Heterogeneidade de sentimentos

Dois problemas agitam a nossa sociedade, ou a nossa cultura. Nós Antropólogos denominamos cultura as formas de pensar, fazer e sentir, ai onde os sociólogos denominam sociedade a um conjunto de pessoas que partilham a mesma língua, ideias constitucionais e tradição histórica. Sociedade é partilhar a mesma memória e configurar um mesmo futuro. Cultura é conhecer essa memória, respeitar a sua normatividade ou manipula-la.

mãe a falar com filho

mãe a falar com filho

Afirmo no título que nas várias sociedades do mundo e dentro dos seus segmentos, palavra criada como conceito por Durkheim em 1894, Les règles de la méthode sociologique , que pode ser lido em http://classiques.uqac.ca/classiques/Durkheim_emile/regles_methode/regles_methode.html existe uma variedade de sentimentos.

Nós, ocidentais, estamos habituados as formas de relação social, onde é a pessoa masculina a que manda, orienta, e perfilha aos filhos do casal. Esses descendentes, levam o seu nome, como está definido no Código Civil que nos governa, Livro IV, Direito de Família, artigo 1576 e seguintes, especialmente Título III, Da Filiação, artigos 1798 e seguintes, texto que permite a adopção e a comunhão de bens. Ideias todas retiradas da cultura à qual estamos habituados, desde que a nossa República nasceu como Monarquia, em 1806. Monarquia cristã, que submete aos filhos aos seus pais – antigamente apenas ao denominado cabeça de casal, o homem de casa, hoje em dia aos dois por igual, pai e mãe. Tão habituados estamos, que a lei não é respeitada e mulher e filhos são subordinados ao adulto masculino denominado pai. É a nossa cultura… [Read more…]

O solestício de inverno a chegar: Piazzolla

Piazzolla: Invierno Porteño

Poemas com história: Memória descritiva

Com «Memória descritiva» encerro esta série dos «Poemas com história» Durante alguns meses, à razão de um por semana, aqui fui fazendo desfilar textos poéticos que escrevi, sobretudo durante o período da ditadura – alguns pertenciam a livros que foram apreendidos pela polícia, tais como «A Voz e o Sangue» (1ª edição em1967) e «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos» (1970). O primeiro destes títulos foi a causa próxima da minha prisão em princípio de 1968. Outros pertenciam à única colectânea de poemas que publiquei depois de 1974 – «O Cárcere e o Prado Luminoso» (1990). Alguns, muito poucos, eram inéditos. [Read more…]

A máquina do tempo: nota sobre Federico García Lorca

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Depois de dois dias em que fui relatando o que ia acontecendo nas procura dos restos mortais de Lorca, vou hoje, finalmente, falar sobre a vida e a obra do grande poeta, embora os elementos essenciais da sua biografia estejam contidos nos dois vídeos que encabeçam este texto e que devem ser visionados de seguida, pois, no seu conjunto, constituem uma narrativa muito interessante.

Mario Hernández, catedrático de literatura espanhola da Universidade Autónoma de Madrid, grande estudioso da obra de Lorca, o jornalista Antonio Ramos, a empregada dos pais do poeta, María Matas e Alfonso Alcalá, da Casa Museu Fuente Vaqueros, traçam-nos um retrato impressivo, emocionado, mas veraz, da sua biografia. Dispenso-me de repetir esses dados. [Read more…]

inverno: vivaldi leva com as guitarras, estremece no túmulo, mas até acha piada

Alexi Laiho & Roope Latvala,  Le quattro stagioni de Vivaldi, inverno, Allegro non molto

Têm montes de pinta no fim, quando acabam e abanam os cabelos.

Poemas do ser e não ser

A saudade vai de barco

leva na frente a luz vermelha

que fende as águas verdes.

Atrás uma palmeira

menina do deserto

aprisionada no sonho.

Balançam copos de vinho

à flor do mar incerto

e a música desce ao fundo do mar.

O peito estremece

e entrelaça os remos

nas mãos da água

que já não abraça

o ventre do casco verde.

