A Lisboa de António Costa, de Manuel Salgado e de um tal Zé-qualquer-coisa

Durante umas horas na tarde de ontem, arrasaram aquilo que existiu durante um século. Foi tudo reduzido a pó, desde cantarias e lindíssimas grades, às varandas de outros tempos e portas em madeira de casquinha. Tudo para o entulho. É assim a Lisboa moderna desta “situação” no estertor que todos sentem sem o dizer. Antes de volatilizar-se, pratica a terra queimada, demolindo o tecido urbano, cavocando preciosos “terrenos” em praças, avenidas e ruas. Em nome das negociatas habituais, estacionamentos e do interesse do sector do betão que proporciona rendas e poleiros a uns corvos que ocasionalmente passam pelos gabinetes ministeriais, esmaga-se uma cidade inteira. Demoliram-se dois prédios em plena Praça Saldanha, hoje um local quase inóspito pela fealdade e baixa qualidade arquitectónica escandalosamente exibida por uma Câmara Municipal que não merece tal denominação.

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O Senhor do Atlas

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O Alto Atlas . foto Yann Arthus-Bertrand

A cordilheira do Alto Atlas marroquino é uma longa muralha com 700 quilómetros de extensão, que constitui uma fronteira entre Marrocos atlântico e sub-tropical, e Marrocos continental e desértico. Os seus cumes mais altos ultrapassam ou aproximam-se dos 4.000 metros, como são exemplo o Jbel Toubkal no Alto Atlas Ocidental, com 4.167 metros, o Jbel M’Goun no Alto Atlas Central, com 4.068 metros ou o Jbel Ayachi no Alto Atlas Oriental, com 3.757 metros de altitude. O Alto Atlas é um mundo de montanhas, rios, lagos, planaltos, vales férteis e gargantas escarpadas, habitado por tribos berberes desde tempos milenares, que conservam a sua identidade pela distância e isolamento.

Para além de fronteira geográfica, o Alto Atlas sempre foi uma fronteira política, que separou as regiões sedentárias governadas pelo poder central, o blad al-makhzen (ou país da lei), das regiões nómadas auto-governadas pelas tribos, o blad as-siba (ou país do caos). Foi a última região de Marrocos a ser dominada durante a conquista Islâmica e a última a ser pacificada pelo colonialismo francês.

Esta é a história de um homem chamado Thami El Glaoui, qadi ou chefe da tribo Glaoua, conhecido como o Senhor do Atlas, e do seu papel ao lado das forças coloniais francesas durante a ocupação e pacificação do Sul de Marrocos. [Read more…]

Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil.

Odorico de Paraguaçu ou o modelo de um edil.

Não sei se recordam este chavão publicitário que passou na televisão durante a década de 1990. Ele é, ainda hoje, bem revelador da «mentalidade paroquial» e municipalista que grassa na sociedade portuguesa desde, pelo menos, o Liberalismo. Nessa altura, profundas modificações foram operadas na divisão administrativa do país e vários foram os municípios levados à extinção. Choveram cartas nas Cortes. As velhas elites que diziam falar pelo povo, clamavam que estavam ameaçadas as liberdades daquelas antigas e venerandas terrinhas. Estavam era ameaçados os tachos oligárquicos onde as velhas famílias comiam e que agora, rotos e vazios, lhes eram retirados.
Contudo, o liberalismo teve mão para por no lugar esses rincões do Antigo Regime, oferecendo lugares novos aos velhos e criando novos lugares para os novíssimos. Hoje, tal seria impossível. As oligarquias deixaram de ser consanguíneas e passaram a ser partidárias. O dinheiro comanda. Apenas se falou em reduzir o número de municípios o caciquismo local tremeu. Mais depressa caía outra vez o Carmo e a Trindade do que se acabavam com concelhos. Alguns presidentes, daqueles da velha guarda, mestres e doutorados em eleições, vieram dizer que nunca, que as liberdades das antigas e venerandas terras, etc, (os tachos), etc, bastiões, etc, desenvolvimento, etc, progresso, etc., NÃO & etc.
É óbvio que a III República jamais conseguiria acabar com um munícipio que fosse e virou-se para as freguesias. Como a maioria dos presidentes da junta não tem sequer o quarto ano de escolaridade, nem o mestrado em argúcia política como os edis municipais, é fácil manobrá-los. Os municípios rejubilaram. Menos juntas, menos dinheiro, menos patetas a quem pagar jantaradas para servir nas campanhas. [Read more…]

