Stop

Foi centro comercial nos anos 80, com cinema, lojas, restaurantes. Depois começou a perder fôlego para a múltipla concorrência e decaiu. Foram encerrando-se lojas, houve algum episódio de violência, o local tornou-se indesejável. Esteve fechado, a apodrecer lentamente aos olhos de quem passava, uma ruína mais numa cidade que acumulou demasiadas. Mas há poucos anos, ganhou uma nova vida quando os músicos da cidade começaram a alugar as antigas lojas e a convertê-las em salas de ensaio. A porta da rua reabriu-se, voltou a ver-se gente por ali, um segurança, um café à entrada –  sintomas de vida num corpo que estivera inerte.

A vida deste local, a sua experiência distinta de todos os outros grandes espaços comerciais da cidade, tornou-o um lugar especialmente interessante. Desde logo, essa nova vida não se fez acompanhar de uma renovação estética. O Stop continua a parecer um local abandonado. Há paredes grafitadas, zonas mal iluminadas, beatas no chão, lojas que ainda exibem os seus antigos cartazes, agora arruinados, montras que deixam ver salas vazias, janelas tapadas, algum caixote abandonado pelos últimos inquilinos, uma lista telefónica manchada de humidade, um calendário de um ano longínquo. Os estúdios dos músicos, tapados dos olhares de quem passa, não se distinguem das salas para alugar. Os elevadores funcionam, mas as escadas rolantes estão paradas. As casas de banho, de paredes cobertas de rabiscos, estão reduzidas ao mínimo. Aí não há espelhos, não há sabonete e é quase com espanto que confirmamos que há retretes e água corrente. [Read more…]

Postcards from Greece #3 to #5 (between Athens and Thessaloniki)

‘It’s illegal by the law, but not by the people’s law’

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Disse o taxista que me transportou hoje até à White Tower (ou Tower of Blood atendendo ao seu passado como prisão), depois de eu ter perdido, porque me enganei na paragem, o autocarro 50 que faz a chamada ‘cultural route’ em Salónica, numa viagem que numa hora percorre a cidade. Custa 2 euros e leva-nos perto das várias atrações turísticas. Como o perdi e o próximo era só daí a uma hora, com partida da Torre Branca, apanhei então um táxi. Os táxis na Grécia são bastante baratos, deve dizer-se que dentro da cidade uma viagem não ficará por mais de 5 euros. O taxista quis saber de onde vinha. Portugal. Repetiu Portugal com a voz mais doce e disse que tinha um amigo português. Nisto um homem aproxima-se do táxi e diz um destino que não entendi. O taxista diz que não passa por lá. Eu pergunto se é habitual na Grécia as pessoas dividirem táxis com estranhos, já que antes tinha reparado também na mesma situação. É habitual mas não legal… ou melhor, explica, o taxista, é ‘ilegal pela lei, mas é legal pela lei das pessoas’. Esclarecidos, portanto.

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Postcards from Greece #1 & #2 (Athens)

No more waiting, no more silence…

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estou na Grécia há já uns dias. Não é a primeira vez que visito a Grécia, ou melhor, alguns lugares deste país, já que seria preciso muito tempo para visitá-los todos. Mas estive em Atenas, em Santorini e em Creta em 2011. Dessa altura lembro-me, porque tive a experiência concreta em inúmeras ocasiões, da enorme simpatia e generosidade dos gregos. Lembro-me particularmente de um dia muito quente, em Atenas, em que me faltava em moedas o que me sobrava em sede. Em dois cafés onde tentei pagar a água com uma nota de cinco (ou dez, já não me lembro bem) euros, ofereceram-me garrafas de água de meio litro, porque não tinham troco. Podiam ter-me recusado a água, mas não hesitaram em oferecer-ma. Nunca me esqueci disso, porque na altura pensei que em Portugal provavelmente ter-me-iam mandado bugiar ou trocar dinheiro, o que seria o mesmo.