                (adao cruz)

(adao cruz)

outra canção com inverno, no leblon: adriana calcanhotto

Inverno,  Adriana Calcanhotto

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial

claude lévi-strauss em trabalho de campo

Claude Lévi Strauss, trabalho de campo no Brasil, 1933
Claude Lévi Strauss, trabalho de campo no Brasil, 1933

Foi o único trabalho de campo  que realizou durante a sua vida, em Goiás, Matto Grossoe Paraná, Brasil Central, resultando no  famoso  livro: Tristes Tropiques, Plon, 1955, no qual define a melhor ideia da sua vida: apesar da diversidade, todas as culturas apresentam pontos comuns e semelhantes,   nomeadamente quanto ao etnocentrismo.

Este poste é tão só uma nota de louvor para o grande sábio que, pela primeira vez em 102 anos, não passa o Natal connosco. [Read more…]

Poemas com história: Trago uma voz encarcerada

O poeta Marcos Ana na Feira do Livro de Madrid, em Junho de 2009.

O escritor Marcos Ana, pseudónimo de Fernando Macarro Castillo, nasceu perto de Salamanca em 1920. Durante a Guerra Civil, integrado no Exército da República, participou na Batalha de Madrid. Preso, foi torturado e condenado à morte, embora a pena nunca tenha sido cumprida. Em meados dos anos 50 começou, na prisão, a escrever os seus poemas. A sua obra chegou a diversos intelectuais e gerou-se um movimento para a sua libertação. A Amnistia Internacional pressionou o governo de Franco e, em Novembro de 1961, foi exilado em França. [Read more…]

ele vem aí, música para o solstício de inverno: the dodos

The Dodos – Winter

Em astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador.

Goodnight my love, you seemed so nice 'til I knew you better
Now I can tell you're always thinking twice about what might be better
On the outside, there's no conscience, you're a victim of your cautiousness
You don't try, you just lie there hoping that someone will come to make it right

A máquina do tempo: Ponto final nas buscas dos restos mortais de Federico García Lorca – o poeta não foi sepultado no lugar de Alfacar (Granada)

Aspecto que apresentava ontem a zona onde se julgava estar sepultado Federico García Lorca, no lugar de Alfacar.

Ontem, chegou ao fim a busca dos restos mortais de Federico García Lorca. Utilizando meios sofisticados de detecção, durante cinquenta e um dias, foram procurados no local onde, desde há 73 anos, se julgava estarem enterrados. Fontes ligadas à busca, concluíram «Não se encontraram restos humanos. A partir de agora ter-se-á que escrever a história com dados científicos. Acabaram-se as especulações» (…) «escavou-se a terra até ao limite do possível». Na última vala onde se procuravam os restos do poeta, foi encontrada uma rocha com o que parecia ser impactos de bala. E isso deu alguma esperança.

Porém, o veredicto final foi ontem emitido: «Não se encontraram restos humanos. Há evidências científicas de que nunca houve enterramentos nesta zona» (…)«Não apareceu nem um só osso, nem roupa, nem cápsulas de balas. O terreno foi visto palmo a palmo». Francisco Carrión, arqueólogo-chefe das escavações, sentenciou a questão: «A possibilidade de ali haver alguma coisa não é nenhuma. Nem um grama de informação», [Read more…]

Convite – cidadãos por Lisboa

CONVITE A TODOS OS AMIGOS DO JARDIM DO PRÍNCIPE REAL

QUE FUTURO PARA O JARDIM DO PRÍNCIPE REAL

PARTICIPE NA SESSÃO PÚBLICA A REALIZAR HOJE 6ª FEIRA, 18 DE DEZEMBRO, DAS 21H00 ÀS 23H00, NO AUDITÓRIO QUINTANILHA, DA FACULDADE DE CIÊNCIAS DE LISBOA, COM ENTRADA PELA PORTA DO JARDIM BOTÂNICO, À ESCOLA POLITÉCNICA.

CONVIDADOS OS EX.MOS SENHORES:

PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA, DR. ANTÓNIO COSTA;

VEREADOR DOS ESPAÇOS VERDES DA CÃMARA MUNCIPAL DE LISBOA, DR. JOSÉ SÁ FERNANDES;

PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO FLORESTAL NACIONAL, ENGº AMÂNDIO TORRES;

DIRECTOR DO IGESPAR DR. GONÇALO COUCEIRO.

PRETENDE-SE COM A SESSÃO DISCUTIR DE FORMA ABERTA, ESCLARECIDA E CIVILIZADA O PROJECTO EM CURSO NO JARDIM DO PRÍNCIPE REAL, EM ESPECIAL, COMPREENDER QUE FUTURO DEVE ESTAR RESERVADO AO JARDIM DO PRÍNCIPE REAL.

