O Aventar tem falado sobre a Linha do Tua, o Douro, as barragens e a forma como tem sido tratado o dito património da humanidade e o seu VEU (Valor Excepcional Universal). Eu também podia recordar aqui a única viagem de comboio que fiz por esse paraíso ameaçado, mas não o faço – e logo por duas razões. A primeira, acabei de a dizer: fiz apenas uma viagem. A segunda, muito mais importante, porque não o faria tão bem como Francisco José Viegas – que tanto e tão comovidamente por lá viajou – o fez em Maio de 2010, na revista LER, quando ainda não era Secretário de Estado da Cultura.
Barragem do Tua: O relatório do ICOMOS / UNESCO que o Governo tentou esconder

No seguimento da luta que tem vindo a desenvolver a favor do Vale e da Linha do Tua, o Aventar teve acesso ao Relatório do ICOMOS / UNESCO sobre a Barragem do Tua e os seus efeitos na classificação do Douro como Património Mundial.
É um relatório arrasador, no qual a autora afirma peremptoriamente que «a área de intervenção da Barragem afecta totalmente a Região do Douro Património Mundial»; ou que «a construção da Barragem significaria um impacto muito grande na Região do Alto Douro Património Mundial que implicaria a perda do VEU (Valor Excepcional Universal) e sérias ameaças à sua autenticidade e integridade»; ou ainda que «Medidas compensatórias, mesmo que tenham de ser revistas à luz do Plano de Gestão, não são o ponto mais importante, mas sim se a Barragem de Foz Tua deve ser construída de todo».
É com grande prazer, mas com enorme pesar, que publicamos hoje o Relatório da Missão Consultiva do ICOMOS / UNESCO para o Alto Douro Vinhateiro e impactos da construção da Barragem de Foz Tua. A tradução portuguesa é o nosso contributo para a defesa do Tua e do Douro.
Download do Relatório original (em inglês):
REPORT Advisory Mission Alto Douro ICOMOS_20110805

TRADUÇÃO PORTUGUESA a cargo de Ricardo Santos Pinto, Helder Guerreiro e Carlos Fonseca [Read more…]
Alegria de Ver o Comboio Passar

De antologia. Podia ser assim uma estória na história da Linha do Tua e do caminho-de-ferro que foi Portugal; esta fotografia encontrei-a por aí. Assumo ter sido tirada por volta de 1966-67 na passagem de nível da Estrada Nacional 15 junto ao apeadeiro de Rebordãos, uns oito quilómetros a jusante de Bragança. Muito provavelmente, a fotografia ilustra a entrada ao serviço das então novas automotoras CP de fabrico holandês “Allan”, de via estreita, com veículo motor e respectivo reboque.
Passa o comboio, Trás-os-Montes veio ver o comboio passar.
Entretanto, nos dias que correm, e a 35 km da fronteira, passam cada vez mais comboios mais rápidos a ligar a Galiza a Madrid e Barcelona… como dizia o outro: “virem-se para Espanha”…
ps: avisam-me que estas automotoras vieram para o Tua um pouco antes, em 1955.
Pela desclassificação do Douro como Património Mundial da Humanidade
O Douro Património Mundial deve ser desclassificado imediatamente pela UNESCO. Dresden já o foi, por causa da construção de uma ponte sobre o rio Elba, e Omã também, por causa da invasão do Santuário do Oryx por uma exploração petrolífera.
É exactamente o caso do Douro e da Barragem do Foz-Tua, que destrói todo o Vale do Tua e a sua linha férrea. São danos irreversíveis, como muito bem diz a UNESCO, por isso a continuidade da construção da Barragem tem de implicar obrigatoriamente a retirada da classificação.
Nada que preocupe demasiado quem manda em Portugal. O que interessa para os neo-liberais que nos governam é ganhar dinheiro e os números é que contam. Mesmo que os contribuintes sejam obrigados a despender milhões por uma infra-estrutura totalmente desnecessária, o que interessa é que a EDP leve adiante os seus negócios.
Desclassifiquem o Douro imediatamente. E de seguida prendam, entre outros, os criminosos Mexia, Sócrates e Passos Coelho.
Palavras que desarmam.
Durante os últimos 30 anos temos assistido, complacentes, ao crescimento descontrolado do consumo. Desde casas, a carros, a aparelhos electrónicos. A noção de desenvolvimento interior tem vindo a ser substituída por uma estranha noção de relacionamento social baseada em demonstrações de conhecimento rápido e luxo fácil. Tudo aceitámos enquanto nos tocasse parte deste excesso desenfreado. Enquanto houve dinheiro (dos pais), emprego, gadgets, nada dissemos, nem fizemos. Em Portugal o país foi investindo dinheiro de todos em estradas e estradinhas, fontanários e chafaricas de rotunda. A corrupção (a cunha) tem estado por todo o lado e só é nociva quando não nos toca uma parte desse bolo que os medíocres têm comido, transformando o país numa papa regurgitada, entre pais, filhos, tios enteados e primos.
