
.
Expor ao vento. Arejar. Segurar pelas ventas. Farejar, pressentir, suspeitar. Chegar.

.


David Mourão-Ferreira é um escritor muito conhecido, muito falado, com muitos estudos e numerosas teses académicas sobre a sua obra. Não faria muito sentido estar aqui a glorificar os seus livros, a sua poesia. Há um pormenor, que me leva a subir para a minha máquina, a voltar uns anos atrás e ir ao encontro da recordação que dele conservo – a amizade. Sempre me tratou com amizade e eu era muito amigo dele. Por isso, não tecerei elogios à sua obra – deles não precisa – outros o fizeram e o farão melhor e com maior autoridade. Falarei um pouco da sua grande amabilidade, da generosidade que era nele uma segunda natureza.
Embora tenha sido director do serviço da Fundação Gulbenkian em que trabalhei durante dez anos, não nos cruzámos ali, pois saí em 1971, quando o director era ainda Branquinho da Fonseca. Conhecera-o na Faculdade de Letras, estive com ele em reuniões da Associação Portuguesa de Escritores; era uma relação cordial, mas mais ou menos formal.
Ouvimos o belo poema de Daniel Filipe, «A Invenção do Amor», muito bem dito por João Manuel Alves e seguido por uma canção de Pedro Abrunhosa inspirada no poema. Daniel Filipe é um poeta, nascido em Cabo Verde, mas que faz parte da história da Literatura Portuguesa do século XX – no entanto, não vamos com isso criar um problema com os nossos irmãos cabo-verdianos – digamos que ele pertence aos dois países – a Cabo Verde porque lá nasceu, a Portugal porque aqui viveu, sofreu, amou e escreveu a sua poesia maravilhosa.
Além dos livros que nos deixou, foi um activista cultural e político. No final da década de 50, trabalhou na delegação do Porto do jornal lisboeta Diário Ilustrado. Cordial, amistoso, grande contador de histórias, depressa se relacionou com um grupo de escritores antifascistas como ele – Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão e outros. Com este grupo ajudou a criar as «Notícias do Bloqueio», título de um poema de Egito Gonçalves e de uma série de nove «fascículos de poesia», publicados no Porto entre 1957 e 1961. A PIDE prendeu-o porque animação cultural para aquela gente significava «agitação social» (talvez não o tenham prendido só pela sua actividade cultural; mas também). Foi, segundo consta, barbaramente torturado. Morreu em Lisboa com 39 anos.





O escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, um amigo que desde o dia um de Janeiro de 2004 já não está entre nós, deu como título a um seu livro de poemas «Isto Anda Tudo Ligado». E este título, como disse Jorge Listopad, numa nota publicada na «Colóquio-Letras», que aparentemente é um «slogan banal», quase um lugar-comum, tem sido centenas de vezes utilizado, por escritores, jornalistas, por músicos (como o Sérgio Godinho) e não só. Creio que muitos que o utilizam já nem o relacionam com o grande poeta e a maravilhosa pessoa que foi o Guerra Carneiro. Não é o meu caso. Fui amigo e companheiro de luta do autor destas palavras. Evoco a conhecida frase «Isto anda tudo ligado» homenageando a memória do Eduardo.
Nesta fotografia, tirada em Novembro de 1962, em Coimbra, da esquerda para a direita podemos ver o Egito Gonçalves, eu, o Eduardo e o António Cabral, ainda sacerdote católico na altura. O Eduardo, de perfil, parece ausente, alheado, coisa que lhe acontecia com frequência. Talvez estivesse preocupado com a eventual presença nas proximidades de algum agente da PIDE.
Fomos ali reunir-nos por questões políticas e culturais – a expansão do Centro de Cultura Ibero-Americana, que pretendíamos alargar editando um boletim periódico multilingue (nos idiomas da Península a que juntaríamos resumos em francês e inglês). Mas voltemos ao Guerra Carneiro e ao seu livro.
Não era em globalização, na famosa globalização de que hoje tanto se fala, que o Eduardo pensava quando, em 1970, publicou o livro por acaso numa colecção da Ulmeiro onde também publiquei uma colectânea de poemas. Era na dimensão dialéctica do Universo na qual, de facto, tudo se relaciona e interage. Música, literatura, desporto, política, vida quotidiana, são fragmentos indissociáveis de uma mesma realidade que por comodidade e hábito de classificar, dividimos em compartimentos.
*
Fui passar esse fim do ano a Vilamoura (onde só consigo ir sem ser no Verão) e, no dia três de Janeiro, um sábado, estava na esplanada do Paulo China a ler o Expresso quando me saltou aos olhos o nome do Eduardo numa pequena notícia – Fora encontrado morto na madrugada do dia um num pátio subjacente ao seu terceiro andar. Presumivelmente suicidara-se, adiantava a notícia. Às primeira horas do novo ano. Quando regressei a Lisboa, logo telefonei a um amigo comum, o José Quitério. Sim, confirmou, o Eduardo suicidara-se. Poucos dias antes ao telefone tinha dito ao Quitério isso mesmo, que estava farto, que a vida não lhe interessava. O Zé pensou que fosse apenas um dia mau e que aquilo passasse. Não passou.
A última vez que estive com ele, pouco tempo antes, almoçámos juntos num restaurante perto do meu escritório. Trouxera-me alguns dos seus livros que eu não tinha ainda lido e combinámos que iria colaborar num projecto editorial da empresa. Estava bem disposto, recordámos os velhos tempos de Vila Real, do Setentrião, do António Cabral e do Ascenso Gomes. Mas acabou por não fazer o tal trabalho – foi-me telefonando e adiando. Até àquele dia.
As coisas não lhe tinham nunca corrido bem. Interrompera os estudos universitários por lhe parecer inútil o curso que frequentava. Profissionalmente, jornalista, um bom jornalista, diga-se, tinha de fazer muita coisa de que não gostava. Na vida privada, casamentos falhados, o refúgio no alcoolismo e, sobretudo, o suicídio inexplicável da sua filha, a Catarina, destruiu a sua capacidade de resistência, provocaram-lhe o cansaço da vida que confidenciou ao Quitério. A soma de tudo isto resultou numa rápida viagem de três andares até ao cimento do pátio.
Quando estas coisas acontecem, ficamos sempre com uma sensação de culpa, com a ideia que poderíamos tê-las evitado conversando, acompanhando, ajudando. Porque, no fundo, quando estas coisas acontecem, todos temos, de facto, culpa por ajudarmos a manter um mundo em que tudo anda ligado, mas no qual não sabemos conservar entre nós pessoas como o Eduardo que, depois de desaparecerem, verificamos tanta falta nos fazerem.

![]()
Pelo final dos anos 60 os jornais traziam muitas fotografias semelhantes à que mostro: camponeses vietnamitas, guerrilheiros ou não, colhidos pela guerra, jazendo mortos sobre os arrozais. Lembro-me de uma imagem de uma criança com o rosto queimado pelo napalme, moribunda e cega. O texto explicava que os meninos pediam às mães que lhes rasgassem as pálpebras para as poderem ver uma última vez.
