PAI

.

.

Vida fora tu correste

Passo lento, certo, seguro

Nunca foste uma alma errante

Eras fácil de encontrar

E agora que já morreste

De ti digo e asseguro

Nem todo o bom mareante

Se encontra no alto mar

.

Agora, és rio, és calma

Nada te fere ou ofende

Já não tens frio

É branca e pura

A brisa que afaga a tua alma

E te acaricia com doçura

Transparente

.

Já nada nos separa

Aguarda por mim

Tranquilamente

És eterno

Eu estou só de passagem

.

Vou ter contigo

Repara

E nesse dia, por fim

Espera por mim

E, enquanto o relógio não pára

Guarda-me um lugar para a viagem

.

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Mente cultural

Para Manuela Raminhos

Crianças brincam enquanto a sua mente cultural trabalha

Parecia-me que começara o texto com uma gralha. Todo o cabeçalho ou definição deve começar por um artigo. Mas, como se trata de um conceito, retirar o artigo não é gralha, é apenas reduzir o campo de pesquisa do que se quer falar do conceito e não a universalidade do fenómeno, que acaba, assim, por nada definir. Se disser a mente cultural, falo de actividades múltiplas; se digo mente cultural, reduzo a ideia a um fenómeno que pode acontecer universalmente. E falar de Antropologia de forma hermenêutica, é aprofundar no campo do significado do conceito e não da acção do conceito, que varia de sociedade para sociedade. [Read more…]

a rapariga do violino. história de infância

Era a menina mais linda e querida de todas, doce como o mel, não de muitos beijos, subtituidos por palavras bonitas e poéticas. As suas primas a adoravam e não eram capazes de passar sem ela. Ia de casa em casa as visitar e em todas elas dormia, excepto se a avó mais querida, estava só, a Avó Graça, uma mãe para ela.

É verdade que a rapariga do violino tinha a sua própria mãe, querida, mas muito longe, em outro país essa mãe Marta, no mesmo no que morava o tío primo Luís, mas bem mais longe de onde morava o seu pai, Ludgero.

Pai no Brasil, mãe na Inglerra a tirar um curso especial, esse famoso Skype da Avó Mãe Graça, era uma joia: podia vê los e falar com eles como se estivessem muito perto, como costumava fazer com o tio primo Luís. Que a levava as costas, era o seu cavalo.o havia semana em que os pais não falassem com ela e a ouvissem. Os pais no perguntavam da escola, contavam lhe histórias e o que eles faziam.

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Ibn Qasi e os Muridinos

“Eu quero ser nada…para poder compreender tudo”

Shaykh Hisham Kabbani

A derrota dos Almorávidas na batalha de Ourique marca o início de um novo período de fraccionamento do Andalus em reinos independentes, que ficou conhecido como os segundos Reinos de Taifas.

É um período conturbado e de digladiação de várias facções muçulmanas e destas com os cristãos, já que os Almorávidas em declínio, os Reinos de Taifas que logram a independência e os recém-chegados Almóadas detêm o poder em diferentes áreas da região.

Durante este período o Sul do Gharb Al-Andalus constitui-se no Reino da Taifa de Silves, inicialmente governada pela família dos Banu Al-Mallah, mas posteriormente dominada por aquele ficou na história como o grande Mestre do Sufismo no Gharb Al-Andalus, Abu Al-Qasim Ibn Qasi.

Se o período das primeiras taifas constituiu o expoente da poesia Luso-Arabe, representada por figuras como Al-Mu’tamid e Ibn Amar, as segundas taifas ficaram como o expoente da filosofia Misticista Islâmica, representada por Ibn Qasi e o movimento Muridíno.

Natural de Silves, Ibn Qasi era provavelmente um muladi, ou descendente de cristãos convertidos, de origem romana, dado que se pensa que o seu nome de família viria do romano Cassius.

Funcionário da alfândega de Silves opta por uma vida de meditação e recolhimento, entregando metade dos os seus bens aos pobres e refugiando-se numa Zauia ou Azóia onde inicia um caminho na busca de Deus, fundando uma confraria designada por Movimento Muridíno.

Essa Zauia daria origem ao famoso Ribat da Arrifana, em Aljezur, que constrói com a restante metade dos seus bens, e que se torna sede da sua Cavalaria Espiritual, e incluía uma mesquita, celas para os seus discípulos e cavalariças. [Read more…]

Poesia do Gharb Al-Andalus

Samia_Gamal_-_Belly_Dance_1

“Repeles-me!

porque deixas minh’alma abandonada?

se a tua ausência é uma longa noite

seja o nosso abraço d’amor a alvorada.” (1)

Poema escrito por Al-Mu’tamid

No ano de 1031 cai o Califado de Córdoba e o Al-Andalus divide-se em reinos independentes, que ficaram conhecidos pelo nome de Reinos de Taifas (do Árabe Muluk At-Tawaif, ou reinos fraccionados). O poder centralizado do Califado Omíada, cada vez mais dependente de uma máquina administrativa pesada e geradora de pesados impostos, aliado aos desejos de autonomia das inúmeras etnias que povoavam o Andalus, estão na origem deste fraccionamento do poder político.

No Sul do território hoje ocupado por Portugal, o Gharb Al-Andalus, ou Ocidente do Al-Andalus, constituem-se quatro reinos de taifas _ um grande reino na zona mais a Norte com capital em Batalyaws (Badajoz), um reino correspondendo à região do Baixo Alentejo com capital em Mârtula (Mértola) e dois reinos no actual Algarve, concretamente os reinos de Xilb (Silves) e Xantamarya Ibn Harun (Faro).

É neste período que floresce uma cultura Hispano-Árabe, sobretudo ao nível da poesia, resultado de uma identidade local criada pela fusão de elementos étnicos árabes, berberes, judeus, hispano-romanos e hispano-godos. No caso específico do Sul de Portugal essa poesia é hoje referida como Poesia Luso-Árabe e são inúmeros os autores que deixaram obra escrita. Dois desses autores ficariam conhecidos como os mais representativos desta cultura _ Al-Mu’tamid e Ibn ‘Amar. [Read more…]

O Gharb Al-Andalus

al-Wâsitî, Yahyâ ibn Mahmûd

Ilustração do livro Maqamat Al-Hariri de 1237 executada por Yahya Ibn Mahmud Al Wasiti

O Gharb Al-Andalus, ou Ocidente do Al-Andalus, é o nome do território da Península Ibérica durante o período Árabe, “grosso modo” correspondente à antiga província da Lusitânia Romana. Inclui o actual Sul de Portugal, limitado a Norte de forma inconstante pelos diferentes traçados que a linha de fronteira com os Reinos Cristãos apresentou, e parte das actuais Andalusia, Extremadura e Castilla e Leon Espanholas.

Este artigo pretende descrever os acontecimentos mais relevantes da história do Gharb Al-Andalus, no contexto da sua cronologia, desde a nomeação de Mussa Ibn Nussayr como governador da Ifriqya em 698, até à conquista de Aljezur por D. Paio Peres Correia no ano de 1249. [Read more…]

Contrastes

Mazagão

Harém de ministro mouro embarca em Mazagão. postal antigo

A minha primeira ida a Marrocos aconteceu em Janeiro de 1976 e posso afirmar que o meu coração ficou por lá. Não sei se pelo fascínio que o país exerceu sobre mim, se por alguma identificação inconsciente sentida, ou se por algum despertar da memória de uma anterior vida passada do lado de lá do Estreito.

Aliás, parece ponto assente que Marrocos é tudo menos indiferente ao olhar da maioria dos portugueses que o visitam, suscitando sentimentos apaixonados, muitas vezes de sinal contrário, e assim foi desde tempos recuados.

Esta constatação é notória na obra “A imagem de Marrocos nos relatos de viagens dos Portugueses (1870-1996)”, uma compilação de textos de viajantes portugueses a este país do Norte de África, da autoria de Abdelmouneim Bounou, publicada pela Universidade Sidi Mohammed Ben-Abdellah de Fez em 1998. Nestes textos é patente o fascínio que Marrocos exerce nos viajantes portugueses, os sentimentos que neles desperta, o mistério que encerra. De entre todos, o texto de Ruy da Câmara “Contrastes entre Europeus e Mouros”, que de seguida se transcreve, ressalta pela forma como as diferenças que o viajante encontra no país que vai descobrindo são de tal forma surpreendentes, que o autor termina com a frase “Tal é este originalíssimo país. Tal é esta originalíssima civilização!” (CÂMARA, 1879, pág. 301) [Read more…]

Dicionário de Futebolês – prefácio

capa_para_pirulito_Bola_de_futebolGosto tanto de futebol que chego a gostar mais de futebol do que do Benfica, o que, tendo em conta os últimos 20-30 anos, só pode ser saudável. Não renego a necessária irracionalidade com que o clubismo deva ser vivido, mas, como em muitas outras coisas na minha vida, procuro não ceder à estupidez, especialmente se estiver em público, porque acredito que há coisas que só devemos fazer ou dizer no recato do nosso lar. É por isso que, encerrado na sala com a Sporttv, deixo escapar palavreado impróprio, especialmente nas muitas ocasiões que o meu clube me tem proporcionado para me revoltar ou para me entristecer.