A única manifestação em que estive, recentemente, foi na linha do Tua. Apareceram poucos porque o Tua, além de não dar palha nem grão, é longe do Porto e de Lisboa e lá não há rede de telemóvel. Por tudo isto, aos indignados ou à geração (à) rasca que contribuiu para criar o país que temos hoje não tenho muito a dizer. Quem faz a cama, deita-se nela. Mas há palavras que desarmam qualquer um. E ainda bem que não sou eu quem as escreve. Provavelmente não me levariam a sério:
Em vez de sair à rua para o inútil folclore do protesto, ou ficar em casa a remoer a sua impotência, melhor seria que cada um deitasse contas àquilo que como cidadão aceita ou definitivamente recusa. § Essa, sim, essa é a escolha difícil, fundamental. Improvável, também, no Portugal que os portugueses ao longo das últimas décadas transformaram num teatro de irrealidade e fantochada. Escolha que se faz no íntimo, não na praça pública.
Em defesa da Linha do Tua contra o chefe Mexia, o capataz Passos e o secretário Viegas (por ordem de importância)
Nestas coisas da Energia, já se sabe, quem manda em Portugal é o Mexia da EDP. O seu humilde capataz, o Passos – burro mas suficiente para o que é necessário fazer – lá vai executando, de gatas, as medidas do chefe. Quanto ao Viegas, entretido que anda a cobrar as entradas dos museus aos Domingos, ainda nem deve ter percebido muito bem que uma via férrea centenária quase única e uma paisagem Património da Humanidade também fazem parte do seu pelouro. Seja ele qual for.
Neste caso, nem sequer temos desculpa. O facto de sermos governados por um ignorante e iletrado, de quem nada se espera em termos de defesa do património natural e edificado do nosso país, não dá a ninguém o direito de cruzar os braços perante o atentado criminoso que se prepara para o Vale do Tua e a sua inacreditável linha ferroviária.
Para quem não sabe, a Linha do Tua foi equiparada, pelos mais reputados engenheiros, em termos de dificuldade, às Linhas ferroviárias dos Alpes Franceses ou Suíços. Pela sua beleza e rigor técnico, merecia ser classificada como Património Nacional ou, mesmo, Património Mundial da Humanidade.
Ao invés, querem destruí-la. Para dar lugar a uma Barragem, que representará menos de 4% da produção de energia existente de norte a sul. Uma Barragem! Um monte de betão, tão do agrado dos novos engenheiros de Portugal. Os pequenos economistas que hoje mandam no país [Read more…]
José Cascarejo Gosta do Rio Tua!…
A José Carcarejo, ilustre adepto da barragem do Tua e democraticamente-eleito edil de Alijó (vem no mapa) lembrou-se agora – e ainda bem!… – de promover passeios ao vale do rio Tua, por cujo afogamento não será nunca co-responsabilizado.
Como é lindo o Tua… vamos fodê-lo!… e faz-se um parque natural a lembrar como era lindo e… natural…
ps: Alijó tem enormes potencialidades “ao nível turístico, ao nível paisagístico”. Que bom.
Estação do Tua
Com 64 anos de idade, a locomotiva E112 parte da estação do Tua para uma viagem de 133 km em direcção a Bragança; à direita, a Linha do Douro, na altura ligando ainda o Porto a Salamanca e Madrid em comboio directo com restaurante a bordo.
Quantas pontes precisam de cair?
Entre-os-Rios foi há 10 anos. Mas à excepção dos mortos e das suas famílias, ninguém pagou.
O presidente da república de então, Jorge Sampaio, limitou-se a pedir um inquérito. A queda de uma ponte, com morte de 70 pessoas, não foi para ele motivo para demitir um Governo minoritário que, na prática, já tinha deixado de existir. Importava manter no Governo os amigos socialistas, os mesmos que, logo que pôde, voltou a conduzir ao poder.
O primeiro-ministro de então, António Guterres, tem hoje um salário principesco no ACNUR. Enriquece a cada dia à custa dos refugiados, da miséria alheia. Cada genocídio, cada fuga de milhares representa para ele um orgasmo milionário. Os milhões estão no papo. Há 10 anos atrás, a queda de uma ponte, com morte de 70 pessoas, não foi motivo suficiente para se demitir. Perder umas eleições foi motivo para se demitir. A morte de 70 pessoas não.