Tadelakt

Há centenas de anos que na região de Marraquexe se utiliza uma técnica de revestimento na construção, aplicada tanto em paredes, pavimentos e tectos, como em peças de mobiliário, como sejam banheiras, lavatórios, camas ou piscinas. Pelo facto de ser um revestimento impermeável, era inicialmente usado nas cisternas e nos hammam, ou banhos públicos, pensando-se que os Berberes já o utilizassem há cerca de 4.000 anos.

A sua grande qualidade estética, possibilidades plásticas, durabilidade e suavidade ao tacto, tornaram-no na imagem de marca dos interiores de Marraquexe, estando presente nos grandes hotéis e riads da Cidade, e fazendo a ponte entre o tradicional e o moderno.

Chama-se Tadelakt, designação que provém do Árabe “dlak”, que significa massajar ou amassar, dado que é uma argamassa tem de ser “apertada” para lhe ser retirado todo o ar existente no seu interior. O tadelakt é um reboco à base de cal da planície do Haouz, que utiliza o pó de mármore ou a areia fina como inerte, pigmentado, apertado à talocha, barrado com sabão diluído em água, polido com um seixo e, opcionalmente, finalizado com uma camada de cera.

É um revestimento da família dos nossos rebocos “estanhados”, “escaiolas” ou “queimados à colher”, que aliam o carácter estético e decorativo com a durabilidade e conforto do material.

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Por aqui se vê a força do PC

Nos últimos tempos têm surgido em alguns comentários teorias curiosas. Uma delas, que reúne bastantes adeptos, é a de que Saramago ou Siza Vieira não seriam o que são sem a força do PC. A teoria diz, mais ou menos, que se não fosse a força da máquina do PCP estes vultos jamais sairiam da penumbra, para sempre condenados à sua mediocridade natural.

Seria fácil, para mim, ficar estupefacto com tais teorias e subvalorizar a lucidez analítica de tão notáveis teóricos. Não o faço, porém, e reconheço a minha insignificância, tal como o meu mais rigoroso e completo analfabetismo.

Resta-me, portanto, ficar estupefacto com a força do PC. Ele é comité Nobel, ele é Alvar Aalto, Pritzker e Universidade de Harvard, ele é o governo francês, nada escapa ao poder manipulador do PCP e à sua capacidade de imposição de Medíocres.

E como Siza consabidamente não os merece, só posso enviar daqui, publicamente, os meus parabéns ao PCP.

O azulejo Andalus

A arquitectura do Al-Andalus era profusamente decorada, seja em trabalhos de madeira talhada e pintada, de ferro forjado, de ornamentos em estuques ou de painéis de azulejo.

O azulejo Andalus foi a base para a azulejaria medieval e moderna, e absorveu muito dos painéis de tecelas romanos.

O seu fabrico ainda hoje subsiste em Marrocos.

A técnica utilizada é a do azulejo “alicatado”, assim chamado pelo facto de utilizar fragmentos de cerâmica vidrada, com combinações de distintas formas e cores, que posteriormente são agregados em painéis, através de uma massa à base de cal e areia fina ou gesso, processo chamado de “embrechamento”.

Esta técnica exige uma grande perícia ao nível do corte dos azulejos e mestria ao nível da disposição das peças para a composição dos painéis, já que as mesmas são dispostas com a face vidrada para baixo, não permitindo visualizar o resultado final.

