A vaca verde

Liderada por Jorge Vasconcelos, ex-presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), a comissão foi nomeada em finais de Janeiro e tem até 15 de Setembro para apresentar uma proposta para aumentar os impostos relacionados com o ambiente, de modo a reduzir a fiscalidade sobre o trabalho.
(…)
O documento agora divulgado faz uma longa análise dos impostos e taxas que têm relevância ambiental. No ano passado, representaram 13,9% de todas as receitas fiscais do país – aproximadamente um em cada sete euros.
Sucedem-se as notícias do não aumento de impostos. Uma vaca que origine um sétimo dos impostos é alvo apetecível para mais um pouco de ordenha. “Ah e tal, estes não me saem do bolso!” É mesmo assim?
Deixa-se de fumar por causa dos impostos?
O objectivo desta nova taxa alimentar é a taxa em si mesma. O resto é hipocrisia política e duplo discurso, consoante se é oposição ou governo.
Mais impostos? Que ideia. Não precisamos de criar desnecessárias ansiedades.
O deputado Pedro Mota Soares pensava assim em 2009:
“Acho que é uma prática higienista e até fascizante que me obriguem a comer pão com menos sal. E se eu quiser comer pão com mais sal? Não posso?”, questiona o deputado do CDS-PP Pedro Mota Soares que se mostra mais a favor de obrigar a colocar informação clara sobre o teor do sal nos rótulos das embalagens de pão, o que está incluído na proposta socialista. [PÚBLICO]
O que pensará hoje o ministro Pedro Mota Soares sobre esta nova taxa higienista ? E os do PSD, o que é que pensarão? Aguardo com curiosidade o repúdio de ambos quanto a esta investida por parte de quem não vai aumentar os impostos.
A Tecnoforma também foi facilitação?
Facilitar um negócio seria ajudar a criar algo novo. O resto são esquemas de amiguismo.
Acordo Ortográfico de 1990: ortografia descaracterizada
Antes de interromper, durante cerca de um mês, a minha actividade no Aventar, permitam-me uns rápidos parágrafos acerca de grafia ontem surgida na RTP que por cá se apanha.
Qual será o motivo invocado por escreventes de português europeu que adoptam o Acordo Ortográfico de 1990 – por convicção, opção ou coacção – para grafarem *caraterização em vez de caracterização? Levando em consideração o único e incorrecto critério que rege a base IV do Acordo Ortográfico de 1990 – “o critério fonético (ou da pronúncia [sic])” – e sabendo que as directrizes para uma “pronúncia culta da língua” se encontram em obras de referência, a consulta dos dois dicionários de português europeu com transcrição fonética (IPA) permite-nos confirmar ou ficar a saber que ao ‘c’ da sequência -ct- de caracterização corresponde sempre uma oclusiva velar surda, isto é, em linguagem, o ‘c’ medial de caracterização é sempre pronunciado – cf. GDLP, 2004, p. 284 & DLPC, 2001, p. 688. Ou seja, sempre [kɐɾɐktɨɾizɐˈsɐ̃ũ̯] e nunca [kɐɾɐtɨɾizɐˈsɐ̃ũ̯]. Por isso, por muito que custe aos adeptos do Acordo Ortográfico de 1990, a grafia *caraterização não é válida em português europeu e esta [kɐ.ɾɐ.tɨ.ɾi.zɐ.sˈɐ̃w] só serve para alimentar confusões.
Existe frequentemente um enorme fosso quer entre a percepção que temos [Read more…]
Não, filha, não posso comprar-te a bandolete
«Pai, podíamos esconder o nosso dinheiro todo no jardim para o Passos Coelho não o encontrar. E quando fossemos ricos, o Passos Coelho ia aos Bancos dar-nos dinheiro, não era?»
Consideremos o seguinte ponto de vista
Esqueçamos por momentos a relação divergente que o governo mantém entre o que anuncia e o que executa e assumamos que é verdadeira essa intenção de conseguir um défice de 1.9% sem mais impostos/cortes salariais e de pensões/taxas/outras medidas de aumento da receita.
Em vez de 4% do produto interno bruto (PIB), a equipa de Pedro Passos Coelho aponta agora para um défice à volta de 1,9% este ano, indicam números enviados pela Comissão Europeia ao Parlamento português. [dinheiro vivo]
Se o governo pretende atingir uma meta mais exigente do que o acordo com a troika exige e se tal é possível sem aumentar o fardo fiscal que está a derrear os portugueses, concluiu-se que o brutal aumento de impostos de Gaspar era desnecessário e que este governo está a empobrecer o país por opção política.
A alternativa a este ponto de vista é Passos Coelho estar novamente a mentir. Você decide qual das opções é mais credível.
Quem não quer ser coiote, que não lhe vista a pele