 

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense final)

 -Em conclusão: creio que o melhor é marimbarmo-nos contra os mandamentos da santa madre igreja e fazer a mesma merda que eles, qual fidelidade qual gaita, qual adultério qual carapuça, qual até que a morte nos separe! Encontros secretos só de mulherio, ou então uma greve geral, uma nega geral, como manda a força revolucionária tão característica do nosso povo.

 -Ouça lá ó senhora…senhora presidiária, a senhora nem parece que é deste mundo! A senhora nem parece mulher de marido, ou lá o que é! O que funciona para o homem não funciona para a mulher. E o que funciona para a mulher não funciona para o homem. Nunca ouviu falar dessas coisas…essa da nega geral…já viu?! Até faz rir! Eles vão esfregar as mãos de contentes, e facilmente vão virar o feitiço contra o feiticeiro!

 -Para além de ficarem sem as suas estritas e já estreitas obrigações, então é que não lhes vão faltar pretextos para outros encontros com o paradigma da modernidade! Nesta altura da natural e feminina ausência das regras, a ausência de regra faz a desregra e atira-os inevitavelmente para onde eles ainda vejam regras.

 A minha amiga presidiária que está atrás das grades por ter chamado filho da puta, de caras, a um grande político e gestor, que tem dois Bentley, tês vivendas e quatro apartamentos, quatro piscinas, cinco saunas, e uma filha muito feia, e que se abotoou com largos milhões de euros do erário público, aprendeu algumas coisas comigo. [Read more…]

A máquina do tempo: onde está sepultado Federico García Lorca?

Este poema, um dos mais conhecidos de Federico García Lorca, descreve o ambiente trágico que rodeia uma tarde de touros. O autor do vídeo aplicou as palavras do poeta à tragédia da Guerra Civil de Espanha em cujo vórtice o autor de «Romance sonâmbulo» (a que o poema pertence) seria implacavelmente sugado.

Tinha prometido dedicar um destes textos ao grande poeta andaluz e hoje a nossa máquina vai começar a visitar a vida de um grande escritor, uma das âncoras da língua castelhana – Federico García Lorca. Chegou a altura de pagar essa dívida. Embora, neste primeiro texto, digamos que vou abordar, não propriamente a sua vida, mas as incidências da sua morte. E faço-o com a pergunta: onde está o corpo de Lorca? [Read more…]

nÃO sEJAS dURO dE oUVIDO – dEZ/09 – #2: XX

Continuando a prometida saga do Best-off de 2009, hoje trago aqui ao Aventar os  XX.

Caros leitores, estamos perante uma das melhores obras dos últimos anos e uma das melhores estreias de sempre. Como definir a música dos XX? Sinceramente, não sei. Alguns apontam para rock alternativo minimalista…e quem sou eu para concordar ou discordar. Só sei que nada sei, dizia o outro. Só sei que nunca ouvi nada do género, digo eu. Bastante originais.

Este seu primeiro trabalho, de nome “X”, foi publicado no passado mês de Agosto e vale bem a pena ouvir. Ora experimentem:

A máquina do tempo: da nave dos loucos aos sinos de Basileia

A propósito da recente ida do Ricardo Santos Pinto a Basileia, que conheço, embora mal, lembrei-me de dois livros relacionados com aquela cidade suíça, separados por quase quatro séculos e meio. Mas o que é isso para uma máquina do tempo? Lembrei-me desses livros e, por associação de ideias, a acontecimentos ligados a Basileia. Acontecimentos que tiveram a ver com a guerra e com a paz – com as derivas da nave dos loucos.

Há meses atrás, na série «falando de democracia», publiquei um texto a que dei o título da obra «A Nave dos Loucos», acrescentando um subtítulo – «caos e democracia». Foi seu autor, Sebastian Brant (1457-1521), um jurista alsaciano de língua alemã, formado na universidade daquela cidade e que, em 1494, escreveu Das Narrenschiff ou, em latim Stultifera navis – «nave dos loucos», em português. [Read more…]

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 7)

 Os testemunhos foram crescendo, crescendo, e foram sendo registados, um após outro. Havia necessidade de os tratar informaticamente, para elaborar uma conclusão que resultasse numa espécie de consenso que por sua vez levasse a uma acção e a uma estratégia comuns.