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O programa de governo e a habitação, rendas e urbanismo: algumas questões

Uma “casa portuguesa” na exclusiva zona lisboeta da Lapa

Tudo o que se tem dito acerca deste assunto, pertence ao domínio do óbvio e ao longo de muitos anos, as intenções ficaram-se pelo enunciado. Pretende-se um melhor funcionamento do mercado de arrendamento e para isso são apontadas algumas necessidades, como:

 1. Dinamização do sector imobiliário. Esperemos que isto não signifique a continuação da desastrosa política de construção que tem desertificado os centros urbanos e levado a população a estabelecer-se nas caóticas periferias. Tem sido este o “dinamismo” do sector imobiliário nacional, aliás em clara convivência com os interesses da partidocracia na sua definição mais ampla (bancos e sociedades anexas, entidades municipais, “obras públicas”, etc).

 2. A mobilidade das pessoas. Um princípio baseado em exemplos exteriores e que poderá ser exequível se existir trabalho e as necessárias infraestruturas que garantam às famílias, as condições que permitam o seu desenraizamento. É uma intenção de bastante duvidosa concretização. [Read more…]

Salvem a Casbah de Tânger!

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A Casbah de Tânger, ou castelo daquela cidade, património de inegável valor arquitectónico, encontra-se numa situação deplorável. A sua fachada Norte colapsou parcialmente e está em risco de ruína total, ameaçando derrocada.

O imóvel integra-se na cintura de muralhas construída pelos portugueses durante os quase 200 anos em que aí permaneceram, resultado da reformulação da antiga cerca que já existia desde o século XII. A Casbah foi implantada no ponto mais alto da cidade, em situação sobranceira em relação à Medina, desfrutando de uma vista panorâmica sobre o Estreito de Gibraltar.

A falta de conservação e a instabilidade do talude em que assenta, são factores determinantes para a situação crítica a que a Casbah chegou. [Read more…]

Escadas até ao céu

As obras arquitectónicas, aquelas criadas com a intenção de perpetuarem o regime que as ergueram, sofrem  dos inevitáveis debates por quem nelas vê tempos a olvidar. No entanto, com o decorrer da gerações, as gentes vão-se habituando e adoptam-nas como património. É este, o destino reservado às escadarias da Universidade de Coimbra. Goste-se ou não se goste do estilo ou da mensagem. Foram construídas e para sempre alteraram a malha urbana da cidade dos estudantes.

Escadas destas existem na Alemanha, Rússia, no monumento a Vítor Manuel II – em Roma -, em quase todas as capitais do leste europeu, em Pequim e Piong-Iang. Com o fito de glorificarem os poderes então instituídos, ergueram-se também na Mesopotâmia, Antigo Egipto e América Central. Têm vários tipos de mensagem, desde a vitória sobre as dificuldades topográficas, até a interpretações mais etéreas, aproximando os homens do topo, podendo este ser terreno ou celestial.

Em alguns casos, as escadas conduzem-nos a um espaço onde prepondera a figura de um Grande Chefe, chame-se ele Mao, Lenine, Kim il Sung ou Estaline. No caso coimbrão, trata-se da Universidade mais antiga do país e quando da construção do conjunto monumental, pretendeu-se marcar a posição e o activismo construtor da 2ª República e de Salazar. Nada de espantoso, pois em Paris fez-se o mesmo no Trocadero, obedecendo aos mesmos requisitos arquitectónicos que aproximavam regimes liberais como a 3ª República francesa, a Itália de Mussolini, a Rússia soviética, a Alemanha nacional-socialista ou os Estados Unidos da América. [Read more…]

A besta acordou, escusava de ser em Coimbra

O que esta fotografia mostra a um conimbricense nada diz. O mamarracho chamado Escadas Monumentais pintado é coisa que felizmente vemos desde 1975, por regra feito pelo PCP, que na altura ocupou o espaço e tacitamente os restantes partidos e áreas políticas deixaram ficar.

