Vem depressa, emigrante!

888002011688.170x170-75Parece que foi há dois ou três anos (talvez por ter sido há dois ou três anos) que Passos, Relvas e outros sucedâneos espalharam a ideia de que os jovens portugueses precisavam de sair da sua zona de conforto e emigrar. O impagável primeiro-ministro chegou mesmo a afirmar que o português tinha de deixar de ser piegas. Pelo meio, como é típico da elite parola portuguesa, lá vinha a referência à valentia de um povo de descobridores que sempre soube ultrapassar adamastores e bojadores, entidades consubstanciadas, na maior parte das vezes, em politicotes que andam a minar o Estado praticamente desde a fundação da nacionalidade.

Em muitos casos, a zona de conforto de muitos que emigraram era a zona do desemprego. A direitola, neologismo resultante da expressão “direita tola”, não consegue falar ou escrever sobre desemprego sem recorrer às inevitabilidades de despedir ou à caracterização do desempregado como um inútil que vive confortavelmente sentado num subsídio de desemprego. Paulo Portas chegou mesmo a declarar que havia gente a receber o Rendimento Social de Inserção e a aforrar cem mil euros nas respectivas contas bancárias, sem especificar o número de prevaricadores, o que implica lançar uma lama fétida sobre todos os outros. Não admira: o porco, quando se espolinha, não está preocupado em saber se suja alguém.

Camilo Lourenço chegou a explicar que o país ganhava muito com o facto de haver profissionais portugueses altamente qualificados a trabalhar fora do país (esquecendo-se, talvez, de que esses profissionais terão filhos fora do país, pagarão impostos fora do país, servirão as populações de outros países, farão as suas compras nas lojas de outros países). [Read more…]

Ainda há gente de bem

É. Ainda há gente de bem.

Fui recentemente a Portugal. Costumava ser a minha mãe a vir cá, mas começa a ficar demasiado frágil para tais caminhadas. E assim, meti-me eu ao caminho. Sozinha, com as minhas rodinhas por companhia. Estive por aí umas semanas, vi algumas coisas, ouvi umas quantas mais, gostei de muito pouco do que vi e ouvi, e voltei a vir-me embora.

Por causa das minhas rodinhas, regra geral preciso de assistência especial, sobretudo se calho de viajar só e durante um ‘período mau’. Aterramos, e vem-me ao encontro um jovem. Silvério de seu nome. O processo de assistência especial é complexo e demorado, e acabamos em conversada para ocupar o tempo. Contou-me das misérias que se vão fazendo, os cambalachos, as negociatas de bastidores. Como esse velho jogo de termina contrato agora e volta a contratar daqui a três meses pelo mesmo salário ou mesmo um salário inferior se continua a jogar. Contou-me muita coisa. Foi o meu bem-vinda a Portugal, ouvir com os meus ouvidos o que vinha a ler por esta e outras casas.

Foi o mesmo no regresso. Avança para mim em passadas largas e um sorriso de orelha a orelha. –“Olá”, diz-me, “está com tão bom aspecto! Portugal fez-lhe bem.” Eu rio-me. Portugal faz-me sempre metade bem. O pior é a outra metade.

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Riso comovido

GaiolaDouradaPOSTERO Festival do Cinema Francófono deu a oportunidade aos portugueses residentes em Toronto de verem o filme GAIOLA DOURADA, com legendas em inglês. As duas sessões saldaram-se por outras tantas enchentes  e no final, os aplausos foram fartos, sentidos e gratos por haver uma organização a lembrar-se de proporcionar aos emigrantes um bom filme. Porque, como ficou selado por uma secretária de estado das das Comunidades, do PSD, há anos, os emigrantes portugueses distribuem-se pela Europa, África e o Resto do Mundo. [Read more…]

No vôo de Genève para o Porto

aviao
[Retirado do Facebook de] Ricardo Sousa

Não consegui aguentar. Desatei a chorar.
Hoje no meu voo de Geneve para o Porto, um voo carregado de emigrantes Portugueses sentou-se junto a mim mais um deles. Nada de novo até aqui.
Minutos depois de ter pedido uma sandes que apenas consegui comer metade e por trás dos auriculares ligados a um iPhone oiço uma voz. “Deve querer ir a casa de banho”, pensei. Instantaneamente levanto-me… mas não. Um sorriso indica que e outra coisa. Tiro um auricular. “Ainda vai comer mais? Importa-se que fique com o resto?”. E nestes momentos, nestes segundos em que saímos dos nossos hiper-conectados mundos e do nosso stress diário que caímos naquela que e a essência humana. Disse-lhe que não, chamei o chefe de cabine e pedi mais uma sandes. Dei-lha.