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A recta dos Feitos

doutor_asserio

Manuel Melo

Os Doutor Assério são uma banda de Barcelos, descontraída e integrada por três veteranos da música barcelense. Este projecto é uma pura banda rock sem complicações e divertida.
Ora, um dos temas chama-se “A Recta dos Feitos” e alude, em tom irónico e humorístico, à prostituição de estrada que tem lugar nesta freguesia – uma coisa igual a qualquer outra noutra terra deste país.
O mais ridículo é que alguns dos supostos habitantes dessa terra (que até é simpática e fica próxima da cidade) partiram para o insulto e andam a arregimentar mais pessoas para ir à página da banda deixar insultos e soltar verborreia. Para já, só conseguiram regurgitar,mas com o tempo talvez lhe apanhem o jeito.
Também nós temos os nossos rednecks ansiosos por se sentirem ofendidos e atacados, gentinha pobre que gosta de se fazer de vítima e apelar à piedade alheia. Um tipo pensa que isto só existe no Iowa ou no Alabama e, afinal, está aqui tão perto. É apenas gente que não tem noção do ridículo, mas tem o mesmo sentido de humor de um pneu traseiro de um tractor agrícola.

Podcasts – “Poder Público”

A descrição do podcast é dos próprios autores. “Protagonistas, histórias e decisões. No Poder Público, Inês Ameixa e Ruben Martins contam o outro lado da política. Todas as semanas, trazem diferentes protagonistas, histórias que merecem ser contadas e decisões que mudam a vida das pessoas.” (RSS do podcast; sítio do jornal).

Neste episódio, os autores falam com os autores dos sites hemiciclo.pt e fogos.pt, “dois projectos que vieram ajudar na relação entre população e serviços públicos.”

Podcasts – “Fricção Científica”

Este podcast é sobre “noticias da ciência que desafiam a imaginação”. Fricção Científica (podcast RSS; sítio do programa) é apresentando magistralmente por Isilda Sanches, num tom sério, sem ser sisudo, e procurando um remate em forma de punch line.

Neste episódio, “O par ideal”, disserta-se sobre as escolhas amorosas que fazemos. Num outro, o tema é mais sério, falando-se sobre o desaparecimento dos insectos. No geral, são pequenos episódios saídos na Antena 3 ao ritmo da semana de trabalho.

Podcasts – “Os Dias da História – ‘Novembro 1917 – A ‘Revolução de Outubro’, na Rússia”

os dias da história

Aproveita-se a efeméride sobre os 100 anos da Revolução de Outubro para  lançar uma série de alguns posts sobre podcasts.

Os dias da História (RSS Feed do podcast; ligação do programa), com Paulo Sousa Pinto, traz, de segunda a sexta na Antena 2, um breve relato sobre uma efeméride desse dia. O episódio de hoje começa por falar do dia 7 de Novembro de 1917, o “dia em que começou a chamada Revolução de Outubro na Rússia”, correspondendo ao dia “25 de Outubro no calendário então em vigor na Rússia”.

Nota: quem procure uma boa app para gerir os podcasts em Android tem no “Podcast Addict” uma excelente opção. Para iPhone, parece que o “Overcast” é uma boa alternativa.

O original de “Y Viva España” é belga

O país que serve de refúgio a Puigdemont é também aquele que criou o tema que serve quase de hino à Espanha (o verdadeiro hino é uma marcha militar sem letra) e que tem sido cantado durante as manifestações pró-espanholas na Catalunha.

O original intitulado “Eviva España” de 1971 era uma cançoneta para animar programas de televisão e festas para a terceira idade cuja ideia de Espanha remetia para o exotismo das férias de Verão, de letra simples e carregada de estereótipos sobre os povos ibéricos. Os autores são ironicamente flamengos, Leo Caerts e Leo Rozenstraten, e a cantora Samantha interpretava a música em flamengo. Tornou-se num sucesso quase global quando Manolo Escobar interpretou o tema em espanhol em 1973, sob o título “Y Viva España”.

Corrupção activa, corrupção ativa e corrupção passiva

Das Zusammenpacken und Beladen des Rads am nächsten Morgen ist längst zur Routine geworden.

— Dirk Rohrbach

Avant, pour les mâles, dehors, le travail à la main faisait la règle générale : pelle, pioche, fourche, hache, pic ou rivelaine, faux. Pendant la guerre, ils obtinrent des cartes d’alimentation au titre de travailleurs de force. Pas de mécaniques pour lever les charges, aucun moteur pour soulager la peine, tout au biceps, le dos courbé.

