Sem rumo

“Don’t argue with me, Hemingway,” Miss Stein said. “It does no good at all. You’re all a lost generation, exactly as the garage keeper said.”
— Hemingway, “A Moveable Feast

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Felizmente, o jornal A Bola deixou de ter Vítor Serpa ao leme dos seus destinos. De facto, não lembra a um cacodemónio ter como timoneiro, num Portugal moderno, uma pessoa que faz a apologia da resistência silenciosa como forma de luta: quer em abstracto, quer, obviamente, no caso concreto, em relação ao AO90.

Além disso, trata-se de alguém que interpreta como geracionais comportamentos sui generis de indivíduos também eles, no seu direito, peculiares. Ora, o comportamento de Bruno de Carvalho é exclusivamente dele e não conheço estudos com amostras da população nascida em 1972 (da qual também faço parte) através dos quais se demonstre que os actos concretos indicados por Serpa relativamente a Carvalho sejam representativos de um comportamento geral da nossa geração.

Quanto à lógica dos raciocínios de Serpa, divirto-me, confesso, no labirinto do texto de despedida. Sabemos que eterno significa aquilo que não há-de ter fim, que dura sempre (se teve principio ou não, essa é outra questão). Todavia, no tal Portugal moderno há pouco mencionado, ler no mesmo texto “nenhum poder deve ser eterno” e “mais de trinta anos depois de ter assumido o cargo” dá-me tanta vontade de rir como a diferença entre a grafia anunciada e a grafia adoptada pelo jornal A Bola.

Serpa deixou de ser director, é certo, mas as recaídas, graças a Zeus e a todos os deuses, mantêm-se.

Desejo-vos uma óptima semana.

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Brevíssimo apontamento acerca do javardo

…. se não havia à mão arco ou besta, tinha o caçador de acercar-se aos braços do urso ou aos galhos do cervo ou aos dentes do javardo.
—  José Saramago

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Há quem tente chutar para canto a actualíssima notícia do javardo, por achar que se trata de uma questão de lana caprina ou, pior, por pensar que Sérgio Conceição tem razão. Como fui leitor compulsivo de Horácio (na Reclam), sou particularmente sensível à questão da ‘lana caprina’: alter rixatur de lana saepe caprina. Como leio dicionários (muitos), creio que Conceição poderá não ter razão.

Passo a explicar rapidamente a questão javardo e, depois, dir-vos-ei ao que venho.

Francisco Seixas da Costa, antigo diplomata e ex-secretário de Estado dos Assuntos Europeus, foi condenado ontem pelo Tribunal do Bolhão a uma indemnização de 6000 euros e a uma multa de 2200 euros, por causa deste chilreio:

Segundo a juíza,

Somos livres de entender que uma pessoa tem má educação, mas a palavra conta e a palavra tem peso. É diferente dizer que é grosseiro ou que é javardo. Podia ter dito tudo o que disse sem ter usado a expressão em causa. Aqui mostra-se a linha que não se deve ultrapassar.

Ora, uma das acepções atribuídas pelo Priberam a javardo é [Read more…]

A faculdade de exigir comprovativos de fatos

King. Euen as the rockes please them that feare their wracke.
Withhold reuenge deare God, tis not my fault,
Nor wittinglie haue I infringde my vow.
— Shakespeare, Henry VI, Part 3 (Octavo 1, 1595)

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Efectivamente, a faculdade existe e, pior, encontra-se consagrada no Diário da República.

Esta javardice continua e os responsáveis também continuam a fingir que nada disto está a acontecer. Em vez de perderem tempo com “a fita encarnada” de Santana Lopes, perguntem-lhe mas é o porquê do “agora facto é igual a fato (de roupa)“. E aí está o busílis da questão. A culpa, garanto-vos, não é minha. A culpa é dos defensores, promotores e amigos do Acordo Ortográfico de 1990. Exactamente.

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Somos?

Since Spanish spirantization and English flapping both affect /d/ intervocalically, the acquisition of the/d/-/ɾ/ contrast proves difficult for English learners of Spanish.
— Herd, Jongman & Sereno (2013)

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Somos isto, aquilo e aqueloutro (tosse sabática), mas não houve Stones e não haverá Fórmula 1. Por falar em música, já sabia que o Maher à superfície era um /mɑːr/ profundo, agora, não sabia era que o Marr é, efectivamente, Maher.