Devo esta atitude quase correcta ao meu pai, que, nos inúmeros jogos a que assistimos, nunca se exaltou a não ser com a qualidade do futebol, nunca lhe tendo ouvido um insulto a nenhum dos intervenientes no espectáculo. Também por isso, nos estádios, sou de uma discrição a toda a prova, até porque, ainda por cima, a irracionalidade agressiva que aí campeia é algo que me desagrada visceralmente e, por prudência cobarde, parto sempre do princípio de que não vale a pena arriscar o palminho de cara que Deus me deu, que não é nada de especial, mas não é para estragar.

Ao longo destes anos como espectador e ocasional candidato a atleta, tenho-me deliciado com comportamentos e linguagens que, podendo ser perigosos, não deixam de ser cómicos. Nos últimos anos, aliás, partilhei essa paixão com um amigo, entretanto falecido, o jornalista Manuel Dias, que juntava à paixão pelo Futebol Clube do Porto uma imensa cultura nascida de uma vida profissional intensíssima, com destaque para os anos que passou n’ O Primeiro de Janeiro (e muito a propósito, no dia de hoje, amigo de José Maria Pedroto). Um dos nossos passatempos preferidos consistia em assistir às transmissões televisivas, comentando não só o jogo, mas também – e muito – o linguajar futebolês, cultivado por comentadores, treinadores, dirigentes e até espectadores. [Read more…]

Sobre o acordo ortográfico – ao correr da pena

Das várias leituras que tenho feito sobre qualquer ortográfico, não descortinei, até hoje, nenhuma razão científica para que se tenha realizado. Talvez isso se deva ao facto de não haver nenhuma razão científica. A ortografia, quando nos metemos por acordos e discórdias, é, na minha opinião, uma questão afectiva e político-económica, uma mistura explosiva, portanto.

A maioria dos adversários do acordo cai no erro habitual de querer disfarçar o afecto com argumentos aparentemente racionais e sempre alarmistas. Na verdade, o acordo não fará desaparecer a língua de Camões ou de Eça, que, aliás, usaram ortografias diferentes um do outro e da actual, sendo que a pronúncia do nosso épico seria, com certeza, diferente da nossa. Também não é sério afirmar que o desaparecimento das consoantes mudas será a morte de alguma consciência etimológica, porque, na verdade, essa consciência está apenas ao alcance de alguns privilegiados que puderam aprender a língua materna num tempo em que o Ensino era mais exigente e que juntaram a isso o estudo do Latim. Pelo meio, ainda aparece recorrentemente o arremesso patriótico de que não devemos curvar-nos perante os brasileiros, como se a unificação ortográfica nos obrigasse a sambar ou como se o portuguesinho não vivesse já deslumbrado com tudo o que é brasileiro, facto tristemente verificável na antroponímia telenoveleira ou nas pálidas tentativas de desnudação carnavalesca, no Inverno de Fevereiro, ou, ainda, na substituição forçada da palavra “bicha” por “fila”.

A fraqueza dos argumentos com que atacam o Acordo, no entanto, não fortalece quem o defende. As declarações feitas por responsáveis da “Lusa”, do “Sol” ou do “Record” no programa “Páginas de Português” da Antena 2, no dia 3 de Janeiro (pode ouvir-se aqui), falam todas muito da importância do mercado, essa espécie de argumento único que a tudo se sobrepõe, mesmo quando se fala de Cultura e de Humanidades. De resto – e voltando, ainda, ao mercado –, não acredito que um autor português passe a vender mais no Brasil por causa da nova ortografia e vice-versa. Para além disso, entre os vários defensores, há a consciência de que as modificações serão mínimas, o que nos leva a perguntar se por tão pouco valerá a pena modificar uma ortografia, ainda para mais quando sabemos que a fonética imporá, salvo erro, uma grafia “receção” em Portugal e “recepção” no Brasil (pois, lá o “p” não é mudo). [Read more…]

O jogo do galo

O JOGO DO GALO

Com a colaboração impagável da Licenciada em Antropologia, Graça Pimentel Lemos, quem teve a paciência de fixar, mais uma vez, o texto

À Ana Maria Bénard da Costa

Uma cruz, uma argola. Até parecem símbolos. A cruz, o peso da vida, a argola, o compromisso. Mil vezes jogado pelas crianças de Vilatuxe, Vila Ruiva e Pencahue. Três sítios que vivo e visito, durante muitos e largos anos, para estudar o pensamento das crianças e o dos seus pais. A cruz, o símbolo do peso da vida, esse que o cristianismo ocidental aceita para salvar das obrigações. Esse que, transformado em verdade social e em verdade emotiva denominada fé, serve às crianças para brincar: #. Uma forma de brincar descontraída. Forma de brincar adequada à infância. Até chegarmos à vida adulta. Vida adulta que transforma essa argola, num compromisso. O compromisso com os outros, o compromisso de trabalhar, o compromisso de ser feliz, o compromisso de não se queixar. O compromisso de produzir com os dentes para descansar com as gengivas. Como diz o refrão que me foi transferido pela D. Olga Pasqua, lá, na minha Vila Ruiva, na Beira Alta. Compromisso de sermos procuradores da oferta que podemos alimentar. Com esse alimento, fazer viver os nossos e dar-lhes educação. Enquanto o jogo do galo é apenas para ganhar um amigo. Jogo de meninos, do qual as meninas são rapidamente corridas. A procura não existe. Para elas é a oferta. De nós, as servir. De sermos pai um dia, com elas. Jogo perspicaz que a pequenada feminina é suposta não poder e não saber. Coitada da que pareça ser inteligente! É logo corrida e não há rapaz que a queira para mulher: ia mandar mais ela que ele; ia compreender o mundo melhor do que ele. Ia saber. O mito tinha já imposto à humanidade ocidental na Bíblia, o que o Alcorão impôs sete séculos mais tarde: a sabedoria é do homem: cruz; a submissão, da mulher: argola. O lazer é do homem: cruz; os trabalhos infinitos, da mulher: argola; o prazer é do homem: cruz; o silêncio, da mulher, argola. O jogo do galo, por cima da galinha. Oferta e procura da memória social. O mundo mudo, fica globalizado, mas a oferta e a procura continuam como nos tempos do Renascimento, esse que levou os Borgia, os Medici, os Windsor, os Afonsos, os Cabral, os Alba e os Medinacelli, os Hohenzoller, Valois e Bourbons. Esses poucos a fazerem uma fortuna que fez circular o capital e criar um aritmético jogo do galo para dinamizar o povo #. Na sua capacidade de procura.

