Foi preciso que fosse o irmão a dizer para Souto Moura, ex-Procurador Geral da República, começar a desconfiar aquilo que todos já desconfiamos há muito. E que disse o arquitecto Eduardo Souto Moura ao irmão José? Disse que o processo Casa Pia “vai ter dois condenados: um é o Bibi, o outro sou eu” (o eu é ele, Souto Moura).
Assumindo parte da responsabilidade pelos aspectos menos positivos no processo de pedofilia da Casa Pia, cerca de 30 por cento, o jurista atribuiu a restante responsabilidade às “reacções de grupos com poder”. É o cenário das pressões visto de uma outra janela. Pressões que, aliás, diz ter sentido quando tratou do caso Freeport.
Convidado como orador de um serão do Centro Académico de Braga (CAB), na sexta-feira, e citado ontem pelo jornal “24horas”, admitiu que a justiça em Portugal “é lentíssima, é um horror, o verdadeiro problema dos tribunais é a falta de celeridade”.
Também não é novo e aqui já nem se trata de um simples desconfiar. Aqui temos todos a certeza. E a culpa é de quem? Suspeito que será das leis, feitas por políticos, um dos tais “grupos de poder”. Mas os elementos do mundo judicial, desde os advogados, juízes e funcionários judiciais não estão, também, isentos de responsabilidade.

Em Foggia, uma cidade agrícola na província de Puglia, em Itália, as autoridades locais anunciaram a criação de duas linhas de autocarros distintas: uma apenas para imigrantes e outra apenas para cidadãos locais. Na verdade, a linha é a mesma: a número 24, que une o centro da cidade ao bairro periférico de Borgo Mezzanone. A cerca de dois quilómetros deste bairro está um centro de acolhimento para imigrantes. De forma a evitar as fricções que se poderiam fazer sentir entre residentes e indesejáveis, nada melhor do que separar os veículos, ampliando o percurso do autocarro dos imigrantes até ao centro de acolhimento, e assim poupando-os à caminhada de dois quilómetros, e libertando os locais da presença dos não-europeus. O racismo mascara-se muitas vezes com a capa da falsa piedade, das hipócritas boas-intenções, da segurança que se impõe pela violência. E também esta medida vem com o rótulo de higiénica e bem-intencionada. Para quê forçar a convivência de pessoas que, não fosse a vaga de imigração africana que assola a Europa, nunca se teriam cruzado? Naturalmente será mais prudente isolar estes imigrantes para que a sua frustração, o seu sentimento de impotência e de injustiça não venham a encontrar expressão numa espiral de violência que se acenda com um olhar, um insulto, o encontro súbito de dois seres humanos assustados. Deparei-me com a notícia hoje e a coincidência deixou-me um sabor amargo na boca. É que hoje cumpre-se mais um aniversário, o 41º, do assassinato de Martin Luther King.





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