Digo felizmente porque falamos de uma aberração arquitectónica e urbanística. Trabalho de Cottinelli Telmo, só mostra como aberrante foi a destruição patrimonial da Alta de Coimbra para dar lugar à Cidade Universitária, ícone da arquitectura fascista em Portugal, e para nós símbolo de como se tiram uma belas e funcionais escadas para se construir um verdadeiro suplício. [Read more…]

“Prémio Nobel da Arquitectura” para Souto Moura

Eduardo Souto Moura é o vencedor deste ano do Prémio Pritzker, também conhecido como o prémio “Nobel” da arquitectura.

Souto Moura é, assim, o segundo português a ser galardoado com o prémio mais prestigiado de arquitectura do mundo (o outro é Siza Vieira, galardoado em 1992).

A arquitectura portuguesa, através de alguns dos seus melhores arquitectos, está de entre as que mais se distinguem qualitativamente. Desta vez, e merecidamente, parabéns, Souto Moura.

PS: Uma volta rápida por alguns blogues mostrou-me o que, na blogosfera, vai sendo óbvio: a substimação da obra de Souto Moura e a desvalorização do prémio. Não vou nessa, há muito que gosto sinceramente do trabalho de Souto Moura e do dos bons  arquitectos contemporâneos portugueses. Mas não estaríamos em Portugal se a invejinha e a depreciação não começassem a falar alto, não é?

A sangria das estradas: a propósito de Entre-os-rios.

Via José Manuel Fernandes/facebook (c) Público

Acabo de ouvir, na rádio, um destes políticos do interior, oficial camarário com mentalidade paroquial, a falar do desenvolvimento da terra, hoje lembrada pela tragédia de há 10 anos em Entre-os-rios. Segundo ele faltam ainda as acessibilidades, sempre as acessibilidades, só as acessibilidades. Que se demora mais de uma hora a chegar ao Porto, a apenas 50 quilómetros de distância. Quem for entrevistar os políticos vizinhos, a Cinfães ou Resende, Marco de Canaveses ou Baião, ouvirá o mesmo,:que faltam acessos, estradas, acessibilidade. A conversa é tão monótona como a bagagem cultural desta gente.
O cúmulo desta estupidez plasmou-se no ordenamento territorial local pós-Entre-os-rios: onde existia uma ponte que caiu devido à incúria dos organismos públicos, construíram-se 2! como uma espécie de lenitivo pela desgraça…
Falemos a sério: desde os anos 80 que o país se cobre de asfalto. Já temos 3 auto-estradas paralelas, de norte a sul do país. Falta axadrezar o interior com vias rápidas, é certo. E depois? quando todo o país estiver coberto de vias? Estaremos melhor? É que, para já, a coisa piora de dia para dia, não obstante o investimento em estruturas viárias.
Estes mandantes com sotaque, pequenos régulos do caciquismo municipal, acham que o desenvolvimento maior do rincão que governam é ter rotundas com chafarizes, estradinhas e caminhos municipais ora asfaltados, ora empedrados e muitos sinais de trânsito. Entretanto, por aqueles caminho e por aquelas estradas, as pessoas continuar a migrar. O país sangra o país através das suas estradas. E ninguém vê isto?

Régua-Lamego à Beira Alta de Comboio

Projectos da estação ferroviária de Lamego (final dos anos 1920, nunca construída); no entanto, todo o canal e a ponte do Varosa vieram a ser rasgados permacendo até aos dias de hoje. Ao lado existe a AE 24 (Viseu-Chaves), “grátis”.

A estética segundo Eduardo de Pitta

Foi pelo Nuno Castelo Branco que soube que a Câmara Municipal de Lisboa acaba de aprovar, com o beneplácito do ético António Costa, um execrável mamarracho (foto da esquerda) para o gaveto das ruas Alexandre Herculano e do Salitre, em pleno Largo do Rato.

