Satélites

Frente a uma televisão aparelhada de pequenas engenhocas luminosas – para ver vídeos, fotos, partilhar, sincronizar – sentei-me no sofá, esse que diz o Millás que é como se estivesse conectado à televisão porque esta parece ligar-se sozinha quando alguém se deixa cair sobre aquele, sentei-me a aborrecer-me, e em vez de ver o que havia para ver, e que é agora praticamente tudo o que há no mundo – coisa que pode levar a vida toda, queira eu assim gastá-la – em vez disso comecei a ouvir, naquela estação de rádio que passa só na cabeça de cada um, o “Satellite of love”, e onde se diz, com enganadora inocência “Gosto de ver coisas na tv”. [Read more…]

O pó da fivela

©Guy Denning

Já toda a gente conhece o Tomé e esse é o maior problema dele. Já não há ouvintes para os seus poemas, nem mecenas para umas cervejas, nem testemunhas para as epifanias que com frequência o arrebatam.

Ao Tomé, ignora-se e apenas quando não é possível evitá-lo.

É um homem de idade incerta, algures entre os 40 e os 65, escanzelado, com cabelo cortado às três pancadas, roupa que já passou por outros corpos antes de lhe chegar, sapatos cambados, dentes estragados, o nariz sempre a pingar porque, como ele vai contando a toda a gente, sofre de uma alergia que lhe dura o ano inteiro e tem o septo desviado.

Por acaso, no dia em que o conheci, e em que ele insistia em ler-me a sua elegia “A sétima morte dos ludopatas”, comecei por oferecer-lhe um lenço de papel, que ele recusou com gesto soberbo.

– Não, obrigado. Só uso lenços Poker. [Read more…]

A tolerância

No quiosque onde por vezes vou fazer o Euromilhões só para poder dizer Alea jacta est!  qual impetuosa estratega, enquanto a dona do quiosque deixa cair o boletim na máquina, sem cuidar da importância do momento, alheia à frágil tessitura onde se entrecruzam acaso, sincronia, sorte, mirabolantes coincidências, e tudo redunda no invariável resultado de um número e uma estrela, no quiosque, dizia, discutia-se hoje o Papa e a tolerância. A dona do quiosque, que de todos os assuntos pensa que nada vai mudar mas que tudo acabará por ficar pior, dizia que é muito a favor da tolerância mas que há limites e que há gente que abusa. Olha aquela da farmácia, por exemplo, que vem aqui muitas vezes, lê as revistas das telenovelas todas e nunca paga nada, eu sou tolerante mas às vezes apetece-me mandá-la àquela parte. E o Papa, ora o Papa… A Igreja fala muito de dar a outra face mas quando é com eles é outra história, não é? Falar é muito lindo – concluiu, com um gesto amplo, abarcador do mundo, a dona do quiosque.

Fez-se silêncio. [Read more…]

Mistérios

“Perro semihundido” (detalhe), de Francisco de Goya y Lucientes

 

O cão passa os dias e as noites na loja do dono. Pela manhã, ainda antes da abertura da loja, costumo vê-lo deitado ao sol, muitas vezes ainda a dormir, patas comicamente viradas para cima, uma imagem que faz sorrir quem passa e fez dele o favorito da rua. Outras vezes, segue-nos com uns pequeninos olhos negros que parecem de urso de peluche.

Hoje, porém, estava sentado e olhava a parede de granito iluminada pelo sol. Era bela a parede, de sombras rugosas suavemente esbatidas, e belo o cão. Imóvel, de perfil para nós, os que passamos na rua, que desta vez não conseguimos chamar-lhe a atenção, e atento ao percurso do sol na parede até aqui sempre fria. [Read more…]

Não vai correr bem

“Leal Coelho” é demasiado literal.

O aceitável

Leio, na edição de hoje do “Público”, que pertencer à Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen passou a ser “aceitável”. Quem o observa é Sylvain Crepon, um investigador da Universidade de Tours que estuda a extrema-direita francesa e que conta que, até há pouco, para irem colar cartazes os apoiantes de Le Pen faziam-se proteger com tacos de basebol e iam acompanhados por uns quantos skinheads.  “Agora podem fazer isso em plena luz do dia, o que mostra que as pessoas já estão mais habituadas à FN. Tornou-se mais aceitável.”

“Aceitável” graças sobretudo à sagacidade de Marine Le Pen, que soube empurrar para fora de cena um embaraçoso pai incapaz de conter o seu discurso de ódio. A hábil Le Pen faz-se agora chamar apenas de Marine nos cartazes, encheu os comícios de rosas azuis, afectos e sentimentalismo, fala da “França esquecida”, da “França sem voz mas não sem coragem” e reclama para o seu partido a personificação desses “valores franceses”, chavões de conteúdo vago, ideias míticas de uma “França perdida” que é preciso recuperar, um bastião a defender perante a invasão dos outros, dos estrangeiros, dos terroristas. [Read more…]

“Juntam-se duas coisas que nunca se tinham juntado antes”

A “Lagoa dos Peixes” passa boa parte do ano congelada. Saber isto provoca algum desconforto, porque é inevitável pensar nos peixes, os tais que dão o nome à lagoa, e que passam nove meses aprisionados num cubo de gelo. Talvez houvesse peixes muito lá no fundo, sob a capa glaciar que reveste a lagoa. Talvez seja esta, afinal, a época mais tranquila das suas vidas, quando são poucos os seres humanos que se aproximam da lagoa e nenhum ousa perturbar a sua superfície gelada.

A estrada sinuosa que conduz ao lugar estava desimpedida, apesar do muito gelo que ainda havia no topo da montanha. E foi na beira dessa estrada que encontrei María de los Milagros, uma velhinha de cara enxuta e mãos fortes que me agarraram com força para a fotografia. Estava sentada a tomar o precioso sol de Inverno serrão, ela e um grupo de gente da sua idade, homens e mulheres, imóveis como pedras, mas com o olhar perspicaz para avistar forasteiros e rir, sem mover um músculo, dos seus arrebatamentos paisagísticos. [Read more…]