PSD: «Não é bonito chamarem-nos mentirosos»
José Matos Correia, vice-presidente do PSD, critica o partido de Seguro, por só abanar a cabeça a
dizer não.
O CDS alinha pelo mesmo tom. O porta-voz do partido de Paulo Portas, Filipe Lobo d’Ávila, pede ao PS e aos partidos da oposição para virem a jogo.Os dois partidos da maioria não gostaram de ser atacados de eleitoralismo nem de que o Governo tem uma agenda escondida para mais cortes.
Matos Correia, vice de Passos Coelho, diz que essa crítica não é bonita nem é verdadeira.
Em política não pode valer tudo, dizem os partidos da maioria PSD-CDS.
Nem ao se defenderem deixam de mentir. Não é “verdadeira“? Deixem-me rir. E depois de terem passando uns anos com o tema pinócrates vêm agora queixarem-se mesmo de quê?
Pois é, em política não pode valer tudo. Especialmente, mentir aos portugueses, seus mentirosos!
O fato de ser canhoto
Sim, exactamente, leram bem: o fato de ser canhoto. Agradeço imenso a sugestão (“Leia mais na edição digital ou na edição impressa de A BOLA”), mas “o fato de ser canhoto” chega-me perfeitamente.
Novidades do dia
A Helena Matos já tinha orgasmos antes de 1974. O Vítor Cunha também.
Parasitólogos
Francisco da Cunha Ribeiro
A independência crítica é o bilhete de identidade que dá foro de cidadania ao ser humano. O seguidismo ideológico, ou a simples e quotidiana aversão à crítica caracteriza o grau zero do racionalismo. É preciso muito esforço e um enorme amor ao pensamento livre para nos comportarmos como seres racionais. Julgo que essa é também a única forma de sermos fiáveis perante os outros. A preguiça do pensamento é a melhor amiga do irracionalismo. Não significa isto que quem não pensa deixe, só por isso, de ser homem ou mulher, e passe a ser uma besta, nada disso. Quem, por exemplo, passa os seus dias a trabalhar, a discutir futebol, e a jogar a sueca pode não treinar o pensamento, mas não deixa de ser capaz de gostar ou de amar. Mas esse amor tanto pode subir à altura do céu, como descer ao fundo do Inferno. Quem pensa e ama nunca ama de mais, mas também nunca chega a odiar ninguém. Porquê? Porque sabe melhor relativizar emoções, sentimentos e equilibrar os valores. O homicídio sentimental (pelo ciúme) é, a meu ver, o exemplo mais veemente do que a falta de exercício do pensamento lógico pode ter como consequência.
Aos que pensam pela cabeça dos outros poderíamos chamar “parasitólogos”. Os parasitólogos são, pois, seres racionais que alimentam as suas ideias com as ideias dos outros. E como as suas são, afinal, as dos outros, podemos dizer que este tipo de gente não muda nada, não cria nada, apenas copia. Cerebralmente não evoluíram muito além do homo-sapiens. Por isso os poderemos também designar de “macacos de imitação”, sem qualquer desprezo pelos macacos. [Read more…]
Mais c, menos c, está a orrer om normalidade
“está o fato“, escreve-se num jornal onde a aplicação do acordo ortográfico decorre com normalidade.
Em honra da Fitch
Governo propõe alteração do hino nacional para: “Levantai hoje de novo o outlook de Portugal”.
O Aluno, essa “Hostia” sagrada
Francisco da Cunha Ribeiro
Li num jornal sério que uma “professora, agredida por um aluno, acabou suspensa das suas funções”. Quanto ao agressor, nem uma palavra. Quero crer, porém, que não o aplaudiram pela cobarde agressão; que o não repreenderam por não ter ido mais além na violência da sua agressão; ou que lhe não subiram de imediato a nota à disciplina de Moral.
Mas a notícia esclarece ainda que “ a professora fez dezanove participações disciplinares relativas à mesma turma, desde o início do ano letivo”. Ora, dezanove participações disciplinares, ao longo do ano, serão de facto muitas participações… A Sra professora que me desculpe, mas não deve saber o que anda a fazer… A turma em questão “certamente repleta de bons rapazes e boas raparigas ” não merece tanta participação disciplinar… É que com esta resma de participações sabe-se lá se os meninos e as meninas não ficam traumatizados… Coitados! Mas há mais: ” a Escola pediu avaliação médica da professora…” Pediu, e, a meu ver, fez muito bem! A sra professora só pode sofrer da caixa dos pirolitos! Admite-se lá fazer participações disciplinares a alunos tão disciplinados! Noutros tempos, sim, era normal os professores despacharem os alunos com participações disciplinares, hoje em dia não é necessário, visto o comportamento exemplar dos nossos alunos. Nos dias de hoje, em que os pais educam tão bem os seus filhos, ninguém irá entender que, em vez de uma participação disciplinar, não se dê ao aluno uma decisiva e eficaz lamparina.
Partiu Sue Townsend