 Como a minha terceira mulher, terceira mais em termos extemporâneos do que cronológicos, tem imensas relações extra-conj…, perdão, intra-prisionais, conseguiu enviar toda a documentação para um amigo íntimo, que trabalha numa empresa encarregada da avaliação de professores, ligada ao ministério. Estragou tudo, porque a ex-ministra, desconfiada como era, pensou logo que havia por ali mão do Nogueira.

 Reconhecendo o fracasso, esse amigo íntimo valeu-se de uma amiga ligada à associação de mulheres desactivadas pelos maridos, por sua vez ligada a não sei quê de não sei quantos, dessas coisas que há para aí aos montes e que dão por nomes bestiais, criadas para a protecção do cidadãos e que não levam a lado nenhum. Uma porra!

 Então foi obrigada, por uma questão de coerência e lealdade, a dar uma conferência de imprensa, explicando o ponto da situação, calma e plausivelmente, a todos os jornalistas e a todas as senhoras suas correlegionárias nesta nobilíssima causa. [Read more…]

A máquina do tempo: o nosso coração também é árabe

Ouvimos aquí uma das «Cantigas de Santa María», do rei Afonso X de Leão e Castela (1252-1284) que, como sabemos utilizou na sua poesia o idioma galego-português. Este rei, embora tenha participado activamente na guerra da Reconquista, conservou na sua corte numerosos artistas, nomeadamente músicos mouros, dando assim um exemplo de tolerância para com os vencidos. Esta cantiga fala dos alarifes mudéjares, ou seja dos arquitectos e artífices mouros. Mudéjares eram os mouros aos quais foi permitido continuar a viver entre nós, mediante o pagamento de um tributo. Muitos deles eram artistas, cientistas, médicos… Afonso X, o Sábio, dedicou esta cantiga a esses artistas e artífices que embelezavam com a sua arte igrejas e palácios dos cristãos vencedores. [Read more…]

A cultura também evolui

Este não é mais um post sobre Portugal vs Espanha, sobre o que um tem de bom ou o sobre o que outro tem de mau.

Mas permitam-me, ainda assim, fazer uma comparação directa entre estes dois países num aspecto tão simples quanto demonstrativo. Refiro-me a uma notícia de hoje do jornal El Mundo, onde se lê que Espanha irá descer o IVA de 16% para 4% nos livros electrónicos.

Por muito que quisesse evitar a confrontação, o meu subconsciente (ah, maldito!) rapidamente me fez aperceber que, felizmente para nuestros hermanos, no seu país há quem se preocupe verdadeiramente com a cultura e esteja atento aos seus meios de difusão mais recentes.

Por cá, onde a cultura é muitas vezes tratada mais como um fardo do que uma riqueza, resta-nos esperar que venha a ser adoptada uma medida semelhante. Até porque, estando Portugal tão virado (e bem) para as novas tecnologias, uma decisão deste género poderia ajudar a dinamizar um mercado praticamente inexistente no nosso país: precisamente, o dos livros electrónicos.

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 6)

 Uma outra esposa, que até aqui só tem estado a ouvir, de dentes cerrados e com a raiva a escorrer-lhe até muito abaixo do umbigo, comenta:

 -A única frase meio filosófica que tenho ouvido ao meu homem nos últimos tempos é, quando ele vai mijar, pela manhã e diz sistematicamente: O que a gente era e o que a gente é! Fico lixada!

 -Imaginem que quando o interroguei sobre o inusitado encontro, só entre gajos, ainda para mais, velhos e incapazes de sobreviveram sozinhos para além de um raio de dois quilómetros, ele me respondeu com ar meio freudiano, que se tratava, possivelmente, de uma espécie de simpósio, em que se faria o levantamento do velho conceito, já gasto, e se tentaria a sua penetração dentro do paradigma da modernidade, muito mais interessante do ponto de vista, digamos, sensorial e estético, do que o paradigma dos nossos tempos.

 -Estão a topar?… O levantamento…a penetração…no paradigma…muito mais interessante…só lhe faltou dizer, a esse filho da puta, muito mais depiladinho! [Read more…]

O encanto

Numa peregrinação a uma grande superfície comercial, tomei finalmente consciência da razão do encanto que os portugueses têm pelos “hiper”.