X O O
O X O
O O X

1. Oferta e procura.

Uma lei económica feita e trabalhada pelos adultos. A partir da acumulação das riquezas pilhadas nos mundos pensados e designados como exóticos. Adultos que começam por usar crianças no seu jogo de oferta, da fabricação da oferta, da fabricação de bens para vender, como na Madeira, na Casa Pia e os Bispos de Boston. Bens que têm um preço, cruz, que cai por cima dos que procuram: argola. Os que procuram, querem trabalho, argola, os que oferecem, querem lucros, cruz. Cruz que atravessa, que cruza pelo pentagrama do jogo: # e o percorre da esquerda para a direita, e vice-versa, conforme o historial das crises económicas, como a de hoje, como a dos anos 20 do Século XX. Deitando as argolas para sítios que os que procuram, as consigam desenhar. A cruz é para o rico, um carregamento do seu orgulho e bondade. Da sua santidade na vida, da sua bênção no céu, feita já na terra, demonstrada já na terra. Como Max Weber soube analisar em comunhão com católicos e luteranos, a Sul do rio Elba. Um fazer crescer uma divindade, criada pela mente do mortal ser humano, sobreviver e tornar a viver outra vez. Impostos e morte, verdade certa, sem fugida nem escapatória. Impostos, cruz, para a fugida dos proprietários do lucro. Imposto, argola, perante o qual o trabalhador não tem escapatória. Cruz e argola jamais explicadas à criançada que começa logo a saber da utilidade do jogo do galo. Confronto com um outro que deve ser submetido. Um jogo mais difícil que o xadrez: não tem cálculo, tem aventura. Não tem matemática, tem aritmética puxada pela rapidez de quem começa primeiro e para quem sabe o canto até onde ir a seguir, para se defender: argola. Procura da melhor habilitação para oferecer o melhor trabalho: argola. Oferta baixa se o proprietário do lucro observa muitos habilitados no mesmo saber: cruz. Ratio feito parte do jogo do galo na economia. Donde, a economia é um jogo do galo que a criançada apreende cedo na vida e acaba por não poder aplicar mais tarde, na época da sua vida adulta: argola. Quando é preciso saber doutoral, como gosto de referir, para manipular os desapoquentados do mundo. Uma economia que está baseada nas quotas de importações e exportações, no jogo da bolsa tipo Wall Street: cruz. Jogo do galo entre Representantes ou Deputados da Assembleia: cruz, e votantes que vão às urnas para tentar organizar um plano que lhes é conveniente: cruz e argola. Cruz e argola que mudam através do tempo, conforme as vantagens para criar mais-valia, ou essa falta de lucro, que a cidadania quer obter. Cruz, para atirar às pensões da massa de idosos que precisam do dinheiro como bem, argola que enche as urnas dos oferendes de mais dinheiro: dinheiro em investimento, dinheiro em fábricas nacionais, dinheiro em acções para controlar a cruz do galo que calha suportá-la. # Passa a ser uma forma de se entrar pelos entendimentos do que há, pelos entendimentos do que convém fazer. E tanto é o jogo do galo que se pratica na infância, que acaba por ser uma aritmética, não uma matemática, apreendida logo em criança, mas necessariamente esquecida em adulto, e assim não perder o salário por saber ganhar. Excepto, no ordenado da Conta Ordenado dos bancos da União Europeia: argola, a mais oferta, maior criação de procura por meio da fabricação de mais dinheiro entregue a juros para determinar o preço da moeda: cruz. Alta, muito alta, cada vez mais alta. Juro, o preço do dinheiro que Wall Street sabe definir e a União Europeia e os seus aliados determinam com pactos de exportações, quotas atribuídas a cada país pela presidência da União Europeia de países definidos como mercado: cruz, os bens que se podem comprar, e os que estão doentes por lei: argola, ou os bens que se podem vender porque não há lei que proíba a sua oferta: cruz. Oferta de bebés proveta, venda de óvulos e esperma aos biólogos ou aos sabedores de genética: cruz. Cruz e argola espalhadas de forma incerta pelos largos da vida, insuportáveis permanentes mudanças entre épocas cronológicas. O #, acaba por ser um instrumento de aprendizagem fabuloso do real social, da memória social. Essa habilidade que tenho observado nas crianças e que converti em ensaio na minha vida adulta: uma cruz é um jogador a ganhar, uma argola é um jogador em risco, o pentagrama do desenho do jogo, a teia da vida conjuntural pela qual se debruça a realidade. Conforme o saibam fazer os jogadores. Todos eles, hoje em dia, ricos em dinheiro e pobres em bens. Parte deles, ricos em bens investidos e pobres no entendimento do ioga da elevação da alma, da calma e serenidade perante a vida, da capacidade de entender o ideal oposto a todos os asiáticos: esse dos cristãos ocidentais onde o pobre vive eternamente: sempre e quando tenha fome, sempre e quando não tenha posses, sempre e quando não saiba exibir a sua arrogância, necessária como ela é para suportar a cruz com cara de sofrimento e pedir perdão à História. Perdão conveniente para os direitos humanos que fazem parte das guerras uma aventura de Armada Invencível, que perdera cruz e argola na pretensa invasão inglesa. Armada Invencível de direitos humanos com furos como os de Pinochet ou Miloseviç, perdão fora do contexto conjuntural necessário para entender a passagem da vida. Que a Cúria do Vaticano não soube entender, contextualizada como tem estado pela necessidade de ser uma voz que vai à Palestina, que vai a Jerusalém, que colabora para fazer do mundo uma sociedade teísta, indo ao Monte Sinai para ver a rocha dos Dez Mandamentos cuidada pelos ortodoxos do Monte Carmelo que nem foram cumprimentar a fragilidade do Pontífice Católico, determinado como estava pela arrogância de dois mil anos de reclamada sabedoria, esquecendo que esses dois mil anos são também dos ortodoxos, dos muçulmanos, dos anglicanos, dos presbiterianos. Dois mil mitológicos anos, cruz e argola que, de facto, são mil e trezentos, conforme os historiadores e paleontólogos souberam, em Cambridge, entender como o debate entre Paulo e Santiago fez/produziu uma doutrina de abafamento para submeter pessoas ao trabalho não remunerado, pago com o corpo para salvar a alma e ganhar uma vida calma, depois da morte. Cruz e argola. Conjunturas esquecidas.

X O O
O X O
O O X

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Viver não custa. O que custa é saber ensinar a viver

Para Ana Paula Vieira da Silva, que sabe viver e ensinar a viver

Sem saber como, nascemos. Nascemos sem saber muito bem porquê. Somos resultado da paixão dos nossos adultos.

essa paixão casta que dá crianças

essa paixão casta que dá crianças

Essa paixão que não permite pensar, apenas agir. Essa paixão que tem, quase sempre como consequência, dar vida. O caminho ao Gólgota começa [1]. Dizer que viver não custa e, a seguir, referir o caminho ao calvário, parece uma contradição. No entanto, contradição não é. Dizer que viver não custa é já definir esse caminho semeado de espinhos dos preços, dos horários de trabalho prolongados, das esperas imensas de transportes lotados. De lutar contra a doença, porque o dinheiro descontado, no parco salário, faz falta. Um desconto feito pelos mais poderosos que apenas querem continuar a acumular riquezas com a força de trabalho dos outros. Estes espinhos são inevitáveis. A vida ensina como somos matéria e que essa matéria ou se cansa ou se aborrece ou nem sabe como se entreter. Não é em vão que Alice Miller comenta o que está na citação de nota de rodapé [2].

criança isolada para ser bem dotada

É por meio destas ideias de Alice Miller, do abuso que as crianças sofrem ao serem sempre consideradas pessoas cuja dotação intelectual é inferior ao normal, que entendemos finalmente, que viver não custa, o que custa é ensinar a saber viver. Viver não custa desde que se saiba escapar às doenças, entender de economia e gerir o corpo e a inteligência, com diligência e com informação.

Os mais novos aprendem estas ideias e outras, pelo real calvário dos seus pais, esses adultos que são a força de trabalho de uma nação, como já advertia Marcel Mauss em 1924 [3].E mais nada digo, excepto acrescentar que quer a análises das crianças, como faz Alice Miller e eu próprio, parecem enganar aos mais novos para não ver o Gólgota dos seus pais, trabalhos que também eles fazem e que o Estado e as Confissões Religiosas avalisam, com provo no meu livro citado e outros escritos por mim sobre o aspecto religioso da cultura, que ensinam como desde muito novos, devem trabalhar, saber de essa resignação a escravidão da crianças e subordinação ao que os adultos mandam, para poder lucrar com eles, como proletários[5]

rapaz pre púbere, proletário, a trabalhar

rapaz pre púbere, proletário, a trabalhar

Este texto é apenas um esboço de um livro que acabo de publicar com outro título: O presente, essa grande mentira social. A reciprocidade com mais valia, Afrontamento, Porto Texto debatido com Ana Paula, que merece, de longe, este ensaio, porque me ensina e vice-versa.

São saberes em desencontro [6], entre adultos e crianças, que acabam por se abater nos mais novos. Por esse motivo, ou são punidos… ou são levados ao especialista, sabe Deus, para quê. Normalmente, na má empregue psicanálise que nada adianta. Eis porque viver não custa, o que custa é ensinar a viver no meio das ideias aqui sintetizadas.

Não há beleza naquela parte da cidade. Não se encontra cartão postal sendo vendido pelas ruas e nem turistas querendo fazer uma visita. Nunca nenhum artista fez uma música do tipo; “Cidade maravilhosa…”. Mas o que se vê é um lugar sombrio e cheio de pedras.

“Levando a sua própria cruz, ele saiu para o lugar chamado Caveira” (João 19:17). Foi assim que João descreveu aquele momento.

operários sem meios de produção

operários sem meios de produção

Ao aprender estas ideias de resignação, especialmente a ideia pela qual continuo a lutar de que a religião é a lógica da cultura, como reitero em vários textos, especialmente no texto do seminário de Universidade da Beira Interior, Beira Alta, Em Nome de Deus [4], é já na catequese que a criança aprende o que é bom e mau. As crianças se exprimirem o que sentem e fizerem como entendem, são punidas. Daí que viver não custa: os adultos guardam os seus pensamentos, incutidos nos mandamentos religiosos, adaptando-os a sua realidade.

É no meio desta contradição que as crianças tentam aprender…

crianças em catequése a aprender resignação

crianças em catequese a aprender resignação

Raúl Iturra; Jornal “a Página” , ano 10, nº 102, Maio 2001, p. 24.