Michel Serres

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Baudelaire

***

É um dos preços da passividade: assim se escreve, actual e activamente, em português europeu.

Efectivamente, também temos a prática habitual do sítio do costume quer no Jornal de Notícias,

quer no Expresso,

quer, como se espera, no sítio do costume.

Por sinal, esta imagem provém de um acordo que substitui outro, publicado no sítio do costume, em Novembro de 2014.

Descubramos as diferenças [Read more…]

As velhacarias de Scapin e o fato de não ter sido prestada garantia

SILVESTRE: Si vous n’abrégez ce récit, nous en voilà pour jusqu’à demain.

— Molière, Les Fourberies de Scapin

O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economi… O senhor é economista… O senhor é economista… O senhor é economista…

— Octávio Machado, 24/9/2017

***

Três meses volvidos, façamos um exercício semelhante ao das perpectivas,

 

apresentando dois exemplos teóricos com ortografia portuguesa europeia antes do AO90 e confrontando-os com formas ortográficas de português do Brasil antes do AO90, português europeu com AO90 em teoria, português do Brasil com AO90 e português europeu com AO90 na prática.

Comecemos pelo exemplo teórico

pelo facto de não ter sido prestada garantia (…) não tiver sido suspensa a respectiva execução.

Confrontemo-lo então com formas ortográficas de [Read more…]

Animais nos restaurantes?

pub_england
Anda por aí muita discussão por causa de animais nos restaurantes, vivos, entenda-se.
Nos pubs de Inglaterra, a discussão é de outro teor. Cheers…!

Primeira, segunda e marcha atrás

Imagem: Dr. Drodd Graphics

Comece pela tónica, passe à quarta, continue na quinta de sétima e volte à tónica. Ou como se diz na gíria musical, primeira, segunda e marcha atrás. Falamos de acordes e das fórmulas para escrever canções. Numa melodia em Dó Maior seriam Dó Maior, Fá Maior e Sol Maior de sétima os acordes em causa.

Existem outras receitas bem conhecidas e, ainda mais, usadas. De facto, muito do cançonetismo por elas passa, independentemente da sua popularidade e origem. Não é uma melodia complexa que garante o sucesso, tal como uma melodia simples não está necessariamente condenada ao fracasso – que o diga quem analise Zeca Afonso. Há muito para além das palavras e das notas nas canções, tendo a interpretação um papel determinante na conquista do podium. [Read more…]

A Barbara Mandrell e o Acordo Ortográfico de 1990

THE OLD MAN: I am actually married to Barbara Mandrell in my mind. Can you understand that?

EDDIE: Sure.

THE OLD MAN: Good. I’m glad we have an understanding.

— Sam Shepard, “Fool for Love

***

Poderíamos reproduzir (ou adaptar) esta conversa entre o Eddie (o Sam Shepard deixou-nos há poucas semanas) e o The Old Man (o Harry Dean Stanton deixou-nos hoje, soube há pouco pelo nosso António Fernando Nabais), com o AO90 a servir de Barbara Mandrell (coitada da Mandrell), da seguinte forma:

A PESSOA QUE ESCREVE NO SEXTA ÀS NOVE DA RTP: Eu escrevo segundo o AO90. Percebe?

UMA PESSOA QUALQUER QUE TENHA LIDO E PERCEBIDO O AO90: Claro!

A PESSOA QUE ESCREVE NO SEXTA ÀS 9 DA RTP: Ainda bem que estamos de acordo.

Para banda sonora, se não houver L’idiot, se não houver City of New Orleans e se não houver os meus dilectos Ao Soldado Desconfiado ou The Phoenix, então pode ser o Comboio  ou então o Noutro Lugar. Não escolham o Depois de ti, mais nada, sff. Obrigado. Adaptações?  Start Me Up é fixe, mas prefiro Love Removal Machine.