A mim aquele ambiente causa-me um certo desconforto, talvez porque me disseram que é nos “hiper”, e afins, que faz verdadeiro sentido a expressão “pôr o carro à frente dos bois”. Talvez por isso evito circular com carrinho de compras… Mas, recentemente, percebi o encantamento lusitano por aqueles espaços comerciais. Isto, numa revelação que se desdobrou em duas experiências contínuas. A saber:

– O meu olhar foi cativado pelo preço anunciado da bandeira nacional: um Euro. Exactamente: € 1,00. Pensei para  mim que tal valor terá a sua lógica, pois face ao montante da nossa actual dívida externa, e o seu provável aumento face à realização de mais alguns dos famosos desígnios nacionais, duvido que a nosa bandeira tenha, ou venha a ter num futuro próximo, um valor económico superior àquele pedido pelo “hiper”.

De seguida, ouvi num altifalante a habitual voz feminina anasalada com efeito de eco, a demandar pela presença de um responsável de um sector (penso que era o responsável da mercearia, mas não tenho a certeza…), para que se apresentasse prontamente à recepção que, por acaso, era num balcão que pouco distava de mim. E, em pouco tempo, lá surgiu o demandado responsável.

Face a estas tão profundas experiências, percebi, então, porque os portugueses apreciam tanto os “hiper”: na vida real lusitana, dificilmente as coisas têm um preço justo, e surge tão prontamente, à primeira demanda, o responsável do que quer que seja.

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 5)

 Numa outra mulheral achega para o secreto desenvolvimento da estratégia a adoptar nos subterrâneos neuronais da líder de Custóias, dizia aquela senhora de cigarro sempre na boca, que já teve um cancro do pulmão, ao qual sobreviveu após a cirurgia, que já teve um cancro da laringe ao qual sobreviveu após a cirurgia, mas nunca deixou de fumar:

 -Quando a minha avó era viva dizia-me sempre: ainda que velho, não o deixes pôr o pé em ramo verde. Sei lá se é verde se é maduro, eu penso que é mais pró vermelho esse ramo onde ele vai pôr o pén…, salvo seja, o pé!

 -O irmão do meu cunhado, que é da informática, diz que há um chip quase microscópico, que se aplica, sem ele saber, no relógio de pulso, objecto que nenhum homem tira nessas desavergonhadas funções, cujos movimentos anormais e descoordenados reproduzem um gráfico característico, durante a realização do acto sexual clandestino.

 -Mas tem de ser clandestino, porque com a própria mulher parece que dá uma linha isoeléctrica. Há quem o prenda nas peúgas, dado que é quase imperceptível, peça que o homem também nunca tira, e que dá o mesmo tipo de gráfico, mas invertido.

 -Também resulta a análise do PH da língua, mas é muito difícil convencê-lo a fazer a análise. Já não é tão difícil cortar-lhe as unhas quando ele regressa e tentar obter a partir daí um Papanicolau. No entanto, já corri todas as lojas de informática e dizem-me que o tal chip está esgotado, tem tido muita procura.. Apenas têm chips para a contagem de gases, muito frequentes na subida do Tourmalet, que é como quem diz na subida para o difícil e almejado clímax. Embora muito menos específico, e potencialmente enganador -os gases podem ser da comezaina e não da líbido-, este teste não deixa de ser denunciador. (Continua)

Poemas do ser e não ser

Magnífica surpresa nesta saga de poetas

para o silêncio das cinzas nocturnas!

Um labirinto de ismos que se entrecruzam

de pontes sobre o rio seco

que corre dentro de mim

para um lago de silêncio com a cidade ao longe.

Sei que há no fundo de mim mesmo

Onde não enxergo qualquer fundo

Qualquer coisa que eu sinto.

Sei que há um correr de ruas mortas

E um vento de silêncio

calando as mil janelas da cidade virtual

Onde morre quem vive e vive quem morre

Em serena ode à quietude universal.

E é nesta altura que regressam as canções de Natal

Contemporâneos: Salvem os ricos

Chegou a crise
Não há razão para temer
É que nesta crise
O Teixeira dos Santos vai-nos proteger [Read more…]

O Chile de Sempre

Bandeira do Chile

Bandeira do Chile

Bem sei que sou português, por honra e louvor, apesar de ter pago a nacionalização, pelos serviços prestados a este País. Antes era britânico, antes ainda, Chileno e, por parte dos pais, Espanhol. Com mulher e filhas Britânicas, netos Britânicos e Holandeses, genros Inglês e Neerlandês. Tenho vivido, dos meus sessenta anos, quarenta fora da Pátria. Qual? O Chile, evidentemente. Poucos anos morei lá, mas lá ficaram a minha língua, as minhas memórias, a casa dos pais, grande parte da minha família. Família que hoje vai votar para eleger o próximo Presidente do Chile.

