Por uma boa causa:
Aljamía
O baptismo das mouriscas. Baixo-relevo do altar-mor da Capela Real de Granada
Durante o período da conquista cristã do Al-Andalus surge um grupo social denominado Mudéjares, designação proveniente do Árabe Mudajjan ou Domesticados, constituído pelos muçulmanos que conservam a sua religião mas que, progressivamente, adoptam os hábitos e a língua dos cristãos. Nas cidades perdem o direito a viver nos núcleos muralhados, sendo transferidos para os arrabaldes, para bairros que tomam o nome de Mourarias. São tratados como cidadãos de segunda, apesar de lhes ser reconhecida a sua identidade cultural e religiosa.
No século XVI os Mudéjares são forçados à conversão ao Cristianismo, e à adopção obrigatória da língua e costumes dos cristãos, incluindo a forma de vestir, passando a ser denominados Mouriscos. Muitos aceitam a conversão forçada, não por fé no Cristianismo, mas apenas para poderem viver na sua terra e manter os seus bens, já que a não conversão obrigava à sua expulsão da Península Ibérica. Convertem-se, mas apenas na aparência, já que mantêm a sua fé no Islão, os seus hábitos e costumes. [Read more…]
Yo, María del Totoral – 2
a casa de adobe é casa de pobre, o que María del Totoral não queria
(Continuación del encerto anterior)
Como dice Melanie Klein (1948) 1957, en su ensayo Envidia e Gratitud, Imago, Brasil. No es extraño, sin embargo, que esos pequeños busquen el amparo de sus adultos. Adultos que saben decir, para el pequeño, lo que debe ser hecho en definitivo, como difícil es para ellos tomar una decisión en relación a otros adultos y, especialmente a los m. Una situación difícil para una infante, [Read more…]
Yo, Maria del Totoral. Ensayo de etnopsicologia de la infáncia
casas de adobe usadas en la éreas rurales de Chile e de América Latina
Escribí este libro en la parte más pesada de esas enfermedades que matan.
Mi suerte fue que el Ministro de la Ciencia, Tecnologia y Eseñanza Superior y mi antigua alumna, hoy compañera, Maria de Graça Pimentel Lemos, me llevaron a los mejores médicos. Parte de mi terapia para librarme de la muerte, fue escribir. Éste es el primero que escribí en 2007 y entregare por capítulos en Aventar. Una parte; la otra, corresponde a mi hermana analista, Blanquita Iturra de quien nació la idea para curarme, completar en breve. Agradezco a todos los que se interesaran por mí, me visitaron, me enviaran bouquet de flores y me acompañaran en los tristes días que apenas podía mover el cuerpo par air de la cama a ésta silla. Pero la persistencia siempre gana la causa que es nuestro objetivo. Vamos al libro…
I love you, you pay my rent: comentários sobre a banalidade.
Sabe Deus o que me custa comentar notícias em cima do joelho. Bem sei que o ferro deve malhar-se enquanto está quente, mas eu, apesar de descender desta ilustre cepa de oficiais mecânicos, não aspiro, hoje, às artes da ferragem. Por isso, dispenso correr para cronicar sobre factos que a comunicação social atira à cara dos leitores, à espera que o barro pegue e seque.
As presidenciais são assunto que não interessa. Já o disse aqui. De resto não há grande assunto para falar. Os candidatos podem prometer (e prometem) mundos e fundos. Mas a única coisa que farão será cortar fitas, fazer discursos bonitos e limitar-se a cumprir a constituição. Dissolver o Parlamento? Para quê? Isso são resquícios de um anti-parlamentarismo que não combina com a ideia constitucional. Ao contrário do que diz o senhor Cavaco Silva, que faz homem do povo, ele não é a aduela no arco institucional da república, nem a sua figura moderadora. O senhor Cavaco Silva é uma criação ideológica. Foi primeiro ministro, conhece muito bem o Estado e pertence ao aparelho partidário do PSD. É um hábil manipulador por detrás daquela imagem de wannabe-salazar, filho do gasolineiro de Boliqueime, pobre e honrado, como o de Santa Comba Dão que o país tanto amou, durante tanto tempo. [Read more…]
Crónicas das Golden Showers Californianas dos anos 70 revisitados, na baía do Sado-Setúbal (1)
Por MARQUESA DO SADO
Olá carissimos. Se não se importarem, o meu bom nome dá-se por «Marquesa do Sado» ali para os lados de Setúbal… A família é tudo o que de mais sagrado tenho na vida. Mas tenho também um passado que me levou a este bem que não quero deixar nunca. Uma Primavera amarela no seio da qual me aqueço.
Nestas minhas crónicas o único insulto que não aceito é que tenham a ousadia de encontrar em mim uma mulher vulgar no pior dos sentidos, ou ainda pior que isso, que serei algo abjecto e execrável como algumas que andam por aí, naquela tentativa de putear a linguagem, aplicada a uma postura mais foleira que uma felação de joelhos sujos. Por isso, qualquer coincidência com alguma frase dessas pobres iscas de bacalhau de tasca mal amanhada, desse júbilo labial que só serve para nos envergonhar, a nós mulheres de aço, é mesmo uma coincidência de merda. Ou melhor, uma merdosa coincidência! [Read more…]
A minha amiga da onça (2)
Tenho conversado muito com os meus amigos Jean-Pierre Changeux, Thomas Insel e António Damásio grandes cientistas das novas interrogações. Também Jean-Pierre se apaixonou pela arte, também ele caiu nas suas mãos traiçoeiras. Mas não se meteu propriamente com ela, foi mais esperto. Não se deixou levar pela tentação do seu corpo nem pelo calor das suas tintas, não tentou penetrá-la e possuí-la de forma séria, profunda e infinita, agarrando-a pelo sexo numa cumplicidade de tragédia. Deixou-se embevecer e atrair pela sua beleza, é certo, mas dentro de uma espécie de amor platónico, não ousando tocá-la, talvez por imposição profissional, talvez por medo, talvez por pudor. Daí o ter-se preocupado, essencialmente, com a razão estética e com a força ontológica da criação. Provavelmente, por isso, nunca lhe fora apresentada a amiga frustração, tendo-se livrado, assim, quem sabe, do valente frete que constitui a obscura consciência da inferioridade e da falsamente compensadora necessidade de uma indignada afirmação de si próprio.
A minha amiga da onça (1)