E em Aventar, 24.11.08

[1] Gólgota é sempre definido como Calvário, mas não como um Calvário qualquer: Calvário (em aramaico Gólgota) é o nome dado à colina que na época de Cristo ficava fora da cidade de Jerusalém, onde Jesus foi crucificado. Calvaria em latim, (Kraniou Topos) em grego e Gûlgaltâ em transliteração do aramaico. O termo significa “caveira”, referindo-se a uma colina ou plano que contém uma pilha de crânios ou a um acidente geográfico que se assemelha a um crânio.

[2] A relação psicanalítica, a que chama de pedagógica, onde o terapeuta tem um projecto explícito ou implícito para o seu paciente e tudo faz para engajá-lo em sua verdade preestabelecida; em contraposição, a atitude não – pedagógica, onde o terapeuta tenta criar condições para o desenvolvimento individualizado do parceiro daquela viagem a um País desconhecido que ainda não existe. Em Alice Miller, 1984: MILLER, Alice. Thou Shalt not be Aware: society’s betrayal of the child. N.Y., Farrar, Strauss, Giroux, em: http://www.google.pt/search?hl=ptPT&q=Alice+Miler+Thou+shalt+not+be+aware&btnG=Pesquisa+do+Google&meta=, traduzido ao luso-brasileiro, em 1986, como: O Drama da Criança Bem Dotada, (1994 em alemão, Frankfurt am Main,1998 em Castelhano, Tusquets, Barcelona : como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. Texto que diz: Alice Miller mostra como somos desviados dessa verdadeira natureza humana por um processo educativo alienante e caduco, obrigados a satisfazer exigências explícitas e dissimuladas de nossos pais, para nos sentirmos merecedores do seu amor.

[3] Mauss, Marcel Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques (1923-1924),     l’Année Sociologique, Seconde Série, Felix Alkan, Paris, aparecido como livro da Press Universitaires de France ou PUF, em 1950, Paris, intitulado de L’essai sur le don, prefaciado por Claude Lévi- Strauss. Em língua portuguesa: Ensaio sobre a dádiva, Edições 70, duas edições, 1988 e 2001. O texto pode ser lido em língua francesa, em linha em formato Word 2001 à télécharger, em : http://classiques.uqac.ca/classiques/mauss_marcel/socio_et_anthropo/ 2_essai_sur_le_don/essai_sur_le_don.doc

[4] Comentado em: http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S000325732005000300015&lng=es&nrm=iso, Analise Social n.175 Lisboa Jul. 2005.

[5] O Gólgota não é um lugar que faz alguém sorrir toda vez que se passa por ele. Crianças não pedem para brincar lá. Famílias não fazem piqueniques naquele local. Programas infantis não são gravados e nem excursão escolar quer ir para o Gólgota.

[6] Comentado também em Saberes em desencontro. O desabamento da criança.

o dia dos inocentes

Não consigo entender de que inocentes falo. Se dos históricos, esses bebés mandados assassinar por Herodes denominado O Grande, da família não judaica Idumeu, que derrubara a dinastia judaica Hasmonea, fundada pelo filho mais velho do Sacerdote Levítico Matatias, Judas o Macabeu. Rei que iniciou a dinastia Hasmonea, que reinou sobre a Judeia por mais de um século, até à entrada em Jerusalém dos Idumeu, todos eles denominados Herodes.
Herodes entrando em Jerusalém (36 adC). Miniatura de Jean Fouquet (entre 1470 y 1475)

Herodes entrando em Jerusalém (36 adC). Miniatura de Jean Fouquet (entre 1470 y 1475)

Este Rei, não legítimo por não ser Judeu, vivia no terror de ser assassinado, especialmente pelo anúncio profético de Jeremias, Capítulo 31-versículo15 da Bíblia, que diz que Raquel, sacerdotisa judaica, ia chorar sobre os seus filhos mortos (ver também Raquel citada no livro de Jeremias na Bíblia Judaica, adoptada por todas as confissões cristãs de hoje em dia) Flávio Josefo, historiador judaico, que narra a vida dos Idumeus, nada diz sobre matança de bebés. Apenas Mateus, no seu evangelho, recolhe a profecia de Jeremias no Capítulo 2, versículos 13-18. No Capítulo 18 diz: Uma voz se ouve em Ramá, lamentação e gemido grande: é Raquel que chora seus filhos, e recusa ser consolada porque não existem… [Read more…]

As minhas memórias do ISCTE, hoje IUL

AS MINHAS MEMÓRIAS DO ISCTE, HOJE IUL

Antigo Edifício do ISCTE

Convidado pelo Instituto de Ciências da Fundação Gulbenkian, apareci em Portugal, pela primeira vez na minha vida, em Dezembro de 1980. Vinha da Universidade de Cambridge, onde fiz os meus graus, até ser Doutor e Agregado. Ainda sou membro do Senado dessa Britânica Universidade, na qual, actualmente, trabalham a minha filha mais nova e o seu marido. Não sabia Português, mas conhecia profundamente o Galego. Tentei falar em língua luso-galaica, mal entendida entre luso – portugueses. Mudei de imediato para o inglês, a minha melhor língua, por estar relacionado com a Grã-bretanha desde os meus vinte anos (sou casado com uma inglesa e as minhas filhas são britânicas). [Read more…]

Heterogeneidade de sentimentos

Dois problemas agitam a nossa sociedade, ou a nossa cultura. Nós Antropólogos denominamos cultura as formas de pensar, fazer e sentir, ai onde os sociólogos denominam sociedade a um conjunto de pessoas que partilham a mesma língua, ideias constitucionais e tradição histórica. Sociedade é partilhar a mesma memória e configurar um mesmo futuro. Cultura é conhecer essa memória, respeitar a sua normatividade ou manipula-la.

mãe a falar com filho

mãe a falar com filho

Afirmo no título que nas várias sociedades do mundo e dentro dos seus segmentos, palavra criada como conceito por Durkheim em 1894, Les règles de la méthode sociologique , que pode ser lido em http://classiques.uqac.ca/classiques/Durkheim_emile/regles_methode/regles_methode.html existe uma variedade de sentimentos.

Nós, ocidentais, estamos habituados as formas de relação social, onde é a pessoa masculina a que manda, orienta, e perfilha aos filhos do casal. Esses descendentes, levam o seu nome, como está definido no Código Civil que nos governa, Livro IV, Direito de Família, artigo 1576 e seguintes, especialmente Título III, Da Filiação, artigos 1798 e seguintes, texto que permite a adopção e a comunhão de bens. Ideias todas retiradas da cultura à qual estamos habituados, desde que a nossa República nasceu como Monarquia, em 1806. Monarquia cristã, que submete aos filhos aos seus pais – antigamente apenas ao denominado cabeça de casal, o homem de casa, hoje em dia aos dois por igual, pai e mãe. Tão habituados estamos, que a lei não é respeitada e mulher e filhos são subordinados ao adulto masculino denominado pai. É a nossa cultura… [Read more…]

A cultura também evolui

Este não é mais um post sobre Portugal vs Espanha, sobre o que um tem de bom ou o sobre o que outro tem de mau.

Mas permitam-me, ainda assim, fazer uma comparação directa entre estes dois países num aspecto tão simples quanto demonstrativo. Refiro-me a uma notícia de hoje do jornal El Mundo, onde se lê que Espanha irá descer o IVA de 16% para 4% nos livros electrónicos.

Por muito que quisesse evitar a confrontação, o meu subconsciente (ah, maldito!) rapidamente me fez aperceber que, felizmente para nuestros hermanos, no seu país há quem se preocupe verdadeiramente com a cultura e esteja atento aos seus meios de difusão mais recentes.

Por cá, onde a cultura é muitas vezes tratada mais como um fardo do que uma riqueza, resta-nos esperar que venha a ser adoptada uma medida semelhante. Até porque, estando Portugal tão virado (e bem) para as novas tecnologias, uma decisão deste género poderia ajudar a dinamizar um mercado praticamente inexistente no nosso país: precisamente, o dos livros electrónicos.

Natal: Mito, ritual ou processo comercial?

Para os meus netos Tomas e Maira van Emden, em Nederland, e para a que deve nascer em Dezembro, na Grã Bretanha.

Santa Claus vende presentes

Santa Claus vende presentes

Não sou homem de fé mas tenho estas ideias para dizer:

Em 1260, na sua obra Provérbios, Tomás de Aquino escreve elementos do que viria a ser a sua obra O Catecismo, editada pelos Frades Dominicanos e mais tarde, em 1878, pelo Papa Leão XII, nascido Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci Prosperi Buzzi; Carpineto Romano, a 2 de Março de 1810 — Roma, 20 de Julho de 1903, foi eleito sucessor do Papa Pio IX. É frequente referir-se o Papa Leão XIII pelas suas duas importantes encíclicas: Rerum Novarum, de 1891, sobre os direitos e deveres do capital e trabalho, em que introduz, no pensamento social católico, a ideia de subsidiariedade e a Aeterni Patris, de 1879, sobre Filosofia, onde destaca a importância do retorno à Filosofia de São Tomás de Aquino do Vaticano, a sua primeira preocupação é declarar a obra de Tomás de Aquino como a orientadora da Doutrina da Igreja Católica, declarando o seu Catecismo a base de qualquer outro que pudesse vir a ser escrito.