Na minha visita ao Chile de Allende, como sabemos, acabei num campo de concentração. Apenas 35 anos depois, me deixaram entrar.

Quem me dera estar aí, mas esse encarceramento lançou à fogueira da infâmia a minha imensa Biblioteca e as minhas credenciais. Votar não me é possível, ainda que quisesse.

Depois da Ditadura, a minha Pátria tornou a ser o Chile de sempre: muitos candidatos, coligações, esse suar das mãos ao torcer pelos nossos candidatos, os da Concertação Nacional, que agrupa o PS de Allende, Lagos e Bachelet, o dos antigos Presidente Frei, o primeiro a ser envenenado pela ditadura durante uma operação simples; esse Frei Montalva que não queria entregar o poder nos anos setenta do Século passado ao candidato triunfante, o Social-Democrata Materialista Histórico, Salvador Allende, mas foi pressionado pelo seu candidato, Radomiro Tomiç, candidato, que publicamente e em frente do povo, reconheceu a sua derrota e congratulou o candidato vencedor. Frei Montalva, teve de anunciar os resultados, não tinha alternativa. Poucos anos depois falecia nas mãos dos esbirros que ele apoiara. O seu Amigo de sempre, Patrício Aylwin, foi eleito, por unanimidade como Presidente do Chile, em 1990, com o apoio do seu partido, a Democracia Cristã, semelhante à de Portugal, e uma Concertação Democrata, prémio merecido por ter lutado durante 19 anos contra o Ditador, desafiou-o para um plebiscito, o «não ao Ditador» ganhou, foi-se embora de má maneira, com ameaças de outro golpe de estado, como Patrício Aylwin me contou na sua visita a Lisboa. Em poucos meses e a correr, os partidos banidos arrebitaram, embora com nomes diferentes, mas todos votaram pelo sabido triunfador, excepto os apoiantes do ditador, que já não existe – grupo conjuntural – e o mais tarde formado partido Renovação Nacional do candidato, que tudo indica ganhe as eleições de hoje, milionário industrial, por nome Sebastián Piñera, apoiado pela coligação de direita União Democrática Independente. Independente, para se diferenciar dos resquícios do partido do ditador, partido que morre lentamente e não apresenta candidato nestas eleições. O seu rival,

Clube dos Poetas Imortais: Edmundo de Bettencourt (1899-1973)

Conheci Edmundo de Bettencourt numa tertúlia, uma das muitas, que se reunia nos fins de tarde no café Restauração da Rua 1º de Dezembro, no centro de Lisboa. Paravam por ali, além do poeta e cantor madeirense, o Alfredo Margarido, que viria a ser professor da Sorbonne e que hoje, jubilado, mantém a sua inteligência e grande saber ao serviço da cultura, o Manuel de Castro (1934-1971), um grande poeta quase desconhecido, às vezes, outro madeirense célebre, o Herberto Hélder. Mais raramente o Renato Ribeiro, com a sua mulher a Fernanda Barreira. Ocasionalmente, algum «imigrante» vindo do Gelo – era só atravessar a rua e andar meia dúzia de metros.

Edmundo Bettencourt, para além de notável poeta e ímpar cantor do fado de Coimbra, era uma pessoa afável, muito cordial, tentando atenuar com a sua delicadeza a frontalidade por vezes brutal de um Manuel de Castro que, talvez adivinhando a morte prematura, desistira já de ser simpático e dizia o que pensava. Por exemplo, eu aparecia por ali vindo da sede da RTP, onde então trabalhava. O fato e a gravata eram, por aqueles anos 60, uniforme obrigatório no tipo de funções que desempenhava. Pois o Manuel, esquecendo-se ou fingindo esquecer-se de que já tinha dito a mesma graça numerosas vezes, fazia sempre alusões pícaras ao meu aspecto burguês.