Agora, vamos àquilo que interessa:

 

A single postcard from Krakow

«Sou muito cosmopolita…

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sinto-me o mesmo desgraçado em toda a parte», escreveu Manuel Rivas, num livro de crónicas que li há uns anos. Pensei nisto hoje quando realizei que tinha tomado o pequeno almoço em São Petersburgo, o almoço em Moscovo, o lanche em Viena e o jantar em Cracóvia, onde estou neste momento. Não que me sinta desgraçada, ou sequer cosmopolita, mas a frase de Rivas veio-me à cabeça. Por muito que andemos, por muito que vamos e regressemos a casa, somos sempre os mesmos, pelo menos no modo como sentimos as coisas, no modo como olhamos para as coisas.

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From Russia, with love #12 (Saint-Petersburg)

Faço as minhas despedidas de São Petersburgo

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já que é o último dia que passarei aqui. Não sei se voltarei aqui, ou a outro lugar qualquer da Rússia. Não que ache que São Petersburgo (e Moscovo também) me tenha tratado mal. Ao contrário, achei, como já disse noutros postais, a cidade bastante amável em vários sentidos, desde as ruas, aos monumentos, às abóbadas das igrejas, até às pessoas. Também o tempo esteve generoso e amável. Choveu pouco e por pouco tempo. O que, ao que parece, não é assim tão comum.
 
Quando saí do hotel fui à praça dos teatros, ainda não tinha visto o Mariinsky. Gostaria de ter visto um ballet no teatro onde atuaram nomes importantíssimos como Rudolf Nureyev ou Mikhail Baryshnikov (este último tive o imenso prazer de o ver numa peça no Petit Palais, em Paris, em janeiro). Mas os bilhetes eram extremamente caros para os meus bolsos e, por isso, perdi provavelmente a única oportunidade de ver alguma coisa neste teatro. Também em Moscovo não fui ao Bolshoi. O preço dos bilhetes era proibitivo, mas estava também encerrado em agosto.

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From Russia, with love #11 (Saint-Petersburg)

Os gatos de São Petersburgo

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Podia concentrar-me no cruzador Aurora ou na Fortaleza de Pedro e Paulo, mas acho que prefiro falar sobretudo dos gatos de São Petersburgo. Talvez esteja já cansada de ver coisas que devem ser vistas, quero dizer, coisas que deveria ver sem falta uma vez em São Petersburgo e, por isso, talvez prefira concentrar-me naquilo que há em toda a parte: os gatos, os pardais, as pessoas e o vento.
 
Apanhei hoje, já não era cedo, o autocarro número 1 na avenida Nevsky. Atravesso a ponte Devortsoviy para a ilha de Vasileostrovsky e depois de contornada a Birzhevaya, a ponte Birzhevoy para Petrogradsky. Saio no cruzamento da rua Pushkarskaya com a rua Lenin e um bocadinho à frente apanho o pequeno autocarro K30 para perto da ponte Sampsonievskiy. O meu destino é o cruzador Aurora, ancorado na Petrogradskaya. O barco do século XIX que faz parte do património histórico da cidade. Participou em algumas guerras, mas ficou famoso por ter lançado o tiro de canhão que foi a senha para que os bolcheviques invadissem o Palácio de Inverno (que integra o Hermitage, ver postal de ontem), antiga moradia do Czar Nicolau II. O Aurora foi um dos maiores símbolos da URSS. Hoje é um museu.

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From Russia, with love #10 (Saint-Petersburg)

… a battle field that only needs a name*

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Encontrei Anselm Kiefer hoje no Hermitage, no Palácio de Inverno e foi um encontro inesperado, já que não havia lido nada sobre as exposições. Mal subi as escadas de Jordan, cheias de dourados a reluzir e de pessoas, fui ter à sala 197 e dou com a exposição de Kiefer ‘For Velimir Khlebnikov’. Fiquei tão contente que me pus quase a dançar no meio das salas, 3, cheias de quadros enormes, lindos. De quadros em que apetece mergulhar, como sempre digo. Kiefer criou estes 30 quadros em homenagem ao poeta futurista Khlebnikov. Não costumo colocar fotografias de quadros nos postais ou onde quer que seja. Os quadros são para serem vistos ao vivo e não assim, mas hoje abro uma exceção. Afinal, este encontro inesperado merece ser registado.