Foi uma fotografia dessas que, apanhando-me a beber o café matinal, me chocou profundamente e desencadeou o poema que, afinal, procura demonstrar a futilidade das palavras, inclusivamente dos poemas e das canções de protesto. Ainda que bem intencionadas, nada são perante a cruel enormidade das realidades que denunciam. Pensei também nessa manhã de há quarenta anos em como as nossas vidas, mesmo a de pessoas perseguidas pela polícia política, eram comezinhas quando comparadas com a daquelas gentes sobre as quais se abatiam as garras assassinas da guerra. Nunca me considerei um poeta, sempre disse que a poesia era para mim uma arma de arremesso contra a ditadura e contra o imperialismo. Não um fim, mas um meio. De acordo com esse princípio, o poema, publicado na colectânea «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos», diz:
Enquanto
Enquanto apunhalada a paisagem arde,
um homem dorme num arrozal de pranto
deixando nas estrelas o olhar parado.
Eu canto,
canto com revolta e sem ela, canto
nesta janela de espanto e fel
onde debruçado me revolto e canto
cravando a raiva na brancura do papel.
Enquanto tudo arde à minha volta,
há um homem que apodrece no arrozal
e um fogo criminoso que percorre a aldeia.
Um menino morre, mas não chora
enquanto a morte vem
(as pálpebras queimadas
pelo napalme assassino
são duas mãos de fogo e pus
abatidas sobre os olhos do menino).
Não pode ver a luz e à mãe implora
que lhe rasgue à faca as pálpebras
de pus. Não para ver a luz.
mas para poder ver a mãe
ainda uma vez antes de morrer.
E eu canto, eu canto enquanto
as flores são assassinadas.
os frutos da vida são colhidos
por garras criminosas,
as escolas são bombardeadas
o gado, as pastagens, as aldeias
destruídos impiedosamente.
As crianças agonizam, as flores fenecem
e o sangue circula normalmente
nas minhas veias, enquanto
ardem as colheitas e os homens apodrecem
acometidos pela fúria de mão odiosa.
Enquanto canto, vou ao café ou leio,
Em meu redor a paisagem arde
e eu neste litoral a ocidente da coragem,
o sangue bem guardado no meu corpo,
capitalizado em napalme e morte.
Afinal,
cada qual tem a sorte e o esquife que merece
e se o coração não é maior do que o peito
qualquer leito nos serve para morrer:
uma cama, uma câmara de gás,
um túmulo de lama, tanto faz.
O homem que apodrece lentamente
trazia o Sol dentro de si a palpitar,
por isso investiu no futuro a sua carne,
transformou-a em semente
que a terra não devora em vão,
porque embora a paisagem arda,
tudo pareça morto e acabado,
gado, a floresta, a pastagem,
tudo apodrecido ou incendiado,
um homem com os dedos na espingarda
funde-se com a terra lentamente.
Um dia, uma flor ou uma cidade,
uma árvore e talvez mesmo a liberdade,
nascerão nessa terra que comeu
o camponês no arrozal tombado.


|
Embora não tenha consciência disso, a sociedade necessita do artista e da arte É a arte, entendida nos seus múltiplos aspectos, que leva o homem a compreender a realidade, e mais , a suportá-la e, até a transformá-la, tornando-a mais humana. A arte é indispensável. Sem ela a humanidade fica amputada e confinada à sua animalidade. Sem arte não há humanidade. Poderá haver robôs ou produtos da engenharia genética. Mas já não serão homens.
Enquanto houver seres humanos, a arte não morrerá.
|
|||||||
|
|
|||||||
Quando José Gomes Ferreira, vindo da Noruega, voltou a Lisboa, encontrou um outro país – A Revolução continua – diziam os apoiantes da «nova ordem» que reinava nas ruas e com a repressão que condicionava as mentes. Com um ou outro acidente de percurso, a direita católica e conservadora, o chamado Governo da Ditadura Militar, ia, decreto a decreto, sob a orientação cautelosa, mas obstinada, de um tal Oliveira Salazar, eliminando os vestígios da República, suprimindo as liberdades fundamentais. Alguns amigos eram os mesmos, outros tinham morrido.
E surgiram alguns novos – Manuel Mendes, Bernardo e Ofélia Marques (seus «compadres», padrinhos de seu filho Raúl), Carlos Botelho, Diogo de Macedo, José Rodrigues Miguéis, João Gaspar Simões Cottinelli Telmo, a Maria e o Chico Keil… E os neo-realistas Alves Redol, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Queiroz… Olha, ainda há flores/ Mas quem se atreve/a cantar as flores do verde pino/no madrigal desta manhã de pesadelos?/ E tu, papoila, minha bandeira breve,/quando voltarás ao teu destino/ de enfeitar cabelos? Estes versos, escreveu-os José Gomes Ferreira para As Papoilas, uma canção popular composta por Fernando Lopes-Graça. Na realidade, os tempos não corriam de feição «a cantar as flores do verde pino».
Em 1933, logo em Janeiro, o governo a que Salazar presidia criava a Polícia de Defesa Política e Social, que passaria a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e depois a Polícia Internacional de Defesa do Estado, a PIDE, que ensombrou gerações de antifascistas, perseguindo, prendendo, torturando, matando. Em 1936 desencadeava-se em Espanha a rebelião fascista de Franco contra o governo legítimo da República – era a Guerra Civil que iria durar até 1939, num prelúdio sangrento da II Guerra Mundial, que eclodindo nesse ano, se manteria até 1945, deixando o mundo em ruínas.
Foi um período negro em que não publicou livros. Colaborou, sim, em revistas como a Presença, a Seara Nova, a Gazeta Musical e de Todas as Artes, na revista de cinema Imagem, no jornal infantil Senhor Doutor, onde publicou em folhetins As Aventuras de João Sem Medo. Foi na Presença que, em 1931, publicou o poema Viver sempre também cansa, que representou o arranque para uma fase decisiva da sua obra poética. Colaborou também na legendagem de filmes estrangeiros sob o pseudónimo de Álvaro Gomes.
Terminada a guerra com a vitória dos Aliados, nasceu entre os antifascistas portugueses a ilusão de que todas as ditaduras nazi-fascistas, lixo da História, iriam ser varridas pelas democracias vencedoras do conflito. Mas foi mesmo uma ilusão. Salazar, qual ilusionista de circo pobre, faz um truque, um passe de mágica – Portugal uma ditadura? Que ideia! – O regime corporativo, onde a saudação de braço estendido, como na Itália fascista ou na Alemanha nazi, foi ritual corrente e, por vezes, obrigatório, transformou-se numa «democracia orgânica».
Foi criado o Movimento de Unidade Democrática e Gomes Ferreira aderiu, tal como a grande maioria dos intelectuais portugueses e, em 1947, quando nasceu o ramo juvenil do MUD, escreveu a letra do hino «Jornada» ou «Vozes ao Alto», como é conhecido, com música composta por Fernando Lopes-Graça. Durante as frequentes e intensas lutas estudantis dos anos sessenta, será cantado até à saciedade por jovens, mesmo pelos que, mais à direita ou mais à esquerda, não militam no Partido Comunista, organização que estava por detrás do MUD Juvenil. O Jornada, foi também o hino que serviu de indicativo à estação clandestina Rádio Portugal Livre que, a partir de Praga, emitia diariamente para Portugal desde Março de 1962. Da colaboração entre Fernando Lopes-Graça e José Gomes Ferreira, nasceu também este «Acordai» aqui cantado pelo coro da Academia dos Amadores de Música:
Entre 1950, ano do O Mundo dos Outros – histórias e vagabundagens, selecção de crónicas publicadas na Seara Nova, e a sua morte, publicou cerca de quarenta títulos – poemas, obras de ficção, crónicas, livros de memórias, ensaios, peças teatrais, introduções, prefácios, comentários, notas, traduções. De um escritor que, nos primeiros cinquenta anos de vida, produzira pouco mais de meia dúzia de títulos, passou a ser um criador prolífico. No segundo fôlego do seu espírito criativo, vieram as grandes obras, as que o converteram num dos mais importantes escritores portugueses do século XX. Naturalmente que José Gomes Ferreira não publicou muito nesse primeiro meio século de vida, mas escreveu. Foi «enchendo gavetas com nuvens», para usar a expressão que ele próprio utilizou para classificar esses anos em que acumulou projectos que, por uma razão ou por outra, não concluiu.
