Pilar-José-Saramago

Eu gosto dos livros de Saramago. Regra geral: são bem escritos, imaginativos e bem estruturados. Têm, contudo, dois defeitos notáveis: são ideologicamente repetitivos e francamente pobres em imagens (simbólicas). Ou seja, quer os romances quer os ensaios de José Saramago não são eruditos e talvez seja esse um dos componentes principais da fórmula do seu sucesso. De resto a maioria das pessoas que disser que adora Saramago, pode ter lido antes a National Geographic, 2 Paulos Coelho e, eventualmente, António Lobo Antunes. Compará-lo a Jorge Luís Borges, por exemplo, – autor que o supera largamente em estilo, erudição e gramática – é inútil. Não se comparam estrelas de grandezas tão diferentes. Mesmo apesar de cada um ter tido uma fiel guardadora. Mas, e daí, também não se pode comparar a simplicidade de Maria Kodama, com a boçal extravagância de Pilar del Rio…

Um outro aspecto do seu sucesso foi ter ganho o Prémio Nobel, atribuído, não pelo valor da obra em si, como sabemos, mas pela ideologia do autor e das suas palavras. Saramago foi um cínico. Cínico dos cínicos, príncipe dos cínicos. Não acreditava em Deus, nem na virgem, nem nos anjos e santos, não acreditava nas religiões, mas acreditava menos ainda nos Homens, na humanidade em geral. Depois de ter sido nobelitado, tornou-se semi-deus no mundo e deus no seu país que entretanto tinha abandonado (juntamente com o português, que castelhanizou). Acreditava em si e na Pilar, às vezes.

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Ibn Battuta

Esta é a história de um homem que fez de viajar o seu modo de vida.

Berbere de origem, nasceu na cidade de Tânger no ano de 1304, no seio de uma família abastada.

Aos 21 anos de idade, ainda estudante de direito, parte para fazer a peregrinação a Meca e inicia uma aventura extraordinária.

Foi viajante, peregrino, explorador, embaixador, jurista, cortesão, conselheiro, geógrafo, escritor.

A sua experiência ficou registada na obra Rihla, “A Viagem”, precursora dos relatos de viagens (ou Rihlat) e tratados de geografia.

Durante os cerca de 30 anos em que viajou, Ibn Battuta percorreu mais de 120.000 Km pelos lugares mais longínquos e diversos, incluídos num território que hoje abarca 44 países, numa época em que a Terra era um mistério, as distâncias eram longas e viajar era uma aventura.

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Leonard Cohen, princípe nas Astúrias

um poeta que é músico ou um músico que é poeta

por quem me alegro

Rocío

E enquanto George Bailey corre a cidade em desespero, e Rocío se encolhe no sofá, reconfortada na sua tristeza, eu penso como seria o dia de hoje na rua Preciados se Rocío nunca tivesse nascido, se não houvesse esta tarde em que coincidimos nos grandes armazéns e eu a deixei fugir para sempre sem saber que a inventei.

ler nas cousas lindas que a Carla Romualdo continua a escrever.

Cartas a Sócrates – [9]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Quero que saibas, amor, que desta terra apenas levo um 
coração limpo e tenebroso; que a fome não corrompe o meu 
desejo (amor); que não sabendo amar, aprendi contigo a ver 
o mundo tão distinto, tão diferente: calmo, transparente, 
passando por mim, ao meu lado, passando por mim ( amor) – 
como tu. Como tu me abriste o coração que já só de rojo me 
obrigara a caminhar?!, sem nada ver, indiferente. Mas é 
tenebrosa a escuridão invadindo esse medo de te perder, apenas 
dentro de mim, ou de te ter a meu lado, amor.

Amor, quero que saibas, o meu pavor de nada saber, de nada 
saber dar, de não saber amar-te no teu desejo, na tua fome, na 
tua sede privando noutro caminho. Como sinto terror, amor. 
Quero que saibas, amor, que há muito, nesta terra, o meu 
coração é limpo e tenebroso.

