Teatro Conspirativo

É paranoia minha certamente mas algumas expressões geográficas como “ir para o norte” ou “auto-estrada do sul” irritam-me.

Já tentei racionalizar o porquê desta irritação mas não consigo encontrar uma explicação que me satisfaça suficientemente… talvez seja o facto um termo tão genérico normalmente estar associado a alguma ignorância quanto aos sítios a que se refere ou então é simplesmente o facto de os pontos cardiais serem naturalmente relativos… excepto nos pólos, qualquer ponto que seleccionemos estamos sempre a norte ou a sul de qualquer outro ponto.

Vem isto a propósito do texto introdutório ao programa do TNSJ para este inicio de 2007.
Diz Nuno Carinhas que neste inicio de ano “prosseguimos com visitações de Companhias do Sul: Teatro da Rainha, Teatro Municipal de Almada, Teatro dos Aloés e Teatro Aberto“…

É um fait-divers claro mas se fosse dado a leituras conspirativas diria que esta frase teria um segundo sentido.

A réplica e o original

   Na vertigem mediática e blogosférica dos tempos que correm, uma réplica mereceu recentemente mais destaque do que o original. Compreende-se, seja pelo teor da notícia, seja porque, convenhamos, seria difícil utilizar o original para perpetrar a agressão.

   Desfeita a espuma volátil do fait-divers, voltemos agora ao esplendor monumental do Duomo de Milão.

P1020746

 

   Nunca o tinha visto como agora, tão limpo e branco, o mármore tão aparentemente acabado de talhar. Tendo em conta os quinhentos anos que demorou a sua construção, é possível que nenhuma outra geração o tenha visto desta forma, com as suas 3400 estátuas tão inesperadamente resplandescentes, os fantásticos vitrais absolutamente recuperados, a Madonnina refulgente como nos primeiros dias. Mark Twain – e suponho que não só –  considerava o Duomo a primeira entre as obras feitas por mãos humanas.

P1020760

 

   Eu não digo tanto, mas não consigo ir a Milão sem o visitar, vez após vez.  No entanto, para mim, apesar de toda a sua monumentalidade, beleza e, acreditem, leveza, a obra mais impressionante presente no Duomo encontra-se, quase discretamente, no seu interior e mantém inalterada a patine do tempo. Trata-se da figura de S. Bartolomeu ( Miguel Angelo pintou-a no Juízo Final, na Capela Sistina, segurando a sua própria pele ) de Marco d’Agrate (1562 ) esfolado vivo, uma das maiores representações do sacrifício, da brutalidade e da intolerância humanas.

File:SanBartolomeoDuomo.JPG

 

 

Uma Cozinha no Douro

Os meus companheiros(as) do Aventar já sabem da minha paixão pelo Douro. Eu, um menino da cidade, nado e criado no Porto (Areosa) casei com uma duriense e mal pus a vista em cima do Douro Vinhateiro fiquei como aqueles senhores da UESCO: perdidamente apaixonado.

Uma das minhas perdições no Douro é o famoso D.O.C. e o seu genial Rui Paula. Não tenho por hábito, fruto de um certo pudor adquirido em casa, falar sobre este ou aquele restaurante, hotel ou outra qualquer extravagância pessoal. É reserva mínima de intimidade e um certo horror a uma qualquer cedência ao novo-riquismo tão típico dos dias de hoje. Dou um exemplo: muitos amigos tecem loas ao bife do cafeína (restaurante ainda da moda no Porto) e eu, típico labrego da Areosa, lá fui qual carneirinho experimentar o naco. Absolutamente banal, excepto no preço. O Aleixo (Campanhã-Porto) ou o Rodrigo (Maia) por metade do preço fazem a festa, deitam os foguetes e apanham as canas. Enfim, modas. E foi com esta ideia pré concebida que entrei, pela primeira vez e de pé atrás, no D.O.C.

O espanto que se apoderou de mim ao longo da refeição (provavelmente deglutida sempre de boca aberta para horror dos restantes comensais) transformou-se em êxtase absoluto no término da mesma. E sempre que regresso já não fico espantado, podendo assim comer de boca educadamente fechada, mas permanece o arrebatamento. O D.O.C. é, tal qual os patamares de vinha que nos fazem companhia ao longo da refeição, um verdadeiro Património da Humanidade e o melhor restaurante de todo o Douro e Duero, de Soria à Foz. O Rui Paula é um génio e aos génios tudo se perdoa, até os devaneios mais recentes: vai abrir um novo poiso gastronómico no Porto, no velho burgo. Um desvario. O D.O.C. não é só a comida, a excelência da dita, nem o primor do serviço ou a revolução que desencadeou, gastronomicamente falando, na região ou a partilha da carta com o próprio Rui Paula e a sua maravilhosa companhia. O D.O.C. é tudo isto por junto mas misturado com a paisagem em seu redor. Depois, depois é o Douro, provavelmente o único lugar do mundo capaz de transformar a minha Areosa, o meu Porto, a minha Maia em mero local de fugaz poiso de fim-de-semana ou de uma ou outra escapadela de férias ou de peregrinação ao Dragão – a melhor sala de espectáculos do país. Sim, sim que o Ano é novo e o final de 2010 será, espero, o princípio dessa mudança. Daí não aceitar que o Rui Paula me troque as voltas à “cantina duriense”.

[Read more…]

A real orquestra Sinfónica de Viena

Todos os anos, o mais belo espectáculo televiso, é transmitido no dia 1 !

É só despachar o almoço ( ainda cheios da noite anterior não custa nada ) procurar um lugar sossegado e deixar-se ir nas asas geniais da música de Mozart, Strauss, Malher, Haendel…

Num ambiente de uma beleza indescritivel, com gente bonita e culta que esgota a Ópera de Viena seis meses antes (belíssimo edificio, só para o visitar é preciso pagar, e nas suas cercanias actores vestidos a preceito, vendem e dão a conhecer tudo sobre a história daquele edificio) e executada por músicos exímios, a música de sempre tem um efeito de “levitação” que muito poucas vezes alcançamos.

A Companhia de bailado, com os artistas a dançarem nos largos e belos salões , a participação do público (profundamente conhecedor) em sintonia com a orquestra e o maestro (o maestro de hoje tem 83 anos), as vozes belíssimas dos jovens do “Coro de Viena ” todos com menos de catorze anos, constituem um espectáculo admirável que nunca perco.

E não acreditem que seja preciso saber música ou a história da música ou o ano de nascimento de Mozart…

Villa Cicogna-Mozzoni

Desta vez não pensava ir a Villa Cicogna-Mozzoni, mas um convite de Jacopo fez-me mudar de ideias. Para mim, é sempre um prazer revisitar a casa, os jardins e, sobretudo, rever os frescos que os irmãos Campi di Cremona ali executaram entre 1540 e 1550. E, claro, tomar um café com Jacopo ouvindo as inúmeras histórias de uma casa com séculos de História.

PC290484

A primeira parte da casa foi construída nos primeiros anos de 1400 como pavilhão de caça. Na primavera, a família Cicogna abandonava Milão, convidava outros nobres lombardos e passava o Verão em caçadas ao urso e javali por terras de Bisuschio.