Depois, as nuvens foram saindo das gavetas transmutadas em sóis luminosos: Em 1948 saiu a público Poesia I, que José considera o seu verdadeiro livro de estreia; em 1950 é publicado o volume de Poesia II, sendo também editado o livro de ficções O Mundo dos Outros. Colabora com Lopes-Graça em Líricas. Em 1956 publica Eléctrico. Em 1960 é a vez da obra de ficção, O Mundo Desabitado. Em 1961 é-lhe atribuído o Grande Prémio da Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pela Poesia III. Em 1962 é editada a Poesia IV e publicado Os Segredos de Lisboa. Em 1963 edita-se Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo. Em 1965 sai A Memória das Palavras – ou o gosto de falar de mim.1966 é o ano de publicação de Imitação dos Dias – Diário Inventado. Em 1969 publicou os contos de Tempo Escandinavo. Em 1971, O Irreal Quotidiano – histórias e Invenções. Em 1973 Poesia V.
25 de Abril de 1974: manhã cedo, Rosália acordou-o dizendo-lhe que havia movimentos de tropas em redor de Lisboa. José refilou, rabugento. Levantou-se e espreitou pela janela. Pouca gente na rua. Tocou o telefone. Era o Carlos de Oliveira: «Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa? Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso. Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro»: Depois «A Rosália chama-me, nervosa: – Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço.» (…) «Na Rádio a canção do Zeca Afonso…» «Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas». Agora, sim, é tempo de cantar flores. É tempo das papoilas, bandeiras breves, voltarem ao seu destino de enfeitar cabelos. Mas José, nos seus 74 anos de vida, já sofreu muitas desilusões. Por isso, num encontro com escritores portugueses antifascistas regressados a Portugal após o 25 de Abril, José diz-lhes: «Que esta revolução das flores não seja a revolução das flores de retórica.»
Em 1975 saiu Gaveta das Nuvens – tarefas e tentames literários e o volume de crónicas Revolução Necessária. Em 1976 editou-se O Sabor das Trevas – Romance Alegoria. Em 197
7
foi a vez de novo volume de crónicas: Intervenção Sonâmbula. Em 1978 saíram os volumes I, II e III de Poesia Militante. Foi eleito presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Publicou Coleccionador de Absurdos e Cinco Caprichos Teatrais. Em 1979, nas eleições legislativas intercalares, foi candidato, por Lisboa, nas listas da APU (Aliança Povo Unido).
Em 1980 começou o tempo das homenagens – o presidente Ramalho Eanes, condecorou-o como Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, recebendo depois o grau da grande oficial da Ordem da Liberdade. Nesse ano, numa altura em que o PCP já não estava «na mó de cima», portanto por idealismo e não por oportunismo como aconteceu com tantos, filiou-se no Partido Comunista Português. Publicou O Enigma da Árvore Enamorada – Divertimento em forma de Novela quase Policial. Editou-se ainda o Relatório de Sombras – ou a Memória das Palavras II. Em 1983 foi submetido a uma melindrosa operação cirúrgica, sendo também homenageado pela Sociedade Portuguesa de Autores. Em 8 de Fevereiro de 1985, morreu na sua casa da Avenida Rio de Janeiro, em Lisboa, vítima de doença prolongada.
Na obra de José Gomes Ferreira cruzaram-se três tendências ou correntes literárias, sem que se possa ligá-lo a qualquer delas: o eco da matriz saudosista que lhe ficou da iniciação com Leonardo Coimbra orientando-o para a devoção a Raul Brandão e a Teixeira de Pascoaes, a atracção pela forma insolitamente bela e onírica do surrealismo e o apelo constante do conteúdo do realismo socialista ou, como se chamou entre nós, do neo-realismo. Esta miscigénese deu lugar a uma escrita muito pessoal, muito original, muito fora das escolas e das classificações que os bem-pensantes usam como prótese, a crítica literária como bússola e a análise académica como bengala.
Falar, nestas breves linhas, de José Gomes Ferreira, foi como descrever o caminho trilhado pela inteligência através de um século manchado por numerosos estigmas – duas guerras mundiais com uma grave crise económica de permeio, o deflagrar da Guerra Fria, a ameaça da destruição nuclear, e as vésperas do colapso do «socialismo real». Em Portugal, o florescer e o ruir do sonho republicano, submerso no caos da I República e do episódio da aventura sidonista, a eclosão do corporativismo, a guerra colonial, a Revolução democrática e a desilusão que se lhe seguiu. José Gomes Ferreira, o escritor, o cidadão, viveu tudo isto nos 85 anos que a sua vida durou – alternâncias de períodos de vibração popular, de entusiasmo e esperança, com o doloroso e cinzento marasmo de quase cinquenta anos de ditadura de permeio.
Depois, antes da sua morte, ainda pôde assistir ao «regresso à normalidade», ao vazio que esta democracia formal nos deixa nas mãos e no coração. A sua escrita incorporou-se na luta de resistência activa que os intelectuais portugueses moveram contra a ditadura salazarista. Os seus versos, as páginas dos seus livros, as letras de canções que, musicadas por Lopes-Graça, andaram nas bocas dos antifascistas, fazem parte da luminosa estrada que sulcou uma noite mesquinha e criminosa. A sua obra foi um grito de inteligência no deserto de ideias que um regime tacanho quis fazer prevalecer sobre as mentes dos Portugueses.
Por isso, concorde-se ou não com as suas opções políticas, deve-se-lhe reconhecer a coragem de quem nunca se preocupou com o que lhe era conveniente, de quem sempre fez e disse o que lhe pareceu estar certo. Falar de José Gomes Ferreira foi como narrar o caminho que as suas palavras luminosas abriram através da noite escura que durante 48 anos desceu sobre Portugal. Falei de um dos grandes, de um dos maiores poetas portugueses. Ouçamos Luísa Basto cantar a sua (e de Lopes-Graça) «Jornada», mais conhecida por «Vozes ao Alto!»:
Hoje vamos viajar ao longo da vida de um grande escritor – José Gomes Ferreira. Nascido, em 1900, no Porto, «premonitoriamente na Rua das Musas», como se diz no vídeo, freguesia de Santo Ildefonso, viveu em Lisboa a partir dos quatro anos. E, tal como Camilo Castelo Branco, nascido em Lisboa, foi um homem e um escritor do Norte, José Gomes Ferreira, foi um homem e um intelectual de Lisboa. «A minha Aventura Poética começou aí por volta de 1908, tinha eu os meus oito anos, no dia em que reparei (ou procedi como se reparasse) na existência das palavras».
O fragmento da entrevista conduzida por Eduardo do Prado Coelho, bem como a leitura do actor João Mota do texto autobiográfico, são elucidativos. A intervenção política começou também cedo: com dez anos, em 4 de Outubro de 1910, na véspera de a República ser proclamada, veio para a rua, com um bando de miúdos, prendendo num cabo de vassoura uma bandeira verde e vermelha feita de papel de seda, onde colou com letras recortadas um vibrante «Viva a República!». O pai, democrata e republicano que viria a ser deputado por Lisboa, teve por certo influência na precocidade com que adquiriu consciência política .