Agora que já sabes, amor, é teu o poder de assombrar.

PS.: #ILoveSocrates Day by Day 🙂

Publicado no F-Se! 

Manuel António Pina é Prémio Camões

O poeta, ficcionista, dramaturgo, cronista e jornalista Manuel António Pina irá receber o 23º Prémio Camões. Apesar de ser autor de uma obra poética assinalável em quantidade e qualidade,  tornou-se mais conhecido, recentemente, na qualidade de cronista, graças à lucidez com que tem zurzido os portuguesinhos que poluem Portugal, sem nunca prescindir do rigor formal que só num cultor irrepreensível da língua se pode aliar a um sarcasmo certeiro e descontraído.

Muito provavelmente, Marinho e Pinto, o tonitruante Bastonário da Ordem dos Advogados, não dará os parabéns ao premiado, também ele um licenciado em Direito. Entretanto, a cultura portuguesa poderá continuar a usufruir do privilégio de ler uma voz que a engrandece. Em casa do autor, os gatos continuarão embalados pelo ciciar beirão que os trinta anos de Porto não apagaram.

Cartas a Sócrates – [8]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Se soubesse, amor, o caminho mais fácil, fugiria lamentando-
-me. Assim, amor, só me resta percorrer avidamente, sem
cansaço, esta via sinuosa, derrotando-me solidão ante solidão.
    
                                 
Se eu soubesse, amor, quando coincides, também, solidão, não
rejeitaria o caminho mais ágil.
     
Mas, no interior há uma prece aclamando: quão diferente
poderia suceder se soubesses, amor, combater esta forma
estranha de resistir distância dissuadindo-me no meu corpo,
transformando-me para outra vida evidenciar.

PS.: #ILoveSocrates Night & Day 🙂

Publicado no F-Se!

Cartas a Sócrates – [7]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Já não sinto nada, amor, para além da tua falta. Já nada nem 
ninguém, amor, me obriga a não esquecer a tua falta.

E tu, sem pressa, percorres em sossego todas as ruas, todas 
as cidades, todas as palavras sem monção alojada nos teus olhos, 
como eu amor, demolida por dentro, à tua beira quebrando 
interiormente, disfarçada de qualquer coisa para que de mim 
não sobre nada.

F-Se! #ILoveSocrates Ever 🙂

Cartas a Sócrates – [6]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Quando o tempo tiver passado, amor, excedendo-nos na sua

composição, talvez haja alguém que compreenda a negação

bastando-se, sem dúvida, sem hesitação.


E do meu pesar somente a vergonha me impede de não negar,

também, amor, este sentimento deslizando puro desejo de te 

afirmar (amor): minha doce enfermidade sem remédio, sem

pudor refreando o desassossego, o cuidado, a negação. 

PS.: #IloveSocrates Indeed 🙂

Cartas a Sócrates – [5]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Temor, amor, é o que sinto despojada de ti, é não saber de que são feitas as tuas lágrimas ou se choras ou em que pensas quando adormeces ou se ris quando estás só.

 Temor, amor, é tudo o que desconheço e o que desconheço, bem sabes, és também tu (amor).

Amor, se eu te conhecesse, conheceria também os teus segredos, os teus anseios, os teus receios, um mundo só teu devastado – não, não é importante conhecer, nem conhecer-te para saber que o mundo e tu são admiravelmente mais belos e desejáveis: desconhecidos, adivinháveis.

PS.: #ILoveSocrates deeply 🙂

Publicado no F-Se! 


Cartas a Sócrates – [4]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Sei apenas, amor, que o tempo pára imóvel e o espaço abre em lume a tua presença, quando – só – amor, espero esse lume, nada mais.

Mas, é com um cuidado atento que desço uma máscara, amor, indiferente, enquanto a vida cresce subitamente mais plena e alimenta a sede de apenas diante de ti ser, também, esse lume.

E não é raro – obrigada –, amor, ter de desviar os olhos ou inclinar o corpo para longe.

