Depois do presidente que não esteve porque tinha mais que fazer, poderemos ter o presidente que não está porque foi ver o Papa.
Mundinho
Maria de Fátima Bonifácio cita uma “empregada negra” do prédio dela, Helena Matos apoia-a e argumenta que aquilo que a outra escreveu é “o que se vê e ouve na estação de comboios da Damaia”. Aguardo um dossier temático sobre alterações climáticas com informação recolhida no quiosque dos gelados da Praia dos Ingleses.
Influencers
No café do Sr. Manuel, eu comia o pãozinho de todos os dias, banalíssimo, até que comecei a reparar num cavalheiro distinto que pedia certo pão, ao que parece reservado para clientes conhecedores, guardado no sacrossanto da cozinha, cortado em fatias longas, de tez escura, filho de farinhas nobres, e aspergido com um azeite suavíssimo. Agora, também eu como esse pão.
E foi assim que entendi para que servem os influencers.
Padres polacos queimam livros da saga Harry Potter
“Onde se queimam livros, acaba-se a queimar pessoas.” Heinrich Heine
Dias
Sempre que eu oferecia um presente ao meu pai, ele fazia uma coisa que me irritava muito. Sem desfazer o embrulho, revirava-o nas mãos, abanava-o junto ao ouvido, e punha-se a adivinhar: “Isto é um perfume”. “É um cachecol”. “Um livro”.
Claro que às vezes acertava e isso ainda me irritava mais. “Não adivinhes, abre!”, repetia-lhe eu sempre. Ele achava graça a esse jogo. Eu sentia que parte da surpresa se arruinava. Claro está que ele tinha razão, eu ainda não me tinha libertado dessa urgência estúpida que carregamos durante anos, por vezes a vida toda. [Read more…]
Upgrade
Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal, Invicta e Destino Mais Instagramável de 2019 Cidade do Porto.
Os cabelos brancos de Letizia
A mulher estava parada frente a uma montra de marmitas e lancheiras. Levava na mão um saco de uma loja famosa, já deslavado, destes que se conseguem uma vez e são usados todos os dias para transportar o almoço, as compras, a bata do trabalho, e duram anos até se romperem. Dentro do saco, via-se o cabeçalho da revista ¡Hola!.
A mulher esticava a cabeça para ver todos os preços das marmitas da montra, mas não se decidia a entrar. Passou um autocarro e o ruído deve tê-la feito tomar consciência de que já tinha perdido demasiado tempo. Seguiu caminho com passos rápidos. Por curiosidade, fui até ao quiosque ao lado e procurei a capa da ¡Hola!. Havia umas quantas mulheres, algumas desconhecidas para mim, mas a foto central era da rainha Letizia, de quem se garantia estar a “apostar na naturalidade” e orgulhosa dos seus cabelos brancos. Inclinei-me para ver melhor a foto. Os cabelos brancos da rainha resumiam-se a umas linhas estrategicamente dispersas por um cabelo imaculadamente castanho. Não eram cabelos brancos, eram madeixas de realismo pintadas com mestria para fazê-la parecer quase uma de nós. [Read more…]
Cozinho para o povo
Assunção Cristas perdeu uma óptima oportunidade para cozinhar um arroz de fio de salpicão, como a Filipa Vacondeus.
Parabéns, Elisabete Jacinto!

A primeira mulher a vencer a «África Eco Race», prova automóvel todo-o-terreno, ao volante de um camião. Não só subiu ao pódio como fez história.
O Diabo faz selfies

©Víctor Sainz / El País
A história conta-se em poucas linhas: um escultor decidiu oferecer a Segóvia, sua cidade adoptiva, uma estátua que representa uma lenda centenária, a de que o famoso aqueduto da cidade não foi erguido pelos romanos, mas sim pelo Diabo, numa única noite, a pedido de uma jovem, que conseguiu enganá-lo e salvar a sua alma. A autarquia aceitou a oferta com entusiasmo mas, quando a estátua ia ser colocada no lugar que lhe fora destinado, uma associação de católicos apresentou queixa, alegando que a obra ofende os seus sentimentos religiosos. O caso está em tribunal e a estátua mantém-se na oficina do seu criador.
As fundadoras da associação criada para apresentar esta queixa alegam que a estátua é uma exaltação do mal e que este Diabo, ao nem sequer estar próximo de uma igreja, é representado sem nenhum elemento que o repudie, o que o converte num chamariz irresistível para satânicos de outras paragens. [Read more…]
Dr. Montenegro
Ele pode não estar melhor, mas os portugueses estão muito melhor sem ele.
Dia de Reis

Foto de Josep Lluis Sellart
Há poucos meses, no Verão, o líbio Betcha Honorée esteve prestes a morrer. Ele e mais umas dezenas de pessoas que tentavam atravessar o Mediterrâneo para começar uma nova vida na Europa. O barco em que seguiam naufragou, mas foram resgatados pelo navio da ONG «Open Arms» e recebidos em Espanha.

Foto de Olmo Calvo
Pedofilia, mas da menos chocante
O bispo do Porto, D. Manuel Linda, afirma, em entrevista ao Público (edição de hoje), quando questionado sobre os casos de pedofilia na Igreja e, em concreto, da Igreja portuguesa, o seguinte:
Aqueles dois casos – o da Madeira, com o célebre padre Frederico, e, recentemente, o caso da Guarda -, tudo leva a crer que não tenham tido aquela dimensão de gravidade de que estamos habituados a ouvir falar quando falamos de pedofilia. Talvez tenha havido alguma intimidade, mas não uma intimidade daquelas mais chocantes.
[sublinhado meu]
Somos o que não esquecemos

Palácio de Cristal – Espólio de Domingos Alvão (Casa Alvão)
Um muito respeitável ancião ensinou-me, há anos, que as cidades centenárias resistem a bastante mais ataques e ofensas do que o nosso arrebatado amor juvenil crê possível. Fiz-lhe caso, então, mas sem abrir mão de algum cepticismo. É nessa advertência que penso, agora que acabo de ler que foi aprovada ontem, na reunião do executivo da Câmara Municipal do Porto (CMP), a alteração do nome do Pavilhão Rosa Mota. Com os votos da maioria liderada por Rui Moreira, e os votos contra do PS, PSD e CDU, foi decidido que, ao nome que homenageia a grande maratonista, se juntará a publicidade a uma cerveja, passando assim o Pavilhão a chamar-se «Rosa Mota – Super Bock Arena», pelo menos durante os próximos 20 anos.
Sem poder escamotear a contradição evidente que resulta de associar um equipamento desportivo a uma bebida alcoólica, o presidente Rui Moreira garantiu que a questão foi “debatida com Rosa Mota variadíssimas vezes, até se chegar a uma situação confortável”. [Read more…]
Vilezas
Eis uma evidência: uma pessoa que afirme ter sido violada poderá estar a dizer a verdade ou não. Mas, até que a Justiça estabeleça essa verdade, cabe à sociedade tratar a pessoa queixosa com respeito e dignidade. Quando vemos a possível vítima a ser humilhada, a sua história ridicularizada, as suas intenções denegridas ainda antes de a Justiça poder fazer o que lhe compete, reduzimos as possibilidades da reparação do crime, se o houve, e permitimos que o nosso mundo se envileça.
No país de Salvini, solidariedade é crime
Domenico Lucano, o autarca que permitiu que centenas de refugiados dessem nova vida à pequena vila de Riace, foi hoje detido por “auxílio à imigração ilegal”.
A guerra começa aqui

O dia em que Ignacio Robles disse “não” parecia igual aos outros todos. A corporação foi chamada ao porto de Biscaia para uma operação de rotina: verificar as condições de segurança no carregamento de mercadorias perigosas. Os bombeiros não são pagos para fazer perguntas, mas Ignacio, num daqueles momentos que parecem banais, mas que se ampliarão na memória por muitos anos, perguntou o que havia nas caixas que iam ser transportadas para a Arábia Saudita. E responderam-lhe. Eram bombas. As que provavelmente cairiam sobre o Iémen daí a umas semanas.
Ignacio disse que não era capaz. Lembrou que, como bombeiro, a sua missão era proteger a vida e que não podia ser chamado a participar num acto que conduziria à morte de civis. Pediu que o dispensassem do trabalho. Não houve problemas. Um mês depois soube, pelo jornal, que lhe tinha sido instaurado um processo disciplinar que, no limite, poderia levar a uma suspensão de 3 a 6 anos, sem remuneração. E caiu-lhe o mundo aos pés. [Read more…]
Nostalgia da luz
No deserto de Atacama, cruzam-se os que procuram o passado: astrónomos que perscrutam o céu transparente, arqueólogos que buscam vestígios de civilizações pré-colombianas, e os sobreviventes da ditadura de Pinochet que procuram o que resta dos familiares assassinados. Um poderoso e comovedor documentário do chileno Patricio Guzmán, realizado em 2010, e premiado em múltiplos festivais de cinema.
“PS enfia na gaveta caso da ‘cigana’”
Alguém sabe onde é que o PS manda fazer os móveis? Davam-me mesmo jeito umas gavetas com tanta arrumação.
Shaolin, meu amor
Entre os meus escassos talentos conta-se o de fingir que falo mandarim na perfeição. É um talento apenas conhecido de um reduzido grupo de eleitos que têm aplaudido as minhas actuações com inexcedível simpatia, chegando mesmo a fingir um entusiasmo que eu reconheço não poder ser genuíno. Evidentemente, não falo uma palavra do autêntico e legítimo mandarim, excepto as que se podem aprender nos restaurantes chineses. Mas finjo que falo e o meu fingimento é credível. Na verdade, é mais uma performance multidisciplinar porque também gesticulo de forma lenta e cerimoniosa e uso uma panóplia de expressões faciais que me parecem muito adequadas.
Fingir que falo mandarim é uma habilidade que está ao meu alcance apenas porque vi, numa idade por assim dizer tenra, um número considerável de episódios de “Os jovens heróis de Shaolin”. Para quem não sabe, nessa série produzida em Hong Kong contavam-se as empolgantes aventuras de Hung Hei Goon, Fong Sai Yuk e Wu Wai Kin, e os seus árduos treinos no templo de Shaolin, na China do século XVIII, para virem a tornar-se mestres de Kung Fu. Estes três haveriam de converter-se em heróis, recordados durante séculos, na luta contra a Dinastia Ching, dos Manchu, que havia derrubado a Dinastia Ming, dos Han. [Read more…]
Inhos
Conhecendo, como conhecemos todos, o amor dos portugueses pelos diminutivos, julgava que já nenhum poderia surpreender-me. Uma ingenuidade pouco justificável na minha idade, devo reconhecer. Bastou cruzar-me na rua com uma simpática vizinha a quem vou perguntando pela saúde familiar para que ela me confessasse que anda preocupada com uma das filhas, a fumadora, porque não há maneira de deixar o vício, apesar de já ter tido um “AVCzinho”. Atentai, leitores, na delicadeza desta construção: um AVCzinho. [Read more…]














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