Literacia financeira ou a usura explicada às criancinhas

Eu sei que não se deve fazer acompanhar o jantar do visionamento dos noticiários. É indigesto, pouco higiénico, desagradável, em suma. Mas, apesar disso, lá fiquei eu a ver as notícias da noite e foi ainda durante a sopa de favas que apareceu um rapazinho de 8 ou 9 anos, orgulhoso por contar às câmaras o que acabava de aprender no curso que a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) estava a organizar para meninos como ele.

Eu fico sempre comovida com as crianças que dominam a Matemática porque me parecem uma prova irrefutável do avanço da espécie. Vejo-as já como seres do futuro, com capacidades superiores, mais próximas de um patamar de evolução a que aspiramos enquanto seres humanos. Dominar a Matemática não me parece menos notável do que dobrar colheres com o poder da mente, como fazia aquele miúdo careca (Ruca?) que aparecia no Matrix. .

Subi o volume da televisão e fiquei à espera da lição de sapiência do petiz.

– Então e o que é que aprendeste?

– Aprendi que se emprestarmos dinheiro podemos cobrar juros, e no final ganhamos mais do que tínhamos.

A seguir apareceu o representante da SPM, a dizer algo que não ouvi porque ainda estava sob o efeito devastador das palavras da criança. (Dou-me conta agora, e parece-me uma daquelas coincidências que tanto agradam aos adeptos das teorias da conspiração, que SPM representa tanto a Matemática em Portugal como síndroma pré-menstrual. Parece-me bastante adequado).

Depois do choque, olhei com mais atenção para a cena e descobri o logo de uma conhecida entidade bancária que assegurava a acção de esclarecimento, movida pelo nobre propósito de incrementar a “literacia financeira” entre as nossas crianças. E que pode um banco ensinar para além da usura?

Como se não bastassem as más políticas de educação que o sistema público de ensino tem oferecido às nossas crianças, agora são as escolas, com o alto patrocínio de alguns professores de Matemática, que organizam visitas às entidades bancárias para que estas possam formatar tão cedo quanto possível os seus futuros clientes. Para que estes se habituem e vejam como natural, e até desejável do ponto de vista da sustentabilidade do sistema financeiro, que tudo aquilo que vierem a desejar, seja o caprichito de umas férias na Baía, ou um tecto sob o qual se abrigar, custe mais, muito mais do que o que vale. Porque o que conta é que “no final, ganhamos mais do que tínhamos”.

Homenagem e agradecimento ao Zé Nuno do «5 Dias»

No Domingo, o Jugular investiu mais uma vez contra o «5 Dias». Nada de surpreendente, atendendo a que vem sendo uma das rubricas habituais desse blogue. Aliás, é um pelouro que está a cargo daquele cujo nome não deve ser pronunciado mas que, na blogosfera, dá pelo nome de «Palonço das Beiras».
A novidade, aqui, é o ataque ao Zé Nuno por causa de um excelente «post» acerca de Susan Boyle. Se atacasse Nuno Ramos de Almeida ou Luís Rainha, compreendia-se, embora não se aceitasse. Compreendia-se dadas as divergências anteriores e a forma como esse blogger foi expulso do «5 Dias».
Mas Zé Nuno? Um pacato informático, alguém que nunca se mete com ninguém, que nunca se envolve em polémicas, sempre pronto a ajudar e a resolver os problemas técnicos, mesmo da concorrência, como eu próprio pude verificar ainda há pouco tempo!
Aliás, para que todos vejam quem é Zé Nuno, recorri a ele porque não conseguia colocar o DVD do Freeport (vídeos da TVI) aqui no Aventar. E ele não só o colocou como, a seguir, colocou-o no «5 Dias» dizendo que tinha sabido da sua existência através de mim!
É de alguém grande. Mas ser grande e estar conscientemente afastado das polémicas não chega. Não chega, porque mesmo assim é atacado pelo Jugular.
E é pena. Porque estamos em presença de um bom blogue. À excepção de alguns escaganifobéticos, tem excelentes bloggers: a Palmira Silva, a Fernanda Câncio, a Ana Matos Pires, a Maria João Pires ou o Miguel Vale de Almeida.
Mas quando se julga que não pode descer mais baixo, o Jugular, por via do supra-citado senhor, encarrega-se de ultrapassar as expectativas.
Poderá descer ainda mais baixo? Talvez. É que nunca se sabe o que farão a seguir. Contratar o João Pedro Henriques?

MF, OE09, PIB, drogas e prostituição

Como juntar na mesma frase, o Ministro das Finanças, Orçamento de Estado 09, PIB, drogas e prostituição?

Faz-se a pergunta e procuram-se duas notícias.

OE 2009: Ministro das Finanças diz que receita está controlada. Droga e prostituição vão ser contabilizadas no PIB.

OBS.: Isto é só uma piadinha. Não é nada a sério. Convém esclarecer bem isto, porque o pessoal do governo anda com o dedo rápido no gatilho dos processos. É que eu não tenho dinheiro para as custas judiciais.

IMAGENS DA MINHA TERRA

A Preto e Branco

A Preto e Branco

Memórias da Revolução: 20 de Abril de 1974

Ontem, dia 19 de Abril de 1974, o «Jornal de Notícias» revelava o novo chefe de Distrito do Porto, o Conselheiro Valente Leal. Na tomada de posse, promete «manter a ordem e a tranquilidade da vida pública». Presidiu à cerimónia o Ministro do Interior.
Américo Tomás, por seu lado, anda pelo vale do Mondego. Ontem, foi dia de visitar a Barragem da Aguieira.
A nível internacional, vai animada a campanha presidencial de França. Ainda em França, morreu Marcel Pagnol, dramaturgo e cineasta de grande nível.
Hoje, dia 20 de Abril, voltam a ser as eleições presidenciais o tema forte. Delmas e Miterrand vão à frente do pelotão.
Uma agência do BPA foi assaltada no Bombarral. Levaram três mil contos. Sarmento de Beires venceu o prémio «Barretina de Ouro».
Na Asembleia Nacional, discute-se a habitação de Angola e Moçambique.
Faltam 5 dias para a Revolução.

Convém não esquecer…

A iniciativa do Aventar é, logicamente, louvável e apreciável.
O lançamento de um livro é sempre um acontecimento relevante. A sua pré-publicação na blogosfera é, a todos os títulos, valiosa e para o blogue em um grande momento. Por isso o divulguei, também, no meu.
Porém, isso não invalida alguns considerandos. Não tanto sobre a obra mas antes sobre a sua personagem: Vasco Lourenço. Com a qual não simpatizo minimamente. Talvez por isso, ao ver o seu nome, rapidamente me veio à memória outra figura revolucionária: Vladimir Ilitch Lenine e o seu discurso de 1917 aos bolcheviques,
“Todo o poder aos sovietes pressupõe a completa transferência da administração e do controlo económico do país para as mãos dos operários e dos camponeses, a quem ninguém se atreverá a resistir e que, através da prática e através da sua própria experiência, depressa aprenderão a redistribuir adequadamente a terra, os produtos e os cerrais”.
Como se sabe, o que foi distribuído com afinco foi a pobreza e a fome. O nosso revolucionário de trazer por casa queria fazer o mesmo com especial denodo. Felizmente, tivemos todos muita sorte. O que convém não esquecer. Não apagar da memória. Pessoal e colectiva.

Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (O 16 de Março)*

O seu embarque é no dia 15, véspera do 16 de Março. Teve conhecimento, nesta altura, de preparativos, de encontros, de reuniões que decorreram, sensivelmente entre 11 e 16 de Março, com vista a um golpe?
Na altura, não tive conhecimento. Estava, de facto, relativamente incomunicável com o exterior. Posteriormente, soube que, efectivamente, a seguir à nossa prisão, começou a movimentação para avançar para a decisão final que se tinha já acordado em Cascais, que era o golpe militar.
Hoje sei relativamente bem o que se passou e tenho a minha teoria. Em primeiro lugar, importa ter presente que a minha saída de cena criou enormes problemas ao Movimento, em termos de ligação. A Comissão Coordenadora tentou agarrar a situação, mas não soube fazer frente à tentativa dos spinolistas, que viram ali a hipótese de recuperar da derrota que tinham sofrido, há poucos dias, na reunião de Cascais.
E, por isso, forçaram o golpe, sem estar ainda elaborado o programa político. Tiveram, então, influência o Monge e o Casanova Ferreira, que haviam chegado há pouco tempo da Guiné e vinham, como se costuma dizer, com o fogo todo no rabo. Queriam, à força, fazer rapidamente qualquer coisa…!
A essa desorientação e desorganização acrescenta-se a demissão de Costa Gomes e de Spínola, no seguimento da Brigada do Reumático. Estão, portanto, criadas condições para uma tentativa de golpe não planeado, feito em cima do joelho, destinado a falhar. A Direcção divide-se, o Victor Alves não concorda, a Comissão Coordenadora divide-se, só dois ou três elementos acompanham Otelo, a ligação não funciona, não há coordenação com as unidades e o falhanço é total.
E o facto é que apenas o Regimento das Caldas da Rainha avança, convencido de que Lamego e Viseu já vinham por aí a baixo e outras unidades contactadas em cima da hora, não avançam por razões várias.
Como, por exemplo…
Quando contactaram a Escola Prática de Infantaria em Mafra, encontram-na em exercícios de campo. Apesar disso, quando a unidade recebe ordem da Região Militar de Lisboa para mandar avançar uma força, para fazer frente à que vinha das Caldas da Rainha, os oficiais do Movimento fazem com que o comandante dessa força seja um deles, que vem “navegando à vista”, como se costuma dizer, para ver como as coisas se iam passando. Quando contactam a Escola Prática de Cavalaria em Santarém, o Salgueiro Maia diz-lhes: “Mas, o Vasco Lourenço sabe que eu preciso de 48 horas para me municiar”. Apesar disso, quando recebem ordem para avançar uma força para cercar o quartel das Caldas da Rainha, os oficiais do Movimento fazem com que o comandante dessa força seja um deles, o capitão Palma, e este leva mais de oito horas para fazer o percurso de Santarém às Caldas da Rainha.
Quando contactam com a Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas, o oficial de dia, que era do Movimento, o capitão Duarte Mendes – o que veio a vencer o Festival da Canção –, diz-lhes que nada feito, pois o pessoal fora de fim-de-semana.
E, mesmo na força do Batalhão de Caçadores 5, que foi esperar a coluna do Regimento das Caldas da Rainha, à entrada de Lisboa, estavam oficiais do Movimento, nomeadamente o capitão Bicho Beatriz, que comandava uma companhia, também a “navegar à vista”, pronto a alterar o rumo.
Como vê, quatro exemplos de unidades que vêm a ter uma importância decisiva no 25 de Abril.
Mas… e Lamego?
Esteve para sair, chegou à porta de armas, mas recebe uma contra-indicação que a faz parar. Algo semelhante se passa com Viseu.
O facto é que o mau funcionamento da ligação fez chegar a Viseu e Lamego a informação de que já havia unidades na rua, nomeadamente o RI5 das Caldas da Rainha, e este sai porque recebe indicação de que Lamego e Viseu já vêm por aí abaixo.
Tudo forçado pelos spinolistas, nomeadamente por alguns espúrios.
O pior é que conseguem envolver o Otelo.
Mas qual foi na realidade, o grau de envolvimento de Otelo Saraiva de Carvalho?
Total. Durante esses dias, procura organizar as forças e fazer o golpe.
É contactado pelos spinolistas, que o incentivam a reagir à possível demissão de Costa Gomes e Spínola. Elabora um primeiro plano de operações, em casa do Casanova Ferreira, muito em cima do joelho.
Apesar de não terem embarcado na ideia desse militar, que defendia que bastava lançar uma bomba de 250 quilos em São Bento, para resolver a situação!
Em reunião com os pára-quedistas e os cavaleiros de Santarém, vê esse plano reprovado e aceita que os páras apresentem uma ordem de operações, a sério, como eles disseram, até ao dia 20.
Não consegue, contudo, resistir à pressão dos spinolistas, face à demissão dos dois generais que escolhêramos em Cascais e, embora com o apoio de outros elementos da Comissão Coordenadora, não ouve os conselhos do Victor Alves, que se põe de fora, dizendo que tudo ia falhar, avança quando chega a informação de que Lamego já vinha por aí abaixo. E aceita enviar um espúrio, o capitão Armando Ramos, às Caldas da Rainha, com a missão de os fazer sair. Que tem a missão dificultada, porque aos oficiais do Movimento lhes cheira a esturro, pois a ligação habitual nada lhes disse, mas que consegue o seu desiderato, por duas razões. Pela pressão dos vários oficiais espúrios existentes na unidade e porque os oficiais do Movimento (havia lá um forte núcleo do Movimento), nomeadamente quando lhe garantem que o Otelo e o José Maria Moreira Azevedo estão nisto, decidem não permitir que os acusem de boicotar a acção.
Com isto tudo, importa realçar que o 16 de Março não é feito fora do Movimento, não é um processo paralelo. É, sim, dentro do Movimento.
Mas, de qualquer modo, não considera uma tentativa de monopolizar o Movimento por parte de uma facção minoritária, os spinolistas?
Em certa medida, sim. É essa a minha opinião. O facto é que há ali uma grande dose de voluntarismo, uma reacção a quente, quer à nossa prisão, quer à demissão do Costa Gomes e do Spínola. Que leva muitos a atirarem-se para a frente, esquecendo-se de que na reunião de 5 de Março tinha sido assumido, como essencial, a elaboração de um programa político.
Um esquecimento que não deixa de ser significativo porque altera completamente a natureza e objectivos do golpe.
Sim, mas o que me parece è que há graus de responsabilidade muito diferentes. Houve pessoas, em certa medida, manobradas e instrumentalizadas por um grupo que tinha outras intenções. Mas, e isso é bom frisá-lo, o 16 de Março não é fora do Movimento. Não é estranho ao
Movimento. É o Movimento que tenta fazer o 16 de Março. Com a componente spinolista em força mas com elementos da própria Direcção e da própria Comissão Coordenadora do Movimento envolvidos.
Sim, mas nota-se inclusive no próprio relato de Otelo Saraiva de Carvalho no seu Alvorada em Abril uma grande descrença no eventual êxito destas operações. É claro que ele estava a partir para essa acção, completamente vencido e quase resignado ao insucesso…
Bem, é capaz de ter razão aí. Agora, é o que eu digo, há ali um misto de sentimentos que se conjugam para levar a essa tentativa que, na minha opinião, a posteriori, ainda bem que falhou. Mas, a sofreguidão de fazer alguma coisa, o ver o terreno a fugir debaixo dos pés quando o Costa Gomes e o Spínola são demitidos, leva as pessoas a correrem contra o tempo e a fazerem uma tentativa de golpe de Estado em cima do joelho, sem planeamento nenhum, sem coordenação nenhuma e, portanto, é natural que quem estivesse envolvido nisso se tivesse, a certa altura, apercebido que aquilo não tinha muitas condições para sair vitorioso. Mas, por outro lado, também não se queria ficar de fora porque, inclusivamente, podia-se ter
o sentimento que se estava a abandonar
os camaradas da conspiração. Penso que consigo compreender o tipo de sentimentos que, na altura o Otelo, que estava no centro dos acontecimentos, terá tido. Quer dizer, era-lhe proibido, digamos assim, pôr-se de fora mas, por outro lado, não é em três ou quatro dias que se conjuga um plano capaz de fazer um golpe de Estado vitorioso.
Havia que arriscar de qualquer modo. É isso?
Sim, mas, por outro lado, havia como disse a tentativa dos spinolistas em aproveitar as condições para fazer o golpe sem o tal plano político… E é preciso ver ainda que havia também muita gente com aquele sentimento que o Banazol tinha expresso, há tempos, de que “isto estava de tal maneira podre que bastava um levantar-se que os outros iam atrás, toda a gente ia apoiar e o regime caía de podre.” Que se provou não ser bem assim. No 16 de Março provou-se que afinal não era, exactamente, como o Banazol preconizava. Por um bambúrrio, o Otelo não vem a ser preso, o que teria sido desastroso.
São presos cerca de 200 militares. Fundamentalmente, os das Caldas da Rainha e mais alguns ligados ao grupo spinolista, alguns na Academia Militar, como o Bruno, o Monge e o Casanova que foram interceptar a coluna que vinha das Caldas e dizer-lhes que estava tudo perdido.
Mas porquê que Otelo também não foi preso?
O Otelo, tanto quanto ele me contou, teve intenção de os acompanhar às Caldas da Rainha, mas quando chegou ali à rotunda do aeroporto, ou junto do RALIS, aquilo estava tudo já de tal maneira ocupado por forças militares que ele achou melhor não aparecer para não se denunciar.
Normalmente, o Otelo também devia ter sido preso o que, inclusivamente, provocou uma situação compreensível a seguir ao 16 de Março.
É que o Otelo começou a ser olhado de lado por muitos militares do MFA, porque diziam: “Eh pá, toda a malta foi presa e este tipo não? Ele que andou tão envolvido, porque é que não foi preso?” E o Otelo teve alguma dificuldade, junto de alguns, em demonstrar que não tinha ligações nenhumas com o poder e com a PIDE. O facto é que não tinha sido preso, unicamente, por sorte…
Apesar dessa clarificação, no sentido de integrar o 16 de Março no Movimento, o certo é que ele foi inspirado pela figura de Spínola.
E continua por esclarecer o envolvimento de Spínola no golpe das Caldas…
Eu penso que o grau de envolvimento dele nunca foi muito grande.
Quer dizer, o Spínola, quer no 16 de Março, quer no 25 de Abril, mais tarde, nunca se envolveu muito directamente. É evidente que ele dava, digamos assim, a directiva geral, certamente, aos seus homens…
Talvez fosse o suficiente. Pelo que afirma o seu ajudante-de-campo António Ramos, partiram dele próprio os contactos para uma acção de protesto contra a demissão dos dois generais. Tudo leva a crer que houve aqui um forte impulso do próprio Spínola, obviamente através do seu ajudante-de-campo.
Se falarmos em acção de protesto, tipo manifestação, sim. Tal como lhe disse atrás, essa foi, aliás, uma das pressões feitas sobre o Otelo. Agora, acção de força, duvido. Duvido e tenho argumentos. Como lhe contei, por duas vezes (e a última tinha sido a 3 de Março…) o Spínola mostrou-se sempre renitente a qualquer acção de força da nossa parte.
Falava em discursos e manifestações. Por isso, duvido que ele tivesse dado luz verde aos seus homens, para desencadearem um golpe militar.
Mas, como conheço bem o António Ramos e outros spinolistas, admito perfeitamente que, ao receberem alento para fazerem qualquer coisa, o seu espírito, a sua capacidade de decisão de homens atirados para a frente, os levasse a ignorarem os conselhos de acalmia de Spínola e a avançarem.