Foi na altura em que andava a organizar o terceiro número da revista «Pirâmide». Os dois primeiros números tinham reunido gente do «Gelo». Este terceiro, juntou colaboração de frequentadores da tertúlia do Restauração (embora tivesse também um poema inédito do argentino Rodolfo Alonso. E outro, igualmente escrito para a revista, do castelhano Ángel Crespo (1926-1995) que, anos depois, além de consagrado poeta, se converteria num dos principais pessoanos de língua castelhana. Edmundo Bettencourt colaborou com seis poemas, então inéditos, dos quais publico aqui um datado de 1954: «O Segredo e o Mistério». Os poemas eram acompanhados por um retrato do poeta, desenho inédito de Mário de Oliveira:
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O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 4)

 Uma nova denúncia, começando já a engrossar o processo, dizia respeito a uma cunhada, que é ajudante de farmácia, e que teria dito à recíproca cunhada que o irmão comprara uma embalagem de viagra. Não, não, não fora de viagra mas de cialis de 20 mg, logo de 20 mg! Parece que faz mais efeito e mais prolongado. Tem uma duração de acção de 24 horas. Contando com altos e baixos, claro, como a bolsa.

 -Pudera! Não se trata, muito provavelmente, de uma traulitada de coelho, mas de um bacanal de uma tarde inteira, quem sabe, se de um forrobodó a entrar pela noite dentro!

 Lamentava-se uma outra esposa, sorumbática, enfiada na concavidade depressiva de um velho sofá, cuja actividade sexual se resumia aos dias santos. Não porque o marido respeitasse essas datas festivas mas porque a fé a levava a essa graça por invocação de um santo secreto que lhe falava em sonhos, assim de uma forma meio atrevida.

 -Sete plásticas, número mágico ligado às sete cordas da lira e às sete cores do arco-íris, mágicas o tanas, de nada valeram. Basta um estranho e insólito convite, sem mulheres legítimas à perna, para ver o meu querido amor a rastejar, a rejeitar-me desde o Natal ao pentecostes e ainda por cima justificar:

 -Coitado do meu amigo, como não tem mulher, não pode estar, sozinho, a aturar as mulheres dos outros. Além disso não pode convidar toda a gente, é um homem só, pau para toda a colher, é certo, mas do corpo lhe sai!

 -Isso, isso, agora é que disseste tudo, pau para toda a colher.

 -Mas foi uma compreensível opção, mulher, tens de aceitar.

 -Aceito, eu aceito, mas como explicas que há dois meses, com dias santos pelo meio, não cumpres a tua obrigação da meia-noite, dizendo que estás muito cansado. Tens de te poupar, é? Tens de armazenar, é? Bruxo!. (Continua)

O mistério de um inocente convite

O mistério de um inocente convite (suspense 3)

 A minha terceira mulher, detida, secundariamente como veremos, por excesso de abordagens e por exagero de decisões, resolveu pôr os seus secretos meios de comunicação a funcionar, entrando em contacto com todas as cônjuges dos seus próprios, no sentido de criar não um SIS, mas um SIM (Secreta Informativa do Mulherio).

 O primeiro passo consistia em recolher todas as informações possíveis, mais ou menos íntimas, que pudessem levar à compilação de todos os dados compiláveis inerentes às capacidades pilares de cada um, eventualmente úteis à confirmação de que a cimeira dos gajos, em termos sexuais, era irmã gémea da Cimeira das Lages, em termos políticos, isto é, a mesma filhadaputice.

 A primeira informação surgiu de imediato.

A distinta esposa de um dos convidados, que por acaso é coronel e  antigamente fazia emboscadas à mulher na cozinha e no quarto de banho e hoje só canta o hino nacional, confidenciou:

-Raramente vou aos bolsos do meu marido, e, quando vou, habitualmente é à procura de uns trocos, que é como quem diz…! Mas desta vez os lábios cerraram-se-me. Ia desmaiando quando a minha mão apanhou, no bolso do tabaco (há anos que o meu marido não fuma!) aquilo que eu julguei ser uma caixinha de adoçante. Adoçante! Adoçante o caralhinho! Uma caixa de borrachinhas! Borrachinhas! Antes deste convite nunca… tal… tinha… acontecido!

 Outra informação secreta de outra digna esposa que por acaso tivera um caso sem consequências, nascido dos olhos azuis do homem da fruta que nunca lhe enfiara fruta estragada, dava conta de que umas cuecas do filho do meio, bastante eróticas por sinal, tinham desaparecido misteriosamente da gaveta do rapaz.