Em 1440, estando presente Galeazzo Maria Sforza, duque de Milão, o mais importante nobre de toda a Lombardia ( um destes dias deixarei aqui algumas imagens do extraordinário Castello Sforzesco ), este foi atacado por um urso ferido e enfurecido. [Read more…]

Mr Holmes e doutor Watson

É um filme que se vê bem, com as deduções do Mr Holmes que só ele consegue fazer a partir de pormenores que só ele vê.

A “visão americana” do filme é que está a mais, há cenas de pancadaria de ferver, efeitos visuais e coisas que tais que os americanos fazem, muito menos interessantes que o ambiente de ” jogo de xadrez” para inglês ver .

Há tambem umas paixões dependuradas, mal resolvidas, em que o Mr. Holmes deixa que as emoções travem o passo ao “raciocinio” , o que quase lhe foi fatal, e o doutor Watson anda às voltas com uma noiva que o Mr. Holmes tenta afastar por todos os meios.

Tudo realizado pelo senhor Ritchie, ex da Madonna. Esta é que  anda agora a namorar com um jovem de 21 anos brasileiro, chamado Jesus, e não teve  disponibilidade para fazer uma das “almas danadas” que apimentam o filme.

Divirtam-se que isto é bom mas dura pouco!

Os homossexuais já se retratavam nos quartos de dormir (?) de 1540

Volto agora de Villa Cicogna-Mozzoni e vou a caminho de um jantar com amigos. Amanhã contarei uma história com História dentro.

PC290515

Hoje, deixo apenas estas fotografias de um fresco num quarto de Villa Cicogna, que foi referida aqui, desta forma:

La villa è stata definita come una delle più celebri dimore di delizie (morada de delícias, jardim de delícias).

PC290517

presentes de natal:ofertas ou coima social?

a rosa da dádiva

a rosa da dádiva

Um minuto antes de começar este ensaio, acabei um livro sobre o grupo doméstico. O livro nasceu de uma conferência proferida em Alicante, no IV Congresso de Antropologia de Espanha. Como eram 25 páginas, com imensas citações, fiz de cada citação um texto, com imagens, comentários e definições. Um livro de texto. O livro foi-se escrevendo: é um livro de texto para os meus discentes, o meu presente de Natal. Foi escrito com imagens das etnias que estudamos, fotos dos pais fundadores da nossa ciência, comentários sobre a sua vida pessoal e, como gosto de dizer, outras ervas para criar uma obra com amor nos tempos de cólera. De cólera doença, não de cólera sentimento. Enquanto escrevia, como é época de Natal, fui pensando nos presentes oferecidos, nos recebidos e no silêncio da minha casa antigamente cheia de barulho na quadra natalícia. Quer a dos meus pais, quando éramos adolescentes ou púberes, quer, quando formámos a nossa própria família, quer ainda, na minha casa de hoje, ninho vazio dos passarinhos feitos por nós, enquanto eles fazem os seus próprios e os criam.

Apareceu na minha cabeça esta ideia que o sábio Maori Tamati Rainipiri,

sábio maori Tamati Rainipiri

sábio maori Tamati Rainipiri

explicara a um discípulo de Mauss, o criador do conceito reciprocidade como oferecer – aceitar – devolver, em conjunto, reciprocar. Pensamos sempre em reciprocidade como troca mútua ou compensação. [Read more…]

Apontamentos de Inverno (3)

Rio Minho, Valença(Rio Minho, Valença)

Na senda de um deus caído

NA SENDA DE UM DEUS CAÍDO
(Dedicado ao amigo Carlos Loures, poeta da lucidez)

 Durante muito tempo fui pensando que o gosto e não gosto constituíam a base mais séria da apreciação do comum dos mortais no que respeita à obra de arte, sobretudo contemporânea. Creio que me fui deixando levar, também, pela aceitação de que esta mesma dualidade se encontrava na base da criação artística.

Só depois de ter lido que o gosto é a palavra mais caída em desuso, e depois de se ter considerado este conceito como movediço, preso não à natureza e à essência mas ao modo de comunicação exterior, sujeito a controles de natureza psicológica, institucional, mediática e propagandística, eu reflecti profundamente e dei-me conta do erro em que vinha permanecendo.

 A vida, a despeito de ser uma maravilhosa obra do acaso num Universo repleto de mistérios, obedece a determinantes geofísicas, mapas biológicos e padrões neurais inquestionáveis. Quer na arte em geral quer na pintura e na poesia, sinto um medo terrível da indistinção da fronteira entre o artificialismo, mesmo ocasional, e a consciência assumida da transparência do sentimento, legítimo filho da idoneidade e da identidade das imagens que geram as emoções necessárias à criação. [Read more…]

Um português que Portugal desconhece

 

Fernando Lemos, 83 anos de idade e radicado no Brasil há quase seis décadas. Fernando Lemos – surrealista que, como Man Ray, se notabilizou através da fotografia…

Em entrevista, ontem, ao Câmara Clara. Um português nem sempre suave.

 

 

 

 

 

A máquina do tempo: é a arte necessária?

 

 

 

 

 

Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra, pela magia da cor, pelo sortilégio do som, cria a beleza para a ofertar aos homens. E produz esta magia usando as mesmas palavras que se utilizam, no dia a dia, para comprar pão, as mesmas cores com que se pintam muros e os mesmos sons que ecoam por campos e cidades. É o poder mágico do homem sobre a natureza hostil que o rodeia, transformando-a, adaptando-a a si. Humanizando-a. E como? Pelo poder da palavra, pela magia da arte. Por isso, enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá. Esta, a natureza da arte, é uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Não vou entrar por aí – o GPS da minha máquina não funciona em labirintos.

 

 

Por isso, a nossa viagem de hoje não nos levará para tão longe. Mais recentemente, nos anos 60 do século XX, num trabalho com o título «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), o ensaísta austríaco,  dizia que «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Na verdade, com o advento do capitalismo, surge pela primeira vez na história das civilizações uma classe dominante que não procura colocar, de uma maneira objectiva, a arte ao seu serviço. Pela primeira vez, o artista é livre de qualquer tutela e fica desvinculado das suas obrigações para com a comunidade de que faz parte.

 

Naturalmente que esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. Em alternativa, à submissão. É uma liberdade que, em última instância, o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro. Das duas uma: ou o que produz é mercadoria vendível ou é rejeitado. Rectifico, portanto: o capitalismo não dá liberdade ao artista – abandona-o, rejeita-o, ignora-o. Dá-lhe a liberdade de aceitar as suas leis ou de não existir.

Voltemos a Fischer: «O artista na época do capitalismo encontrou-se numa situação muito peculiar. O rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro: o capitalismo transformou tudo em mercadoria.» A arte passou, pois, a ser uma mercadoria e o artista um produtor. O sistema de mecenato foi substituído por um método de iniciativa privada e por um mercado livre onde a apreciação mercantil da obra ficou à mercê do gosto do público, gosto (de)formado por toda uma dinâmica de relações de mercado. Digamos que um livro, um quadro, uma partitura, têm de submeter-se às contingências da competição mercantil, às leis da oferta e da procura.

Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, viviam de tenças, de sinecuras ou de cargos atribuídos pela Corte. Shakespeare, ainda que burguês de origem, fazia parte da casa do conde de Leicester, submetendo-se a um estatuto feudal. Milton, que foi secretário dos negócios estrangeiros de Cromwell pôde guiar-se por uma norma burguesa, conciliando a sua poesia com as condições em que a criava, com uma total identificação entre a sua obra e as suas concepções políticas e sociais. Também manda a verdade que se diga que os artistas raramente foram gratos a quem os apoiava. Como disse Montesquieu «quase todas as monarquias foram instituídas na ignorância das artes e destruídas porque as cultivaram demais.» Por vezes a arte foi a víbora que tiranos distraídos alimentaram e que os veio a destruir.

Mas então não é um avanço o facto do artista poder criar a sua obra sem ter de agradar aos mecenas, ao rei, a senhores feudais, a burgueses ou ao Estado? Num certo aspecto,  é verdade. Porém, não esqueçamos que agora é a opinião pública que ajuíza do valor da sua obra. E como é formada (ou deformada) essa opinião? Por pedagogos, por gente de cultura? Não. Os chamados opinion makers são, em regra gente ou inculta ou desonesta, frequentemente as duas coisas. O «gosto popular» é formado pela imprensa – tablóides, revistas do coração – pela televisão, da forma que se sabe – telenovelas, reality shows, talk shows e toda essa tralha que nada tem a ver com a cultura. Em suma – o «gosto popular» é construído pelo marketing. No que se refere ao vestuário, à alimentação, a tudo – e também aos hábitos culturais.

Vejamos a literatura. A síndrome de Dan Brown leva a que se produzam em catadupa romances com a dimensão de tijolos competindo em acção e intriga, em teorias da conspiração e teses esotéricas com as séries televisivas e com os filmes de Hollywood. É este tipo de literatura que mais se consome. Está nas grandes superfícies a par com os iogurtes que regulam o trânsito intestinal, com os cereais que mantêm a linha, com o pão tipo esferovite, com as bebidas à base de aditivos… Terão estes livros alguma coisa a ver com arte? Acho que não. Mas têm tudo a ver com as necessidades do mercado.

Saramago, um bom e prestigiado escritor, recorre ao marketing para vender. O que vende milhares de livros seus não é apenas a inegável qualidade da sua escrita, mas a habilidade com que a promoção das suas obras é feita. Atente-se no exemplo recente de «Caim». As declarações que o Nobel produziu em entrevistas sobre a Bíblia são bem mais agressivas do que o livro propriamente dito que se limita a recontar uma história bíblica, virando-a do avesso, mas levando-a a sério. Resultado: a Igreja Católica, mesmo antes de ler o texto, saltou encolerizada, a polémica instalou-se, o livro vende-se a bom ritmo. Ontem, no décimo dia após o lançamento, esgotou-se a 4ª edição – 80 mil exemplares vendidos. É Saramago igual a José Rodrigues dos Santos ou a Margarida Rebelo Pinto? Claro que não. É um bom escritor. Mas numa coisa são iguais –  estão submetidos às leis do mercado, são tutelados pelas regras do marketing.

Dirão, «mas então uma das funções da arte não é precisamente a de entreter, a de distrair? Antes da escrita, quem contava histórias nas cavernas ou as pintava na rocha, não correspondia, nesse esforço de recrear, aos artistas actuais? Sim, uma dos objectivos  da arte será esse. Mas há um outro, mais importante – que é o de chamar a atenção para os problemas do ser humano e da humanidade – «abrir portas fechadas». Voltemos então a Ernst Fisc
he
r.

Criar de acordo com o que o mercado pede é, como disse Fischer, «passar por portas abertas»: «A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas. A cultura deve ser compreendida como todas as formas de expressão artística e todo o património material é simbólico da sociedade. Esse conjunto é fundamental para a nossa memória e identidade. Quando se promove oportunidade para que todos os grupos, inclusive as minorias, se exprimam culturalmente, fomenta-se o respeito pela diversidade. Assim, a cultura constitui-se como um veículo eficaz de promoção da paz, da cidadania, da coesão nacional». 

Quando o artista trabalha exclusivamente com a preocupação do mercado está a trair a arte. Pessoa escreveu os seus maravilhosos textos não para o mercado, mas para o baú onde os ia arrumando. Os anos 20 e 30 do século XX não estavam preparados para os receber. Morreu apenas tendo publicado o livro menor que foi a «Mensagem». Suspeito de que tinha consciência da sua grandeza. E, se assim foi, mais difícil lhe terá sido não ter destinatários para essa grandeza, gente que o lesse, críticos, leitores… Público, numa palavra.

*

Fischer salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um primata superior num homem. O homem produziu a magia que deu lugar à humanidade. É um produto de si mesmo. Só inventou deuses porque não entendia nem os mecanismos, nem o poder da sua própria magia. Não entendia também a natureza sobre a qual exercia essa magia. E precisava de explicar tudo isso. E a sua magia criou também os deuses e a lenda de que tinham sido os deuses a criar o homem.

A mão precedeu o cérebro no desvendar dos mistérios. A agilidade da mão fabricou o utensílio: mão e utensílio passaram a ser indissolúveis. Por isso disse aqui há dias que «no princípio era o trabalho». O homem primitivo não distinguia a sua actividade do objectivo que a determinava – actividade e objectivo formavam uma unidade. A abstracção veio depois com o advento da palavra. E a palavra veio substituir a magia. Transformou-se ela própria em magia. Os homens eram todos magos. Com a palavra consolidou-se o salto entre animal e ser humano.

Com a palavra nasceu a poesia, como referi num texto em que falei de George Thomson e do seu estudo sobre a origem e a evolução da poesia. Foi-me chamada a atenção para a antiguidade do texto de Thomson (e a primeira edição do texto de Fischer remonta já aos anos 60). As deduções que estabeleço não se baseiam nas últimas descobertas da antropologia, é um facto. Mas não é o estar em dia nessa informação que me preocupa. Há reflexões de Aristóteles que continuam a ser pertinentes. E ele não via a «National Geographic»…

Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo.  A arte, em todas as suas formas, era uma actividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu carácter colectivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegral, total. A arte é uma realidade social.

 

Embora não tenha consciência disso, a sociedade necessita do artista e da arte É a arte, entendida nos seus múltiplos aspectos, que leva o homem a compreender a realidade, e mais , a suportá-la e, até a transformá-la, tornando-a mais humana. A arte é indispensável. Sem ela a humanidade fica amputada e confinada à sua animalidade. Sem arte não há humanidade. Poderá haver robôs ou produtos da engenharia genética. Mas já não serão homens.  

Enquanto houver seres humanos, a arte não morrerá.

 

 

 

Carlos Vidal – Saramago deita a arte fora*

 

Esta conferência de imprensa é deprimente e desoladora. Vi um minuto e, por favor, mais não. A crueldade e o incesto está em toda a história da arte. A Bíblia é uma grande alegoria da condição humana e das suas misérias. Inspirou quase toda a história da arte.

Só pode satisfazer-se com estas declarações de Saramago quem com a arte não se relaciona, nunca se relacionou, nem se relacionará. Sem o saber, Saramago deita a arte quase toda fora.

E não é preciso ser "Igreja" (que não sou nem nunca fui) para afirmar isto.

Comunista e ateu também eu sou, mas dediquei anos e anos de vida a Caravaggio (uma das bases do meu doutoramento já entregue há algum tempo). Não pode vir um tipo de Lanzarote, tenha o prémio que tiver, deitar isto fora, nem o Caravaggio, nem o meu trabalho sobre o dito cujo.