Como queima esse lume?! E como irrompe graciosa a vida nesse lume interiormente, dentro, cada vez mais fundo removendo a escuridão e o terror, amor.

E tu? amor – bem sabes que não espero nada, nada mais, e que nada tenho senão o lume.

PS.: #ILoveSocrates much more 🙂

Publicado no F-Se! 

Cartas a Sócrates – [3]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Acordo, amor, sem urgência para que a noite caia novamente.
E o dia começa a doer enquanto aguardo impotente que passes
desprendido e dos teus lábios a voz se forme som disparado de
encontro a mim, amor.
Aí, amor, um novo acordar eclode iluminando o obscuro receio
de já não me reconheceres ou de que me comeces a amar,
também, obscuramente, desastrado e débil, amor, face aos
momentos sem distância separando-nos.
E delicadamente revisitados (amor), esses momentos, seriam
adormecidos sem urgência de acordar dolentemente para um
novo dia em que aguardarias que passasse e a minha voz
formasse nos meus lábios um som disparado de encontro a ti
amor, iluminando-te, sem precipitação e sem receio.

PS.: #IloveSocrates 🙂

Publicado no F-Se! 

Cartas a Sócrates – [2]; As Minhas Cartas São Mais Bo-ni-tas que as de Catroga :)

Quando saio, amor, à tua procura, é um mundo visivelmente
 novo que anseio. (Só tu me retiras do meu recolhimento e me
abres secretamente o desconhecido.). Saio todos os dias e todas
as noites, amor, sabendo que não me procuras, que não sentes a
privação nos meus gestos desastrados e incorruptos: à tua
procura. Não pressentes a minha voz, amor, somente delicada
para ti? Não, não reparas nem ouves os meus apelos
definhando tímidos, enfraquecendo à tua mercê, amor? Porque
não me procuras, amor?, eu que me abandonei e abandono
todos os dias e todas as noites para te encontrar diante de mim
abandonado à minha procura, procurando, procurando
inevitáveis amor.
Porquê amor? É forçoso que esta procura seja apenas

docemente desesperada e perdida enquanto saio todos os dias e
todas as noites não sabendo nunca que mundo desconhecido
anseias? Porquê, amor, desconheço?


PS.: #ILoveSocrates + 🙂

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O viúvo alegre – fantasia barroca

A Viúva Alegre, de Franz Léhar

Narra a ópera A Viúva-alegre, a história de uma mulher que, para não sentir pena pelas tristezas da vida, se diverte: pinta-se, as suas roupas são coloridas, ama sem parar nem dar por isso ou propositadamente. Como as suas roupas, os seus amores são de sentimentos trepidantes e usa a artimanha do barulho para chamar a atenção. Conforme a sociedade manda devia estar vestida de preto, a cor do martírio do luto, a quem falece um marido amado. A ópera tem um autor, Franz Lehár (Komárno, 30 de Abril de 1870Bad Ischl, 24 de Outubro de 1948) foi um compositor austríaco de ascendência húngara, conhecido principalmente por suas operetas. Ele foi um dos maiores compositores da Áustria.

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Como Se Fora Um Conto – O Dia da Minha Mamã

De mão dada, passinhos curtos como convém, lá passeamos pelo jardim que ladeia a avenida,

a minha mamã e eu.

Não a minha mãe como agora se usa.

Fui habituado a trata-la por mamã. Nessa altura, a da minha juventude e aprendizagem da vida, de entre as minhas relações só dois dos meus amigos tratavam as respectivas mães por mãe.

“Ó mãe … “, diziam, e essa maneira de as tratarem fazia-me impressão. Parecia-me duro, ainda hoje me parece de uma excessiva dureza, ou melhor dito de uma excessiva falta de doçura. Mas aceitava, claro, como hoje aceito, embora hoje tudo seja diferente e esse tratamento se tenha banalizado.