(adão cruz – pormenor)
A conversa que deveria ser com a minha amiga da onça não o é. Desta vez não quero nada, directamente, com ela. Não é que esteja zangado, mas um tanto irritado. Não quero falar com ela mas quero falar dela, ainda que me digam que é má-língua. Ouçam-me, meus caros amigos. Ouçam-me com atenção, pois a vossa compreensão é fundamental para o nosso mútuo entendimento. É com os verdadeiros amigos, independentemente do prazer e da emoção, que a nossa dialógica tarefa se pode aproximar da psicologia cognitivista contemporânea.
Eu sei que nunca pensara apaixonar-me desta forma! Lá erótica é ela! Lança as feromonas no ar, hoje e através dos séculos, e depois nada promete, nada garante e tudo atraiçoa. Tantas foram as emboscadas com que me saiu ao caminho que eu, ainda hoje, vivo aterrorizado com a hipótese de ter sido, e de ser ainda, um monte de contradições. Uma análise mais profunda e uma autocrítica mais racional parecem, finalmente, começar a libertar-me desse pesadelo. Para isso muito contribuiram os meus encontros com filósofos como Jean Pierre Changeux, Umberto Eco, Wassily Kandinsky, Alain Prochiantz, Dino Formagio, Ernst Kris, Otto Kurz, Omar Calabrese, Ortega y Gasset, Vicente Jarque e Arthur Danto, entre outros, que me ajudaram a fugir dos campos de concentração do espírito e dos gigantescos congeladores de ideias
escritores chilenos – Eduardo Barrios