Mas esta história para mim foi muito mais que uma sandes ou um momento semi auto-congratulante para colocar no Facebook, foi um verdadeiro reality-check. [Read more…]

Assobiem-lhe às botas

Não sei o que me surpreende mais: se Miguel Relvas e Passos Coelho indicando a porta da emigração aos que em Portugal são lançados ao desemprego e à indignidade, se Pires de Lima e Poiares Maduro a garantirem que, depois de uma experiência laboral no estrangeiro, o emigrante regressa sem hesitações ao nosso país. A minha surpresa deriva de eu não considerar destituídos de inteligência os personagens apontados e de me repugnar a possibilidade de eles serem uns fariseus desavergonhados. Prefiro pensar que se trata de ignorância no estado puro.

O português, tão visceralmente agarrado ao seu terrunho, tem a emigração por uma fatalidade, uma infelicidade, uma afronta pessoal que não esquece nem perdoa, ressentimento que passa por inteiro aos seus descendentes. Sai por se sentir rejeitado pelos donos da Pátria. Bate com a porta engolindo lágrimas. Nunca mais se cura dessa dor. Por sobrevivência, atira-se ao trabalho que aparece no estrangeiro, seja ele qual for, e em geral é a dureza que os nacionais não querem aguentar, priva-se de muita coisa, anula-se mesmo, para garantir a independência económica com que evitará aos seus filhos as humilhações que os donos da Pátria infligem a quem não faz parte da sua capelinha partidária ou da sua teia corrupta. [Read more…]

Limpeza étnica no futebol suíço

Selecção Suiça

(Fonte: Extra3)

Ainda que por escassa diferença (50,3%), a Suiça disse este Domingo “Sim” à introdução de restrições à circulação de cidadãos da União Europeia no seu território. E enquanto a extrema-direita festeja e os dirigentes da União avisam que este uso “desregrado” da democracia terá consequências, o blog alemão Extra3 publica uma montagem daquilo que seria a selecção nacional suíça sem os seus imigrantes ou descendentes. O Mundial do Brasil estaria seriamente comprometido para o que restasse dos helvéticos. Em Portugal resolvia-se o problema com “vistos-talento”.

Ceuta

A tragédia aqui tão perto.

O desemprego na Europa e a emigração em Portugal

A Europa

Deixo agora de parte o ‘sistema financeiro internacional’, a desregulação da banca, os paraísos fiscais, o funcionamento bolsista e todas as estruturas e agentes promotores da profunda crise que se derramou pelo chamado mundo ocidental (Europa e EUA).

O Eurostat acaba de divulgar números do desemprego na UE28 e, especificamente, na Zona Euro; esta, sabe-se, é parte da primeira, distinguindo-se pelo uso de moeda única, euro, pelos Estados-Membros que a integram – caso de Portugal.

Uma súmula de dados transmite com clareza a ideia do desastre socioeconómico europeu, o qual nem mesmo o sucesso alemão consegue esbater. Atente-se nesses dados, reportados a Novembro de 2013:

  1. Estimativas de desemprego na UE28: 26.553 milhões de cidadãos, dos quais a maior parte (19.241 milhões, i.e., 72,4%) pertence à Zona Euro.
  2. Comparado com Novembro de 2012, o desemprego aumentou de 278.000 cidadãos na UE28 e 452.000 na Zona Euro. [Read more…]

21 razões

para considerar o Uruguai caso decidam seguir o “conselho” do primeiro-ministro…

Pior do que um hipócrita, só um hipócrita como primeiro-ministro.