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From Russia, with love #9 (Saint-Petersburg)

São Petersburgo é o lugar menos turístico do mundo,

se apanharmos, na Admiralteyskiy, o autocarro número 10 para Troitskiy pr. É aqui que fica, no cruzamento com o Izmailovskiy pr. a catedral da Trindade. A mesma que vi ontem do alto da ‘colonnade’ da Catedral de Santo Isaac, com as enormes cúpulas azuis, com estrelas douradas a destacarem-se belíssimas no horizonte. Quando saí quase em fren

 

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te da igreja, despertou-me a atenção a enorme coluna com um anjo em cima, rodeada de canhões. Parece que é uma homenagem aos soldados russos. Atrás dela a Catedral da Trindade, linda e branca, com as suas enormes cúpulas azuis e douradas. Fotografo as cúpulas de vários ângulos. Depois entro. Há senhoras a pedir à entrada da igreja. Não se vê um turista nas redondezas. A não ser eu.

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Fom Russia, with love #8 (Saint-Petersburg)

‘What’s left when everything’s gone?’

 

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Suponho que as memórias. O registo dos momentos que inexoravelmente se transformam em passado. O que é que temos a não ser esses momentos? O que é que fica quando tudo acaba, ou se vai embora, ou deixa de ser?
Hoje visitei um museu extraordinário e tive uma experiência fora do comum. O museu chama-se Erarta*, descobri-o quando pesquisei ‘museus de arte contemporânea em São Petersburgo’. Fica na ‘ilha’ Vasileostrovsky, do lado de lá do Neva, a 5,3 quilómetros do sítio onde me encontro. Apanhei o trolley nº 10 (mas também podia ser o 11 ou o 7) e lá fui eu. Em cerca de 20 minutos e por 40 rublos parei quase à porta deste belíssimo museu, o maior de arte contemporânea da Rússia.

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From Russia, with love #7 (Saint-Petersburg)

É outono em São Petersburgo e um gato apanha uma réstia de sol numa janela do Museu Russo

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Em muitas cidades tenho encontrado gatos nos museus. Gatos vivos, quero dizer, embora também alguns pintados. Estava um gato no beiral de uma janela do Museu Russo, a apanhar restos de sol, que chegaram depois da chuva torrencial. O gato estava seco, no entanto. Bati no vidro para lhe chamar a atenção, mas ignorou-me absolutamente, como se não houvesse mais nada entre ele e os raiozinhos tímidos de sol. E talvez não haja.

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From Russia, with love #6 (Moscow – Saint-Petersburg)

Cheguei a Leninegrado,

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ou Petrogrado ou São Petersburgo, como lhe queiram chamar. Eram cinco e meia da tarde quando o Sapsan, ou ‘falcão peregrino’ parou na estação Moscovo. Mal saio da estação, onde contei com a boa vontade de estranhos, como sempre, para descer as escadas com as malas, vejo um reclame no alto de um prédio: город горой Ленинрадюю. Qualquer coisa como ‘cidade heroica Leninegrado’. Pareceu-me um bom prenúncio.
 

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From Russia, with love #5 (Moscow)

‘Yo soy comunista’…

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disse-me um senhor basco que encontrei junto à estátua de Marx, esta tarde, pondo-me a mão sobre o ombro, erguendo o punho esquerdo e começando a cantar, em castelhano, a Internacional. Tive de lhe dizer que se erguia o punho direito, ‘mas em Espanha, erguemos o esquerdo’, e fez-me a vontade. Ergui eu também o punho, e fui cantando em português. A filha, uma miúda anarquista, segundo o pai, tirava fotografias e ria-se. Eu também me ri, como é evidente. Coisa mais inusitada, cantar em ‘portunhol’ a Internacional, diante da estátua de Karl Marx, ali ao lado da Praça Revolução, em Moscovo, às 5 da tarde.