É só pensar um pouco: Saramago ataca a arte e não a Igreja (instituição que desconheço de todo).

 

* O Carlos Vidal, «blogger» do «5 Dias», comentou desta forma a conferência de imprensa de José Saramago a propósito da polémica que já vai longa. Entendi que este comentário merecia ser transformado num «post». O Carlos concordou.

A Minha Mona Lisa

A partir de um dia que nem queria lembrar, em Junho deste ano, temos andado a trabalhar – os que têm trabalho – e a votarmos cidadãos todos: parlamento europeu, poder executivo de Portugal ou Assembleia como todos dizem, para finalizar com as mais importante de todas: as eleições sobre autarcas dos mais de 300 Concelhos de Portugal. Votamos e ganhamos todos, em todas. Não tenho ouvido ninguém reconhecer que tem perdido, ainda que tenham mudado de número de representantes aos que o povo entregou pastes da sua soberania.

Mas será que o nosso mundo está dividido entre o trabalho, as eleições as mortes e o IRS?

De certeza deve haver mais actividades e comemorações. Este ano comemoramos os 100 anos da morte do ilustre compositor, Franz Joseph Haydn, esse autor que nos encantara com a sua música clássica, ao abandonar a composição barroca pelo classicismo, junto com Wolfgang Amedeus Mozart e Ludwir van Beethoven. Uma triada de compositores que permitem descansar de tanto discurso que se ouve ou nas ruas, ou na televisão. O compositor do quarteto mais calmo do mundo: As Sete Útimas Palavras de Cristo na Cruz, de 1786, para dois violinos, uma viola, um cello e uma coro acrescentado após o ter apresentado, como solicitado, ao Arcebispo de Cádis, apenas com instrumentos. Foi um padre quem lhe acrescentara um coro. Haydn ficara tão deliciado, que o  refez, acrescentado um coro como o quinto instrumento que entra no quarteto. Temo-nos deliciado todos os dias de manhã, ao ligar o radio e ouvir essa a sua imensa música. Com tanto movimento que alegra a nossa vida.

 

E a suposta descoberta de uma pintura de Leonado da Vinci, com essa encantadora senhora que sorrí com um riso sereno e calmo, sempre a olhar para nós? Dá a impressão não apenas de calma, mas de candor, simpatia, paz, alegria, como se estiver a nos oferecer um conselho ou a espreitar para nós com doçura. Mal vemos essa cara e sorriso, ficamos namorados, como se estivermos  a ouvir a reiterada sonata I de Die Sieben Letzten Worte Unsere Erlösers Am Kreuze.de Haydn. Quem vê a minha Mona Lisa, fica prendado pela companhia, pela colaboração, até nos esquecermos das cores apagadas que datam do ano 1505. A sua figura aparece apagada pelas cores de  Outono,. mas esse fundo esverdeante faz ao nosso coração palpitar. A primeira vez que a vi no Louvre, esse óleo de 61 cm por  91.5 essa miniatura acaba por ser um gigante que nos entontece. A mulher que amamos é, de certeza, a nossa Mona Lisa. Foi a obra de Da Vinci, quando o velho Continente começava a resumir. Foi o primeiro pintor da renascença.. Renascença, ou essa alvorada no saber, na ciência, na descoberta de outra terras, da reformas da confissão romana entre outra vária no Século XVI: Luteranismo na Alemanha e países vizinhos, que abandonaram Roma para criar um sentimento de fé que eu não tenho, e tornar as crenças misteriosa, apenas para iniciados em sacramentos da ordem sacerdotal, em saberes populares, como fez Jean Calvin na União Helvética, John Knox na Católica Escócia que passara a ser presbiterial ou orientada por vizinhos  de boa reputação, ou esses da mã reputação na Inglaterra desses tempos, os Tudor. E outros. A descoberta de que o mundo era redondo e que se podia contornar pelo mar, fizeram da República de Veneza entre Marco Polo e a minha Mona Lisa, não essa nova, mas a eterna, virar ao mundo do avesso.

Lã ficou a mina Mona Lisa a nos encantar enquanto o mundo debatia se o saber era teologia o ciência. Aparece como distanciada do tempo, dos debates, dos desencontros, das reformas e, especialmente dos dissabores dos que desejam mandar e queimam em fogueiras o com o pensamento, a dedicação aos seres humanos que amamos

A minha Mona Lisa é eterna e não há descobertas para a mudar. Fico em paz…Descasemos de política e debates, com a arte de criar…e sorrir com a Minha Mona Lisa que nunca mais aparece,,

 

 

Poesia: ao Carlos Loures em jeito de réplica

Meu caro Carlos Loures, partilhando das mesmas inquietações acerca da arte em geral e da poesia em particular, dedico-lhe este pequeno excerto retirado de um clássico da literatura sobre o assunto:

«A poesia, em sentido geral, pode ser definida como “a expressão da imaginação”, e é congénita do homem. Este é um instrumento para o qual uma série de impressões internas e externas é conduzida, como a alternância de um vento sempre mutável, para uma harpa eólica, fazendo-a vibrar numa melodia sempre vária. Mas um princípio existe em todo o ente humano, e talvez em todos os seres sensíveis, que actua de maneira diversa daquela como age na lira e produz não só melodia, mas harmonia também, mercê de um ajustamento interno de sons e de movimentos assim excitados, ás impressões que os excitam. É como se a lira pudesse acomodar as suas cordas ao movimento do que as fere, numa determinada proporção de som, da mesma maneira que o cantor pode acomodar a sua voz ao som da lira.

Uma criança a brincar sozinha exprime a sua satisfação pela voz e pelos movimentos; e cada inflexão de tom e gesto possui uma relação exacta com um antitipo correspondente nas impressões agradáveis que o despertaram: é a imagem reflectida dessa impressão. E, assim como a lira vibra e ressoa após o vento se haver esvaído, assim a criança, prolongando na sua voz e movimentos a duração do efeito, procura prolongar também a consciência da causa. Em relação aos objectos que deleitam a criança, estas expressões são o que a poesia é para os objectos mais elevados.

O selvagem (pois o selvagem está para as idades como a criança para os anos) exprime as emoções nele produzidas pelos objectos circundantes de uma maneira idêntica; e a linguagem e o gesto, juntamente com a imitação plástica ou pictórica, devêm a imagem do efeito combinado desses objectos e respectiva apreensão.

O homem em sociedade, com todas as suas paixões e prazeres, torna-se em seguida objecto das paixões e prazeres do homem; uma classe adicional de emoções produz um tesouro aumentado de expressão; e linguagem, gesto e artes imitativas, devêm imediatamente a representação e o meio, o lápiz e o desenho, o cinzel e a estátua, a corda e a harmonia.»

… o autor ?

SHELLEY em «DEFESA DA POESIA» de 1820 !

… diga-me lá, honestamente, se não está já lá tudo em potência, senão em acto ? e neste particular, quem precisa do marxismo ou mesmo da antropologia para perceber a coisa ?

abraço.