Pelo Tiago, do 5 Dias, fiquei a saber que o grande socratista Eduardo de Pitta elogia muito o projecto e acha que o Largo do Rato ficará muito melhor do que está hoje (foto da direita).

Nada de surpreendente na forma como Eduardo de Pitta vê a arquitectura e a estética. São gostos e gostos não se discutem. Afinal, não se esqueçam de que para ele e para o seu amigo estas são lindas mansões.

Banksy em Guimarães?

Parece que sim. Guimarães é fixe!

Quando Aqui Morrer Alguém

A culpa é de ninguém, talvez da chuva ou da escuridão ou do excesso de zelo no sangue, não será nunca dos projectistas nem dos responsáveis (?) autárquicos de Guimarães que, há já anos vários, autorizaram (?) a existência deste alçapão com dois metros de desnível. Não deixa de ser curioso que a 200 metros deste local exista a Escola de Arquitectura da Universidade do Minho onde, acredito, os jovens alunos são exemplarmente formados para que, num futuro risonho, não sejam eles criminosos autores de projectos urbanísticos com vista para a morte. Naturalmente, a própria Associação de Estudantes da UM terá coisas muito mais vitais com que se preocupar como a organização atempada das festas que se seguem e das seguintes, pese embora este fosso esteja encostado à residência universitária de Azurém. Estou certo: quando ali morrer o primeiro incauto, mete-se a grade no dia seguinte. E, tudo bem, é dezembro e faz um sol espectacular…

"Cambroens" de Lisboa…


Não perdendo nem um minuto a imaginar os “ses” do 25 de Novembro de 1975, deveremos antes salientar algo de infinitamente mais útil, como a exposição a partir de hoje patente no Museu da Cidade de Lisboa. Consiste numa recriação virtual de alguns dos principais pontos de interesse da capital destruída pelo terramoto de 1755. Note-se que esta iniciativa tem o “alto patrocínio” da Câmara Municipal de Lisboa, uma entidade que nas últimas décadas se afadiga em ser protagonista do novo cataclismo destruidor que tem arrasado esta cidade, vítima da edilidade sempre obcecada com cambroens que façam os amigos arredondar as suas contas bancárias in e off-shore. Mais uma ironia da nossa “estória”, bem ao nível dos seus principais protagonistas.

A propósito de “cambroens”, aqui deixamos o seguinte comunicado, recebido via Octanas:

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5 de Outubro: além do mau nome, um desastre urbano!


“Mas há mais prédios assim nesta rua e é uma pena que só se olhe para este. A câmara não quer saber.”

É assim que os residentes da 5 de Outubro descrevem a situação que há longos anos é sofrida por aquela avenida. Já o Aventar aqui tinha avisado acerca de uma meia dúzia de prédios que ameaçavam ruína, mas dado o evidente conluio da Câmara Municipal de Lisboa com alguns interesses – os mesmos do costume -, nada se fez e pior ainda, nada se fará. Em poucos dias, para sempre desaparecerá um belo edifício, sintomaticamente vizinho de um outro que há uns meses aqui deixámos fotografado, como um péssimo exemplo. Situados diante dos especulativos terrenos da Feira Popular, será fácil calcular o que já se terá acordado em termo de “mais valias”.

O senhor da foto, o espreitador de oportunidades para a coligação BES-Fundo Imobiliário/Departamento de Urbanismo da CML, deve estar radiante. Bem pode planear a construção de mais um mamarracho tão ao seu gosto e na “aprovada” linha do Sanismo militante e hoteleiro. Veremos…