A morte de uma escritora com a qual se mantém, ao longo dos anos, uma empatia e uma cumplicidade que ultrapassa a dimensão literária, entristece-nos como se nos desaparecesse um amigo. E a repetida constatação de que a obra continua ou, quem sabe, cresce com o tempo, é fraca consolação.
Sue Townsend era, para além dos seus inegáveis méritos literários, uma mulher e uma artista corajosa. A saga de Adrian Mole que a tornou famosa, não é só uma incursão pelo desenvolvimento, da infância à idade adulta, do seu neurótico e impagável anti-herói. É ainda um retrato humorístico, sim, mas também cáustico e implacável do thatcherismo e, no final da saga, de um blairismo que vem a decepcionar profundamente a socialista – mesmo! – que Sue era. Nada escapa – e não deixou de ter sérios incómodos por isso – à sua pena afiada, como se prova no hilariante A Rainha e Eu, onde a autora nos conta as desventuras da família real britânica, reduzida a utente de um bairro social após a vitória de um imaginado “partido republicano”.
Leiam, pois, um livro dos seus em sua memória e, se não a conhecem, verão que não resistem a ler os seguintes.
Assunção

Assunção teve oportunidade de hoje, mais uma vez, responder às dúvidas dos jornalistas. O assunto era a possibilidade de um militar de Abril se dirigir ao parlamento e, desse modo, ao país, no dia em que se comemoram 40 anos sobre a revolução libertadora. Nós ouvimos e nem pensamos no conteúdo das respostas de Assunção: ficamos mesmerizados pelo seu estilo.
No país de Fernando Pessoa a heteronímia não é uma novidade, mas a presidente da AR, não conseguindo emular na escrita o poeta, tenta fazê-lo na fala. Valha a verdade, o reportório da Assunção, além de limitado, é desgostantemente medíocre, mau grado já ter brilhado com uma citação de Simone Beauvoir – da qual não sabemos se conhece outra coisa – que, por razões de contexto, lhe saiu desgraçadamente mal.
Assunção conhece dois registos de discurso: o do pesporrente e ininteligível ” inconseguimemto” e o do sucinto, lacónico mas agressivo – por vezes quase raivoso – “evacuem as galerias” (compreende-se, porém que a ordem seja gritada, para que os cidadãos não se confundam com o “as”, interpretando-o como “nas”…) ou o “isso não existe” com que respondeu aos jornalistas sobre a questão da possibilidade do discurso do intruso militar na AR. Não é de agora que se sabe da multiplicidade caleidoscópica de Assunção e dos espantos que ela motiva. [Read more…]
Sobre a crise
Vale a pena ver este documentário, que explica as razões da actual crise, explicando como a solução encontrada para a combater, mais não foi que procurar apagar um fogo atirando-lhe gasolina. A próxima será inevitável…
De que é que tem medo o PSD?

“O problema é deles“, disse Assunção Esteves sobre a intenção da Associação 25 de Abril discursar na sessão solene comemorativa da revolução. Medo de ouvir o que se não quer ouvir? Compreendo, em vésperas de eleições mais vale uma pequena polémica encetada por uma figura menor do que parangonas sobre o que pudesse vir a ser dito na Assembleia da República.
O Prémio*
Alexandra Lucas Coelho foi premiada num do mais importantes prémios atribuídos em Portugal. Dou-lhe os meus sinceros parabéns. E ainda bem que no seu discurso disse o que lhe apeteceu.
Mas o texto aqui escrito por Sarah Adamopoulos (que não conheço) leva-me a dizer o seguinte: quem fingiu, e bem, que havia cultura no governo foi Gabriela Canavilhas e o seu SEC de então; e nessa matéria foram muito bem secundados por Francisco José Viegas, e apenas com uma diferença, é que com Sócrates havia Ministério da Cultura e Secretaria de Estado da Cultura, e com Passos Coelho não há MC mas também não há SEC. A reestruturação dos serviços da área da Cultura feita por FJV é a mesma que estava preparada anteriormente, e que apenas pode ser adjectivada de vergonhosa, aliás como a sua prestação como SEC.
Com isto não estou a defender que com Jorge Barreto Xavier é que a coisa está boa, nem que a sua intervenção quando do prémio tenha sido correcta. Outro aspecto tem a ver com o prémio monetário. Se, como se diz, o prémio tem uma parte de dinheiro público, então direi que como contribuinte não quero que os meus impostos sejam aplicados em prémios literários. Claro que essa decisão não é minha, é de um governo, este ou outro, que seja legitimamente eleito. E por isso este país não é de Cavaco Silva, como diz Alexandra Lucas Coelho, mas também não é de Siza Vieira, ou de qualquer outra estrela da nossa área dita cultural.
Quanto ao papel que deve ter um Secretário de Estado da Cultura de qualquer governo, pergunto, e então o património cultural? E a língua, que é também património? E o Acordo Ortográfico? Como ficamos?
Como dizia um primo meu, esta malta acha que a cultura é uma casa à parte do país.
*Título de um livro de Manuel Vásquez de Montalbán, cuja leitura recomendo





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