os livros de este autor ensinaram-me o que eu ainda não sabia
Eduardo Barrios na sua juventude de trinta anos, 1914
Pouco ou quase nada se sabe dos escritores chilenos. Mencionam-se Pablo Neruda, Gabriela Mistral e acabou, como se no Chile não houvesse mais escritores, pessoas dedicadas às letras para compensar essa distância entre as metrópoles da escrita. É um país tão longínquo, tão austral, que as dificuldades de sair são compensadas por romances a partir de leituras feitas em casa, com muita imaginação sobre o que acontece na terra, especialmente narrativas sobre as famílias, descritas com eloquência e [Read more…]
saber dar aulas

a dificuldade do diálogo entre idades diferentes: as aula
Ao longo dos anos, tenho tido a experiência que dar aulas é um diálogo entre pessoas desiguais, que pensam e falam línguas diferentes, em idades e tempos diferentes. Enquanto a criança cresce, o docente também, até envelhecer.
Dar aulas é uma arte. Ainda que pareça simples, a parte mais complexa é ensinar as primeiras letras. As denominadas primeiras letras são as aprendidas cedo na vida, para os que podem ir às aulas, ou aprendem em casa onde se lê. São as palavras que abrem o mundo a um saber mais amplo e completamente alheio às formas de vida doméstica. A criança que começa a sua leitura em casa fá-lo pelo incentivo dos seus adultos que com o A, B ,C, vão soletrando o texto, com a intenção de que, juntando as palavras, elas têm um significado. A parte mais difícil de ensinar, é juntar as letras com significado. Eu diria que a parte mais difícil para um professor, pai, mãe ou irmãos mais velhos que ensinam, é dar um significado a todas as letras juntas. A título de exemplo, quando eu tinha quinze anos, quis dar uma mão aos filhos/as do operariado do meu [Read more…]
escritores chilenos – mi Gabriela Mistral