Morou na Vila Rodrigues, na Calçada do Monte Agudo onde no final da década de 20 nasceu o Bairro das Colónias. Muitos anos depois, em 1958, soube que a escritora Irene Lisboa morara também na Calçada do Monte Agudo, na Vila Rodrigues, em casa pegada à sua. Numa conversa em casa de José, poucos meses antes do falecimento da escritora, descobriram essa vizinhança e que o «Zeca» que Irene ouvia chamar, era a mãe do poeta querendo saber onde parava o filho traquina, sempre empoleirado em muros ou trepando a nespereiras.
Depois de uma má experiência no Liceu Camões, passou para o Gil Vicente, onde teve como professor Leonardo Coimbra, com quem estudou os poetas saudosistas. E outros mestres distintos: Newton de Macedo, Damião Peres, Câmara Reys… Tornou-se amigo de todos ou de quase todos. Dirigiu a revista Ressurreição – «Revista de Arte e Vida Mental», na qual Fernando Pessoa colaborou com o soneto Abdicação. Em 1918 publicou o seu livro de estreia, o poemário Lírios do Monte, obra que retirou da sua bibliografia.
A música foi outra das suas paixões. Inspirado no romance Os Meus Amores, de Trindade Coelho, compôs um poema sinfónico, Idílio Rústico, que se estreou em 1918 no Teatro Politeama executado por uma orquestra dirigida por David de Sousa. Quando abandonou a via musical, Luís de Freitas Branco disse ter-se perdido a esperança de um notável compositor.
Foi também neste ano que se filiou na Liga da Mocidade Republicana e queimou no Café Gelo um retrato de Sidónio. «E todavia quando, empurrado por Leonardo Coimbra e dentro da coerência da linha paterna, entrei no coro prestativo contra o histérico consulado de Sidónio Pais, nem de longe suspeitava a que ponto chegava a minha carência de vocação para a acção política.»
À breve ditadura sidonista encerrada com o assassínio do «presidente-rei», em 14 de Dezembro, seguiu-se a ameaça da Monarquia do Norte – Em 19 de Janeiro de 1919, os monárquicos encabeçados por Paiva Couceiro, proclamaram no Porto a monarquia. Quase todo o Norte do País e uma parte da Beira-Alta aderiu à sublevação. Em Lisboa, a guarnição de Monsanto, revoltou-se também contra a República. O nosso José, alistou-se no Batalhão Académico Republicano e, após breve treino militar em Tancos, participou na breve guerra civil que assolou o País. No Porto, a 13 de Fevereiro, eclodiu um movimento republicano chefiado por Sarmento Pimentel. Quatro dias depois, o último bastião monárquico, em Vila Real foi vencido. O episódio da Monarquia do Norte terminara. José voltou à Faculdade de Direito.
Os Cafés da Baixa lisboeta eram, nas primeiras décadas do século XX, centros de discussão, sedes de tertúlias artísticas e políticas. Ali se criavam revistas, se combinavam conspirações, se projectavam obras literárias. José Gomes Ferreira foi, por estes anos 20, assíduo frequentador do Martinho, do Portugal, do Gelo, da Brasileira, do Chiado… habitats do sonho e do pesadelo que os cafés eram naqueles anos vinte e continuaram a ser até que, pelos anos sessenta, começaram a ser «reconvertidos», reciclados – bancos, companhias de seguros, agências de viagens, cafetarias, pizzarias…
1921 foi o ano em que publicou Longe, outra colectânea de poemas que viria a considerar obra menor. Porém terá surpresas. Mais de dez anos depois, Soeiro Pereira Gomes dir-lhe-á: «A minha mulher e eu namorámos através do Longe…» e Fernando Lopes-Graça, que comprara o livrinho na Feira do Livro em 1942, musicou três sonetilhos. Se serviram para um grande escritor namorar e para um grande musicólogo os musicar, os poemas não podiam ser tão maus como ele julgara.
Em Novembro de 1925 foi nomeado cônsul de Portugal em Kristiansund, na Noruega. «Por fortuna não passei de cônsul de 4ª classe» (…) «e fora de todas as carreiras». No Porto, embarcou no paquete Sicília, rumo a Oslo. No comboio de Oslo para Trondjem, atravessando planícies de neve, escreveu: «A pior solidão é a que me espera agora: a de ter de esconder a minha verdadeira personalidade. Ai de mim se não conseguir aparentar a banalidade altiva dos medíocres! Tomar-me-ão por parvo.»
Aprendeu a língua norueguesa, que lhe soava «como uma arcada de violoncelo». Ao fim de dez meses lia jornais com desembaraço e, com a ajuda de dicionário, conseguia ler romances policiais. Mais seis meses e começou a mergulhar em Ibsen, Björnson, Alexandre Killand, Knut Hamsum. Aproveitou a solidão para de novo compor música – «meia dúzia de ninharias desprovidas de ânsias de futuro», diz com modéstia.
As cartas dos amigos mitigavam as saudades de Lisboa: «Por aqui tudo velho. Continuo a encontrar o Fortunato, continuam as tardes na Bertrand – o mesmo de sempre!», dizia Ferreira de Castro em Abril de 1926. «Lisboa está linda. As olaias floresceram mais cedo…» afirmava-lhe Alfredo Brochado pela mesma altura. No São João desse ano, depois do Movimento de 28 de Maio, Brochado perguntava: «Você já sabe que vivemos em regime de ditadura?» Já sabia. E assim passou o «interregno norueguês», como designou estes cinco anos.
(Continua)






Ao longo dos tempos e consoante as civilizações, os surdos têm sido olhados de formas diferentes. Por exemplo, no Antigo Egipto eram pessoas importantes, adorados como deuses, servindo de mediadores entre as divindades e os Faraós. Eram temidos e, logo, muito respeitados pelo povo. Não era nada conveniente para um felá que um surdo embirrasse com ele. No outro extremo da escala fica a Alemanha nazi onde os bebés surdos eram, nos hospitais e maternidades, eliminados à nascença, por questões económicas, mas também para não virem com os seus genes defeituosos macular a pureza ariana da raça germânica. Os surdos adultos foram tratados como os judeus, os ciganos, os homossexuais e os comunistas – guetos, campos de concentração e, às vezes, câmara de gás, com eles. Sou um pouco surdo e adivinhem lá para onde é que eu iria com mais prazer na minha máquina do tempo – para o Antigo Egipto ou para a Alemanha nazi?

Germano da Fonseca Sacarrão, zoólogo e ecologista de renome, foi um grande professor catedrático da Faculdade de Ciências de Lisboa. As suas aulas eram tão vivas e participadas que muitos alunos de outras faculdades, de outros cursos, licenciados e pós-graduados, a elas assistiam. Dirigiu cientificamente alguns projectos editoriais a que eu estava ligado e criámos uma amizade sólida e que durou até ao dia em que, fazendo anos de casado, foi comprar um ramo de flores para oferecer à esposa, D. Maria Manuela Sacarrão, que estava de cama com gripe. A meio do caminho caiu fulminado por um ataque cardíaco.Era surdo, assumia-o sem qualquer problema, e usava um aparelho auditivo que tirava quando não queria ser incomodado. Muitas das coisa que aqui vou dizer sobre a surdez, e não só, são da lavra do Professor Germano Sacarrão.