Para mim, no entanto, eles eram diferentes de nós, conquanto amigos até hoje. Até no restante das suas maneiras de falar eu notava diferenças. Tinham uma pronúncia diversa da minha e tudo. Tinham nascido lá mais para o sul do País. Um era ribatejano, do meio dos cavalos e dos touros, e outro beirão, do sopé da serra grande. De qualquer modo o chamar a nossa mãe por mãe estendeu-se a todo o País e hoje, chama-la por mamã, quase não é “bem”. É lamechas, démodé, velho, antigo, diferente.

Não para mim. Para mim a minha mamã será sempre

a minha mamã. [Read more…]

o saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade (IV – Bibliografia)

Beethoven Eroica Variations, op 35

Bibliografia: [Read more…]

a descontinuidade entre a oralidade e a escrita na aprendizagem

CPE Bach. Cello Concerto

A DESCONTINUIDADE ENTRE A ESCRITA E A ORALIDADE NA APRENDIZAGEM *

Raúl Iturra

1. O OBJECTO DO PROCESSO EDUCATIVO

a) O Problema

Dizia já Durkheim (1922) que educar envolvia uma geração de adultos que sabe, outra de jovens que aprende e um processo entre eles. É este processo que é problemático: os conteúdos e as formas em que acontece definem-se conforme conjunturas que dão os limites do que se ensina e como se ensina. As variadas formas de ensinar que acontecem de cultura para cultura., bem corno dentro de uma sociedade em épocas históricas diferentes, são urna prova da proposta anterior. Mas, talvez, o que é variável no processo educativo é o seu próprio objecto e o entendimento dele por parte de geração de adultos e da geração de jovens. Uma sociedade jamais é homogénea, embora o processo educativo tenha por objectivo homogeneizar em algumas delas; as sociedades, pode talvez dizer-se, pensam que numa altura da vida dos seus jovens podem pô-los todos no mesmo nível do saber, enquanto noutras especializam-nos segundo as funções que definem o sistema classificatório das pessoas. [Read more…]

ser escritor

para ser escitor a disciplina é a base do que se quer dizer em palavras

…para o meu amigo Carlos Loures… 

Parece-me que as pessoas pensam que ser escritor é a alegria da vida. Sentar-se numa cadeira ora com caneta e papel, ora com máquina de escrever ou, ainda, com um computador. Pode ser escritor quem viva da sua obra literária, ou escrevedor, quem escreve mal, verbo que roubo ao meu amigo e colega da Universidade de Cambridge, Jorge ou Mario Vargas Llosa.

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Vento preso à cidade

(adão cruz)
A noite passou já as estrelas se apagaram novo sol não tarda já doura o fio dos montes e o fantasma é um lençol no meio do chão porque eu sou o vencedor de todos os fantasmas.

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Fialho de Almeida – centenário da morte

Há cem anos, morria um escritor que poderia ter sido ainda maior: Fialho de Almeida. De comum com Eça tinha o dom da observação social, embora preferisse retratar o povo, enquanto a escrita queirosiana se debruçou mais sobre a burguesia. De resto, Fialho não se preocupava com finuras e aquilo que em Eça podia ser um véu eufemístico, em Fialho era crueza. Se aquele escandalizou pelos temas, este não hesitou em fazer passar a língua portuguesa pela sarjeta, especialmente em Os Gatos, a sua obra mais conhecida. Aqui, é possível ler uma belíssima biografia do autor.

À laia de homenagem, fica um dos meus excertos preferidos, retirado da compilação felina: “O violoncelista Sérgio num café da Mouraria”: [Read more…]

Conversa com a ARTE

(adão cruz)

Talvez tenhas dado por mim mas não quiseste mostrar. Ajoelhei meus passos no teu caminho e tu não viste. Sempre tiveste duas pedras brancas nos olhos e cego é o meu coração.

De mármore era o meu  rosto naquela manhã, sempre foi de mármore o teu rosto em todas as manhãs! Parte-me o peito a amargura, sempre que toda tu és apenas figura, retórica figura! [Read more…]

Chuva da minha nuvem

(adão cruz)

Chuva da minha nuvem água da minha sede…

Com treze anos ou vinte somos a forma sublime uma espécie de sal e água.