Maité, não abras a boca

A menina veio agora dizer que afinal se trata de humor, que lá no Brazil até gozam com o Lula e com gente importante. Coitada da rapariga está convencida que nós cá não chamamos mentiroso ao primeiro ministro, Pinóquio e o mais que for preciso, à Lurdinhas, à Manela…

A menina não percebeu que nós não lhe perdoamos porque ela brincou com o Mosteiro dos Jerónimos e com Sintra. No primeiro, cuspiu, mostrando aliás uma bela técnica que me faz adivinhar que tem tido muito treino em actuações bem mais recatadas…

Em Sintra, chamou a atenção para um três que, segundo ela, está ao contrário. A pobrecita, nem sequer tem imaginação, que na terra que Lord Byron amou aquela silhueta faz mais lembrar uma mulher de costas a oferecer-se ao seu amante. Lá está a cabeça, levemente inclinada sobre o peito no abandono do amor, as costas arqueadas em leve arfar, a cintura de vespa, e a seguir, voluptuosas, as ancas que recebem o seu homem.

Mas, realmente, não lhe podemos pedir o que não tem. E ainda não há lipoaspirações aos neuróneos!

Não faz ideia nenhuma sobre a história daqueles lugares, julga mesmo que tudo se resume a praia e a caipirinha, entremeada com “rapidinhas” no areal. Quando está de mal de massas vem a Portugal vender literatura de cordel e novelas de mau gosto.

Te amo, Portugau…

eh pá, vamos lá manter o nível !

… e não percam tempo com minudências: uma cervejinha europeia e fica logo tudo mais calmo !

A pena de morte vista por pintores

A pena de morte é um tema recorrente na História da Arte ocidental. Bastará lembrar que o são todas as representações da crucificação de Cristo, não falando de milhares de versões do martírio de centenas de santos. Deixo-vos com três obras primas que nunca deveriam ter sido pintadas.

Yue Minjun, Execução

Yue Minjun, Execução

Goya, Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808

Goya, Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808

Manet, A execução de Maximiano

Manet, A execução de Maximiano

… finalmente, um nobel para a literatura !

… permitam-me um momento de felicidade (essa coisa que não sei muito bem o que é mas que também pouco me interessa) e um momento de radicalismo intelectual (essa coisa que faz asco a muita gente) : de longe a longe, de muito muito longe, o Nobel da Literatura é atribuído a um(a) escritor(a), o que é muito muito estranho. Herta Muller é um portento da literatura novecentista. a literatura não é uma questão de «gosto». ponto final. por vezes a academia sueca engana-se. ainda bem.

o homem Herta Muller, O Homem é um grande faisão sobre a terra, trad. Maria Mendonça, Cotovia, 1993. (edição de 1500 exemplares; ainda se encontra à venda, fora de catálogo, nos célebres mercados do livro, vejam lá  !)

a terra das ameixas_0002

 

 

 

 

 

 

 

 

Herta Muller, A Terra das Ameixas Verdes, trad. de Maria Lopes, Difel, 1999.

um excerto:

a dália branca
«Nos dias escaldantes de Agosto, a mãe do carpinteiro tinha metido, com um balde, uma grande melancia dentro do poço, A água fez ondas à volta do balde. A água borbulhou em volta da casca verde. A água refrescou a melancia.
A mãe do carpinteiro foi com uma grande faca para a horta. O carreiro era um rego. A alface tinha espigado. As folhas estavam coladas com o leite branco que lhes corre nos pés. A mãe do carpinteiro levava a faca ao longo do rego. Onde a sebe começa e a horta acaba, florescia uma dália branca. A dália chegava-lhe ao ombro. A mãe do carpinteiro cheirou a dália. Cheirou prolongadamente as pétalas brancas. Aspirou a dália. Esfregou a testa e olhou para o pátio.
A mãe do carpinteiro tinha cortado a dália branca com a faca grande.
‘A melancia foi uma desculpa’, disse o carpinteiro depois do funeral. ‘A dália é que foi a perdição dela.’ E a vizinha do carpinteiro disse: ‘A dália era um rosto.’
‘Por este verão ter sido tão seco’, dizia a mulher do carpinteiro, ‘é que a dália estava cheia de pétalas brancas enroladas. Fez-se tão grande como nenhuma dália alguma vez podia ser. E como houve vento neste Verão, não se desfez’. Embora já não tivesse vida, não conseguiu murchar.’
‘Isto não se aguenta’ disse o carpinteiro, ‘ninguém consegue aguentar isto.’
Ninguém sabe o que a mãe do carpinteiro fez com a dália branca. Não levou a dália para casa. Não a pôs no quarto. A dália também não ficou caída na horta.
‘Ela veio da horta. Trazia a faca grande na mão’, disse o carpinteiro. ‘Nos olhos dela havia qualquer coisa da dália. A córnea estava seca.’
‘Pode ser que tenha esperado pela melancia’, disse o carpinteiro, ‘e entretanto tenha desfolhado a dália. Desfolhou-a com a mão. Não havia pétalas espalhadas pelo chão. Como se a horta fosse uma sala.’
‘Acho que’, disse o carpinteiro, ‘ela abriu um buraco na terra com a faca grande. Enterrou a dália.’
A mãe do carpinteiro tirou o balde do poço ao fim da tarde. Levou a melancia para a mesa da cozinha. Espetou a faca na casca verde. Com a faca na mão fez um círculo com o braço e cortou a melancia ao meio. A melancia rachou. Foi um estertor de agonia. No poço, sobre a mesa da cozinha e até cair aberta em duas metades, a melancia ainda estava viva.
A mãe do carpinteiro esbugalhou os olhos. Como tinha os olhos tão secos como a dália, não se abriram muito. O sumo escorria pela lâmina da faca. Os seus olhos pequenos olhavam com hostilidade a polpa vermelha. As pevides pretas pareciam os dentes dum pente encavalitados uns sobre os outros.
A mãe do capinteiro não cortou a melancia em talhadas. Pôs as duas metades da melancia à sua frente. Com a ponta da faca escavou a polpa vermelha. ‘Tinha os olhos mais gulosos que já se viram’, disse o carpinteiro.
O líquido vermelho escorrera pelo tampo da mesa da cozinha. Escorria-lhe dos cantos da boca. Pingava-lhe dos cotovelos. O sumo vermelho da melancia ficou colado ao chão.
‘Os dentes da minha mãe nunca foram tão brancos nem tão frios’, disse o carpinteiro. ‘Enquanto comia dizia: não olhes dessa maneira. não me olhes para a boca.’ E cospia as pevides pretas para a mesa.
‘Eu virei os olhos. Não saí da cozinha. Tive medo da melancia’, disse o carpinteiro. ‘Olhei para a rua pela janela. Vi passar um homem desconhecido. Ia apressado e falava sozinho. Ouvia pelas costas como a minha mãe escavava com a faca. Como mastigava. E como engolia. Mãe, disse eu sem a olhar, pára de comer.’
A mãe do carpinteiro levantara a mãe. «Gritou e eu olhei para ela por ter gritado tão alto’ disse o carpinteiro. ‘Ela ameaçou-me com a faca. Isto não é um verão e tu não és gente, gritou ela. Sinto uma pressão na testa. Tenho as tripas a arder. Isto é um verão que lança as chamas do fogo de muitos anos passados. Só a melancia é que me refresca.»
herta muller «o homem é um grande faisão sobre a terra»

manual sobre a verdadeira escuta!

woody_allen_image_sleeper«A escuta telefónica pode ser empregue indiscriminadamente, mas a sua eficácia fica ilustrada por esta transcrição de uma conversa entre dois chefes de gang da área de Nova Iorque cujos telefones estavam sob escuta do FBI.

anthony: Está lá? Rico?

rico: Está lá?

anthony: Rico?

rico: Estou.

anthony: Rico ?

rico: Estou a ouvir mal.

anthony: És tu, Rico? Não estou a ouvir.

rico: O quê?

anthony: Estás a ouvir-me ?

rico: Está lá ?

anthony: Rico?

rico: A ligação está má.

anthony: Estás a ouvir?

rico: Está lá?

anthony: Rico?

rico: Está lá?

anthony: Telefonista, a ligação está má.

telefonista: Desligue e torne a ligar.

rico: Está lá?