Uma obra heróica: Luísa Correia


Jamais fui apresentado à Luísa Correia, mas conheço, agradecido, a sua obsessão por nos mostrar aquilo que por muito que tentemos à vista desarmada, não conseguimos lobrigar. Todos os dias pelas ruas deambulamos quase cabisbaixos e não colhemos qualquer benefício do ambiente quase miraculoso em que vivemos. Perspectivas desconhecidas, uma quase indecente beleza que une pedras, plantas e animais, a luminosidade proporcionada por uma paleta de cores que se torna indescritível a cada foto que passa. Não há lugar para qualquer manipulação técnica, ou retoque de postal destinado ao turista. Na obra da Luísa, tudo é autêntico e sem subterfúgios, pois a autora apercebe-se do real valor que os construtores da cidade, talvez na sua maioria inconscientes da sua contribuição para um legado que nos une, foram ao longo de séculos acrescentando à nossa riqueza arquitectónica.

O Nocturno é um blogue de uma categoria dificilmente igualável, amesquinhando ou reduzindo a pó, tudo aquilo que possamos escrever acerca das aterradoras notícias que vão pingando em constantes chuviscos molha-tolos, anunciando a inevitável tempestade final que se aproxima a cada dia que passa.

Dia após dia e mercê do exaustivo trabalho da Luísa, deparamos com uma visão imperial bem diferente da regra europeia de amplas e arrebicadas avenidas, destinadas ao cerimonial que impunha o auto-satisfeito respeito interno e o temor no visitante que logo ao seu país regressava. Aqui, neste centro geográfico do Ocidente, existe essa grandeza despreocupada com convenções, denotando-se a liberdade dos edificadores e um caos organizado que nos deu afinal, a dimensão humana que outras capitais de igualmente extintos impérios, definitivamente não possuem.

A Luísa é uma benemérita e artista do maior valor, em nada ofuscada pelas obras a nós deixadas por outros amantes de Lisboa, que como Botelho ou Maluda, ofereceram sempre beleza, fazendo-nos esquecer o desleixo, a ruína, o negócio torpe e a infâmia iconoclasta de quem se alça a gestor da cidade.

Esqueçam a crise por umas horas e visitem o Nocturno. É um Museu quase desconhecido.

Bob, O Construtor:

Agora começo a perceber os motivos para as portagens nas ex-SCUT. Alguém tinha de pagar a factura…

Naquela lista de quadros superiores só falta o “Bob, o Construtor”!

Mais uma borrada autorizada pela Câmara Municipal de Lisboa


A Câmara Municipal de Lisboa, tem destas coisas. Está sempre pronta a inventar pequeno-burguesices em espaços que outros conceberam e realizaram. Losangos no Terreiro do Paço, uma “intervenção” com lataria no Rossio e outras habilidades mais.

Desta vez, o alvo parece ser o “Pirata das Caraíbas”, belíssimo edifício arruinado em plena Avenida que já teve mais Liberdade que aquela que se vê e sente. Nunca mais chega o dia da sua reconstrução para habitação e devolução desta fachada à cidade.

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Cidades pela Retoma

Nos próximos dias 20 e 21, pelas 21.00, no Clube Literário do Porto terá lugar a conferência “Cidades pela Retoma”.

O programa das 2 sessões aposta em apresentações breves (15m) de 4 oradores por dia que irão introduzir diferentes temas que servirão para um debate alargado com a audiência.


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A ex-Baixa de Lisboa


Já foi “a Baixa”. Local de passeio, de compras para uns e de olhares sonhadores para outros, que debruçados sobre montras de tecidos, bolos, jóias ou bibelots, esperavam por melhores dias. Foi o motivo de orgulho português, de uma modernidade setecentista que adequou Lisboa à sua condição de capital imperial. Muitos aqui pacificamente flanaram, enquanto outros, do alto dos seus cavalos, por ela passearam como conquistadores e dela logo saíram à pressa, como derrotados e efémeros invasores. O próprio arquitecto Speer, à cata de ideias para as faraónicas construções destinadas a um muito provisório Reich, por ela vagueou, confessando a sua admiração pela pureza das linhas, pela luz, grandeza da perspectiva e seca modéstia nos ornatos. Aqui deparou com essa sublime pobreza do supérfluo, confirmando a grandeza. A Baixa, foi o centro da atenção daquele Poder que tinha a perfeita consciência do cenário oferecido aos lisboetas e que impressionava quem numa galeota dourada – Eduardo VII, o poderoso kaiser Guilherme ou o president Loubet – desembarcava em visita oficial.
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Em plena Lapa?!