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Música: a rainha de Inglaterra faleceu e o Expresso esqueceu-se da Madonna

Eis a lista com a Madonna. A Madonna é excelente, como sabemos. Na lista do Expresso, infelizmente, falta a Madonna. Não fui só eu a dar por ela.

O que é a Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos do Ministério do Mar?

É um serviço central da administração directa do Estado, dotado de autonomia administrativa.

Acreditar mais? Acreditar menos?

Não acredito mais em Deus”, “Não acredito menos em Deus”; “Já não acredito em Deus”, “Ainda acredito em Deus”; e por aí fora. Ah! E ‘selecção’ ≠ ‘seleção’.

Ninguém para Porro e Nuno Santos faz o terceiro em Frankfurt?

Não! Ninguém pára Porro e Nuno Santos faz o terceiro em Frankfurt.

Efectivamente, há  resistência, mas não é silenciosa.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, há professores racistas e xenófobos entre nós:

«não vale a pena negar que há, infelizmente, setores racistas e xenófobos entre nós». Pois. Efectivamente. Exactamente.

Os One *Diretion e os *Artic Monkeys

Exactamente. Acabado o reinado dos One Diretion, os Artic Monkeys são os candidatos naturais à sucessão.

Pois é.

Don’t believe the hype.

Boa Vista, Leiria

«Em Boa Vista, Leiria, um homem salva uma ovelha das chamas, transportando-a às costas durante o incêndio que ali lavra».

Croniqueta acerca do complexo Terças com Morrie/Pontes de Madison County

Você também?
Salvador Sobral

O Goucha e a mãe do Goucha, a Laurinda Alves, o Emplastro, o Paulinho, a Judite de Sousa e andamos nisto. Só falta o 13 de Maio. Na cova da Iria. É o complexo Terças com Morrie/Pontes de Madison County. Uma lamechice, uma pieguice e uma choradeira que estou que nem posso.

Don’t judge this book by its cover

Fonte da imagem: Anna M. Klobucka.

Horta pára o estágio? Porquê?

Já somos dois

«Costa rejeita “ceticismo”».

O Harrison Ford sabia-a toda

David Letterman: How do things seem to be 40 years from now?

Harrison Ford: It’s no musical comedy, David.

(Nova Iorque, 22 de Junho de 1982)

 

O caminho para o OE2023 pode estar

apenas a começar“, mas o resultado será certamente o do costume.

«Somos o quarto país mais seguro do mundo. Somos um parceiro na construção europeia, numa Europa que não deixa ninguém para trás. Somos o segundo país da OCDE mais aberto ao investimento estrangeiro. E, de acordo com as projeções [sic] da Comissão Europeia, seremos o país da UE com o maior crescimento económico e a menor inflação em 2022, num contexto de contas públicas sãs e sustentáveis»

(António Costa)

Todavia:

«A digressão comemorativa do 60.º [fmv] aniversário do primeiro concerto dos Rolling Stones começa esta quarta-feira em Madrid e não passa por Portugal»

(Expresso)

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Niemand ist vollkommen

„Sie sind ein Monster!“
„Und Sie sind Anwalt! Niemand ist vollkommen.“
Dracula

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No tal artigo do “nobody is perfect”, Cavaco grafa 30 de Janeiro. Muito bem. 30 de Janeiro. Lindo menino. Mas Cavaco grafa perspetivas (muito bem, dirá um adepto português do #AO90, muito mal, dirá um homólogo brasileiro e muito mal, direi eu também, obviamente). Cavaco grafa diretamente (muito mal, direi eu, muito bem, dirão os nossos amigos de há pouco). Logo nos primeiros parágrafos do artigo de hoje, Cavaco explica-nos as virtudes do #AO90. Cavaco mandou. Santana cumpriu. Por isso, por haver tanta sabedoria e sensatez, tivemos há uns anos o “agora facto é igual a fato (de roupa)” de Santana. Quod erat demonstrandum. Agora, vou mas é trabalhar.

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Ao ler este

nobody is perfect“, lembrei-me do English As She is Spoke.

Marcelo Rebelo de Sousa não adopta o Acordo Ortográfico de 1990

I hate rock stars.
Phil Anselmo

Still, some target language phones may in fact be sufficiently close to L1 counterparts that their perception and production in terms of the L1 category may be undetected by native listeners (Flege, 1992). These can be referred to as identical or near identical L1-L2 pairs and would not require a separate L2 category (e.g., Spanish and English [f]).
— Cebrian, Gorba & Gavaldà (2021)

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Efectivamente, Marcelo Rebelo de Sousa não adopta o Acordo Ortográfico de 1990. Mas isso já sabíamos.