Por causa desta evidência, Anthony (o Peixe) Rotunno e Rico Panzini foram condenados e estão a prestar serviço, por quinze anos, em Sing Sing por posse ilegal de erva.»

woody allen, «para acabar de vez com a cultura» 1966. trad. jorge leitão ramos. bertrand editora.

ass. anarquista mulder (especialista em scullys, escapes e tubos de ensaio)

viva a suíça !

Roman Polanski and Sharon Tatea suíça em um belo país. o próprio nome «s-u-í-ç-a» é belo. a suíça é o mais limpo país do mundo. a suíça tem bancos. a suíça tem os bancos mais limpos do mundo. a suíça tem neve. a neve na suíça é branca. os suíços são poliglotas. enquanto as salas e os países têm cantos, a bela suíça tem cantões. a suíça é íntegra. a suíça é neutral. durante a segunda grande guerra, a suíça nunca albergou espiões nazis. a suíça nunca toma partido. a suíça tem emigração portuguesa que trata de limpar o país. se os portugueses de portugal cospem no chão, os portugueses da suíça limpam os escarradores dourados dos suíços. a suíça já bateu o pé à grande frança num europeu de futebol. a suíça não tem mar. a suíça é um in-shore. eu nunca gostei da suíça porque não tenho bom gosto. quem tem bom gosto não pode deixar de gostar da suíça. a suíça tem queijos. a suíça tem chocolates. a suíça só faz bem ao mundo e se por acaso faz mal é só ao colesterol. os suíços são os melhores europeus de que há memória. tudo isto já sabíamos. apenas não sabíamos que os suíços têm um sistema judicial que funciona e que está atento a toda e qualquer injustiça universal. qual baltazar garzón qual quê  ? a suíça acabou finalmente de prender o grande pedófilo franco-polaco roman polanski. três décadas depois de abusar da norte-americana samantha geimer e de ter fugido dos estados unidos da américa, a suíça apanhou-o. foi simples. o isco foi a pretensa homenagem ao abjecto realizador no festival de cinema de zurique. ora o ingénuo homem lá aterrou na suíça e deitaram-lhe as mãos. agora querem extraditá-lo para que a justiça se faça. a velha europa está escandalizada. também a polónia, a pátria de joão paulo II. três décadas passadas samantha geimer já perdoou ao senhor e gostaria de viver em paz. a suíça não. justiça é justiça. a suíça não perdoa a um realizador demente que expõe todas as suas perversões pessoais em «repulsa», «faca na água», «a semente do diabo» (uuiiii!!!) ou «o inquilino» – onde o referido esquizofrénico se veste de mulher e pinta os lábios (de mulher!!!!). a suíça diz e muito bem: a arte não é desculpa para perversidades ! a suíça não se impressiona com «pianistas» ! viva a suíça !

ass: anarquista duval

atrasa lá o museu, por favor !

thegoldendays… abrem-se as páginas 16 e 17 do Público e lê-se:

1. o novo MUSEU DO CÔA, cuja abertura está para breve mas sem data marcada, necessita de um «gestor cultural» e de um novo modelo de gestão (o que quer dizer que poderá abrir e depois lá se escolherá um gestor e um modelo). gravuras rupestres?

2. a obra do novo MUSEU DOS COCHES está parada por questões logísticas (i.e. o transporte de pessoas e equipamento). carros sem motor?

3. o alargamento do MUSEU DO CHIADO avança dez anos depois (mas na realidade ainda não avançou, vai avançar um dia destes). rabiscos?

sobre política cultural neste país…  atrasa lá o museu, por favor !

ass. anarquista duval

balthus, «the golden days»

PS culturalmente igual a 0,4%

É quanto vale para o PS a Cultura. No Orçamento do presente ano vale 0.4% do PIB e em 2008 valia 1%. Felizmente que já não vai poder decidir sozinho se não íamos ficar sem Cultura no Orçamento, grande medida para baixar a despesa do Estado.

É por isso que os nossos monumentos, Património Mundial, estão tão mal tratados, que os nossos teatros, como diz a Carla, são entregues a espectaculos mil vezes vistos, que não há apoio a jovens artistas .

Mas só para consultores estão lá inscritos 400 milhões, não vá faltar consultorias a dizer o que é preciso para convencer o pagode. Isto é de uma pobreza que mata, isto só pode vir de alguem que não lê um livro e que não vai a um museu, como é que se esquecem os nossos monumentos magnificos, velhos de séculos, é assim tão dificil perceber que podemos ter um turismo fluorescente só à volta do nosso património histórico? Que poderia pagar a manutenção e as melhorias nesta área em que somos tão ricos?

Por essa Europa fora, nas visitas ao património, tudo é de um profissionalismo que só pode emergir do grande amor que se tem pela Cultura do país, há uma política cultural que está bem presente nas organizações das visitas e dos espectaculos. Aqui a Cultura não só desapareceu do orçamento como o próprio ministro anda há muito desaparecido .

Agora temos uma política assaz curiosa. As empresas de construção civil são obrigadas a contribuir para a reabilitação do património. Como fazem? O custo fica logo no preço pago nas adjudicações ?

Arte, beijos e propaganda

chavezcorrea450cx

Suposta obra de arte, propaganda reaccionária, uma droga, uma coisa, são alguns dos epítetos com que é mimoseada  esta pintura, exposta na capital colombiana por ocasião da IV Temporada de Artes de Bogotá.

Não consegui localizar o nome do autor, mas o trabalho tem a sua graça: intitulado “¿Por qué no te callas?, numa legenda em círilico, transcreve o célebre beijo entre os ditadores Leonid Brezhnev e Erich Honecker, dado em 1979 num acto público na Alemanha então dita democrática, para os democraticamente eleitos presidentes do Equador e da Venezuela. Em fundo identifico outros dirigentes das emergentes correntes da esquerda bolivariana.

Brezhnev-Honecker

Vamos por partes: sem querer aprofundar o assunto, arte e propaganda, ou arte e ideologia, são irmãs gémeas e siamesas. Vivemos com isso há milhares de anos, e ainda bem. Único critério aceitável para tal: a liberdade de expressão.

Enquanto continuarem a representar os seus povos sendo por eles democraticamente eleitos tenho a maior das considerações pelos presidentes ora retratados, muito mais por Rafael Correa que pelo militar Chavez, é claro, um tudo nada populistas de mais para o meu gosto, é certo, e não os coloco no mesmo saco dos criminosos que realmente se oscularam numa das piores ditaduras do séc. XX.