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From Russia, with love #4 (Moscow)

 Visitei hoje o Camarada Lenine…

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… e encontrei-o com bom aspeto e boas cores, sobretudo para quem está morto há 93 longos anos. O Camarada Lenine repousa num feíssimo, escuro e frio mausoléu no centro da Praça Vermelha. Quero dizer, aquilo que resta do Camarada Lenine, praticamente pele e ossos, repousa no mausoléu bem no centro da Praça Vermelha. Não tem sangue, nem cérebro, nem vísceras, mas suponho que não lhe façam falta nenhuma, assim como assim. De 18 em 18 meses o corpo é retirado do mausoléu e submetido a diversas operações de conservação*. Li algures que lhe limpam e passam o fato também nessa altura e que de três em três anos lhe compram um novo. Parece que custa muito dinheiro à Federação Russa manter o corpo de Lenine.

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O Sam Shepard era o maior

-— Ecco l’America — disse il signor Melfa.
— Leonardo Sciascia, “Il lungo viaggio

… down to Tucumcari, picking up 40 West, paralleling the fabled and long-abandoned Route 66—the highway he grew up on. The highway that shaped his youth.
— Sam Shepard, “Williams, Arizona (Highway 40 West)

On the sixth take, I burst in the door; discover the corpse; pause for a second; cross to the radio; pause again; then I smash the radio to the floor with my fist. I just cold-cock the sonofabitch.
— Sam Shepard, “Winging It” (*1)

There is a little handmade cardboard sign hanging over the steaming chicken wings that reads: LIFE IS WHAT’S HAPPENING TO YOU WHILE YOU’RE MAKING PLANS FOR SOMETHING ELSE.
— Sam Shepard, “Living the Sign” (*2)

***

A decisão sobre o aspecto deste texto começou a ganhar forma durante a semana passada, algures na strada provinziale 66, ao volante de um Fiat Panda, na direcção de Putzu Idu, a caminho dos arredores de Sa Rocca Tunda.

Dois dias antes, ao chegar ao hotel, ligara o telemóvel e respondera ao Dario: estava sem condições técnicas para escrever e publicar sobre Passchendaele, ele que tratasse disso. De repente, algures nas notificações, a notícia do Público. Dois dias antes, ligado ao Feicebuque, precipitara-me e prometera um texto para o fim-de-semana. Dois dias antes de este texto começar a ganhar forma, algures na strada provinziale 66, ao volante de um Fiat Panda, na direcção de Putzu Idu, a caminho dos arredores de Sa Rocca Tunda. Acabou por ser adiado para terça-feira. Exactamente: para hoje. There were more urgent emergencies than mine (*3), citando o Shepard.

© Bruce Weber (http://bit.ly/2wyXcia) Sam Shepard with his Hermes typewriter, in New York City

Para o Shepard, tudo começou aos 19 anos em NYC. Para mim, começou também mais ou menos por essa idade, na mesma latitude, mais coisa menos coisa, mas num consultório médico, no Porto, mais concretamente, na rua Arquitecto Marques da Silva.

— Boa tarde, consultório médico. Com certeza, dê-me só um minutinho — disse a Fernanda, que conhece a minha familia desde que o Dr. Mena Matos tratou a minha bisavó — Sim, sim, só um bocadinho, não desligue — virando-se para mim — Miguel, hoje, o senhor doutor tem muitos doentes e isto é capaz de demorar. Se calhar, em vez de ficar aqui a apanhar seca, ia ali abaixo, tomava um cafezinho… [Read more…]

From Russia, with love #3 (Moscow)

Dos heróis caídos…

 

 

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assim chamam à parte do Parque-Museu das Artes, que ocupa a parte norte do Parque Gorki. Há quem lhe chame parque, mas a maior parte das pessoas refere-se-lhe como ‘cemitério dos monumentos caídos. Além de uma impressionante coleção de estátuas, nem todas dos heróis soviéticos derrubados, esta parte do grande espaço verde que é o parque Gorki, é ocupada pela Moderna Galeria Tretyakov e também pela casa dos artistas.
Antes de ir visitar o parque, fui à galeria Tetryakov, a antiga, ou a clássica, como quiserem que apresenta uma coleção magnífica de quadros de pintores russos do século 11 ao início do século 21. Se me conhecem sabem que sou pouco apreciadora de arte que não a moderna e contemporânea, mas lá fui. Acordei tarde e achei que era um bom plano. Perdi o pequeno almoço no hotel e era meio dia e meia quando bebi um sumo de laranja e um croissant e um expresso, no café da esquina. Depois, tendo aprendido a lição breve que um rapaz me deu sobre os anéis de Moscovo e as linhas de autocarro, assim como a das imensas e rapidíssimas escadas rolantes do metro de Moscovo (de que tenciono afastar-me),apenhei o M5 para Tretyakovskaya.

