batalha de Mons, o primeiro embate entre forças inglesas e alemãs durante a I Guerra Mundial, no qual os alemães, apesar da superioridade numérica (160 mil contra 80 mil ingleses) sofreram mais do dobro das baixas (não há consenso sobre os números, mas fala-se em perto de 5000 contra as pouco mais de 1500 do lado inglês). Machen descreveu um momento crucial da batalha, quando tudo parecia perdido para os ingleses e estes, com a fleuma que se lhes conhece, previam, entre comentários sardónicos, a inevitabilidade da derrota face a um inimigo muito mais poderoso. Um soldado inglês lembra-se, então, de uma figura de S. Jorge que havia visto anteriormente e, ao evocá-la, surge, em pleno campo de batalha, uma fileira de anjos arqueiros, que em instantes dizimam as forças alemãs, para assombro dos ingleses que assistiam à intervenção sobrenatural. [Read more…]

O grande romance do século 21

Gregório Duvivier

Preciso escrever o grande romance do século 21. Mas estou casado e minha vida é uma delícia. Bebemos vinho toda noite e suco verde toda manhã. Ninguém escreve o grande romance do século 21 com essa vida mansa. É preciso um pouco de instabilidade pra se escrever o grande romance do século 21.

Estou separado e morando num motel da Lapa. Difícil escrever o grande romance do século 21 ao som de um bloco de maracatu que se confunde com o show da Anitta na Fundição Progresso enquanto na sua janela um mendigo canta o hino do Flamengo.

O colchão tem sanguessugas do tamanho de um polegar e eu devo respeito às baratas porque elas chegaram aqui antes de mim. Durante a noite, alguém levou o laptop. Difícil escrever o grande romance do século 21 no bloco de notas do celular. É preciso um pouquinho de conforto para se escrever o grande romance do século 21.

Estou num flat no Leblon. Ar-condicionado split, lençol banda larga e internet de mil fios. Baixo filmografias e discografias completas num piscar de olhos. Aliás, é só o que eu faço. Difícil escrever o grande romance do século 21 com uma conexão boa dessas. Eu preciso de um pouco de isolamento. Já entendi o que falta: leitura. Para escrever o grande romance do século 21, é preciso, no mínimo, ter lido o grande romance do século 20. [Read more…]

Sugestão musical

A minha primeira sugestão musical em 2015 vai para o 3º single daquele que foi para mim o melhor álbum de 2014. Infelizmente não consegui estar em Portugal no passado mês de Novembro…