Passos lamenta que jovens qualificados tenham de emigrar. Mas é de recordar que foram vários os governantes a dizer «emigrem».

A gaiola sombria

Motivos profissionais trazem-me, vezes sem conta, a esta “gaiola dourada” que é o Luxemburgo, um pequeno país onde toda a gente parece transbordar dinheiro e iPhones. Um paraíso do consumo em massa onde, ao contrário de Portugal, existe muito estado social e pouco sol.

Até há bem pouco tempo, o Luxemburgo era um oásis para emigrantes de todas as nacionalidades que procuravam uma vida melhor. A maior comunidade no país é a portuguesa (estima-se que sejam cerca de 90 mil – aproximadamente 16,4% da população total – números que não terão em conta todos aqueles em condições ilegais e os milhares já naturalizados luxemburgueses) e a nossa presença faz-se sentir um pouco por todo o lado: em cada esquina podemos ouvir a nossa língua, comer uma francesinha, beber uma SuperBock ou tomar um café decente, algo que não abunda por essa Europa fora.

Acontece que, como tudo na Europa, também o Luxemburgo está a mudar. Por estes dias, durante a minha habitual caminhada pós-jantar, deparei-me com algo que nunca tinha visto: na zona da Gare du Luxembourg (estação central da capital), dei de frente com um considerável amontoado de pessoas que, debaixo de um frio de rachar, por ali tentavam pernoitar. Vi pelo menos dois casais com crianças pequenas. Fiquei perturbado quando percebi que quase todos falavam português.

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O Pré-Conceito Tuga


Nas franças e nas américas somos mais que isto, mas também somos isto.
Não há pobo como o nosso, manso, manso, manso…

Passos, o mérito e os excendentários

Tenho dois irmãos, ambos formados na escola pública e, posteriormente, numa universidade pública. O mais novo seguiu ontem as pisadas do mais velho e foi-se embora deste país que gastou dinheiro com a sua formação mas que não precisa dele. Para os meus pais foi o segundo desgosto. Que pais querem ver os seus filhos serem forçados a partir para outro país?

Os meus irmãos nunca foram alunos geniais. Apenas bons alunos, alunos aplicados. Não compraram o curso numa universidade privada nem ficaram na universidade até aos 37 anos. Ficaram até aos 23. A mesma idade com que, depois de baterem a tantas portas que teimavam em não abrir, decidiram procurar outro país que os valorizasse. Podiam ter feito o cartão rosa ou laranja e talvez isso tivesse mudado um pouco o cenário. Mas optaram por não vender a alma ao diabo e o desfecho foi o mesmo que afecta tantos dos nossos familiares, amigos e conhecidos.

Quando ontem ouvia o hipócrita Passos Coelho, naquele exercício de retórica patética que fez na RTP, a dizer “Nós apostamos muito nos jovens”, enquanto o Diogo aterrava na República Checa, foi provavelmente a única vez que me apeteceu partir-lhe a cara. Sou um gajo pacífico, até agora só me apetecia vê-lo preso, ou “encurralado” por uma multidão em fúria. Mal por mal, prefiro sempre ver os vilões a partilhar a cela com um entroncado presidiário de longa data, pronto a dar-lhes todo o carinho do mundo, algo que, infelizmente, nunca acontece.

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O que dizem os emigrantes

Já saímos do fundo e já não voltamos ao fundo.

Propaganda assim e propaganda assado

30A_MIGRANT WORKERS TABLEMuito mais é o que os une que aquilo que os separa, transcrevendo a canção de Rui Veloso/Carlos Tê, é o que se poderia dizer da propaganda deste e do anterior governo. Separa-os a forma, une-os o objectivo.

A forma socrática consistia no registo grandiloquente dos momentos históricos, em paralelo com o incentivo ao ódio a um grupo profissional, os professores. No actual governo, a forma traduz-se na mensagem depressiva da não alternativa, estratégia redutora de qualquer oposição,  aliada ao ataque a toda a função pública. O comum objectivo resume-se à propaganda, a arte da manipulação da informação com o objectivo de influenciar uma audiência, independentemente da realidade.