Eis, aqui, a razão porque em 1991 o Papa João Paulo II ou Karol Wojtila, ao escrever o seu Catecismo, cita mais de 66 vezes a Obra Aquiniana. Nem Jean Calvin em 1535 ou Lutero em 1529, fazem referência ao nascimento de Jesus. O Direito Canónico que governava o mundo até ao Século XIV ou a queda do Império Bizantino, especula normalmente sobre esta ideia do nascimento de Jesus, narrada como está nos Evangelhos. [Read more…]

O Chile de Sempre

Bandeira do Chile

Bandeira do Chile

Bem sei que sou português, por honra e louvor, apesar de ter pago a nacionalização, pelos serviços prestados a este País. Antes era britânico, antes ainda, Chileno e, por parte dos pais, Espanhol. Com mulher e filhas Britânicas, netos Britânicos e Holandeses, genros Inglês e Neerlandês. Tenho vivido, dos meus sessenta anos, quarenta fora da Pátria. Qual? O Chile, evidentemente. Poucos anos morei lá, mas lá ficaram a minha língua, as minhas memórias, a casa dos pais, grande parte da minha família. Família que hoje vai votar para eleger o próximo Presidente do Chile.

Na minha visita ao Chile de Allende, como sabemos, acabei num campo de concentração. Apenas 35 anos depois, me deixaram entrar.

Quem me dera estar aí, mas esse encarceramento lançou à fogueira da infâmia a minha imensa Biblioteca e as minhas credenciais. Votar não me é possível, ainda que quisesse.

Depois da Ditadura, a minha Pátria tornou a ser o Chile de sempre: muitos candidatos, coligações, esse suar das mãos ao torcer pelos nossos candidatos, os da Concertação Nacional, que agrupa o PS de Allende, Lagos e Bachelet, o dos antigos Presidente Frei, o primeiro a ser envenenado pela ditadura durante uma operação simples; esse Frei Montalva que não queria entregar o poder nos anos setenta do Século passado ao candidato triunfante, o Social-Democrata Materialista Histórico, Salvador Allende, mas foi pressionado pelo seu candidato, Radomiro Tomiç, candidato, que publicamente e em frente do povo, reconheceu a sua derrota e congratulou o candidato vencedor. Frei Montalva, teve de anunciar os resultados, não tinha alternativa. Poucos anos depois falecia nas mãos dos esbirros que ele apoiara. O seu Amigo de sempre, Patrício Aylwin, foi eleito, por unanimidade como Presidente do Chile, em 1990, com o apoio do seu partido, a Democracia Cristã, semelhante à de Portugal, e uma Concertação Democrata, prémio merecido por ter lutado durante 19 anos contra o Ditador, desafiou-o para um plebiscito, o «não ao Ditador» ganhou, foi-se embora de má maneira, com ameaças de outro golpe de estado, como Patrício Aylwin me contou na sua visita a Lisboa. Em poucos meses e a correr, os partidos banidos arrebitaram, embora com nomes diferentes, mas todos votaram pelo sabido triunfador, excepto os apoiantes do ditador, que já não existe – grupo conjuntural – e o mais tarde formado partido Renovação Nacional do candidato, que tudo indica ganhe as eleições de hoje, milionário industrial, por nome Sebastián Piñera, apoiado pela coligação de direita União Democrática Independente. Independente, para se diferenciar dos resquícios do partido do ditador, partido que morre lentamente e não apresenta candidato nestas eleições. O seu rival,

homossexualidade e pedofilia

 

É o meu hábito escrever de manhã, cedo diriam outros, pelas 7.30. Como relato no poste da manhã, o texto nasceu de uma conversa com um senhor, considerado por mim da minha intimidade. A conversa, era apenas um cumprimento. No entanto, levou quase uma hora e com muito proveito. Foi dessa conversa que nasceu o texto publicado antes e que pode ler em www.aventar.eu

No entanto, debates começaram a aparecer. A minha necessidade de esclarecer, nasceu, e lá vão ideias.

A primeira é que nunca confundi homossexualidade com pedofilia, Atracção mórbida do adulto pelas crianças, como foi definida por Freud no seu texto de 1922, citado por mim no meu poste de ontem, dia onze de Dezembro de este ano. O texto é de 1922 e tem por título o eu e o isso, ou ego e id, ao ainda, le moi et le ça, que pode ser lido em http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/essais_de_psychanalyse/Essai_3_moi_et_ca/moi_et_ca.html Cabe ao leitor o trabalho. Apenas um comentário da minha parte: não se deve confundir a homossexualidade nem a paixão de um ser humano por uma pessoa do mesmo sexo, com a pedofilia definida antes.
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Está na moda falar-se sobre homossexualidade

“ESTÁ NA MODA FALAR-SE SOBRE HOMOSSEXUALIDADE”[1]

Será sempre assim enquanto não houver lei para a liberdade de amar

Será sempre assim enquanto não houver lei para a liberdade de amar

Falava ontem prolongadamente ao telefone, com um senhor, estimado por mim como pessoa íntima, e falamos das opções das formas de amar, desde a denominada normal relação erótica heterossexual, até a pedofilia, muito praticada na Ilha da Madeira e em Lisboa. Falamos do que era ritual, como os Sambia, estudado por David Herdt, em 1987 e publicado por Holt, Rinehart and Winstos, Chicago, ou os Baruya, por Maurice Godelier, Fayard, 1981, na Papua Nove Guiné, os dois casos. Ou meu livro do ano 2000, O saber sexual das crianças. Desjote, porque te amo, Afrontamento, Porto. Como a pedofilia era um ritual entre estes grupos e um comércio de prostituição, na Madeira e em Lisboa. Como Herdt e Maurice tiveram que ser submeter ao ritual das etnias que estudavam, para passar a ser homens, e eu delicadamente desisti entre os Picunche, clã do Chile Central, da Etnia Mapuche. Referi como entrei na casa dos homens, onde o cuni liguis acontece para ser membro do grupo e pelo prazer que produz, ou a felatio. Concordamos que são formas heterogéneas de amar, que existem e todas as sociedades, especialmente as Europeias que compram crianças na Madeira aos seus pais, que com orgulho vendem aos seus catraios. Orgulho que o catraio tem, porque, como investiguei na Madeira, se não são vendidos, as formas homossexuais de amar acontecem na Ilha, entre eles. É o motivo pelo qual são vendidos, por ser a homossexualidade de menores de idade, um crime em Portugal, punido pela lei, assim como é um ritual entre os grupos referidos antes. Ritual que dá prazer, pelo que, ainda que crime, é praticado em segredo no nosso país. Foi a minha maior surpresa ao entrar, nos anos 80, em Portugal. Curioso científico, percorri uma série de ruas de Lisboa e casas fechadas onde a homossexualidade e a pedofilia eram praticadas em silêncio. Concluímos a conversa com um comentário: deve ser criada a lei que permita o amor aberto em Portugal, o único País da Europa em que as relações [Read more…]

O Símbolo perdido é muito caro

Hoje, por questões de agenda familiar fui "obrigado" a passar uma horita na FNAC. Para aproveitar o tempo resolvi pegar no livro do Dan Brown " O símbolo perdido".

Li e reconheci nos primeiros cinco capítulos o mesmo autor de Código Da Vinci, de Conspiração, de Fortaleza Digital ou de Anjos e Demónios.

Convencido a fazer a aquisição, olhei para o preço… 22,46€.

Achei!

Acho!

MESMO.

Um exagero – na moeda antiga quase 4 contos e meio por um livro…

Pensei, é por ser na FNAC… erro… Continente, Wook, Bertrand…

O melhor da concorrência em Portugal! O mesmo preço em todas!

Conclusão: fico à espera da próxima seca que levar no Shoping para continuar a minha leitura!

Nota: será que a Srª Ministra, mulher dos livros, poderá olhar para isto com alguma atenção? Em vez de nos dar a possibilidade de comprar portáteis a 150 euros poderia criar melhores condições para que os professores pudessem ler mais, por exemplo, através das bibliotecas das escolas… Digo eu, que não percebo nada disto.

Preciso de dois Secretários de Estado

Pode tocar o telefone e não estar preparado, fora das jotas não se consegue ninguem. O problema é que nas Jotas encontram-se jovens que sempre foram velhos, nunca trabalharam e tiram cursos ao domingo e, ainda por cima, é como meter o cavalo de Tróia no Ministério, com a estrutura toda do partido lá dentro.