Já nas críticas  ao quadro encontro homofobia e machismo serôdio q. b., e patetice em abundância. Quem escreve isto:

Por exemplo: uma coisa que diz chamar-se «Fundação Coração Verde» acaba de organizar uma coisa a que chamou «IV Temporada de Arte de Bogotá» e que consta de uma coisa a que chamam «exposição de artes plásticas».

devia ter feito o trabalho de casa, e lido isto:

La cultura China, como invitada especial al evento inaugural de la IV Temporada de Arte de Bogotá, FORMARTE 2009, gracias a la gestión de la Embajada de la República Popular China, se presentará en todo su esplendor, con milenarias expresiones artísticas de oriente, interpretadas por el “Folk Music Group of Tiajin Song & Dance Theatre, las cuales transportarán a los asistentes a los diversos escenarios chinos.

Exacto Fernando Samuel, a coisa inclui os seus queridos camaradas chineses. Não quer ir dar-lhes um beijo na boca?

visões estéticas contemporâneas

597_42Oskar Schlemmer
Manifesto da primeira exposição da Bauhaus
1923

«A Staatliches Bauhaus de Weimar é a primeira e, até agora, a única escola estatal do Reich – se não do mundo inteiro – que convida as forças criativas das belas artes, enquanto conservem a sua vitalidade, a actuar. Ao mesmo tempo, mediante a instalação de oficinas sobre bases artesanais, se impôs como tarefa uni-las num todo, numa compenetração frutuosa para as fazer convergir com a arquitectura. O conceito de arquitectura deve restabelecer a unidade que feneceu no envelhecido academismo e nos afectados ofícios artísticos, e tem que restabelecer a grande relação com o todo e possibilita, no sentido mais apurada, a obra de arte total. O ideal é velho, mas a sua aparência é sempre nova. O seu culminar é o estilo e a vontade de estilo nunca foi mais poderosa que na actualidade. Mas a confusão dos espíritos e dos conceitos causaram conflitos e disputas sobre a natureza desse estilo que deve aflorar como a nova beleza dessa confrontação de ideias. Semelhante escola, animadora e animada em si mesma, converte-se num barómetro das convulsões da vida pública e intelectual do seu tempo e a história da Bauhaus converter-se-á na história da arte contemporânea.


A Staatliches Bauhaus fundada depois da catástrofe da guerra e no caos da revolução e na era do florescimento de uma arte explosiva e emocionalmente cheia de pathos, vem a ser o ponto de reunião de todos os que, com fé no futuro e um entusiasmo transbordante, querem construir a catedral do socialismo. Os triunfos da indústria e da técnica antes da guerra e as orgias sob o signo da sua destruição despertaram aquele romantismo veemente que era uma proposta ardente contra o materialismo e a mecanização da arte e da vida. A miséria da época era também a miséria dos espíritos. O culto do inconsciente e do indecifrável, a propensão ao misticismo e ao sectarismo brotaram na procura das últimas coisas que estavam em perigo de perder todo o seu significado num mundo pleno de vacilações e rupturas. A ruptura dos limites da estética clássica fortaleceu a preeminência da emoção que encontrou o seu alimento e confirmação na descoberta do Oriente e da arte negra, dos camponeses, das crianças e dos doentes mentais. A origem da criação artística foi, assim mesmo, tanto mais investigada quanto os seus limites se extenderam mais audazmente. O uso apaixonado dos meios expressivos florescia como nas imagens dos altares. Foi no quadro, sempre no quadro, que se refugiaram os valores decisivos. Ele tem que assumir a sua divida com a síntese proclamada, independentemente da unidade do mesmo quadro, como a conquista mais elevada da exaltação individual.
A inversão dos valores, as mudanças dos pontos de vista, o nome e o conceito dão como resultado a imagem oposta, o novo credo. DADA, o buffon da Corte neste reino joga à bola com os paradoxos e liberta e purifica a atmosfera. O americanismo transposto para a Europa, cunho novo no velho mundo, morte ao passado, a luz da lua e a alma, assim avança o tempo presente com traços de conquistador. A razão e a ciência, os poderes supremos do homem, são os guias, e o engenheiro é o executor imperturbável das possibilidades ilimitadas. As matemáticas, a construção e a mecanização são os elementos. O poder e o dinheiro são os ditadores destes fenómenos modernos de ferro, cimento, vidro e electricidade. Velocidade da matéria rígida, desmaterialização da matéria, organização da matéria inorgânica, todos produzem o milagre da abstracção. Baseados nas leis naturais, são a obra do espírito para dominar a natureza. Apoiados no poder do capital, convertem-se em obra do homem contra o homem. O tempo e a hipertensão do mercantilista convertem-se na utilidade e finalidade na medida de toda a actividade, e o cálculo apodera-se do mundo transcendente: a arte converte-se num logaritmo. A arte, até há pouco desprovida do seu nome, vive a sua vida depois da morte no monumento do cubo e no quadrado colorido. A religião é o processo mental exacto e Deus está morto. O homem, o ser consciente de si mesmo e perfeito, superado por qualquer manequim na exactitude, aferra-se aos resultados da fórmula do químico até que seja encontrada também a fórmula para o espírito.
Goethe: Quando se realizarem as esperanças de que os homens se unam e se conheçam mutuamente em toda a sua força, com a mente e o coração, com o entendimento e o amor, ninguém poderá imaginar o que ocorrerá. Nesse momento já não necessitará de criar pois nós criamos o seu mundo. Esta é a síntese, o resumo, a intensificação e a densificação de tudo o que é positivo para formar um poderoso centro de forças. A ideia do centro, alheada da mediocridade e debilidade, entendida como balança e equilíbrio, converte-se na ideia da arte alemã. Alemanha, país central, e Weimar, o seu coração, não são pela primeira vez o local eleito de decisões espirituais. Trata-se de reconhecer o que é apropriado para nós com o objectivo de não ficarmos sem objectivo. No equilíbrio das oposições polares, amando tanto o mais remoto passado como o mais remoto futuro, conjurando tanto a reacção como o anarquismo, avançando desde o fim em si mesmo, desde o eu singular até ao típico, ao problemático, ao válido e seguro, chegaremos a ser os portadores da responsabilidade e a consciência do mundo. Um idealismo da actividade que abarque, penetre e una a arte, a ciência e a técnica e que incorpore a investigação, no estudo e no trabalho, realizará a construção artística do homem que, no que respeita ao sistema cósmico, é somente uma metáfora. Hoje apenas podemos avaliar o plano de conjunto, colocar os fundamentos e preparar as pedras para a construção.
Mas,
Somos, Queremos, e Criamos ! »

oskar schlemmer, escritos sobre arte: pintura, teatro, danza. cartas y diarios, paidos estética, barcelona, 1987.

comentário: a Bauhaus (1919-1933) criada por Walter Gropius contou com importantes ideólogos e mestres, para além deWassily Kandinsky e do próprio fundador. Entre eles contava-se O.S.  A sua contribuição foi decisiva, por exemplo, nos ateliers de teatro. Este pequeno texto – diferente dos manifestos bem mais conhecidos e técnicos de Gropius, Kandinsky ou Albers – resume, em última instância, o ideal técnico-prático bem conhecido da escola mas também o misticismo estético que, por exemplo, J. Itten e J. Albers desenvolveram a partir da teoria das cores e da oposição «método/intuição» no ensino artístico.