O último exemplo da propaganda passista é a tese do desemprego estar a baixar em Portugal, recorrendo aos dados publicados pelo Eurostat, o qual usa os dados disponibilizados pelo INE.

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E em Paris estão muitos jovens à procura de soluções para o desemprego

Santos Pereira em Paris à procura de soluções para o desemprego jovem

Um plano para salvar a vida

Foi-se-nos mais um, outra está prestes a ir. Há os que ainda andam em busca de destino, qualquer um, já não como fazíamos em miúdos, com os dedos a correr o globo e a adivinhar nos nomes exóticos promessas de aventuras, mas à procura do possível, do menos mau, dos mil e tal euros, contrato, um mínimo de dignidade. Andamos todos a perder amigos, colegas, conhecidos. Todos os meses alguém nos conta que vai deixar o país, que aguentou enquanto pôde mas enfim deixou de poder. E de cada vez que nos despedimos perguntamo-nos se nos tocará fazer o mesmo, até quando poderemos resistir à derrocada da nossa casa.

Fazem-nos falta todos os que emigraram, como fazem falta os vizinhos que entregaram a casa, as lojas que fecharam no bairro. Faz-nos falta a rede de nomes, rostos, histórias de que se compõe a nossa vida de todos os dias, a que nos faz sentir estruturados, com chão debaixo dos pés. Faz-nos falta sentir que temos um futuro, que podemos lançar sementes para daqui a um ano, a dez, a trinta, e que o mundo, com tudo o que há-de lançar-nos de inesperado, não deixará de ter lugar para nós e para a vida que construirmos. [Read more…]

Mestre expulso da ‘zona de conforto’

Substituído por um Guerreiro, Mestre foi expulso da ‘zona de conforto’. Emigrará para o Mali.

Os mal amados

Portugal, por incompetência e negligência crónica dos políticos, é um exportador habitual de emigrantes. Ao longo dos séculos, e até ao presente, as crises provocadas pelos maus governos têm lançado o nosso povo na penúria e têm-no empurrado para fora das fronteiras, num sofrimento que “é bom ter pudor / de contar seja a quem for”, como disse o (grande) poeta e (grande) esquecido José Régio. Mais: ciclicamente, maus governos que não aguentam críticas têm obrigado a exilar-se centenas de pessoas a quem foi negado o direito da livre expressão e de viverem na pátria. [Read more…]

Noites e noites frente a uma embaixada

Da primeira vez cheguei demasiado tarde (seriam 9.30h) e tive que voltar no dia seguinte. Assim, às 5.45h, lá estava eu a juntar-me a uma fila de pessoas no passeio, frente à embaixada de um país africano de língua portuguesa. Um, dois, três, quatro, trinta, trinta e um. Eram 5.45h e eu era o número trinta e um na fila, sabendo que apenas seriam distribuídas trinta senhas para pedidos de visto de entrada. Voltei a contar: trinta e três, desta vez. O melhor era manter-me no meu lugar e acreditar na providência.  Estava frio, chovia e iam chegando mais e mais pessoas, grande parte sem a mínima possibilidade de receber a dita senha.

Havia uma triagem prévia de documentos à porta da embaixada, o que fez com que algumas pessoas à minha frente não pudessem entrar e me colocou entre os primeiros trinta. Lá dentro, de guiché em guiché, detectaram algumas imprecisões menores na minha carta de chamada. Teria que voltar no dia seguinte, desta vez sem necessitar de senha. Agora está tudo bem, disseram-me nesse outro dia, mas hoje não é dia de aceitar pedidos de vistos, volte amanhã. Tentei insistir mas não adiantava, teria que madrugar outra vez frente à embaixada.