 

Mas onde se encontram dois jovens capazes e que queiram ser secretários de Estado? Alguns deles não vão abandonar Londres ou Amesterdão, onde trabalham, para virem para um governo que o Primeiro Ministro quer que caia o mais depressa possível.

 

Outros estão a meio dos seus cursos das Novas Oportunidades, não vão hipotecar o seu futuro, só para dizerem ao pai que estão no governo. Os que restam têm a sua vida, não querem nada com o governo nem com a política.

 

É esta a minha agonia, o indigitado só convida se avançar a equipa toda, sem secretários de Estado nem pensar, não está para levar mais negas, já reduziu o governo o máximo possível mas se continua, só fica ele, e o Pereira, que agora tambem lhe deu querer ir para a Administração Interna, diz ele que todos os que passaram naquela pasta são todos grandes empresários, cheios de dinheiro.

 

Para as obras Públicas ninguem quer ir, já lá está um que se chama Jorge Coelho, não se pode dizer não e para dizer sim, ele não precisa de Ministro. Para a Justiça vai o Júdice que está a ponderar levar o Marinho, mas o que ele queria era a Empresa Frente Tejo, anda obcecado que este convite se trata de uma compensação. Menor!

 

Nas Finanças, nos Negócios Estrangeiros, nas Forças Armadas, e na Cultura nunca teve ninguem, não é agora que quer lá alguem. Na Saúde teve lá um e deu-se muito mal, colocou lá uma que tambem não está lá e na Segurança Social, o homem portou-se bem quando anunciou a sustentabilidade do que não é sustentável.

 

Vou para onde, ainda por cima sem secretários de Estado?

Maitê Proença de Saia Justa e agora numa camisa de forças

Conheço algo sobre o Brasil e os brasileiros. Não tudo, o Brasil é um continente, não é um país. Já vi de tudo. De pessoas muito inteligentes, cultas, até muito ignorantes e uns tantos estúpidos. Daqueles que já trazem o carimbo a quilómetros de distância. Lá como cá. É natural que em cerca de 180 milhões haja mais parvos que nos nossos 10 milhões. Maitê Proença é gira mas deve fazer parte do lote de alguns milhões de parvos que por lá existem.

O caso do vídeo onde a actriz e escritora fraquinha, muito fraquinha, goza com os portugueses e Portugal é uma irrelevância, que não merece muita atenção. Nem será caso para nos espantarmos. Os portugueses há muito que são alvo de anedotas por parte dos brasileiros. Algo que não espanta. Faz parte dos preconceitos. Como nós os temos, aliás. A maior parte dos portugueses vê os brasileiros como completamente estúpidos e burros.

A própria Maitê colobora para essa ideia, ao cometer erros absurdos, demonstrando que não fez os trabalhos de casa e fala do que não sabe.

 

P.S. Consta que um grupo de tugas indignados começou a inundar de mensagens o site / blog da actriz, onde Maitê fez questão de dizer que não quis ofender “Portugau” e os “portuguezess”. Deve ter sido bem tramado porque há muito que o site está em baixo. É caso para dizer que depois do programa “Saia justa”, a senhora, no que a Portugal diz respeito, ficou numa camisa de forças.

A máquina do tempo: a lição magistral de Unamuno

Andando exactamente 73 anos em direcção ao passado, viajemos até 12 de Outubro de 1936, para Salamanca, uma das mais belas cidades de Castela e assistamos a uma cena dramática. Uma entre milhares das que, por aqueles últimos anos da década de 30, Espanha foi cenário. Quando a Guerra Civil foi desencadeada, de 17 para 18 de Julho, com o desembarque do Exército de África, Salamanca foi rapidamente tomada pelas tropas rebeldes (no dia 22). A cidade transforma-se na capital provisória, com ministérios e sede de organizações falangistas. O reitor da Universidade, Miguel de Unamuno, defendera inicialmente a sedição contra a República, chegando a fazer um apelo aos intelectuais europeus para que apoiem a rebelião. Mas a sua adesão ao movimento é breve. A repressão criminosa anda à solta pela cidade. Começam os fuzilamentos. Os intelectuais são presa apetecida pelos falangistas – e fácil, pois em geral não são de grandes resistências. Em fins de Julho, nos bolsos do reitor amontoam-se cartas de familiares e de amigos seus presos – professores, escritores, jornalistas, artistas, pedindo-lhe que use a sua influência para livrar os entes queridos da morte. Unamuno vai, no início de Outubro, ao paço episcopal, onde Franco está a residir e instalou o seu posto de comando, suplicar clemência para os amigos. Inutilmente, pois todos vão sendo executados.

Unamuno já não acredita naquela gente e arrepende-se de a ter apoiado com o seu prestígio de figura mundialmente conhecida, espantando e desiludindo a intelectualidade internacional que, salvo raras excepções, condena o golpe militar fascista contra a República. Vai-se apercebendo, dia a dia, do horror que alastra por Espanha. Em 12 de Outubro (faz hoje 73 anos) decorre no sala dos actos (o «paraninfo») da Universidade a abertura solene do ano académico. Unamuno, acabrunhado, decidira não falar e vai tomando apontamentos enquanto os discursos «patrióticos» se sucedem. De súbito, põe-se de pé. As palavras saem-lhe de um jorro, como um impetuoso rio de lava:

«Falou-se aqui de guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu próprio o fiz. Mas não, a nossa é apenas uma guerra incivil. » (…) «Vencer não é convencer e é preciso convencer, principalmente, e não pode convencer o ódio que não deixa lugar para a compaixão. Falou-se também de catalães e bascos, chamando-lhes anti-Espanha; pois bem, com a mesma razão podem eles dizer o mesmo. E aqui está o senhor bispo, que é catalão, para vos ensinar a doutrina cristã que não quereis conhecer, e eu, que sou basco, levei toda a minha vida a ensinando-vos a língua espanhola, a qual não sabeis…»

Nesta altura, o general Millán-Astray, que odiava Unamuno, que o acusara de corrupção, começou a gritar «-Posso falar? Posso falar?» A sua escolta puxou das armas e alguém entre o público gritou – «Viva a morte!». O general derrama todo o seu estúpido rancor, designando a Catalunha e o País Basco como cancros de Espanha. Contudo, acrescenta, o fascismo redentor de Espanha iria exterminá-los cortando em carne viva como um frio bisturi. Está tão enraivecido que fica sem voz. Ouvem-se então diversos vivas a Espanha. Fez-se um silêncio absoluto e mortal. Os olhos voltaram-se para Unamuno. Erguendo-se, este profere um discurso que será a sua derradeira lição, a sua lição magistral:

«Conheceis-me bem e sabeis que não sou capaz de ficar em silêncio. Por vezes, ficar calado é o mesmo que mentir, pois o silêncio pode ser interpretado como aceitação» (…) «Acabo de ouvir o grito necrófilo e insensato de “Viva a morte!” Isto soa-me igual a “Morra a vida”. E eu que passei toda a vida a criar paradoxos que provocaram a reprovação e o enfado daqueles que os não compreenderam, tenho de vos dizer, com autoridade na matéria, que este ridículo paradoxo me parece repelente. Uma vez que foi proclamada em homenagem ao último orador, entendo que foi a ele dirigida, se bem que de uma forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele próprio é um símbolo da morte. E outra coisa. O general Millán-Astray é um inválido. Não é preciso que o diga em tom mais baixo. É um inválido de guerra. Também o foi Cervantes. Porém os extremos não servem como norma. Desgraçadamente, hoje em dia há demasiados inválidos. E depressa haverá mais se Deus não nos ajudar. Custa-me pensar que o general Millán-Astray possa ditar normas de psicologia de massas. Um inválido que não tenha a grandeza espiritual de Cervantes, que era um homem, não um super-homem, viril e completo apesar das suas mutilações, um inválido, como disse, que não possua essa superioridade de espírito, costuma sentir-se aliviado vendo como aumenta o número de mutilados em seu redor» (…)«O general Millán-Astray gostaria de criar uma Espanha nova, criação sem dúvida negativa, à sua própria imagem. Por isso ele desejaria uma Espanha mutilada».

Millán-Astray que entretanto recuperara a voz, ruge: «Morra a inteligência!». Unamuno responde-lhe com a serenidade de quem se sabe irremediavelmente condenado: «Este é o templo da inteligência! E eu sou o seu supremo sacerdote! Vós estais profanando o seu recinto sagrado. Sempre fui, apesar do que diz o provérbio, profeta no meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque tendes força bruta de sobra; mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir necessitais de uma coisa que vos falta – razão e direito na luta. E parece-me inútil pedir-vos que penseis em Espanha».