Morava em Campo de Ourique, era, aliás, um entusiasta do bairro, o «quartier latin», com se diz entre os nativos. É um bairro charmoso, projectado nos anos 70 do século XIX, pelo grande engenheiro, Frederico Ressano Garcia (1847-1911), um discípulo da teorias urbanísticas do barão de Haussmann, o arquitecto da Paris imperial, com grandes vias cortadas perpendicularmente por ruas secundárias, como, aliás, já no século anterior, Eugénio dos Santos fizera com a Baixa. Campo de Ourique é uma cidade dentro da cidade, tem tudo, é auto-suficiente.
Até tem lugares de culto – o mercado, a Livraria Ler, do Luís Alves, no Jardim da Parada, o café centenário «A Tentadora», «Os Alunos de Apolo», onde desde 1872 milhares de lisboetas aprenderam a dançar, o CACO – Clube Atlético de Campo de Ourique… Um mundo. Há um texto muito interessante de Miguel Sousa Tavares, que também ali mora: «Viva Campo de Ourique» para o qual vos remeto, pois não é do «quartier latin» que quero falar.
Pois era precisamente no café « A Tentadora», na Rua Ferreira Borges, com a sua linda fachada Arte Nova, que Sacarrão contava como uma manhã foi encontrar dois surdos célebres: António José Saraiva, um morador, e Óscar Lopes que, na altura de que Sacarrão falava, era presidente da Associação Portuguesa de Escritores e vinha com frequência, creio que semanal, a Lisboa, ficando, ao que julgo saber, em casa do amigo. Saraiva há muito que abandonara o PCP (desde 1962), enquanto Óscar Lopes ainda hoje é militante (mas creio que já não está no Comité Central).As amistosas discussões de natureza ideológica eram prolongadas e ricas em finos argumentos vindos de ambos os lados, mas nunca chegando a acordo – Sacarrão que os escutava interessadíssimo, comentava – «um verdadeiro diálogo de surdos!».
Contava também como muitas vezes chegava a casa ao fim da tarde, fatigado e ansiando por repouso. O neto, que vivia com os avós, estava no quarto com música rock em altos berros a criada, na cozinha, ouvia rádio. A esposa via também televisão na sala. Ou ambas viam a telenovela. Um barulho dos demónios, dizia. Então, Germano Sacarrão tirava o aparelho e entrava numa deliciosa ilha de silêncio, apenas habitada pelos seu pensamentos.
Um dia estava ele absorto ante um quadro, numa exposição de pintura na Galeria 111, do Campo Grande. Ouviu um tropel de passos e um rumor de sussurros que se aproximava. Uma voz conhecida diz : – Olha, o meu querido professor! Voltou-se. Diante dele estava, nem mais nem menos, do que o presidente da República, Mário Soares que, aliás, reside ali, a poucos metros, na rua que tem o nome de seu pai. Na verdade, Germano Sacarrão fora professor de Mário Soares no Colégio Moderno.
Por questões políticas, quando veio da Suíça, onde, após a licenciatura e com bolsas do Instituto de Alta Cultura, estagiou entre 1938 e 1943, não lhe foi dada colocação no ensino oficial – nem na Universidade, nem sequer no Secundário. Generosamente, João Soares deu-lhe guarida no seu Colégio Moderno. Sacarrão nunca esqueceu esse gesto solidário.
Agora, a comitiva do presidente ali estava, respeitosa e sorridente, esperando a reacção de Germano. Soares abraçou-o e repetiu: – O meu querido professor! – Então Germano, olhando a comitiva numerosa, esclareceu: – De Física! Professor de Física! (Não fossem eles pensar que fora ele o mestre de política!) – E, perante os sorrisos da comitiva, correspondeu ao abraço do seu antigo aluno que, segundo parece, era um cábula de primeira. -«Muito esperto e inteligente, mas um cábula», dizia Sacarrão, que mantinha uma grande estima por Soares, embora não apreciasse a sua prática política.
O Professor Sacarrão era um homem generoso e bom, ao qual os problemas alheios não eram indiferentes. Um exemplo pessoal – a seguir ao 25 de Abril era considerado «burguês» e, logo, condenável, pagar impostos. Segui a onda. Por volta de 1981/82, apareceu-me um postal da Repartição de Finanças, ameaçando-me com penhora de bens, pois devia cinco anos de impostos ao Fisco – os impostos em dívida não chegavam a dez contos, mas a coima andava pelos cento e tal – hoje uma pequena importância, mas muito dinheiro na altura.
Numa reunião de trabalho com o Professor (ele estava a dirigir uma obra da editora), viu-me com ar preocupado, perguntou-me o que tinha e lá lhe confiei o problema. Comentámos a dureza do Estado relativamente aos que trabalham e a sua complacência para com os grandes empresários. Despedimo-nos. À tarde telefonou-me: – Ouça lá amigo Loures, estive a pensar no seu problema e eu resolvo-lho. Talvez não possa emprestar-lhe tudo, mas arranjo uma boa parte». Fiquei tão comovido que quase não consegui responder e, claro, recusei, mas agradeci muito, com as palavras que na altura considerei mais adequadas.
Pensava propor às Finanças um acordo de pagamento faseado. Depois João Paulo II visitou Portugal, fiz um requerimento e fui amnistiado – só paguei a pequena importância dos impostos em dívida. Mas nunca me esqueci da generosíssima oferta de Germano Sacarrão. Que, ainda por cima, e segundo me dizia, não era rico. Ele e a esposa, tinham o neto e a mãe da Doutora Maria Manuela a seu cargo.
*
A propósito de um poema que há dias aqui publiquei, referi o erro que se comete ao atribuir aos animais características próprias dos seres humanos. Sacarrão costumava dizer: – «As galinhas não são estúpidas; têm a inteligência de que necessitam para sobreviver».
Como
r
efere a escritora Maria Estela Guedes num excelente trabalho seu sobre Sacarrão, este preocupava-se com o facto de o discurso biológico transportar conceitos da esfera zoológica para a antropológica e vice-versa. Esta metaforização é abusiva e acientífica, na sua opinião. As metáforas nascem do impulso de manipularmos a sensibilidade alheia, de moldarmos o ponto de vista dos outros pelo nosso. «A realidade é uma invenção do nosso espírito», costumava dizer; o cérebro tem barreiras de conhecimento, está adaptado a um dado mundo e não a outro. Embora também manipuladora, em poesia, a metáfora é aceitável; em ciência não.
Sou um pouco surdo, como já disse. Um audiograma recente registava alguma perda de audição no ouvido direito. Mas ouço muito bem do lado esquerdo (sempre a sinistra!). Tenho o cuidado de, nas reuniões, me sentar estrategicamente com a minha antena parabólica, o ouvido esquerdo, em condições de captar o que se diz. Numa tertúlia semanal, a do restaurante Baleal (de que o nosso Luís Moreira também faz parte), os amigos já sabem onde me quero sentar e, mesmo que chegue um pouco atrasado, o lugar está reservado. Porém, sempre que me falam em usar um aparelho auditivo, lembro-me do que dizia Germano Sacarrão: «Nunca tive problemas por ser surdo – todos os meus problemas, tive-os por ouvir bem demais».
Faz hoje 88 anos. Elementos republicanos radicais da Marinha e da G.N.R. desencadearam uma tentativa de golpe revolucionário. Gerou-se uma situação confusa e descontrolada em Lisboa no decurso da qual foram barbaramente assassinados o chefe do Governo, António Granjo, Carlos da Maia, Freitas da Silva e Machado Santos, o herói da Rotunda em 5 de Outubro de 1910.

