Partiu Sue Townsend

A morte de uma escritora com a qual se mantém, ao longo dos anos, uma empatia e uma cumplicidade que ultrapassa a dimensão literária, entristece-nos como se nos desaparecesse um amigo. E a repetida constatação de que a obra continua ou, quem sabe, cresce com o tempo, é fraca consolação.
Sue Townsend era, para além dos seus inegáveis méritos literários, uma mulher e uma artista corajosa. A saga de Adrian Mole que a tornou famosa, não é só uma incursão pelo desenvolvimento, da infância à idade adulta, do seu neurótico e impagável anti-herói. É ainda um retrato humorístico, sim, mas também cáustico e implacável do thatcherismo e, no final da saga, de um blairismo que vem a decepcionar profundamente a socialista – mesmo! – que Sue era. Nada escapa – e não deixou de ter sérios incómodos por isso – à sua pena afiada, como se prova no hilariante A Rainha e Eu, onde a autora nos conta as desventuras da família real britânica, reduzida a utente de um bairro social após a vitória de um imaginado “partido republicano”.
Leiam, pois, um livro dos seus em sua memória e, se não a conhecem, verão que não resistem a ler os seguintes.
O Prémio*
Alexandra Lucas Coelho foi premiada num do mais importantes prémios atribuídos em Portugal. Dou-lhe os meus sinceros parabéns. E ainda bem que no seu discurso disse o que lhe apeteceu.
Mas o texto aqui escrito por Sarah Adamopoulos (que não conheço) leva-me a dizer o seguinte: quem fingiu, e bem, que havia cultura no governo foi Gabriela Canavilhas e o seu SEC de então; e nessa matéria foram muito bem secundados por Francisco José Viegas, e apenas com uma diferença, é que com Sócrates havia Ministério da Cultura e Secretaria de Estado da Cultura, e com Passos Coelho não há MC mas também não há SEC. A reestruturação dos serviços da área da Cultura feita por FJV é a mesma que estava preparada anteriormente, e que apenas pode ser adjectivada de vergonhosa, aliás como a sua prestação como SEC.
Com isto não estou a defender que com Jorge Barreto Xavier é que a coisa está boa, nem que a sua intervenção quando do prémio tenha sido correcta. Outro aspecto tem a ver com o prémio monetário. Se, como se diz, o prémio tem uma parte de dinheiro público, então direi que como contribuinte não quero que os meus impostos sejam aplicados em prémios literários. Claro que essa decisão não é minha, é de um governo, este ou outro, que seja legitimamente eleito. E por isso este país não é de Cavaco Silva, como diz Alexandra Lucas Coelho, mas também não é de Siza Vieira, ou de qualquer outra estrela da nossa área dita cultural.
Quanto ao papel que deve ter um Secretário de Estado da Cultura de qualquer governo, pergunto, e então o património cultural? E a língua, que é também património? E o Acordo Ortográfico? Como ficamos?
Como dizia um primo meu, esta malta acha que a cultura é uma casa à parte do país.
*Título de um livro de Manuel Vásquez de Montalbán, cuja leitura recomendo
“O meu país não é deste Presidente nem deste Governo”
O excelente discurso de Alexandra Lucas Coelho na cerimónia de entrega do prémio APE.
Crassh
Crassh é uma combinação única de percussão, movimento e comédia visual. Nasceu no ano lectivo 2004/05 simultaneamente na Escola de Artes da Bairrada – Oliveira do Bairro e no Conservatório de Música da Branca- Alb; em Abril de 2007 corta o seu cordão umbilical e passa a ser um projecto independente residente na Escola de Artes da Bairrada. Crassh é o resultado do trabalho de 13 Jovens percussionistas (dos 11 aos 19 anos) sob a criação e orientação de Bruno Estima. (daqui)
Vi e ouvi estes moços, e tenho-vos a dizer que são do melhorio: um espectáculo divertido, com um ritmo musical fantástico, uma boa coreografia e uma excelente representação mímica. Dúvidas? vejam mais estes vídeos: [Read more…]
Jorge Fallorca (1949-2014)

O tempo passou. O caso arrastou-se para o esquecimento, até um dia. Encontraram-no pendurado pelos pés, descalços, no galho de uma árvore velha. A boca estava amordaçada, com crostas de sangue, anónimo. Tinham-lhe dado um tiro. A agonia estava escrita no chão.
Ninguém quis descer o corpo. Os vizinhos calaram-se. O silêncio era consensual. Alguém de fora tinha feito aquilo. Confiavam no tempo para apodrecer a razão. [Read more…]
Joaquim Namorado
Faz cem anos, por estes tempos, o nosso poeta, amigo, mestre e camarada Joaquim Namorado. Pudesse eu escolher outro poema para o recordar; pudesse este poema ser datado e esquecido num tempo jubiloso. Mas não.
Ele ganha um novo sentido, mas volta a provocar o arrepio dos tempos em que era declamado nos encontros de lutadores contra a ditadura.
Port Wine
O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.
Rui Feijó
Rui Feijó (1921-2008) foi o primeiro Delegado da Secretaria de Estado da Cultura do Norte.
Fazia ontem anos se fosse vivo. Foi homenageado na Casa das Artes, à Rua Ruben A, no Porto. Edifício este pelo qual lutou, entre outras coisas muito importantes e estruturantes, na área da Cultura e do Património. Deixou trabalho feito e é um exemplo do que deve ser um Director-Geral.
Na área cívica e política teve também intervenção, tendo no período anterior ao 25 de Abril ajudado muita gente (Manuel Alegre esteve refugiado na sua casa em Lousada, por exemplo).
O seu legado está por estudar, mas a homenagem foi merecida. A ele voltaremos.
Apontamento (Festival Literário da Madeira)
Antena 2 em directo da ilha da Madeira, um festival literário que lá decorre: escritores em volta de uma mesa a falar da literatura da insularidade, Herberto Helder sempre por perto, o jornalista Luís Caetano (exímio nas coisas da literatura) a suscitar um debate em directo para a rádio pública, e de repente alguém, decerto um escritor madeirense, insurge-se e lembra que a diáspora é hoje uma hemorragia, ou então metástases, sim, metástases da austeridade assassina, e diz que há ilhéus que cortam os pulsos, e que aquele festival literário é uma ilusão na biografia da fome e do sofrimento da Madeira. E logo o calam, claro, como se na literatura não pudesse hoje caber a realidade social que os escritores bem vêem (e vivem, e escrevem), ou os seus realismos passados fossem inultrapassáveis, e fosse hoje tempo apenas e somente de uma fantasia qualquer que sirva para entreter. Palmas para o escritor «sem frio nos olhos», como diriam os franceses.
Hitler descobre que manuais escolares dizem que comunismo e nazismo são a mesma coisa
Chegou aos manuais, nem por isso às novas metas educativas do 9º ano, nem é por isso que se justifica este vídeo:
mas porque realmente virou moda, a partir de uma taxonomia das ditaduras que mede mais o horror e menos a natureza social, e económica, misturar uma ideologia que nasceu para combater a outra fazê-la igual à que a derrotou, coisa tão tola como esquecer que a Rússia em geral tem uma certa experiência nas vitórias contra a Alemanha, e esqueceram-se agora mesmo muito em Berlim.
Texto (não concordando com tudo, é um bom todo) do Bruno Carvalho.
Tiago Bettencourt: Aquilo que eu não fiz
Esta canção é muito simples. Não tem grandes metáforas, nem segundos sentidos. Escrevi-a para mim, porque um dia acordei e percebi que já há uns tempos que me sentia a sofrer as consequências de uma jogatana qualquer com a qual eu não tive nada a ver. Lembrei-me de quando estava na primária, quando um coleguinha qualquer lá na turma fazia uma tolice às escondidas e a professora dizia: se ninguém se acusa ficam todos de castigo! O coleguinha nunca se acusava… e ficávamos todos de castigo.
Esta canção não fala só de um coleguinha. Fala de muitos coleguinhas que ao longo de muitos anos fizeram muitas tolices. Coleguinhas por Portugal inteiro, em todas as áreas da sociedade, não só na política mas quase sempre debaixo da sua alçada. Esta música fala de desonestidade, de falta de respeito e amor pelo nosso país, o que quer dizer, pelo próximo. Mais nada.
Tordos
Esta semana aprendi que o Tordo do pimba de esquerda (ou social-cançonetismo, para haver precisão histórica) é pai de outro Tordo, de quem me sobra a recordação de um imenso tédio ao fim de meia-dúzia de páginas na tentativa de entender o mistério de alguns sucessos literários em Portugal; a desgraça numa família nunca vem só. Parece que o pai foi cantar para o Brasil.
Alguma esquerda choninhas lamenta e segue o drama familiar através de epistolas pregadas em jornais. Não li.
Sou da esquerda internacionalista, e nas presentes circunstâncias deixo aqui a minha solidariedade com o heróico povo brasileiro, desde 1974 a sofrer por nós, ao menos o Marcelo Caetano não cantava, estão feitos ao bife.
A melhor – não ponham dúvidas – livraria da cidade

Aquilo a que chamo o meu bairro, um raio de imprecisas centenas de metros ao redor da minha casa e que se vai alargando todos os dias, tem a sorte de ter a melhor livraria do Porto. Não tem letreiros luminosos, nem é bela como a outra, onde as camionetas despejam turistas aos magotes para fotografarem o cenário do feiticeiro Potter, mas em que os livros mais parecem adereços para emprestar credibilidade a esse cenário. E é tão discreta que podem passar-lhe a porta e nem repararem nela. É um espaço sem pretensões estéticas, sem top de vendas, de aspecto austero, com paredes a precisar de uma demão de tinta, escaparates de madeira tosca e estantes muito antigas. E acolhedor, apesar disso, sem sofás nem ar condicionado, com a rádio, lá ao fundo, sintonizada na Antena 2, e um livreiro que vos deixa em paz se assim o preferirem ou conversa convosco com gosto, se a isso estiverem dispostos.
Se o leitor se sente aqui tão bem, avento eu, será porque nela se respira a inestimável liberdade de uma livraria que se borrifa nas listas de mais vendidos, nos autores da moda, nas estratégias empresariais. E por isso o que vemos à venda reflecte uma escolha, não de grupos editoriais ou de gurus do marketing, mas de um livreiro que tem um projecto que, mais do que comercial, é um projecto de vida. Chama-se Utopia. [Read more…]
Nessie e o caquesseitão

Se acordarem a meio da noite com um pesadelo terrível, o coração aos pulos, o pijama encharcado em suor, o lençol enrolado entre pernas e braços, depois de terem sido perseguidos por um animal horrendo, aposto convosco que esse animal não era leão nem cobra nem jacaré. Era, sim, com toda a certeza, um caquesseitão.
É pouco provável, porém, que eu tenha pesadelos com essas criaturas, para minha grande fortuna, porque, aqui me confesso, tenho uma paixão por monstros mitológicos, criaturas nascidas dos confins dos medos e vencidas pela força da narrativa.
Aqui entre nós, eu poderia ter sido criptozoóloga, profissão que já me teria deixado morrer à fome por esta altura, mas que talvez me desse algumas alegrias, como deve ter dado a quem conseguiu provar que o dragão-de-komodo não era invenção de meia dúzia de cabeças delirantes, como por muito tempo se pensou, mas criatura de carne e osso, cuja existência bonacheirona, livre de predadores, em certas ilhas indonésias, possibilitou um crescimento tão formidável. Por outro lado, descobrir a existência real de uma criatura que se pensava mitológica também pode ser frustrante e limitador. Se a biologia é fascinante, os mitos… ah, nem vos conto. [Read more…]
Património e patrimóino
Tanta água passou debaixo das pontes e a direita portuguesa, através dos seus opinantes, na hora da verdade,mostra o ar castiço e reaccionário que lhe é atávico, afastando-se de qualquer réstia de cosmopolitismo com que alguns dos seus raros letrados insistem abençoá-la. A discussão a propósito da venda dos quadros de Miró patenteou até à obscenidade esta alma pequenina.
Pulido Valente escreve, no Público, um texto confusamente bronco em que, após exorcizar a ignorância do povo a que, com náusea, pertence – tentando mostrar que mais de 99% da população,designadamente os jovens licenciados, em relação aos quais parece nutrir um ódio especial, não faz ideia de quem é Miró e, a bem dizer, não sabem nada de nada -, alinha umas confusas linhas com considerações sobre se o pintor catalão tem alguma importância na história da arte em Portugal. [Read more…]
Et tu, Gabriela?*
Ainda a propósito dos Mirós, noticia o jornal Expresso de hoje que a venda dos ditos já vinha do tempo do anterior governo (do PS, de Sócrates e de Gabriela Canavilhas).
Era o que já se sabia, pois se houve Ministro da Cultura a fazer fretes foi Gabriela Canavilhas, que faz agora tudo para aparecer como a grande defensora da cultura e do património (dos touros e das touradas já sabemos que é fã). Que tristeza!
Quanto aos Mirós, recomendo a leitura de Vasco Pulido Valente no jornal Público de ontem. Artigo lúcido, de um homem que foi um dos melhores Secretários de Estado da Cultura dos governos após o 25 de Abril.
*Reza a história (sem confirmação científica) que quando o Imperador Júlio César foi apunhalado no Senado, no ano 44 aC , e ao ver que o seu pupilo Marcus Junius Brutus também fazia parte da tramóia, terá dito a frase “Et tu, Brutus?”, que numa tradução livre quer dizer “Também tu, Brutus?”.
Concerto “Al Mutamid, Rei Poeta do Al Andalus”
Nos próximos dias 15 de Fevereiro no Teatro São Luiz em Lisboa e 16 de Fevereiro no Teatro Pax Julia em Beja, estreia o concerto “Al Mutamid, Rei Poeta do Al Andalus”, baseado na vida e obra poética de Al Mutamid Ibn Abbad, no seu percurso dramático entre Beja, onde nasceu, Silves, onde se afirmou como o grande expoente da poesia da sua época, Sevilha, onde foi Rei da Taifa Abádida do Al Andalus, e Aghmat, nos arredores de Marraquexe, onde morreu no cativeiro. Um concerto com a direcção artística do arquitecto, realizador e produtor Carlos Gomes, com a direcção musical de Filipe Raposo, compositor e pianista, e que reúne outros músicos de Portugal, Espanha e Marrocos, como Janita Salomé, Eduardo Paniagua, Cezar Carazo, El Arabí Serghini, Jamal Ben Allal e Quiné Teles.
O projecto conta com o apoio da Direcção Geral das Artes e, para além do concerto, existe a intenção de gravar um CD e realizar um filme documentário durante o ano de 2014.
Link da página facebook https://www.facebook.com/almutamidreipoetadoalandalus
Link da iniciativa de crowdfunding do projecto http://ppl.com.pt/pt/prj/almutamidreipoetadoalandalus [Read more…]
Foi há vinte anos (pessoal e provavelmente intransmissível)
Dedicado ao Eng.º Pedro Campos
Ao contrário daquilo que por aqui escrevem, os Nirvana não *atuaram. Os Nirvana actuaram: com ‘c’ (ou com <ac>: depende da perspectiva, mas hoje não vamos falar sobre isso).
Sim, fui um felizardo: estive lá, com o meu amigo Pedro — ainda bem que assim foi, se não, teria sido tão-somente mais um daqueles dias em que o meu clube espeta dois secos ao clube dele.
Daqui a uns tempos, pode ser que me dê para escrever uma crónica sobre esse extraordinário dia. Hoje, não. Lamento imenso, mas ainda não recuperei o fôlego e, por incrível que possa parecer, ainda não acredito. Daqui a vinte anos? Talvez.
Já toda a gente sabe
Sim, a história já chegou ao Financial Times e ao Wall Street Journal. Até no MIT já devem saber.
















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