Com tanta gente chique da extrema-direita e do BE, com tantos bem falantes e pensantes devoradores de sushi que moram por aquelas redondezas… Este prédio situa-se na Lapa e como podem ver, não é feio. Está escandalosamente abandonado e esquecido. A CML lá deixa andar as coisas, neste caso, o cuidadoso Plano Director Municipal de Degradação. Depois, lá chegará a vez do camartelo e a construção de mais uma pocilga em betão e vidro, mas com garagem e jacuzzi no projecto. É só esperarmos um pouco mais.

Entretanto, na Gomes Freire…


Aqui está mais um edifício do tipo palacete, pronto para uma “intervenção” ao gosto do vereador Salgado (Manuel Sande). Em qualquer outra capital europeia, há muito teria sido intervencionado, recuperado e devolvido à paisagem urbana. Aqui e mercê dos bons ofícios da palafrenagem da Câmara Municipal de Lisboa, deverá aguardar pela demolição. Deve ser mais um ignóbil vestígio da “ominosa monarchia”. Elimine-se!

“Lisboa, gaiata, de chinela no pé, Lisboa, ladina, que feia ela é..!”

Coitado do Fontes Pereira de Melo!

Lembram-se desta casa, situada na esquina da Av. Fontes Pereira de Melo com a António Augusto de Aguiar? Já não existe. Em três dias, os prestimosos demolidores fizeram um rápido trabalho e onde durante um século existiu esta construção, está hoje mais um buraco. Os responsáveis? Os senhores da famosa e impune parceria António Costa, Manuel Sande Salgado e um Zé “que faz falta”, enfim, a trupe do costume.

Pertencerá a nova construção – mais uma porcaria, podemos apostar- ao tal Fundo Imobiliário de “Reconversão” Urbana do BES? Se assim for, teremos uma vez mais a dupla prima Salgado BES + Salgado CML. Percebem?

O costume.

O Saldanha em betão


O escabroso, atinge as raias do ridículo. Quando há mais de um ano foram colocados os conhecidos painéis camarários com o já clássico “projecto em avaliação”, pensei que o Saldanha decerto perderia mais um conjunto de edifícios construídos na passagem do séc. XIX para o séc. XX. Pelos vistos, não me enganei.
A somar-se ao abjecto “Monumental novo”, ao suburbano Atrium Saldanha e à ignóbil miséria que é o edifício riscado por Taveira, a Câmara Municipal de Lisboa prepara-se para mais uma intervenção digna de ser classificada como simples banditismo urbanístico. As duas fotos, valem a revolta.
No local destes dois prédios, erguer-se-á uma montanha de betão, feia, do traço mais vulgar que possamos imaginar e que se destina a ser um hotel ao estilo do horrível Sana, na Fontes Pereira de Melo. Pobre Fontes, se soubesse para que serve o seu nome! Mais a poente, no Largo do Rato, voltará à discussão o famoso projecto do “mamarracho da esquina”, obra ao estilo da Organisation Todt, digna das defesas alemãs na Normandia. É a completa, intencional e criminosa descaracterização da Lisboa do liberalismo. Não apresentarem tal feito como contributo à centenária, já é por si, uma originalidade. Ou será esquecimento?
Dinheiro, dinheiro, dinheiro, mais ignorância, mau gosto e estupidez. Que gente…