Na foto acima, pode ver-se o governo de Granjo. Ele está ao centro de chapéu e barba. Onze anos após a proclamação da República os republicanos davam largas ao sectarismo e matavam-se entre si. As sementes do pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926 estavam lançadas. O fim da I República aproximava-se. Porquê tanto ódio? A nossa máquina do tempo vai levar-nos até esse dia negro.
A I Grande Guerra deixara a Europa devastada e desmoralizada. As democracias liberais estavam desacreditadas e os regimes autoritários, capitalizando o fracasso dos governos democráticos, iam ganhando peso. Em Itália, Benito Mussolini e os seus camisas negras estavam a um passo do poder. Na Alemanha, digeria-se com dificuldade a humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes e o nazismo ia nascendo nesse caldo de incontida raiva. Em Portugal, ultrapassados os episódios do consulado sidonista e da Monarquia do Norte, atravessava-se um período de particular instabilidade – os golpes revolucionários, sucediam-se e os governos eram derrubados uns atrás dos outros.
O escritor Raul Brandão caracterizava a situação como «uma marcha heróica para um cano de esgoto». Segundo Carlos Ferrão vivia-se «uma agonia colectiva e declínio nacional». Os grandes vultos da república estavam afastados – Afonso Costa exilara-se em Paris, Brito Camacho fora para Moçambique… António José de Almeida era o presidente da República. O chefe do Governo, desde 30 de Agosto, era António Granjo (1881-1921). Activo militante republicano, foi deputado, director do jornal República, ministro da Justiça e da Agricultura e quatro vezes presidente do Ministério. Poeta e combatente da Grande Guerra era um homem de grande coragem e vivacidade. Quer o presidente da República, quer Granjo, líder do Partido Liberal, tinham derrotado nas urnas o Partido Democrático.
Eram os militares apoiantes deste que agora se revoltavam. Naquele dia 19 de Outubro de 1921. Lisboa acordou com os tiros de mais uma revolução. Eram sete e dez e desde as cinco e quarenta e cinco que tropas da GNR haviam começado a ocupar pontos estratégicos da capital. Na Rotunda a Guarda, que à época era a força militar mais bem apetrechada, instalou artilharia pesada e obuses, com os quais começou a flagelar alvos hostis. Só na Rotunda, a GNR concentrou 7000 homens. Granjo foi com alguns dos seus ministros para o campo de aviação da Amadora. Apresentou a demissão do seu cargo ao presidente António José de Almeida que a aceitou.
Cerca das cinco da tarde regressou a Lisboa. A cidade estava em poder dos revoltosos e Granjo refugiou-se em casa de Cunha Leal, seu amigo e vizinho e seu ministro das Finanças. A casa do ministro estava vigiada e os revoltosos depressa souberam que Granjo ali estava. A situação política estava perdida. A revolta triunfara, com as tropas insurrectas ocupando todos os pontos-chave da cidade. Os ministros andavam fugidos. Manuel Maria Coelho, um nome mítico, o lendário tenente Coelho da revolução de 31 de Janeiro de 1891, agora no posto de coronel, comandava os revoltosos. Embora os acontecimentos trágicos daquela noite tivessem escapado ao seu controlo. Aliás, ninguém, nenhum partido ou organização reivindicou o horror que foi aquela noite em Lisboa; quase todos o condenaram.
A «camioneta fantasma» (da qual hei-de falar mais em pormenor) começava a sua sinistra tarefa dessa noite, transportando António Granjo e Cunha Leal para o Arsenal, junto ao Terreiro do Paço. José Brandão, o autor de «A Noite Sangrenta», um dos livros que melhor narra o que se passou e porque se passou, descreve de maneira viva e veraz o assassínio de Granjo: «O chefe do Governo, vencido, mantém até ao fim a coragem que o abatimento não excluiu. Salta os três degraus e, então, lança as suas últimas palavras, em que há ódio e resignação: – Já sei o que vocês querem! Matem-me, que matam um bom republicano!
Soou uma descarga; debaixo, corresponderam. António Granjo caiu ao comprido, vertendo sangue por inúmeros ferimentos. Estava ainda nas últimas convulsões quando um dos assassinos, que, no dizer da testemunha ocular, é um clarim da GNR, de desmedida estatura, sacou da espada e a cravou no estômago com violência tal que, atravessando o corpo, ficou presa no sobrado. Depois, friamente, o facínora, pondo o pé sobre o peito de António Granjo, sacou a arma e gritou triunfalmente, mostrando-a aos companheiros: – Venham ver de que cor é o sangue do porco!».
Como houve diversas testemunhas oculares dos crimes, sabe-se como tudo aconteceu. O que até hoje permanece um mistério, são as razões que conduziram a actos tão horrorosos. Vitoriosa a revolta, tendo Granjo pedido a demissão, por que motivo teve de ser eliminado fisicamente? Depois de ler muito sobre o tema, a minha explicação é a de que não há explicação – um atávico ódio de classe? Os assassinos eram gente do povo, soldados rasos ou de baixa patente, com leituras apressadas de escritos revolucionários; as vítimas eram senhores, bacharéis, oficiais.
Talvez fosse apenas isso (a luta de classes tem as costas largas). O livro de que já falei – «A Noite Sangrenta», do historiador José Brandão, vai tão longe quanto é possível na explicação. Sendo uma edição de 1991, creio que está esgotada. Talvez o possam encontrar em bibliotecas.

Definamos telelixo, palavra que tenho utilizado, mas que (ainda) não vem nos dicionários. Diria talvez assim:
«Telelixo, s. m. – Forma de fazer televisão que se caracteriza por explorar a morbidez, o escândalo, os crimes, os aspectos mais sórdidos da natureza humana, tais como o sensacionalismo e outras aberrações, utilizando-as como instrumentos do aumento de audiências. O telelixo caracteriza-se ainda pelos temas que aborda, pelas personagens que coloca em primeiro plano, pela visão distorcida a que recorre para tratar esses temas e personagens.»
Um recente caso ocorrido num canal privado de televisão traz, quanto a mim, ao primeiro plano da actualidade nacional a questão do telelixo, pois reúne tudo o que de nocivo existe naquele conceito tabloidizado de informação e, a ser verdade o que consta sobre a causa próxima subjacente, põe a nu a fragilidade moral das estruturas do poder no nosso País. Lixo televisivo, eventualmente misturado com lixo político. Uma mistura explosiva.
*
Todos estão ao corrente – uma jornalista foi suspensa das suas funções, facto que provocou indignação e mobilizou a solidariedade de alguns colegas de profissão e de consideráveis sectores de opinião. Diz-se que essa suspensão teria sido motivada pelo facto de se preparar para denunciar ilegalidades cometidas por uma alta figura da política. Se foi esse o motivo é de facto intolerável em regime democrático, pois configura uma acção censória ao mais puro estilo salazarento.
Porém, a tal senhora foi, ao longo da carreira, uma activa promotora de telelixo, realizando entrevistas sob o figurino de julgamento sumário, em que as perguntas continham já a resposta condenatória. O que se diz na definição do conceito de telelixo, acrescentando-lhe um desprezo absoluto pelo respeito devido às pessoas, pela veracidade e pela presunção de inocência, se aplica à dita senhora que, além da capa da «liberdade de expressão» se defende também com um falso conceito de «saudável agressividade».