a poetisa a receber o Prémio Nobeldo Rei Sueco Gustavo Adolfo
Gabriela Mistral, 1954, ano em que a conheci, Valparaíso, Chile
O título tem razão de ser, porque a conheci quando eu era pequeno e, desde logo, a admirei. Conhecia a sua poesia, romântica e combativa. Gabriela Mistral[1] era a leitura obrigatória da minha mãe, que gostava mais de ler que de comer. Essa devoção levou-me em curto espaço de tempo a ler a poetisa. Mal se conhecia a sua obra no Chile, apenas os Sonetos da Morte, escritos em 1914, poema com que ganhara os Jogos Florais de Santiago. Não se apresentou a receber o prémio. Tinha escrito esses versos em memória do seu grande amor, Romélio Ureta, homem fino, com quem namorou, abandonando o seu prometido Alfredo Videla, ambos maestros na escola La Cantera, da cidade de Vicuña. Gabriela Mistral era maestra de crianças e foi sobre elas que começou a escrever. [Read more…]
Como Se Fora Um Conto – O Menino e o Papagaio de Papel I
A vontade comandava-lhe o sonho e este regia-lhe a vida, que nunca fora fácil nem doce nem bonita, e enquanto pensava olhava a sua mão frágil que com a guita bem esticada segurava o papagaio voador que bem lá no alto rodopiava sem parar, olhava para cima e pensava em como gostaria de se ver lá em cima, ouvindo o ruído suave do vento, um ou outro pio de uma qualquer companheira de viagem e vendo tudo na sua real dimensão, tudo pequenino, muito pequenino, quais formiguinhas na sua labuta diária, mas não era assim, as coisas tinham o tamanho que tinham, e como que para lhe provar isso, de vez em quando o vento soprava mais forte e ele quase não conseguia segurar o cordel que lhe magoava as mãos, ora uma ora outra, que se iam revezando no esforço, com a mestria a que já estava habituado, que sempre assim fora toda a vida, sempre tivera que lutar para ter alguma coisa e a luta por vezes era renhida embora fosse bom chegar ao fim e ganhar, não como desta vez em que se sentia perdido e tonto, sozinho com o papagaio pela primeira vez, que quase não conseguira pô-lo no ar, e era domingo como das outras vezes, mas ao contrário dessas estava só, com uma lágrima por companhia.
escritores chilenos – Pablo Neruda
Foi um acaso, o que se diz normalmente, uma casualidade. Tinha eu quinze anos, el deve ter tido uma idade indefinida, mas eram já os tempos da sua idade indefinida. [1] Os poetas não têm idade vivem a vida a dar saltos entre a realidade transformada em realidade en verso. Éramos vizinhos de uma das sua três casas, a de Valparaíso o La Sebastiana. Conhecemos, na nossa lua-de-mel, a minha noiva, agora esposa, a primeira que fez no Chile: Isla Negra. Não era, de facto uma ilha, era uma quinta que ficava ao pé da casa dos nossos amores, em Algarrobo, praia balnear perto de Valparaiso. Neruda não conseguia viver sem ver o amor. Entrar na Sebastiana com a minha mãe, foi uma delícia: via-se, como era da nossa vizinha casa, toda a Baia do porto e, com essa fantasia contagiante, além-mar. Sua única habitação na cidade, era La
Como Se Fora Um Conto – O Natal e o meu dia de Reis
Durante muitos anos, nos meus tempos de ganapo e mais tarde de adolescente, a noite de 5 de Janeiro era uma perfeita e completa chatice.
Meu pai, não dispensava ao jantar, o bacalhau e as batatas e as couves e o polvo cozidos, e o vinho tinto (que eu não podia beber por causa da idade, só a água me era permitida) e o pão e os doces (que eu detestava) e mais nada! Em tudo igualzinho aos jantares do dia 24 e do dia 31 de Dezembro. Chamava-lhes a consoada de Natal, de Fim de Ano e de Reis. O problema era que tal como a consoada do dia 31, esta não tinha as prendas do Menino Jesus no sapatinho, e para além disso e também ao contrário desta e da do dia 24, não era feriado no dia seguinte. [Read more…]
Escritores do Chile – Volodia Telteibom
José Donoso: Volodia Teitelbom (17 de Março de1916 - 31 de Janeiro de 2008)
Há um escritor chileno, Jorge Marchant Lazcano, que teve a coragem de dizer: tengo poca opinión – o casi ninguna – sobre la actual literatura chilena, porque al pasar tanto tiempo fuera de Chile, en estos últimos años, he reducido mis lecturas nacionales. De cualquier forma, y aunque parezca una majadería, sigo creyendo que lo mejor de nuestras letras en el siglo XX ha sido José Donoso. Ningún otro escritor chileno supo captar la chilenidad desde tantos puntos de vista y convertir aquello en una profunda y dolorosa materia humana.
Escritor, dramaturgo e periodista chileno (9 de Março de 1950), a sua obra, vasta e articulada, virada mais para a política da direita chilena, mudou de rumo ao começar os seus estudos de jornalismo na Universidade do Chile em 1969. Filho de Jorge Marchant Montalva e María Ester Lazcano Cuevas, teve uma educação religiosa, conservadora e bastante formal, da qual se desligou, parcialmente, aquando do ingressar na faculdade. [Read more…]
Isabel Allende Llona, afamada escritora chilena
para que os meus netos britânicos e neerlandeses saibam a nossa origem por parte da mãe
Isabel Allende Llona (Lima, 2 de Agosto de 1942) é uma jornalista e escritora chilena (apesar de ter nascido em Lima, sua família logo voltou para o Chile, sua terra natal) actualmente radicada nos Estados Unidos da América.
Filha de Tomás Allende, funcionário diplomático e primo irmão de Salvador Allende, e de Francisca Llona. Isabel é considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Sua obra é marcada pela ditadura no Chile, implantada com o golpe militar que em 1973 derrubou o governo do primo de seu pai, o presidente Salvador Allende (1908-1973).
Não é por ser Allende que refiro esta escritora, nem por ser chilena, essas nacionalidades de ser ou não ser. Como a minha: tenho acumulado tantas, como os países que tenho vivido. Como é evidente, não há ponto de comparação. Eu sou escritor, mas escrevo livros científicos, que vou amenizando com histórias de vida dos meus analisados. Isabel faz ao contrário: organiza a trama do seu romance e, a seguir, procura as provas. Como fez com o seu primeiro livro. Foi escrito en terras estrangeiras, no Peru. Em nesse livro, ou no meu [Read more…]
para Elisa

pensei seria Elisa, por Beethoven; acabou por ser May Malen, pelos pais
Os leitores queiram desculpar, mas volto a falar de netos, como há tempos no artigo que dediquei ao meu amigo fraterno, Daniel Sampaio. O motivo é simples, a vida é um eterno retorno. Não um retorno de uma alma[i] que vai embora e torna a aparecer noutro corpo, como acreditam muitas pessoas, especialmente os Kiriwina da Nova Guiné[ii]. Para os que acreditam em almas, é evidente.
Vidas por um fio