 Uma outra despeitada esposa, zeladora de sacristia e muito afável para o padre nos entretantos, confidenciava:

-Por isso eu o ouvi dizer ao telemóvel, provavelmente ao amigo, em voz baixinha (sem que ele suspeitasse da minha presença), que com uma gaja boa e nova na frente, não precisava do viagra para nada! Para quem o estava a ouvir do outro lado, ele recomendava, carrega no piri-piri, pá!

 -Ora, segundo sei, o marido de uma nossa amiga assim a modos que …meia lésbica, ao qual receitaram um creme para o pénis enlargement, dizia que o piri-piri potencia a acção do viagra. Piri-piri, piri-piri! Só podia ser lá, com a mania das cariladas. Estupor! (Continua)

A coisa vai

José Saramago recentemente atentou para o facto da maioria dos católicos nunca terem lido a Bíblia. Que se lessem, ficariam chocados com o Deus que lá é apresentado: mau e vingativo (entre outros mimos).

Acontece que a Bíblia foi redigida bem antes de Cristo, pelo que a linguagem empregue e os conceitos dominantes devem ser entendidos à luz da rudeza de então.

Isto sem desprimor do direito que cada um tem de fazer uma interpretação literal da Bíblia. Ou do Corão. Ou seja do que for. Certo sendo que as interpretações literais dos chamados textos sagrados quase sempre são o que fundamentam as opções extremistas e radicais das correntes religiosas e que, não raras vezes, descambam para o terrorismo.

No entanto, a mim preocupa-me mais que a grande maioria dos portugueses não tenha lido a Constituição: um texto bem mais pequeno que a Bíblia, escrito de forma articulada e sistematizada, e com apenas 33 anos (curiosamente a idade com que Cristo terá sido crucificado).

Se os portugueses que nunca leram a Bíblia ficariam, segundo Saramago, chocados com o Deus que é lá retratado, eu estou certo que se lessem a Constituição, ficariam também chocados com o modo como andam a ser enganados há muitos anos e por tanta gente. Talvez não engolissem tanta coisa como parecem engolir. Barafustam, comentam, desdenham, mas  a maior parte engole…

Está na moda falar-se sobre homossexualidade

“ESTÁ NA MODA FALAR-SE SOBRE HOMOSSEXUALIDADE”[1]

Será sempre assim enquanto não houver lei para a liberdade de amar

Será sempre assim enquanto não houver lei para a liberdade de amar

Falava ontem prolongadamente ao telefone, com um senhor, estimado por mim como pessoa íntima, e falamos das opções das formas de amar, desde a denominada normal relação erótica heterossexual, até a pedofilia, muito praticada na Ilha da Madeira e em Lisboa. Falamos do que era ritual, como os Sambia, estudado por David Herdt, em 1987 e publicado por Holt, Rinehart and Winstos, Chicago, ou os Baruya, por Maurice Godelier, Fayard, 1981, na Papua Nove Guiné, os dois casos. Ou meu livro do ano 2000, O saber sexual das crianças. Desjote, porque te amo, Afrontamento, Porto. Como a pedofilia era um ritual entre estes grupos e um comércio de prostituição, na Madeira e em Lisboa. Como Herdt e Maurice tiveram que ser submeter ao ritual das etnias que estudavam, para passar a ser homens, e eu delicadamente desisti entre os Picunche, clã do Chile Central, da Etnia Mapuche. Referi como entrei na casa dos homens, onde o cuni liguis acontece para ser membro do grupo e pelo prazer que produz, ou a felatio. Concordamos que são formas heterogéneas de amar, que existem e todas as sociedades, especialmente as Europeias que compram crianças na Madeira aos seus pais, que com orgulho vendem aos seus catraios. Orgulho que o catraio tem, porque, como investiguei na Madeira, se não são vendidos, as formas homossexuais de amar acontecem na Ilha, entre eles. É o motivo pelo qual são vendidos, por ser a homossexualidade de menores de idade, um crime em Portugal, punido pela lei, assim como é um ritual entre os grupos referidos antes. Ritual que dá prazer, pelo que, ainda que crime, é praticado em segredo no nosso país. Foi a minha maior surpresa ao entrar, nos anos 80, em Portugal. Curioso científico, percorri uma série de ruas de Lisboa e casas fechadas onde a homossexualidade e a pedofilia eram praticadas em silêncio. Concluímos a conversa com um comentário: deve ser criada a lei que permita o amor aberto em Portugal, o único País da Europa em que as relações [Read more…]