A experiência entretanto acumulada dizia-me que teria que chegar mais cedo ainda. Apontei para as cinco da manhã mas cheguei às 4.30h. [Read more…]

www.donanza.com

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Encontrei o Paulo esta semana à porta da festa de Natal da minha filha. Já não o via há mais de um ano desde quando Dias Ferreira apresentou a candidatura a presidente do Sporting em Coimbra e ele me assistiu nas coordenadas cénicas do evento.
Convivi com ele sempre por assuntos de espétaculo. Desde os tempos da Associação Académica, nos anos 90; ele, no Centro de Estudos Fotográficos sofria com as tiranias do Albano enquanto eu, na Rádio Universidade, sofria com as democracias de todos os sócios.
O Paulo é uma espécie de trendy descuidado que alterna brilho com diletância visando um único objetivo: viver o melhor possível com o menor esforço. Confesso que quanto mais o tempo passa mais me agrada essa ideia.
Foi a propósito deste rendez vouz natalício, à porta do Teatro Gil Vicente, outrora palco de muitas noites de boémia e agora transformado em altar da responsabilidade parental que a conversa apareceu.
Como é que vais? O pá! O governo isto e aquilo! Enganam a malta. Incompetentes mentirosos, e os impostos e as dívidas e o camandro e vai daí, atiro com um cliché dos tempos da troika: vamos acabar todos a emigrar! Surpresa. O Paulo, no desengonço feliz de sempre, responde. Não é preciso! Eu emigrei cá dentro. Neste país só não trabalha quem não quer.
Eh pá explica-te lá melhor. Isto não batia certo. Adianta-se: Portugal tem uma estrutura física de internet do melhor que há no mundo e os empregos estão em toda a parte. Com a vantagem de levarmos horas de vantagem em fuso horário. [Read more…]

Mira Amaral não emigra

Melhor opção para ‘portugueses competentes’ é emigrar (Mira Amaral)

Ponte Aérea

Cartaz 09A Dora e o Raul foram deixar a filha no aeroporto. O Alfredo e a Catarina foram deixar o mais velho no aeroporto. A Guida e o André foram levar o primogénito ao aeroporto. Manuel e Teresa foram deixar a filha no aeroporto. Maria Rocha e Jorge Ferreira foram levar o filho ao aeroporto. Artur e Laura foram deixar a filha no aeroporto. Emanuel e Sofia foram levar os gémeos ao aeroporto. Vítor e Yolanda foram deixar o rapaz no aeroporto. Manuela e Vitória foram deixar a mais velha no aeroporto. Fernando e Socorro foram levar o moço ao aeroporto. O Partido Socialista e o Partido Social Democrata construíram estradas ao lado de estradas e aeroportos a fazer de mortos para que finalmente, num certo dia, acabássemos por ir deixar a nossa juventude no aeroporto. A Procuradoria Geral e o Presidente da República fecharam diligentemente os olhos para que, num belo dia, pudéssemos deixar os nossos irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas, no aeroporto. O Regime, os Corruptos do Regime, os Ladrões e Comissionistas Perpétuos dos Orçamentos do Regime, trabalharam arduamente para que nos não fosse de todo impossível deixarmos filhos, irmãos, cunhados e  genros, no aeroporto. Enfermeiros. Engenheiros. Arquitectos. Professores. Operários. Criativos. Ámen. Assim seja.

O país do tudo a mais

Era uma vez um país tão pequeno, tão pequeno, tão pequeno que até começou a parecer que as coisas deixaram de caber lá dentro. De um dia para o outro, talvez por causa da desarrumação, o país passou a ter tudo a mais. Pelo menos, foi o que os governantes do país disseram, porque os governantes são pessoas que dizem.

Passou a ser conhecido pelo país do tudo a mais. De um dia para o outro, como havia muitas coisas a mais, como, por exemplo, dívidas, impostos, miséria ou fome, também começou a haver pessoas a mais. As pessoas e as coisas a mais já não cabiam todas dentro do país. Como as pessoas tinham pernas e as coisas não, as pessoas, quando deram por ela, estavam fora do país e começaram a andar para países em que havia coisas a menos ou pessoas a menos, ou esperança a mais, que a esperança era das poucas coisas que havia a menos no país do tudo a mais.

Ao fim de algum tempo, por causa das pessoas que foram, porque estavam a mais, e por causa das que ficaram, porque tinham dificuldades a mais, as lojas começaram a ser lojas a mais. O mais curioso foi saber que no país do tudo a mais, em que passou a haver fome a mais, os governantes acabaram por dizer que havia restaurantes a mais, porque os governantes são pessoas que dizem.