Carmen Polo, a mulher de Franco, dá o braço Unamuno e acompanha-o até sua casa, protegendo-o da fúria dos falangistas. Em todo o caso, o marido censura Millán por não ter executado o professor logo após o seu discurso. Há quem proponha a sua expulsão do cargo de reitor, acusado de tudo, o que da perspectiva fascista era condenável. No dia 22 de Outubro Franco assina o decreto da destituição. Prisioneiro em sua casa, dá uma entrevista ao escritor e filósofo grego Nikos Kazantzakis (1883-1957) em que, em certo passo, afirma: «Um dia, em breve, levantar-me-ei, e lançar-me-ei na luta pela liberdade, eu sozinho. Não, não sou fascista, nem bolchevista; sou um solitário». Morre em sua casa em 31 de Dezembro de 1936, de doença súbita. Apesar de tudo o que se tinha passado e de praticamente o terem mantido sob prisão domiciliária, os falangistas fazem-lhe um funeral exaltante, como se em vida ele tivesse sido um deles. Morto, já não os pode desmentir nem afrontar.

Ortega y Gasset escreve: «A voz de Unamuno ecoava sem parar por toda a Espanha há um quarto de século. Ao cessar para sempre, temo que o nosso país sofra uma era de silêncio atroz». Não se engana – o «silêncio atroz» irá durar até 1975.

Veio das jotas!

Hoje estive numa reunião de trabalho que, bem à maneira portuguesa, demorou imenso tempo.

Falou-se de tudo, da política, das empresas, do Sporting, e de vez em quando voltavamos ao assunto. O problema é que logo que alguem conta uma história, fora da agenda, todos se vêm na obrigação de contar a sua e aquilo torna-se numa roda de vaidades.

Eu fiz, eu sou, eu vou, e é um fartote de egos à sobremesa, sobrepondo-se com a pressa de dizer primeiro, ou antecipar-se a uma história que todos conhecem e, quando alguem tem o bom senso de voltar ao assunto que ali nos trouxe, temos que começar tudo do principio.

Depois há sempre uns gajos muito cheios de trabalho que aparecem duas horas depois do combinado que em vez de irem para casa, ou irem beber um café à pastelaria da esquina e ficarem por lá, não, acham que são imprescendíveis e vá de arranjar cadeira com o ar mais sério deste mundo, enquanto os cumpridores, que estão lá a tempo e , que fazer um resumo, e tudo volta ao principio.

Ao fim de três horas, já ninguem ouve ninguem sendo preciso que alguem com alguma autoridade, faça um ponto de ordem à mesa e rabisque algo parecido com umas conclusões que depois se hão-de ver daqui a uma semana em próxima reunião.

Mas hoje estava-me reservada uma para o final da reunião que me envergonhou. Um dos presentes é um homem que é empresário em Angola e no Maputo, e para dar uma ideia do nível de pessoas que nos representam a nível de governo, contou-nos que um secretário de estado foi a Maputo entregar um prémio literário a Mia Couto e só descobriu que o escritor era um homem quando se confrontou com ele fisicamente.

Isto é verdade ou foi para me (nos ) achincalhar?

Odisseia – programas fascinantes

Só é pena serem muito tarde, entre a uma e as duas da manhã, ás vezes mais tarde, mas são comentários sobre ciência e história absolutamente fascinantes.

Está a decorrer uma série ” Cirurgia” com imagens e testemunhos de muita gente que estiveram envolvidas, pessoalmente, na extraordinária saga da medicina cirúrgica. Na semana passada vi a “cirurgia cardio-toráxica”, desde os primeiros passos até ao primeiro transplante de coração pelo Prof Bernard em cape Town, na África do Sul.

Os primeiros grandes avanços, com o cirurgião a ter quatro minutos para fazer a incisão no coração e, com o abaixamento da temperatura do corpo, conseguirem mais quatro minutos num total de oito. A seguir a máquina “extracorporal” que permitiu o grande salto em frente e a execução das cirurgias pesadas que se conhecem hoje. O cientista que desenvolveu a máquina de “coração/pulmão trabalhou nela dezoito anos até que colegas seus conseguissem utilizá-la na prática cirurgica.

Pelo caminho ficaram o “coração/bomba artificial” que permite que o doente aguente o tempo suficiente para aparecer um coração compatível e as tentativas com a utilização do coração de porcos. Numa das entrevistas o cirurgião que utilizou,em primeiro lugar esta técnica, comentou divertido que o porco quando chegou ao hospital, no centro de Londres, fugiu da camioneta que o transportava . Quando o povo percebeu para que servia o porco, o hospital teve que ser protegido pela polícia.

Ontem o programa focou-se na neurocirurgia, mostrando o que representavam os hospitais de doenças mentais, numa altura em que não existiam os medicamentos que hoje existem e que permitem que milhões de pessoas vivam uma vida capaz. A Lobotomia, do nosso Prof. Egas Moniz (curiosamente não foi referido no programa) a primeira técnica com intuitos curativos de doenças mentais, e que era algo de absolutamente incrivel para uma pessoas normal, a esta distãncia.

Ainda vive um homem que aos doze anos foi sujeito a uma Lobotomia e que pode ser estudado hoje, com as novas técnicas não invasivas de imagiologia. Lá estão, no Lobo Frontal, dois buracos feitos pelo cirurgião, através do lobo ocular, algo que foi mostrado e que tocava as raias do absurdo. Hoje faz-se o mapeamento do cérebro com o cirurgião a operar com o doente desperto para poder aquilatar da eficácia da operação, conversando com o doente.

Homens e mulheres de grande coragem e inteligência que aqui e ali pisaram a linha que limita a área do ético e do razoável.

Aos homens burros

Se deres a uma mulher o teu esperma ela o transforma num bébé.

Se lhe deres uma casa ela a transforma num lar.

Se lhe deres produtos de mercearia ela os transforma numa refeição.

Se lhes deres uma flor ela dá-te o coração.

Não sejas burro olha que se a tratares mal ela dá-te de volta uma camioneta do que tu mereces!

A máquina do tempo: o caminho faz-se caminhando

Muita gente que cita este verso «O caminho faz-se caminhando», ou na sua versão original «se hace camino al andar», não sabe que o seu autor foi um grande poeta castelhano – Antonio Machado. Trata-se de uma estrofe, a XXIX de «Proverbios y cantares» do seu livro «Campos de Castilla» cuja primeira edição data de 1910. Apesar de termos escutado estes versos integrados num trabalho do cantor e poeta catalão Joan Manuel Serrat, vejamos agora o poema sem adornos:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

De notar, além da beleza do poema, o emprego do substantivo «mar» no feminino, sabendo-se que embora tendo os dois géneros em castelhano, é mais usual o emprego do masculino, «el mar». «La mar», feminino, é coisa de poetas, marinheiros e pescadores, de homens que amam o mar como se ama uma mulher. Há um poema de Federico García Lorca, muito famoso, o «Romance sonámbulo» (do «Romancero gitano») no qual «mar» passa também ao feminino.:

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Etc.

Quem tenha lido algumas das minhas crónicas anteriores, poderá pensar que sofro de uma doença julgada extinta, o «ódio ao castelhano» (odio al castellano), enfermidade também conhecida como «a síndrome de Aljubarrota» . Nada disso. Adoro a Castela, sempre disse que os castelhanos são das pessoas mais simpáticas e afáveis da Península, sem o calculismo mercantil que inquina as mentalidades catalãs, o revestimento bisonho e fatalista das atitudes portuguesas, ou a prudência que faz que se encontramos um galego numa escada não consigamos saber se vem a descer ou se vai a subir. Aos bascos não consigo atribuir qualquer dos apêndices idiossincráticos, meros chavões, chistes sem qualquer valor antropológico (e, diga-se a verdade, todos eles criados pelos simpáticos castelhanos, que chamam a uma fanfarronada «una portuguesada» – pagando-lhes nós com a «espanholada» com o mesmo significado de bravata). Gosto muito deles, mas não quereria tê-los como opressores ou invasores. Como irmãos e amigos, «tudo bem» no brasileiro dizer. Como donos, nem pensar.

Uma das coisas de que gosto em Castela é do seu idioma, da sua cultura, da sua literatura, sobretudo da sua poesia. E a de Antonio Machado é uma das âncoras que me prende ao castelhano e ao prazer de o escutar. Trabalhando mais de 20 anos numa empresa que, não sendo castelhana, usava o castelhano como língua de trabalho, fui forçado a aperfeiçoar os estudos escolares que já tinha feito do idioma e, sobretudo se me ativer ao léxico profissional, falo-o com desembaraço, principalmente se estiver a tratar de assuntos da minha área. Mas evito falá-lo porque sei bem o espectáculo que grande maioria dos meus compatriotas dá a seguir a ter afirmado que «habla español» – ridículas línguas de trapos, competindo com os palhaços, cuja trapalhice é profissional e fingida. Para falar castelhano, sobretudo para nós que temos uma língua muito semelhante, é preciso estudá-lo a fundo, porque aquilo que em linguística se chama «os falsos amigos», palavras iguais com significados diferentes, são mais do que muitos entre o português e o castelhano.