(adão cruz)
Que bem estava assim de papo para o ar quando minha mãe entrou no quarto e me disse:
– Meu filho, está lá fora o Virgolino caçoilo e pede encarecidamente que vás ver o seu filho que está a morrer.
Eu havia chegado nesse momento a Vale de Cambra para um fim-de-semana, vindo do quartel militar da Amadora onde aguardava o meu embarque para a Guiné. Estava cansado porque os trezentos quilómetros da altura não eram os de hoje. [Read more…]
Como Se Fora Um Conto – A Mercearia do Sr. Janeira
Dia a dia dou por mim a beber a minha cidade, sem sofreguidão, saboreando cada momento, cada pessoa, cada rua, cada viela, avenida ou alameda.
Aprecio o sol coado pela suave bruma, engulo com satisfação os ditos, os palavrões, a calma do senhor que está sentado num banco de jardim a ler o jornal, ou a senhora atarefada que com o saco meio cheio vem da mercearia.
Com muito vagar, sinto o tempo a passar pelo meu corpo, andando para trás, e revejo a vida da minha rua na altura em que eu era pouco mais que adolescente e olhava tudo e todos, julgando que os não via.
Na minha rua havia de tudo, gente de todas as classes sociais e lojas e fábricas e tudo. Era uma rua muito completa e variada. [Read more…]
A ilusão de sermos pais – Notas e Bibliografia

a infância dura um dia, metadóricamente falando
Retirado do meu livro de 2008: A ilusão de sermos pais, aqui e aqui.
A política do aventar de publicar apenas um texto por autor por dia, fez ruir o meu projecto de entregar cada dia um texto do meu livro A ilusão de sermos pais. No entanto, tem me sido oferecido pelos Senhores gestores publicar o derradeiro capítulo que complementa a todos os anteriores. Este são 1.Prelição, 2. Introdução, 3. A materialidade dos afectos, 4. O real dos pais. 5. A ilusão de sermos pais, 6. Fala que não entende, 7. O Pequeno Pecador. 8. Bibliografia e notas de rodapé, que é este poste. [Read more…]
Poema grande da noite mais triste

(adão cruz)
(Parido no recente aniversário de Herberto Helder)
Foi a noite mais triste
a mais negra noite mais triste do que todas as sombras
mais triste do que a noite de Orfeu
mais triste do que a sombra dos coqueiros sem lua
mais negra do que o mergulho do tarrafe nas águas fundas do Cacheu.
O homem honesto vítima de esconso agravo sozinho na noite
sem força sem amor sem atitudes
enrolou-se na torrente de lágrimas e não dormiu as longas horas dessa noite
tudo se tinha rasgado o sol a lua a paisagem os rios os braços e o sonho
em tiras de trapos que à toa foi enfiando nos sacos de lixo
sozinho na noite sem que uma espada refulgisse em suas mãos
impondo a fronte e a palavra no renascer do horizonte. [Read more…]
Como Se Fora Um Conto – As Francesinhas na Revolução Francesa
I
Vivia-se no ano da graça de 1809 e o mês de Junho.
Soult, General e mais tarde Marechal, regressava a casa triste, acabrunhado e abalado com a derrota. A bem da verdade não tinham sido os Portugueses a vencê-lo, tinham sido os Ingleses, mas isso era ainda uma desonra maior. Perdera fama, prestígio e muita gente nesta campanha. E só fora ‘dono’ da cidade pouco mais de dois meses.
Era de noite e o General tinha fome. Apesar de a Galiza estar ocupada pelas suas tropas e no trono espanhol estar o irmão de Napoleão, José Bonaparte, há dois dias que só comia fruta dos pomares por onde passava e um caldo horroroso que Pascal, seu novo escudeiro, lhe preparava com o que ia encontrando pelo caminho. Estava a ser difícil o regresso por terras espanholas, os Galegos também lutavam contra o invasor, e os seus mais dedicados criados tinham desaparecido. E que falta lhe faziam, já que um era o seu cozinheiro particular que sabia segredos culinários que mais ninguém sabia e o outro o padeiro cujas mãos para amassar pão de diversas qualidades o levara ao seu serviço. Há já alguns anos, a bem dizer muitos, que esses dois homens o acompanhavam. Teriam morrido? Teriam sido capturados pelas gentes do Porto? Não sabia e não tinha hipóteses de os ir procurar. Que maçada! [Read more…]
escritores do Chile (texto final)