Esta história era para ter uma moral, mas, no país do tudo a mais, até a moral estava a mais.

Arquitectura para cães ou o futuro é deles

Niemeyer, 104 anos, o arquitecto brasileiro conhecido sobretudo por traçar Brasília, está doente; os nossos jovens arquitectos emigram; os ateliers dos grandes como Siza Vieira estão a dispensar pessoal e o gabinete pode fechar; e o presidente da Ordem dos Arquitectos afirmou à RR que “A profissão de arquitecto atravessa, tanto quanto há memória, a mais grave crise de sempre, por falta de oportunidades, trabalho e encomendas, o que tem como resultado uma situação de praticamente paragem de grande parte dos ateliers ou dos profissionais envolvidos, sobretudo, na área de projectos, mas também todos aqueles que estão ligados ao sector da construção”.

desemprego na construção civil já atinge 100 mil (dados de Outubro).

Não havendo casas de gente para construir, os arquitectos e designers “de renome”  dedicam-se ao desenho de uma linha de casas de cães

O futuro é dos animais!

O que pensará Niemeyer destes novos clientes e da nova «arquitectura»?

Não me admirava nada que por aí surgisse um novo curso ou nova disciplina nos cursos de Arquitectura.

E para concluir: cães tratados como gente e gente tratada como cães

Um vídeo para Merkel

Mesmo que não se concorde, em absoluto, com o conteúdo do vídeo, tem, no mínimo, um valor documental. No dia em que Merkel visita aquilo que considera uma das suas colónias, o valor é, também, simbólico. Uma iniciativa de Marcelo Rebelo de Sousa, secundada e produzida pelo Rodrigo Moita de Deus, dois perigosos esquerdistas radicais.

PIB cósmico em crise

Até o Universo entrou em crise!!

“Há já muito tempo que o’PIB cósmico‘ entrou em crise, diz o cientista português que liderou a investigação internacional” que veio demonstrar o seguinte: “a taxa de formação de novas estrelas no cosmo é actualmente 30 vezes menor do que foi no seu auge, que se terá provavelmente verificado há 11 mil milhões de anos.”

Parece ainda”que vivemos num Universo dominado por estrelas velhas”, metade das quais nasceram há 11 mil a 9 mil milhões de anos. Mas, apesar de o futuro “poder parecer sombrio”, David Sobral privilegia um registo mais optimista: “De facto, temos a sorte de viver numa galáxia saudável, produtora de estrelas, que deverá contribuir fortemente para a formação de novas estrelas”.

Adoro metáforas…

O meu Universo é Portugal. O povo português, cada vez mais envelhecido, sim, é formado por estrelas! Vivemos num país maravilhoso, numa «galáxia saudável» e há «milhões de anos» que estamos em crise.

Este povo lusitano vê um futuro sombrio pela frente, mas teima em ser optimista e a manter alguma da sua «luz» original. Não há outro remédio.
Tenhamos as condições, e surgirão novas estrelas que não terão de mudar de «galáxia»!

Ó Relvas, ó Relvas, Badajoz à vista!

Esta é a minha proposta para a colecção Outono-Inverno de cartazes contra Miguel Relvas. É um cartaz para um homem que devia emigrar e fica, para um homem que devia estudar e evita.

Percebem por que razão o desemprego baixou?

Quase 25 mil desempregados optaram pela emigração

De que é que se queixa quem está melhor do que eu?

O portuguesinho é um português pequenino e isso vê-se não só pelo diminutivo. Uma das características do portuguesinho consiste em desvalorizar o sofrimento de quem sofre menos do que ele, o portuguesinho. O portuguesinho que fracturou ambas as pernas ri-se com desprezo daquele que geme a dor de ter partido apenas uma. Se o portuguesinho ganha quinhentos euros, nunca perceberá de que se queixa o outro que ganha seiscentos.

Não sei quantos portuguesinhos existem em Portugal, porque a sua existência é oscilante. Qualquer um de nós, por muito português que seja, passa por momentos em que é portuguesinho, invejando a infelicidade alheia, porque, vista daqui, até parece felicidade. [Read more…]