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

O Condestável é assim «tão lindo»? (II)

(continuação daqui por causa daqui)
Com a eleição do rei D. João I, Nun’Álvares Pereira vê coroada toda a sua fidelidade dos anos anteriores, ao receber o cargo de Condestável e Mordomo-Mor. O seu papel na Batalha Real, no Campo de S. Jorge, revelou-se decisiva e fez dele o grande estratega militar da história de Portugal. Já anteriormente abordamos em pormenor aqueles dias intensos que culminaram, em 14 de Agosto de 1385, com uma das maiores vitórias do nosso passado.
Como forma de agradecimento, D. João I concedeu-lhe as vilas de Porto de Mós, Rabaçal, Alvaiázere, Terra de Pena, Terra de Basto, Barcelos, Portel e Sacavém. Anos mais tarde, acabou por doar quase tudo, na condição de continuarem a servir o rei.
Homem de grande devoção, que chegava a rezar à Virgem em plena batalha, prometeu construir uma igreja no local exacto onde estivera assente a sua bandeira. Dedicou-a a Nossa Senhora da Vitória, mas o povo encarregou-se de lhe mudar o nome para S. Jorge.
A Capela de S. Jorge, no Campo do mesmo nome, é o testemunho vivo da promessa do Condestável. A lápide ainda lá está, na frontaria do pequeno templo, a testemunhar promessa de quase 650 anos de antiguidade: «Era de mil e quatro cent’ e trinta e huu anos: nunalvares p(ereira) conde estab’ mandou fazer esta capella a onra da Virge Maria por que en o dia que se fez aqui a batalha que elrey de Portugal ouve co el rey de Castella esteve en este logar a bãdeira do dito conde estabre.»
Depois da Batalha Real, colaborou na reconstrução das instituições do país. Concebeu o plano da criação do primeiro exército real e permanente e ainda combateu em algumas batalhas decisivas. A significativa vitória de Valverde, em Outubro do mesmo ano, consolidou definitivamente a independência de Portugal.
O último episódio da sua vida militar foi a conquista de Ceuta, em 1415. No regresso, deu entrada no convento, largou os títulos militares que possuía, deu tudo o que tinha e adoptou o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Depois da sua morte, em 1 de Novembro de 1431, generalizou-se o Culto do Condestável, que viria a ser beatificado em 1918 e eleito Patrono da Arma de Infantaria, pelo exército, em 1945.

É inveja, é o que é

Desde pequeno fui ensinado que a inveja é um defeito. No entanto, está na natureza do homem ser invejoso. Já Heródoto dizia que “a inveja nasceu com o Homem desde o princípio”.

Podemos não a querer de todo, até desprezar o sentimento. Podemos ter uma bela vida, cheia de grandes momentos, com os bens materiais e espirituais que achemos necessários mas há sempre qualquer coisinha que nos escapou. Por isso, temos inveja. Queremos aqueles atributos, posses, estatuto, habilidades, que os outros têm e nós não.

Mesmo de forma inocente, queremos fintar como o Maradona, ter a pipa da massa do Bill Gates, mas não sabemos, nem temos.

É por isso que a queixa de uns moradores de um prédio de Inglaterra contra os vizinhos, por estes – alegadamente – fazerem demasiado barulho nas suas práticas íntimas, deve ser um resultado desse sentimento. Inveja.

Não foi o liberalismo, diz o CAA*

CAA* (Com Amizade e Admiração)

No Blasfémias o CAA arranca com o queixume que só na cabeça de quem quer um Estado ainda maior, que já gasta 50% da riquesa nacional e nem assim consegue ajudar os dois Milhões de pobres (mais os quinhentos mil desempregados, já agora) é que pode atribuir as culpas ao liberalismo na presente crise mundial. Como a crise é mundial e começou nos US não parece que o queixume possa colar. Nos US o Estado não gasta, nem por sombras, 50% do PIB e, no entanto, foi lá que começou a hecatombe!Depois a crise é o resultado de vinte anos de desregulação deixando o mercado e “a mão ìnvisivel ” à solta! Podemos dizer que se o CAA fosse consequente chegaria à seguinte conclusão.Os que pensam que é um Estado gordo e disforme que coloca os banqueiros ladrões na ordem, são o resultado do Liberalismo que campeou nos últimos vinte anos! Esta é que é a conclusão lógica do racíocinio do blasfemo e não a que arrancou a ferros. Mas estou de acordo que o Estado em Portugal está a atingir uma dimensão que não augura nada de bom!E ainda para mais com estes políticos e empresários!

As eleições autárquicas em Gondomar

Continuo a minha viagem, lenta, lentinha, pelas autárquicas no Grande Porto.
Depois de Vila Nova de Gaia, onde a questão se resume a saber se o Dr. Menezes ganha ou não com maioria absoluta, viajo até Gondomar, o meu concelho de “nascimento”. Foi por lá, em Rio Tinto, que vivi 24 anos. Foi por lá que fui candidato nas listas do BE.
Historicamente, os Gondomarenses votam no PS. Mas, a chegada do Major, pela mão do PSD veio trazer a Gondomar uma nova realidade: as maiorias absolutas do PSD primeiro, sem o PSD depois, mas sempre maiorias do Major.
Tal como em Gaia com o Heitor Carvalheiras, também Gondomar tem uma história de votações no Partido Socialista desde os tempos do Arlindo Neves e do Aníbal Lira.
Acontece que ambos (os dois :)) eram tão maus que até o Major lhes ganhou em 1997 – diz-se que com dinheiro entregue em mãos a eleitores, com electrodomésticos, etc…
Desde então, temos como Presidente o sempre interessante Major Valentim Loureiro. Eis o que aconteceu nas três ultimas eleições autárquicas para a Câmara Municipal de Gondomar:

2005:
Major: 48828 ( 57,53%) 8 mandatos
PS: 15831 ( 18,65%) 2 mandatos
PPD/PSD.CDS-PP: 6132 ( 7,23%) 1 mandato
PCP-PEV: 6012 ( 7,08%) 0
B.E.: 2857 ( 3,37%) 0
MPT: 277 ( 0,33%) 0
PH: 193 ( 0,23%) 0

2001:
PPD/PSD: 44310 ( 59,12%) 7 mandatos
PS: 19038 ( 25,40%) 3 mandatos
PCP-PEV: 5775 ( 7,70%) 1 mandato
CDS-PP: 2034 ( 2,71%) 0
B.E.: 819 ( 1,09%) 0

1997:
PPD/PSD: 55556 ( 67,44%) 9 mandatos
PS: 16140 ( 19,59%) 2 mandatos
PCP/PEV: 6131 ( 7,44%) 0
CDS-PP: 1192 ( 1,45%) 0
UDP: 296 ( 0,36%) 0
PSN: 168 ( 0,20%) 0

Para 2009 temos ainda algumas coisas por esclarecer, mas que resultam da camisola que o Major levar vestida. Se por um lado ele tem sido um inesperado apoiante do Sócrates, não deixa de ser verdade que Marco António está a tentar trazer o Major para o PSD novamente –
Do PS temos como candidata alguém que deve estar ligado aos caminhos de ferro, ainda que o seu currículo nada diga sobre o assunto. É que para escolher as cores que escolheu para a sua campanha, Isabel Santos, Gondomarense e deputada, enfim… Trata-se de uma jovem que vem ganhar terreno dentro do Partido e vai a votos para perder por poucos.
A candidatura do PSD depende do que vier a acontecer com o Major e o PCP avança com a Professora e deputada à Assembleia de Freguesia de Rio Tinto, Cristina Nogueira. Ainda não consegui descobrir nada sobre as candidaturas do BE e do CDS-PP
Em síntese, tal como em Vila Nova de Gaia, em Gondomar a questão é saber se os Presidentes em exercício ganham ou não com maioria absoluta.

Podíamos viver sem Sócrates?

Podíamos viver sem Sócrates? Sem o ‘caso Frepôr’ e as suspeitas existentes; sem a história da compra da casa mal explicada. E sem explicações convincentes quanto ao caminho para ultrapassar a crise. Sem dúvidas quanto à importância dos investimentos em grandes obras públicas. Sem dramas e questões acerca de processos judiciais por artigos de opinião.

Sem incertezas quanto a um diploma que nem é para aqui chamado. Em tempo de tantos nomes e contactos, viveríamos sem Smith, sem Pedro, sem Cabral, sem o tio e o primo. Sem alegadas pressões e depressões, sem conflitos de interesse de namoradas.

Sem fugas de informação cirúrgicas ou de outras artes da medicina. Sem saber como enfrentar a lentidão da justiça e a quem reclamar.

Podíamos viver sem Sócrates? Podíamos, mas não era a mesma coisa.

"Sem Eira, nem Beira" Sócrates foge de tudo e de todos

Diz o povo que a água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte, mas qualquer aluno que pegue no esquema do ciclo da água pode facilmente argumentar em sentido contrário.
Lembrei-me disto ao ver o nosso (salvo seja) primeiro a fugir da Democracia, isto é, do Poder do Povo, tal como tinham fugido dos alunos no Porto.

Tal como disse antes, o tema que os Xutos recentemente editaram,”Sem eira nem beira”, tem tudo para se tornar um hino à luta contra este Governo – não me preocupo se o Zé Pedro está preocupado com o uso “contestatário” da “sua” música. No momento em que eles a editam, ela passa a ser de cada um dos seus ouvintes. Aliás, esta é uma ideia que creio ter visto escrita por Lobo Antunes, que diz que os livros não são dele. São de cada um dos leitores.

Assim, quer o Zé Pedro queira, quer não queira, à nossa maneira vamos, aqueles que longe do poder tentam sobreviver diariamente, continuar a “perseguir” o Primeiro porque não é possível ele continuar a fugir.
E não pode fugir porque, pelo menos este ano, temos encontros marcados. E são logo 3.

O Condestável é assim «tão lindo»? (I)

  A minha amizade pelo Paulo Jorge Vieira, do «5 Dias», permite-me dizer o seguinte.
A julgar por um dos seus últimos posts, o Paulo Jorge parece ter um certo fetiche por nobres medievais e, em particular, pelo Condestável Nun’Álvares Pereira.
Já quanto aos seus comentadores, vão do bacoco fervor nacionalista ao injustificado desprezo por uma das maiores figuras da história lusa. Ali, só se salva mesmo a Maria Monteiro, o Carlos Fernandes e pouco mais.
Já sabia da inclinação do Paulo Jorge por fardas e armaduras, mas não pensei que isso lhe toldasse o raciocínio. Deve ser por estarmos na Primavera, altura em que as flores começam a desabrochar. E uma florzinha como ele, nesta altura, só podia mesmo desabrochar.
Vamos ao que interessa. Milagres não me dizem nada, e acredito tanto na senhora que ficou cega ao fritar peixe como em todas as outras patranhas que há séculos a Igreja Católica nos tenta impingir. Ainda por cima, a dita senhora é de Vila Franca de Xira, e todos sabemos que essa gente não é de fiar.
Santos e santas? Ora, ora…
Mas isso não invalida o papel de Nun’Álvares Pereira, o Condestável do Mestre de Avis, na história de Portugal e, em particular, na crise de 1383/85. O texto que se segue já foi publicado há uns tempos numa monografia relativa ao concelho da Batalha e baseia-se no conhecimento profundo de um conjunto de autores sobre a vida de Nun´Álvares Pereira. Aqui vai, com um conselho final ao Paulo Jorge Vieira: que se preocupe mais com factos históricos e menos com fardas, armaduras, espadas ou bacamartes. Digo eu…

A BATALHA REAL

Pode-se dizer que foi o primeiro grande acontecimento da Batalha pós-fundação da Nacionalidade. Porque foi exactamente esse acontecimento que deu origem ao povoamento da vila e à posterior formação do concelho. Porque, indubitavelmente, foi graças à vitória na Batalha Real que D. João I cumpriu o que tinha prometido, mandando edificar ali perto um mosteiro dedicado a Nossa Senhora da Vitória. O Mosteiro da Batalha.
Batalha Real é nome que caiu no esquecimento. Não por nossa responsabilidade, como será fácil de reparar. Mas desde há alguns séculos que Batalha de Aljubarrota é o nome mais conhecido. Curiosamente, Aljubarrota é freguesia de Alcobaça e o local da batalha foi no concelho de Porto de Mós. Parece que não tem nada a ver com a nossa Batalha. Mas tem. Tudo.
Realizada em 14 de Agosto de 1385, numa segunda-feira, foi conhecida durante muito tempo como Batalha Real dada a presença dos dois monarcas na contenda. Nos primeiros tempos após 1385, o acontecimento era sempre referido como a batalha entre portugueses e castelhanos, nunca sendo indicado o local da mesma. Ainda nos meados do século XV, Batalha Real ou simplesmente Batalha era o nome mais comum.
O actual nome terá surgido, segundo Saul António Gomes, devido a um mal-entendido do cronista Froissart, que confundiu os locais e acabou por chamar Aljubarrota a uma refrega que em nenhum documento anterior fora identificada dessa forma. Até porque a aldeia mais próxima era Tojal, Porto de Mós, e nunca os exércitos entraram sequer em terras de Alcobaça.. Para Froissart, no entanto, os portugueses acamparam na vila de Aljubarrota e aí decorreram os combates.
O erro germinou e propagou-se nos anos que se seguiram, até entre os portugueses. No século XVII, já não se dava mais nenhum nome à Batalha Real a não ser o de Batalha de Aljubarrota e até a lenda da célebre padeira passa a ser associada ao acontecimento.
Mas para entender o contexto em que decorreu a Batalha Real, que garantiu por muitos anos a independência de Portugal, é necessário recuar à I dinastia e às guerras em que D. Fernando envolveu o nosso país, as chamadas guerras fernandinas.
Como forma de promover a paz entre os dois reinos desavindos, terminando assim com essas guerras, o rei D. Fernando assina o Tratado de Salvaterra de Magos, que prevê, entre outras disposições, o casamento da sua única filha, D. Beatriz, com o rei de Castela, D. João. Este facto vai provocar um problema de sucessão, porque o rei morre pouco tempo depois sem deixar mais nenhum descendente, a não ser a filha, que agora está casada com o rei de Castela. Obviamente, isso punha em causa a nossa própria independência, porque se ela chegasse ao trono, seria o seu marido a governar Portugal.
Quando o rei morre, D. Leonor Telles, a viúva, manda gritar pela cidade «Arraial pela rainha D. Beatriz de Portugal, nossa Senhora!», no que é apoiada pelas classes sociais superiores, interessadas nos cargos políticos e nos títulos que daí podem advir. Ao mesmo tempo, algumas regiões lembram o infante D. João, filho de Pedro e Inês, homiziado em Castela, e o povo, agitado pelo ódio e temor de D. Leonor Telles, começa a gritar pelo Mestre de Avis, que também era filho de rei. D. João de Castela, entretanto, decide marchar sobre Lisboa para reivindicar o que era seu.
Considerado como uma influência nefasta para Leonor Telles e como responsável indirecto pela morte de D. Fernando, o Conde Andeiro, seu amante, é assassinado no paço da rainha pelo Mestre de Avis, com o auxílio de Álvaro Pais, que espalha pela cidade que o Mestre está a ser morto. O povo acorre em massa e, verificando que tudo está bem, aclama o Mestre de Avis como Regedor e Defensor do Reino. O governo é constituído de imediato porque se torna necessário defender o país da previsível reacção castelhana.
O cerco de Lisboa, em 1384, durou dois meses e representou o ponto máximo da tentativa de ocupação castelhana. D. João de Castela desmobilizou, mas prometeu voltar, o que viria a acontecer logo no ano seguinte. É que, apesar da derrota, tinha ainda um grande número de apoiantes no nosso país. Quase todo o norte, à excepção do Porto, e as mais importantes fortificações do centro, tanto no litoral como no interior, estavam ao lado de D. João de Castela. Castelo Melhor, Castelo Rodrigo, Almeida, Castelo Mendo, Covilhã, Leiria, Torres Novas, Óbidos, Atouguia, Santarém, Torres Vedras, Alenquer, Sintra, Marvão, Crato, Alter do Chão, Monforte, Campo Maior, Vila Viçosa ou Olivença são apenas alguns exemplos.
Mesmo assim, e porque perdera os seus principais comandantes durante o cerco de Lisboa, D. João de Castela decidiu recuar estrategicamente para Sevilha, de forma a reorganizar o seu exército. Dali voltou a atacar Portugal, seguindo novamente a linha da Beira Alta, como já fizera na invasão anterior.
A iminência de um novo ataque castelhano foi aproveitada com mestria pelo Dr. João das Regras nas Cortes de Coimbra, em Março/Abril de 1385. O objectivo principal era demonstrar que nenhum dos outros candidatos tinha legitimidade. Assim, declarando-se o trono vago, seria mais fácil ao Mestre de Avis, Regedor e Defensor do Reino, obter o título de rei.
Para além de D. Beatriz, filha do rei D. Fernando, que era menor de idade e casada com o rei de Castela, tinham ambições os infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro e Inês de Castro. Os representantes dos concelhos e a baixa nobreza apoiavam o Mestre de Avis; a alta nobreza e a maior parte do clero apoiava o infante D. João ou, se este não o pudesse ser, o infante D. Dinis – argumentavam que Pedro e Inês casaram em clandestinidade, logo os filhos eram legítimos.
Durante o seu discurso, João das Regras defende que D. Beatriz era ilegítima, porque Leonor Telles casara com D. Fernando quando ainda era casada com outro homem. Os infantes D. João e D. Dinis também eram ilegítimos, porque nunca houvera casamento entre D. Pedro I e Inês de Castro – e mesmo que tivesse havido, esse enlace era considerado nulo.
Por vir da linhagem real de D. Pedro e pelos serviços que prestara desde 1383 como Regedor, período no qual se incluiu o Cerco de Lisboa, o Mestre de Avis conseguiu obter a concordância dos presentes nas Corte
s
e tornou-se, em 6 de Abril, depois de mais de um mês de discussão, o primeiro rei da segunda dinastia.
Uma conquista que premiou a estratégia de um monarca calculista. Assentando a sua força no poder da Cavalaria (força militar) e no Regalismo (força popular consubstanciada na pessoa do rei), D. João I soube sempre apoiar-se em duas facções totalmente inconciliáveis e que tinham como representantes máximos Nun’Álvares Pereira, por um lado, e por outro o Dr. João das Regras.
Logo que foi proclamado rei, no início de 1385, D. João I de Portugal partiu, juntamente com D. Nuno Álvares Pereira, já o Condestável, em direcção ao norte do país, que ainda se encontrava em estado de rebelião.
Estava o rei no Minho quando se soube que D. João de Castela voltara a invadir o país, com o objectivo de fazer valer os seus direitos sucessórios (era casado com D. Beatriz) e de fazer respeitar o articulado no Tratado de Salvaterra de Magos. Desta vez, entrou por Badajoz cercando Elvas. Seguiu o nosso rei de imediato para sul – Porto, Coimbra, Leiria, Tomar, Torres Novas, Golegã, para atravessar o Tejo em Santa Iria e cortar o caminho aos invasores.
Derrotado em Trancoso, o rei de Castela regressa a Ciudad Rodrigo, onde organiza um grande exército, que a 8 de Julho de 1835 volta a atacar, usando a linha do Mondego. O objectivo era dividir Portugal em duas partes, para que o sul não conseguisse receber o apoio do norte e do centro. Concretizado este objectivo, o avanço sobre Lisboa seria muito mais fácil. É que o alvo era mesmo a capital, não as outras regiões. Porque a conquista da cidade significaria automaticamente ter o direito de «cobrar» o resto do reino.
D. João I de Castela entra no país por Almeida, apodera-se de Celorico da Beira, onde permanece dez dias, até 1 de Agosto, devido ao agravamento do seu estado de saúde. Naquela data prossegue então a sua marcha, devendo chegar a Coimbra na primeira semana de Agosto. A falta de alimentos explica a sua lenta progressão. É que grande parte da população fugiu das terras invadidas e consigo levou as colheitas já retiradas da terra.
Entretanto, na primeira quinzena de Julho, não se sabendo ainda claramente qual a linha de invasão castelhana, o rei português tinha ficado em Abrantes e D. Nuno Álvares Pereira reunira os seus homens em Estremoz, uma das praças que poderia ser escolhida como local da invasão. Quando se compreendeu que, afinal, não seria por aí, o Condestável juntou-se a D. João I em Abrantes, onde se reuniu o Conselho de Guerra.
Estávamos no mês de Agosto, o mês da Batalha, e a maior parte dos conselheiros defendia um ataque a Sevilha como forma de iludir os castelhanos. Assim, ganharíamos tempo até à chegada dos reforços vindos de Inglaterra, caso contrário não teríamos qualquer hipótese de derrotar o inimigo em campo aberto. «Suas companhias (do rei de Castela) eram tantas que era espanto de olhar, de guisa que não havia quem as visse e segundo os lugares que por elas estavam, que não julgasse em breves dias todo Portugal perdido.» (Fernão Lopes)
Nuno Álvares Pereira discordou por completo e, confiando cegamente na força do nosso exército, decidiu partir sozinho a 7 de Agosto, contra a vontade de todos e até do próprio rei. Defendia ele que, perdida Lisboa, D. João I passaria a ser um simples mandatário de Castela, obrigado até «a andar a Sevilha por cortar duas oliveiras podres». De Tomar, mandou dizer ao monarca que estava à sua espera. Convencido por tamanha demonstração de coragem e de confiança, D. João I mandou reunir as suas tropas e marchou para Tomar, encontrando-se ambos a 10 de Agosto, num local hoje assinalado por um padrão.
É o momento em que ambos os exércitos caminham definitivamente para um encontro que se adivinha cada vez mais próximo. Castela por Coimbra, Soure, Pombal, Leiria e Azoia; Portugal por Tomar, Ourém e Porto de Mós.
Nessa altura, a estrada mais utilizada para chegar a Lisboa era a que ligava Coimbra a Santarém, mas o facto de os castelhanos terem seguido por uma estrada menos utilizada, a que ligava Leiria a Alcobaça, foi um primeiro indício de que queriam evitar o confronto directo. Era dia 12 de Agosto e os portugueses já se encontravam em Porto de Mós. No dia seguinte, D. Nuno Álvares Pereira saiu com 100 homens para reconhecer o inimigo e o campo de batalha.
Como grande estratega militar que era, D. Nuno Álvares Pereira apercebeu-se de imediato do grande valor estratégico que aquela posição encerrava. O terreno escolhido ficava a sul da ribeira de Calvaria. De cada lado, outros ribeiros, o de Vale da Mata e o do Vale de Madeiros. Em frente, uma longa planície que fornecia grande visibilidade. Do lado norte do planalto, havia esporões quase inacessíveis, pelo meio dos quais passava a estrada. Ou seja, as condições do terreno eram muito limitativas para os ataques do inimigo e muito propícias à defesa. Por outro lado, os castelhanos tinham uma frente de ataque muito estreita e ainda podiam ser atacados pelos lados.
«Qualifica-se, com frequência, de genial, esse relance do guerreiro. Alarguemos o conceito. O Condestável foi homem de génio, mas não apenas táctico e de ocasião. Homem de génio, sim, na totalidade estratégica do ser, capaz de encarnar e executar os imperativos morais e políticos de um povo, ansioso de ser ele próprio; de perceber com clareza as possibilidades sociais e psicológicas do momento, de imaginar nos seus desenvolvimentos o teatro das operações, e, mais que tudo, de fundir no mesmo raio as fulgurações da consciência e as do acto.» (Jaime Cortesão)
O exército castelhano era mais vistoso do que forte. Não havia organização nem capacidade de liderança – os melhores tinham morrido na peste do ano anterior e o rei tinha pouca capacidade de ser obedecido, isto para além de estar muito doente.
Logo que nasceu o dia 14, o nosso exército ocupou o campo de batalha. Ainda durante a manhã, os castelhanos postaram-se em frente aos portugueses. As forças em combate avistaram-se pela primeira vez às 10 horas.
Reconhecendo a vantagem de que parecia dispor o nosso exército, D. João I de Castela tentou mais uma vez evitar o confronto. Assim, mandou o seu exército por um caminho secundário, separado da posição portuguesa pelo ribeiro do Vale de Madeiros, estando as primeiras tropas no local onde é hoje a povoação de Calvaria, zona que na altura oferecia grande visibilidade a partir da cumeira de Aljubarrota.
Na Idade Média, dado o reduzido tamanho dos exércitos e alcance das armas, era raríssimo que um exército que quisesse escapar à luta com o inimigo não o conseguisse fazer. No entanto, parece ter sido o caso desta batalha, dado que D. João I e Nuno Álvares Pereira, decididos a impedir a continuação do inimigo até Lisboa, mandaram o nosso exército acompanhar a marcha castelhana, colocando-se agora três quilómetros a sul da posição anterior. A vanguarda avançou para a frente da batalha, passando para o sítio onde estava o curral pelo meio corpo central do exército. As alas postaram-se a seu lado. Às 14 horas, as novas posições estavam definidas.
Desta vez, a frente de ataque era de cerca de 400 metros, mas fora reduzida a muito pouco graças à construção de um sistema defensivo acessório, constituído por covas de lobo e fossos, tapados com ramos de árvores ou arbustos. A posição portuguesa era ainda defendida por uma paliçada. Estes fossos e covas de lobo terão demorado duas ou três horas a construir, durante o período de tempo em que o exército inverteu a sua posição. Uma estratégia que já fora feita na célebre Batalha de Poitiers e que foi aplicada em Aljubarrota, certamente com a ajuda de João de Montferrat, inglês que combatera em França e que foi muito importante na estratégia defensiva. Neste caso, a tão valiosa quão improvisada mão-de-obra veio dos trabalhadores agrícolas do Couto de Alcobaça.
Organizado em quatro azes (formações de combate) e no sistema de quadrad

o (para tirar vantagens do papel da infantaria), o nosso exército tinha dois grandes corpos, já que a vanguarda e as alas estavam juntos. A vanguarda era comandada por Nuno Álvares Pereira e era composta pelos lanceiros. A ala esquerda, chamada dos Namorados, sob o comando de Mem Rodrigues e Rui Mendes. A ala direita, por seu turno, era comandada por Antão Vasques, o Galhofeiro, e por João de Montferrat. Na retaguarda, que estava a ser dirigida pelo próprio D. João I, estavam os lanceiros, os besteiros e os peões. Mais atrás ainda, o parque ou curral, local onde se guardava a bagagem, os carros e o gado.
O exército castelhano começou a formar-se para um eventual ataque, mas reunidos em Conselho de Guerra, rei e seus conselheiros concordaram em não atacar, pelo menos nesse dia. Porque as tropas estavam cansadas, porque ainda não estavam completamente organizadas, porque as alas não poderiam atacar devido aos ribeiros e porque durante a noite certamente muitos portugueses fugiriam.
Apesar disso, os cavaleiros da vanguarda avançaram pelo planalto e iniciaram o ataque. Era já tarde e não faltaria muito para o pôr-do-sol. Dado que iam encontrando obstáculos, os castelhanos começaram a convergir para o centro – e já vimos que a linha de ataque era muito estreita. Assim, a coluna foi-se alongando por cerca de 60 ou 70 metros, ao mesmo tempo que avançava de forma completamente desordenada.
Os primeiros cavaleiros castelhanos chocaram com a parte central da vanguarda portuguesa e lograram rompê-la, por serem em maior número, mas foram de imediato atacados dos dois flancos pelo resto da vanguarda, pelas alas e ainda pela retaguarda. Ou seja, o número de soldados em confronto inverteu-se de um momento para o outro e um pequeno contingente da vanguarda castelhana teve de enfrentar quase todo o exército português. O rei de Castela manda então avançar a segunda linha, mas esta ainda não estava preparada.
Aglomerado num espaço apertado, o inimigo não teve qualquer hipótese. Como se estivesse a lutar «numa ponte levadiça», na feliz expressão de um estudioso famoso, e a sofrer o movimento de uma tenaz, foi completamente esmagado. Os da frente eram atingidos com tiros e lanças por todos os lados, os de trás eram empurrados para a frente, os restantes começavam a fugir desordenadamente em todas as direcções. O curral ainda foi atacado por leste, mas já era tarde demais. A refrega terá durado pouco mais de meia hora, rapidamente tudo terminou. As ambições imperialistas de Castela e a batalha. Outra Batalha começaria…
«D. João I e o seu Condestável obtinham a vitória mais retumbante da história de Portugal. Nessa que continua a ser a batalha-símbolo de todas as batalhas lusíadas – Aljubarrota. Que lá tem a perpetuá-la, ex-voto e túmulo do grande vencedor, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido por Mosteiro da Batalha. «Batalha» por antonomásia. Essa: a de Aljubarrota, 14 de Agosto, 1385.
Tal vitória, tão redonda e imprevista, foi logo tida por milagre. Sentença de Deus a confirmar a eleição de Coimbra e a dinastia que se iniciava. Deus, que está sempre pelo direito e nas batalhas reais premeia e castiga conforme o lado da razão, descera ao campo de Aljubarrota, como os deuses homéricos aos de Tróia, e decretou: João das Regras estava certo, o Mestre de Avis é que era. E foi.» (Armindo de Sousa)
Só na manhã seguinte D. João I e D. Nuno Álvares Pereira tiveram noção da dimensão da vitória portuguesa. Não tinham desarmado ainda, continuavam a aguardar o regresso do inimigo, mas logo que souberam que o rei castelhano fora visto a embarcar em Lisboa, em direcção a Sevilha, perceberam que a vitória era, para já, definitiva.
Durante três dias, D. João I manteve-se no campo da batalha, como era tradição. Andou entre a Canoeira e Alcobaça, mas só se afastou o suficiente para não cheirar os corpos em putrefacção e não ver o espectáculo da morte que se lhe oferecia aos olhos.
Logo no dia seguinte à batalha, D. Lourenço Vicente, arcebispo de Braga, rezou a missa da vitória. Evocou então «todos os que ali tinham caído, amigos e inimigos, que o senhor se compadecesse das suas almas». Depois da missa, Nuno Álvares Pereira foi a Ourém pagar uma promessa que tinha feito. Percorreu então, sem o saber, todo o território do actual concelho da Batalha. Venceu o rio Lena, passou o Casal Novo, foi pelas Garruchas, avistou o Reguengo da Magueixa e continuou a subir. Pelo caminho, ainda teve tempo de socorrer um castelhano ferido que andava perdido.
Depois das tréguas de 1387 e de um novo acordo em 1393, veio a paz em Outubro de 1411. Só aí Castela resignou aos seus objectivos de conquistar Portugal. Entretanto, no ano seguinte à batalha, D. João I assinara com Inglaterra o Tratado de Windsor, que simbolizou a vontade do rei em encontrar uma aliança permanente que fosse garantia do futuro português. Dessa aliança acabou por resultar o seu casamento com D. Filipa de Lencastre, filha de João de Grant, Duque de Lencastre.
Vários séculos depois, foi possível saber muito mais sobre esta batalha, nomeadamente sobre o sistema defensivo idealizado pelo Condestável, graças às escavações arqueológicas conduzidas no Campo de S. Jorge por Afonso do Paço.
Em meados do século XX, a Capela de S. Jorge encontrava-se num estado de degradação total. Foram alguns elementos da Mocidade Portuguesa que, pela primeira vez, tomaram a iniciativa de adquirir os terrenos em redor do templo, algo que aconteceu a partir de 1953. A campanha, que ganhou dimensão nacional, possibilitou a compra de vastos terrenos em volta e a elaboração de um anteprojecto de urbanização do local.
Foi na sequência das primeiras obras de terraplanagem que surgiram os primeiros vestígios da batalha. As escavações arqueológicas, patrocinadas pela Comissão de História Militar e sob a direcção de Afonso do Paço, iniciaram-se pouco tempo depois e possibilitaram a descoberta de trincheiras, do fosso e das covas de lobo.
Uma descoberta que veio pôr cobro a interpretações diversas do que aconteceu durante a batalha em termos de estratégia defensiva por parte dos portugueses. As próprias fontes coevas eram divergentes em relação ao sistema militar nacional. Se por um lado, Froissart falava de fortificações com abatises e o Despensero de D. Leonor referia uma estacada e muitas covas abertas com ramos, Ayala menciona apenas os dois ribeiros e Fernão Lopes alude a um terreno sem quaisquer obstáculos, onde «tudo era campina igual sem nenhum estorvo».
A norte e leste da Capela de S. Jorge, descobriu-se um longo fosso, com 182 metros, e um importante sistema de fossos e covas de lobo, com 150×100 metros. Alguns fossos continham cerca de 40 filas de covas de lobo, cada uma com comprimentos variáveis entre 60 e 80 metros.
Em Março de 1960, dois anos depois do início das escavações arqueológicas, estava a nu todo o sistema defensivo situado sobre o flanco esquerdo da posição portuguesa. Estavam descobertas 830 covas de lobo, quatro fossos principais e vários secundários.
Nos terrenos a sul da capela, apareceu uma cova cheia de ossos de 400 indivíduos, obviamente castelhanos. Em quase todos os ossos encontrados, faltavam invariavelmente as extremidades, certamente porque serviam de «banquete» aos lobos vindos da serra de Albardos nos dias que se seguiram. «Quem por esses dias passasse na estrada ouviria com horror, sobre a cumeada, um vasto e crepitante roer de ossos e o sôfrego deglutir das feras» (Jaime Cortesão).

in «Batalha: A Vila da Vitória», V. N. Gaia, IK Diagonal, 2004.

Declaração de interesses

Boas,
desta vez venho bloggar na primeira pessoa. É que ontem ouvi alguém, que não consegui identificar, mas creio que do Corta-fitas, na Antena 1 e resolvi seguir a dica, para não parecer que ando a comentar oculto.

Sou Professor de Matemática e Ciências numa escola do Grande Porto. Vivo em Gaia e sou sócio do Sport Lisboa e Benfica.

Politicamente ando quase sempre afastado dos partidos, mas não sou independente: voto à esquerda – já votei PS e Bloco. Nunca votei noutro partido.

Estou envolvido no movimento sindical, em particular no movimento sindical docente.

A falácia do casamento gay -2

Como seria de esperar os comentários críticos ao meu texto “A falácia do casamento gay” assentaram nos seguintes argumentos.1) discriminação,2) afectivas /humanitárias,3) demagógica! Quanto ao argumento de que os gays são discriminados por razão da sua orientação sexual, julgo que ficou claro que não são de todo.Um gay pode casar se o fizer com uma pessoa do sexo diferente.Está rigorosamente em pé de igualdade com qualquer outra pessoa. Da mesma forma que um negro não pode dizer que é a sua condição de ser negro que lhe dá acesso ao casamento.Não!É por ser homem e querer casar com uma mulher.O mesmo se aplica às mulheres como é óbvio!As razões afectivas tentam desencadear sentimentos de compaixão pelas pessoas a quem supostamente é impedido o acesso ao casamento, como se lhes fosse negado o acesso à felicidade.Ora casar não é sinónimo de felicidade!E depois invoca-se ( em certa medida tambem o faço)a generalidade das pessoas que aceitam o casamento gay o que, não sei se é assim tão verdade.Eu próprio tendo a apresentar como fim pacífico de conversa algo como “se isso os faz felizes pois assim seja”! Mas há uma questão que é muito importante para muita gente e que raramente é invocada.São as questões inerentes à adulteração do casamento civil tal como o conhecemos, eliminando-se a sua marca mais importante (entre um homem e uma mulher)!Para muita gente o casamento é a célula principal (estaminal chama-lhe o Prof Paulo Pulido Adragão) da sociedade.Não pode ser de ânimo leve que os políticos mudem radicalmente um conceito social de tal importância sem que o povo seja ouvido!E a dignidade dos homosexuais e a sua segurança jurídica e patrimonial já está garantida com o conceito “uniões de facto dos homosexuais”!

Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (Primeira reunião alargada)*

PRIMEIRA REUNIÃO ALARGADA, NUM MONTE AGRÍCOLA, PERTO DE ÉVORA

Lá fomos para a reunião. Preocupados com a segurança, decidimo-nos por dois locais de concentração em Évora. Um junto do Templo de Diana, para os que vinham do norte, e outro, numas bombas de gasolina, à entrada da cidade, para os que iam de sul…
Enquanto nas bombas de gasolina estava o Piteira Santos e mais um outro capitão, que conheciam os previstos vindos do sul, no Templo de Diana, formámos um grupo de recepção com um elemento de cada curso da Academia Militar.
Seria, portanto, difícil que quem chegava não conhecesse ninguém. Como recurso, estava previsto que entre as 14 e as 14.30 estaria um carro com o capot aberto, simulando uma avaria, devendo quem precisasse dirigir-se ao condutor, apresentar-se, pois seria encaminhado.
Mal chegámos junto do Templo de Diana, vimos aparecer um Mercedes de matrícula militar com um velhinho a sair de lá de dentro. «O que é isto?», diz o Bicho Beatriz. «Quem é aquele tipo?», digo eu. «Eh pá, aquele tipo é o comandante da Região Militar.»
«Alto! Estamos denunciados». «Bom, está bem, ninguém se perturba. Vamos para o jardim».
Íamos para avançar para o jardim, aparece outro Mercedes com outro velhinho, e diz o Bicho Beatriz. « Eh pá, aquele é o segundo comandante e o tipo conhece-me!»
Dá meia volta, mete-se no carro e zarpa. Bem, croquis numerados era ele que os tinha no carro.
Avanço para o jardim e que vejo? O jardim cheio de malta nova, cabelo curto, a assobiar, a passear em grupos de dois ou três, a passarem uns pelos outros, a fazerem que não se conheciam, a tentar despistar. Mas qualquer pessoa que chegasse via que se passava qualquer coisa. Em Évora, num domingo, o jardim cheio…
Bem, de repente, eu entro pelo meio daquilo, com os croquis, e à medida que os vou entregando, vou dizendo. «Desaparece! Desaparece! Desaparece!»
E começa aquela malta toda a sair do jardim, a meter-se nos carros e a zarpar! Com os generais a olharem para nós com caras de parvos. Mais tarde, viemos a descobrir como é que eles tinham sabido. Tinha sido um major do Quartel General de Évora que tinha denunciado a reunião. Um major de Artilharia chamado Gaspar, conhecido pelo Gasparito, o doido, mas, enfim, o Dinis de Almeida tinha-o informado da reunião e ele tinha-nos denunciado.

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

Os limites da arte ou a arte sem limites

Stelarc_orelha

Não façamos confusão. Stelarc é um artista. É um performer. Não é daqueles que coloca uma série de artefactos e resíduos orgânicos no chão e chama àquilo arte. Se assim é, eu sou um grande artista, a acreditar na fantástica apresentação do meu saco do lixo.

Não. Stelarc é mesmo um artista. Não é jovem em idade mas muito jovem em determinação e imaginação.

Apresentemos o senhor. Stelios Arcadiou nasceu em Limassol, em Chipre, numa obra do acaso, porque onde ele se sente bem é na Austrália. A sua arte, vamos chamar assim, suporta-se em perspectivas de futuro, em concreto no corpo futurista. O homem, ou será o artista, pensa que o corpo humano é obsoleto e, portanto, pretende ciberorganiza-lo. Este organiza-lo do ponto de vista cibernético deve ser entendido numa dupla perspectiva de ‘criar’ novos órgãos e arranja-los de maneira diferente.

Já foi o principal responsável por uma unidade de investigação de artes digitais, na Nottingham Trent University. Agora, aos 62 anos, tem um amplo projecto em desenvolvimento. Esteve recentemente no Festival Internacional de Ciência de Edimburgo, onde apresentou uma “terceira” orelha. Sim, implantada, de forma artificial, através de cirurgia no braço. Tal e qual a foto documenta (também aqui não façam confusão, a imagem é da National Geographic e eles levam tudo muito a sério). Para breve está a projectar instalar um microfone no mesmo local, para permitir aos utilizadores da internet interessados “ouvir” através da sua orelha. Fantástico.

Sobre o projecto de Stelarc, Michael Smyth, director do festival escocês, afirmou que “talvez estejamos a vislumbrar o futuro aqui, onde a tecnologia fica incorporada”. Literalmente, acrescento eu.

“Todos carregamos telefones portáteis para todo o lado mas, subitamente, quando quebramos a barreira da pele, já é assunto”, completou. Não está mal visto, não senhor.

O Sindicato da PSP enganou-se: há mesmo polícias «gays»

(este assunto começou aqui e continuou aqui, aqui e aqui).

Memórias da Revolução: 18 de Abril de 1974

Ontem, dia 17 de Abril de 1974, faltavam 8 dias para a Revolução, o «Jornal de Notícias» dava a conhecer as conversaçõs entre o Vaticano e o Governo a propósito do caso dos Missionários de Nampula. O Ministério do Ultramar publicava uma nota sobre o assunto.
As Juntas Médicas vão passar a funcionar junto dos postos clínicos das Caixas de Previdência.
Américo Tomás vai visitar a «notável» Barragem da Aguieira.
Em França, o radical Schreiber não vai concorrer às eleições. Ainda assim, já são 33 os candidatos.
Hoje, 18 de Abril, fala-se do aumento dos funcionários públicos. Aumeto para breve? – uma sugestão renovada na Assembleia Nacional.
Na Rotunda da Boavista, no Porto, vai começar em breve a Feira do Livro. No mesmo dia, um camião espalhou dezenas de pernis de porco em plena Avenida da Boavista.
Nos Estados Unidos, nova derrota de Nixon. Fracassou o apoio a um republicano. William Simon nomeado Secretário do Tesouro. Em França, foram eliminados 19 dos 33 candidatos ao Eliseu. Nova sondagem dá vitória a Giscard d’Estaign.
Faltam 7 dias para a Revolução.

Os malefícios das obras públicas

Diz Vitor Bento, na Visão de 16 de Abril.
O governo insiste nas obras públicas como saída para a crise, convencido de que geram valor. E sustenta-o com inúmeros estudos…
“Os estudos cometem um erro, ao esquecerem-se que o investimento em obras públicas está sujeito à lei dos rendimentos decrescentes.Com a primeira auto-estrada entre Lisboa e Porto, a produtividade da economia aumentou muito,porque se eliminou um factor de bloqueio e os custos de transacção diminuiram. Mas quando se constrói a enésima auto-estrada, entre duas cidades sem tráfego, já não se acrescenta valor. O mesmo se passa com os estádios ou com o Parque das Nações.Se, com tanto investimento em obras públicas, continuamos a empobrecer, temos de nos interrogar sobre se não estamos a usar os remédios errados!” E para que serve e quem paga o TGV , pergunto eu? A teimosia de um homem pode roçar a imbecilidade!

A falácia do casamento gay

Para haver casamento há um princípio e um fim. Tem que ser entre sexos diferentes. Entre um homem e uma mulher. Não entram aqui considerações de ordem religiosa, de cor, de preferências sexuais. Pelo contrário, a Lei trata os homens e as mulheres como tal não levando em conta as suas preferências sexuais. Isto é, todos os gays e lésbicas podem casar desde que seja entre sexos diferentes.A auto-exclusão a esta norma é feita por eles próprios. Na verdade na diferenciação masculino/feminino não têm qualquer relevância os gostos e preferências subjectivas. Os homens e as mulheres com preferências sexuais por pessoas do mesmo sexo não são impedidos de casar por causa da sua orientação sexual. São impedidos por serem pessoas do mesmo sexo. A analogia das lutas dos escravos ou das mulheres pela igualdade e a reivindicação do “acesso” ao casamento civil por pessoas do mesmo sexo, não tem razão de ser. Essas lutas foram travadas em nome da igualdade de direitos de todos os homens e de todas as mulheres enquanto tais. Ora, no caso, isto só deixaria de ser assim se, unicamente, pelas suas preferências sexuais os homosexuais fossem considerados um grupo à parte, dentro do conjunto de seres humanos, homens e mulheres. Há a tentativa de nos convencerem que a adulteração do casamento civil é um preço que todos temos de pagar em nome do valor superior da eliminação de discriminações. Claro que a encenação montada tem tudo a ver com o período eleitoral que se avizinha. “o que realmente promovem, no entanto, não é a igualdade de direitos, mas sim a construção de um direito exclusivo para um grupo humano que se auto-discrimina, pretendendo um tratamento diferente dos restantes homens e mulheres que se baseia em características não essenciais.” (Rita Lobo Xavier, Professora da Faculdade de Direito da UCP). Vale a pena trazer para cima da mesa argumentos que são cuidadosamente discriminados na discussão pública. “O efeito útil da não aceitação do casamento homossexual não é negar a protecção do direito às pessoas do mesmo sexo que vivem em economia comum, já prevista, mas antes delimitar o âmbito de aplicação do casamento (Paulo Pulido Adragão,Público 15 Abril).

Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (Dedicatória)*

Meu querido Vicente:
Este é um livro com dois autores: a entrevistadora, Manuela Cruzeiro, e o entrevistado, o teu avô Vasco.
Pela minha participação, sinto que posso dedicá-lo a alguém.
E é a ti, querido Vicente, que dedico a narrativa de parte da história da minha vida.
Para não ficares sozinho, permite que te junte duas pessoas que são também as mais que tudo para mim: a tua mãe Gabriela e a tua avó Adélia que me proporcionou o dia mais feliz da minha vida ao dar-me uma filha.
Ao leres este livro, tomarás conhecimento de parte da luta do teu avô por uma sociedade melhor. Muitos factos e momentos específicos são aqui tratados, mas muitos outros episódios ficaram de fora. Temporalmente tem o limite de Abril de 1976, quando se aprovou a Constituição da República Portuguesa, resultante do 25 de Abril de 1974, e a particularidade de, embora publicado em 2009, ter sido feito entre 1992 e 1995.
Uma coisa te quero garantir Vicente: o teu avô procurou ser honesto, falar verdade e não fugir às questões. Foi essa sempre uma das minhas características e não poderia permitir a publicação deste livro se não me revisse nele. Por isso, apesar de ter amenizado algumas 8 afirmações, não fugi à polémica, com o que terei desgostado alguns.
Dos amigos a quem porventura desgostei, espero que me compreendam e desculpem.
Haverá outras verdades. Não duvido, pois nunca tive a presunção de ter o seu exclusivo. Mas, de uma coisa podes estar certo: não inventei nem exagerei, mesmo que às vezes custe a acreditar que as coisas se tenham passado como as conto. Procurei, aliás, evitar ao máximo comentários e adjectivos.
Um aspecto me preocupa: não vejas nesta minha verdade a presunção de que tudo girou à minha volta. Cada um de nós, o teu avô
e os seus companheiros, desempenhou um papel, mais ou menos importante. Só que, tal como sempre compreendi que os outros, ao escreverem a história em que participaram, o façam à volta dessa sua participação pessoal, também eu não poderia deixar de ao contar a minha experiência, falar principalmente de mim. O que não invalida que haja outras experiências, outras vivências, outras estórias.
Aqui, à tua frente, tens pois a minha verdade das coisas, referentes a um período da minha vida, que confio possa contribuir para não deixar deturpar a História. Quanto ao resto, não sei se irei contá-lo, em entrevista ou em autobiografia.
Até lá, um grande beijinho do teu avô que te adora.
Vasco
* PRÉ-PUBLICAÇÃO

A ARROGÂNCIA DE ALBERTO JOÃO

COISAS DAS ELEIÇÕES

A exemplo do nosso Primeiro de Portugal, o Primeiro da Madeira, também é arrogante. Mas tem uma arrogância legítima de quem tem mais de trinta anos de poder, sempre com votos que lhe dão maioria absoluta. Ao contrário do outro, é inteligente e luta pela qualidade dos seus conterrâneos. Basta ver o que era a Madeira há trinta anos e o que é agora.
Dentro do seu partido, governa com braço de ferro, ao contrário da liderança nacional. Quem manda é ele, e assim é que deve ser. Pena que não esteja no Continente, e a sua política seja dirigida à “sua” ilha. Se cá estivesse, outro galo cantaria no nosso governo. Ainda gostava de o ver a concorrer ao lugar da srª D. Manuela. Seria, sem dúvida, uma lufada de ar fresco no partido e na política Nacional.
Na realidade é ele, a par de outro que hoje concorre à Câmara da capital, a pessoa mais importante do PSD.