António Costa surpreende-nos positivamente

ANTÓNIO COSTA SURPREENDE-NOS POSITIVAMENTE
 
O gabinete de António Costa, Presidente da CML, vai mudar, durante dois anos, dos Paços do Concelho para o Largo do do Intendente.
A proposta, inovatória e inesperada,  foi aprovada na sessão da  passada  quarta-feira, embora o PCP,  um vereador eleito nas listas do PS e o vereador Sá Fernandes, tivessem votado contra esta proposta inclusiva. A notícia não mereceu relevo nos media, é natural, provoca pouca controvérsia e é positiva.
O objectivo desta medida  é a requalificação da zona , que vai passar, tal como a Almirante Reis, a estar sob video-vigilância, tema sobre o qual Costa avança algumas reservas, pois pode estar a estigmatizar-se  o Largo do Intendente.
Recorde-se que o largo deve o seu nome  ao facto de ali ter tido palácio e vivido o intendente Diogo Inácio de Pina Manique,1733-1803, que foi no tempo de D.Maria I, um antecessor de António Costa, na governação de Lisboa.
Pina Manique foi intendente geral da polícia, 1780, e nesse papel  perseguiu as ideias jacobinas, em voga na época, por causa da “perigosa” Revolução Francesa, mas foi também o promotor da iluminação pública da cidade, então às escuras, da célebre Casa Pia, para a protecção de menores, da construção do Teatro de S.Carlos e do que viria a ser a Direcçao Geral das Alfândegas, para cobrar impostos.
Um espirito  criativo e empreendedor  como convém à cidade.
O Largo do Intendente, de local sério, de prestígio  e seguro, devido ao seu ilustre morador, foi, com o tempo, degradando-se e tornando-se, paulatinamente, num local de prostituição barata, de consumo e tráfico de drogas, de ladroagem e outras vilanias. De exclusões e excluídos.
Os tempos de hoje já não são de perseguições, como no tempo de D.Maria. Pelo contrário, os poderes públicos actuais  estão atentos  ás inclusões sociais e é, nesse sentido, que navega este Presidente da Câmara, numa política de pequenos, mas decisivos passos.
 
Há dias, foi  a abertura dos edifícios camarários para oficiar casamentos civis. Hoje, é ele que muda os seus paços para integrar um zona central, desprestigiada, da sua cidade, nos passos da Cidadania.
Esperemos que não se fique por aqui, porque em Lisboa há ainda muito para fazer,no resto do seu mandato, pela inclusão das minorias! Mas vai no bom caminho. Siga em frente!
Tem luz verde!
 
António Serzedelo
 
 

O Décimo Túnel da Linha do Minho

Já circulam os comboios no 10º túnel da Linha do Minho e respectiva nova estação da Trofa. Abriu ontem.

O Xarajib de Silves

Santi Palacios

Uma visão das “Mil e Uma Noites”. foto Santi Palacios

“O palácio do Xarajibe, de Silves, foi, no Ocidente, uma autêntica visão das “Mil e uma Noites”. Cantaram-no os poetas com o mais alto requinte, adornaram-no os artistas com obras de estranho lavor, celebraram-no os historiadores, como encantadora residência principesca. Dessa harmonia chegam até nós os ecos apagados, num suave murmúrio…E o Xarajibe esplende, de novo, rebrilhando em vivos fulgores. Ficaram célebres as suas noites de festa e de música, de poesia e de dança, de encantamento sem par; as suas tardes suaves e mornas, de doces afagos, de reflexos violetas e de branda penumbra; os seus dias claros e ardentes de tragédia e de luta, em que os pátios e os mosaicos das salas se tingiram do sangue da vingança e do crime; as suas madrugadas de terrores, de suspeitas e de alucinações; as suas manhãs de iluminura, aureoladas pela esperança de novas e felizes alianças; as suas horas de fogo e de guerra, em que tudo se joga e tudo se ganha ou perde. Evocar o Xarajibe é evocar uma época, um estilo de vida _ a época e o estilo de vida dos luso-árabes.”

In “Atlântico” por José Garcia Domingues (DOMINGUES, 1997, pág. 155) [Read more…]