Um dia destes hei-de ganhar coragem para falar de outro grande poeta, um dos maiores, o andaluz Federico García Lorca. Nesta máquina iremos, em 12 de Outubro, visitar o austero don Miguel de Unamuno, um basco de cultura castelhana, e estou, como podem ver, a tentar aterrar junto de Machado, outro andaluz. Mas o universo da literatura castelhana é inesgotável, porque se conseguíssemos referir todos os grandes escritores peninsulares que usam o idioma (e seria tarefa enciclopédica), teríamos depois de olhar a Ocidente, respirar fundo o ar do Atlântico, e recomeçar desde Juana Inés de la Cruz ( a que aconselhava: «não vos queixeis, homens tolos…») até Carlos Fuentes, García Márquez, Vargas Llosa, Isabel Allende… O universo do português é também rico, é um caudal que não nos envergonha face ao dos nossos vizinhos. Vamos lá fazer-nos à pista.

Antonio Machado nasceu em Sevilha em 1875. Foi uma das grandes figuras da chamada «Geração de 98», referindo-se este número á data de 1898, quando a Espanha foi derrotada na guerra que manteve com os Estados Unidos pela posse de Porto Rico, Cuba e Filipinas. A derrota significou uma tomada de consciência de jovens intelectuais da decadência do país e foi como que um ponto de viragem, caracterizando-se a escrita desses jovens pelo seu carácter revolucionário, em termos literários e em termos políticos. Foi rodeada de polémica, pois havia intelectuais, como Pío Baroja, que negavam lógica à designação. Esta classificação geracional refere-se a escritores que nasceram entre 1864 e 1875 – Miguel de Unamuno, Valle-Inclán, Blasco-Ibañez, Jacinto Benavente e Antonio Machado, são das principais figuras ligadas a esta geração.

Morreu em 1939, refugiado num quarto de hotel, fugindo dos assassinos da polícia política franquista, ele que era tudo menos um político. Sabendo que a morte se aproximava, escreveu num papel as suas últimas palavras – «Estos días azules y este sol de infancia», sinal de que antes morrer viajou até ao passado. Um grande poeta – se hace camino al andar – que grande verdade contem este verso que quase se transformou em lugar-comum.

A língua portuguesa é mesmo muito traiçoeira

Anda um português muito contente pela designação do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Senta-se o português e escreve no momento em que se sabe que o Rio ganhou a Madrid: “Entre os nossos irmãos ou nuestros hermanos, preferência clara pelos primeiros. A minha, e a dos votantes.”

Entretanto começa a polémica lusa habitual. Que o Brasil é um país pobre e não se devia meter nesses luxos. Que é um país de ladrões e criminosos incapaz de garantir a segurança dos Jogos (não hiperligo, mas é fácil de encontrar).

Senta-se novamente o português e escreve um título irónico: Os jogos olímpicos no país dos pobres presidido por um apedeuta, onde bate nos que chamam apedeuta ao Presidente Lula, defende o investimento nos Jogos Olímpicos, e termina com uma boca ao reaccionário Pelé, como bom adepto do Maradona que sempre foi.

E cai-lhe isto em cima: “Favelas são enfatizadas em comentários sobre as olimpíadas do Rio” subtítulo para uma prosa onde Pepe Chaves treslê tudo o que leu, cita fora do sítio, resumindo e concluindo: não pescou um chavelho, não viu o elefante olhou para a formiga que o cavalgava, entrou no Dia Mundial do Animal como uma alimária.

Agora levanta-se o português e berra: eu já não quero só um acordo ortográfico, quero um acordo gramatical completo. Ou uma declaração solene de ambos os países: português e brasileiro são línguas distintas com vagas raízes em comum.

A minha pátria ainda é a língua portuguesa, mas acabou de encolher nuns milhões de falantes. É triste.

A máquina do tempo: a lumiosa prensa de Gutenberg

Não é gralha. Escrevi «lumiosa», palavra que significa o mesmo que luminosa, mas tem um sabor mais renascentista. Andou na boca e na pena de homens como Sá de Miranda, Camões e Damião de Góis. Embora a figura que hoje quero visitar seja alguém que ficou no limiar dessa Idade Nova cujas portas tanto ajudou a abrir – refiro-me a Johannes Gutenberg que terá nascido em Mogúncia na década de 1390 e que morreu em 1468. Inspirando-se numa prensa de lagar, própria para esmagar uvas no fabrico de vinho, inventou a sua prensa que tanta luz derramou nestes mais de cinco séculos (e aqui resisti heroicamente à tentação de fazer um trocadilho fácil usando a locução latina «in vino veritas»).

Inventou também os tipos móveis e desenvolveu o fabrico de tintas à base de óleo, mais compatíveis com esses novos caracteres, duradouros e resistentes, feitos em chumbo fundido, técnica que, com melhoramentos, sobreviveu até ao século XX, ainda se encontrando oficinas equipadas com tipos de chumbo e usando procedimentos que, basicamente, não são muito diferentes dos de mestre alemão. Fez pesquisas sobre a qualidade de papel mais adequado ao seu invento. E, no dia 30 de Setembro de 1452 – faz hoje 557 anos – deu como pronta a sua Bíblia, o primeiro livro a ser impresso segundo a nova técnica (e um dos poucos, até aos nossos dias, em que não se pode encontrar uma única gralha). Para comemorar esse 557º aniversário da prensa de Gutenberg, queria falar-vos do projecto que recebeu o nome do grande inventor alemão – o «Projecto Gutenberg».

Tudo começou em 1971, quando Michael Hart, um estudante da Universidade de Illinois, teve acesso a um computador gigante – o Xerox Sigma V do laboratório de pesquisa da instituição. Este computador iria, com outros 14, integrar a rede cibernética que daria lugar á Internet. Hart perseguia a utopia de um dia no Futuro os computadores estariam ao dispor de toda a gente – os jovens viajam muito até ao Futuro, frequentando os velhos mais o Passado. Ambas as viagens são maneiras de não estar no Presente.

Hart, fascinado com as potencialidades deste novo auxiliar da inteligência e da memória humanas, resolveu colocar ao dispor de todos, gratuitamente, obras de literatura em formato electrónico. Nascia o «Projecto Gutenberg». Vinte anos depois, instalado no Colégio Beneditino de Illinois, acompanhado de muitos voluntários, Michael dirigia o projecto. Os textos eram introduzidos manualmente até surgirem os digitalizadores de imagens e os programas de reconhecimento óptico de caracteres.

E (este um dos aspectos positivos dos Estados Unidos!) a ideia que parecia megalómana começou a ganhar corpo. A Universidade Carnegie Mellon aceitou administrar as finanças do ambicioso projecto. Assim, em 2000, foi registada no Estado do Mississippi a Project Gutenberg Literary Archive Foundation, Inc., organização sem fins lucrativos destinada a gerir as vertentes legais do projecto. Vamos acelerar a velocidade: em 2006, a instituição tinha mais de 20 mil livros no seu acervo, entrando por semana 50 novos títulos. Actualmente, segundo o site PT Principal, há 30 mil títulos disponíveis, alguns dos quais em português.

De acordo com um artigo publicado no passado dia 20 no El País, com mais de 50 títulos apenas há obras em espanhol, inglês, chinês, alemão, holandês e finlandês, estando referenciadas três obras em catalão. São uns queridos nuestros hermanos, puseram o espanhol em primeiro lugar – o que deve ser aldrabice – mas esqueceram-se do português (oxalá não tenham pegado na palavra ao Mário Lino, que disse que tínhamos uma língua comum, e não tenham incluído os livros em português no mesmo embrulho do castelhano). Havia, em 19 deste mês, 348 obras em língua portuguesa, existindo a intenção de, ainda este ano, digitalizar mais 240 títulos. Na próxima década, aponta-se para que o português seja a terceira língua europeia com mais obras, depois do inglês e do espanhol.

Já tinha ouvido falar neste projecto, mas só agora aprofundei um pouco mais o conhecimento sobre ele. Portanto, nem só a Google proporciona o acesso a obras literárias de forma gratuita. Nem sequer foi pioneira em tal generosidade. O Projecto Gutenberg põe ao nosso dispor um número crescente de títulos. Com a condição de serem obras caídas no domínio público (cujos autores tenham morrido há mais de 70 anos) ou autorizadas por quem detenha os direitos.

Que bonita maneira de honrar a memória e de homenagear Gutenberg e a sua lumiosa prensa.

30 anos dos Xutos

Como escrevi há tempos, os Xutos são a banda da minha vida! Sou da geração XUTOS!
“Nós”, a Geração Xutos, estivemos ontem no Restelo a celebrar os 30 anos da Maio Banda do (meu) Mundo!
Em dia de eleições deixo o hino Sócrates dos Xutos: