O retrato de Jennie

Aquele conselho tonto – não voltes aos sítios onde foste feliz –  não é para levar a sério, a gente aprende isso, mas de tanto ouvi-lo por vezes acreditámos nele, e traçamos curvas no caminho e até andamos às arrecuas para evitar o desencanto, como se pudéssemos fugir dele. Por isso andei eu anos a fio a fugir de um filme que me deixou enredada numa espécie de encantamento quando era criança, com medo de agora achá-lo indigno desse encantamento. A desculpa oficial é que o filme nunca me aparecia em DVD, jamais o apanhava nas televisões, e na internet apenas encontrava fragmentos, que tampouco queria ver, porque, justificava-me, só queria vê-lo íntegro, como no passado. Claro que eu podia ter procurado mais se não fosse o medo de macular a sua existência perfeita na minha memória. “Foste feliz ali, não queiras regressar”, uma parvoíce.

Nestes primeiros dias do ano, decidida a corrigir falhas várias, e a gente tem sempre de começar por algum lado nesses ingénuos propósitos de início de ano, lembrei-me dele e encontrei-o, agora sim, de ponta a ponta, na internet, e sentei-me por fim a rever o que já não recordava e a descobrir que alguns farrapos de memória, de origem incerta, provinham daí. O filme tinha deixado a sua semente na minha imaginação e essa semente germinara de uma forma surpreendente. Descobri que uma ideia que há muito me atormenta e sobre a qual queria escrever é, de forma metafórica, a premissa do filme. Talvez eu não tivesse idade para compreender o filme, na época em que o vi, e por isso o tenha visto com os olhos do coração, e isso explique porque, não o recordando bem, ele me acompanhou por tanto tempo. [Read more…]

Sobre a prisão preventiva

Sócrates queixa-se de não ter sido julgado. Porque pedir provas e concretização da acusação,  permitindo-lhe a defesa, como ele invoca para justificar a ilicitude da sua prisão preventiva,  é o processo de julgamento.

Se se seguisse a linha de pensamento de Sócrates, então não existiria o conceito de prisão preventiva, já que só se poderia prender estando reunidos os elementos da acusação. Nesse caso, podendo-se iniciar o julgamento, não faria sentido o iato da prisão preventiva. Por outro lado, ao se prender preventivamente e apresentado acusação parcial, como gostaria Sócrates que tivesse acontecido, nada impediria o acusado de apresentar defesa, dando início ao julgamento antes de a investigação estar concluída, o que é insustentável.

Não existe notícia, portanto.

Em todo o caso, se esta é a convicção de Sócrates, então teve 7 anos para mudar a lei, sujeitando-se ao escrutínio do meio jurídico, tal como até o fez no regulamento que aprovou quanto às visitas e encomendas que pode um preso receber.

O que devemos de facto perguntar é porque é que Portas não foi preso preventivamente, quando até é sabido do raide que fez ao processo dos submarinos, durante a famosa sessão de fotocópias.

Sócrates por escrito à TVI

Uma simples pergunta para Cavaco

Na sua última ida à televisão, ontem, Cavaco, o avisador, avisou para que os políticos não prometessem o que não poderiam cumprir, para evitar a erosão da democracia face às promessas não cumpridas pelos políticos. E que os partidos devem ser exemplo, bla, bla, bla, responsabilidade e tal.

Não é novidade para ninguém, e não o será para Cavaco, salvo se estiver ché-ché, que este governo prometeu resolver os problemas do país sem aumento de impostos. Neste momento, não interessa se a promessa era realista, importa que não foi cumprida, tendo por isso contribuído para o descrédito das instituições que Cavaco jurou defender.

Quanto ao exemplo dos partidos e do governo, não é preciso dizer mais do que Jacinto Capelo Rego, Tecnoforma, Citius, arranque do ano lectivo e leis orçamentais inconstitucionais.

Portanto, porque é que Cavaco ainda não demitiu este governo? Ou se aplica de facto a hipótese supra ou as suas palavras são palha para encher fronhas.

Coimbra não é uma lição

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Imagem roubada ao João Roque Dias

Quem tiver a oportunidade de consultar, por exemplo, documentação medieval, deparará com grandes oscilações ortográficas, visíveis no facto de as mesmas palavras surgirem grafadas de maneira diversa muitas vezes no mesmo documento escrito pela mão de um único escriba. Entretanto, passaram alguns séculos e houve milhares de pessoas a pensar sobre as questões linguísticas, pedagógicas ou didácticas, o que inclui reflexões sobre a escrita e conclusões sobre as relações complexas entre a fala e a escrita e entre ambas e a aprendizagem da língua, do conhecimento e do mundo. [Read more…]

Portugal 2014 | Uma maioria, um governo, um presidente

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Ano novo, Cavaco velho

Cavaco Silva falou, mais uma vez – nada nos é poupado! – ao País. Exigiu-nos a todos responsabilidade e transparência. E alertou para que não se fizessem falsas promessas neste ano eleitoral. Cavaco sabe, por experiência, de tudo isto. Basta ver a responsabilidade com que encara o seu cargo e a vigilância do bom funcionamento das instituições democráticas e a transparência com que geria os seus investimentos no BPN ou a operação Casal da Coelha. Quanto às promessas vãs, nunca Aníbal as fez, como todos sabemos ( de resto, como se sabe, Cavaco não tem nada a ver com a nossa infelicidade e o seu coração imaculado não nos quer senão bem). Mas disse mais. Falou da urgência do amor com casamento – ou do casamento haja amor ou não, tanto faz. Entre os “seus” partidos e, se possível, com uma poligâmica piscadela de olho a outros candidatos. Exigiu confiança nos políticos governantes – sentimento que, ao vê-lo, imediatamente se acende nos nossos corações – e, de caminho, foi deixando a sua mensagem essencial: as eleições não interessam. O que interessa é que quem for eleito faça o que lhe mandarem e cumpra os ditames vindos de longe, pelo que Aníbal não resistiu a uma uma subliminar nota de ameaça e terrorismo político – brando, claro, como os lusos costumes. Cavaco falou. Este ano ainda agora começou e só tenho más notícias.

Escola: conteúdos e memória

A Educação mudou muito nos últimos anos e não foi para melhor – poderia citar os 30 mil professores que NUNO CRATO despediu nos últimos três anos, mas desta vez vou falar de Educação pelo lado dos alunos e das suas aprendizagens.

O que é um bom aluno?

A resposta mais comum andará em torno destas respostas: um aluno que tira boas notas, um aluno que aprende bem, um aluno que tem sucesso, que

Ora, tenho vindo a pensar nisto porque enquanto profissional me sinto cada vez mais condicionado a dirigir a minha prática pedagógica para um caminho que está errado – os exames (ou os testes).

Na Escola de hoje tudo parece ser mensurável e para medir nada mais fácil do que quantificar tudo o que mexe como se a escola fosse uma linha de montagem. Não é e não pode ser.

Com a febre do accountability às Escolas são pedidos resultados que se medem pelas notas que os alunos têm nos testes, isto é, nos exames. Ora, qualquer pessoa que tenha passado pela Escola sabe que há uma diferença MUITO significativa entre ser um bom aluno e ter boas notas nos testes (exames).  E trago apenas dois argumentos para abrir uma discussão a que quero voltar mais vezes: [Read more…]

Inferência

Passos quer proteger “o que já conseguimos juntos”. Em relação ao próximo ano de eleições legislativas, o primeiro-ministro fala numa “recuperação assinalável do poder de compra de muitos portugueses”: funcionários públicos, pensionistas, “mas também de todos os portugueses em geral com o alívio fiscal que a reforma do IRS irá trazer”, diz a comunicação social. Compaginadas estas declarações com as minhas notas sobre o tema “os sociopatas e a política”, inferi esta profunda conclusão: eu bem me parecia!

Previsão

“Este será o primeiro Natal desde há muitos anos em que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu horizonte”, disse Passos Coelho na sua mensagem natalícia. De modo que, no dia seguinte, mal me levantei, abri a janela e lá estava: o sol brilhava no céu. Era o que eu pensava. As palavras do Passos não eram uma metáfora: eram um plágio do boletim meteorológico.

Fanatismo (em Canelas) é um erro

Constituição da República, artigo 41º

Ninguém pode ser perseguido, privado de direitos ou isento de obrigações ou deveres cívicos por causa das suas convicções ou prática religiosa.

Já quase tudo foi dito e escrito sobre o Padre de Canelas. Não me parece que possa, apesar de conhecer a história muito de perto, acrescentar algo ao que já se escreveu. Não posso, no entanto, deixar passar em branco um dos últimos acontecimentos desta novela.

Canelas é uma freguesia localizada no centro do concelho de Vila Nova de Gaia, encostada ao L formado pela A29 com a A1. Com menos de catorze mil habitantes e qualquer coisa como cinco mil famílias, que tradicionalmente votam maioritariamente no Partido Socialista, é uma localidade que está algures entre a vertigem do urbano e a melancolia do passado marcadamente rural. Não encontro qualquer marca que a torne diferente de muitas outras terras deste país, isto é, não consigo identificar nenhuma marca social que explique, por antecipação, todos estes acontecimentos.

Não tenho opinião sobre os motivos dos que querem a manutenção do Padre, ou antes, tendo, ela é completamente irrelevante porque não faço parte do grupo que frequenta a igreja.

Na penúltima noite do ano reuniu a Assembleia de Freguesia de Canelas para a sua última sessão de 2014. A organização que tem dado corpo à luta pela manutenção do Padre esteve presente em peso na reunião, tendo, inclusive, vários dos seus membros intervindo no período destinado ao público. Tudo na mais perfeitas das normalidades, não fossem as palmas, que julgo não são parte habitual nestas Assembleias. [Read more…]

Vá, Imaginem…


Todas as pessoas a viver em paz.
Bom Ano. Sobrevivam…