
Portugal, pátria do fado e da saudade, da nostalgia e do sebastianismo, da tristeza e da melancolia, de repente passou a ser optimista.
E, assim, começou a nossa desgraça.
Segundo a SIC Notícias, tal fenómeno é a primeira das duas razões para o Governo britânico ter retirado Portugal da famosa “Lista verde”: “a quantidade de optimismo aumentou muito”.
Já corriam uns rumores que os britânicos andavam desagradados com os portugueses que exibiam um optimismo e uma esperança irritantes. Até as letras dos fados que escutavam em Alfama, soavam a felicidade e alegrias insuportáveis.
Se Portugal quiser ter os turistas ingleses de volta, que arrepiem caminho: lamentem, chorem, entristeçam.
E para quem quiser perceber melhor este magnífico contributo de serviço público de informação prestado pela SIC Notícias, assente em tão criativa tradução das declarações do governante inglês, é só escutar o nosso podcast “Conversas vadias” que vai para o ar na próxima Segunda-feira (07/06/2021) às 22 horas.
Até lá, por via das dúvidas, chorem e lamentem-se, se quiserem os “bifes” de volta.











Rejubilou recentemente a alma da Pátria. O Fado foi considerado património imaterial da humanidade. Ressuscitou Amália Rodrigues em infindáveis momentos televisivos de fervor patriótico. Voltámos a “dar de beber à dor”! Portugal ressurgiu de novo, patrioteiramente, numa hiperbólica liturgia colectiva, só entendível dentro de uma perspectiva secular e mítica da “maneira de ser português”, que se desejaria definitivamente abolida. Devo repetir uma vez mais o que já, por diversas vezes, tenho dito e escrito – gosto muito de fado, mas não gosto do Fado. Entendamo-nos. Gosto de ouvir fado, sobretudo quando cantado por mulheres. Mas não gosto do Fado enquanto símbolo mítico da Pátria, porque dá voz a um Portugal salazarento, pobre, pequenino, resignado, vencido. Não gosto do Fado enquanto mitificação de uma tristeza congénita, de um luto mental, em viagem permanente num “barco negro” existencial de um povo que, desgraçadamente, continua a viver um momento histórico de resignação, de subserviência, de conformismo fatalista, tradutor de um estado de alma tão passivo quão deprimente. Por isso, a atribuição ao Fado de património da humanidade não me aquece nem me arrefece. Não passa de um fait-divers, de uma patetice como outra qualquer. Mas continuo a gostar de fado. Muito. 







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