A guerra no umbigo

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Eram imagens impossíveis desde que, em 1991, o presidente dos EUA, George H. W. Bush (pai do ex-presidente), proibiu a cobertura jornalística do regresso dos mortos de guerra norte-americanos. O objectivo prioritário era impedir a reacção da opinião pública do país contra a participação em conflitos espalhados pelo mundo. Enfim, impedir que os vulgares cidadãos da nação, habitualmente alheios ao que se passa no resto do planeta e muito atentos ao seu umbigo, passassem a perceber que a guerra já estava no respectivo ‘belly button’.

Apesar de alguns protestos de órgãos de comunicação social, mas não demasiado intensos, uma vez que a maioria fica inchada de tanto patriotismo, só muito mais tarde o povo percebeu o que estava em jogo. Só com as guerras no Afeganistão e Iraque e os seus sucedâneos começaram a entender que uns milhares de soldados americanos morriam no campo de batalho. Não viam os caixões mas não tardou até que eles lhe entrassem pelos olhos. Porque morria um familiar, um amigo, um amigo de um amigo. Aquilo, lá longe, estava a fazer mexer a rodilha que têm no abdómen.

O novo presidente achou que era tempo de acabar com o absurdo de impedir um acto informativo. Agora são os familiares dos mortos que decidem aquilo que o Governo decidia por eles. No dia 5 de Abril, a chegada do cadáver do sargento Phillip Meyers foi o primeiro em muitos anos a ser coberto pela imprensa. Só por isto, já é notícia.

A imagem é do The Big Picture, do Boston Globe. Mais fotografias podem ser vistas aqui.

ESTOU CANSADO DESTA TRAMPA

ESTOU MESMO MUITO CANSADO

Os partidos, todos sem excepção, ainda não ganharam vergonha sobre este caso, e sobre muitos outros também não, e já quase há dez meses que esta trampa se arrasta. Ainda não há novo Provedor, com os dois maiores partidos a atirarem as culpas um ao outro.
É cansativo e cheira muito mal toda esta situação. Agora os senhores do partido do governo dizem que não voltam atrás com o nome já aventado, sabendo que o outro o não vai aceitar. Restam agora os outros partidos com assento na Assembleia, para ver se se arranja a percentagem necessária à resolução do caso por via deste nome.
Eu já falei de mais sobre este assunto, mas tive de voltar a ele. Será a última vez?

Vasco Lourenço – Do interior da Revolução (Apresentação)*

O Aventar tem o orgulho de apresentar a partir de hoje e até ao dia 23 de Abril, em pré-publicação exclusiva a nível nacional, o novo livro de Vasco Lourenço, «Do interior da Revolução». Um livro escrito pela jornalista Maria Manuela Cruzeiro que resulta da entrevista ao Capitão de Abril, que recorda alguns dos episódios mais marcantes, muitos deles nunca publicados, do 25 de Abril. Diariamente, até 23 de Abril, aqui no Aventar.

Vasco Lourenco

* PRÉ-PUBLICAÇÃO

CRIME, HE SAID. THE PRIME-MINISTER IS CORRUPT!

CORRUPÇÃO AO MAIS ALTO NÍVEL.

A TVI mostrou para quem quis ouvir e ver, o filme onde o sr Smith disse que o nosso Primeiro é corrupto. E di-lo com todas as letras, com todos os esses e erres. Não tem que enganar, está lá preto no branco.
Que vai fazer agora o nosso Primeiro?
Que vai dizer agora a namorada do nosso Primeiro?
Que vai o povo fazer agora que se ouviu e viu a acusação maledicente.
Vamos ter processo?
Vamos ter uma crónica, no caso de o assunto poder caber no jornalismo português já que não cabe na lei, a falar do assunto que todos ouvimos?
Vamos votar noutro que não o nosso actual Primeiro?
.
Noutros tempos o comentário que se dirigiria ao sr Pinto de Sousa seria, “o sr Primeiro, deve obviamente demitir-se”
.
Esperemos as cenas dos próximos capítulos.

«The prime-minister is corrupt!»

Pedi há alguns meses: Venha de lá esse DVD!
A TVI, no corajoso jornal de Sexta, acaba de mostrar finalmente as imagens desse célebre DVD. Depois do audio, só faltavam mesmo as imagens.
Com os óculos na ponta do nariz, algo que pessoalmente sempre achei irritante, Charles Smith diz com todas as letras: «The prime-minister is corrupt». Ou seja, o primeiro-ministro é corrupto. Assim mesmo, com todas as letras.
Será que é desta que vai ser processado?
E será que Cândida Almeida esteve de olhos fechados e ouvidos tapados durante a transmissão?

Reciclagem vs. Negócio

Estava eu na casa-de-banho, a ler as minhas revistas e jornais, quando me deparo com a boa notícia de que se vão reciclar embalagens e medicamentos. Óptimo pensei. No entanto, lembrei-me que já há algum tempo atrás, provavelmente um ou dois anos atrás, tinha deixado velhos medicamentos para reciclar, numa farmácia.
Curiosamente, a 5 de Março de 2009, em comunicado de imprensa “a Valormed pede a todos os portugueses para que entreguem as embalagens e medicamentos fora de uso nas farmácias, contribuindo para a melhoria das condições ambientais.” Ok. Por mim tudo bem. Acho que a reciclagem é muito importante. Muito mais importante que reciclar, é nem sequer consumir, mas se se tiver de consumir, então que se consuma, que se reaproveite, que se reutilize e então só depois se recicle. Só que há um problema. Este sistema de reciclagem aparentemente já existe há muito tempo.
Diz aqui que em 2008 a recolha de medicamentos para reciclar subiu para 700 toneladas, e que isto é um aumento de 10% em relação ao ano anterior. É muita tonelada de medicamento! Então o que faziam ao lixo recolhido para reciclagem, se só agora é que é de facto, reciclado? Fácil! Atira-se para fogueira! Já há muitos anos que era usada esta técnica para reciclar plásticos e pneus. Como tinha o inconveniente das colunas de fumo preto, ficava muito mal perto dos centros desenvolvidos das cidades e então deixou de ser usado como método reciclador. Dava mau ambiente, como se costuma dizer.
O que é incrível nesta situação: A Agência Portuguesa do Ambiente sabe do assunto há muito tempo e o que faz? “Ou resolvem rapidamente a situação ou retiramos as licenças!“. Quando eu transgredir, espero também, que sejam assim brandos comigo. O Ministério do Ambiente intervém de alguma forma? Parece que não. Parece que alguém se esqueceu de consultar o Despacho. Algures, lá pelo meio das suas 31 páginas de letrices e numerices, deverá haver alguma indicação sobre como penalizar uma entidade que não cumpre com o acordado. Se calhar não há. O documento também é algo extenso, diga-se, se calhar alguém se esqueceu dessa parte. Há penalizações? Nada. Ficar sem licenças? Nada disso. Pior ainda. Na constatação da impossibilidade técnica da Valormed fazer a reciclagem das embalagens e medicamentos, faz-se o quê? Cancela-se o serviço com a entidade? Não! Dá-se a hipótese, a uma entidade que não cumpriu com o acordado, de contratar outra empresa para fazer o serviço por ela! A empresa escolhida foi a Prolixo, que em 24 de Outubro criou uma nova imagem e uma segmentação do seu negócio em duas áreas farmacêuticas. Mesmo a tempo de celebrar contrato com a Valormed em 18 de Dezembro. É disto que o nosso país precisa. Empresários e dirigentes com visão e capacidade de antecipação de acontecimentos.
Independentemente das entidades envolvidas, e acreditando na sua seriedade perante problemas ambientais, para mim, há algumas questões a reter nesta situação: quando é que estas pessoas, envolvidas nestas confusões todas, se limitam apenas e só, a fazerem aquilo a que se propõem? É preciso tanta lenga-lenga, tanta letra e tanta tanga só para reciclarem uma porcaria dumas embalagens de medicamentos? Até com a boa-fé das pessoas em reciclarem o seu lixo, estes idiotas bacocos dos negócios e dos números, brincam? Para esta gente, tudo é mesmo um negócio?
Eu, particularmente, começo a ficar algo preocupado com o facto do meu esforço – e obrigação – em reciclar o lixo que produzo, cair em saco roto, quem sabe, aí para uma lixeira qualquer escondida, apenas porque isso dá mais lucro a alguém.

Reciclar implica alguns recursos. Não consumir não implica recursos nenhuns.