Esta prática continuada de um jornalismo prostituído, ainda mais agrava a suspeitada intervenção política – fazendo há anos a senhora este tipo de jornalismo marginal a qualquer código deontológico, só foram tomadas medidas quando uma pessoa politicamente importante foi atingida. Enfim, repito, se foi despedida por lesar interesses obscuros de uma alta personalidade, isso é condenável. No entanto, deveria há muito ter sido despedida em nome do código deontológico da carreira jornalística. Em suma, estamos aqui perante três casos não miscíveis:
1 – Por um lado deveria averiguar-se se existiram pressões políticas sobre a administração da empresa para a despedir. Se as houve, deveria ir-se até às últimas consequências – a demissão do político em causa. Não podemos aceitar que, 35 anos depois de Abril, se silencie quem, com razão ou sem ela, incomoda o poder.
2 – Por outro, há muito que a senhora deveria ter sido sancionada, irradiada, pela sua organização de classe. É uma má jornalista, que envergonha os profissionais dignos desse nome.
3 – Finalmente, a estação em questão há muito também que deveria ter sido proibida pelo organismo competente, a ERC, de exibir conteúdos que configuram todas as formas possíveis de telelixo do mais tóxico. Por pressões factuais ou tentando evitá-las, tomou tardiamente e pelas piores razões uma medida que há muito se impunha. Umas coisas não desculpam as outras. A eventual pressão política, sendo extremamente condenável, não pode servir para branquear a recorrente desonestidade da jornalista e o tardio despedimento desta não iliba a administração da empresa das suas responsabilidades na contínua emissão de programas lesivos da saúde cultural e social do País.
Lixo cultural, lixo empresarial, lixo político – há aqui muita sujidade a limpar. Não continuemos a esconder este lixo sob o tapete do nosso comodismo e da abdicação dos nossos mais elementares direitos de cidadania.
*
Em Espanha onde, pelos vistos, as coisas não vão melhor, circula um manifesto exigindo a aplicação de medidas contra a emissão de telelixo. Assumindo-se como uma «Plataforma para uma televisão de qualidade», é apoiada pela Associação de Utentes da Comunicação, pela União Geral de Trabalhadores, pelas «Comisiones Obreras», pela Confederação Espanhola de Mães e Pais de Alunos, pela União dos Consumidores de Espanha e pela Confederação das Associações de Moradores de Espanha.
Muito do que aqui digo a seguir, não sendo uma tradução literal, foi inspirado naquele manifesto. E não seria mau que fôssemos pensando numa iniciativa semelhante, concitando o apoio de associações de pais, organizações de defesa dos consumidores e dos ecologistas, porque o telelixo é extremamente poluente. Enfim, teria de ser uma amplo movimento de opinião dirigido, sobretudo, aos cidadãos em geral, porque, antes de mais, o telelixo e sua proliferação coloca um sério problema de cidadania, minando e pondo em perigo os próprios alicerces da Democracia.
*
O objectivo dos promotores do telelixo é encontrar um mínimo denominador comum que permita atrair um grande número de espectadores. Para tal, utilizam qualquer tema de interesse humano, seja um acontecimento político ou social, como mero pretexto para desencadear aquilo que consideram ser os elementos básicos para a atracção da audiência – sexo, violência, sentimentalismo, humor grosseiro, superstição, muitas vezes de forma sucessiva e recorrente dentro do mesmo programa. Sob uma hipócrita aparência de preocupação e denúncia, os programas de telelixo deleitam-se com o sofrimento, com as demonstrações mais sórdidas da condição humana, com a exibição gratuita de sentimentos e de comportamentos íntimos.
O telelixo, conta também, com uma série de ingredientes básicos que o transformam num factor de aculturação e de desinformação, bem como um obstáculo para o desenvolvimento de uma opinião pública livre e devidamente fundamentada. Segue-se uma lista desses ingredientes.
O reducionismo, com explicações simplistas dos assuntos mais complexos, facilmente compreensíveis, mas parciais ou contendo orientações determinadas. Uma variante deste reducionismo consiste no gosto das teorias da conspiração de não se sabe bem que poderes ocultos, que muitas vezes servem de álibis a determinadas personalidades e grupos de pressão no seu trabalho de intoxicação.
A demagogia, que consiste em apresentar todas as opiniões como equivalentes, independentemente dos conhecimentos ou dos fundamentos éticos sobre os quais se apoiam. Para tal, contribuem a realização de supostos debates, entrevistas e inquéritos, que mais não são do que simulacros de verdadeiros debates, entrevistas e inquéritos, e que longe de lançarem luz sobre os problemas apenas contribuem para consolidar a ideia do «vale tudo».
A demagogia tem uma variante: o desenvolvimento de mensagens esotéricas, milagreiras e paranormais, apresentadas de forma acrítica e num mesmo plano de realidade que os argumentos científicos. O desprezo pelos dir
ei
tos fundamentais, tais como a honra, a intimidade, o respeito, a veracidade ou a presunção de inocência, cuja infracção não pode em nenhum caso ser defendida sob a capa da «liberdade de expressão». Este desprezo desemboca na realização de «juízos paralelos», no abuso do sensacionalismo e do escândalo; na apresentação de testemunhos supostamente verdadeiros, mas que na realidade provêm de «convidados profissionais».
E, claro, na apoteose de uma televisão de trivialidade, baseada no protagonismo das personagens do mundo cor-de-rosa, cujas insignificâncias e conflitos sentimentais, tratados descaradamente de forma sensacionalista, são outro dos ingredientes deste molho infecto. O problema é ainda mais pungente quando este tipo de conteúdos são difundidos através do canal de serviço público, cuja obrigação moral e legal é o de fornecer produtos, ética e culturalmente, solventes. O telelixo nada inventou: a lisonja fácil ao espectador, o gosto pelo sensacionalismo, vêm muito de trás. Porém, na actualidade, a enorme influência social dos meios de comunicação de massas, aumenta de forma exponencial os efeitos negativos deste tipo de mensagens.
O telelixo encontra-se num momento ascendente do seu ciclo vital, como um cancro cujas metástases invadem todo o tecido social, impedindo que grelhas de outros modelos de informação mais respeitadores da verdade e do interesse colectivo surjam e se expandam.
*
Tudo o que no referido manifesto se alega para mobilizar esforços que combatam este tipo de negócio e todos os seus agentes é válido no nosso País. Num próximo texto esboçarei um manifesto para cujo aperfeiçoamento solicito a ajuda de quantos estejam de acordo em que é preciso fazer alguma coisa para que a televisão, factor tão importante de informação, cultura, entretenimento, mude em Portugal.

Faz hoje 88 anos. Elementos republicanos radicais da Marinha e da G.N.R. desencadearam uma tentativa de golpe revolucionário. Gerou-se uma situação confusa e descontrolada em Lisboa no decurso da qual foram barbaramente assassinados o chefe do Governo, António Granjo, Carlos da Maia, Freitas da Silva e Machado Santos, o herói da Rotunda em 5 de Outubro de 1910. Na foto acima, pode ver-se o governo de Granjo. Ele está ao centro de chapéu e barba.
Onze anos após a proclamação da República os republicanos davam largas ao sectarismo e matavam-se entre si. As sementes do pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926 estavam lançadas. O fim da I República aproximava-se. Porquê tanto ódio? A nossa máquina do tempo vai levar-nos até esse dia negro.
A I Grande Guerra deixara a Europa devastada e desmoralizada. As democracias liberais estavam desacreditadas e os regimes autoritários, capitalizando o fracasso dos governos democráticos, iam ganhando peso. Em Itália, Benito Mussolini e os seus camisas negras estavam a um passo do poder. Na Alemanha, digeria-se com dificuldade a humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes e o nazismo ia nascendo nesse caldo de incontida raiva.
Em Portugal, ultrapassados os episódios do consulado sidonista e da Monarquia do Norte, atravessava-se um período de particular instabilidade – os golpes revolucionários, sucediam-se e os governos eram derrubados uns atrás dos outros. O escritor Raul Brandão caracterizava a situação como «uma marcha heróica para um cano de esgoto». Segundo Carlos Ferrão vivia-se «uma agonia colectiva e declínio nacional».
Os grandes vultos da república estavam afastados – Afonso Costa exilara-se em Paris, Brito Camacho fora para Moçambique… António José de Almeida era o presidente da República. O chefe do Governo, desde 30 de Agosto, era António Granjo (1881-1921). Activo militante republicano, foi deputado, director do jornal República, ministro da Justiça e da Agricultura e quatro vezes presidente do Ministério. Poeta e combatente da Grande Guerra era um homem de grande coragem e vivacidade. Quer o presidente da República, quer Granjo, líder do Partido Liberal, tinham derrotado nas urnas o Partido Democrático. Eram os militares apoiantes deste que agora se revoltavam.
Naquele dia 19 de Outubro de 1921. Lisboa acordou com os tiros de mais uma revolução. Eram sete e dez e desde as cinco e quarenta e cinco que tropas da GNR haviam começado a ocupar pontos estratégicos da capital. Na Rotunda a Guarda, que à época era a força militar mais bem apetrechada, instalou artilharia pesada e obuses, com os quais começou a flagelar alvos hostis. Só na Rotunda, a GNR concentrou 7000 homens.
Granjo foi com alguns dos seus ministros para o campo de aviação da Amadora. Apresentou a demissão do seu cargo ao presidente António José de Almeida que a aceitou. Cerca das cinco da tarde regressou a Lisboa. A cidade estava em poder dos revoltosos e Granjo refugiou-se em casa de Cunha Leal, seu amigo e vizinho e seu ministro das Finanças. A casa do ministro estava vigiada e os revoltosos depressa souberam que Granjo ali estava.
A situação política estava perdida. A revolta triunfara, com as tropas insurrectas ocupando todos os pontos-chave da cidade. Os ministros andavam fugidos. Manuel Maria Coelho, um nome mítico, o lendário tenente Coelho da revolução de 31 de Janeiro de 1891, agora no posto de coronel, comandava os revoltosos. Embora os acontecimentos trágicos daquela noite tivessem escapado ao seu controlo. Aliás, ninguém, nenhum partido ou organização reivindicou o horror que foi aquela noite em Lisboa; quase todos o condenaram.
A «camioneta fantasma» (da qual hei-de falar mais em pormenor) começava a sua sinistra tarefa dessa noite, transportando António Granjo e Cunha Leal para o Arsenal, junto ao Terreiro do Paço.
José Brandão, o autor de «A Noite Sangrenta», um dos livros que melhor narra o que se passou e porque se passou, descreve de maneira viva e veraz o assassínio de Granjo: «O chefe do Governo, vencido, mantém até ao fim a coragem que o abatimento não excluiu. Salta os três degraus e, então, lança as suas últimas palavras, em que há ódio e resignação: – Já sei o que vocês querem! Matem-me, que matam um bom republicano! Soou uma descarga; debaixo, corresponderam. António Granjo caiu ao comprido, vertendo sangue por inúmeros ferimentos. Estava ainda nas últimas convulsões quando um dos assassinos, que, no dizer da testemunha ocular, é um clarim da GNR, de desmedida estatura, sacou da espada e a cravou no estômago com violência tal que, atravessando o corpo, ficou presa no sobrado. Depois, friamente, o facínora, pondo o pé sobre o peito de António Granjo, sacou a arma e gritou triunfalmente, mostrando-a aos companheiros: – Venham ver de que cor é o sangue do porco!»
Como houve diversas testemunhas oculares dos crimes, sabe-se como tudo aconteceu. O que até hoje permanece um mistério, são as razões que conduziram a actos tão horrorosos. Vitoriosa a revolta, tendo Granjo pedido a demissão, por que motivo teve de ser eliminado fisicamente? Depois de ler muito sobre o tema, a minha explicação é a de que não há explicação – um atávico ódio de classe? Os assassinos eram gente do povo, soldados rasos ou de baixa patente, com leituras apressadas de escritos revolucionários; as vítimas eram senhores, bacharéis, oficiais. Talvez fosse apenas isso (a luta de classes tem as costas largas).
O livro de que já falei – «A Noite Sangrenta», do historiador José Brandão, vai tão longe quanto é possível na clarificação. Sendo uma edição de 1991, creio que está esgotada. Talvez o possam encontrar em bibliotecas.



Um longo monólogo, com muitos gestos e fundo musical E o colega com bichinhos carpinteiros. As perguntas que já não se fazem, colocam-se. Uma confusão de pessoas e de nomes. No afã de interromper e de falar por cima, quase saía um cinquenta por cento, em vez de trinta.

| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | ||
| 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 |
| 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 |
| 20 | 21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 |
| 27 | 28 | 29 | 30 | |||
Segundo EUA e Israel, o Irão está militarmente obliterado. Na realidade, há mísseis iranianos a atingir localidades de Israel (que tem das melhores defesas aéreas do mundo), além da península arábica.
Falta pouco para Trump dizer que acaba esta guerra com um telefonema.
Subida exponencial do preço do petróleo, aumento da inflação e das taxas de juro, perda de poder de compra, perigo de incumprimento nos créditos bancários, tudo em ambiente de forte especulação e de bolha imobiliária. Onde é que eu já vi isto?!
diz Santana Lopes. Pois. Mas só uma pessoa escreveu «agora “facto” é igual a fato (de roupa)». Uma.
Vinícius Jr. “incluiu a Seleção Nacional no lote de favoritos à conquista do Mundial 2026“. Lembrete: ‘selecção’ ≠ ‘seleção’.
Efectivamente, no Expresso: “Enfermeiro nomeado para coordenador da Estrutura de Missão para as Energias Renováveis deixou o cargo quatro dias depois da nomeação ter sido publicada“.
É possível lermos, num artigo de Jorge Pinto, “um partido que defende a política assente na ciência e nos dados” e a indicação “O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990“? É.
“uma constatação de factos“. Factos? Com /k/? Estranho. Então e o “agora facto é igual a fato (de roupa)“?
“o nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”. Sacanas das pessoas, culpadas de não terem evitado morrer.
Não é Trump always *chicken out (00:31). O verbo é to chicken out, conjugado na terceira pessoa do singular (presente do indicativo), logo, aquele s faz imensa falta. Oh yeah!
Por lá, pó branco, só se for gelo. Como sabemos, o combate à droga é a motivação destas movimentações. A libertação de Hernández foi uma armadilha extremamente inteligente para apanhar os barões da droga desprevenidos.
Oferecer um calendário ou uma agenda a Mourinho. O jogo é na terça…

« Mais vous avez tout à fait raison, monsieur le Premier ministre ! » (1988). Mas, prontos. Voilà. Efectivamente.
Existe uma semelhança entre as pianadas do Lennon no Something e do Tommy Lee no Home Sweet Home.
Moreira, mandatário de Mendes, admite que avanço de Cotrim o levou a não ser candidato a Belém. Júdice, mandatário de Cotrim, votará Seguro na segunda volta.
O “cartel da banca” termina com um perdão de 225 milhões de euros aos 11 bancos acusados de conluio pelo Tribunal da Concorrência. Nada temam!
Recent Comments