Não somos a dimensão da vida mas criamos salinas nas margens do espaço.

O espaço era verde o espaço era verdade e a dimensão acertou o passo pelos passos da idade quando a idade nos diz que não há margens no espaço nem salinas de verdade.

Luiz Vaz de Camões, de mistério em mistério

o poeta dos poetas portuguezes, historiador, feitos de armas

Referir a vida da Luiz Vaz de Camões, é reiterar o que em Portugal e vários outros sítios do mundo, é já conhecido. Quer na Europa, nas antigas possessões portuguesas na África, na hoje América Latina, na Índia, especialmente Goa, sítio importante da Índia, passando por Macau e por Ceuta. Não era apenas um poeta, que descobrira outras terras que inspiraram os seus textos e exaltaram a sua imaginação; não era apenas um soldado que entendeu ao ser humano após ter conhecido tantos e de tão diversas espécies, era, antes de nada, quem inventara, como descoberta, aos portugueses, denominados lusitanos na sua época. Época final do romantismo europeu.

A Península Ibérica era a sua Pátria, não apenas Lusitânia, como era denominado Portugal no Século XVI e que ele, como sabemos, imortalizara na sua grande obra, escrita em 1571 e publicada em 1572 com o apoio do seu mentor desse

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No céu de lusco-fusco

No céu de lusco-fusco

No céu de lusco-fusco eras a luz do sonho e do infinito anoitecer chuvoso com cheiro a terra molhada

eras a fragrância dos campos no suspiro de um violino à sombra da figueira nos primeiros chuviscos do verão

eras a luz da tarde tombada num ramo de flores colhidas ao fim do dia

eras o gesto de quem diz que os braços se enlaçam para aquecer o coração frio

eras a fome e a sede que o êxtase celeste inspira sob um tecto de magnólias

eras o veludo do orvalho nas lágrimas da noite pura ao romper da madrugada

eras tudo… e nada.

Aqui me detenho

(adão cruz)

Aqui me detenho nesta pedra que sentámos no dia das canções antigas lembrando a canção que não cantámos

aqui me sento frente ao mar de coração vestido com as folhas secas do desejo

olhos dentro dos olhos que não tenho na profundidade do céu que nunca vimos.

O mar não fala do passado em seu imenso painel de séculos e o sol diz-me adeus com sua mão de violeta na paisagem que não vimos.

Mesmo assim quero demorar-me na partida acariciando o tempo no sensual enrolar das ondas que explodem orgasmos eternos nas rochas nuas

quero sentir a meus pés esta manhã de lábios doces sorrindo com olhos de donzela

quero enxugar neste sol do meio-dia as lágrimas das palavras não ditas no silêncio dos caminhos.

Deste-me o mar que nunca tive e pensei outrora vê-lo aqui mas não posso ter o que não perdi nem mudar o crepúsculo pela aurora.

Obrigado Julio Verne

Jules_Verne_autograph Diz-me o google que o escritor e anarquista Julio Verne nasceu a 8 de Fevereiro de 1828 (183 anos não é número redondo? obrigado Google por combateres os redondismos).

Verne é conhecido como autor de novelas de ficção-científica para a juventude, versão limitadora do que foi a sua capacidade de sonhar um mundo melhor. Verne foi crítico do militarismo e da guerra, um senhor na boa e velha tradição anarquista do séc. XIX, tanto ou mais profeta na necessidade de mudança social como na sua extraordinária pontaria para imaginar máquinas, viagens e aventuras.

Devorei Verne quando ele sabe melhor, na adolescência, mas consumi em doses homeopáticas a ficção científica que poucas vezes me aqueceu. Com Salgari, outro humanista muito à frente no seu tempo, discretamente a literatura politizada tomava conta de muitas juventudes.

Obrigado Julio Verne, quem nunca sonhou ser um Capitão Nemo não percebe nada disto.