o dia do encontro com Volodia, por casualidade, na rua de Talca, Chile
17 de Março de 1916 – 31 de Janeiro de 2008
Há um escritor chileno que teve a coragem de dizer: Tengo poca opinión – o casi ninguna – sobre la actual literatura chilena, porque al pasar tanto tiempo fuera de Chile, en estos últimos años, he reducido mis lecturas nacionales. De cualquier forma, y aunque parezca una majadería, sigo creyendo que lo mejor de nuestras letras en el siglo XX ha sido José Donoso. Ningún otro escritor chileno supo captar la chilenidad desde tantos puntos de vista y convertir aquello en una profunda y dolorosa materia humana.
O escritor que emite esta opinião é [Read more…]
Escritores Latino Americanos, poucos Europeus-4ª Parte. E Barrios

Eduardo Barrios na sua juventude de trinta anos, 1914
Pouco ou quase nada se sabe dos escritores chilenos. Apenas se mencionam Pablo Neruda, Gabriela Mistral, e acabou. Infelizmente, diria eu Dentro de la terra mal podem – se sustentar com os seus livros, publicações e direitos de autor. É evidente que me refiro à época em que encontrar trabalho no Chile, era um duelo de Titãs. O se tinha fortuna pessoal ou famílias com terras que produziam bem e os bens vendidos como mercadoria não apenas sustentavam uma família, bem como para uma família alargada. Tem sido a minha experiência pessoal, usufruída enquanto no Chile morava. Mas com quarenta e cinco anos fora do país e sem mais herança que o meu ordenado, a vida tem mudado redondamente.
Escritores latinoamericanos e poucos europeus-3ª parte. Pablo Neruda

Foi um acaso, o que se diz normalmente, uma casualidade. Tinha eu quinze anos, ele deve ter tido uma idade indefinida, mas eram já os tempos da sua idade indefinida. [1] Os poetas não têm idade vivem a vida a dar saltos entre a realidade transformada em realidade en verso. Éramos vizinhos de uma das sua três casas, a de Valparaíso o La Sebastiana. Conhecemos, na nossa lua-de-mel, a minha noiva, agora esposa, a primeira que fez no Chile: Isla Negra. Não era, de facto uma ilha, era uma quinta que ficava ao pé da casa dos nossos amores, em Algarrobo, praia balnear perto de Valparaiso. Neruda não conseguia viver sem ver o amor. Entrar na Sebastiana com a minha mãe, foi uma delícia: via-se, como era da nossa vizinha casa, toda a Baia do porto e, com essa fantasia contagiante, além-mar. Sua única habitação na cidade, era La Chascona, feita para o agrado da mulher que amava, Matilde Urrutia e os seus encontros clandestinos. La Chascona, por causa do telhado de totora[2]. Nem pensar que, por poeta, falasse em verso, falava como todo ser humano nascido no centro Sul do Chile, engolindo as consonantes e um cantar típico que compassava as suas frases. [Read more…]
Uma Tragédia Portuguesa:
Não, o título não é sobre os famosos cinco a zero nem eu vou falar de futebol – caso contrário ainda sou expulso do blogue 🙂 – mas sobre um livro que foi hoje apresentado em Lisboa.
Uma Tragédia Portuguesa é um livro obrigatório para quem quer perceber as razões que levaram o país a esta embrulhada: a dívida (externa, das famílias e do Estado), a criação e desenvolvimento do monstro, entre outras. Igualmente fundamental para quem desejar ter umas luzes sobre que caminho seguir para a mudança.
A obra do Prof. António Nogueira Leite com o jornalista Paulo Ferreira foi apresentada ao final da tarde e foi no regresso ao Porto que tive a oportunidade de ler, muito por alto, algumas partes. Por isso, em breve volto ao tema.
Um livro de leitura obrigatória.
(igualmente publicado no Albergue)
escritores latino-americanos e pouco europeus-2ª Parte