Recordando João Vieira


Uma das consequências de se viver durante muito tempo é assistir-se à partida de muita gente, familiares, amigos, conhecidos. Ontem, estava a almoçar e a ver televisão (um mau hábito), e fui surpreendido com a notícia da morte do pintor João Vieira. Não se pode dizer que fôssemos amigos; tampouco inimigos. Digamos que nos conhecíamos e nas poucas vezes em que nos víamos tínhamos uma relação cordial. Sentia uma grande admiração pela grande qualidade da sua pintura. Tenho uma serigrafia do João em minha casa e, na última vez em que falei com ele – num restaurante de que foi proprietário em Azeitão – levantei a hipótese de lhe comprar um quadro. O problema eram dois, disse-lhe eu – ele ser um artista muito cotado e eu não ser rico. Estava com a minha mulher e com um casal amigo, o António e a Célia Gomes Marques (sendo o António, por via do teatro, mais íntimo do João do que eu). Rimo-nos e o João Vieira logo disse que se havia de encontrar uma solução. Coisa que nunca aconteceu nem acontecerá, visto que o João nos deixou.
Em Março, no Dia Mundial da Poesia, estive em Vila Real, a convite do Grémio Literário, para, com o Eurico de Figueiredo, animar um debate sobre o Movimento Setentrião no qual nos anos 60 participei. Já não ia à cidade há uns anos e um dos anfitriões, o Elísio Amaral Neves, andou a mostrar-me as novidades que o burgo tinha para exibir – muitas e nem todas boas – entre elas, e entre as melhores, estão os vitrais que o João Vieira criou para a Igreja de São Domingos ou Sé Catedral. Confesso que a minha primeira reacção foi negativa – a pintura do João incrustada num monumento gótico acordou o reaccionário que há em mim. Pareceram-me duas coisas isoladamente muito belas, mas separadas por cinco séculos, criando uma relação anacrónica que me chocou. Mas fui caindo em mim e o tipo mais desempoeirado, que também cá mora às vezes, levou a melhor. A beleza é intemporal. Os vitrais do João estão muito bem na Sé de Vila Real.

Uma das imagens que guardo da juventude do João (e da minha, claro) é estarmos os dois no Café Gelo, numa manhã de domingo ainda cedo, em que ainda ninguém aparecera (mas eu morava perto e ele tinha o ateliê mesmo por cima) a falar sobre a música popular brasileira, trauteando canções e de repente o João sai-se a cantar muito bem o «É doce morrer no mar», do grande Dorival Caymmi. O Herberto e o Forte que entretanto chegaram não o interromperam e ele pôde chegar ao fim da canção. Um dote do João que talvez poucos conheçam – cantava bem.
Enfim, o João Vieira deixou-nos. E, com ele, um dos maiores pintores portugueses desta atribulada época.
Escutemos Dori Caymmi cantando a linda balada criada por seu pai.

Morreu o pintor João Vieira (1934-2009)


Na sequência de uma cirurgia ao coração realizada na sexta-feira passada, faleceu ontem, dia 5 de Setembro, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o pintor João Vieira. Nasceu no Vidago, em Trás-os-Montes em 1934. Tendo frequentado a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, esteve a partir de 1957 em Paris, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, estudando pintura sob a orientação de Arpad Szénes, o marido de Maria Helena Vieira da Silva. Ligado ao chamado «Grupo de Paris», de que faziam também parte os artistas portugueses José Escada, René Bertholo, Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, Lourdes Castro, o pintor búlgaro Christo e o alemão Jan Voss, fundaram a revista e o movimento KWY. Em 2001, no Centro Cultural de Belém esteve aberta a exposição «KWY – Paris – 1958-1968». A primeira exposição individual realizou-se em 1959, na Galeria do diário de notícias em Lisboa; a última foi, em 2002, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto. Pelo meio, ficam centenas de mostras individuais e colectivas. Obras de João Vieira fazem parte das colecções dos principais museus nacionais e estrangeiros.
João Vieira fez também parte do chamado «grupo do Café Gelo», onde s integravam figuras como Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco, Herberto Hélder, António José Forte, Helder de Macedo, e muitos outros escritores e artistas plásticos. Num andar por cima do Café Gelo, em pleno Rossio, Vieira compartilhava um ateliê com Escada, Gonçalo Duarte e Bertholo. A morte de João Vieira, um dos maiores pintores portugueses do século XX, deixa mais pobre o panorama cultural português.

Disney comprou Hulk

Hulkporto

Era a felicidade de vários clubes. Mas não foi este.

Incredible-hulkFoi o outro.

Henri Fantin – Latour na Gulbenkian

Uma exposição magnífica sobre o mais discreto dos eminentes escritores Flamengos (e seus amigos ) da sua época (1836-1904),que infelizmente tem sido pouco estudado. No entanto, a mais importante exibição da sua obra foi efectuada no Grand Palais em Paris, na National Gallery do Canada, em Ottawa e na California Palace de Legião de Honra de S. Francisco, no ano de 1982.

Vinte e cinco anos depois dois especialistas estudaram a obra do pintor, comemorando os artistas impressionistas, que colocaram Fantin-Latour no mesmo nível de Claude Monet, ou de Edouard Manet .

Fatin-Latour nasceu em Grenoble no ano de 1836 e nos primeiros anos da sua vida retratou-se a ele próprio, num execício introspectivo que nos leva a Rembrandt e Titian, numa procura incessante da expressão das emoções, através da sua própria imagem.

Trabalhou no Louvre como “copyst” e como meio de subsistência, tal como Manet ou Degas fazendo cópias de grandes “mestres” entre os quais Titian, Veronese, Rubens e Delacroix, o seu “mestre espiritual”.

Fantin- Latour era um melómano e esta sua paixão pela música foi uma das suas maiores inspirações para os seus trabalhos de pintura.

A não perder, definitivamente!

Thelma e Louise – road movie

Um filme que de uma penada reinventou o feminismo e o road movie, pela mão de Ridley Scott que dirigiu a Susan Saradon e Geena Davis que interpretam os principais papéis.

Relações amorosas insatisfatórias levam-nas à aventura, à procura da liberdade absoluta. Mas tudo se complica quando Louise mata um cowboy que procurou violar Thelma à saída de um bar. Agora são fugitivas, tudo se complica e sarilho atrai sarilho que não receiam.

Numa noite de tempestade Thelma é seduzida por um jovem sem eira nem beira ( estes homens podem desencadear atracções fatais) que lhe rouba o pouco que tem. Este personagem é interpretado por Brad Pitt, ainda desconhecido ( uma para a outra olha “o rabinho dele” ) em contraponto “ao rabão” do Harvey Keitel em cuja sombra “pode estacionar um camião”, segundo a opinião das fugitivas.

Um filme fantástico dos que me marcou para a vida, a coragem de duas mulheres que fogem à rotina e à sua vida medíocre e que levam o sonho para lá da morte. Quem experimentou a liberdade absoluta prefere atirar-se de uma ravina a ir para uma cela de cadeia.

Um filme que mostra que as mulheres podem e devem viver a sua vida sem precisarem a sombra de um homem ou de um qualquer medíocre emprego. O direito de viverem a sua vida como mulheres livres.

Passa hoje no FOX Next,às 22h21!

Claro, andei apaixonado pela Geena Davis até ela se casar com um actor medíocre que fez “A Mosca” uma coisa horrível, tal como ele.

Hoje vou ver se ela ainda se lembra de mim!