O ministro do ambiente de então, José Sócrates, é hoje primeiro-ministro. Um dos maiores criminosos do Portugal democrático deixou o país no estado que todos conhecemos. Há 10 anos atrás, a inacção do seu Ministério em relação à extracção ilegal de areias do rio (os Godinhos sempre existiram e Sócrates sempre gostou de ser besuntado) não lhe pareceu motivo suficiente para se demitir após a morte de 70 pessoas. Porque não há coincidências, um dos Secretários de Estado desse Governo, Ricardo Magalhães, é hoje em dia o Presidente da Estrutura de Missão do Douro e principal promotor da Agência Regional de Desenvolvimento do Tua – por outras palavras, um dos lacaios do poder incumbido de destruir definitivamente o Vale do Tua e a sua via férrea ÚNICA. [Read more…]
A Estação Mais Alta de Portugal
A cerca de 866 metros de altitude, a estação ferroviária de Rossas é (foi) a mais alta de Portugal; do alto da Serra da Nogueira, mirando, de um lado, Bragança e, do outro, Macedo, Mirandela e o Douro, Santa Comba de Rossas viu passar os comboios entre 1906 e 1992. O IP4 chegou já depois de Cavaco Silva ter feito saber que as “acessibilidades” é igual a estradas. Ainda bem que jorra o petróleo no Beato…
(foto de Detlef Schikorr, ca. 1973)
Natureza by EDP…
A “natureza” no vale do Tua na visão da EDP (com o alto patrocínio dos ministérios da Cultura e Ambiente, várias autarquias locais e alguns deputedos eleitos por Bragança e outros) e na visão da… Natureza.
Nota: as imagens foram obtidas sensivelmente no mesmo local – foto da esquerda e da direita. Sim, sim, aquele paredão, sim, avista-se, sim, do rio Douro – ainda classificado como Património da Humanidade. Resta saber se a única região turística que tem crescido nos útlimos anos estará disposta a abdicar daquele título. Os seus autarcas estão! As suas populações… também! Os deputedos… também!… os governantes também… ansiosamente!
Eu às voltas
Estou às voltas com a infantil e deliciosa inocência dos filhos, a prepará-los para uma noite reparadora que amanhã há trabalho. Silencioso, enquanto faço isto e aquilo, penso que eles têm a sorte de ter um pai que lhes vai poder contar na primeira pessoa o que eram aquelas gargantas, aquele serpenteado que vêem na foto antiga de um comboio que mete medo.
Talvez até se interessem por saber mais sobre aquela água vermelha pútrida que estaciona no colo de uma amarra de betão, enquanto nada por lá acontece. Vou poder contar-lhes, fingindo-me culto, que em Portugal há muitos casos singulares de projectos nunca acabados. Vou-lhes referir a ponte (rodoviária) da Régua, aquela que levaria o comboio a Lamego. Vou-lhes mostrar a foto da ponte seguinte sobre o rio Varosa, uma ponte integralmente construída para ficar de testemunho. Vou-lhes referir que Coimbra teve eléctricos e que também acabou com um comboio que trazia, na época, um milhão de pessoas no vai-vem pendular das gentes de Lousã e que também sucumbiu quando se quis travestir de metro de superfície, e os meus filhos decerto nem entenderão que estou a falar de quase cem anos de diferença, como não quererão enquadrar, na inércia de uma noite de tertúlia, que as linhas estreitas nem nunca chegaram ao seu destino, e, quando já amputadas lhes quiseram dar mais segurança, afinal desligaram as máquinas, deixando-as morrer, não cumprindo uma promessa solene. [Read more…]
Olha, Bragança!…
Bragança teve “o transporte do futuro” entre 1906 e 1992; levou-o lá bem acima a monarquia e mandou-o retirar a mesma pessoa que os transmontanos, em apoteose, elegeram como seu novo Presidente da República pela significativa votação democrática de 65%. Ele levou (embora) o comboio, levou o IP4 (a estrada da salvação de Trás-os-Montes e, 300 mortes depois, a estrada da morte). Sim, sim, o futuro de Trás-os-Montes já não passa por uma estrada cancerosa mas sim pela A4… a pagar!
Entretanto, 35 km a norte de Bragança, em Sanabria, constrói-se uma estação nova para nova linha de Alta Velocidade Madrid-Galiza. Mais depressa se chegará a Madrid do que ao Porto…


























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