Aquilo que não sabemos é, por um lado, porque é que o caro leitor, sim, caro leitor, porque é que continua a adoptar o AO90? Se nem sequer o Presidente da República adopta o AO90, por que motivo continua o caro leitor a adoptá-lo? Deixe de andar por aí a adoptar o AO90 e faça o favor de seguir os bons exemplos ortográficos.

Por outro lado, continuamos sem conhecer a razão que leva Marcelo Rebelo de Sousa a continuar indiferente, letárgico e hiperpassivo, enfim, a não fazer nadinha de nada para acabar, de uma vez por todas, com esta mixórdia acordesa e esta hipocrisia ortográfica. Efectivamente, Rebelo de Sousa, além de nada fazer, continua calado, sim, calado, perante esta vergonha constante, diariamente apreciável, por exemplo — e que exemplo! — no sítio onde os cidadãos portugueses alfabetizados tomam conhecimento dos actos que regem a vida da sociedade portuguesa: [Read more…]

E faz ele muito bem

Sérgio Conceição não quer *distrações. Contra tudo e contra todos.

Adivinha:

Quem foi o comandante que abandonou o barco do Governo no mar das autárquicas?

A legitimidade do projecto europeu

implica a ilegitimidade do projeto. O Acordo Ortográfico de 1990, efectivamente, não existe.

Contra o Orçamento do Estado para 2022 (2/2)

Didion also employs continuous repetition of the prefix “mis-” in “misplaced ,” “misspelled,” and “missing.” This repetition dramatically reinforces her point.
Colleen Donnelly

Ja! Woher kommst du denn?
Bei welchen Heiden weiltest du,
zu wissen nicht, daß heute
der allerheiligste Karfreitag ist?
Gurnemanz

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Peço imensa desculpa pelo atraso na habitual demonstração prática da inexequibilidade do Acordo Ortográfico de 1990, teatralizada há demasiados Orçamentos do Estado (2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020, 2021 e 2022 [1/2]), através da entrega da proposta de OE ao presidente da Assembleia da República pelo ministro das Finanças. A culpa é da Páscoa.

Em finais de Outubro do ano passado, o OE2022 foi chumbado, embora por motivos diferentes dos aqui aduzidos para a rejeição. Entretanto, muito Douro correu debaixo da Ponte Luiz I e tivemos agora dois novos protagonistas, curiosamente, ambos ligados ao problema ortográfico em curso: Santos Silva (directamente, por razões óbvias) e Medina (indirectamente, porque, enquanto durar esta tourada, os conceitos massacre contínuo e repetição contínua continuarão passe a redundância a ser aplicados).

© Manuel de Almeida/Lusa [https://bit.ly/3JPr0vW]

Mas centremo-nos no assunto que aqui nos traz.

Quanto ao documento que Medina entregou a Santos Silva (pdf) e que foi «elaborado com base em informação disponível até ao dia 13 de abril [sic] de 2022», eis uma pequeníssima amostra daquilo que já é o pão nosso de cada ano: [Read more…]

O capelão Licínio Luís terá tirado uma selfie em público

«Gouveia e Melo estava a ponderar readmitir o capelão Licínio Luís, depois de este [,,,] se ter retratado publicamente». Felizmente, temos o Público: «retractou-se publicamente». Efectivamente.

Um lembrete fonético (não fonológico), por causa do novo ministro das Finanças

A livertação é, como diria um amigo meu, brill. O massacre contínuo, efectivamente, continua. Mas só surte efeito do lado do eleito. Rima e, salvo melhor opinião, é verdade

Um hambúrguer entra num bar:

—  Era uma Super Bock, sff.
Responde-lhe o empregado:
— Desculpe, mas não servimos comida.

O caso Mortágua

está na moda e passará de moda, como passou o caso Fazenda: «ficarmos com três grafias é absolutamente insustentável, não faz sentido nenhum, é de uma ilogicidade total».

Angela Merkel a imitar António Fernando Nabais nas Conversas Vadias

Não sabeis do que falo? Ide às Conversas Vadias.

Fonte: Deutsche Welle