Isabel Allende visita Portugal no ano 2000, o nosso próximo Nobel...
Isabel Allende Llona (Lima, 2 de Agosto de 1942) é uma jornalista e escritora chilena (apesar de ter nascido em Lima, sua família logo voltou para o Chile, sua terra natal) actualmente radicada nos Estados Unidos da América.
Filha de Tomás Allende, funcionário diplomático e primo irmão de Salvador Allende, e de Francisca Llona. Isabel é considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Sua obra é marcada pela ditadura no Chile, implantada com o golpe militar que em 1973 derrubou o governo do primo de seu pai, o presidente Salvador Allende (1908-1973). [Read more…]
Escritores latino-americanos e poucos europeus – 1ª parte
o recriador da escrita latinoamericana, Gabriel García Márquez, Prémio Nobel
Recebi um repto de um meu amigo sobre a literatura Universal. Perguntava quais eram os autores que eu gostava mais de entre todos os que alagam o campo das letras no nosso planeta. Respondi sem hesitar que os ingleses e os alemães. Como não vou comentar sobre nenhum deles, não é um ensaio, é apenas um depoimento. Se me apertam muito, eu diria que Victor Hugo – Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de Fevereiro de 1802 — Paris, 22 de Maio de 1885) foi um escritor e poeta francês de grande actuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras. Livros que causaram o seu exílio às Ilhas de Jersey na Grã-Bretanha, por ser adepto à Comuna de París, o primeiro governo operário da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular ante à invasão alemã.
A Ler
Vai ser lançado amanhã um novo livro sobre Álvaro Cunhal (Retrato Pessoal e Íntimo) de Adelino Cunha. A não perder.
Simples informação
Mera informação aos amigos do Aventar
Tenho vários livros contendo poemas, mas livros propriamente de poesia tenho dois, ou melhor, quatro, dado que o segundo é um conjunto de três pequenos volumes, com os subtítulos “Poemas do lusco-fusco”, “Poemas de ser e não ser” e “Poemas estoricônticos”. O primeiro livro intitula-se “Esta água que aqui vem dar” e foi editado em 1993, com a prestimosa ajuda do meu amigo Eugénio de Andrade. O segundo tem o título “Nova ponte sobre um velho rio” e é de 2006.
Estou a preparar um novo livro a que darei o título “Vai o rio no estuário”, com subtítulo “versos de braços abertos”. Neste livro, procurarei dar a poemas novos e a antigos que eu resolver reformular, uma nova forma, em que os versos se abrem e se espraiam como os braços de um estuário, tal como em criança eu abria os braços de par em par, quando chegava ao fim da corrida. Porei de lado o velho conceito de estrofes e a sua classificação quanto ao agrupamento de versos, versos que não submeterei a metrificações, encadeamentos e rimas previamente concebidos em esquemas. Uma espécie de versos livres, versos ao calhas, ao sabor do vento suave que afaga as águas de um estuário.
Procurarei fazer com que os poemas que doravante o Aventar fará o favor de publicar (deixo aqui lugar a uma ou outra excepção) obedeçam a este princípio. Tudo isto porque há muito me sinto um tanto enjoado com a poesia que por aí se faz e se consome. Talvez porque, embora tarde, comece a ter consciência das margens apertadas do meu rio e a sentir a atracção da liberdade de abrir os braços no fim da corrida.
Darei aqui um exemplo do que pretendo tentar fazer: [Read more…]










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