A vi e morri por ela – texto romântico

A minha Dama das Camélias

Era uma Violeta, era uma Camila, era a namorada de Alexandre Dumas filho, era a segunda mulher de Giuseppe Verdi, essa soprano da qual ele, casado e com filhos, o libertador da Itália dos Borbon Orleáns, o Deputado por aclamação, foi seduzido.

Uma Violeta de La Traviata, escrita pelo nosso jovem galã, apenas pode ser um ser divinos, de riso alegre, de alegria pela vida, sem medo da confrontar, com as suas duas mãos esticadas, as penas e as alegrias do amor, ou o endividamento, a poupança, saber usar os artefactos informáticos com uma habilidade nunca antes conhecida para um amador. Os técnicos têm os seus estudos, a sua preparação, estão obrigados a resolver a nossa ignorância informática, a saber endireitar o que nós nada sabemos para poder escrever. Como acontece comigo cada dia que escrevo e não sei esticar o uso do artefacto sob os meus dedos. Ela foi formada por mim na minha ciência, era a minha companheira de caminhadas, sabe gritar quando fica impaciente e gritar alto, com zangam mas com feitio. Uma dama, uma senhora.

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Albano Martins

Como toda a gente sabe, Albano Martins é um grande poeta, reconhecido nacional e internacionalmente, tendo realizado também magníficas traduções de poesia grega, italiana, sul-americana e espanhola. Licenciado em Filologia Clássica, é professor na Universidade Fernando Pessoa. Tem poemas seus traduzidos em espanhol, francês, inglês, italiano, chinês e japonês.

Foi galardoado pela República Chilena com o prémio “Diploma da Ordem de Mérito Docente e Cultural Gabriela Mistral ”, no grau de Grande Oficial. Este galardão chileno, considerado o Nobel da América Latina, foi entregue pelo Embaixador do Chile em cerimónia realizada na Universidade Fernando Pessoa, cerimónia organizada pelo Centro de Estudos latino-americanos, a que tive a honra de assistir. [Read more…]

Miguel Sousa Tavares e a luz de Sophia: o lado bom da Força

Doação do espólio de Sophia de Mello Breyner à Biblioteca Nacional

Miguel Sousa Tavares faz-me lembrar Luke Skywalker, pois também dentro dele convivem o lado bom e o lado negro da Força. Tendo como ponto comum a frontalidade, há um Miguel Sousa Tavares inteligente e sensível, o mesmo que dirigiu a Grande Reportagem, por exemplo, e um outro que escreve e fala com a clava de um troglodita, quando defende o seu clube (é uma espécie de Leonor Pinhão de calças, pronto), quando ataca os professores ou quando argumenta com o volume de vendas dos seus livros como prova da qualidade dos mesmos. Hoje, tive o grato prazer de reencontrar o melhor Sousa Tavares: na companhia das irmãs, fez a doação do espólio da mãe, Sophia de Mello Breyner, à Biblioteca Nacional. Trata-se de um gesto absolutamente grandioso, de uma generosidade tão absoluta que só pode ser apanágio de pessoas que estão acima do portuguesinho egoísta, para quem a posse é um direito e a partilha é impensável. Vale a pena ler esta reportagem e apreciar as palavras de Miguel Sousa Tavares, com direito a brinde: uma história engraçadíssima que inclui Azeredo Perdigão, Sophia e dois patos.

A maior Biblioteca Digital de língua portuguesa em risco de fechar

O site Domínio Público é a maior bilioteca digital de língua portuguesa. Constituída, como o nome indica, por obras cujos direitos de autor caíram já no domínio público ou foram autorizadas pelos criadores a integrá-la, a bilioteca foi lançada em 2004 com o propósito de colocar

à disposição de todos os usuários da rede mundial de computadores – Internet – uma biblioteca virtual que deverá se constituir em referência para professores, alunos, pesquisadores e para a população em geral.

e ainda

promover o amplo acesso às obras literárias, artísticas e científicas (na forma de textos, sons, imagens e vídeos)

Criado por iniciativa do ministério de educação do Brasil, o projecto corre o risco de encerrar por falta de procura. [Read more…]