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Autopsicografia de um homem de esquerda

João Valentim André

A pergunta ressoa no mais fundo do corpo ético do homem de esquerda: “como posso eu aceitar, sem forçar todo o meu ser à dissolução, que a sociedade de que participo condene mil homens à pobreza para que possa criar um que seja rico?”

A pergunta é labiríntica. A resposta reside no seu centro mental, um ponto cósmico, guardada por um temível animal mítico. Mas uma vez chegado a esse centro, não tem, o homem de esquerda, como evitar o confronto. E ele dá-se precisamente no lugar do eixo, no axis mundi, na base da árvore da vida pela qual se ascende à resposta.

Para que o mistério não viesse a ser simplesmente um maneirismo literário, o demiurgo achou por bem fazer depender a vitória sobre a besta mítica da resposta a uma outra pergunta: desses mil homens condenados à pobreza, quantos não sacrificariam outros cem mil ao mesmo mísero destino para que a fortuna lhes sorrisse a eles?

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From Russia, with love #2 (Moscow)

‘May God be always with you’…

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… foi o que me disse a senhora, abraçando-me suavemente para minha surpresa, à entrada da praça vermelha, junto ao ‘quilómetro zero’, o ponto a partir do qual se medem todas as distâncias desde Moscovo. Estava a admirar o que faziam as pessoas no ‘quilómetro zero’. Basicamente colocavam-se no centro e atiravam uma moeda para trás das costas. Perguntei ao rapazinho que estava ao meu lado o que era aquilo, que significava. Ele disse que não falava bem inglês, mas percebi perfeitamente quando me explicou que era o ‘quiómetro zero’. A conversa continuou de uma forma estapafúrdia. Ele falava sobretudo em russo, tal como a mãe, e eu em inglês. Seja como for entendemos-nos e eu percebi que as pessoas faziam aquilo para dar sorte.

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From Russia, with love #1 (Moscow)

‘Good luck’ disse-me o homem, enquanto fechava a porta do táxi

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… entendi aquilo como uma ameaça qualquer, não sei explicar porquê. Talvez fosse apenas por serem duas da manhã em Moscovo, mais uma que em Cracóvia, de onde chegava e mais duas que em Portugal de onde saí há sete dias. Talvez fosse apenas porque estava muito cansada de levantar voo e aterrar e esperar em aeroportos horas infinitas por aviões atrasados. Talvez fosse porque, mal aterrei, me propuseram um táxi para a cidade ao preço de 5000 rublos (75 euros) e ainda talvez fosse porque ninguém falava inglês convenientemente, mesmo no aeroporto. Talvez fosse também porque, quando saí do aeroporto, depois de ter encontrado uma companhia de táxis que me pediu 1700 rublos (25 ou 26 euros), chovia.
 
Tive de esperar, com outras pessoas, debaixo de uma chuva ainda miudinha, mas que haveria de se tornar mais copiosa, pelo táxi que demorou uns bons minutos a aparecer. O rapaz da companhia deu o endereço ao rapaz do táxi que pareceu (talvez fosse de tudo o que descrevi acima) não saber onde era. Eram duas e qualquer coisa da manhã e o aparente desnorte do condutor preocupou-me. O rapaz da companhia fecha-me a porta do táxi e atira-me ‘good luck and enjoy the streets of Moscow’. Podia ter achado simpático – provavelmente foi – mas achei apenas ameaçador.

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Contatável

Mat Hayward/Getty Images (http://bit.ly/2tLjj2O)

We should be able to move forward.

— Chester Bennington (1976-2017)

***

Ontem, foi um dia extremamente activo no sítio do costume.

Todavia, não houve contatos.

Houve anteontem. [Read more…]

Chamaram-me cigano

Exactamente.